Blam!
5 A Festa
Notas iniciais
Às dez horas da noite, eu me encontrava sentado no sofá da sala de estar, assistindo a um filme de suspense, explorando o conteúdo de um balde de pipoca que eu mesmo preparara. Em uma poltrona ao lado, estava Sam, estirado como um gato, dedilhando a tela de um celular, em silêncio. Havia algum tempo desde que havíamos falado alguma coisa, então o silêncio só era cortado pelo som da televisão, algo pelo qual eu me sentia grato, porque ficar em silêncio na companhia de Sam não era uma experiência muito agradável.
– Pronto – ele disse de repente e se levantou, enfiando o celular no bolso da bermuda. – Esteja pronto em uma hora, Blaine. Não vai querer estar com roupas de dormir quando o pessoal chegar.
O filme não era exatamente interessante, mas eu estava compenetrado no roteiro. Dessa forma, não entendi de primeira o que Sam quisera dizer e o questionei com um “Hum?”, sem tirar os olhos da TV.
– A festa na piscina que eu vou dar. Chamei um pessoal e eles já estão a caminho. Vão trazer bebida. Você sabe se tem algo que o pessoal possa comer?
Eu não podia crer que Sam estivesse falando aquilo para mim, e isso por uma série de motivos que iam desde o fato de eu não ser o dono daquela casa – e, portanto, não saber dizer se tinha algo para os convidados de uma festa comerem ou não –, até o de Sam querer dar uma festa assim, do nada, em plena noite de segunda-feira.
– Você não pode estar falando sério – foi o que consegui dizer.
– Se morasse aqui há mais tempo, saberia que estou falando sério, sim – ele disse e se retirou para a cozinha.
E eu o segui.
– É uma segunda-feira – era o único argumento que eu tinha.
– E daí?
– Sua mãe disse que contava com a sua colaboração para manter a casa em ordem.
– E em nenhum momento eu disse que vou deixar a casa bagunçada – ele disse e verificou o interior da geladeira. Satisfeito, se voltou para mim. – E não vou deixar. Vou dar a festa e depois vou arrumar tudo. – Caminhou na minha direção e parou com seu rosto a um palmo do meu. – E você vai me ajudar com isso. Não vai? – ele disse e tocou meu peito com o indicador.
Eu não queria ajudá-lo com arrumação de coisa nenhuma, porque, primeiramente, aquela ideia de festa era absurda. Mas o jeito como ele me olhava, não com ameaça, mas com compreensão, dando importância a mim, fez com que eu não tivesse coragem de negar o meu auxílio.
No entanto, mesmo eu estando disposto a dar a ele a resposta que procurava, eu precisava de uma justificativa que fosse convincente, e de preferência uma que não estivesse relacionada ao fato de eu me sentir tão atraído por Sam. A que encontrei, de imediato, foi:
– Sua mãe confia em mim, então, mesmo se você quebrasse a sua promessa, eu limparia essa casa sozinho.
– Essa é o espírito da coisa! – ele disse e acariciou meu ombro. Caminhou em direção aos armários e começou a abri-los. – Pelo visto, não tem nada para comer aqui, mas o pessoal vem para beber, então é só despejar esses pacotes de bolacha em vasilhas e espalhar pela casa. Não queremos ninguém dando perda total porque bebeu demais e não comeu, não é mesmo?
Que se dane!
Eu não tinha vindo para o Maine preparado para frequentar festas, até porque eu imaginava que não houvesse festas no Maine, sendo esse um lugar tão pacato. Vesti-me da melhor maneira que pude: uma bermuda jeans e uma regata vermelha. Seria uma festa da piscina, então não seria normal se eu me vestisse como se fosse a uma balada.
Quando desci para o andar de baixo, Sam estava (irresistivelmente) pronto também. Vestia uma bermuda de tecido leve e azulado que me fazia pensar em surfistas e uma regata que se ajustava ao seu corpo como se fosse feita sob medida. Na sala de estar, ele agora arrumava caixas de som e ajustava algo em um notebook.
– Alguma dica de música para tocar na festa? – Sam perguntou, e eu me assustei, porque não imaginei que ele tivesse me notado ali; estava de costas para mim.
– Acredito que não.
– Se tiver, é só colocar aqui. A conexão da internet está boa, então as músicas estão sendo baixadas com rapidez. – Levantou-se e se voltou na minha direção. – Os convidados chegam daqui a pouco.
E chegaram, aos bandos, como se tivessem combinado de se encontrar no meio do caminho antes de virem à casa de Sam.
A playlist de Sam começava com o tradicional Blues com o qual ele me fizera se acostumar, e, embora eu ainda achasse aquele ritmo bastante antiquado para uma festa, os amigos dele pareciam gostar. Conheciam as letras e cantavam alto, apanhando long necks de cerveja em caixas de isopor, e não estavam bêbados ainda. Alguns daqueles caras eu reconheci da escola, e eles nada mais eram do que parte do grupo super influente de Sam. Todos eram atléticos e barulhentos, e, embora isso fosse capaz de me animar em outras ocasiões, naquela, todos eles me pareciam grandes tolos.
