Blackfyre

37 Voltando pra Casa


Notas iniciais
Olá, meus amores. Desculpem pelo atraso, mas eu tenho uma boa explicação Eu estou me divorciando e na correria de resolver minha vida e arrumar minhas coisas, eu não tive tempo pra postar (e nem disposição, também). Mas o ponto chave vem agora. Por eu estar me mudando e pelo fato do meu notebook estar quebrado, vai ficar bem difícil de postar. Eu vou tentar manter a fic, mas creio que vou ter que reduzir as postagens para uma vez a cada quinze dias. Sorry. Bem... Vamos ao capítulo. Espero que goste. Dessa vez não tem banner porque eu não tive tempo, sorry u.u

Voltando pra Casa

Fazia um calor dos infernos. Estava tão quente que tinham mandado dois escravos balançarem longos leques para fazer o ar circular, na esperança de gerar algum tipo de brisa. O velho Malaquo Maegyr resmungava por conta do calor e por conta do vento que fazia seus papéis voarem. Nyessos Vassar bufou irritado. O calor o atrapalhava a pensar e ele realmente precisava pensar.

—Eu acho que devemos fazer algo a respeito, mas precisamos pensar direito sobre isso. Ela tem três dragões. – resmungou mirando todos os papeis que diziam quanto ouro os Mestres de Yukai haviam mandado para que eles depusessem Daenerys Targaryen – Precisamos de cautela.

—Oh, Nyessos. Do jeito que você fala, parece até o frouxo do Doniphos. – ralhou o velho. Era um pouco difícil de entender o que ele falava, pois, a idade levara todos os seus dentes. Nyessos era mais jovem, levemente roliço, graças ao cargo na Tríade. A Tríade era o governo de Volantis. Três pessoas de dois partidos (Elefantes, que eram a elite comerciante, e os Tigres, a antiga e guerreira nobreza) eram eleitas para governar, a cidade. Cada ano um deles tinha mais influência que os outros, mas poderia ser restringido pelos outros dois. Cada um teria seu um ano de mais poder e então haveriam eleições para escolher novos Triarcas, ou para reelegerem os que estavam ali. Em breve seria o tempo de reeleger-se e ele estava preocupado com a situação de Meereen.

—Não diga isso. Eu não sou como Doniphos. Eu tenho muito mais coisa a levar em consideração, sabe? – perguntou franzindo o rosto. Doniphos preferiu manter-se em silêncio.

A maldita situação de Meereen...

Nyessos era um membro muito influente do partido dos Elefantes e era um dos comerciantes mais ricos e influentes de Volantis, antes mesmo de se tornar um Triarca. Mesmo não sendo da nobreza guerreira que pertencia ao partido dos Tigres, ele tinha uma frota competente o suficiente para impor respeito a qualquer cidade livre. Sozinho tinha uma média de quinhentos navios, uns cinquenta navios de guerra e o restante, navios para o comércio.

—É um absurdo que ele queira permitir que aquela puta Targaryen continue fazendo toda essa bagunça. – rosnou Malaquo. Nyessos bufou preocupado. Em uma situação normal, não hesitaria em ir contra Daenerys... mas ela estava com seu neto. Aegon Blackfyre – Prejudicando os Mestres de Escravos. Desafiando nossa cultura. É uma garota estúpida. É o que ela é.

—A garota estúpida conquistou Astapor, Yunkai e Meereen. – murmurou Doniphos – Ela não deve ser subestimada. Deveríamos tentar fazer a paz com ela.

—Bobagem. Devemos levá-la para um bordel de Lys, que é o lugar que ela merece ficar.

Nyessos revirou os olhos, cansado daquela briga. Os três Triacas fizeram silêncio por um tempo e Nyessos aproveitou para rever suas tabelas de lucros dos últimos dias. Foi quando um escravo apareceu, fazendo uma mesura muito profunda.

—Perdoe minha interrupção, senhores Triacas. – murmurou o escravo e os três olharam-no preguiçosamente – Mas um dos escravos de Nyessos Vassar está aqui. Ele trouxe uma carta.

