Blam!

12 O Amigo Ainda Está Lá


“Bulking é o processo utilizado por atletas para ganhar peso e massa muscular”, começava dizendo o primeiro texto de aspecto aparentemente confiável que encontrei na internet. “O objetivo é consumir mais calorias do que você é capaz de queimar e, de preferência, de fontes saudáveis, como carnes magras, Whey Protein, laticínios light e ovos”.

O silêncio vindo do quarto de Sam era perturbador. Eu tinha deixado a porta do meu quarto aberta, na esperança de que a passagem de som se tornasse mais fácil, mas nem essa estratégia parecia ter sido eficaz. A porta do quarto de Sam continuava fechada e imóvel como se guardasse dois corpos há muito tempo falecidos, como aqueles santuários de pedra que se pode comprar em cemitérios pelo preço de uma moto Harley Davidson e que guardará seu corpo pelo resto dos tempos, enquanto ninguém violá-lo e roubar seus ossos para algum culto demoníaco.

“O objetivo aqui é ganhar o máximo possível de massa muscular, ao mesmo tempo em que se minimiza o ganho de gordura”. Meus olhos quase se fechavam enquanto eu mirava a tela do notebook, mas eu me obrigava a manter a atenção. “A dieta é hipercalórica, e há um maior consumo de carboidratos complexos, como pão e arroz integral”.

Eu começava a suspeitar dessa minha primeira hipótese. Será que Sam e Ralph não tinham se matado dentro do quarto? Quer dizer, os dois haviam se mostrado tão barulhentos à mesa do almoço que se tornava quase irônico imaginá-los ali, sentados e quietinhos como geralmente os pais esperam que seus filhos sejam.

“Você pode até ganhar peso mais rápido comendo fast food, sorvete e outras guloseimas todos os dias, mas, no fim das contas, vai perceber que o que você ganhou foi quase nada de músculo, e sim água e gordura”.

Eu não conseguia mais prestar atenção naquele texto. Precisava averiguar o que estava acontecendo, senão não conseguiria fazer mais nada naquele dia.

Eu tentava me lembrar de como haviam sido meus breves “encontros” com Sam enquanto me encaminhava até o seu quarto. Tinham sido silenciosos? Tinham, sim. Muito. Sam era discreto, do tipo que sussurrava ordens. Segundo o que eu pudera entender desse costume, ele o fazia porque gostava de fazer coisas escondido. Seu corpo lapidado podia muito bem estar sobre o de Ralph agora – ou ao contrário, quem saberia? –, e seus beijos nos lábios emoldurados de barba do amigo podiam muito bem ser tão silenciosos quanto os que ele dera em mim.

Por que outro motivo eles fechariam a porta, afinal?

Consegui imaginar o que a voz de Sam diria em sua mente quando eu bati duas vezes em sua porta:

“Por que diabos alguém viria até a porta do meu quarto agora, quando eu deixei claro que não queria ser atrapalhado por ninguém?”

Sam abriu a porta mais rápido do que eu imaginei que faria. Convenhamos que, quando fazemos algo de errado e alguém vem nos importunar com uma batida na porta, a gente anuncia algo como “Já vou, um instante!” e varre para longe qualquer “sujeira” que possa aguçar a desconfiança da pessoa que nos procura. Mesmo esse anúncio de alguém que “já vai” é suspeito, mas não pensamos com muita razão quando tudo o que queremos é nos livrar de uma possível má impressão, não é mesmo?

Mas Sam não passou por esse ritual. Seus passos vieram até a porta como os de uma pessoa que simplesmente se levanta de onde está sentado e se dirige à porta. Abriu-a inteiramente, como se não tivesse o menor receio de que vissem o que ele fazia. E eu vi.

Vi Ralph sentado na cama, com um livro enorme aberto sobre as pernas, as mãos apoiadas na cama e o olhar sério voltado na direção da porta. Era um olhar diferente do de Sam, que trazia um quê de indagador, como se pedisse uma explicação sem dizer uma palavra sequer. Somente diante dessa cena que eu percebi que devia ter pensado em um plano antes de começar a bagunça que eu acabara de iniciar.

Sorte a minha que minha mente pensou rápido.

– Eu estava pesquisando sobre Bulking – informei, e a frase saiu com naturalidade, sem tremular, porque aquela parte da coisa era verdade. – E achei isso bem interessante. Quer dizer, estou pensando em começar a fazer academia também e, como tenho dificuldade para ganhar peso, imaginei que isso pudesse me ajudar, já que...

