Blam!

2 O Jantar


Não sei como a maioria das pessoas reage diante de uma pessoa bonita, mas é assim que ajo. Eu fico quieto e, provavelmente, boquiaberto. Meus olhos não ficam arregalados por muito tempo, mas ficam imóveis como os de um boneco. Até eu me dar conta do que estava fazendo, levou bastante tempo.

E foi nesse tempo que consegui observar Sam com bastante atenção, sem interrupções.

A primeira coisa em que reparei foi em seus olhos claros, mas não parei neles por muito tempo, porque a boca dele, de lábios enormes, exagerados, chamava muita atenção. Era carnuda e tinha tudo para ser desproporcional em seu rosto, mas a sorte era que nada nele era pequeno. Seus maxilares eram salientes, seu nariz era, de certa forma, notável e seus cabelos, loiros, não eram curtos e terminavam de maneira desgrenhada um pouco abaixo da orelha. E então baixei o olhar para o corpo, mas a vistoria que fiz não demorou mais do que dois segundos. Eu não queria dar motivos para que ele suspeitasse de mim.

Mas ele era atlético. Vestido com uma camiseta simples, branca, de mangas azuis, consegui notar seus trapézios proeminentes, seus bíceps avantajados e seus tríceps contraídos. Até o abdômen podia ser divisado por trás do pano branco, e mesmo aquela silhueta era sedutora. Parado à porta do que agora eu tinha certeza de que era o seu quarto, Sam me olhava com um misto de desconfiança e incredulidade. Era quase como se pensasse no que fazer comigo, agora que havia me encontrado invadido sua privacidade.

– Sim, sou eu – eu finalmente respondi, engolindo em seco.

– Chegou tarde – ele disse, passou por mim e se sentou em sua cama. Descalçara os tênis e agora tirava as meias. – Fizeram uma boa viagem?

– Sim, fizemos, foi tranquila.

Sam parecia estar querendo ser simpático comigo, mas seu rosto ainda continuava sério como o de alguém que precisava de explicações.

– Sinto muito se me encontrou aqui – eu acabei dizendo, de maneira impulsiva. – Não era minha intenção xeretar o seu quarto, mas é que o quarto de hóspedes é tão parecido com esse que tive que procurar sinais de que algum deles já pertencia a alguém...

– Você poderia ter aberto a porta do armário – ele disse e, sentado, agora descalço, apoiou as mãos na cama. – Tenho algumas peças de roupa por lá.

Assenti com a cabeça, me sentindo burro. É claro que eu poderia ter feito isso, mas por que não fiz?

– Achei que isso fosse invadir demais a privacidade de alguém... – comecei, mentindo.

– Você abriu a porta do meu quarto e entrou nele. Já tinha invadido a minha privacidade. Não existe essa de invadir mais ou menos a privacidade de alguém. Diante do que você fez, abrir a porta do armário não melhoraria ou pioraria as coisas.

Minhas narinas ardiam. Se antes eu estava pouco à vontade em estar naquela casa, agora eu sentia como se só pisar no chão fosse como andar em um piso de pregos.

– Ou você poderia ter perguntado à minha mãe – ele disse e deu de ombros. – Tenho certeza de que ela iria tirar essa sua dúvida.

Eu estava tão nervoso que não conseguia pensar em fazer outra coisa, além de me defender. Parecia o mais correto.

– Ela parecia tão ocupada preparando o jantar...

– Hoje é sexta-feira, ela não está preparando nada muito elaborado. Deve estar colocando tudo no micro-ondas e verificando o Facebook no celular ao mesmo tempo. Você teria que chamá-la umas três vezes até que ela notasse sua presença? Teria. Mas aí não teria invadido a minha privacidade.

Assenti mais uma vez com a cabeça. Eu não sabia mais o que fazer.

– Sinto muito – acabei dizendo, dando Sam como vencedor daquela discussão. – Acho que tenho muito o que aprender ainda, agora que vou passar um tempo no Maine.

– Você não tem nada do que se desculpar – ele disse, franzindo o cenho como se tivesse ouvido a maior besteira que um ser humano podia dizer.

