Blam!

13 O Intervalo


Sam não voltou a aparecer tão cedo.

Nesse meio tempo, eu fiquei na sala de estar, fingindo interesse em um livro de Linguagem (ainda que não estivesse tão dedicado a fazer o trabalho que Sam pensara em fazer com Ralph, eu precisava fazê-lo e esperava que aquela falsa leitura me ajudasse a conseguir algo). Angelina não deu falta do filho tão cedo; na cozinha, dedicada agora a preparar o jantar, ela cantarolava “Best Song Ever” do One Direction ao mesmo tempo em que picava salsinha sobre uma tábua de madeira.

Queria eu estar tão tranquilo quanto ela. Meus dedos até podiam correr as letras dos enormes textos que aquele pesado livro carregava, mas minha atenção, minha mente e meus olhos estavam em outro lugar. Eu pensava no que Sam podia estar fazendo agora.

Ele não saíra com o carro, então talvez não tivesse ido longe. Aquela região de Portland não era necessariamente extensa, então a maioria dos alunos da escola em que estudávamos morava bastante próxima. Boa parte deles, inclusive, morava naquela mesma rua. Eu não sabia se era esse o caso de Ralph (ainda que não fizesse o menor sentido querer chamar para o almoço alguém que mora logo ali), mas esperava que fosse. Já era noite e eu não queria que Sam corresse os riscos que ela oferecia.

Não que o bairro fosse perigoso. Não era.

Mas, ao mesmo tempo, eu tinha medo de que Sam estivesse fazendo algo tolo, e as suposições que eu tinha para isso eram inúmeras. Em uma delas, Sam esmurrava a porta da casa de Ralph, exigindo que o garoto abrisse aquela porra de porta antes que ele a derrubasse com os ombros. Eu nunca vira Sam revoltado de verdade, mas, na minha mente, essa não parecia uma hipótese tão absurda. Eu também imaginava Sam se jogando sobre Ralph como um jogador de rúgbi, derrubando-o no chão e desacordando-o com uma série de socos. Era ainda uma atitude mais agressiva do que provavelmente Sam teria, mas como eu não sabia ao certo o que motivara a ira de Ralph, qualquer hipótese parecia válida.

Talvez Sam não estivesse em casa porque a polícia o pegara na rua. Talvez ainda não tivesse voltado porque o corpo de Ralph não estava só desacordado, mas morto, e Sam seria preso imediatamente, em flagrante, com o sangue do ex-amigo nas mãos.

Quando menos pude perceber, eu estava olhando para a janela da sala de estar, que dava para a rua, os olhos arregalados, a boca aberta em sinal de espanto, como se eu tivesse acabado de ver alguém morto. Eu tinha consciência dessa expressão porque, instantes depois, percebi que estava olhando para o meu próprio reflexo no vidro da janela, contemplando aquela cara cômica de alguém que se deixa apavorar com os próprios pensamentos. E então eu ri.

Ri porque estava tão paranoico que acabei por levantar suspeitas absurdas e não tinha o menor interesse em duvidar delas. Sam não mataria ninguém. Eu não o conhecia tempo suficiente para afirmar esse tipo de coisa com certeza, mas podia dizer que Sam não tinha o tipo de um assassino, mesmo que Stephen King já tivesse ambientado vários dos seus livros de terror no Maine. Sam não era um potencial psicopata, era só alguém que valorizava a amizade de um cara e que sairia correndo atrás dele, se fosse preciso, para preservá-la.

Amizade de um cara...?

– Blaine, querido, sabe se o Sam está por aqui? – perguntou Angelina, me acordando do transe de uma vez só.

– Você... Você não sabe? – eu questionei. Eu imaginava que Angelina soubesse que Sam não estava em casa e só não tivesse se importado com a sua ausência ainda.

– Do quê?

Se ela não sabia da fuga de Sam à procura de Ralph, não seria eu a pessoa a contar.

– Que ele não está em casa – eu disse, enrolando. – Achei que soubesse. Ele saiu com o Ralph.

– Ah, claro. Devem ter ido se juntar aos outros garotos.

Eu concordei com a cabeça, mas, por dentro, eu sofria de vontade de contar a verdade a Angelina. Eu me contive.

– Acho que foi isso mesmo – finalizei.

