Blam!
4 A Escola
A minha primeira ida à escola em Portland tinha tudo para ser inesquecível, pelos bons ou pelos maus motivos. Sendo assim, quando fui me deitar no domingo, instantes depois de ajustar o despertador para bem cedo, tive uma súbita compreensão de que não conseguiria dormir naquela noite. E estava certo.
Revirei-me na cama o tempo todo, adormecendo e acordando, tendo os mais loucos devaneios que envolviam o fato de eu não conhecer o Maine e achar que qualquer uma daquelas pessoas tinha potencial de ser um assassino em série (culpa do Stephen King!) e o de Sam estar tão perto de mim, a alguns metros do meu quarto. Em um desses devaneios, ao abrir os olhos, eu pude inclusive jurar que ele estava à minha porta, me observando com os braços cruzados, tateando o carpete com o pé como fizera no passado, mas, quando eu fechava os olhos e tornava a abri-los, ele não estava mais lá.
Acordei com o toque do despertador e o estapeei de qualquer jeito. Uma noite tão mal dormida fez com que eu me sentisse ainda mais cansado do que quando fora me deitar. Vesti-me com roupas simples, sem exagerar para evitar atenções indesejadas, e, uma vez pronto, desci as escadas até a cozinha, onde Sam e sua mãe já estavam.
– Bom dia, querido! – saudou Angelina, que caminhava apressada com uma garrafa de café na mão.
– Bom dia – eu respondi e desviei o olhar para Sam, que mastigava lentamente um pedaço de torrada, à mesa, enquanto fitava a própria caneca. Havia dizeres nela, e eu já os conhecia, porque usara aquela caneca no dia anterior e também gastara um tempo lendo o que estava escrito nela. Eram frases motivadoras de amor e de boa convivência.
Mas, resumindo o conjunto da obra, Sam não olhou para mim.
– Alimente-se bem! Há torradas, pães, bolo e massa pronta para panquecas – Angelina dizia –, mas não vou conseguir preparar nenhuma agora, porque estou com muita pressa. Você sabe preparar panquecas, Blaine?
– Sei, mas as torradas estão de bom tamanho.
– Você decide, querido. – Lavou as mãos na torneira da pia e as secou no primeiro pano que encontrou. – Tenho que fazer a compra dos mantimentos, porque vou ficar uma semana fora e quero que tudo esteja em ordem quando eu chegar. – Voltou-se para Sam. – Isso também depende da sua colaboração, Sam.
Sam limitou-se a concordar com um ronronar.
– Sinto muito em ter que abandoná-lo tão cedo, querido – disse Angelina, agora falando comigo. – Mas quando o dever chama, você sabe como é, não podemos dizer que não estamos disponíveis. Eu sou o Superman daquela empresa! – disse e riu. – Vou sair para fazer as compras, mas, quando chegar, acho que vocês não vão mais estar aqui. Então se cuidem, meus amores!
Segundos depois, eu ouvi a porta da frente bater e os pneus do carro de Angelina cantarem no asfalto.
Seguidos a esses barulhos, a casa mergulhou num silêncio que caiu sobre os meus ombros como um cobertor de lã particularmente difícil de carregar.
Sam ainda lia sua caneca.
Puxei uma cadeira, tomando todo o cuidado de não fazer muito barulho (como se eu me importasse em não incomodar Sam, que estava compenetrado demais em sua leitura), e me sentei à mesa. Ainda me irritava a maneira como ela aproximava as pessoas. A cada gesto meu, entre pegar as torradas, a geleia, outro copo e me servir de café, era uma nova oportunidade de esbarrar em Sam, e só em uma delas foi que isso aconteceu. Mas Sam não resmungou.
Àquela altura, uma pessoa normal já teria terminado a leitura, o que me fez imaginar que Sam estava relendo a caneca. Incomodado com isso, vi-me obrigado a quebrar o silêncio.
– Como vamos fazer para ir à escola?
Sam girou os olhos da caneca para mim com uma lentidão assassina (Stephen King, saia daqui!), e, por um momento, eu achei que ele fosse jogar a caneca em mim, irritado. Mas seu tom de voz estava absolutamente normal quando disse:
– De carro.