—Entregue-me. – disse sem muito interesse. O escravo concordou, entregou a carta e se retirou, curvando-se respeitosamente. Não deu atenção para a carta, voltando ao trabalho. Somente no final do dia, quando já estava para entardecer, que achou que estava disposto para dar-lhe alguma atenção. Abriu o pergaminho e notou que se tratava de Aegon. Ele o esperava em casa, ansiosamente. Sorriu com a perspectiva de encontrar o neto favorito. Lembrava-se de Aegon quando ele ainda era um menininho a brincar com espadas de madeira por sua casa, enchendo os cômodos com sua gargalhada alegre. Aegon era bonachão e cheio de energia, enquanto Valerion era tediosamente comportado. Shiera ele nunca chegara a conhecer, pois Haegon nunca a tirara de Westeros – Eu devo ir. Meu neto veio me prestar uma visita. – disse feliz e escravos vieram trazer uma liteira. Os Triarcas eram de tão elevada estima, que não podiam tocar o chão com seus pés. Era até irritante e creditava a esse detalhe sua forma roliça adquirida nos últimos anos. Seus companheiros não responderam, ficando a se abanar com as mãos, na tentativa infrutífera de refrescarem-se. Sentiu o balançar da liteira lhe enchendo de sono e preguiça, graças ao mormaço que parecia tomar toda Volantis. As pessoas andavam aqui e ali se abanando com leques, ou seguidos de escravos, que balançavam leques para seus senhores. A cidade parecia muito agitada e algo lhe dizia que nada tinha a ver com o calor. Os minutos se arrastaram lentamente até finalmente chegar em casa. Antes de sair de sua liteira, reconheceu Aegon trazendo dois cavalos em sua direção. Sorriu feliz para o neto e, esquecendo a tradição, simplesmente saiu da liteira, para andar até ele – Aegon! – disse feliz. Seu neto deu uma risada grave e alta, o abraçando de volta.

—Avô. – disse ele antes de se afastar – Vejo que andou engordando.

—Sim. – disse batendo na barriga arredondada – Sinônimo de fartura, não é? – perguntou ele e Aegon lhe entregou as rédeas de um dos cavalos.

—Gordo demais para me acompanhar em um passeio?

—Está quente demais para um passeio. – disse dando umas palmadas no pescoço do cavalo.

—Cavalgar irá refrescá-lo e me dará tempo de conversar sobre coisas sérias.

—Não me diga que arrumou outro bastardo. – riu Nyessos recebendo ajuda de seus escravos para montar. Aegon gargalhou novamente e negou com um aceno de rosto.

—O assunto é muito mais sério do que bastardos, garanto. – disse ele fazendo o cavalo avançar. Nyessos olhou curioso para o neto e, depois de montar, avançou para alcançá-lo.

—Não me diga que veio aqui pedir ajuda para a causa de Daenerys. – disse Nyessos – Sabe que ela está me causando prejuízo, não sabe?

—Sei. – riu Aegon, como se isso não fosse importante – Eu também não concordo com essa cisma dela de libertar escravos. Eu só quero que ela volte logo para Westeros e para o Trono de Ferro. – disse Aegon carrancudo – Ela me prometeu que voltaria pra casa, mas eu cansei de esperar.

—O que te fez seguir essa mulher por tanto tempo? – perguntou Nyessos – Ela é tão bonita quanto todos falam? – Aegon suspirou e adquiriu um semblante mais sombrio, de maneira que Nyessos nunca tinha deslumbrado – Você se apaixonou pela garota, não foi? – Aegon olhou para o horizonte enquanto guiava o passeio – Você é idiota como seu pai, sabia disso? Não que eu me importe. Foi a idiotice dele que o trouxe para a minha família. – Aegon concordou e suspirou de novo, mantendo-se em silêncio e aquilo era simplesmente estranho. Aegon não era um homem de sábias palavras, mas tampouco era um homem de silêncios profundos – Aegon, o que houve?

Aegon suspirou de novo e o olhou em meio ao passo lento dos cavalos.

—Eu preciso de sua ajuda, avô.

—Você ou a garota Targaryen? – perguntou com algum desdém. Aegon negou com a cabeça, parecendo entristecido.

—Eu não estou mais com ela. Eu quero sua ajuda para conquistar o Trono de Ferro. – disse ele e Nyessos arqueou as sobrancelhas.

