Blam!

3 A Toalha


Muita gente se sente incompleto, como que sem um braço, quando não está com o celular por perto. Eu nunca senti isso porque não conheço tantas pessoas com quem teria urgência de falar e também porque (ainda) não sinto essa necessidade de ficar verificando o Facebook a todo instante; não gosto desse tipo de atenção. Mas isso não quer dizer que não há nada no mundo do qual eu não sinta falta. Há, sim, e eu só fui perceber isso quando, mais tarde naquela noite, fui esvaziar minhas malas.

– Pode usar o banheiro do corredor para tomar o seu banho, querido – disse Angelina antes de fechar a porta de seu quarto para o mundo. – Boa noite!

– Boa noite – eu sussurrei de volta, certo de que, nem se eu gritasse, ela me ouviria. O problema de Angelina não era de audição, mas de atenção. Mas esse também não era um motivo para eu ser mal educado.

Girei nos calcanhares e segui para o meu mais novo quarto. Eu olhava para aquelas paredes brancas, para aquela cama tão bem arrumada, com mais travesseiros do que eu estava acostumado, para aquela janela fechada, coberta por cortinas, para aquele carpete de pelos beges, curtos, para a porta do meu novo armário, e, mesmo sabendo que tudo aquilo fora me concedido de bom grado para que eu usasse, eu ainda não conseguia me sentir à vontade. Nada daquilo era meu de verdade. Aquele seria, para mim, o que um quarto de hotel era durante uma viagem, com a diferença de que, daquela vez, eu esvaziaria as minhas malas.

Certo de que eu precisava de um banho, vasculhei o que ainda não tinha sido tirado das bolsas atrás da minha toalha, do meu xampu especial para cabelos cacheados, do meu desodorante antitranspirante, da minha roupa de dormir e da minha roupa de baixo. Encontrei todos os itens com facilidade, nos lugares em que eu sabia que os encontraria, com exceção de um: a toalha.

Não consegui evitar uma pontada de apreensão a respeito. Eu tinha certeza de que havia guardado tudo o que precisava, que vasculhara cada um dos ambientes da minha casa atrás de cada objeto que eu sabia que fazia parte da minha rotina, então não tinha como eu não ter trazido a toalha. O problema era que minhas malas não tinham tantos bolsos que pudessem servir de esconderijo para ela e nem o quarto era tão grande ou tão cheio de pontos cegos para eu conseguir perdê-la por lá.

Enfiei os dedos da mão direita em meus cabelos e, estarrecido, olhei para a minha bagunça de coisas. Eu estava perdido. Estava sem toalha. Como uma pessoa poderia tomar banho sem uma toalha?

– Ei.

Tão envolvido que eu estava em minha busca pela toalha, me assustei quando a voz de Sam me trouxe de volta à realidade do quarto. Voltei-me para ele, com a mesma expressão de espanto que utilizei quando não encontrei a toalha pela primeira vez. Sam estava parado à porta do quarto, com os (enormes) braços cruzados, um dos pés, descalços, tateando o carpete como se o explorasse (ou como um gato faria com suas garras se tivesse a chance de entrar naquele quarto, brincando com os pelos), o rosto sério. Já começava a me acostumar com aquele fato: Sam não era uma pessoa de riso fácil.

– Pois não? – eu disse de volta.

– Procurando alguma coisa? – Eu até abri a boca para responder a pergunta, mas Sam não conseguiu evitar a piada quando ela lhe ocorreu: – Você é desses que só consegue procurar coisas perdidas quando está de óculos e que, quando os perde, faz uma busca ainda mais difícil por eles antes de começar a verdadeira exploração?

E ele era terrível com piadas.

– Eu não uso óculos – respondi.

– Não se esqueça do que te falei – ele disse, apalpando o carpete uma última vez com o pé, como se o ajeitasse e estivesse pronto para se retirar. – Se precisar de ajuda, é só dizer.

– Eu só não estou achando a minha toalha, mas está tudo sob controle.