– Pegue alguma coisa para beber, Blaine – disse Sam quando me encontrou encostado em um canto, com os braços cruzados, tamborilando no ritmo da música. – Divirta-se! Entenda isso como uma festa de boas-vindas para você!
Sorri para Sam e assenti com a cabeça. Não havia como eu fingir que aquilo era para mim. Uma festa de boas-vindas, a meu ver, jamais pareceria um cenário de caos.
Em pouco tempo, a casa de Angelina tornou-se pequena demais para tanta gente. As janelas da construção, que foram visivelmente planejadas para tornar os ambientes mais arejados, não deram conta de tanto calor humano, o que tornou a atmosfera algo quente como provavelmente seria estar em um forno. A festa podia ser da piscina, mas muitas daquelas pessoas não pareciam interessadas em pular na água. Além do mais, havia aqueles que se sentiam mais à vontade para contar suas piadas aos brados em confortáveis poltronas reclináveis, acompanhados de copos vermelhos em que era servida uma bebida nova que eu ainda não tivera a chance de descobrir qual era, e aqueles que estavam dispostos a escutá-los.
Apanhei um dos copos, que estavam dispostos sobre o balcão da cozinha, e, antes de beber um pouco, levei-o ao nariz. Era vodca com soda.
A campainha tocou e Sam de repente surgiu na cozinha, como uma aparição. Verificou o relógio na parede e só então correu à porta da frente. Olhou pelo olho mágico antes de girar a maçaneta e voltou-se para os amigos com um tipo diferente de excitação, com uma expressão muito parecida com a que um lobo faz para os membros de sua alcateia quando avista um alvo fácil. Abriu a porta de uma só vez.
O grito que os amigos de Sam deram quando perceberam que era um grupo inteiramente novo de meninas lindas, magras e muito bem (e pouco) vestidas quem batia à porta talvez pudesse ter sido ouvido pela população de Nova Iorque.
Certo do que aquela festa estava prestes a se tornar, eu bebi uma boa golada do copo que estava na minha mão. O calor da bebida fez com que eu me sentisse ainda mais quente do que já estava. Acabei indo para a área da piscina que, ironicamente, durante a festa da piscina, era a que estava mais tranquila e vazia.
Por ali, alguns pares se beijavam, atracados em cadeiras de descanso, dentro da piscina ou apenas encostados em alguma parede. Aquele deveria ser um cenário bonito e contagiante, mas eu não estava em clima de romance, não naquela noite, não durante uma festa que eu nunca desejara e não quando eu queria por tudo ir dormir cedo para acordar bem para a escola no dia seguinte.
Ali, pensei em me sentar em uma das cadeiras livres, ao lado de um casal, cruzar os braços, fechar os olhos e descansar um pouco, mas não durei mais o que três segundos sentado. Os sons que o casal emitia, os do abrir de um zíper, de uma língua explorando a boca do outro, de gemidos, logo me afastaram. Era melhor ficar lá dentro, onde pelo menos a música podia ser ouvida com mais clareza.
Foi quando vi um casal, guiado pela garota, subindo as escadas para o andar de cima que eu me dei conta do que estava prestes a acontecer.
– Ah, não...
– Blaine! – ouvi a voz de Sam gritar. Voltei-me na direção do garoto por um instante, o suficiente para apenas mostrar que eu o tinha ouvido, e logo me arrependi de tê-lo feito. – Beba alguma coisa, vamos! Acho que nunca dei uma festa tão sensacional quanto essa!
Eu neguei com a cabeça não dizendo não ao pedido de Sam, mas expressando minha recusa em aceitar que aquilo estava mesmo acontecendo. Sam estava bêbado, e nunca estivera tão contente.
– Blaine! – ele começou a gritar quando comecei minha rota até o andar de cima. Se aquele casal pensava em pegar o meu quarto para foder (ou até o quarto de Angelina), era bom que repensassem suas intenções. – BLAINE, PORRA!
Subi os degraus de dois em dois, exalando irritação pelas narinas. Se eu tivesse bebido um pouco mais, talvez achasse tudo aquilo muito engraçado, como agora Sam achava, mas não era o caso e, no momento, eu não via como consertar isso.
Quando terminei as escadas, vi a garota empurrando a porta do meu quarto com a bunda, puxando o garoto consigo. A essa altura, não tinha mais como minha fúria ser controlada.
– Saiam daí! – eu gritava enquanto me aproximava. – SAIAM DAÍ, JÁ!
Eles não me ouviram ou fizeram de conta que não. Corri até o quarto e, durante o trajeto, olhei de relance para o quarto de Angelina. Pela pequena abertura na porta, vi outro casal, parcialmente nu, se pegando sobre a cama da dona da casa. Eu nunca me senti em um lugar tão sujo.
– Saiam daqui! – eu exigi quando deparei o casal prestes a se jogar na minha cama. As mãos do rapaz seguravam as alças da blusa da garota, prontas para retirá-la. – Não me façam repetir isso, por favor!