—O que aconteceu com toda aquela baboseira que seu pai falava sobre o dragão negro ser covarde?

—O Dragão Negro Serve. – resmungou Aegon, o corrigindo – Que se foda isso. – disse Aegon dando de ombros – Eu preciso da sua ajuda avô, para conquistar um reino. – disse ele o olhando muito sério. Pela primeira vez Nyessos mirou seu neto mais velho e enxergou um adulto e não um garotão crescido.

—Eu já escutei um Blackfyre falando que precisava da minha ajuda para conquistar Westeros. Eu forjei uma aliança com ele, oferecendo minha filha em casamento... mas ele nunca cumpriu a parte dele do acordo. – disse olhando o neto com alguma descrença – Por que seria diferente com você? – perguntou calmamente e Aegon sorriu voltando a parecer consigo mesmo. Ele esporeou o cavalo e Nyessos o imitou, seguindo-o. Os dois galoparam para fora dos grandes muros da cidade e Nyessos sentiu seu estômago pular de surpresa. Do lado de fora de Volantis, um grande exército acampava, com bandeiras contendo postes com os crânios dourados.

—Porque eu tenho um exército que quer a todo custo tomar o Trono de Ferro, e alguns trunfos na manga. – respondeu Aegon. Nyessos não se importou em fingir que não estava surpreso. Olhou todos os cavalos, tendas, homens e fogueiras, que começavam a ser acesas. Ele olhou o neto e sorriu com antigas ambições recomeçando a arder dentro de si.

—A Companhia Dourada. – disse sem estar esperando por aquilo. Aegon concordou com um aceno de cabeça – Como conseguiu contratá-los? Eles tinham um contrato com Myr, até onde eu sabia. E Myr está em uma situação de guerra iminente com Lys e Tyrosh. A Companhia Dourada tem a reputação de nunca quebrar um contrato.

—Eu sei, mas algumas vezes contratos de sangue são mais fortes que contratos de ouro.

—Eu duvido que até mesmo a Companhia Dourada seja assim tão leal. – riu Nyessos com algum desdém.

—Bem... Eu pretendo destruir os Lannister. – disse Aegon dando de ombros – Assim como os Baratheon. Teremos bastante ouro para distribuir.

—Você prometeu a eles Casterly Rock? – perguntou Nyessos e Aegon sorriu.

—Não. Eu prometi que iria destruir os Lannister e os Baratheon, conquistando Westeros e adquirindo muito ouro para pagar a todos. Por que?

—Que ajuda quer de mim? – perguntou Nyessos, já com o coração acelerado, pensando em como poderia lucrar com aquilo.

—Preciso de seus navios, para chegar a Westeros. – disse Aegon com convicção – O que vai me custar?

—Casterly Rock. Quero todo o ouro de Casterly Rock. – respondeu Nyessos e Aegon o olhou com uma careta.

—É muito. – disse Aegon e Nyessos sorriu.

—Quanto acha que valem meus navios? – perguntou Nyessos confiante. Aegon abriu a boca para contestar, quando um rugido feral tomou o ar. Nyessos gritou quando seu cavalo empinou e por pouco não foi jogado ao chão. Aegon deu um sorriso e olhou para o céu, como se aquilo não passasse de uma travessura dele. Nyessos ficou alguns segundos tentando conter seu cavalo, mas o animal só ficou ainda mais nervoso quando uma sombra passou rapidamente pelo chão. Olhou para cima, segurando com toda a firmeza as rédeas do cavalo e viu uma criatura enorme, escamosa, pousando numa pedra ali perto. Cor de pérola com belos tons de dourado, como se tivesse sido enfeitado com ouro derretido. Os dentes dele eram como lâminas negras extremamente afiadas e suas asas pareciam ser grandes o suficiente para abraçar três cavalos em fileira – O... o que... o que... – Nyessos olhava sem conseguir raciocinar para aquela criatura. Belíssima e imponente. Pelos deuses... é um dragão.

—Lembra que eu disse que tinha um trunfo? – perguntou Aegon com aquele olhar travesso e o dragão pareceu agitar-se – Viserion, não! – gritou ele e o dragão cuspiu fogo em suas direções. O calor era insuportável, mesmo que labareda cor de ouro pálido, com raios vermelho e laranja, não os tivesse alcançado – Desculpe, avô. Ele é mal-educado. Ainda não o controlo completamente.

