Blam!

15 A Madrugada


Eu não conseguia ouvir mais do que a minha respiração na escuridão do quarto, e eu respirava pela boca, porque isso parecia acelerar o processo, forçar o conforto, tornar mais rápida a troca de ar. Meu peito subia e descia e eu, agora sentado na beira da cama, contemplava o carpete do chão em vários pontos diferentes, como alguém faria ao procurar algo muito pequeno e que se perdeu. Apoiei a cabeça nas mãos e, em pouco tempo, meus dedos estavam embrenhados nos cachos negros que eram os meus cabelos. A respiração já começava a ficar a normal. Foi quando a realidade caiu como um pacote jogado do teto dentro do quarto que eu voltei meu olhar para Sam.

E ele se soltou da parede. Não parecia de todo seguro; seu olhar ainda era assustado e ele também respirava pela boca, daquele jeito que só alguém que correu muitos quilômetros ou que passou por um momento muito grande de desespero pode fazer. Caminhou na minha direção calculando bem os passos, como se ainda tivesse medo de fazer barulho. Sentou-se ao meu lado, na beira da cama. Olhei rapidamente para o seu rosto (Sam olhava para o carpete, como eu fizera há pouco), mas logo voltei minha atenção para o espaço entre suas pernas. O pênis, já quase amolecido, nem parecia o mesmo de antes. Agia como se planejasse se esconder por entre os pelos que deveriam protegê-lo. Ainda assim, essa imagem me excitava, porque aquele era Sam ao natural, no dia a dia, quando dirigia, quando se sentava à mesa para o café da manhã, quando ria durante um filme de comédia, sentado no sofá.

Havia rubor no meu rosto e uma vontade incrível de rir. Eu estava eufórico. Sam mantinha sua coxa encostada na minha não porque ansiava pelo meu toque, mas porque, ao se sentar, foi assim que se sentiu mais confortável. E ele estava confortável, estava à vontade, e estava do meu lado. Seminu.

Sam apoiou os cotovelos nas coxas e escondeu o rosto na mão, como eu tinha feito há pouco também. Ouvi-o suspirar. Vê-lo assim, tão desprendido de pudor, era inspirador, me fazia pensar em como a vida parecia algo tão bonito em momentos como aqueles. Fazia com que eu me sentisse feliz e quase me fazia acreditar em felicidade plena. Dormir na mesma cama que Sam todo dia e depará-lo daquele jeito era um sonho que eu tinha certeza de que jamais se realizaria, mas eu podia apreciar aquele instante e eternizá-lo na minha mente. E era isso o que eu ia fazer.

Sam riu. Afastou as mãos para a testa e, curvado daquele jeito, riu quase que em sussurros. Eu conseguia ver o branco dos seus dentes no perfil do seu sorriso, mas não mais do que isso. Claro que eu poderia ter perguntado algo, começado uma conversa, exposto minha curiosidade em saber o que ele pensava, mas... Isso não era comum. Eu não estava acostumado a ter conversas profundas com Sam. Quando seu pau não estava envolvido na coisa, éramos apenas colegas distantes que dividiam a mesma casa.

Além do mais, ele já tinha me passado o aviso: eu não deveria falar sobre aquele lance se ainda queria que ele se repetisse. E agora, sentado ao seu lado, o pau doendo entre as pernas, com o esperma de Sam espalhado pelo peito, eu tinha certeza de que eu queria que aquilo se repetisse por várias e várias vezes, quantas fossem possíveis.

Respirei fundo. Eu não conseguia me conter de tanta animação.

– Isso foi... – Sam disse de repente, ainda curvado sobre os cotovelos.

Não continuou a frase. Agora olhava para frente, como se procurasse na parede à frente a palavra perfeita para terminar aquela sentença. E eu só tinha olhos para ele.

– Isso foi emocionante – ele disse quando a encontrou, e assentiu algumas vezes com a cabeça, como se enfatizasse que realmente concordava com aquele ponto de vista. – É, foi isso. Emocionante.

Voltou-se para mim. Os olhos claros pararam nos meus e não piscaram por um bom tempo. Eu tampouco tive coragem de fechar as pálpebras enquanto ele me olhava; tinha que guardar aquele momento na minha mente e o observaria por todo o tempo que fosse necessário.

