Blam!
14 À Noite
O humor de Sam andava tão instável quanto a minha confiança nele.
Havia momentos em que ele conversava comigo, principalmente quando me dava carona para a escola, mas em outros ele simplesmente me tratava como ninguém. Como um travesseiro, talvez. Às vezes, me dizia o que ia fazer ou comentava alguma coisa curiosa, mas, em outras, só se dirigia a mim quando era para pedir licença no corredor. Ele não estava bem, apesar de dizer à mãe várias e várias vezes que estava, sim.
Mas naquela noite de sexta-feira ele falou comigo. Eu o vi diante do espelho de seu quarto, mergulhando os dedos nos cabelos molhados, e suas intenções, ali, estavam claras: ele não queria penteá-los, mas bagunçá-los. Deixava-o ainda mais bonito. Não estava bem vestido, mas qualquer roupa que Sam quisesse usar ganhava notoriedade, porque ele era bonito de natureza.
– Vai a algum lugar? – eu perguntei, à porta do quarto.
– Vou – ele respondeu e, apesar de ter soado monossilábico, ele não soou frio. Apenas respondeu minha pergunta e imaginava que eu estava satisfeito assim.
Olhei para o rádio relógio sobre sua mesa de criado-mudo. Eram quase onze horas da noite.
– Alguma festa? – tornei a perguntar.
Sam agarrou as mangas de sua regata, como se as ajeitasse, e deu uma mexida na cintura de sua bermuda.
– Não necessariamente. Não em seu modo convencional.
Eu quis xingá-lo, não vou mentir. No princípio, o mistério em torno de Sam era fascinante, atraente, um passatempo interessante que eu adorava gastar tempo desvendando. Mas agora eu estava enjoado. Já havia bons meses desde que eu me mudara para aquela casa e ele ainda era daquele jeito. Nem sei por que um dia eu decidi confiar nele ou sequer chamá-lo de amigo.
Talvez tenha sido porque ele confiou o pau dele à sua mão, não foi?
É, talvez tivesse sido isso.
– Boa noite, então – eu disse, já decidido a ir para o meu quarto.
– Boa noite, Blaine.
Quando Sam dizia o meu nome era que eu me lembrava de que ele sabia quem eu era, afinal. No restante do tempo, era como se ele me tratasse como alguém que parou ao seu lado no ponto de ônibus, alguém que dera uma opinião sobre o livro que ele segurava na livraria, alguém cujo rosto ele esqueceria assim que deixasse aquele cenário. Quando ele dizia o meu nome, minhas desconfianças voltavam à estaca zero.
Mas, no final das contas, não demorava muito para que esse efeito passasse.
Sem opção de programa para aquela noite, eu decidi que iria dormir cedo. Não havia muito o que eu pudesse fazer: minhas lições de casa estavam concluídas, o último livro que eu tinha lido já estava terminado e eu meio que já estava enjoado de stalkear o pessoal do colégio no Facebook. Até porque o único perfil pelo qual eu tinha algum interesse era o de Sam, e ele não era muito interessado pelas redes sociais quanto aparentava (a julgar pelo hábito de sempre estar no celular), e quando postava algo no Facebook – algo que acontecia uma vez a cada quinze dias –, era um clipe novo ou tremendamente antigo de uma banda de Blues ou Country que só ele conhecia. E mesmo assim ele ganhava inúmeras curtidas. Eu só conseguia supor o porquê.
Retirei a roupa do dia e me vesti com as duas peças de um pijama fino, uma camiseta e um short curto. Sobre a cama, joguei um lençol e um edredom. A noite não estava fria, mas estava fresca, e um pouco de cobertor a mais me deixaria confortável o suficiente.
Caminhei até a porta e estava pronto para encostá-la quando ouvi Angelina falar com o filho no corredor.
– Não se esqueça de apagar a luz do corredor quando chegar...
– Eu sei, mãe...
– Se você não apagar, não vou saber se chegou quando eu acordar de madrugada, preocupada com o seu paradeiro!
– OK, eu já entendi. Não sei como você ainda duvida de que eu vá fazer isso, depois de tantos anos tendo esse costume...
– Não confio em você quando está bêbado.
– Eu não vou beber!
E a conversa encerrou assim.
Encostei a porta com cautela, evitando fazer barulho, e apaguei a luz.
– Olá, escuridão, minha velha amiga! – sussurrei para o quarto e me joguei embaixo dos cobertores.
Fechei os olhos por um instante, mas tenho certeza de que adormeci logo em seguida, porque não tenho consciência de ter tido mais nenhum pensamento coerente depois disso. Eu estava cansado; aquele fora o dia da aula de Educação Física e, ultimamente, eu andava me dedicando ao máximo, porque minhas primeiras notas nessa matéria não tinham sido exatamente boas. Pensava eu que poderia enganar os professores de Educação Física como eu costumava fazer em Nova Iorque, mas eu não podia estar mais enganado. Com um número menor de alunos, ficava fácil avistar aqueles que não estavam se dedicando tanto, foi o que logo reparei.
Por conta disso, eu estava acabado. A cama me agarrou como amarras e meu corpo se adaptou a ela como se aquela fosse uma fôrma feita para mim. Às vezes, quando me deitava daquele jeito, de lado, eu gostava de imaginar Sam me envolvendo com os seus braços, me abraçando, deitado às minhas costas, respirando na minha nuca. Mas então eu me lembrava de que ele não era bem o tipo de garoto que gostava de carícias amorosas e de momentos de ternura; Sam gostava de sentir prazer e apenas isso. Se comigo ou com uma garota qualquer que ele encontrasse em seu caminho – Ou com Ralph, como eu poderia saber? –, ele sempre dava um jeito de obter essa satisfação.
Se tivesse que numerar a quantidade de momentos de sono pelos quais eu já tinha passado até àquela hora da madrugada, eu diria que estava no quinto – não sei explicar bem por que, talvez fosse a sensação de já ter dormido bastante. Mas quando o som de passadas pesadas me acordou e eu verifiquei o meu próprio despertador em cima da mesa de criado-mudo, vi que ainda não passava da uma da manhã. Não havia nem duas horas desde que eu tinha ido me deitar.
A porta do meu quarto se abriu.
Digo se abriu porque, com os olhos ainda “acordando”, eu não pude perceber se alguém a tinha aberto ou não, então, sonolento, só pude supor que ela havia aberto sozinha. Mas havia alguém ali, eu percebi nos instantes seguintes, e sua silhueta só era clara para mim porque a luz do corredor estava acesa.
– Sam...? – eu sussurrei, apertando os olhos na direção dele. – Mas... E a sua festa...?
Ele não respondeu. Passou para o interior do quarto e fechou a porta atrás de si. O lugar tornou a mergulhar em escuridão.
E meu coração desenfreou em batimentos tão rápidos quanto alguém da minha idade poderia ter sem vir a falecer.
Eu o vi segurar o calcanhar do tênis que calçava com a ponta do outro pé e o retirou. Para retirar o outro, ele só precisou sacudir o pé em uma direção qualquer – o tênis acertou a porta da minha cômoda. Com uma série de cinco passos, ele conseguiu alcançar a minha cama e subiu nela, ficando pé diante do meu olhar, um pé apoiado no colchão em cada lado do meu corpo.
– Se ajoelha – ele demandou, sério, e o jeito como olhava para baixo, para mim, não só me intimidava como fez com que eu nem pensasse na possibilidade de questionar o porquê de ele querer que eu fizesse isso.
Sendo assim, logo eu tinha me retirado de debaixo dos cobertores, mas...
– No chão? – perguntei, falando baixo.
– Aqui – ele disse e apontou o colchão
Eu me ajoelhei, me movimentando devagar, tomando cuidado para não fazer barulho. O quarto de Angelina não estava tão distante, será que Sam não percebia isso?
Quando o vi começar a desabotoar a bermuda foi que eu notei que não.
A bermuda desceu por suas pernas e cobriu seus pés. Sem pestanejar, Sam segurou a cintura de sua cueca e a abaixou em um movimento rápido. Seu pênis sacudiu diante do meu olhar, ereto, pronto para o sexo, pronto para o que fosse, e ele era maior do que eu e minha mão tínhamos imaginado, mas também era menos grosso. À pouca claridade, no entanto, um fato que eu já suspeitava se confirmou: a cabeça do pau de Sam era rosada, e essa cor só ia perder espaço para o branco pálido do restante da sua pele já no meio, para então se perder no emaranhado de fios negros que circundavam a região do seu sexo.
– Tira a camisa – ele pediu, e antes que eu pudesse pensar em uma maneira de fazer isso sem resvalar no pênis que sacudia diante do meu rosto, ele agarrou a barra da parte de cima do meu pijama e a puxou para cima. Tudo o que tive que fazer foi erguer os braços para ajudá-lo.
Encarei-o nos olhos, sem saber se o que eu sentia era euforia ou medo. Talvez uma mistura dos dois. Mas, fosse o que fosse, era excitante.
Demais.
– Põe na boca – Sam pediu, de repente.
– O quê?!
– Põe na boca.
Antes de ele ter agarrado minha nuca, eu já sabia o que ele queria, mas eu precisava ter certeza antes de fazer algo do qual pudesse me arrepender depois. Envolvi o pau de Sam com a minha mão direita e o massageei, para frente e para trás. Foi a mão de Sam na minha nuca que me fez envolvê-lo por inteiro com a boca, fazendo com que um gosto de suor que eu ainda não sabia decidir se era bom ou não tocasse minha língua.
Então aquele era o gosto de Sam.
Ele segurou minha cabeça e movimentou o quadril para frente para trás, fazendo com que o pênis entrasse e saísse da minha boca, espalhando aquela essência pela minha língua, e eu não tinha escolha a não ser engoli-la, pois era o único jeito de fazer com que a respiração se mantivesse normal. Logo percebi que não era só saliva que eu estava engolindo, mas algo muito parecido com ela, algo que eu não tinha certeza se era esperma ou não.
Afastei a boca, pois eu tinha que perguntar.
– Sam, você já...?
– Não – ele disse e me obrigou a manter silêncio, enchendo novamente a minha boca com oitenta por cento do seu pau. Eu sentia sua cabeça tocar minha garganta, e era nesse instante que minha respiração parecia se interromper por completo.
– O dente – ele disse e se afastou de mim. – Cuidado, sem morder.
– Me desculpa.
Ele se movia para frente para trás. Olhei para cima um instante; seus olhos estavam fechados e sua boca, aberta de prazer. Suas duas mãos agora seguravam a minha cabeça, impedindo-me de fugir. Eu não tinha escolha. Teria que ir até o fim.
Senti as pernas dele fraquejarem um pouco, e de repente eu sabia o que estava para acontecer.
– A cabeça – ele disse. – Chupa a cabeça¸ só a cabecinha...
E a cabeça de seu pau parou na ponta da minha língua.
Envolvi-a com os lábios, lambendo o pequeno volume que precedia a cabeça do pau. Aquela era a primeira vez que eu fazia algo do tipo – isso para não mencionar que eu havia passado a vida inteira apenas desejando caras bonitos, sem jamais ficar com eles –, mas eu sentia que a coisa acontecia com a naturalidade de alguém que fazia aquilo sempre. A prova disso foi o último suspiro mais alto que Sam soltou antes de a coisa finalizar.
– Eu vou gozar, Blaine.
E eu não sabia o que responder àquilo.
– Eu vou gozar, eu vou...
Uma batida na porta.
– Blaine?
O pau de Sam fugiu da minha boca e o esperma caiu sobre mim em um rastro que começava no peito e terminava pouco abaixo do umbigo. Pensando rápido, ele se jogou na cama e o carpete abafou seus passos até a parede ao lado da porta. Meu olhar, momentaneamente hipnotizado pela imagem do corpo seminu de Sam, parou sobre a porta assim que ela se abriu. Angelina jogou o rosto para dentro do quarto e olhou ao redor.
Sorte a minha (e a de Sam também!) que a porta podia escondê-lo.
– Blaine, por acaso você viu se o Sam já chegou? A luz do corredor ainda está acesa, mas eu podia jurar que ouvi passos subindo a escada.
A luz do corredor fazia o esperma no meu peito reluzir. Eu me perguntava se os olhos sonolentos de Angelina eram capazes de vê-lo, e foi apenas por isso que demorei a responder a pergunta da dona da casa.
– Fui eu – menti.
– Foi? – ela questionou.
– Fui à cozinha beber água. – Engoli em seco. O gosto de Sam ainda estava na minha boca. – Se a luz do corredor está acesa, acho que é porque ele ainda não chegou.
Angelina refletiu um pouco.
– É que o carro dele está na garagem. Consegui ver pela janela, e eu podia jurar que ele tinha ido de carro.
Pelo canto do olho, vi Sam apertar os próprios olhos, aflito.
– Bem, se ele chegou, eu ainda não o vi – finalizei, cobrindo a frente do meu corpo com os cobertores.
– Tudo bem, querido. Desculpa incomodar seu sono. Boa noite.
E a porta se fechou.
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