—Você o monta? – perguntou chocado, pensando em seu neto como um segundo Aegon, o Conquistador.

—Não. Ele não deixa. – riu Aegon olhando o dragão, que mexia o rabo de maneira agitada – Ele sente falta de Daenerys, algumas vezes acho que ele está tentando me levar de volta para ela, para Meereen. Mas não importa quantas vezes eu o mande ele embora. Tenta me morder e continua me seguindo. – explicou ele calmamente – Mas quando ele quer, ele é mais comportado, permite que eu o alimente e que o afague. Mas montar não. – então Aegon o mirou – Mas quem sabe um dia? A cada dia que passa me sinto mais ligado a ele e ele mais ligado a mim. – a fera rugiu de novo, abrindo as asas, como que querendo exibir toda sua glória e Nyessos teve dificuldade para conter seu cavalo novamente.

—Impressionante, Aegon.

—Foi por conta dele que a Companhia Dourada concordou me seguir. Eles estavam um pouco receosos, apesar de alguns dos líderes terem concordado prontamente. Mas então ouvimos um rugido e quando saímos da tenda, Viserion pousou do meu lado e eu fingi que era o que eu planejava desde sempre. – explicou Aegon – Mas então, avô. Eu lhe darei metade de todo o ouro de Casterly Rock. É o que dá pra fazer. Não posso prometer tudo. Terei muitos mercenários para premiar.

Nyessos engoliu em seco, mirando o dragão.

—Daenerys tem mais dois desse?

—Sim, e um deles é muito maior que Viserion. – riu Aegon.

—E um exército de Imaculados, estou certo? – perguntou ele calculando várias hipóteses em sua cabeça.

—Sim, além de duas companhias mercenárias e soldados libertos que a seguem por vontade própria. Daenerys é bem popular. – adicionou seu neto mais velho e Nyessos suspirou.

—Se você conquistar Westeros, o que Daenerys fará? Ela irá ir contra você? – perguntou preocupado.

—Ela pode tentar, mas se o fizer, ela morrerá.

—Ela tem o dobro de dragões que você! – disse Nyessos achando que o neto estava sendo imprudente.

—Sim, mas eu tenho um berrante que controla os dragões. – disse Aegon calmamente, olhando Viserion – Por isso lhe garanti que no futuro eu vou montar Viserion.

O dragão rugiu de novo, como se estivesse rindo daquilo.

—Um berrante? – perguntou confuso.

—Sim. Meu pai o trouxe de Valíria. – insistiu Aegon, ainda mirando o dragão – Mas diga-me logo, avô. Vai me dar seus navios ou não?

—Se eu der, isso vai fazer Daenerys partir mais rápido de Essos?

—Provavelmente. Ela vai tentar se unir a mim ou então me derrubar. Eu sairei vitorioso seja o que for que ela resolver fazer. – riu ele o olhando de novo

**

Valerion estava sentado em seu quarto, sentindo-se muito confuso, perdido em pensamentos. Podia escutar o ir e vir dos soldados e homens de seu pai, que preparavam sua partida. Deixaria Porto Real no dia seguinte. Ele seria o senhor em exercício de Harrenhal em breve e não sabia o que aquilo poderia significar. Seu pai lhe dissera que tudo o que precisaria saber lhe seria dito no castelo, em casa, quando fosse o momento.

Ainda não sabia se Myrcella ficaria em Porto Real, nem se seu noivado com ela ainda estaria de pé. Não sabia como iria encarar Sansa e nem como precisaria agir levando em conta sua honra como cavalheiro. Tinha desonrado Myrcella e ela tinha sido sua leal companheira naqueles dias difíceis. Devia a ela mais do que devia a Sansa... e aquele sentimento de corrente parecia ferir seu peito. Sempre se orgulhara por ser astuto e calculista, mas tinha colocado aqueles grilhões em si mesmo.

A porta do quarto abriu e Valerion observou Tyrion se aproximar, com um olhar cansado e amigável. O dois se encararam notando muitas coisas no olhar um do outro. Dilemas, decepções, saudades, amores... o peso de um nome forte a pressionar suas decisões e suas vidas.

