Blackout

2 A Escuridão


TAEHYUNG

O som causado pelo corpo do Senhor Shaun atingindo o chão frio sem vida fez todo o burburinho da sala cessar. Todas as atenções voltaram para o local onde jazia o jovem professor de Sociologia. Alguns alunos levantaram na hora, outros apenas ficaram paralisados, como V. Fazia apenas alguns minutos que o som da chuva havia parado, fazia apenas alguns minutos que uma escuridão sem sentido irrompeu nas janelas de todo o Colégio e apenas alguns minutos que o Sr. Shaun havia dito “acabou a festa, galera, vamos voltar para a aula, a prova de amanhã é muito mais importante que uma chuvinha dessas.”

Ele dizia “Vocês da cidade grande não sabem o que é uma tempestade de verdade. Na minha cidadezinha do interior quando chovia, nossa. Não tinha para onde correr” e a sala toda ria. Não por achar engraçado, mas por respeito. Shaun era o professor favorito de V, era com ele que o garoto dividia os segredos que não queria revelar para os seus pais e para os seus amigos. Agora lá estava ele, jogado no chão, com os olhos mergulhados em uma escuridão profunda. Morto.

V notou que de todos os lados, gritos de horror invadiam seus ouvidos. Entretanto, ele não conseguia tirar o olhar do jovem adulto caído no meio da sala de aula. Ele era tão novo, mas tão experiente.

— Tae.

Sempre contava de suas viagens para os mais diversos lugares, suas aventuras, contava sobre sua vida na universidade, como tinha feito para se formar antes, como tinha acabado dando aula, etc.

— TAE.

V observou a roupa que seu tão amado professor vestia. Um casado de uma banda de rock famosa dos anos 80, sapatênis, camisa de botão azul... Se não fosse pela roupa, ele parecia como qualquer outro aluno do terceiro ano. Como Suga ou Jin.

— V, GAROTO SE MEXE.

Arrancado de seus pensamentos, V percebeu que a sala estava praticamente vazia e que ele estava sendo balançado por Jimin. Hope e Rap estavam o encarando assustados na porta da sala.

— Oi – V disse e percebeu que estava chorando. – Eu estou bem, desculpa, eu-eu... – claramente, ele não estava bem.

— Cara, a gente tem que sair daqui – disse Jimin. – Aparentemente todos os outros professores e funcionários do Colégio também caíram duros no chão. Eu não sei o que aconteceu, mas... – Jimin tagarelava, mas V não estava mais prestando atenção. Tudo que passava pela sua cabeça era que seu professor estava lá e, de repente, não estava mais.

— Ele não tá te ouvindo, Jimin – disse Rap da porta.

— Eu estou sim! – V disse.

— Suga e Jin disseram que uns alunos do terceiro ano também se deram mal.

— Se deram mal? – V perguntou.

— Morreram, cara, morreram! – Jimin quase gritou, ele parecia nervoso e assustado ao mesmo tempo. Nunca tinha visto o colega daquele jeito. — A gente tentou chamar a polícia, ou alguma coisa do tipo, mas nenhum celular funciona. As portas e janelas estão...

— Calma, por quanto tempo eu fiquei aqui parado? – V perguntou.

— Muito tempo, cara – disse Jimin.

— Pensamos que tínhamos perdido você também – Hope acrescentou da porta e Rap concordou com a cabeça.

V olhou em volta e, além dele e de Jimin, não tinha mais ninguém na sala. Além do Senhor Shaun, obviamente. V lembrou que Jimin tinha dito alguma coisa sobre...

— Você falou sobre as portas...

— Trancadas. Portas e janelas estão trancadas. Sem chance de abrir.

— Mas...

— A gente pode conversar aqui fora – disse Rap. – Não estou nem um pouco à vontade com esse corpo no chão.

— ESSE CORPO? – V praticamente gritou. – Você está maluco? Ele era o nosso professor. Você não sabe a hora de parar de brincar, não é, Rap – V disse avançando na direção do amigo furioso.

— Calma, V – Jimin tentou dizer.

— Calma o caralho – ele respondeu e apontou para o cadáver no chão. – Você acha isso engraçado, Rap? Você acha?

Rap correu na direção de V e o envolveu em um abraço.

— Não é engraçado, Tae... – ele disse baixinho enquanto V soluçava e chorava em seu ombro. – Desculpa.

— Gente, eu não quero ser chato... – Hope disse. – Mas a gente falou para o Jin que só íamos vir aqui buscar o V e voltar para lá rapidinho.

— Isso! – Jimin disse. – Vamos.

O abraço apertado entre V e Rap foi se afrouxando até que os dois estivessem completamente separados. V limpou as lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

— Eu sei que você gostava bastante dele – Rap disse com um olhar triste e V concordou com a cabeça, pesaroso.

— Voltar para lá onde? – V perguntou pra Hope, que ainda estava parado na porta, assustado. Apesar de tentar soar confiante e forte, a voz de V transbordava medo e tristeza.

— Jin e Suga estão tentando quebrar as janelas e portas do térreo para chegar aos outros departamentos – Rap respondeu.

V tremeu ao ouvir essa resposta. Se isso estivesse ocorrendo por toda a escola, como estariam as crianças do Fundamental? Rapidamente V pensou que Kookie odiaria ser chamado de criança. De qualquer modo, o caos nos outros dois prédios deveria estar bem maior. Se é que tivesse alguém vivo lá...

Tae tentou afastar esse pensamento.

— Nosso plano é tirar as crianças do Departamento 2 para ter mais gente quando formos entrar no Departamento 1 – disse Jimin caminhando na direção da porta. V caminhou atrás, seguido de Rap. – Basicamente vamos encontrar Sun e Jungkook e depois ir atrás da irmã da Dak-Ho no prédio 1.

