Blackout

4 A Passarela - Parte 2


DAK-HO

Era Sun. Dak nunca havia se sentido tão assustada em toda a sua vida. Naquele momento ela tinha certeza que um bicho ou ser aleatório surgiria das sombras e pularia sobre ela com o intuito de acabar com a sua vida, mas era apenas Sun. Apenas Sun. Ela estava... Rindo?

— Vocês tinham que ver a cara de vocês – a garotinha disse entre gargalhadas. – Foi hilário, cara, vocês pareciam um bando de idiotas – e caiu na risada. Sun colocava a mão na barriga como se estivesse doendo de tanto rir.

Apesar de Dak ficar furiosa internamente com Sun, ela relevou o ocorrido. Pelo menos estava viva. Estar viva era uma sensação reconfortante. Dak olhou para trás a fim de ver como o grupo tinha reagido à “pegadinha” de Sun. Koa e o garoto desconhecido estavam caídos no chão, paralisados. Suga e Jin estavam apoiados um no outro também com os olhos arregalados. E V estava logo atrás do garoto do cabelo oxigenado, Kira. Dak nem tinha percebido que Tae soltara sua mão com o pânico todo.

— Os dois tentaram... – Sun tentava dizer entre as explosões de gargalhadas. – Tentaram fugir..., Mas... Hahahahahaha. Caíram. Caíram – suspiro. – Caíram no chão – e mais risadas. Dak imaginou a cena de Koa caindo no chão e algo dentro dela se moveu, como um resquício de uma risada tentando sair em meio ao medo que ela emanava.

— Certo, Sun – Suga disse. – Muito engraçado.

— Eu sei, não é? – A garotinha respondeu. – Hilário!

Um chiado seguido de um bipe deixou o grupo em silêncio, o barulho tinha vindo da direção de Sun.

— Sun? – Uma voz chiada saía de dentro de um dos bolsos da garota. Dak sentiu que conhecia aquele tom de voz de algum lugar. – Sun, você está bem? Eu ouvi gritos, câmbio. – Sun enfiou a mão no bolso e tirou uma caixinha preta. Dak então percebeu que se tratava de um rádio de comunicação.

— Alô, idiota – Sun disse entre risadas. – Está tudo certo, encontrei o Jin, Suga, Dak e mais três idiotas aqui no caminho para o Departamento 3.

— Sério? – A voz perguntou. – E não me chame de idiota, Sun.

Dak reconheceu a voz de Kookie do outro lado da linha. Mas onde...

— Onde você conseguiu isso? – Suga foi mais rápido que Dak.

— Eu e Kookie estávamos na Sala de Segurança quando as luzes apagaram. Fomos procurar ajuda, mas – a alegria sumiu de sua voz. Como se ela nunca tivesse gargalhado em todo a sua vida. – Não tinha ninguém que pudesse nos ajudar lá.

Dak percebeu que com aquelas palavras, a garotinha queria dizer que não havia ninguém VIVO por lá.

— Sinto muito, Sun – V disse saindo de trás de Kira.

— TAETAE – a garotinha gritou e correu na direção de V. Abraçando-o. “Por quê raios todo mundo fica abraçando Taehyun?” pensou Dak. – Mas se não é o meu idiota preferido...

— Fico feliz em te ver também, Sun – V disse sem ar.

Outra vez o rádio de Sun chiou e soltou o bipe.

— Sun, está aí? Câmbio – Era Kookie.

— Estou sim – respondeu Sun segurando o botão na lateral do objeto preto. – Estamos indo para o domo, nos encontre lá. Traga alguém com você se estiver com medo, câmbio desligo.

Dak pensou que as duas “crianças” não precisavam ficar dizendo câmbio para aparelho funcionar, mas resolveu não falar nada a respeito.

— Bom – disse Sun. – Vocês ouviram, vamos encontrar Kookie no domo – e a garotinha sumiu na escuridão.

— Não acredito que vamos ser guiados por uma garotinha de doze anos de idade – o garoto de cabelos claros disse levantando do chão.

— Melhor do que ser guiado por você, isso eu garanto – Kira adicionou. Koa e V riram da situação. Dak apenas seguiu Sun pela Passarela. A garotinha caminhava sem lanterna sempre em frente, Dak a alcançou a fim de iluminar o caminho para a garota. Como aquela menininha conseguia ser tão corajosa?

— Vocês vieram até aqui sem lanterna – Dak perguntou.

