Blam!

10 A Explicação


Se já não estivesse claro o suficiente, agora era oficial: eu estava obcecado por Sam.

E isso estava claro porque o tratamento que ele destinava a mim não era dos mais respeitosos, amorosos ou afetuosos e, ainda assim, eu o queria por perto. Eu o queria para mim. Torcia para que tivéssemos oportunidade de ficar um perto do outro, apreciava quando sentávamos àquela minúscula mesa que sua pequena família usava para fazer as refeições, porque ela nos forçava a ficar próximos e porque o cheiro preso à gola da camiseta de Sam ficava mais acessível. Eu gostava de olhar para os seus dedos; dedos brancos de unhas rosadas, às vezes feridos porque ele roia as unhas. Gostava como ele segurava o volante do carro ou sua caneca de café.

E gostava do jeito como ele me fazia sentir desejado quando me surpreendia com seus pedidos absurdos.

Eu guardava a lembrança dos momentos com riqueza de detalhes, pois gostava de repassá-los e me masturbar com essas imagens. O dia em que Sam entrara no meu quarto e me roubara

o fôlego

um beijo. As vezes em que pude sentir seu pênis contra o meu corpo. Seu hálito dentro da minha boca ou atrás da minha orelha. A aspereza de sua pele quando eu o tocava onde quer que fosse. Essas eram recordações que eu guardava em potes devidamente selados e muito bem localizados, para fácil acesso.

Porque sempre havia a possibilidade de Sam desistir de continuar com aquilo. Claro os pensamentos iam e vinham antes de Sam me surpreender com uma nova peripécia sexual, mas quando ele ficava muito tempo fazendo de conta que eu não existia era fácil pensar que, daquela vez, tinha acabado, já era, havia sido bom enquanto tinha durado. Sam era um homem dos pés à cabeça e, como um ser que exala e funciona em função de sua testosterona, ele tinha interesses mais importantes do que um garoto de Nova Iorque e seu corpo pouco definido. Talvez ele até gostasse de sair com meninas, o que eu não achava improvável, já que ele sempre saía com seus amigos para fazer “algo” do qual nunca falava.

– E por que você não vai com eles, querido? – Angelina costumava me perguntar quando Sam saía, geralmente à noite, quando ela estava lavando a louça do jantar.

– Porque tenho que estudar – era a desculpa que eu dava mesmo que aquele fosse um dia útil, mesmo que fosse um fim de semana, mesmo que fosse sexta-feira à noite, mesmo que eu não tivesse prova ou trabalho nenhum à vista. Era a forma que eu encontrava de enganar Angelina e aliviar o pensamento de que eu e Sam não éramos amigos e justificar para o universo o porquê de eu não querer fazer parte de seu círculo social.

Mas a verdade era que eu não suportava o jeito como Sam me tratava quando não estava pressionando seu pau contra mim ou me forçando a masturbá-lo. Era um jeito indiferente que me fazia parecer alguém invisível. Ele me esperava todos os dias para me dar carona para a escola, mas o fazia como alguém que faz um favor ao levar o lixo para a lixeira. Me esperava também na volta e até me ligava quando eu demorava um pouco mais para aparecer, mas o fazia não porque gostasse de mim, mas porque se importava com o meu bem estar, o que era pura e simplesmente um atitude ética da sua parte, e não amorosa.

E talvez tenha sido por conta dessa busca por uma atenção maior de Sam que eu acabei por deixar de me interessar por qualquer outro garoto que pudesse surgir na minha frente.

E surgiram alguns. Alguns eram tão gays que não causavam mistério, mas um deles tentava chamar a minha atenção de maneira discreta, quase imperceptível. Duvido que um garoto interessado por garotas teria notado aqueles olhares.

Quando eu organizava as minhas coisas em meu armário, lá estava ele, a cinquenta metros de distância, arrumando as próprias coisas em seu armário e olhando na minha direção. Não demorava mais do que dois segundos fazendo isso, mas eu o notava, e isso já era o bastante. Era um garoto alto, bastante magro, de olhar quase maldoso e sorriso grande. O cabelo estava sempre organizado em um topete incomum, digno de ter sido moda nos anos sessenta. Eu não sabia o seu nome e nem de que classe ele era, mas eu não me importava. Ele, assim como todo outro garoto que chamasse a minha atenção ou por estar com os braços à mostra ou porque era simplesmente um cara bonito, era preto e branco. Colorido mesmo era o Sam.

