Blam!
16 A Piscina
Havia alguns tons de cinza no céu fazendo o possível para encobrir o azul que agora o tomava quase que por inteiro naquela tarde de sábado. A temperatura, no entanto, estava amena, daquelas na qual você não presta muita atenção e te encoraja a fazer o que tiver vontade. Encorajou-me, por exemplo, a vestir meu short de banho e descer até a área da piscina, mas, se tivesse que expressar em porcentagem qual fora sua participação nisso, eu diria que sua fatia do bolo era de uns vinte por cento. O restante pertencia a Sam.
É, ele também estava na piscina naquela tarde, só que estava há mais tempo do que eu. Com o fim da semana de provas, era possível encontrar mais momentos para relaxar, curtir uma atividade sem preocupações com pendências, e ninguém era melhor do que o próprio Sam para curtir esse tipo de oportunidade. Agora, ele apoiava os braços na borda da piscina, voltado para o seu interior – voltado na minha direção. Estava na parte mais funda, então seus pés provavelmente não tocavam o chão. Eu, por outro lado, estava prestes a saltar na parte mais rasa, que talvez tocasse não mais do que a altura do meu umbigo.
Eu só tomara a iniciativa de querer entrar na água porque Sam prometera que me ensinaria a nadar.
Claro, a realidade era que eu não dava a mínima para aprender a nadar, afinal, eu era nova-iorquino, vivia na cidade grande e não tinha tempo para gastar com poças de água maiores do que as de uma privada. Praia, talvez nas férias, e mesmo se eu fosse talvez eu não fizesse mais do que abrir uma cadeira sobre a areia e ficar lá enquanto o sol fazia seu trabalho em minha pele, deixando-a menos pálida. A água salgada serviria só para complementar a paisagem, junto com o céu azulado.
Mas Sam havia se oferecido para me ensinar a nadar e qualquer oportunidade de estar ao seu lado e de ter sua atenção era muito mais do que bem vinda. Aceitei na hora. Subi ao meu quarto e vesti o short de banho. Encontrei-o na piscina pouquíssimo tempo depois e agora estava na borda, olhando-o nos olhos apertados por conta da boa quantidade de claridade que ainda havia naquela tarde.
– Blaine?
Quando ele chamou meu nome, eu despertei do transe em que ele havia me colocado e, de fato, passei a olhá-lo, e não só a mergulhar no olhar dele.
– Vamos, Blaine, por que a demora?
Porque eu não era um grande admirador de piscinas e porque a água prometia estar gelada. Levei o dedão do pé à água e, com o toque gélido, os arrepios percorreram todo o trajeto que ia desde o meu pé até a minha nuca. Como Sam podia estar tão à vontade, estando a água tão fria quanto o interior de uma geladeira?
– Não devia testar a água assim, Blaine. Ela está gelada, mas enquanto o seu corpo não se acostumar com ela, vai continuar parecendo uma ameaça. Você precisa entrar de cabeça.
– O quê?!
– É! Um mergulho! Coloca as mãos na frente do corpo e se joga de cabeça. Vai mergulhar o corpo todo de uma vez e vai ser menos sofrível do que entrar de pouco em pouco.
– Então ainda vai ser sofrível.
– Vai durar um instante só. Faz o que estou falando: as mãos unidas na frente do corpo e se joga de cabeça em um mergulho. Isso você sabe fazer, não sabe?
– Não.
– Então essa vai ficar sendo nossa primeira lição. Vamos lá, mergulhe!
Uni as duas mãos em frente ao corpo e me curvei um pouco. A água, tão bonita e azul, emitindo aquele som alegre de movimento, me encarava de volta como se me convidasse para uma armadilha mortal. Eu fechei os olhos. Sam provavelmente ficaria impaciente se eu demorasse mais um pouco, então era melhor que eu começasse logo com aquilo.
Eu nunca tinha mergulhado de cabeça e, para uma primeira tentativa, aquela foi tão desastrosa quanto se esperava que fosse. Foi quase um pulo de barriga, então foi ela quem praticamente sentiu a água primeiro e quem tomou todo o impacto. A dor a consumiu por inteiro e, alguns centímetros debaixo d’água, a frieza que vinha dela não pareceu amenizá-la, pelo contrário; era quase como se a água apenas acentuasse o sofrimento. Eu teria gritado se pudesse.
