Blackout
6 A Silhueta
TAEHYUNG
— Um, dois, três – era a sétima vez que eles estavam fazendo aquilo. – Já!
O grupo de amigos se chocou contra a porta de vidro que nem mesmo trincou um pouquinho. Gleizer e seu amigo estavam sentados no chão da Passarela observando com uma lanterna. V estava apoiado no vidro do corredor escuro e Jin, Suga e Dak-Ho se lançavam contra a porta repetidas vezes.
— Vou contar de novo – Gleizer disse.
— Gente, mais alguém aqui está percebendo que isso não está dando certo? – Suga perguntou entre suspiros e risadas. – Meu braço já está doendo.
— Quer um beijinho? – Perguntou Jin.
— Seu não – Suga respondeu e lançou um olhar para Dak, que fingiu que não viu.
Do outro lado da porta, um grupo de dois ou três garotinhos do quinto ano observavam curiosos para as inúmeras tentativas falhas dos três jovens de abrir as portas. Taehyung estava cansado só de assistir, imagina se estivesse realmente se movendo.
— Gleizer, deixa eu ficar com isso – o garotinho sentado ao lado da menininha loira disse. Gleizer lhe passou o rádio assim que ele soltou um chiado e fez o já conhecido bipe.
— Jin? – Era a voz de Sun do outro lado. – Jin, está aí?
Jin correu e pegou o dispositivo da mão do garoto que tinha acabado de conquistá-lo. A decepção em seu rosto foi perceptível até mesmo para V, que observava de longe, contra a luz.
— Estou sim, Sun. Diga – Jin respondeu.
— Encontramos armas.
— Como assim? – Suga perguntou espantado.
— Armas? – Jin respondeu.
— Sim, na primeira gaveta de todas as Salas de Segurança – Sun disse, o aparelho falhando. – Conseguimos pegar quatro delas, estão carregadas.
Taehyung parou de prestar atenção na conversa e se distanciou um pouco do grupo, mas dentro do local que era iluminado pela lanterna na mão de Gleizer. V lembrou do corpo do Senhor Shaun jogado no chão da sala de aula. Aquilo parecia uma eternidade, mas faziam poucas horas. Pelas contas de Tae, deveria ser por volta do horário de almoço... Foi quando uma sirene reverberou por todos os lados. V tapou os ouvidos porque já havia se acostumado com o silêncio que envolvia o Colégio. Conhecia aquele barulho. Era o sinal para o almoço? Mas os prédios estavam sem energia... A sirene parou e o silêncio tomou conta do local novamente.
— Você ouviu isso? – Jin perguntou no rádio.
— Sim, parece que foi a sirene do intervalo – Sun respondeu através do rádio.
V voltou a pensar no Senhor Shaun, não queria gastar sua mente com outras coisas. Queria apenas ficar sozinho. Taeyhung virou novamente para ver como as tentativas fracassadas de abrir a porta iam. V percebeu que um dos garotos que também observava do outro lado da porta tinha desaparecido, mas ele não ligou para isso.
O barulho de algo se chocando contra o vidro fez V se virar para trás rapidamente, encarando a escuridão. Se seguisse reto, chegaria no domo, sabia disso, mas alguma coisa dizia para ele não caminhar naquela direção. O barulho de algo batendo voltou, como se alguém tivesse tropeçado e caído no chão, bem distante. Aparentemente, ninguém além de Tae havia notado esse ruído. “Deve ser sua mente brincando com você” ele pensou. Foi quando uma corrente de vento gelada atingiu seu rosto, como se alguém tivesse aberto alguma passagem que estivera fechada por muito tempo. Ouviu novamente o barulho de algo se chocando contra o vidro, só que dessa vez, o ruído viera do seu lado direito. V deu alguns passos para trás, na direção em que estavam seus amigos. Algo ruim estava prestes a acontecer, ele podia sentir.
Antes de se virar e dar as costas à escuridão, Tae tentou focar sua visão para além do corredor, tentando enxergar o vão aberto do domo, mas sabia que não conseguiria, estava muito distante. Entretanto, o que o garoto identificou o deixou ainda mais perplexo. Parecia uma silhueta. Não, não poderia ser. TUM. Outro baque na janela fez ele pular de susto. Olhou novamente para o local onde pensava ter visto algo, mas já não tinha nada, apenas a escuridão. “Apenas sua mente brincando com você” pensou novamente. Tae deu alguns passos de costas antes de retornar à claridade da lanterna que Gleizer segurava. Nada tinha mudado, todos pareciam estar fazendo o de sempre. Os dois garotinhos no chão brigando pelo rádio e os jovens pensando em formas de como quebrar o vidro.
* * *
Tae tinha dado a ideia de tentar estourar o vidro com uma das armas que Sun encontrara. Após a “ligação” de Jin, não demorou muito para que Sun, Jimin, Hope, Rap e Jungkook aparecessem no final do corredor. Suas silhuetas trêmulas por causa da lanterna que balançava na mão de Hope fizeram V lembrar da suposta sombra que ele havia enxergado mais cedo, naquele mesmo local. Dak-Ho estava tentando se comunicar com as crianças do outro lado do vidro, perguntando sobre Mi-Sha.
— Eu disse que elas poderiam ser úteis – Sun disse dando uma cotovelada em Kookie, que fez uma careta.
Rap, ao perceber a presença de Tae, o abraçou e perguntou se ele estava bem. Ele respondeu que sim, mas na realidade não tinha muita certeza.
— Onde você disse que encontrou mesmo essas armas? – Dak perguntou. Ela parecia assustada. Provavelmente a tentativa de rever sua irmã não estava sendo uma das melhores.
— Nas gavetas das escrivaninhas nas Salas de Segurança – respondeu Sun. – Encontramos uma no prédio 2 também, então temos cinco até agora.
— Por que tinham quatro armas no Departamento 3 e apenas uma no 2? – V perguntou.
— Finalmente alguém que me entende – Kookie disse e lhe lançou um sorriso amigável. O coração de Tae derreteu com aquilo. Apesar da diferença de idade entre os dois, V sabia que sentia algo a mais por Kookie senão a amizade.
— Não importa – Sun disse e Jin concordou.
Considerando a atitude dos dois, o modo como falavam e lidavam com as situações, era quase impossível poder afirmar que eles tinham 5 anos de diferença. A liderança estava no sangue deles, pensou V. “Algo que nunca vai estar no meu”.
— Vamos logo com isso – Dak disse quebrando o silêncio. – Preciso ver minha irmã urgentemente.
— Ah, outra coisa que notamos – disse Rap. – A energia não acabou, só foram as luzes que se apagaram.
— Exatamente – acrescentou Kookie. – O ar condicionado, o micro-ondas, a geladeira e todas as tomadas estão funcionando normalmente.
— Que estranho – disse V.
— Eu digo isso para ele o tempo todo – falou Sun. O que deixou Tae corado.
— Eu não quis...
— Eu sei – Kookie interrompeu. – Não se preocupe, Sun não sabe a hora certa de brincar.
— Pensei que esse fosse o Suga – Sun respondeu. – Ou Rap.
Jin pegou a arma da mão de Sun e levou até a porta. Ninguém naquele lugar sabia exatamente como usar uma pistola, mas todos eles com certeza já tinham visto muitos filmes e...
— Alguém mais notou que está mais frio aqui? – Kookie perguntou.
— Não – Sun respondeu junto com Gleizer que ainda estava sentada no chão.
— Não – todos os outros disseram, inclusive Tae. Entretanto, ele sabia que era mentira, a memória do baque contra a janela e o barulho de algo caindo no chão seguido de um frio repentino e uma visão de um vulto em meio a escuridão invadiu a mente de V, que ficou arrepiado.
— Definitivamente está mais frio do que antes – Jungkook repetiu, mas todos o ignoraram. Ou fingiram que ignoraram, como Tae. – Bom, agora temos que quebrar o vidro com a arma e...
Ele foi interrompido pelo barulho da bala saindo do cano e atingindo a base de uma das folhas da porta. O vidro se estilhaçou em milhões de pedaços e caiu no chão.
— Bom – Rap disse. – Acho que conseguimos.
Tae reconheceu o garoto que estava do outro lado do vidro. Era George. Dak arrancou a lanterna da mão do garoto e invadiu o Prédio 1 sem olhar para trás, desaparecendo na escuridão.
— Frio aí fora, né? – George falou.
— Eu disse – Kookie acrescentou.
Um arrepio repentino em sua nuca fez V se segurar para não se contorcer. A imagem de Shaun caído no chão tomou conta de seus pensamentos. Os olhos negros, tão negros quanto a figura que se movera no final do corredor. A sensação de que estavam sendo observados tomou conta do garoto, que não teve coragem de olhar para trás e encarar novamente o corredor vazio. “É só a sua mente brincando com você” ele repetiu para si mesmo.
Fale com o autor