Mas esse cara continuou presente. Quando eu bebia água no bebedouro, lá estava ele, na companhia de outros dois garotos, fazendo de conta que prestava atenção no que lhe diziam, mas, de braços cruzados, olhando na minha direção. Eu o notava e ele desviava o olhar – não como alguém que se arrepende de ter sido descoberto, mas ocasionalmente, como se o “objeto” que observava tivesse subitamente perdido todos os seus atrativos e ele não sustentasse mais o menor interesse por ele. Não tentava se esconder, ah, não, mas, diferentemente dos outros caras, ele era silencioso. Como dizem, olhar não arranca pedaço, e ele nunca arrancou um pedaço meu.

Mas incomodava, principalmente pelo fato de que eu queria que fosse Sam o cara que tivesse coragem de me encarar assim, em público, nem que fosse para olhar para a minha bunda. É frustrante quando nossos desejos não acontecem como queremos, e mais frustrante ainda era perceber que, quanto mais os dias passavam e mais distante ficava a última vez em que meus dedos haviam envolvido o pau de Sam, mais aquele estranho se mostrava presente. Era quase como se o universo conspirasse contra mim, como se fizesse um experimento e ansiasse pelo momento em que eu demonstraria alguma reação inusitada para a situação. Como se eu fizesse parte de uma pegadinha.

E como qualquer outra angústia, a minha começou a crescer como uma espinha: no começo, você até aceita, mas depois ela começa a doer e você sente que precisa fazer algo a respeito, E eu decidi fazer.

De forma bem infantil, mas decidi fazer.

Ciências era a aula que eu e Sam tínhamos em comum, no mesmo horário, e, usando isso de artifício, munido de caderno, livro, lápis e borracha, eu surgi em uma tarde de segunda-feira na porta do seu quarto. Bati duas vezes, apesar de a porta estar aberta. Sam e seu delicioso corpo escultural estavam deitados em sua cama, um pé sacudindo sobre o outro enquanto a música que tocava em seus fones de ouvido o fazia dançar. Sam, como sempre, dedilhava a tela daquele celular com a rapidez de um ninja, e demorou a notar a minha presença. Quando notou, olhou para mim com estranheza, especialmente após notar o kit que eu trazia comigo.

– O que está havendo? – ele perguntou.

Esperei que ele retirasse os fones de ouvido para falar:

– Tenho dúvidas sobre a aula de Ciências.

Muitos teriam rido se pudessem assistir aquela cena, porque Sam não era nenhum ás das ciências. Na verdade, pouco se importava com o que a matéria significava, mas adorava executar experimentos, principalmente aqueles que mudavam formas de determinadas substâncias diante dos olhos ou que envolviam vários tipos de cores. Sabia seguir uma receita quando era preciso pesar ou medir quantidades de algo antes de misturá-los, mas se precisasse explicar o porquê das reações que provocava ele era uma verdadeira negação. Havia boatos de que ele não era bom em matéria nenhuma, na verdade.

Inclusive, havia boatos de que ele fosse disléxico, mas esse era um assunto no qual eu ainda não tinha coragem de tocar.

– Blaine, eu sinto muito... – ele começou a dizer, balançando a cabeça em negativa.

– Por quê? Eu ainda nem falei o que quero.

– Não posso te ajudar. E você sabe disso perfeitamente bem.

– Claro que pode – eu disse, adentrando seu quarto. Quando já tinha dado quatro passos em direção à cama de Sam, percebi que não tinha fechado a porta. Dessa forma, se havia alguma chance de algo acontecer entre nós dois, ela tinha ido embora, com malas prontas, pela mesma porta pela qual eu havia acabado de passar.

Sam se arrumou na cama, sentando-se na beirada, deixando espaço ao seu lado para que eu pudesse me acomodar. Eu sentei ao seu lado e abri meu caderno (se Sam o tivesse olhado, teria percebido de prontidão que minhas intenções ao falar com ele naquela tarde nada tinham a ver com as aulas de Ciências realmente, já que a página em que o caderno foi aberto era a da matéria de História).

– Fala – ele disse.

– Preciso falar sobre as aulas de Ciências.

– Essa parte eu entendi.

