Blackout
3 A Passarela
DAK-HO
Dak quase conseguira identificar a voz de Mi-Sha em meio ao alvoroço quando as luzes se apagaram. As pessoas do Departamento 3 tinham ficado em silêncio enquanto, ao longe, podia-se ouvir gritaria e confusão nos outros prédios. O silêncio se estabeleceu no Saguão Principal até Jin começar a falar para todos ficarem calmos. V dissera que era possível atravessar os gramados pelas Passarelas que ligavam o terceiro andar de todos os departamentos da instituição. Embora ninguém soubesse se aquilo funcionaria, já que as Passarelas estavam em manutenção, quando as luzes se apagaram, Dak-Ho não pensou duas vezes antes de concordar com o plano. Resgatar Mi-Sha e seus colegas menores era a mais importante e principal tarefa.
O caos sonoro que abalara as estruturas dos outros edifícios havia diminuído. Podia-se ouvir, de vez em quando, gritos assustados e choramingos desesperançosos. Um grupo de jovens do primeiro ano tinham encontrado a sala do almoxarifado e conseguido algumas lanternas. A excursão pelas escadas escuras até o terceiro andar tinha sido assustadora, entretanto, não era nada comparado ao que Dak-Ho enxergava a sua frente. Parados em frente à porta de vidro que levava às Passarelas, as mentes jovens se perguntavam o motivo de terem fechado aquelas passagens.
Através das paredes de vidro do caminho que ficava sobre onde costumava ser o parquinho não era possível enxergar absolutamente nada. Apenas a escuridão. Nas vidraças que separavam o terceiro andar da Passarela estavam colados diversos adesivos com avisos do tipo “não ultrapasse a faixa”, “cuidado: passagem desabilitada” ou qualquer outra fase mandando qualquer um se afastar daquele local.
O corredor envolto em vidro que levava aos outros departamentos parecia infinito em meio àquela escuridão. A luz das lanternas que o grupo de jovens adolescentes seguravam só davam um ar mais tenebroso ao local.
— Talvez eles já tenham consertado – disse Suga baixinho, esperançoso. Dak-Ho não tinha notado sua presença até ele dizer aquelas palavras. Alguns dos meninos ficaram com as pessoas mais novas no térreo, tentando encontrar algum telefone que funcionasse ou alguma janela que cederia e os tiraria de lá.
— Você acha mesmo que eles colocariam tantos avisos assim à toa? – Respondeu Jin, o medo em sua voz era quase palpável, mas Dak preferiu não comentar sobre aquilo. Jin, apesar de ser o mais velho do grupo, não possuía características muito... Vamos dizer: adultas. Era por isso que todos o chamavam de princesa ou algum nome parecido. Jin odiava aquilo. – Se elas estivessem consertadas, eles deixariam a gente usar. É muito melhor para controlar a circulação de alunos aqui em cima do que lá no Pátio, que é aberto – Jin complementou sabiamente.
— Faz sentido – Suga disse. – Acho que devemos tentar, de qualquer modo.
— Vamos tentar – acrescentou Dak-Ho, rispidamente. Eles tinham que encontrar sua irmãzinha. Para ela não existia um “acho” ou um “talvez”, mas sim um “como”. – Não temos escolha.
— Dak... – Suga disse tentando consertar o erro.
— Agora não, Suga. Por favor – ela respondeu calma e fria tentando esconder a aflição e a saudade da irmã. Ela e Suga haviam brigado mais cedo naquele dia e desde lá, ele vinha tentando se desculpar e ela tentando ignorá-lo.
— Troyan disse que entrou com Yumi aí, uma vez – a voz veio do fundo. Era V. – Quer dizer, não sei se Troyan é a melhor pessoa para se confiar, mas pode ser que...
— O que está fazendo aqui, V? – Jin perguntou lançando a lanterna no rosto do garoto que o cobriu com a mão. – Deveria estar com os outros lá embaixo.
— Eu não vou ficar sentado esperando vocês fazerem alguma coisa – V disse triste. – Perdemos pessoas importantes hoje e Rap, Jimin e Hope estão agindo como se nada tivesse acontecido. Não tenho paciência – Dak percebeu que V estava falando de Shaun, o professor de sociologia. – E outra coisa, foi minha ideia usar as Passarelas.
— Okay, okay, então – disse Suga. – Podemos ir logo com isso? – Finalmente seu namorado tinha dito algo sábio aquele dia.
— Exato – Dak acrescentou concordando. – Preciso achar Mi-Sha urgentemente.
— Tenho certeza que ela está bem, meu amor.
Dak ignorou o comentário de Suga e chegou mais perto do vidro. A garota encostou a lanterna sobre o material frio e transparente, iluminando o corredor sem fim. Dak sabia que na metade do caminho a Passarela se dividia em duas, uma levava ao prédio em que Sun e Kookie estudavam e a outra levava diretamente às salas de sua irmã. No centro das três torres, exatamente em cima da guarita central, existia um domo, que ligava as três Passarelas. Dak se lembrou da escada que subia da guarita até o domo de vidro. “Talvez a gente consiga sair por lá” pensou.
— Quem é que vai ser o primeiro a entrar aí? – Suga perguntou rindo.
— Eu! – Jin, Dak e V disseram em uníssono.
— Poxa, agora até eu fiquei com vontade de morrer em um corredor escuro na escola – brincou Suga.
— Você tem medo do escuro, Suga? – V perguntou.
— Eu? – Suga perguntou espantado. – Óbvio que não – se Dak não o namorasse e não o conhecesse tão bem, não saberia que ele estava mentindo, mas a verdade é que Suga morria de medo do escuro.