Eu não sabia como continuar dali. Contemplei o olhar de Sam, que piscou duas vezes na minha direção, sem entender.

– Você quer dicas de alimento? – perguntou Ralph, de repente.

– É! Isso!

– Comece comendo bastante frango, de preferência grelhado, sem gordura. E arroz. Batata doce também ajuda no ganho de massa, mas você precisa comer muito mais do que realmente come se quiser que o Bulking funcione.

– E ovos – Sam acrescentou, mordendo o enorme lábio inferior, adicionando um tom malicioso à sua fala.

Tão malicioso que eu o imaginei segurando as próprias bolas enquanto falava comigo.

– De preferência, cozidos – emendou, diante do meu silêncio.

– Está bem – acabei dizendo. – Está ótimo. Obrigado pelos conselhos.

– Era só isso? – Sam perguntou, e o olhar de Ralph demonstrou que ele estava bastante interessado naquela resposta também.

– Só – eu respondi. – Eu precisava tirar essa dúvida antes de começar a contar minhas economias. Eu precisava saber com o que iria gastar.

Voltei-me na direção do meu quarto e já estava quase dentro dele quando me lembrei de que tinha esquecido de agradecer.

– Aliás, Sam e Ralph, muito obrigado pela ajud...

A porta já estava fechada. Sam e Ralph já haviam voltado para o universo paralelo em que eles se colocavam quando a porta se fechava. Só sendo mais ignorante do que eu achava ser eu não perceberia que, afinal, eu estava incomodando algo.

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Eu não me sentia mal sobre o meu corpo, não estava a fim de ficar musculoso e tampouco estava disposto a gastar minhas parcas economias com mais comida do que precisava. Eu era magro, apenas magro, tinha algumas partes do corpo suficientemente definidas e estava feliz assim. Tanto que, naquela tarde, não vi problema em vestir um short e pular na piscina. Eu não tinha o que esconder. Eu me sentia bem.

Pelo menos agora que estava longe do quarto de Sam, porque aquela atmosfera estava me sufocando. Era a expectativa de saber o que eles faziam, de saber se estavam se pegando ou não ou se estavam, de fato, estudando Linguagem. Enquanto confabulava sobre essas coisas, eu tinha quase me dirigido ao quarto novamente, esperando oferecer ajuda com o que precisassem, mas um surto de razão me fez voltar atrás. Eu não era esse tipo de garoto, que não sabia o seu lugar e que não reconhecia quando estava atrapalhando, e agora não era exatamente uma boa hora para mudar isso, já que eu estava de favor na casa da melhor amiga da minha mãe.

Imaginei que nadar fosse me distrair um pouco, e distraiu. Eu não tinha o hábito de frequentar aquela piscina, até porque Sam a usava tantas e tantas vezes e, quando o fazia, mal deixava espaço para que outra pessoa a compartilhasse com ele, mas até gostava de ficar na água. Não de nadar, porque isso eu não sabia fazer muito bem; eu até enganava, mas provavelmente morreria afogado se fosse largado em alto mar. Em resumo, eu achava a natação uma boa prática esportiva (isso se ela não fosse a única para a qual eu dava alguma atenção).

E naquela tarde eu havia aprendido a boiar. Deitado de barriga para cima, eu deixava a água fazer o seu trabalho às minhas costas e o sol, à minha frente. Era uma mistura de sensações muito mais do que agradável, especialmente quando eu ficava de olhos fechados.

Mas me sacudi num sobressalto quando ouvi uma voz irada gritar no andar de cima.

Quase não encontrei o chão abaixo dos meus pés quando interrompi meu ritual de boiar. A água chafurdou para todos os lados, me obrigando a ficar de olhos fechados. Uma vez equilibrado, esfreguei os olhos e olhei ao redor. Será que eu tinha mesmo ouvido um grito?

Havia uma conversa acontecendo em algum lugar, e ela era suficientemente alta para chegar à área da piscina. Isso era incomum; às vezes, eu quase tinha a impressão de que não tínhamos vizinhos em Portland, de tão silenciosos que eles eram. A conversa que eu ouvia parecia baixa para mim, mas isso porque ela devia acontecer a uma boa distância de onde eu me encontrava. As pessoas que falavam pareciam gritar.