Engoli em seco; eu estava sendo repetitivo. Era melhor ir direto ao ponto.

– Eu queria saber se... Eu precisava perguntar se você gosta do que temos feito nas aulas de Ciências.

– Do que temos feito?

– É.

– Dos experimentos?

– Não. – Apertei os olhos, constrangido.

– Então não sei do que está falando.

– Claro que sabe. – Sam não era muito bom com entrelinhas. – Eu estou falando do que fizemos no laboratório. – Os olhos dele eram sérios e mal piscavam. – E também aqui. E lá. – Eu apontei para o meu quarto.

Sam não deu nenhuma resposta, então tive que perguntar:

– Você gosta do que fazemos?

Sam não iria responder, eu logo percebi enquanto ele ainda manteve aquele olhar de poucas palavras na minha direção. Uma grande quantidade de luz solar entrava pela janela do seu quarto e criava uma aura dourada ao seu redor, uma que o deixava ainda mais atraente do que ele naturalmente era. Essa imagem tornava ainda mais difícil a rejeição, porque me fazia pensar que eu e minha vida medíocre jamais desfrutaríamos de Sam do jeito que eu desejava. Sam era um daqueles sonhos que muita gente passa a vida inteira lutando para alcançar, e era provável que eu viesse a morrer como uma dessas pessoas também. Eu não era mais especial do que ninguém, era?

– OK, eu já entendi – desembestei a falar. – Talvez eu tenha julgado a coisa de forma errada. Não é algo que fazemos, é algo que fizemos. Acabou. – Dei de ombros e ri. – Vou fazer de conta que nunca aconteceu.

– Faça.

Eu já estava olhando para a porta quando Sam disse aquilo, mas logo voltei minha atenção na sua direção, com extrema rapidez.

– O quê?! – eu indaguei, a voz soando aguda como a de uma criança, uma voz que precede choro ou um ataque de histeria. E eu me sentia assim não porque estava decepcionado, mas porque, de repente, eu não soube lidar com aquela situação. Era desesperadora em tantas formas...

Como ele podia sugerir que eu me esquecesse de algo que fora tão importante para mim? Eu não estava falando sério quando tinha dito aquilo. Eu só estava querendo ser dramático!

– Por que quer que eu faça isso, Sam? – acabei perguntando. – É assim que você lida com as coisas? É assim que lida com relações? Quando não se interessa mais, amassa a coisa e joga no lixo, esperando que os garis levem o problema embora no dia seguinte?

– Porra, Blaine, não tem nada a ver com isso.

O som do palavrão me pegou de surpresa, tanto quanto seria receber um tabefe inesperado.

– Então o que é? – eu quis saber, mesmo assim.

E Sam não titubeou para responder, como se a resposta estivesse, na verdade, na ponta da língua o tempo inteiro.

– Excitação.

Sem entender o que aquela palavra significava naquele contexto (ainda que ela pudesse ser facilmente associada a ele), eu fiz cara de confusão.

E Sam continuou:

– Me excita fazer algo escondido.

Meu caderno deslizou pelas minhas pernas e caiu no chão quando eu tombei um pouco para trás e me apoiei na cama de Sam, mas eu não me importei com isso.

– Então, se quiser continuar com isso, a gente pode continuar – ele continuou. – É só não falar a respeito. É só a gente não conversar a respeito. É assim que as coisas funcionam para mim, Blaine.

Eu não sabia o que dizer ainda.

– Então, se quiser fazer de conta que nada aconteceu, faça – Sam disse, olhando fundo nos meus olhos. – Agora, se quiser tirar dúvidas sobre Ciências, sinto muito, mas não vou poder te ajudar.

Encaixou os fones de ouvido novamente no ouvido e voltou a se estirar na cama. Não pediu licença quando tendeu esticar as pernas, então eu tive que ser rápido para sair dali antes que servisse de apoio para elas.

Porque era assim que Sam me tratava: fazia de conta que eu não existia. Por tesão, segundo o que acabara de dizer.

E eu não fazia ideia do que pensar sobre isso ainda.

Notas finais
Escrevi esse capítulo ao som do single novo do Brandon Flowers, "Still Want You", e foi maravilhoso ;________; Aliás, a fic chegou a mais de 1000 visualizações. Valeu a todos, pessoal! :D