Blackfyre
12 Um Homem Sem Fé
Notas iniciais

Um Homem Sem Fé
Ele vai morrer.
Deveria estar preocupado com isso, mas uma parte mesquinha e egoísta dentro de si estava ligeiramente satisfeita. Seu rosto estava duro e ele não disse uma palavra, mas sabia a verdade. Eu sou mesmo um idiota... Eu não deveria estar feliz... ele é minha esperança de voltar pra casa. O que essa menina é sem ele? Apenas uma linda menina... mais ou menos bonita que Shiera? Pelos Deuses Antigos e Novos. Eu não sei...
As moscas voavam lentamente em volta de Khal Drogo, com as asas zumbindo, um ruído baixo, no limiar da audição, que parecia encher Dany de terror. O sol ia alto e impiedoso. O calor tremulava em ondas que subiam dos afloramentos rochosos de colinas baixas. Um estreito fio de suor escorria lentamente entre os seios inchados de Dany e ele acabava se distraindo o assistindo escorregar pelo vale tentador dela. Concentre-se, Aegon! Pelos Deuses! Os únicos sons que se ouviam eram o ruído regular dos cascos dos cavalos, o tinir ritmado dos sinos nos cabelos de Drogo e as vozes distantes atrás deles.
Aegon observou as moscas. Eram grandes como abelhas, volumosas, arroxeadas, brilhantes. Os dothrakis as chamavam de moscas de sangue. Viviam em pântanos e lagoas de águas paradas, sugavam sangue quer de homens quer de cavalos, e punham os ovos nos mortos e nos moribundos. Drogo as odiava. Sempre que alguma se aproximava dele, a mão disparava, rápida como um ataque de serpente, e fechava-se à sua volta. Nunca o vira falhar. Mantinha a mosca dentro de seu enorme punho durante o tempo suficiente para ouvir seus frenéticos zumbidos. Depois, os dedos apertavam-se, e quando voltava a abrir a mão, a mosca era apenas uma mancha vermelha na palma.
Agora, uma rastejava pela garupa de seu garanhão, e o cavalo deu uma sacudidela irritada na cauda para enxotá-la. As outras voaram em volta de Drogo, cada vez mais perto. O khal não reagiu. Os olhos fixavam-se em distantes colinas marrons, e as rédeas estavam soltas nas mãos. Sob o colete pintado, um emplastro de folhas de figueira e lama seca azul cobria a ferida que tinha no peito. As ervanárias o tinham feito. O cataplasma de Mirri Maz Duur ardia e provocava-lhe comichão, e ele o arrancara há seis dias, amaldiçoando-a e chamando-a de maegi. O emplastro de lama era mais calmante, e as ervanárias fizeram também leite de papoula para ele.
E Drogo tinha bebido bastante do leite naqueles últimos dias; quando não era leite de papoula, era leite de égua fermentado ou cerveja picante.
Mas quase não tocava na comida, e agitava-se e gemia durante a noite, pelo que Dany falara. Khal Drogo é um homem morto. A todo momento, Aegon e Jorah trocavam um olhar preocupado. Os dois estavam cientes do perigo que Daenerys correria quando Drogo morresse e para Aegon, aquilo era apenas questão de tempo.
Desde que tinham montado, de madrugada, Drogo não dissera uma palavra. Quando a princesa falava com ele, não obtinha nenhuma resposta além de um grunhido, e desde o meio-dia nem isso.
Uma das moscas de sangue pousou na pele nua do ombro do khal. Outra, voando em círculos, pousou em seu pescoço e rastejou para cima, na direção da boca. Khal Drogo oscilava na sela, fazendo soar as campainhas, enquanto o garanhão prosseguia o caminho num passo regular. Dany empurrou os calcanhares contra a sua égua e aproximou-se.
—Senhor – disse em voz suave. – Drogo. Meu Sol-e-Estrelas. – Ele não pareceu ouvir. A mosca de sangue rastejou para baixo do bigode pendente e instalou-se na prega ao lado do nariz e Aegon olhou novamente para Jorah, que o olhou de volta parecendo preocupado. Dany arfou – Drogo... – ela estendeu a mão, desajeitadamente, e tocou seu braço. Khal Drogo cambaleou sobre a sela, inclinou-se devagar, e caiu pesadamente do cavalo. As moscas espalharam-se por um segundo, e depois regressaram, aos círculos, pousando em cima dele. – Não! – disse Dany, puxando as rédeas. A garota, apesar do tamanho de sua inchada barriga, saltou do cavalo e correu para ele.
A erva em sua pele estava marrom e seca. Drogo gritou de dor quando Dany se ajoelhou a seu lado. A respiração raspava lhe, áspera, na garganta, e ele olhou para a princesa sem reconhecê-la.