Os caras que falavam pareciam gritar.

Pensei em Sam e Ralph.

Retirei-me da piscina, deixando a água escorrer em sua borda antes de calçar chinelos e entrar pela porta de trás da cozinha. O ambiente ali parecia silencioso, mas ainda havia aquele som de vozes distantes, que incomodava qualquer tranquilidade. Será que aquilo era coisa da minha cabeça? Eu não conseguia dizer. Talvez, mesmo depois de tanto tempo tentando evitar a loucura, eu não tivesse sido bem sucedido. Era o mal que Sam fazia a mim.

Enchi um copo de água na torneira da cozinha e o levei aos lábios. Eu tinha acabado de beber um gole quando ouvi uma porta escancarar, do tipo que você imagina que chegou a colidir com a parede, tamanha a força aplicada no movimento. Seguido a esse baque, vieram passos pesados, e casas de madeira, como aquela, não eram do tipo que abafavam passos, então eu os escutei com riqueza de detalhes. Eram passos que caminhavam o corredor acima da minha cabeça e que agora desciam os degraus da escada que dava para o hall de entrada com pressa. Eu ainda estava com o copo na boca quando vi Ralph surgir.

– Deixa de ser idiota! – gritou a voz de Sam de onde quer que estivesse. Supus que estivesse no topo da escada, fitando um Ralph que tentava por tudo sair pela porta da frente. Estava trancada.

– Você não reconheceria um idiota com tanta facilidade, Sam, sendo você um deles também! – Tornou a puxar a maçaneta. A parede ao redor da porta pareceu se movimentar, como se prestes a ceder ao próximo puxão.

Aquilo estava me deixando aflito.

– Abra essa porra dessa porta, Sam! – Ralph exigiu e, por um momento, eu pensei que ele fosse chutá-la. Angelina não iria gostar.

Aliás, onde está a Angelina...?

– Não até que você queira conversar comigo como gente – Sam respondeu e finalmente surgiu em meu campo de visão, no hall de entrada.

– Não chegue perto de mim – disse Ralph, abrindo as mãos ao lado da cabeça.

– Ralph, não aja como um ignorante...

– Eu pedi para não se aproximar, caralho! – Ralph sentenciou e uma de suas mãos afastou com um tabefe a que Sam tentou aproximar dele.

E foi então que os olhos do jovem se voltaram na minha direção.

Minhas pernas fraquejaram quando vi Ralph esmagar o chão com suas passadas enquanto se dirigia a mim. Não sei por que, mas, de repente, tive medo de que ele me batesse, de que me esmurrasse. Eu nunca tinha apanhado de ninguém, mesmo que alguns caras soubessem da minha diferença na antiga escola, mas eu sabia que sempre havia a primeira vez para tudo, e eu tinha a impressão de que aquela seria a minha.

Fechei os olhos quando ele estava a dois passos de mim. Interrompi a respiração no segundo anterior ao que eu tinha certeza de que precederia a pancada. Esperei mais três até poder abrir os olhos novamente e retomar o fôlego, e só então percebi que não era na minha direção que Ralph vinha, mas na da porta de trás da cozinha. Inclusive já tinha até sumido por ela.

Ele tinha pensado rápido. Se não conseguiria sair pela porta da frente, se mandou pela de trás, que, como era costume na maioria das casas americanas, estava aberta. Gênio.

– Sam, o que está acontecendo...? – eu cheguei a perguntar quando só estávamos eu e ele por ali, mas Sam não me respondeu.

Pelo contrário, rompeu pela mesma porta que Ralph havia usado para fugir, certamente indo atrás do amigo. Só deixou o rastro do seu cheiro, um com o qual eu já estava acostumado e que, ainda assim, apreciava, no lugar. Subitamente, perdi o interesse pelo copo de água e só queria saber como ia terminar aquela pequena confusão de amigos.

Uma séria confusão de amigos.

Uma pena que eu ainda estivesse com roupa de banho e molhado demais para conseguir seguir alguém sem ser percebido.

Notas finais
Galera, sei que posso parecer pedinte (e se vocês quiserem ignorar isso, tudo bem, de boa rs), mas estou fazendo parte de um concurso de contos do Scribe sobre diversidade e seria bem legal ter algumas recomendações por lá, se acharem que devem (link: ~> http://wescribe.co/t/flores-e-sentidos). Só isso rs E obrigado desde já! :D