– Não?

– Não. Eu não estava interessado em saber o que você fazia aqui, mas você começou a falar a respeito, então eu continuei o assunto. Achei que você estivesse preocupado com o fato de ter invadido a minha privacidade, então eu te dei alternativas para não fazer mais isso, e não porque ver você aqui me deixou irritado, mas porque você pareceu não saber o que dizer.

– E me ver aqui não te irritou?

Sam revirou os olhos de um lado a outro.

– Não era o que eu esperava e confesso que imaginar que você poderia ter encontrado coisas aqui que não deveria encontrar me deixa com o coração na mão, mas me parece que isso não aconteceu. Então estou bem. Se não quiser mais invadir a minha privacidade outra vez, é só seguir os conselhos que eu dei.

Eu ainda não sabia muito bem o que dizer.

– Está bem? – ele quis saber.

– Tudo bem.

– Ótimo. O seu quarto é do outro lado, ali, naquela porta que também está aberta. Se precisar de algo, eu estou aqui, bem perto. – Levantou-se e caminhou na minha direção. A chave de pescoço que ele me deu, o que talvez ele imaginasse que fosse um abraço, me foi totalmente inesperada. – Acho que vamos nos dar bem, amigo. Você tem cara de ser alguém bacana.

Mas e quanto a você?, eu pensava enquanto ele mantinha meu queixo erguido com seu antebraço. Eu o segurava com ambas as mãos, como única garantia de que ele não me asfixiasse. Será que você é alguém bacana também?

Era uma pergunta para a qual eu ainda não tinha resposta, e teria que aguardar um pouco para chegar a alguma conclusão... Só esperava que não tivesse que aguardar tanto.

– A propósito – ele disse e soltou o meu pescoço –, caso tenha interesse em saber, meu nome é Sam.

Concordei com a cabeça. Era a única coisa que podia fazer no momento.

Apanhei minhas malas à porta do outro quarto e organizei minhas coisas no armário. Eu não tinha tantas roupas – na verdade, eu deixara boa parte delas para trás, por falta de espaço nas malas –, e aquele armário vazio me pareceu um pouco entristecedor. Se eu arranjasse um emprego de meio período, talvez conseguisse enchê-lo com coisas novas – isso se houvesse oportunidades de emprego no Maine e se houvesse lojas de roupas decentes por ali.

– O jantar está pronto, meninos! – a voz de Angelina nos chamou no andar de baixo.

Tão afoito que eu estava, quando saí do quarto, quase colidi com Sam, que saiu do próprio quarto no mesmo instante. A sorte era que ele era melhor em tempo de resposta do que eu, então parou sua caminhada antes que eu e minha falta de atenção causássemos um acidente.

– Por favor – ele disse e indicou o caminho das escadas.

– Vá na frente. Não sei se ainda lembro o caminho da cozinha – eu disse com tom de sarcasmo, mas Sam riu como se eu tivesse, de fato, contado uma piada, o que estava longe de ser a minha intenção. Seus lábios enormes abriram espaço para dentes grandes, brancos e limpos e seus olhos se esmagaram no rosto, tornando-se apenas rugas escondidas por trás das maçãs do rosto. Era um sorriso bonito, apesar de incomum. Tive que olhar para baixo para evitar minha típica expressão de tolo.

Descemos as escadas comigo no encalço de Sam. De chinelos, ele caminhava despreocupado, com a segurança de alguém que é dono do lugar pelo qual se locomove. Eu, por outro lado, em meus tênis macios, fazia o possível para não emitir o menor barulho que fosse.

Na cozinha, havia uma mesa pequena, para quatro cadeiras. Imaginei que Angelina comprara uma mesa daquelas porque não fazia questão de ter convidados, mas, então, percebi que a casa tinha acesso para uma sala de jantar também, com uma mesa maior.

– Como prometido, macarrão com queijo e frango assado! – ela disse, animada, as mãos unidas na altura do peito como uma princesa da Disney. – Sirvam-se, meninos!