—Meu cavalo – arquejou ele e Dany enxotou as moscas de seu peito, esmagando uma como ele teria feito. A pele dele brilhava de suor. Aegon desceu do cavalo e se ajoelhou ao lado do homem. Tocou a testa dele e notou que ele ardia em febre. Ele está morto. Ele e minha esperança de voltar pra casa. Os companheiros de sangue do khal seguiam logo atrás. Aegon ouviu Haggo gritar enquanto se aproximava a galope. Cohollo saltou do cavalo.
—Sangue do meu sangue! – disse, enquanto caía de joelhos. Nos últimos dias Jorah tinha lhe ensinado bastante da língua Dothraki. Apesar de não conseguir falar quase nada, já entendia muita coisa de ouvir. Os outros dois companheiros de sangue do Khal continuaram montados.
—Não! – grunhiu Khal Drogo, lutando nos braços de Dany – Tenho de montar. Montar. Não.
—Ele caiu do cavalo. – disse Haggo, olhando fixamente para baixo. O largo rosto estava impassível, mas a voz era de chumbo.
—Não deve dizer isso! – disse-lhe Dany com firmeza, mas ele notou algum medo na voz dela – Já avançamos o bastante hoje. Acamparemos aqui.
—Aqui? – Haggo olhou em volta. A terra era parda e ressequida, inóspita. – Isto não é lugar para acampar.
—Não cabe a uma mulher nos pedir para parar. – disse Qotho e Aegon se levantou, colocando a mão sobre o cabo de sua espada – Nem mesmo uma khaleesi.
—Acampamos aqui – repetiu Dany – Haggo, diga-lhes que Khal Drogo ordenou a parada. Se alguém perguntar por que, diga que o meu tempo se aproxima e não consigo prosseguir. Cohollo, traga os escravos, eles devem montar a tenda do khal de imediato. Qotho...
—Não me dê ordens, khaleesi! – disse Qotho.
—Procure Mirri Maz Duur. – disse-lhe ela. A esposa de deus devia estar entre os outros Homens-Ovelhas, na longa coluna de escravos. – Traga-a até mim.
Qotho lançou-lhe um olhar intenso, com os olhos duros como sílex.
—A maegi – cuspiu. – Não farei isso.
—Fará como a khaleesi disse. – rosnou Aegon e Qotho o olhou sem medo. Em Westeros qualquer um pensaria duas vezes antes de me desobedecer, mas os Dothraki aqui parecem não sentir medo— Ou será que vamos ter um problema?
Qotho olhou para Jorah, que falou algo como “Drogo ficará sabendo disso”, ou qualquer coisa assim. Aegon olhou o Dothraki com o olhar impassível, esperando que ele lhe desse motivo para desembainhar a espada.
Furioso, Qotho virou o garanhão e afastou-se a galope... mas Aegon sabia que ele regressaria com Mirri Maz Duur, por mais que não gostasse disso. Os escravos erigiram a tenda de Khal Drogo sob um afloramento recortado de rocha negra cuja sombra providenciava algum alívio do calor do sol da tarde. Mesmo assim, estava sufocante sob a sedareia quando Irri e Doreah ajudaram Dany a amparar Drogo até o interior da tenda. Espessos tapetes ornamentados tinham sido colocados sobre o chão, e almofadas estavam espalhadas pelos cantos.
Eroeh, a jovem tímida que Dany salvara fora das muralhas de barro dos Homens-Ovelhas, acendeu um braseiro. Estenderam Drogo em uma esteira trançada, apesar de Aegon ter muita certeza de que não havia o que ser feito por ele. A mulher disse que ele não poderia tirar o cataplasma, mas ele não obedeceu. Ela disse para ele não beber o leite de papoula, mas ele encheu a cara... Essa mania de acreditar em magia e superstição dá nisso...
—Não – resmungou Drogo no Idioma Comum. – Não, não – foi tudo o que disse, tudo o que parecia capaz de dizer.
Doreah desprendeu seu cinto de medalhões e o despiu do colete e dos calções, enquanto Jhiqui ajoelhava junto a seus pés para desatar os nós das sandálias de montar. Irri quis deixar as abas da tenda abertas para a aragem poder entrar, mas Dany a proibiu. Ela não queria que alguém visse Drogo assim, em delírio e fraco e havia sabedoria nisso. Quando os seus khas chegaram, manteve-os lá fora, de guarda.
—Não deixe entrar ninguém sem a minha licença – disse Aegon a Jhogo. – Ninguém. – Eroeh fitou Drogo, temerosa.
—Ele morre. – sussurrou.
Dany a esbofeteou, surpreendendo Aegon.
—O khal não pode morrer. Ele é o pai do garanhão que monta o mundo! – Isso é invenção de um monte de velhas loucas. É apenas um bebê, como qualquer outro. E mesmo se fosse um bebê especial, isso não daria poderes especiais a Drogo. Isso não faz dele invencível. Ele foi estúpido e agora vai morrer.— Seu cabelo nunca foi cortado. Ainda usa as campainhas que o pai lhe deu.