Angelina se virou para retornar à cozinha e foi nesse instante que Sam rompeu pela porta da frente, como se apenas estivesse esperando aquele diálogo para fazer sua entrada dramática. A força com que tinha aberto a porta a fez bater na parede (algo que talvez fosse um costume entre Sam e seus amigos, pelo que eu podia observar). Sam cruzou o hall de entrada e enterrou um pé no primeiro degrau da escada sem destinar um olharzinho sequer na nossa direção. Já estava no meio da escada quando Angelina se manifestou:

– Sam, querido, você não vai jant...?

– Não! – o garoto retrucou, já longe do nosso campo de visão.

E não jantou mesmo. Eu e Angelina nos sentamos à mesa sozinhos e fizemos a refeição ao som da boa e contemporânea música pop que de repente ela decidira aprender a ouvir. A comida estava boa, isso eu não podia negar, mas havia algo misturado a ela que não era exatamente alimento. Era preocupação.

– Ele não está bem – disse Angelina, jogando as cartas na mesa.

– Parece que não.

– Sabe o que pode ter acontecido? Aconteceu algo entre ele e o garoto?

Eu dei de ombros. Estava decidido a fazer de conta que nada daquilo tinha acontecido, se Sam não tinha interesse em tocar no assunto.

Mas, mesmo assim, quando finalizei a minha parte da louça, ao subir as escadas, eu me dirigi à porta do seu quarto, e não à minha. Levantei um punho fechado e quase bati, mas voltei atrás. Sam não era um garoto que gostava de falar de sentimentos – isso se ele era capaz de sentir algo além de revolta.

Girei nos calcanhares e achei melhor me enfiar no meu quarto, torcendo para que pelo menos no dia seguinte tudo estivesse bem.

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A escola em que estudávamos em Portland era pública, mas era bonita. Tinha um quê de parque florestal na área destinada ao intervalo, para aqueles que não tinham interesse em se enfurnar no refeitório e fazer de conta que tinha amigos naquelas mesas cujos donos já estavam bem definidos entre as panelinhas. Como eu tinha trazido lanche de casa, eu me sentava sozinho na praça contornada de árvores altas, algumas floridas, em lugar estratégico, sob a sombra de uma copa.

O pacote daquele dia, especialmente preparado por Angelina, que se recusava a nos deixar preparar qualquer uma de nossas refeições enquanto ainda tivesse braços que pudessem trabalhar, guardava um sanduíche de atum, uma maçã e uma caixa de suco pronto de laranja. Meu apetite naquele dia não estava dos melhores, mas não deixei de ficar pelo menos um pouco animado com aquele lanche, uma vez que cada um dos seus componentes era um alimento que eu gostava. De todos, eu estava principalmente interessado no lanche de atum, então logo o agarrei e retirava o plástico que o envolvia, querendo mordê-lo de uma vez por todas. Olhei para frente ocasionalmente enquanto me dedicava no desbravamento daquela embalagem e foi então que notei Ralph a alguns metros de mim, sentado sozinho em um banco ao sol, sacudindo uma garrafa grossa com uma bebida cor-de-rosa. Eu já vira Sam preparar aquilo antes. Só podia ser o tal do Whey Protein.

E Sam ainda não tinha falado nada sobre o que acontecera com Ralph, mesmo dias após a poeira da coisa ter baixado. A minha curiosidade, no entanto, continuava a mesma. Sendo assim, comecei a me perguntar quais seriam as implicâncias de eu me levantar do meu lugar à sombra e me sentar ao lado de Ralph para uma conversa. Seria, provavelmente, a primeira vez que eu faria isso em todo o meu tempo de escola em Portland, mas a causa era nobre. Sam era uma pessoa que eu gostava muito (e esse era o jeito com o qual eu preferia me referir à paixão secreta que eu sentia por ele), então era praticamente um dever meu querer ajudá-lo.

– Posso me sentar aqui? – eu perguntei, segurando todo o meu lanche, distribuído em ambas as mãos.

O olhar que Ralph destinou a mim foi primeiro confuso, o que me fez me perguntar se ele sabia quem eu era, afinal. Será que já tinha se esquecido da ocasião em que se sentara ao meu lado em uma minúscula mesa de jantar e esbarrara seu ombro no meu durante toda a refeição?

– Senta aí, Blaine – ele pediu, batendo uma mão no banco ao seu lado.