—Olha só pra você. Mesmo quando parece infeliz e sombrio, ainda consegue ser mais bonito do que todas as damas de companhia da minha querida irmã. – brincou Tyrion, mesmo que seu sorriso triste não alcançasse seus olhos desiguais.

—Veio se despedir? – perguntou cabisbaixo – Ou me repreender?

—O que aconteceu? – riu Tyrion subindo na cama ao seu lado – Não se fala em outro assunto que não seja sobre como você derrotou Sor Gregor Clegane. Já estão escrevendo canções a respeito. Uma delas até fala sobre a recompensa em ouro que você conquistou... – Tyrion deu uma risadinha censuradora – Apesar que eu acho que aquele bardo se referia mais aos pentelhos dourados de Myrcella do que de dinheiro mesmo... – Valerion suspirou, com constrangimento. Prendeu Dragonblood no cinto e mirou Tyrion com um nó na garganta.

—Estarei deixando a cidade no nascer do próximo sol. Não sei se levarei Myrcella comigo. – murmurou cabisbaixo – Eu não queria levá-la, Tyrion. Meu coração pertence a outra, mas... – ele engoliu em seco – Minhas ações colocaram o amor da minha vida longe demais do meu alcance... e eu tenho minhas responsabilidades... Para seguir meu coração, eu devo abrir mão da minha honra. Mas para manter minha honra, devo abrir mão do meu coração... eu não sei o que vou fazer.

Tyrion concordou com um aceno silencioso de cabeça. Os servos ainda arrumavam as coisas, mas Valerion sabia que escutavam.

—Ande comigo. – pediu o anão e Valerion não se importou. Deixaram o quarto e caminharam por corredores vazios – Sei como avisou Shiera. – disse Tyrion e o garoto o olhou surpreso – Hoster. – adicionou ele e Valerion desviou o olhar, cansado de interpretar – Esperto. Muito esperto. Mas arriscado. Ele era seu homem de confiança aqui.

—Tenho outros em que confiaria minha vida. – disse dando de ombros e depois encarando o amigo – Me perdoe por ter agido de maneira tão infantil quando casaste com Sansa...

—Não há motivos para pedir desculpas. Não vou esquecer que lhe devo minha vida, Valerion. Você fez por mim o que ninguém mais faria, mesmo só tendo a ganhar com a minha morte.

—Teria muito a perder, Tyrion. O considero um bom amigo. – disse calmamente e Tyrion concordou com um aceno de cabeça.

—Então aceite esses conselhos desse bom amigo. – disse Tyrion se interrompendo – E leve um homem em que confia para Harrenhal, para ajudá-lo. – adicionou ele – Cersei ainda me quer morto. Eu preciso sair daqui. Mas um Lannister sempre paga suas dívidas e eu tenho muitas com você. Preciso pagá-las. – Valerion abriu a boca para falar, mas Tyrion continuou – Quanto à Myrcella... Acho que um coração partido agora é melhor que uma vida infeliz. Mas seria mesmo uma vida infeliz? Seria mesmo como Robert? Tão apaixonado por uma lembrança de uma mulher, a ponto de se recusar a ser feliz e prover felicidade para a mulher com quem casar? É verdade que Cersei é um monstro, mas garanto-lhe que Myrcella tem um sabor muito mais doce. Ela seria uma boa esposa... – Tyrion suspirou – A menos que tenha a intenção de unir Harrenhal ao Norte... se for o caso, aconselho que case com Sansa assim que chegarmos a Harrenhal. Eu serei testemunha de nosso casamento não consumado e então concordarei em anular o casamento.

Olhou para o anão com algum choque e sorriu.

—Que dizes? Sansa está em... – começou a dissimular, mas Tyrion o cortou.

—Por favor, não insulte minha inteligência. Eu sei muito bem que foi você quem a ajudou a fugir. Mindinho não estava na cidade e meu pai descansou o olhar de você por conta de Lorde Haegon. – Tyrion baixou o olhar, suspirando – Não há mágoas para contigo. Quero ajudá-lo, Valerion.

—Com o que?

—A quebrar meu pai. – respondeu Tyrion parecendo melancolicamente infeliz.

—Como...?

Estava confuso e Tyrion suspirou, parando no corredor. O anão o olhou com seus olhos desiguais e suspirou.

—Meu pai não hesitou em me acusar de matar Joffrey. Ele não me ajudou a escapar dos dedos cruéis de minha irmã... e ainda chantageou meu irmão para que eu fosse para a Muralha no lugar de morrer... – Tyrion respirou fundo, engolindo em seco – Tudo isso eu entenderia. Ele só estaria sendo ele mesmo. Por Jaime ser seu último filho, o libertaria da Guarda Real, o enviaria para Rochedo Casterly, para ser o herdeiro que ele nasceu para ser... além de me esconder do mundo, enfiando-me na Muralha. Ele só teria a ganhar... e eu ainda deveria ser grato. – Tyrion fechou o punho, furioso – Mas meu pai resolveu me mandar um recado, me dar mais uma lição. Ele gosta de lições... – murmurou ele e Valerion o olhou confuso, sentindo a dor na voz do amigo – Ele mandou me chamarem. Mandou que eu fosse encontrá-lo. E quando eu fui... eu vi... Shae... – Valerion desviou o olhar, lembrando-se da ameaça de Lorde Tywin, tempos atrás. Sobre arrancar a cabeça da próxima puta que Tyrion arrumasse.

—Ela... morreu?

—Ela morreu. – concordou Tyrion, desolado. Os dois amigos se encararam com olhos cheios de pesar. Valerion respirou fundo e pousou a mão sobre o ombro do amigo.

—Meus mais sinceros sentimentos, Tyrion.

O anão concordou, parecendo segurar o choro entalado na garganta com muita força de vontade. Ficaram em silêncio por uns segundos, até que o anão suspirasse novamente.

—Eu sei que perdeste o gosto por vinho, mas me acompanharia... um pouco?

Valerion suspirou e concordou.

—Claro, amigo... é claro.

**

Fazia muito frio, ou ao menos era o que todos resmungavam. Shiera Stark não sentia frio e era por isso que ela estava parada, com seu novo conselho de guerra, no topo da Muralha, observando o Norte selvagem com preocupação. Suas roupas eram ousadas, deixando os alvos ombros desnudos. O espartilho estava apertado e seus seios, graças ao fato de estar amamentando, estavam inchados, parecendo prestes a saltar para fora do vestido. E os homens a olhavam como se esperassem que isso acontecesse. Desejando que isso acontecesse. Ela era uma mulher bonita, tinha ciência disso. Mas também sabia que alguns estavam loucos pra mostrar a ela o que eles pensavam que deveria ser o lugar de uma mulher.

Provavelmente pensavam que ela deveria ser mais como a esposa de Stannis, que ficava sempre calada, comportada, ao lado da filha. Uma mulher obediente, conformada, que abraçava suas obrigações tradicionais de esposa.

Mas Shiera pensava que era mais do que isso. Era uma rainha e precisava reconquistar o norte para seu pequeno Ned. Ele era tudo o que importava. Ele era tudo o que ela tinha. Robb havia partido e ela estava só, com a responsabilidade de reconquistar o que era de Ned por direito.

Por isso estava lá, na Muralha, bem no alto, o mais longe possível de Stannis e de sua bruxa. Melissandre lhe causava arrepios, assim como sua mania de queimar pessoas. Tinham dividido os prisioneiros de guerra e Stannis estava queimando parte dos seus, para agradecer ao deus ciumento da Sacerdotisa Vermelha. Por sorte, Mance e sua família não pertenciam a Stannis, o que lhe garantia mais chances ao negociar com o povo livre.

—Somos oito mil e trezentos homens agora, estou certa? – perguntou olhando as árvores pintadas de branco, pela neve que caía há muitos metros de distância dali.

—Sim, Vossa Graça. – respondeu Lorde Karstark

—E os selvagens? O que eles dizem?

—Se recusam a se dobrar, Vossa Graça. Eles são teimosos. – respondeu Lorde Umber – Mas serão de extrema importância. Capturamos alguns dos líderes deles, mas ainda há uma boa parte de selvagens pra lá da Muralha. Se conseguirmos colocá-los do nosso lado...