—Khaleesi... – disse Jhiqui – Ele caiu do cavalo.
Tremendo, com os olhos subitamente cheios de lágrimas, Dany virou o rosto para elas. Todos tinham visto, ela tinha visto, e os companheiros de sangue, e sem dúvida que as aias e os homens de seu khas também. Quantos mais? Não podia manter segredo, e Aegon sabia o que isso queria dizer. Um khal que não conseguia montar não conseguia governar, e Drogo caíra do cavalo.
—Temos de lhe dar banho. – disse ela teimosamente. Aegon suspirou e concordou com ela, apenas para confortá-la – Irri, mande que tragam a banheira imediatamente. Doreah, Eroeh, encontrem água, água fria, ele está tão quente... – Sim, parece uma fogueira em pele humana.
As escravas instalaram a pesada banheira de cobre no canto da tenda. Quando Doreah trouxe o primeiro jarro de água, Dany umedeceu um pano de seda e o pousou na testa de Drogo, sobre a pele que queimava. Os olhos dele olharam para ela, mas não a viram. Quando a boca se abriu, não deixou escapar nenhuma palavra, só um gemido. Aegon continuava de guarda na entrada da tenda, com o suor escorrendo por sua testa.
—Onde está Mirri Maz Duur? – perguntou Dany, com a paciência encurtada pelo medo.
—Qotho há de encontrá-la. – disse Irri.
As aias encheram a banheira com água tépida que fedia a enxofre, purificando-a com jarros de óleo amargo e punhados de folhas esmagadas de menta. Enquanto o banho era preparado, Dany ajoelhou-se desajeitadamente ao lado do senhor seu marido, a barriga inchada com o filho de ambos lá dentro. Desfez-lhe a trança com dedos ansiosos, pôs de lado as campainhas com cuidado, uma a uma, olhando o marido com devoção e preocupação. Engoliu em seco e desviou o olhar, ligeiramente incomodado com aquilo.
Um sopro de ar entrou na tenda quando Aggo enfiou a cabeça através da seda.
—Khaleesi – disse –, o ândalo chegou e pede licença para entrar.
"O ândalo" era como os dothrakis chamavam Sor Jorah.
—Sim – disse ela, erguendo-se desajeitadamente –, mande-o entrar.
Sor Jorah Mormont entrou, baixando a cabeça sob a aba da entrada da tenda, e esperou um momento para que os olhos se ajustassem à escuridão. No feroz calor do sul, usava calças largas de sedareia de várias cores e sandálias abertas de montar atadas ao joelho. A bainha de sua espada pendia de um cinto de pelo de cavalo trançado. Sob um colete branqueado, o peito estava nu, com a pele vermelha pelo sol.
—Fala-se ao ouvido por todo o khalasar. – disse ele. – Dizem que Khal Drogo caiu do cavalo.
Ele é um homem morto...
—Ajude-o – suplicou Dany. – Pelo amor que diz ter por mim, ajude-o agora.
—Amor não cura feridas, khaleesi. Ele não vai sobreviver. – disse Aegon a olhando com afeição – Devemos tirá-la daqui o quanto antes...
—Não! – disse Dany, mirando Jorah – Por favor, Sor...
O cavaleiro ajoelhou ao lado dela. Olhou para Drogo com atenção durante muito tempo e depois virou os olhos para Dany.
—Mande as aias embora.
Sem palavras, Dany fez um gesto e Irri empurrou as outras para fora da tenda. Quando ficaram a sós, Sor Jorah puxou o punhal. Habilmente, com uma delicadeza surpreendente para um homem tão grande, começou a raspar do peito de Drogo as folhas negras e a lama seca azul. O emplastro tornara-se tão duro como os muros de barro dos Homens-Ovelhas, e, tal como esses muros, rachava facilmente. Sor Jorah quebrou a lama seca com a faca, afastou os pedaços da pele, puxou as folhas uma a uma. Um cheiro doce e desagradável elevou-se da ferida. As folhas estavam cobertas de sangue e pus, e o peito de Drogo, negro e cintilante de decomposição.
—Não! – sussurrou Dany enquanto as lágrimas lhe corriam pelo belo rosto. – Não, por favor, deuses, ouçam-me, não.
Khal Drogo agitou-se, lutando contra algum inimigo invisível. O sangue escorreu, lento e espesso, da ferida aberta.
—Aegon tem razão... o khal é um homem morto, princesa. – disse Jorah com pesar.
—Não, ele não pode morrer, não pode, era... só um corte – Dany tomou a grande mão calosa de Drogo em suas mãos pequenas e apertou-a com força. – Não deixarei que morra...
Sor Jorah soltou uma gargalhada amarga, que ele julgou desnecessária.