– Ah, claro – ele disse e finalmente sorriu – não com alegria, mas com sarcasmo. Virou-se e sumiu no interior de seu quarto.

Eu ainda não estava convencido de que a toalha não estava ali, ou vai ver eu só não queria aceitar isso. Mesmo assim, continuei a busca, checando cada um dos cantos do armário e de uma cômoda que eu usara para guardar alguns itens mais pessoais. Tomar o banho e esperar no banheiro até que o corpo secasse não era uma opção, porque eu não queria dar a impressão de que demorava no banho. A toalha viera comigo. Eu sabia disso!

Ou então eu estava louco.

Joguei-me de quatro no chão e verifiquei a parte mais baixa do armário. Se a toalha se perdera por ali, em pé, eu jamais seria capaz de encontrá-la. Explorei com a mão, esperando encontrar algo onde os olhos não conseguiam enxergar. Não encontrei nada além de alguns gramas de poeira.

Regressei e levantei-me. Bati a poeira das mãos na roupa e, decidido agora a verificar as malas pela última vez, dei alguns passos para trás.

O “Oi” que ouvi de Sam chegou aos meus ouvidos no exato instante em que meu calcanhar tocou seu pé. Perdi o equilíbrio e senti minhas costas irem de encontro ao seu peito. Agarrei-me ao seu antebraço e, quando me dei conta do que acabara de fazer, soltei-me e continuei com a queda. Só não continuei o trajeto até o chão porque a cômoda, afinal, estava ao meu alcance.

– Me desculpa! – eu disse, ainda que o que eu quisesse fosse, na verdade, insultar Sam. Ele não deveria ter entrado sem ser convidado, deveria?

Se bem que você não é exatamente um bom exemplo de respeito de privacidade, não é mesmo, Blaine?

– Eu que me desculpo – Sam disse, dando de ombros. – Eu devia ter avisado. Mas agora estamos quites, não é mesmo? – Entrecortou uma risada debochada. – Acho que agora você sabe como me senti quando te encontrei no meu quarto.

Com a diferença de que eu não estive nem perto de causar um acidente, foi o que ele se esqueceu de mencionar.

– Não achou a toalha.

– Não – eu respondi, embora não tivesse exatamente ouvido uma pergunta. – Vou ter que comprar uma amanhã. Ou melhor, vou comprar umas duas logo para o caso de...

E então eu percebi que a mão que Sam, a todo instante, mantivera erguida na minha direção segurava uma toalha. Mas aquela não era a minha toalha.

– Valeu, cara, mas não vou poder aceitar – eu disse, em seguida.

– Por que não?

– Não quero ser um incômodo, e eu tenho certeza de que ainda vou encontrar a minha em algum lug...

– Use essa aqui hoje – ele insistiu, oferecendo-me a toalha. – Se vai mesmo comprar uma amanhã ou não, depois você decide.

Não era bem que eu não precisava da toalha que Sam estava me oferecendo; a bem da verdade era que eu não queria aceitar nada vindo dele. Aceitar um favor significava um contrato, e eu não confiava naquele garoto o suficiente para aceitar a ajuda dele, por menor que fosse.

Mas também não podia negar que eu queria, sim, tomar um banho naquela noite, e aquela toalha me quebraria um galho.

Apanhei-a com um gesto rápido, como se aceitasse a toalha por obrigação, e não por necessidade. Não demonstrei alegria ou satisfação. Enrolei-a em torno de um braço, apanhei o restante das coisas que eu havia separado para o banho, com Sam observando cada um dos meus gestos, e, a um passo de deixar o quarto, senti-me na obrigação de agradecer a ajuda.

– Não foi nada – Sam disse, caminhando na minha direção. Não esperou que eu saísse do quarto para sair também; espremeu a si próprio e a mim no vão da porta e seguiu para o próprio quarto.

Apertei os olhos na direção do garoto. Não era fácil entendê-lo, e eu não sei se estava disposto a começar a desvendá-lo. Apertei a toalha no punho e segui para o banheiro.