—Eu conversei com Mance... ele não me escuta. Não quer se unir a mim. Prefere morrer queimado. – resmungou Shiera se virando para mirar seus conselheiros. Theon, Zoltan, Nym, Jon Umber, Lady Maege Mormont e Rickard Karstark – Sem Mance, não teremos a ajuda dos selvagens e sem a ajuda deles, recuperar Winterfell antes de Stannis... – suspirou sentindo-se perdida – Será simplesmente impossível. Eu não sei quanto tempo Stannis vai manter essa trégua... mas não me sinto segura com ele aqui. As histórias sobre como ele matou o irmão em Ponta Tempestade ainda me causam calafrios.

—Não passam de histórias bobas, que uma ama de leite contaria para um garoto levado, Vossa Graça. – riu Lorde Karstark.

—Lady Catelyn Stark pensava diferente. – discordou andando de um lado para o outro.

—Precisamos de alguém que o conheça. – disse Lady Mormont – Precisamos que convença Jon Snow a ajudá-la.

—Jon anda se empenhando bastante em me convencer de que minhas esperanças são vãs. – resmungou de braços cruzados – Ele diz que não há o que ser feito. O povo livre jamais se ajoelhará... e, portanto, estamos condenados a morrer aqui, ou a fugir para longe do inverno.

—Precisa convencê-lo ou estaremos realmente perdidos. – resmungou Nym – Posso tentar convencê-lo, Vossa Graça. Um homem sempre fica mais disposto em colaborar quando tem uma faca perto das bolas.

—Jon não é como esses frouxos que você conhece, Nym. – riu Theon.

—Claro que é. Homens sempre pensam com o pau. Ele não é diferente. Ele não arrumou uma amante selvagem?

Shiera fingiu não se importar com aquele comentário.

—Talvez ele possa ser comprado. – disse Zoltan – Sendo um bastardo, se oferecermos a ele terras e um nome...

—Ele é um irmão juramentado. – discordou Jon Umber – Ele é filho de Eddard Stark. Não se iluda, ele não será comprado dessa maneira. Aqui no Norte nós levamos a honra muito a sério.

—Diga isso a Roose Bolton. – resmungou Nym.

—Talvez não seja terras, nomes ou dinheiro que comprará Jon. Mas todo homem tem um preço. – disse Maege Mormont – E nós precisamos pagar.

—Não teríamos terras, dinheiro ou poder pra conceder um nome a Jon... – riu Theon – Mas eu sei um preço que ele talvez aceite. – todos olharam para ele com curiosidade – Eu me lembro de um torneio, anos atrás, em Harrenhal... onde ele se mostrou muito encantado pela senhora, Vossa Graça. E eu sei bem que ainda são bons amigos.

—Não vamos prostituir nossa rainha, moleque! – rosnou Jon Umber – O túmulo do Jovem Lobo nem mesmo esfriou e já quer sugerir algo assim?!

—O Norte precisa de um regente. – disse Lorde Karstark.

—E um regente filho de Eddard Stark... – começou Maege, mas lorde Umber rosnou.

—De jeito nenhum. Não mesmo!

—Não cabe a você decidir. – cortou Zoltan – Talvez devesse tentar falar com ele de novo, Shiera. Tentar uma abordagem mais...

—Decotada. – riu Theon e Nym o olhou furiosamente.

—Não vou seduzir Jon Snow pra pedir favores. – disse com as bochechas vermelhas. Podia sentir o rosto ferver de vergonha.

—Shiera. Podemos conversar um pouco? – perguntou Maege Mormont. Shiera olhou a senhora com curiosidade, mas com o corpo ainda quente pelo constrangimento da conversa – Uma conversa entre mulheres... sei que perdeu a mãe quando era muito jovem. Um pouco de orientação em alguns aspectos femininos pode ser útil.

—Quer conversar sobre agulhas e bordados agora, Maege? – perguntou Lorde Umber com gracejo.

—Sugira que assuntos femininos são apenas essas bobagens, Grande-Jon, que eu terminarei de arrancar os dedos que o lobo de Robb deixou pra trás. – rosnou Maege e Jon Umber ficou calado, apesar de ainda rir com deboche – Venha, meu bem. – pediu Maege a puxando pelo braço.

Andaram pela Muralha durante alguns metros, se afastando do conselho de guerra. A velha era grisalha, alta, com os ombros largos e fortes. Mas apesar da aparência forte, ela tinha um sorriso gentil no rosto.