—Khaleesi ou rainha, essa ordem está para lá do seu poder. Poupe as lágrimas, menina. Chore por ele amanhã, ou daqui a um ano. Não temos tempo para o luto. Temos de partir, e depressa, antes que morra.
Dany o olhou parecendo confusa. Ela não sabe o que a espera... não entende...
—Partir? Para onde partiríamos?
—Para Asshai, diria eu. Fica bem para o sul, no fim do mundo conhecido, mas os homens dizem que é um grande porto. Encontraremos um navio que nos leve de volta a Pentos. – Disse Jorah. Ou Volantis... para a casa de meu avô... – Será uma viagem dura, não tenha ilusões. Confia em seus khas? Virão conosco?
—Khal Drogo ordenou-lhes que me mantivessem a salvo – respondeu Dany em tom inseguro –, mas se morrer... – ela tocou o inchaço na barriga. – Não compreendo. Por que haveríamos de fugir? Sou khaleesi. Estou grávida do herdeiro de Drogo. Ele será khal após Drogo...
Sor Jorah franziu as sobrancelhas.
—Princesa, escute-me. Os dothrakis não seguirão um bebê de peito. Eles se curvavam perante a força de Drogo, e só perante isso. Quando ele desaparecer, Jhaqo, Pono e o outro Kos lutarão pelo seu lugar, e seu khalasar se devorará. O vencedor não quererá rivais. O rapaz será tirado de seu seio no momento em que nascer. Eles o darão aos cães.
Dany abraçou-se.
—Mas por quê? – gritou com voz queixosa. – Por que haveriam de matar um bebezinho?
—É filho de Drogo, e as feiticeiras dizem que será o garanhão que monta o mundo. Foi profetizado. É melhor matar a criança do que se arriscar à sua fúria quando crescer até ser homem.
—Isso é ridículo. – debochou Aegon – Um monte de velhas senis, falando asneiras. Matariam o bebê dela por conta de uma insanidade? – perguntou indignado.
—Não acredita em magia, Sor? – perguntou Dany.
—Nem um pouco. – respondeu com firmeza – Eu acredito naquilo que meus olhos veem, Khaleesi... Mas há verdade no que Jorah diz. Sabes o que aconteceu com os filhos de seu irmão Rhaegar, não sabes? – perguntou ele a olhando com atenção – Devemos sair daqui o quanto antes. Podemos ir para Volantis e...
—Não podem fazer mal ao meu filho! – gritou Dany, desesperada – Ordenarei aos meus khas que o mantenham a salvo, e os companheiros de sangue de Drogo irão...
Sor Jorah agarrou-a pelos ombros.
—Um companheiro de sangue morre com o seu khal. Sabe disso, filha. É certo que a levarão para Vaes Dothrak, para as feiticeiras, é o último dever que têm para com ele em vida... quando o cumprirem, se juntarão a Drogo nas terras da noite.
—Se te levarem pra lá, em breve serás tão louca quanto aquelas velhas insanas que te forçaram a comer um coração cru. – adicionou Aegon. E eu não poderei servi-la, ou protegê-la... ou sequer vê-la novamente...
Ela ponderou sobre aquilo brevemente, olhando angustiada para Drogo, até dizer:
—Não deixarei que isso aconteça – disse ela teimosamente, numa voz infeliz. Voltou a pegar-lhe a mão. – Não o deixarei.
Uma agitação na aba da tenda fez Aegon virar a cabeça e sacar a espada, mas era apenas a curandeira. Mirri Maz Duur entrou, com uma profunda reverência. Dias de marcha atrás do khalasar a tinham deixado coxa e exausta, com bolhas sangrentas nos pés e covas sob os olhos. Atrás dela entraram Qotho e Haggo, transportando o cofre da esposa de deus entre ambos. Quando os companheiros de sangue repararam na ferida de Drogo, o cofre deslizou dos dedos de Haggo e tombou ao chão da tenda, e Qotho soltou uma praga tão forte que empestou o ar.
Mirri Maz Duur estudou Drogo, mantendo o rosto imóvel e morto.
—A ferida ulcerou. – disse ela.
—Isto é trabalho seu, maegi. – disse Qotho.
Haggo tentou socar a mulher, mas Aegon segurou seu braço e se colocou entre os dois.
—Drogo não seguiu as orientações dela. – disse simplesmente – Não foi culpa da curandeira. – Jorah traduziu o que disse e Haggo se desvencilhou, muito zangado.
—Ela soltou um feitiço em você! Para protegê-la.
—Essa mulher pertence a Daenerys, minha princesa e suserana. Você não tem o direito de tocar em um fio de cabelo dela. – rosnou para Haggo, escutando Jorah traduzi-lo. Ficou feliz que daquela vez ele não disse outra coisa, para parecer mais educado.