A imagem de uma garotinha de 8 anos apareceu na mente de V. A irmãzinha de Dak-Ho, namorada de Suga, estava no Ensino Fundamental I do Colégio. V só conseguia imaginar o tamanho da preocupação de Dak nesse momento. Ele já estava começando a se preocupar com Kookie e Sun, que eram seus amigos, imagina se ele tivesse uma irmãzinha de 8 anos naquela situação.

O grupo de quatro garotos liderado por Hope estava chegando às escadas que levavam ao térreo quando V percebeu que todo o primeiro andar estava desocupado, e não só sua sala. “Devem estar todos no térreo” pensou. Entretanto, o garoto conseguia ver corpos dentro de algumas salas. Tae evitou olhar para eles, mas era quase impossível. Reconheceu alguns, todos maiores de idade. Pessoas que ele não tinha tanto contato, mas conhecia por causa de Suga, Jin e Dak. Alcançaram as escadas e centenas de vozes preencheram os ouvidos de V. Chegando ao piso térreo, sua teoria se comprovou, estavam todos lá. Arremessando coisas contra as janelas e portas, mas sem nenhum sucesso. Do meio da multidão furiosa e assustada saíram três pessoas conhecidas: Jin, Suga e sua namorada, Dak.

Dak exibia um olhar preocupado e V se sentiu mal por ela. Jin alcançou o grupo primeiro, seguido de Suga.

— Não tem como abrir – ele disse. – Já tentamos de tudo.

— Como assim? – respondeu Hope – tem que ter um jeito.

— Encontraram o garoto – Dak disse se juntando ao grupo e lançou um aceno de cabeça para V, que respondeu com um sorriso.

— Onde é que você estava, afinal? – Jin perguntou para V.

— Gente, depois a gente conversa sobre isso – Rap interrompeu, temos um assunto muito mais sério agora.

— Exatamente – Dak concordou.

— Bom, a questão é: não tem como sair por aqui – Jin falou e suspirou. – A gente pode tentar os outros andares, mas não sei quem seria louco de pular de lá de cima.

— No escuro... – acrescentou Suga.

Andares de cima...

— A gente pode tentar organizar várias equipes para correr e se jogar em direção ao vidro – sugeriu Jimin.

Andares de cima...

— Pode dar certo – disse Dak.

— Vocês querem quebrar as janelas com o corpo? – Perguntou Rap. – Não estamos conseguindo nem quebrar com cadeiras e extintores de incêndio.

Andares de cima...

— Talvez se a gente pegasse mais cadeiras então – disse Suga.

— Gênio, não acho que seja a quantidade de cadeiras – falou Dak ríspida.

— Desculpa, amor – Suga disse entre risos.

Andares de cima... Talvez se...

— Por que você está rindo agora? – Dak perguntou brava.

— Nada... – Suga tentou dizer.

— GENTE! – Rap interrompeu. – Temos problemas maiores aqui, lembram?

Andares de cima... Talvez se... Poderia dar certo, mas...

— Eu vou tentar chamar atenção de todo mundo, ficar arremessando coisas aleatoriamente por aí não vai adiantar em nada – Jin disse.

— Concordo – Jimin falou.

Andares de cima...

Jin subiu em cima de uma cadeira e assoviou o mais forte que conseguiu. Todos pararam para prestar atenção no que ele tinha a dizer. V não prestou atenção, perdido em seus próprios pensamentos, bolando seu próprio plano. Jin já estava falando fazia alguns minutos e V não percebeu quando ele parou de repente e começou a encará-lo.

— O quê? – V perguntou perdido. Todos do ambiente o encaravam curiosos.

— Eu que te pergunto, panaca – Jin disse rindo. – Você disse “andares de cima...”

Opa! Ele deveria ter pensado alto demais sem se dar conta disso.

— Eu disse? – V sabia que era um plano idiota e que não daria certo, mas... – Dá para chegar nos outros departamentos pelos andares de cima.

Todos ficaram em silencio para ouvir o que o garoto tinha a dizer, o que o deixou mais nervoso ainda. Ele subiu em uma das cadeiras para que pudesse ver todo mundo. Na mesma altura que Jin, V se sentia desconfortável, ele era agora o centro das atenções.

— No terceiro andar. As Passarelas centrais do terceiro andar – ele disse quase baixo demais.

Um burburinho tomou conta do ambiente. Eles estavam no Saguão Principal, aproximadamente cento e vinte alunos do Ensino Médio. V percebeu que alguns pareciam preocupados, outros com medo, já outros riam. No meio da multidão ele ouviu um “pode dar certo” junto a um “que ideia idiota”.

— Bom... – disse Jin, assumindo o controle da situação. – As Passarelas estão inutilizáveis, você sabe disso.

V olhou os rostos de seus colegas, todos eles se perguntando a mesma coisa. “O quão inutilizáveis?”. Atrás da multidão, V enxergava a escuridão através das portas principais do prédio. Como aquilo tinha acontecido?

O garoto estava prestes a falar alguma coisa quando a escuridão tomou conta do local. Os cento e vinte alunos desapareceram do seu campo de visão e tudo que ele conseguia enxergar era um breu sem fim. Foi como se a escuridão tivesse atravessado as portas e invadido o interior do prédio. V ficou paralisado sem saber o que fazer. O silêncio reinava no ambiente. Apenas o barulho de respirações e suspiros assustados reverberavam no local, 120 respirações assustadas, 120 suspiros amedrontados. Ao longe, bem baixinho, através das paredes, V conseguiu ouvir algo que o deixou arrepiado. Crianças gritando, chorando e pedindo socorro.

Notas finais
É isso, deixem a opinião de vocês ♥ Beijos, espero que estejam gostando.