Quando retornei à superfície, no entanto, afastando a água dos olhos e uma franja de cabelos negros para o lado, o que Sam tinha dito se fez verdade: a temperatura da água não era mais um incômodo. A pior parte já havia passado, até mesmo a dor da pancada na barriga (ainda que eu pudesse senti-la, mesmo que com pouca intensidade).
Contudo, a água batia na altura do meu peito, o que, para mim, já era sinal suficiente de perigo.
– Viu só? – Sam disse. – Não foi tão horrível, foi?
– Não tanto – eu respondi, o queixo querendo tremer. – Mas foi.
– Agora podemos começar.
Sam se soltou da borda e, com uma série de três braçadas, chegou à região da piscina em que eu me encontrava. Pôs-se de pé. Era pouca coisa maior do que eu, mas ainda assim tinha que olhar para baixo – e eu olhava para cima com cautela, como se temesse o olhar reprovador de um professor que observa o aluno executar uma tarefa.
– O que você sabe fazer? – ele perguntou, sério, paciente.
– Sei boiar. Às vezes. De costas.
– Já é algo. Boiar de frente não vai ser tão difícil, mas você precisa aprender. Nadar é basicamente isso: flutuar na água e deixar as pernas e os braços fazerem o restante. Você precisa aprender a boiar e conciliar os gestos necessários com isso, tudo bem?
– Tudo.
– Vamos ver como você se sai, então.
Ele estendeu as mãos espalmadas em frente ao peito, como se estivesse prestes a começar uma oração.
– Vamos lá, me dê as mãos – ele disse, enfatizando o pedido com uma guinada de cabeça. Eu ainda não entendia o propósito do que ele desejava, e ele deve ter percebido isso, porque logo se explicou: – Eu vou puxar você pela água. Vou deixá-lo se acostumar com a superfície e, quando você menos esperar, vou soltá-lo. Agora pegue a minha mão.
Eu peguei. Mais uma vez, o toque áspero das mãos de Sam nas minhas.
Seus polegares envolveram meus dedos e então ele começou a caminhar para trás, o rosto sério, os lábios exageradamente grandes apenas fechados, os olhos focados no que fazia. Eu tinha plena consciência de que ele olhava nos meus olhos e, apesar de querer poder olhar nos dele também, eu não conseguia; com os pés longe do alcance do chão, eu tinha que dividir a atenção com o homem que segurava as minhas mãos e o redor, procurando pontos de referência, tentando entender o que acontecia para não ficar de todo perdido no que fazia. Senti meu corpo levitar, como Sam disse que aconteceria, e cortar a água conforme ele caminhava, puxando-me pelas mãos.
– Se quiser, pode começar a bater os pés. Só um pouco, só para se acostumar.
Eu concordei e comecei a bater os pés, com timidez, sem fazer barulho, apenas pedalando a água sem muita pressa. Quando obtive todo o controle de que precisava para boiar na superfície, consegui focar uma parte maior da minha atenção em Sam. Ele ainda olhava para mim, embora sem nenhum traço de admiração, apenas o olhar atencioso de um professor que espera que seu aluno faça a coisa certa. Se não fizer, seu olhar atento perceberá e sua boca emitirá uma ordem, exigindo que algo seja consertado. Sam não disse nada por um tempo.
Talvez ele não fizesse a menor ideia do quanto romântico aquilo estava sendo.
Um dia quase ensolarado, de boa temperatura. Um sábado à tarde, numa piscina de água cristalina. O silêncio vindo do Maine. O belo jardim ao redor. A serenidade que o bairro proporcionava. A sensação de isolação. As mãos de Sam segurando as minhas e a dedicação que o fazia se importar tanto em querer me ensinar a nadar. Aquele era o cenário típico de um dos meus sonhos mais profundos – tanto que eu tinha uma forte sensação de déjà vu enquanto tudo aquilo acontecia – e tudo acontecia com perfeição, sem nenhum erro, como deveria ser. O jeito como ele me olhava talvez não fosse dos mais admiráveis, mas ainda assim era um olhar, uma atenção, o que significava que eu estava sendo digno do tempo dele. Eu deveria aproveitar o momento e curti-lo enquanto ainda podia, obviamente. Talvez as coisas não fossem assim nos próximos dias.