Qotho afastou Haggo de Aegon, dizendo:
—Ela é uma maegi. Leve-a lá para fora. Vamos prendê-la a uma estaca, para que sirva de montaria a todos os homens que passarem por ela. E quando já nenhum a quiser, os cães a usarão também. Doninhas rasgarão suas entranhas e gralhas pretas se deliciarão com seus olhos. As moscas do rio depositarão os ovos no ventre dela e beberão pus das ruínas de seus seios... – ele fez com que iria avançar contra a mulher e Aegon ergueu a espada.
—Não. – disse em Dothraki – Ela é da Khaleesi e vocês obedecerão. – rosnou torcendo pra ter pronunciado direito.
—Isso mesmo. – disse Dany. – Não a quero machucada.
Os lábios de Qotho mostraram seus dentes tortos e escuros numa terrível caricatura de sorriso.
—Não? Diz a mim que não? É melhor que reze para não a prendermos ao lado da sua maegi. Você fez isto, tanto quanto ela.
Aquilo tinha sido a gota d’água. Com a mão esquerda, socou Qotho no queixo e ele desmontou no chão.
—Se tocar na Khaleesi, é um homem morto. – rosnou em Dothraki. Qotho se levantou, puxando seu arakh e o atacou. Aegon se defendeu facilmente, apesar da agilidade do adversário e segurou seu braço, para lhe cabecear o nariz. Qotho cambaleou para trás e o olhou com o nariz quebrado.
—Recue. Na próxima vez usarei a espada. – disse adquirindo a postura correta para uma luta de espadas.
—Puxe as rédeas da língua, companheiro de sangue. A princesa ainda é sua khaleesi. – disse Jorah.
—Só enquanto o sangue-do-meu-sangue sobreviver – disse Qotho ao cavaleiro. – Quando morrer, não será nada.
—Continuará sendo minha princesa e eu vou matar todos vocês antes de permitir que encostem nela. – Rosnou Aegon em Dothraki – Traduza pra mim agora, Jorah, porque algumas coisas só consigo falar no idioma comum. – pediu e Jorah concordou com um aceno de cabeça – Mande esses dois selvagens saírem da minha frente ou vou chutar o rabo deles com tanta força que o bico da minha bota vai sair pela boca deles.
Jorah o olhou com censura e traduziu algo como “saiam ou ele vai derramar sangue aqui”. O olhou zangado, mas imaginou que talvez não houvesse uma boa tradução praquilo em Dothraki.
—Antes de ser khaleesi, ela já era uma princesa do meu reino. E se vocês não a tratarem com o devido respeito, eu lhes ensinarei a boa educação de Harrenhal! – rosnou e isso Jorah traduziu bem.
—Não. – disse Qotho. – Nós saímos. Por enquanto... Cavaleiro de Prata.
Haggo seguiu-o, carrancudo.
—Aquele a quer mal, princesa. – disse Mormont enquanto Aegon voltava a embainhar a espada, mirando furioso a saída da tenda – Os dothrakis acreditam que um homem e os seus companheiros de sangue partilham uma vida, e Qotho a vê terminar. Um homem morto está para lá do medo.
—Ninguém morreu. – disse Dany. – Sor Jorah, Sor Aegon, posso precisar da suas lâminas. É melhor colocarem a armadura.
—Minha espada e minha vida são suas, Vossa Graça. – disse Aegon sem olhá-la, ainda vigiando a entrada.
—Às suas ordens. Aegon, fique aqui. Quando eu me vestir, você vai se arrumar e eu ficarei de guarda. – Aegon concordou e Jorah saiu a passos largos da tenda.
Dany virou-se para Mirri Maz Duur. Os olhos da mulher estavam atentos.
—Seu cavaleiro me salvou outra vez.
—E agora você tem de salvar meu marido. – disse Dany. – Por favor...
—Não se pede a uma escrava. – respondeu bruscamente Mirri – Mas, ordena – aproximou-se de Drogo, que ardia sobre a esteira, e olhou longamente para a ferida. – Pedir ou ordenar, não faz diferença. Ele está para lá das capacidades de um curandeiro. – Ela também sabe. Todos sabem. Apenas Dany se recusa a ver. Os olhos do khal estavam fechados. Ela abriu um com os dedos. – Tem atenuado a dor com leite de papoula.
—Sim – Dany admitiu.
—Fiz-lhe um cataplasma de vagem-de-fogo e não-me-piques, e atei-o com uma pele de ovelha.
—Ele dizia que ardia. Arrancou-o. As ervanárias fizeram-lhe uma nova, úmida e calmante.
—Sim, ardia. Há grande magia curativa no fogo, até seus homens sem cabelo sabem disso. – ela provavelmente se referia aos Meistres. Aegon herdara do pai sua desconfiança para as ratazanas cinzentas, que era como chamavam os homens da cidadela. Mas não podia negar a habilidade de cura deles.