— A porta pode estar tranca... – Jin disse quando V passou pelos três amigos e empurrou o vidro, escancarando as portas da Passarela.
Um frio mórbido invadiu o ambiente e uma corrente de vento gelada balançou os cabelos de Dak. À luz de lanternas trêmulas, o corredor não parecia nada convidativo. Dak sabia que V estava morrendo de medo por dentro, mas ele estava tentando provar alguma coisa. Talvez tentar compensar o estado em que ficou quando os adultos caíram mortos no chão. Talvez para impressionar os amigos. Talvez para tentar esquecer aquela situação horrível. “Tanto faz” pensou Dak.
— Vamos? – disse V estendendo a mão para Dak, que a aceitou sem pensar duas vezes. Apesar de tentar parecer fria porque Suga estava presente, Dak não pode esconder que sentia muito em não poder ver sua irmã.
O primeiro passo dentro do corredor escuro foi fácil. Dak olhou para os enormes vitrôs localizados dos dois lados da Passarela, mas tudo que enxergava era um negro infinito. Já o segundo e o terceiro passo tiraram o conforto que Dak sentia. V apertou a mão da colega com mais força durante a quarta, quinta e sexta passada.
Dak olhou para trás e viu a silhueta de mais quatro ou cinco garotos e garotas que os seguiam. “Não vamos todos, a estrutura pode ceder” tinha ouvido Jin falar. O grupo de sete alunos caminhava já fazia alguns segundos, tomando cuidado em cada passo. Dak olhou mais uma vez para a porta das Passarelas e as iluminou com sua lanterna. Estava vazia, provavelmente o que ficaram para trás tinha descido para ajudar com os afazeres destinados às crianças mais jovens.
Eles estavam em um grupo de sete e levavam apenas duas lanternas. Dak carregava uma enquanto Jin conduzia o grupo logo atrás com a outra. Ela tentou identificar quem eram as outras três pessoas que estavam com eles, além de Suga e Jin, mas só reconheceu Koa, uma garota do terceiro ano. Ela conversava com os outros dois meninos aos sussurros. Provavelmente amigos.
O som dos passos dos jovens ficava cada vez mais sincronizado, o que deixou Dak desconfortável. Mirou sua lanterna para frente, a fim de conseguir enxergar se faltava muito para eles entrarem no dom, mas não conseguiu ver nada.
O som de algo se chocando contra o vidro fez o grupo de amigos pararem instantaneamente. V apertou a mão de Dak com mais força e Suga segurou em seu braço, em uma tentativa de acalmá-la. Ou se acalmar. Os sussurros de Koa e seus amigos cerraram junto com a caminhada.
— O que foi isso? – Um deles perguntou baixinho.
— Provavelmente o vento – respondeu Jin.
— O vento não faz esse barulho, Jin – Koa disse com medo.
Dak percebeu que sua mão estava suando. Ou seria a de V? Jin levantou a lanterna na direção de onde eles tinham vindo, mas não havia nada. Provavelmente eles estavam na metade do caminho, por isso não enxergavam nem o domo nem as portas do Edifício 3. A ideia de estar pendente sobre o chão em uma Passarela de vidro envolta em uma escuridão fantasmagórica causou uma sensação de insegurança em Dak. A luz fraca das lanternas também não colaborava em nada.
— Bom, acho que podemos continuar – Dak se forçou a dizer.
— Eu acho... – Antes de Suga terminar de falar o som de uma criança chorando ecoou por toda a Passarela. Os pelos de Dak se eriçaram e seu pensamento rapidamente voltou para sua irmãzinha de oito anos, presa em um prédio escuro sozinha com outras dezenas de crianças.
O grupo se concentrou em ouvir de onde vinha o barulho. Para a surpresa de absolutamente ninguém, o choro vinha da direção do domo.
— Vamos voltar agora mesmo – um dos amigos de Koa disse.
— Você acha mesmo que deixar uma criança sozinha chorando no escuro presa em algum lugar, desemparada, é a melhor opção, Kira? – Foi a vez de V falar, o medo e as determinação se misturando em sua fala. Dak notou que era esse então o nome do garoto, Kira. Mas quem seria o de cabelos brancos? – Vamos continuar agora mesmo!
Outro barulho, como o primeiro, agora do outro lado do vidro. Dak imaginou alguém batendo desesperadamente com os punhos do outro lado da janela, tentando entrar, mas tentou afastar aquele pensamento. Eles estavam no terceiro andar, aquilo era impossível. Provavelmente tinha sido um pássaro ou algo do tipo.
— Eu estou com Kira – disse Suga. – Vamos dar o fora daqui.
— Você pode voltar se quiser – Dak falou. – No escuro – Suga lhe lançou um olhar de reprovação, mas Dak sabia que ele não estava realmente bravo. Era apenas um disfarce para seu medo evidente. – Eu não posso deixar dezenas de crianças sozinhas no outro departamento. Minha irmã está lá!
— Gente... – Era Koa.
— Estou com Dak – disse V. – Eu não quero pensar que poderia ter salvado...
— Gente! – Koa repetiu mais alto.
— Que foi, K? – Perguntou o menino que Dak não sabia o nome.
— Eu acho que vi alguma coisa se mexendo ali – ela disse e apontou para a direção do domo. Os próximos segundos pareceram durar uma eternidade. Dak se virava para lançar a luz na direção que a garota apontara enquanto percebia claramente a presença de algo se aproximando. Passos rápidos e pesados. Só deu tempo de a garota virar com a lanterna em sua mão antes da figura emergir da escuridão correndo na direção do grupo, gritando, alucinadamente.
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