– Ah, me desculpe! – ele disse de repente, ainda sussurrando.

E antes que eu tivesse chance de perguntar por que ele estava se desculpando, ele me empurrou contra o colchão e – o que fez ainda menos sentido – retirou a própria regata.

– Isso ainda ficou em você – ele disse e se curvou sobre mim. Seu rosto ficou tão próximo do meu que minha vontade de roubar um beijo dele foi irresistível a ponto de eu levantar a cabeça pelo menos um pouco para conseguir realizá-la.

Mas ele não estava tão próximo quanto eu achava e meu pescoço limitou meu avanço. Quando Sam se aproximou, já de olhos fechados, e uniu seus lábios aos meus, eu perdi as forças e voltei ao colchão. Não houve língua, não houve coreografia, não houve nada além do toque macio daqueles lábios imensos nos meus. Quando ele se afastou, olhando para mim como alguém que espera algum tipo de reação de outra pessoa, eu soltei todo meu fôlego de uma só vez.

E sorri. Sorri para o alto, para o teto. Abaixei o olhar e Sam ainda me observava, sério. Estava ainda tão próximo que seu hálito limpo, de alguém que não ficara o suficiente em uma festa nem para comer um quitute, invadia o meu nariz a cada novo ciclo da sua respiração.

– Eu vou limpar isso – Sam disse.

– Limpar o quê?

Sam indicou com a cabeça o meu peito. Enrolou a regata em uma coisa sem forma e começou a limpar o esperma de mim, passando a camiseta em algumas regiões do meu peito e deixando a substância pegajosa grudar nela. Não parecia estar sendo tão eficaz quanto as intenções de Sam esperavam, mas ele continuou. Havia mais esperma em mim do que eu achava possível que um homem expelisse.

– Sam, não precisa fazer isso...

– Está preocupado com a regata? Se for, eu vou jogá-la no cesto de roupa suja e ninguém vai perceber.

Eu mal conseguia respirar enquanto ele limpava seu gozo de mim. Mesmo aquele gesto simples, sem nenhum tipo de erotismo, me deixava excitado. Meu pau mal conseguia se conter na cueca, e era quase como se ele chamasse minha atenção, exigindo que eu fizesse algo a respeito, agora que ele estava tão animado. Uma pena que eu não pensasse em fazer nada enquanto Sam ainda estivesse por ali. Agora que ele tinha gozado, eu tinha sérias dúvidas sobre ele estar a fim ou não de um segundo round.

– Acho que você vai ter que usar água para tirar isso por completo, mas eu já tirei o grosso – disse e se afastou.

Você é perfeito, foi o pensamento que correu minha cabeça quando o vi se levantar e expor todo aquele corpo desnudo, vestido apenas com um par de meias, diante do meu olhar, e a frase com o seu conceito foi tão forte que eu podia jurar que a tinha dito. O silêncio da parte de Sam veio para comprovar que eu não tinha dito nada, afinal.

– Você consegue ver onde está a minha bermuda?

Em cima da cama, eu apontei. Enquanto me limpava, ele estivera deitado sobre ela e nem sequer percebera isso. A cueca estava junto dela.

– Valeu, Blaine – ele disse e se vestiu, sem a camiseta.

Com as mãos na cintura, olhou ao redor. Se estivesse procurando seus tênis e quisesse ajuda, eu poderia dizer que um deles estava exatamente a um passo da porta e o outro estava em frente à cômoda, onde fora parar depois de lançado. Se Angelina fosse uma mulher atenciosa, teria visto que havia dois pares de calçados descalçados no quarto quando entrou, mas eu podia duvidar que ela tivesse prestado atenção nisso.

– Isso foi incrível. Incrível. – Sam voltou-se para mim. – E você, o que achou?

Ele queria que eu fizesse um comentário? Claro que eu poderia dizer que tinha achado aquilo espetacular, que Sam era o homem que eu desejava e que muito provavelmente desejaria pelo resto da vida e que era praticamente a realização de um sonho tê-lo ali e ter o prazer de chupar o seu pau, mas o quanto carente eu pareceria dizendo essas coisas? O suficiente para afastá-lo daquele quarto mais cedo do que eu preferia, provavelmente.

Agi como se não soubesse do que ele estava falando.

– Do que você está falando?