—Faça um novo cataplasma – pediu Dany. – Desta vez eu asseguro que ele não o arrancará.
—O tempo para isso passou, senhora. – disse Mirri. – Tudo o que posso fazer agora é tornar mais fácil o escuro caminho que ele tem a percorrer, para que possa cavalgar sem dor para as terras da noite. Terá partido pela manhã.
—Isso até eu posso fazer, com minha adaga. – disse Aegon – Sei cortar a cabeça de um homem de tal maneira que ele só vai notar que morreu quando encontrar os Deuses. – Isso se você acredita em deuses...
—Não... – choramingou Dany, olhando para Drogo – Salve-o, e juro que a liberto. Deve conhecer uma maneira... alguma magia, algum...
Mirri Maz Duur apoiou o peso nos calcanhares e estudou Daenerys com os olhos negros como a noite.
—Existe um feitiço – a voz era silenciosa, pouco mais que um suspiro. – Mas é duro, senhora, e escuro. Alguns diriam que a morte é mais limpa. Aprendi-o em Asshai, e paguei caro pela lição. Meu professor foi um mago de sangue vindo das Terras da Sombra.
—Então você é mesmo uma maegi...
—Isso não existe. – ralhou Aegon – Pare de dar esperanças para ela. Drogo está morto e não há o que ser feito. – adicionou ele – Vamos, Dany. Vamos embora daqui. Lhe garanto que em Volantis meu avô nos dará abrigo e você vai poder criar seu filho com tranquilidade e fartura.
—Você não acredita em magia? – perguntou Mirri e ele revirou os olhos.
—Não. Não acredito nessa perda de tempo. – respondeu olhando a curandeira.
—Logo você, um dragão? Não acredita em magia? Você que descende daqueles que vieram de Valíria?
—Eu acho que, caso a magia tenha existido algum dia, ela morreu. Com os dragões. – respondeu ele e Mirri sorriu para ele.
—E não temos dois aqui? – perguntou ela.
—Dois brasões. Apenas desenhos em um escudo. Ou por acaso vê asas e acha que eu e Dany cuspimos fogo? – perguntou debochado – Não há nada que possa salvar Drogo. – insistiu confiante. Dany olhou para Mirri, que sorriu olhando para ela.
—Só uma maegi pode salvar o seu cavaleiro agora, Senhora de Prata. – disse ela.
—Não há nenhuma outra maneira? – perguntou Dany e ele bufou aborrecido. Por que nunca me escutas, mulher?!
—Nenhuma. – respondeu Mirri.
Khal Drogo soltou um arquejo trêmulo.
—Faça-o. – exclamou Dany – Salve-o.
—Há um preço. – preveniu-a a esposa de deus.
—Terá ouro, cavalos, o que quiser.
—Não é questão de ouro ou cavalos. Isto é magia de sangue, senhora. Só a morte pode pagar a vida. – Aegon revirou os olhos novamente.
—A morte? – Dany enrolou protetoramente os braços em torno de si própria e balançou para trás e para a frente sobre os calcanhares. – A minha morte?
Aegon olhou para Mirri e ameaçou sacar a espada, a olhando o mais ameaçadoramente que conseguiu.
—Não. – prometeu Mirri Maz Duur. – Sua morte, não, khaleesi.
Dany tremeu de alívio.
—Faça-o.
A maegi anuiu solenemente.
—Será feito como diz. Chame seus servos.
Khal Drogo contorceu-se debilmente quando Rakharo e Quaro o puseram no banho.
—Não. – murmurou – Não. Tenho de montar... – uma vez dentro da água, toda a força pareceu escoar-se de seu corpo.
—Traga seu cavalo. – ordenou Mirri Maz Duur, e foi o que fizeram. Jhiqui levou o grande garanhão vermelho para o interior da tenda. Quando o animal sentiu o cheiro da morte, relinchou e recuou, revirando os olhos. Foram precisos três homens para subjugá-lo. Todos viram naquilo um mau agouro, mas Aegon só conseguia pensar na perda de tempo que tudo aquilo era. Dany estava tendo esperanças de algo impossível... e ele simplesmente não acreditava no impossível.
—Que pretende fazer? – perguntou Dany.
—Precisamos do sangue – respondeu Mirri. – É este o caminho.
Jhogo afastou-se com cautela, com a mão sobre o arakh. Era um jovem de dezesseis anos, magro como um chicote, destemido, de riso fácil, com a leve sombra do primeiro bigode no lábio superior. Caiu de joelhos perante ela.
—Khaleesi – suplicou –, não deve fazer isto. Deixe-me matar esta maegi.
—Se a matar, matará o seu khal. – disse Dany.
—Isto é magia de sangue. – disse ele.
—Não... isso é perda de tempo. – resmungou Aegon.
—É proibido. – insistiu Jhogo.