– Vamos de carona?
– Não, vamos com o meu carro.
Concordei com a cabeça. A conversa não estendeu por mais do que isso, nem quando estávamos no carro. Sam dirigia com a segurança de alguém que fazia aquilo há muitos anos, permitindo-se até um braço pendurado para fora da janela e alguns tamborilares. Às vezes, batia a perna no ritmo da música que tocava – e, se aquilo não pudesse ser mais clichê, ele gostava de Blues.
Mais uma vez, senti-me obrigado a quebrar o silêncio.
– Você não pareceu muito preocupado com o fato de sua mãe ter que viajar.
– Eu deveria?
– Não sei. Não vai sentir falta dela?
– Vou. Mas já estou acostumado com isso – falou e fez a curva em uma rua bastante arborizada. – Não é a primeira vez que ela viaja e duvido que seja a última.
Quando menos pude perceber, estávamos parando no estacionamento da escola, uma construção média, charmosa, dentro de todos os padrões em que eu imaginava que fosse estar. O clima ao redor era de pura volta às aulas, com alunos se abraçando e se cumprimentando depois de algumas semanas sem se ver.
E, no meio daquilo tudo, eu me senti deslocado. Pela primeira vez em anos, eu era novato em uma escola, e não sabia exatamente como reagir a isso.
– Você já tem o seu horário? – Sam perguntou, deixando o carro.
– Não – eu respondi, acompanhando-o.
– Passe na secretaria depois. Os inspetores te mostram o caminho, eu não me lembro muito bem de onde é. Me procure por aqui no final das aulas, tudo bem?
– Tudo bem.
Sorriu em despedida, cobriu os olhos com um Ray-Ban New Wave, vestiu a alça de uma mochila e se enfiou na multidão que se aglomerava em torno da entrada da escola.
Eu, por outro lado, vesti as alças da minha própria mochila enquanto percebia o que estava acontecendo: eu estava sozinho.
Eu não deveria ter imaginado que as coisas seriam diferentes, deveria? Eu e Sam não éramos exatamente amigos, e, na verdade, nunca estivemos tão longe disso. Ele me ajudara com algumas coisas no fim de semana e até trocamos algumas palavras em conversas que não foram muito profundas, mas ainda éramos pessoas que se conheciam há poucos dias e que tinham pouca intimidade.
Logo, era natural que ele esperasse que eu fosse me virar bem na escola, sozinho, afinal, ele tinha os próprios amigos, algo que eu logo percebi quando ele se embrenhou em um grupo de garotos de aspecto bem parecido com o dele. Se estivessem uniformizados, eu poderia jurar que eram todos do time de futebol da escola.
Dei de ombros, convencido de que eu era um tolo por imaginar que as coisas por ali seriam diferentes. Temos essa mania de sempre pensar no lado bom das coisas, mas nos esquecemos da individualidade das pessoas que estão envolvidas nelas. Sam tinha a própria realidade, uma na qual ele acabava de deixar claro que não queria a minha presença.
E eu devia aceitar isso bem, afinal, eu nunca convivera com Sam e não seria agora que eu me tornaria um dependente dele. Ele tinha muito a me ensinar, e essa era a mais preciosa das lições: não conte com cem por cento do apoio de alguém, pois, quando você precisar, pode ser que ele não esteja lá.
E, seguido a essa conclusão, a caminho da entrada da escola, durante um momento desesperador, eu percebi que Sam estava mexendo comigo muito mais do que deveria.
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Quando o encontrei no final da aula, Sam ainda estava rodeado com os seus capangas e usando os mesmos óculos que usava mais cedo, naquele dia. Era quase como se eu o estivesse encontrando momentos depois de ele ter me abandonado.
– Tudo tranquilo hoje na escola? – ele perguntou, sorridente, com o humor visivelmente melhor.
– Tudo – eu respondi, seco. Não queria mais fazer parte de longos diálogos com Sam. Se ele não queria ser meu amigo, eu que não forçaria isso.