– Ah – disse Sam, de onde quer que estava, segundos antes de eu bater a porta do banheiro. – Ninguém usa esse banheiro há algum tempo, então pode ser que alguns sinais de abandono sejam visíveis. Como baratas.

Revirei os olhos. Eu não podia esperar uma observação mais animadora de um garoto que não parecia ter nada de bom a acrescentar a uma conversa.

O banheiro não tinha sinais de abandono, então logo ficou claro que aquela era só mais uma das muitas piadas sem graça que eu já tinha ouvido naquela noite. Distribuí a toalha e as roupas em ganchos presos à parede e os demais itens, sobre a pia. Liguei o chuveiro e aguardei até a água esquentar. Dei uma fungada mais profunda; havia algum tempo desde que um cheiro estranhamente familiar parecia estar agarrado às minhas narinas. Entrei debaixo da água e a temperatura estava perfeita.

Não me dei o luxo de demorar muito no chuveiro, porque a parede do box era colada na do quarto ou na do banheiro de Sam, e ele certamente poderia começar a contar mentalmente os litros de água que eu estava gastando, se achasse que eu estava demorando mais do que o necessário. Uma vez fora do box, apanhei a toalha e pus-me a me secar.

E foi então que eu descobri a origem do cheiro.

A toalha. A toalha não tinha cheiro de que fora lavada há pouco e então secada e passada; ela cheirava como se já tivesse sido usada. Não estava úmida como se tivesse sido usada recentemente, no entanto, mas como se alguém já estivesse se secando com ela há alguns dias. E o cheiro...

O cheiro era de Sam.

Eu sabia disso porque, na mesa de jantar, eu estivera próximo o suficiente dele para decorar o aroma que ele tinha. Não era um cheiro ruim, mas também não era um aroma perfumado. Era um cheiro comum, e ele estava preso na toalha.

Secando meu pau com uma das extremidades da toalha e o rosto com a outra, senti-me tomado por um desgosto típico de alguém que se sente fazendo algo errado, como se pecasse. Apertei os olhos. Eu me sentia traído – corrompido. O desgosto, no entanto, não durou mais do que um ou dois segundo, porque...

...o cheiro do Sam era bom.

De olhos fechados, deparei-me inalando aquela essência e massageando meu pau. No início, não notei as intenções do que fazia, mas, quando me dei conta de que estava indiretamente me masturbando, joguei a toalha para o lado. Eu já havia me secado o suficiente com ela, de qualquer forma, com exceção do cabelo, mas...

Eu só não podia mais usar aquela toalha.

Me vesti. Deixei o banheiro e, ao invés de ir até o meu quarto, passei em frente ao de Sam, e a porta estava aberta. Sam estava deitado, com a cabeça apoiada nos braços cruzados, vestindo regata e shorts de dormir. Não fazia mais nada. Quase parecia à espera de algo.

– Essa toalha... – eu comecei a falar.

– Sim?

– Essa toalha, ela...

– É minha. Por quê?

Claro que fui tomado por choque, mas me esforcei até onde pude para não deixá-lo evidente.

– Não tinha nenhuma outra toalha que você poderia me emprestar?

– Não. As outras estão no cesto de roupa suja. Quer dizer, tinha a da minha mãe, mas... Você queria a da minha mãe?

– Não!

– Então tinha que ser a minha mesmo. Algum problema?

– Com o quê?

– Com a toalha. Eu a uso há tanto tempo... E nunca tive problemas. O toque dos pelinhos é tão macio no corpo...

Lancei a toalha com força suficiente para Sam poder agarrá-la de onde estava. E ele a agarrou.

– Boa noite! – ele desejou, alto o suficiente para vencer a distância de sua cama até o meu quarto, passando pela porta que, àquela altura, já estava fechada.

– Boa noite – eu acabei por responder, num sussurro. Ainda não achava certo ser mal educado, mesmo que eu estivesse me dirigindo a ele.