—Sou a khaleesi , e digo que não é proibido. Em Vaes Dothrak, Khal Drogo matou um garanhão e eu comi seu coração, para dar a nosso filho força e coragem. Isto é a mesma coisa. A mesma.
Sim, pura perda de tempo...
O garanhão escoiceou e recuou quando Rakharo, Quaro e Aggo o puxaram para perto da banheira onde o khal flutuava como se já estivesse morto, com sangue e pus escorrendo da ferida para ir sujar as águas. Mirri Maz Duur entoou um cântico com palavras numa língua que Aegon não conhecia, e uma faca surgiu-lhe na mão. Ele não chegou a ver de onde a retirara. Parecia velha; bronze vermelho batido, em forma de folha, com a lâmina coberta de antigos glifos. A maegi rasgou com ela a garganta do garanhão, sob sua nobre cabeça, e o cavalo gritou e estremeceu enquanto o sangue jorrava numa torrente vermelha. Teria caído, mas os homens do khas de Dany mantiveram-no sobre as patas.
—Força da montaria, passa para o cavaleiro – cantou Mirri enquanto o sangue do cavalo rodopiava para dentro das águas do banho de Drogo. – Força do animal, passa para o homem.
—Vai matá-lo ainda mais rápido. – resmungou baixinho e Dany não o escutou. Deveria ter deixado que Qotho ou Ohos tivessem matado essa mulher.
Jhogo parecia aterrorizado enquanto lutava contra o peso do garanhão, com medo de tocar na carne morta, mas também com medo de largar.
Quando deixaram o garanhão cair, o banho estava vermelho escuro, e nada se via de Drogo a não ser o rosto, Mirri Mas Duur não precisava da carcaça.
—Queime-a – disse-lhes Dany. Sabia que era o que faziam.
Quando um homem morria, a montaria era morta e colocada sob o seu corpo na pira funerária, a fim de transportá-lo para as terras da noite. Os homens do seu khas arrastaram a carcaça para fora da tenda. Havia sangue por todo lado. Até as paredes de sedareia estavam manchadas de vermelho, e as esteiras sob seus pés estavam negras e úmidas.
Foram acesos braseiros. Mirri Maz Duur atirou um pó vermelho sobre os carvões. Dava à fumaça um odor de especiaria, um cheiro bastante agradável, mas Eroeh fugiu aos soluços, e Dany pareceu encher-se de medo.
—Acalme-se, Khaleesi... – murmurou para ela, mas a menina mandou as aias embora.
—Vá com elas, Senhora de Prata – disse-lhe Mirri Maz Duur – Você também, Cavaleiro de Prata.
—Eu fico. – disse Dany. – O homem possuiu-me sob as estrelas e deu vida à criança que trago dentro de mim. Não o abandonarei.
—É preciso sair. Quando eu começar a cantar, ninguém deve entrar nesta tenda. A canção acordará poderes antigos e escuros. Os mortos dançarão aqui esta noite. Nenhum vivente deve vê-los.
Dany inclinou a cabeça, impotente, enquanto Aegon deixou escapar uma risadinha desdenhosa.
—Ninguém entrará – ela dobrou-se sobre a banheira, sobre Drogo e seu banho de sangue, e o beijou suavemente na testa. – Traga-o de volta para mim – sussurrou a Mirri Maz Duur antes de sair. Aegon olhou a mulher mais uma vez e estava para seguir sua princesa, quando a bruxa falou.
—Por que não acredita em magia, senhor? – perguntou ela. Aegon a olhou com desdém e sorriu.
—Eu já acreditei uma vez... mais de uma vez. – riu ele – Mas eu vivi para aprender que isso não passa de truques, crenças inúteis e perda de tempo. Não existe magia. Não mais... – caso contrário ela estaria viva... mas não ficou para discutir. Apenas deixou a tenda, para voltar a proteger a Khaleesi.
Lá fora, o sol estava baixo no horizonte, e o céu era de um vermelho ferido. O khalasar acampara. Havia tendas e esteiras de dormir até onde o olhar chegava. Soprava um vento quente. Jhogo e Aggo cavavam um buraco de fogo para incinerar o garanhão morto.
Reunira-se uma multidão para olhar para Dany com olhos negros e duros, com rostos como máscaras de cobre martelado. Viu Sor Jorah Mormont, trazendo agora cota de malha e couro, com a larga testa de quem vai perdendo cabelo salpicada de suor. Ele abriu caminho aos empurrões por entre os dothrakis para se pôr ao lado de Dany. Quando viu as pegadas escarlates que as botas dela tinham deixado no chão, a cor pareceu esvair do seu rosto.
—O que fez, pequena louca? – perguntou ele em voz rouca.
—Uma bagunça inútil. – riu Aegon, mas Dany olhou significadoramente para Jorah, como se implorasse para que ele entendesse o que ela tinha feito. Como se precisasse que ele lhe desse razão.