– Que bom – ele disse e destravou as portas do carro. Entramos. – Sinto muito por como eu estava agindo hoje de manhã. Não consigo manter o bom humor quando acordo cedo. O Sam que você vê agora não é o mesmo daquela hora.
Era só o que me faltava. Quando eu estava perto de aceitar o fato de que Sam era um garoto antipático, com o qual não valia a pena gastar tempo, ele me fornece um motivo legítimo para repensar sua situação. É claro que ele não estava bem humorado pela manhã porque não gostava de acordar cedo! Por que eu não tinha pensado nisso antes?
– Tudo bem, eu te entendo – foi a resposta que concedi enquanto ajustava o cinto de segurança.
Quando chegamos em casa, cada um seguiu para um lado, mas, diferentemente de Sam, eu o segui com o olhar. Subi para o quarto, o que era parte da minha rotina desde Nova Iorque, enquanto Sam seguiu para a porta da cozinha que dava para o jardim de trás, onde ficava uma área de festas com piscina, churrasqueira e um jardim de flores, do qual Angelina gostava de cuidar.
Joguei minhas coisas na cama e abri o zíper da mochila, retirando o meu caderno e um livro que eu apanhara na biblioteca. Mesmo aquele sendo o primeiro dia de aula, eu já tinha lição de casa, e achava melhor finalizá-la a tempo, se quisesse ter tempo livre depois. Não que eu tivesse coisas melhores para fazer; na verdade, por aquela casa não ser minha, eu tinha pouquíssimas ocupações, então o dever de casa até que vinha a calhar.
E, por nenhum motivo aparente, de repente decidi caminhar até a janela e verificar o jardim de trás, onde Sam agora estava. Apoiei-me no beiral enquanto ele jogava a mochila em cima de uma cadeira de descanso, retirava a camiseta, chutava tênis e meias para o lado e abaixava as calças. Já estava vestido com uma sunga, que era verde. O corpo de Sam era uma verdadeira ofensa para aqueles que passavam a vida inteira procurando o corpo perfeito e um verdadeiro colírio para as pessoas certas. Ele se espreguiçou no lugar, caminhando para longe da piscina, e, sem aviso, correu na direção da água e se lançou num mergulho.
Eu odiava piscinas. Odiava água com cloro e o jeito como ela fazia a minha pele ficar ressecada. Odiava o jeito como meu cabelo, que já não era dos mais lisos, ficava crespo, com os cachos bagunçados. Odiava como o sol queimava a minha pele quando eu passava muito tempo sob o seu olhar, distraindo-me com a água da piscina, porque eu era muito branco então ficava ardendo com rapidez, e o que era pior: eu ficava avermelhado, sem o uso do protetor solar correto. Odiava tudo o que estava relacionado àquele tipo de lazer, afinal, eu morava em Nova Iorque, e gente da cidade grande não está acostumada com esse tipo de luxo.
Mas, naquele instante, eu nunca quis tanto descer até a área de festas, despir-me e me jogar naquela água, deixá-la me açoitar com seus chicotes de gelo, tão fria que devia estar naquele dia tão quente, e flutuar, colidir com o corpo de Sam e depois pedir desculpas. Ele falaria que não tinha problema, e então se dobraria para o lado, dando as costas para mim – aquelas costas imensas –, nadando para o outro lado da piscina. Ele se apoiaria na borda e sacudiria a cabeça, livrando os cabelos de parte da água, e então ficaria com o rosto voltado para o alto, com os olhos fechados, apenas aceitando a massagem da água em seu corpo.
E eu ficaria ali, com a água no nível do nariz, observando-o de alguns metros, pensando em como seria ter a chance de tocar a nuca daquele garoto, de trazê-lo para perto, ou até de estar perto dele, levantando hipóteses do que ele faria se eu me apoiasse na borda da piscina também, ao seu lado, e fizesse o que ele fazia para, então, poder tocar a sua mão sem querer e, quem sabe?, se ele aceitasse o toque, eu poderia deslizar essa mão pelo seu antebraço e depois pelo braço inteiro e...
Meu Deus, eu estava apaixonado por aquele garoto!
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