— Sim – Sun disse colocando uma mexa do cabelo que balançava em seu rosto atrás da orelha. – A gente não teve tanta sorte assim com a iluminação. Quer dizer, achamos esses rádios maneiros, mas nada que iluminasse.

— Entendi.

— O setor 2 todo está sem energia – Sun acrescentou. Dak percebeu que talvez a garota não soubesse que toda escola estava apagada. – Quer dizer, a escola inteira está sem energia, mas o que eu quero dizer é que ninguém conseguiu encontrar uma lanterna por lá.

— Ah sim.

— Eu estava mexendo no meu celular e ele desligou de repente. Foi bem estranho, depois a chuva parou e as janelas ficaram escuras. Logo depois a Srta. Brekker caiu dura no chão. Kookie ficou com muito medo, então fomos procurar ajuda, mas aparentemente todos os adultos estavam mortos.

— Sim – Dak falou. – Estou sabendo disso, o mesmo aconteceu no nosso prédio. E deve ter acontecido no Departamento 1 também, considerando a gritaria e o choro... – Então Dak percebeu que o choramingo que eles estavam ouvindo antes de Sun aparecer não estava mais lá.

— Pois é, mas de qualquer modo, quando as luzes apagaram, o setor 2 entrou em colapso. Dava para ouvir as crianças correndo de um lado para o outro gritando desesperadas – Sun disse. – Eu e Kookie tivemos que acalmar todo mundo. Ainda bem que encontramos esses rádios.

— Como assim acalmar todo mundo? – V perguntou. Dak não tinha percebido que ele tinha apertado o passo e agora os três caminhavam juntos. A Passarela parecia mesmo infinita. Eles estavam andando fazia o quê? Cinco minutos?

— Assim – Sun apertou um botão no rádio e o dispositivo soltou um som agudo que fez Dak querer arrancar o próprio cérebro. Ela olhou para V, que cobria os ouvidos com a mão. Eles perceberam que do final do corredor vinha o mesmo som, agudo e irritando. Deveria ser Kookie. Sun soltou o botão e o barulho cessou. – A gente fez isso, chamou a atenção de todo mundo e separou eles em três grupos, um ficou responsável por tentar encontrar uma saída, outro por procurar coisas que podem ser úteis e, por último...

Chiado e bipe. – Sun? O que foi isso. – Kookie disse através do rádio.

— Cala a boca, idiota – ela gritou bem alto. – Como eu estava dizendo, o outro grupo veio para o terceiro andar para tentar resgatar as crianças do outro departamento.

— Poxa – Dak disse.

— Uau – V falou.

— Estamos chegando? – Koa perguntou do fundo, mas todos a ignoraram.

Como Sun e Kookie conseguiram fazer tudo aquilo? E tudo isso na escuridão total. Dak sentiu uma pontada de inveja de Sun, às vezes queria ser corajosa como ela. Finalmente eles alcançaram o domo. Dak se lembrava de quando tinha vindo pela primeira vez nesse lugar, ainda pequena, quando as Passarelas não estavam em manutenção. A luz do sol entrava pelo domo de vidro e deixava tudo muito iluminado e aconchegante, entretanto, agora, tudo que ela enxergava através dos vidros era um negrume espesso e rígido.

— Finalmente – Kookie soltou do outro lado do domo e correu na direção do grupo.

— Cala a boca, o corredor para o Departamento 3 é muito maior do que o que leva para o 2 – Sun disse. E acrescentou: — idiota.

Kookie riu. O garoto cumprimentou Jin, V, Suga e depois deu um abraço em Dak. Ela gostava bastante Jungkook, ele era o mais novo de todo o grupo, talvez fosse mais velho que Sun, mas ele era – de longe – o mais inteligente também. Pelo menos era o que Dak achava.

Quando Koa e seus dois colegas chegaram ao domo, Dak percebeu uma troca de olhares curiosa entre Kira e Jungkook, mas decidiu ignorar. No centro do domo de vidro que ligava as três torres do Colégio existia uma escada que levava até a guarita central, localizada exatamente no meio do Jardim. Entretanto, essa escada parecia mais com um buraco para o nada do que uma passagem. Tae estava conversando com Kookie quando algumas sombras surgiram no domo, vindas do corredor número 2.

Sun correu na direção deles e começou a dar ordens. Dak então pensou que deveria ser alguns integrantes do grupo destinado ao terceiro andar que Sun falara mais alguns minutos atrás. Ela lançou um olhar na direção do corredor que levava ao Departamento 1, onde, em algum lugar no escuro, se encontrava sua irmã. Dak se perguntou o porquê do Departamento 1 estar tão quieto. “Onde você está, Mi-Sha?” pensou preocupada.

