Blam!

11 O Amigo


Angelina, naquela tarde de domingo, estava bastante animada enquanto preparava o nosso almoço. Permitira-se ligar o rádio e conhecia as músicas pop da atualidade tão bem quanto qualquer garota adolescente.

– Amo esses meninos do One Direction – dizia e ria, batendo uma colher de madeira em sua panela, onde uma espécie de molho vermelho era preparado. – Jovens, nem devem ter idade para serem presos, mas são talentosos como muito veterano não é!

Não estava falando comigo especificamente, mas quem estava na cozinha era eu, então, a fim de não deixar parecer que ela falava sozinha, soltei um muxoxo de concordância.

– Preparando o quê, mãe? – perguntou Sam ao surgir na cozinha. Imediatamente me retirei do meio do caminho, quando ele se deslocou na minha direção. O que ele queria era chegar à geladeira.

– No momento, molho de tomate, pois quero servir espaguete hoje – respondeu Angelina. – Acha que devo colocar almôndegas ou salsichas no macarrão?

– Salsichas fazem mal para o metabolismo, não fazem? – disse Sam, retirando da geladeira um galão de Sunny D.

– Posso não colocar nada no macarrão, se preferir.

– Almôndegas estão OK.

Sam abriu o galão e estava prestes a levá-lo aos lábios quando a mãe, mesmo de costas, notou o que estava para acontecer.

– Não ouse fazer isso! – ela esbravejou, apontando ameaçadoramente uma colher de madeira na direção do filho, uma que gotejava molho vermelho como o sangue coagulado de uma vítima assassinada há algum tempo. – Use um copo, como eu e seu pai te ensinamos a fazer!

– Blaine, poderia pegar um copo para mim? – Sam pediu, pousando com um baque o galão de suco de laranja sobre a mesa. – Pegue um para você também, se quiser.

– Não quero beber nada antes do almoço, obrigado – eu disse, abrindo o armário em que eu já sabia que ficavam os copos. Se tivesse que expressar em porcentagem o quanto eu agora, depois de alguns meses, me sentia à vontade naquela casa, eu diria que já estava setenta e cinco por cento bem. Grande parte disso era culpa de Sam.

– Você é quem manda! – ele disse ao receber o copo. Mesmo um simples resvalar de seu indicador no meu me fazia ter arrepios.

Eu já começava a agir como uma virgem desesperada por atenção e tinha plena consciência disso, razão pela qual eu me sentia tão constrangido na presença de Sam. Se pelo menos eu tivesse metade da autoconfiança que ele tinha...

– O Ralph vai vir aqui hoje – ele anunciou de repente, e o tom que usou para dar a notícia foi tão baixo que eu achei que ele tivesse dito aquilo só para mim.

– Ah, é mesmo? – sua mãe respondeu, no entanto. – Ele vai vir para o almoço?

– Sim. Temos mais uma cadeira, prato e conjunto de talheres disponíveis?

– Temos isso e um colchão a mais, se ele quiser dormir aqui também – a mãe respondeu e, por um instante, eu fiquei sem saber se Angelina estava sendo irônica ou sincera. Será que seu senso de hospitalidade era tão intenso àquele ponto? Será que aquele era um costume de quem morava em Portland?

– Isso não vai acontecer – Sam replicou. – Só vamos fazer um trabalho de escola.

E eu senti alívio. Não sei por que razão especificamente, mas senti.

– Então ajeite suas coisas, nem que seja apenas varrer tudo pra debaixo do tapete ou da cama – Angelina aconselhou. – Não quero que seus amigos pensem que não somos pessoas organizadas, por maior que seja essa verdade.

Se Angelina bem soubesse como os amigos de Sam já tinham visto aquela casa de todas as formas possíveis, inclusive de pernas pro ar...

Eu não sabia o nome dos amigos de Sam, então quando ouvi o nome “Ralph” não pensei em ninguém em específico. Além do mais, a tribo da qual Sam fazia parte só tinha garotos muito parecidos com ele, em vários aspectos, desde a preocupação exagerada com o corpo até os cuidados excessivos com a pele, especialmente a do rosto. Eram garotos vaidosos não porque valorizavam a saúde, mas porque apreciavam estar prontos para “atacar” alguém a qualquer instante. Sempre que podia, eu desviava minha rota na escola, se via que Sam e seu grupinho estavam por perto, porque todos eles eram muito barulhentos, com poucos escrúpulos, a ponto de tratar qualquer garota com um pouco de pele a mais à mostra como um pedaço de carne em um açougue, que você pode olhar e dizer “Mas essa, sim, eu gostaria de ter em casa em cima da minha mesa, hein?”.

O rosto de Ralph não era um de que eu me lembrasse. Como já ressaltei, os amigos de Sam eram todos uns X na minha mente, até porque eu não tinha muita coragem de encará-los. Sam nunca os apresentara para mim, e não seria eu a pessoa a tomar essa iniciativa. Mas Ralph era um rapaz bonito, como não podia deixar de ser. Dono de um rosto feito de ângulos retos, como se construídos com um esquadro, emoldurado por uma barba muito bem conservada e por cabelos castanhos, perfeitamente desorganizados, eu precisava assumir: Ralph era um garoto atraente.

Adentrou a casa e sacudiu uma mão espalmada na direção de todos, como se cumprimentasse uma multidão, e não um jovem adolescente e a mulher que o acolhera em sua casa. Vestia roupas esportivas muito parecidas com as que Sam usava diariamente. A impressão que eu tinha era que gente como ele estava sempre na iminência de começar uma prática esportiva, se de repente o assunto de uma conversa terminasse, afinal, boa forma é coisa séria!

– Seja bem vindo, querido! – disse Angelina, tomando-o pela mão. – Eu acabei de terminar o almoço, espero que esteja com fome!

A mesa de jantar minúscula da cozinha da casa de Sam pareceu ainda menor com outra montanha, além do próprio Sam, usando-a. Quase não havia espaço para a luz iluminar a mesa, o que fez com que os pratos mergulhassem em escuridão. O ombro de Ralph, que era quem estava ao meu lado, resvalava no meu a todo instante. Meu cuidado ao levar o garfo à boca teve que ser redobrado durante aquela refeição.

– Gosta de espaguete, querido? – perguntou Angelina, sorridente a ponto de assustar qualquer resposta negativa que pudesse vir da parte de Ralph.

– Sim, bastante.

– Até porque, como o instrutor de academia disse, macarrão é bom para ganho de massa corporal, não é mesmo? – disse Sam, rindo, cutucando o braço do amigo enquanto falava.

– É, e ele disse que pão francês e um prato de arroz bem cheio também servem para isso! – Ralph respondeu no mesmo tom, e os dois estavam gargalhando.

– Por isso que é gordo daquele jeito – Sam retrucou, limpando uma lágrima.

– Comendo carboidrato em excesso e fazendo um treino fraco como o que ele faz, não tinha como ter outro resultado!

– E o mais foda é que ele diz que está em fase de Bulking!

Ralph e Sam bateram com tanta força um punho fechado sobre a mesa que todos os pratos saltaram. Suas gargalhadas agora eram tão altas que ribombavam nas paredes.

– Bulking... – Ralph repetiu, agora cobrindo a boca cheia de espaguete semimastigado com o punho.

O olhar de Angelina cobrava o meu. Quando o encontrei, dei de ombros. Eu sabia tanto sobre aquela conversa quanto ela.

– Caralho, isso é foda! – Sam concluiu.

Mas o teor da conversa, durante todo o tempo, foi basicamente esse. Sam e Ralph eram tão próximos que eu os invejava. Um vivia socando o ombro do outro, principalmente quando uma nova piada (interna) era contada. Ralph ria com intensidade, a garganta emitindo um ganido muito parecido com o de um cachorro sendo violentado. Em qualquer outra pessoa, eu teria achado aquela risada estranha. Nele, parecia caber muito bem, porque ele era bonito.

E eu não me lembrava de já ter visto Sam rir tanto quanto na ocasião. Seus olhos, naturalmente claros, agora cintilavam com lágrimas de riso. Quando ria, sua boca tomava conta do rosto inteiro, tornando-se o foco da atenção. Mas mesmo assim ele continuava bonito. Sam talvez fosse a única pessoa que eu conhecia no universo que não tinha um ângulo ruim.

– Me entreguem os seus pratos – pediu Ralph quando todos já tinham terminado a refeição.

– O que você vai fazer, querido...?

– Vou lavar a louça. É o mínimo que posso fazer como forma de agradecimento pelo almoço tão saboroso.

Eu revirei os olhos.

– Para com isso, cara! – Sam pediu, com olhar pouco paciente.

– Eu insisto, Sam...

– Temos muito o que fazer, não vamos perder tempo com isso...

– Não vou me sentir bem se não fizer. Por favor, Sam.

E ele fez. Lavou a louça gastando muito mais água e detergente do que geralmente Angelina gastava, mas lavou. Em pouco tempo, os pratos, talheres e copos estavam todos em seus devidos lugares, secos e limpos.

– Obrigada, meu amor – disse-lhe Angelina. – Isso foi adorável!