—Que conselhos tem pra mim? – perguntou curiosa e a velha lhe sorriu novamente.

—Uma mulher pode mandar de duas maneiras. Pela força, ou através do jogo de cintura. No seu caso, querida, força não será o melhor caminho. Infelizmente, não estamos fortes. Precisamos que utilize a cintura. – disse ela e Shiera corou novamente – Por que não quer tentar seduzi-lo? Não precisa ir pra cama com um homem para seduzi-lo. Você ainda era virgem quando Robb a desposou, nós vimos o sangue no dia seguinte... mas você já tinha seduzido o Jovem Lobo muito antes, lá em Winterfell...

—Eu não sou mais aquela pessoa, Lady Maege. Eu não saberia como fazer isso... e eu devo respeitar o luto...

—Já se passou mais de mês desde a última vez que você o viu. Uma quinzena desde que ele morreu. Você não é uma viúva comum, Shiera. Você é uma rainha. Cedo ou tarde vão mandar você casar de novo. – explicou Maege e as duas interromperam o passo. Jon e Rickon estavam mais a frente, mirando a Muralha. O pequeno cunhado não parecia sentir medo, apesar da altura e Jon ria da coragem dele – Agora, com quem será? Com o jovem rapaz que um dia teve seu coração? Com o guerreiro que lutou e protegeu a Muralha, apesar da imensa desvantagem? O homem que cumpriu com seus votos, mesmo depois de tudo o que os Lannister fizeram... ou será com o menino Stark? Rickon? Que um dia, quem sabe, pode até mesmo achar que tem mais direito que você e Ned sobre o Norte. Ele não vai se lembrar da amizade que tinha com Robb... talvez ele nem venha a se lembrar de Robb... talvez ele queira tomar o norte para ele...

—Rickon é um bom garoto...

—Mas você matou a mãe dele. Não se esqueça disso... porque ele não vai esquecer. Nunca. – alertou a velha – Então pense bem no que seria melhor para seu filho. Porque saiba e tenha certeza, Shiera. Vão mandar você escolher. E se você não escolher, vão te expulsar do comando. Você não verá seu filho crescer. Isso na melhor das hipóteses, caso tudo der certo e reconquistemos o Norte. Precisa pensar em tudo isso. Precisamos de Jon Snow. – Jon bagunçou os cabelos de Rickon e acabou olhando para Shiera, que engoliu em seco ao ver os olhos de tempestade que ele tinha. Jon sorriu aquele lindo sorriso tímido e baixou a cabeça, para ir até o elevador com o irmão caçula – E ele pagaria o preço, se isso significasse ter você. Porque ele ama você.

—Como pode saber disso? – perguntou repentinamente, se virando para Maege.

—Porque eu prestei atenção nos olhos dele. Os olhos dos homens são todos para seu corpo, Shiera. O dele são para seu rosto. Para seu sorriso, para eu olhar. Então não seja apenas uma garota, seja uma rainha e faça o que o seu povo precisa, ou morreremos antes do inverno chegar... e você sabe quais são as palavras dos Stark.

—O Inverno está chegando... – murmurou vendo Jon olhar por cima do ombro e sorrir de novo.

—O Inverno está chegando.

—Vá, Vossa Graça... e reconquiste a casa do pequeno Ned.

Notas finais
Prévias. Provavelmente o capítulo mais difícil de escrever de toda a fic. Devo postar no dia 10 de Maio "-Entendo. – murmurou Haegon curvando-se e apoiando os cotovelos sobre a mesa – Eu tive amigos assim um dia. Mas homens como nós não costumam manter amizades como essas... – adicionou ele. —O que aconteceu com os seus amigos? – perguntou Tywin. —Ficaram para trás. – respondeu Haegon e Tywin o olhou curioso – Chega um momento em que precisamos fazer escolhas... eu tomei as minhas, me arrependi da maioria... mas essas escolhas me trouxeram aqui e eu serei homem para encarar as consequências delas... assim como você, imagino." Um capítulo do Haegon e do Tywin. E finalmente será revelado o que aconteceu com o Haegon em Valíria Beijos, lindos. Vejo vocês nos comentários