E foi a melhor coisa que eu podia ter feito, porque não era exatamente daquilo que eu estava pensando que ele estava falando.

– Da Angelina, de ela ter vindo até aqui e de ter quase visto a coisa toda – ele disse e a lembrança o fez rir novamente. – Eu nunca me senti com tanto medo. Ao mesmo tempo, essa sensação fez com que eu me sentisse tão vivo. Quer dizer, no final deu tudo certo, mas o medo... Ele foi tão intenso, foi tão tangível... – Passou a mão na boca, segurando o lábio inferior com o polegar e o indicador. – Isso foi do caralho.

Eu ri, dessa vez de nervosismo, porque eu não estava entendendo muita coisa do que Sam dizia.

– Obrigado por isso – ele disse, ainda com um ar de risonho. – De verdade. Tenho passado por tanta coisa ultimamente, e também houve os meus planos que foram totalmente furados nessa noite e... Nada tem dado certo para mim. Nada. Eu não tenho estado muito bem ultimamente e...

– Eu percebi – eu disse, interrompendo-o sem hesitar.

– Você... percebeu?

– Sim.

Sam pareceu chocado com a minha revelação, mas eu não conseguia entender por quê. Eu não tinha dito nada de mais, e se sua surpresa era porque eu tinha percebido que ele não estava bem sem que ele tivesse precisado me dizer aquilo antes, bem, Sam não era muito bom em fazer de conta que as coisas andavam bem.

– Como você poderia? – ele perguntou.

Eu dei de ombros antes de dizer:

– Eu o observo, Sam. De perto. Seu quarto não é muito longe do meu e, enquanto você presta atenção na estrada no nosso caminho até a escola, eu presto atenção em você. E também na escola eu faço isso. Não tenho muitos amigos, então tenho tempo de sobra para perceber esse tipo de coisa. – Sorri com desgosto, mas acabei por dizer: – No final das contas, acho que sou um ótimo observador.

– E por que você tem se importado comigo?

Aquela pergunta era idiota, e eu tive vontade de esmurrar Sam. Como ele não podia sequer suspeitar do porquê de eu me importar tanto com ele? Ele fizera com que eu me apaixonasse por ele, e pessoas apaixonadas se importam mais do que o normal com a sua paixão. Mais até do que com elas mesmas. Essa era a resposta mais pura e sincera, e será que Sam era tão burro assim que não conseguia captá-la por si só?

– Porque eu o considero um amigo – foi o que eu disse, no entanto.

Sam me contemplou com as mãos ainda na cintura. Parecia julgar não só o que eu acabara de dizer, mas também o meu ser, o que eu era, o jeito como eu estava vestido.

– Você diz que me considera um amigo – ele disse, por fim.

– Sim.

– Então você me vê como um amigo.

– Você é um cara legal. Considerá-lo um amigo, em vista disso, era mais do que esperado, não? – eu disse e tentei rir, como se fizesse uma piada irônica, apesar de ter dito a verdade em sua melhor forma.

– Isso é legal de saber.

– É mesmo? – eu perguntei, o coração voltando a martelar no peito, a euforia se reacedendo como se alguém tivesse jogado álcool em uma fogueira perto do fim. – Por quê?

Sam engoliu em seco, e essa foi provavelmente a primeira vez em que o vi hesitar dessa forma.

– Porque significa que eu tenho alguém em quem confiar de verdade – ele disse e olhou para o chão. Eu quase podia ver constrangimento em seu semblante.

E assim Sam finalizou sua estadia no meu quarto. Voltou-se em direção à porta e, no caminho, apanhou seus tênis. Passou pela porta em silêncio, mas, antes que ele a fechasse, eu o chamei:

– O quê? – ele quis saber, e eu pude notar certa ansiedade na sua voz.

– Só queria que soubesse que pode contar comigo com o que for, Sam. Não estou mentindo.

Sam assentiu, um sorriso malicioso entortando os lábios.

– Não vou me esquecer disso. Tenha uma boa noite, Blaine.

Ele saiu e deixou a porta semiencostada. Instantes depois, eu vi a luz do corredor se apagar.

Era a minha deixa para voltar a dormir.

Mas quem no mundo afirmaria que eu conseguiria dormir numa boa depois de tudo o que aquela madrugada reservara a mim?