– Não foi nada, Sra. Evans...

– Angelina, querido.

– Angelina, então. – Voltou sua atenção para Sam e, atento aos dois como agora eu estava, consegui inclusive perceber quando ele olhou muito rapidamente para os lábios gordos do garoto, antes de focar a atenção em seu olhar. – E então, vamos?

– Vamos.

– Vão usar a mesa, queridos? – perguntou Angelina, conjurando um pano do nada, limpando a pequena mesa com a praticidade de um garçom prestes a receber novos e importantes clientes.

– Não. Vamos para o meu quarto – Sam respondeu.

Eu franzi o cenho, mas foi para o cenho franzido de Ralph que Sam concedeu uma resposta.

– É mais tranquilo – ele justificou. – Tem mais espaço.

Era uma mentira em cada um dos seus aspectos, mas ninguém questionou. Sam falava com uma segurança tão grande que desencorajava qualquer tipo de réplica ou questionamento que pudesse haver.

– Tudo bem – concordou Ralph, dando de ombros, derrotado. – Se for assim...

Os passos de Sam e Ralph já sumiam no segundo andar quando Angelina se voltou para mim e perguntou:

– Você não vai com eles?

Fui sincero com a minha resposta:

– Não temos aula de Inglês no mesmo período, então não posso fazer esse trabalho com eles.

Angelina deu-se por satisfeita.

E eu comecei minha caminhada com destino ao meu quarto, carregando comigo alguns pontos de interrogação.

Porque nada naquele dia estava fazendo sentido. Quer dizer, quantos amigos Sam já trouxera a casa daquela forma e os tratara tão bem a ponto de parecer estar apresentando um possível interesse amoroso para a mãe? Nenhum que eu lembrasse. Nenhum que o fizesse rir daquele jeito. Nenhum que ele fizesse questão de tocar tantas e tantas vezes enquanto almoçava. Nenhum que ele fizera questão de levar para o seu quarto.

Subi os degraus devagar. A princípio, o fazia porque não estava prestando muita atenção na caminhada, mas logo percebi que o que eu queria era fazer de conta que não estava por perto. Era como se eu quisesse que ninguém notasse a minha presença, esperando passar despercebido. Eu queria que Sam não soubesse de mim, e isso porque eu estava prestes a averiguar o que ele estava fazendo.

Apoiando os pés no chão com o maior dos cuidados, eu me aproximei da porta do seu quarto. Surpreendentemente, ela estava fechada, o que me fez levantar uma quantidade ainda maior de questionamentos. Apoiei as mãos nela e aproximei o ouvido.

Silêncio. Nada além do simples e puro silêncio. Nem parecia que tinha alguém dentro do quarto, mas tinha, e eles certamente estavam sendo bastante discretos. Talvez estivessem sussurrando uma conversa confidencial. Talvez estivessem fazendo algo com cautela, a fim de evitar que curiosos como eu pudessem supor alguma coisa, algo de errado. Talvez estivessem inclusive...

Ouvi um som. Era o arrastar de uma gaveta, disso eu tinha certeza. Paranoico como eu estava, imaginei logo o pior quando levantei hipóteses do que Sam poderia estar procurando em sua gaveta: camisinhas.

Oh, meu Deus!

Passos. Passos se aproximando. Afastei-me da porta instantaneamente, o medo me tomando como se um dos meus segredos mais profundos estivesse prestes a ser descoberto. Já estava voltado na direção da porta do meu quarto quando a do quarto de Sam se abriu.

– Ei, Blaine! – ouvi sua voz me chamar. Havia urgência nela.

Eu tinha acabado de ser descoberto.

– Sam, me desculpa, eu...

– Eu não encontrei minha borracha. Você tem uma para me emprestar?

O meu olhar podia ser o de alguém estupefato, mas o de Sam era o de alguém que espera uma resposta rápida, pois tem que continuar um raciocínio que começou há pouco, antes que ele fuja.

– Por favor? – ele insistiu.

– Claro – eu acabei dizendo e, instantes depois, eu entregava o que ele pedia.

– Valeu. Fico te devendo essa.

– Não precisa se preocupar – meus lábios diziam quando a porta do quarto de Sam bateu à minha frente.

Acho melhor se preocupar com outras coisas, se não quiser enlouquecer, foi o pensamento que perpassou minha mente enquanto contemplava o nada à minha frente.

Decidi que não seria uma má ideia pesquisar o que era o tal do Bulking, já que não tinha nada melhor para fazer.

Notas finais
Mas duvido que ele não ficou com os ouvidos atentos na direção do quarto do Sam rssssss