E eu me sentei.

– Quer lanche? – eu ofereci.

– Não, estou bem – ele respondeu, dando ênfase à garrafa que sacudia em uma das mãos.

Houve silêncio entre nós por um instante, e foi justamente ele que me motivou a ir direto ao assunto, antes que aquele momento ficasse ainda mais constrangedor.

– Aquele dia que você foi lá em casa...

– O que tem? – ele perguntou.

– Foi legal – eu disse, e o rubor subiu pelo lado esquerdo do meu rosto e tomou todo o restante. Aquele era o meu corpo demonstrando a quantidade de segurança que eu tinha em falar em gente como o Ralph.

– É, foi sim.

Mas eu ainda estava curioso. Precisava falar logo sobre aquilo que tanto me incomodava.

– Não pude deixar de notar que hoje você está almoçando sozinho. Cadê o Sam e o restante dos seus amigos?

– Devem estar por aí, talvez lá dentro no refeitório, tomando a mesa dos esportistas, como geralmente fazem.

– E por que você não está lá com eles?

Ralph pigarreou e dobrou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, olhando para mim por cima do ombro.

– Achei que tivesse te visto aquele dia na cozinha, enquanto eu e ele discutíamos – ele disse.

Eu assenti com a cabeça antes de dizer:

– É, provavelmente, era eu lá.

– Então você sabe que eu e ele não estamos bem.

– Como assim?

– Não somos mais amigos. Eu quero distância dele. Gostaria de dizer que queria esse afastamento por um tempo, mas tenho que assumir que o quero para sempre.

Eu engoli em seco. A coisa tinha sido mais séria do que eu imaginava.

– Isso é muito ruim de saber.

Foi a vez de Ralph de assentir, mordendo o lábio inferior. Bebeu alguns goles de sua bebida e só então voltou a falar:

– Não me leve a mal, Blaine, eu não quero fazer sua cabeça e nem acabar com a amizade que você e ele têm...

Amizade? Que amizade?

­–... mas o Sam não serve mais para mim. Ele era um ótimo amigo, ele é uma pessoa incrível, com quem era muito bacana trocar ideia, confidenciar e tudo mais, mas... Mesmo as coisas boas têm um final.

– Não precisa ser assim. Se o Sam é tão legal quanto você diz, não faz sentido que você tenha se afastado dele.

Ralph riu muito rapidamente antes de dizer:

– Não tem nada a ver com o que o Sam é. Como eu te disse, ele é uma ótima pessoa.

Aquilo não justificava nada, então eu mantive meu olhar curioso, indagador e insistente voltado para os olhos escuros de Ralph, cobrando uma continuação.

– Mas há certos costumes – ele continuou, apertando os olhos –, hábitos, que são difíceis de ignorar.

– Hábitos? – eu repeti, logo após engolir em seco novamente.

– Isso. Hábitos que começam cedo, que são levados por algum tempo e arrastados até a maturidade. Hábitos que deviam ter sido perdidos com o decorrer dos anos. – Ralph devia saber que estava falando muito pouco, apesar de falar bastante, mas nem por isso parecia insatisfeito. – Eu cresci. Eu amadureci. Não quero compartilhar das coisas que ele faz, porque esse não sou mais eu. Sou um homem. Quero me formar na escola e ir para uma boa faculdade, e não ficar preso à Portland fazendo as mesmas coisas que ele faz.

– Do que está falando, Ralph? – foi a pergunta que pulou da minha boca quando Ralph fez uma pausa para tomar fôlego.

– Não diz respeito só a mim ou ao Sam, então não posso falar a respeito. Sinto muito Blaine – Ralph finalizou e, com dois tapinhas na minha coxa, se retirou do banco de concreto e da conversa. – Mas ele é um cara legal, disso eu tenho certeza. Espero que você também tenha.

Eu estava frustrado. Estava irritado. Eu tinha perdido meu lugar à sombra por conta de uma conversa vaga, com pouco propósito. Ralph não queria falar sobre o que o fizera se afastar de Sam, e a percepção de que não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso era de matar.

Esmaguei a caixa de suco na mão. Sorte a minha que a calça que eu usava no dia fosse cáqui, porque só assim a mancha de suco de laranja não ficaria tão evidente.

Notas finais
Hum... Um lanchinho agora até que cairia bem... rs