—Tinha de salvá-lo.
—Podíamos ter fugido – disse Jorah e Aegon concordou com ele – Podia tê-la levado a salvo até Asshai, princesa. Não havia necessidade...
—Sou mesmo sua princesa? – ela perguntou – De ambos? Dos dois?
—Sabe que sim, que os deuses nos salvem. – disse Jorah.
—Minha espada e minha vida lhe pertencem, princesa. – respondeu Aegon.
—Então me ajudem agora.
Sor Jorah fez uma careta.
—Bem gostaria de saber como.
A voz de Mirri Maz Duur ergueu-se num lamento agudo e ululante, fazendo passar um arrepio pelas costas de Aegon. Alguns dos dothrakis começaram a resmungar e a recuar. A tenda brilhava com a luz vinda dos braseiros que tinha no interior. Através da sedareia salpicada de sangue, Aegon viu sombras que se moviam.
Mirri Maz Duur dançava, e não estava só.
Abriu a boca em choque e se convenceu que deveria ser um truque de sombras. Deveria ter alguma explicação lógica para aquilo, mas aquele frio na espinha não desapareceu.
Havia medo no rosto dos dothrakis e no da khaleesi.
—Isto não pode ser – trovejou Qotho.
Não vira o companheiro de sangue voltar. Tinha Haggo e Cohollo com ele. Haviam trazido os homens sem cabelo, os eunucos que curavam com facas, agulhas e fogo.
—Isto será. – respondeu Dany e Aegon e Jorah levaram as mãos aos cabos de suas espadas, como se tivessem ensaiado.
—Maegi – rosnou Haggo. E o velho Cohollo, o Cohollo que ligara a vida à de Drogo no dia de seu nascimento, o Cohollo que sempre fora bondoso com Dany, cuspiu em cheio na face da menina.
—Morrerá, maegi – prometeu Qotho –, mas a outra tem de morrer primeiro – puxou o arakh e dirigiu-se à tenda.
—Não. – gritou Dany – Não pode! – ela pegou-o pelo ombro, mas Qotho a empurrou. Dany caiu de joelhos, cruzando os braços sobre a barriga para proteger a criança que tinha lá dentro. – Parem-no! – ordenou ao seu khas – Matem-no!
Rakharo e Quaro encontravam-se ao lado da aba da tenda. Quaro deu um passo em frente, levando a mão ao cabo do chicote, mas Qotho rodopiou, gracioso como uma bailarina, fazendo subir o arakh curvo. A lâmina apanhou Quaro debaixo do braço, o brilhante aço afiado cortou couro e pele, músculo e osso da costela. Sangue jorrou quando o jovem cavaleiro cambaleou para trás, arquejando.
Qotho libertou a lâmina.
—Senhor dos cavalos – chamou Sor Jorah Mormont. – Tente comigo. – a espada longa deslizou de sua bainha.
Qotho girou, praguejando. O arakh moveu-se tão depressa que o sangue de Quaro foi projetado num borrifo fino, como chuva em vento quente. A espada o parou a trinta centímetros do rosto de Sor Jorah, e segurou-o, estremecendo por um instante enquanto Qotho uivava de fúria. O cavaleiro estava revestido por cota de malha, com manoplas e grevas de aço articulado e um pesado gorjal em volta da garganta, mas não se lembrara de colocar o elmo.
Qotho dançou para trás, fazendo girar o arakh por cima da cabeça num borrão cintilante, brilhando como um relâmpago, quando o cavaleiro arremeteu numa investida. Sor Jorah fez a melhor parada que foi capaz, mas os golpes sucediam-se tão depressa que parecia que Qotho tinha quatro arakhs em outras tantas mãos. Jorah era um espadachim habilidoso, mas estava velho e lento, vestindo uma armadura pesada demais. Por isso ele perdeu o equilíbrio caindo no chão. Escutou Dany gritar e Qotho avançou, mas Aegon se colocou entre ele e Jorah.
—Vamos terminar isso de uma vez. – disse olhando o rapaz com fúria no olhar – Nós dois estamos querendo fazer isso há tempo... e você jogou minha princesa no chão. – rosnou adquirindo a pose de luta. – Vou te ensinar o que acontece quando desafia um dragão.
—Os dragões estão mortos. – vociferou o rapaz.
Qotho o atacou, mas ele defendeu bem com sua espada. O Dothraki girou o arakh por cima da cabeça e o atacou com velocidade, mas ele esquivou de novo e prendeu a arma do inimigo em sua espada, a jogando para cima. Qotho pulou para trás, pegando seu chicote e Aegon avançou. Quando o homem tentou brandir o chicote, já era tarde demais. Cravou sua espada no estômago do inimigo com tanta força, que ele saiu do chão por alguns segundos.
—Esse dragão aqui está bem vivo. – jogou seu inimigo no chão, que cuspiu um monte de sangue – