Blackout

7 A Silhueta - Parte 2


TAEHYUNG

— Como assim Mi-Sha não está aqui? – Dak gritava com George.

— Ela simplesmente não está – o garoto respondeu assustado sem saber o que fazer. – Um dos garotos disse que...

— EU NÃO QUERO SABER O QUE A PORRA DE UMAS CRIANÇAS DISSERAM, GEORGE! – Tae começou a ver que toda a calma e medo que Dak reprimia estava vindo à tona. – Eu quero a minha irmã. EU QUERO MI-SHA!

— Dak, mas eu não sei onde ela está! – George gritou de volta.

— Calma, calma – era Sun. – Não adianta nada brigar agora, idiotas.

“Cala a boca, Sun” V pensou. Dak colocou a mão no rosto e começou a chorar. Tae nunca tinha visto aquilo acontecer antes. Por mais sensível e amável que Dak fosse, aquela era uma cena que ele pensou que jamais presenciaria. Dak chorando. Ela encostou em uma das paredes do corredor do terceiro andar. Eles tinham entrado no Departamento 1, onde estavam as crianças do Ensino Fundamental I. Ou pelo menos onde elas deveriam estar. Dak sentou no chão e abraçou os joelhos enquanto chorava. O coração de V derreteu ao ver aquela cena.

— Dak, olha para mim – era Suga, que havia sentado ao lado da garota, tentando consolá-la.

V se esforçou para ouvir a conversa entre Jin, George e Sun.

— Alguns garotos do quarto ano disseram que os alunos do primeiro e segundo ano estavam do lado de fora quando a chuva parou – George dizia.

— Como assim? Por quê? – Sun perguntou. – Não estava chovendo?

— Parece que as professoras estavam fazendo alguma atividade do lado de fora, na área coberta, sabe?

— Mas então quer dizer que só tem crianças a partir do terceiro ano aqui? – Jin perguntou.

— Sim. Do terceiro, quarto e quinto ano – o garotinho respondeu.

* * *

Já faziam algumas horas que eles tinham conseguido entrar no Departamento 1 e recuperado as crianças que estavam presas lá. Sun, Jin e George decidiram que era melhor separar as pessoas em três grupos e distribui-las ao longo dos três edifícios. Com as lanternas e rádios dos outros dois departamentos, conversar e enxergar já não era mais um problema. Kookie tinha encontrado um jeito de programar o sinal do intervalo para tocar a cada uma hora. A sirene havia tocado duas vezes depois do almoço, o que significava que deveria ser por volta das duas da tarde.

Tae estava responsável por guiar um grupo de crianças do terceiro e quarto ano até o Refeitório 2. Kookie, Jimin e Hoy estavam com ele. Apesar do som das crianças conversando entre si e das piadinhas trocadas entre Kookie e Jimin, V estava se sentindo desconfortável. A silhueta que tinha visto mais cedo não tinha reaparecido, mas também não saia de sua cabeça. “Deveria ser algum aluno do Departamento 2 perdido” ele pensou.

Eles chegaram ao Refeitório e Koa e Dak já estavam esperando com a comida preparada. Aparentemente, a energia estava funcionando perfeitamente porque os micro-ondas e fogões estavam ligados. “Até mesmo as tomadas funcionam” pensou V. Como aquilo era possível e por que eles ainda estavam no escuro?

As crianças foram distribuídas nas mesas e os pratos servidos. Dak, Hoy, Kookie, Jimin, Koa e Taehyung tinham sentado em uma mesa na ponta do Refeitório, perto da entrada. V não conseguiu deixar de perceber a troca de olhares entre Jimin e Hoy, o garoto de cabelo branco, amigo de Koa. “Se peguem logo” ele pensou. Olhou para Kookie e viu que o garoto comia sua comida tentando evitar olhar para Dak, que não havia tocado na comida ainda.

— Tenho certeza que ela está bem, Dak – Koa disse. Ela estava falando de Mi-Sha.

Dak ignorou o comentário e se forçou a enfiar uma garfada da comida na boca. Tae queria ter ficado responsável por contabilizar e dividir a comida entre os três departamentos, mas acabou tendo que ajudar no transporte. Após o horário de almoço, definido por Sun como “às duas da tarde”, Tae iria se juntar a Suga e Rap Monster para levar algumas latas e sacos de alimentos da Torre 3 até a Torre 1. Só de pensar no trabalho que aquilo daria, V se cansou.

— Acho que ela está melhor que a gente, pelo menos – Hoy disse. Ainda estavam falando da garotinha Mi-Sha? Dak parou de comer e empurrou o prato para frente. Levantou da cadeira, pegou sua lanterna e saiu do Refeitório. Os cinco que restaram na mesa trocaram alguns olhares antes de Koa dizer:

— Vou procurar por ela. Deve estar sendo difícil.

Koa levantou, pegou uma outra lanterna e saiu atrás de Dak. Algumas crianças já haviam acabado de comer e começado a brincar com as luzes da lanterna nas paredes. Fazendo teatrinhos e contando histórias com as sombras das mãos e dos objetos que encontraram.

V também tinha terminado de comer e tinham se passado alguns minutos antes de Tae perceber o que estava acontecendo entre Jimin e Hoy.

— Jimin, porque você não vai ver se encontra mais alguma coisa na sala de segurança do segundo andar? – V disse, tentando ajudar.

— Boa ideia – ele respondeu. Entendendo o recado.

— Posso ajudar? – Kookie perguntou ansioso.

— Não – Jimin e V disseram ao mesmo tempo.

— Quer dizer – acrescentou V. – Acho que vou precisar da sua ajuda aqui. Com as crianças.

— Elas parecem bem para mim – Kookie falou e Jimin lhe lançou um olhar mortífero. O garoto então olhou para Hoy, que estava mexendo no prato, envergonhado. – Ah, entendi, tudo.

— Obrigado – Jimin disse, deixando o prato na mesa e pegando uma das duas lanternas que sobraram na mesa. Hoy se levantou e foi atrás do garoto. V olhou para Kookie que riu e disse:

— Eu não tinha percebido, okay? Me desculpe – e os dois riram. – Eca.

— Exatamente, eca demais – V disse. – Pessoas me enojam – acrescentou pensando no quanto Kookie não o enojava, no quanto Dak não o enojava, mas não disse aquilo. Tae já havia se perguntado diversas vezes qual era o lance entre ele Kookie, mas sempre seus pensamentos levavam ao mesmo lugar: Kookie era dois anos mais novo do que ele. Ele percebeu que encarava o garotinho sentado à sua frente então desviou o olhar para as crianças que ainda faziam sombras na parede. Silhuetas invadiram novamente o pensamento de V.

Alguns segundos haviam se passado e Dak entrou pela porta do Refeitório. V percebeu que algumas crianças se assustaram com seu movimento brusco e repentino, mas logo voltaram a brincar.

— Desculpa – ela disse sentando-se à mesa.

— Tudo bem... – Kookie disse. – Todos nós sentimos muito.

— Não é como se ela estivesse morta, de qualquer modo – Dak disse e V percebeu que ela estava fazendo muita força para segurar as lágrimas em seus olhos. – Dane-se, onde estão Koa, Hoy e Jimin?

— Jimin e Hoy foram se pegar – Kookie disse naturalmente.

— Eca – V falou.

— Ué – respondeu Kookie e Dak riu.

— Mas Koa foi junto? – A menina perguntou.

— Koa foi atrás de você – Tae respondeu. – Você não encontrou ela? Ela saiu logo atrás de você. Estava com uma lanterna na mão e tudo o mais.

— Não, Tae – Dak disse. – Ninguém saiu atrás de mim. Eu olhei para trás algumas vezes antes de subir as escadas até o terceiro andar.

— Mas... – Kookie interrompeu sua fala. Como se tivesse parado para pensar.

— Não, Dak – Tae imitou a voz da garota. – Koa saiu atrás de você. Eu tenho certeza. Jimin, Hoy e Kookie estavam de prova – Kookie concordou com a cabeça. – Ela até levou uma das lanternas, olha – ele disse apontando para a mesa, onde apenas uma lanterna repousava.

— Estranho – Dak falou. Atrás da garota, as crianças ainda faziam sombras nas paredes e riam eufóricas com algumas delas. Tae não conseguiu evitar de pensar na figura que vira na Passarela e de lembrar da sensação de estar sendo observado. Eles ficaram preocupados quando, depois de quase uma hora, Koa não apareceu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.