– Relaxa, cara... – o amigo de Sam começou a dizer, e o tom apaziguador da sua voz me deixou ainda mais enfurecido.
– Não aqui! – eu retruquei e agarrei os dois pelo primeiro pedaço de tecido que encontrei em seus corpos. Com uma força que eu nem imaginava que tivesse, arrastei-os para fora em meio a protestos vindos de ambos. Se antes havia alguma chance de eu ser bem visto pelos amigos de festa de Sam, acho que agora ela estava bem longe de se tornar realidade. – Arranjem outro lugar para as suas brincadeirinhas, mas um que seja bem longe daqui!
E bati a porta.
E o quarto mergulhou em um silêncio que me fez soltar um suspiro de alívio.
Desde quando a festa começara, há várias horas, eu ainda não havia provado do que era tranquilidade de verdade. Sentei-me em minha cama e olhei para o carpete, em transe. Eu não havia bebido mais do que a metade do copo de vodca com soda, mas, mesmo assim, o mundo parecia estar dando suas guinadas. Mas o meu quarto – ainda que aquele não fosse realmente o meu quarto – estava estranhamente acolhedor naquela noite. Pela primeira vez, eu me senti à vontade naquele lugar, longe de toda a bagunça, longe de toda aquela música caipira e alta, longe de...
Acordei de meus devaneios com uma série de murros que começaram a ser desferidos na porta.
– Não pode ser... – eu dizia, rindo com algum tipo de euforia, algo próximo da loucura. – Isso só pode ser uma brincadeir...
Era Sam quem batia à minha porta.
– Sam?
Foi a única coisa que tive tempo de dizer antes de ele me agarrar pelo pescoço, arrastando-me mais para o interior do quarto e batendo a porta com um chute.
Eu senti medo. Claro, eu tinha prometido a Sam que faria parte da festa, mas estava fazendo exatamente o contrário. Não que eu considerasse esse um bom motivo para ele se sentir tão irritado ou para querer me esmurrar, mas eu devia saber que um bêbado não pensa com a razão, e Sam exalava a mais pura essência do álcool. Já devia estar fora de si há muito tempo.
– Pelo visto, você não comeu as bolachinhas – eu tentava dizer enquanto tropeçava em meus próprios pés. – Eu sabia que elas não seriam út...
Senti minhas costas colidirem contra a parede e, antes que eu tivesse tempo de saborear a dor, senti os lábios de Sam se prensarem nos meus.
Ele estava me beijando, mas o beijo começou errado. Bêbado como estava, Sam não tinha pleno controle de seu corpo, então seu rosto foi de encontro ao meu com mais força do que deveria. Quando se deu conta disso, Sam se afastou, olhou em cada um dos meus olhos e só então retomou o que havia começado.
Sua língua invadiu minha boca e suas mãos seguraram meus pulsos no alto, contra a parede, me deixando incapaz. Mesmo se eu não quisesse beijá-lo, não havia muito o que eu pudesse fazer. Sam era mais forte do que eu.
Claro, eu poderia chutá-lo por entre as pernas, mas, como se tivesse lido esse meu pensamento, Sam forçou seu corpo contra o meu e, então, mais do que os gomos de seu abdômen, eu pude sentir sua ereção contra minha barriga.
Mas ele estava me apertando demais.
– Eu não estou conseguindo respirar – falei quando consegui afastar a boca por um instante. Aproveitei a deixa para sugar uma boa quantidade de ar. – Eu não estou conseguindo respir...
Sam mordeu meu lábio inferior e eu fraquejei. Consciente desse efeito, ele tornou a me beijar com a mesma ferocidade de antes, agora pressionando o corpo contra o meu, apertando sua ereção contra minha barriga como se a gente...
Como se a gente de fato...
– Sam! – alguém gritou, interpondo-se a novos murros que a porta daquele quarto sofria. – Sam, seu lixo!
Sam afastou-se do beijo e me encarou, boquiaberto, como se tivesse acabado de acordar de algum sonho muito real. Fitou-me com aquele olhar de espanto por um bom tempo e, durante uma fração de segundo, enquanto eu abaixava meus braços, vi um pouco de razão nele.
Os garotos continuavam a bater na porta quando ele levou um indicador aos lábios, agora me olhando com seriedade, exigindo silêncio.
– Eu já vou! – ele respondeu com um grito. Tornou a fazer aquele gesto para mim, dessa vez batendo o indicador nos lábios, como se enfatizasse que fazer silêncio sobre o que acabara de acontecer era imprescindível.
– Que bom que está vivo, cara! Pensamos que você estava vomitando as tripas escondido...
– Ou que estava fodendo alguma menina sem a gente saber!
Sam cortou o contato visual comigo, abriu uma fissura bem pequena na porta, o suficiente para conseguir passar, e deixou o quarto.
– Vocês não vão me ver vomitar tão cedo – ouvi a voz dele dizer, diminuindo de tom, como se ele e o grupo se afastassem no corredor. – Sou mais forte do que pensam.
Realmente, eu concordei em pensamento.
E não havia melhor pessoa para confirmar isso do que eu.
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