Apesar de que tudo havia mudado bastante depois da noite em que ele quase foi pego no meu quarto. A fúria com que ele entrara pela minha porta e forçara seu pau dentro da minha boca. O jeito como ficou relaxado depois de gozar, e também como ficou eufórico com a perspectiva de quase ter sido descoberto pela mãe. A maneira como abriu o coração para mim, dizendo coisas sobre como estava passando por maus bocados, tempos difíceis. O jeito como seu semblante se iluminou quando ouviu de mim que poderia me considerar um amigo. Era quase como se não estivesse acostumado com esse tipo de gentileza, ou como se a provasse pela primeira vez. Talvez o círculo social de Sam não estivesse contaminado por esse sentimento fraternal que geralmente envolve vários tipos de amizade. Vai ver, ele não tinha nenhuma amizade de verdade.
Fato era que agora eu não era só o morador temporário da sua casa com o qual ele podia contar quando quisesse uma aventura sexual; agora ele conversava comigo. E sorria para mim. Quando íamos à escola, ele me contava suas novidades e se interessava pelas minhas. Se havia alguma definição melhor para divisor de águas do que o acontecimento daquela madrugada, eu não conseguia pensar em nenhuma.
– O que está achando? – Sam perguntou. Estávamos numa parte mais funda da piscina.
– Acho que estou entendendo o que quer dizer.
– Acha que consegue nadar sozinho?
– Talvez.
– Quer tentar?
– Você está pensando em me soltar?
– Se precisar de ajuda, eu venho para te ajudar.
Mas eu não queria soltar a mão dele.
– Não precisa se preocupar, vamos lá – ele disse e eu senti seus dedos se afastarem dos meus. – Use os braços como quiser e não se esqueça de bater as pernas. Cave a água, se preferir; é o jeito mais fácil de aprender a nadar.
E então ele me soltou.
Por um momento, eu achei que fosse afundar com a cara na água, e minha boca abriu tanto com o susto que eu provavelmente engoliria o equivalente a um copo cheio de água nessa manobra. Comecei a “cavar” a água, como Sam havia sugerido, e, por um milagre, não afundei. Olhei ao redor, descrente do que estava acontecendo: minha cabeça ainda estava na superfície. Meus pés batiam por si só, levando-me para frente e mais para frente. Eu estava me deslocando para a parte mais funda da piscina e eu fazia isso sozinho, sem ajuda, sem ninguém precisar me segurar, como uma criança que finalmente aprende a andar de bicicleta sem as rodinhas, uma conquista que nunca, em anos, eu achei que...
Um trovão cortou o céu e seu brado pareceu espancar todo o redor. Assustado, perdi o ritmo do que eu estava fazendo e, consequentemente, fui água adentro. Não engoli água, no entanto, mas vi várias bolhas de ar subirem diante dos meus olhos. Eu estava indo ainda mais fundo quando a mão de Sam encontrou a minha e me puxou para cima.
– Não tão rápido – ouvi-o dizer quando já estava na superfície.
Ele me puxava pela água mais uma vez, embora não esperando que eu boiasse e batesse as pernas como antes, mas decidido a me guiar para a escada que nos tiraria da piscina. No meio tempo em que estive dentro da água, uma chuva torrencial começara a cair, seguida ao trovão que me desnorteara. Só agora eu percebia o quanto rápido o tempo tinha passado enquanto Sam me ensinava a nadar; fora suficiente para que aquelas manchas cinza de nuvens de chuva não só tomassem todo o céu de Portland, mas mostrassem a que tinham vindo.
A chuva, caindo com força exagerada, nos castigou em nosso caminho até o toldo que cobria a área de descanso no entorno da piscina, próxima à porta que dava para a cozinha. Com ainda mais frio do que antes eu estava, as mãos unidas em frente ao corpo, eu tremia ao lado de Sam que, ao meu lado, assim como eu, assistia a chuva varrer o cenário com o corpo gotejando.
– Você foi muito bem ali – ele disse, cutucando-me com o cotovelo.
Olhei-o para ter certeza de que não estava brincando comigo antes de dizer:
– Obrigado.
– Claro, no começo foi melhor do que no restante do tempo, mas foi. Acho que você tem futuro nisso.
– Você é mesmo muito bom em ensinar.
– Nisso e em muito mais.
Estupefato demais para conseguir pensar em algo para dizer, eu fiquei em silêncio.
Sam cutucou-me agora com o seu ombro e, quando me voltei para ele, ele sorria com malícia.
É claro que o Sam safado, anterior ao divisor de águas, ainda se encontrava ali, em algum lugar. E era bom saber disso, porque significava que eu ainda poderia contar com ele quando quisesse.
E pode ter certeza de que eu queria.
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