Mais sombras surgiram no domo, só que agora do outro corredor. Do Departamento 1. “Seriam as crianças do Ensino Fundamental I?”. Eles foram de encontro a Sun e Dak prestou atenção na conversa:

— Eles têm lanternas – disse um garoto que deveria ser apenas uns dois anos mais novo que Sun. Como assim “eles”?

— Como assim “eles”? – Sun perguntou ao garoto.

Dak se aproximou do grupo que tinha se formado na entrada do Departamento 2 para ouvir melhor a conversa. Koa e seus dois amigos estavam sentados no chão conversando e rindo. V e Kookie fofocavam sobre alguma coisa que parecia ser bem interessante.

— As crianças do fund. 1 – o garoto disse. Dak achou engraçado que ele se referia às crianças como crianças sendo que ele próprio era uma. – Elas encontraram lanternas. Eles estão bem.

— Você pegou alguma? Entregou um rádio para eles? – Dak perguntou se intrometendo. – E Mi-Sha? Você viu se Mi-Sha estava bem?

O garoto olhou para Dak com um olhar estranho que claramente dizia “eu não te conheço”. Dak olhou para Sun, que balançava a cabeça em negação, como que repreendendo a atitude de Dak. Foi então que ela percebeu que era ela a criança no meio daqueles adultos mirins e não o contrário.

— Desculpa – Dak falou. – Pode continuar.

— Não, respondendo a sua pergunta – o garoto disse.

— Por quê? – Sun parecia brava. – Você é idiota?

— Calma, Sun, deixa eu terminar. Não tinha como. A porta que fica entre a Passarela e o Departamento 1 está emperrada, só consegui me comunicar com eles pelo vidro.

— Quem está no comando? – Sun perguntou como se eles estivessem discutindo questões militares, o que assustou Dak um pouco.

— George, do quinto ano, o que repetiu – Dak lembrou do garoto. Ele tinha 12 anos e ainda estava no Ensino Fundamental I. Loucura. “Pelo menos as crianças têm iluminação e alguém para cuidar delas” Dak pensou e se sentiu idiota por achar que um garotinho de doze anos tinha capacidade de tomar conta de mais de cem crianças. De qualquer modo, ela se sentiu mais aliviada.

— Vocês tentaram abrir a porta? – Jin perguntou e Suga riu. Dak se perguntou porque ele estava rindo tanto ultimamente, mas lembrou que estava o ignorando então decidiu ficar calada.

— Claro, né. Mas está emperrada – disse a garotinha que tinha vindo junto com o garoto do Departamento 1.

— A gente pode tentar abrir – sugeriu Suga. Dak tinha pensado o mesmo. Suga, Jin e ela tinham quase dezoito, obviamente teriam mais força do que duas crianças pequenas.

— Boa ideia – disse Sun e Dak se perguntou se a garota achou mesmo uma boa ideia ou tirando sarro da cara de Suga. – Gleizer, entregue seu rádio para Jin. – Ela disse a menininha, que ficou triste e entregou o objeto a Jin. – Certo, vocês vão ver se conseguem abrir a porta do departamento. Enquanto isso, vou com Kookie, Koa, Kira e o outro idiota ali sentado buscar algumas lanternas com Hope, Jimin e Rap. E conseguir alguma comida que não esteja estragada para o Departamento 2. Vocês do Ensino Médio ficam com toda a comida que presta.

Dak achou um bom plano. Ela entregou sua lanterna para Sun e deu um abraço nela. A garotinha parecia tão pequena, mas o espírito de liderança era evidente nela.

— Como você consegue – perguntou Dak baixinho.

— Como eu consigo o quê? – Sun parecia não ter entendido.

— Ser tão corajosa – Dak acrescentou.

— Eu finjo muito bem – Sun respondeu e se virou para encontrar-se com Kookie. Dak viu Kookie, Kira, Koa, Sun e os outros caminharem em direção ao Departamento 3. V ficou para tentar ajudar a quebrar a porta, mesmo que fosse um pouco mais novo. Foi a vez de Dak de estender a mão para o garoto, que a agarrou sem pestanejar. Então foram encontrar Mi-Sha. V e Dak de mãos dadas atrás, Jin e Suga na frente e Gleizer e o garotinho do 2 com a lanterna iluminando e guiando o caminho. Dak-Ho sentiu uma pontada de esperança, mas no fundo ela sabia que aquele sentimento seria sua ruína.