– Por favor, você primeiro – pedi a Sam.

– Por quê? Não vai me dizer que também não sabe como se usa uma colher para pegar macarrão e quer me ver fazer para ter certeza? Vá na frente.

Eu fui. Não tinha como retrucar aquilo, e o que eu tinha para falar não era um argumento forte. Eu só não queria que pensassem que eu me sentia mais importante do que eles e que, por isso, deveria me servir primeiro. Mas acabei me servindo, com timidez, colocando bem pouco e cortando um pedaço de formato indefinido do frango assado. Aquilo não estava nem perto da quantidade de comida que eu comia diariamente, mas, como a primeira impressão é a que fica, eu precisava parecer alguém comportado.

Angelina se sentou ao meu lado, de modo que Sam ficou de frente para mim. Em uma mesa de jantar convencional, eu não me sentiria tão intimidado pelo olhar do garoto, mas, naquela mesa, Sam estava a pouquíssimos centímetros de mim, uma distância que podia ser medida com uma régua normal. Eu conseguia sentir seu cheiro em meio ao do frango assado, o mesmo que senti quando recebi a chave de pescoço, aquele cheiro característico que parece ficar preso à gola de alguém, um cheiro humano. Sam tinha o costume de comer com um braço apoiado sobre a mesa, usando apenas um garfo com a mão livre, e se debruçava sobre o prato como se deixasse claro que estava pronto para caçar a comida, se ela pensasse em fugir. Isso o deixava ainda mais perto de mim.

– Gostou do Maine, Blaine? – Angelina perguntou, quebrando a sinfonia de garfos raspando em pratos e dos grilos que cricrilavam nos jardins do lado de fora.

– É bem diferente de Nova Iorque. Lá, eu ouvia buzinas como plano de fundo, e aqui ouço grilos.

– É mais calmo, você quer dizer?

– Sim. É tranquilo, e eu acho que gosto disso.

– Gosto daqui também – ela disse, largando os talheres sobre a mesa e retomando o gesto de princesa da Disney. Parecia prestes a começar um devaneio. – Nova Iorque era incrível com todas aquelas luzes e barulho e movimento, mas o Maine tem essa coisa de não querer invadir a casa de ninguém, então nos permite viver com a tranquilidade de um camponês e...

Sam cutucou, com a ponta de seu indicador, a mão com que eu segurava a faca e eu voltei minha atenção para ele. Com o mesmo indicador, ele descreveu círculos em torno de sua têmpora, de forma bem discreta, evitando que a mãe não os visse.

– É como morar em um bosque – Angelina finalizou, e, naquela altura da conversa, eu já tinha perdido todo o restante. – Entende, Blaine? Você entende isso?

– Claro – resumi-me.

– Gosto de você. O Sam é um chato para entender essas coisas.

– E o Blaine também deve ser – Sam retrucou –, porque não deve ter prestado atenção em nenhuma palavra do que você disse – ele concluiu e então olhou para mim, com cara de tédio.

– É claro que não! – Angelina também se voltou para mim. – Isso é verdade, querido?

– É claro que eu ouvi o que a senhora disse e... – Eu não tinha ouvido nada e não sabia nem o que comentar. Tive que improvisar. – Mas esse frango assado está muito bom! E esse macarrão com queijo...

– Eu sabia que você iria gostar! – ela disse e aplaudiu. – Mas que maravilha! O tempero é totalmente caseiro, eu mesma o preparei com uns condimentos que comprei no mercado, e o queijo foi selecionado a dedo por mim, porque não podia ser qualquer um!...

Eu sentia que Sam estava olhando para mim, e ele estava. Quando encontrei seu olhar, ainda que ele segurasse um garfo com uma das mãos, ele simulou aplausos, discretamente, apenas batendo dois dedos na palma da outra mão. Com a boca, simulou o que eu achei ser um “WOO-HOO!” e fechou um punho em sinal de vitória. Ele estava me caçoando. Mas eu, estranhamente, não me importava.

Porque eu estava tendo a atenção dele, e isso, no momento, valia muito para mim.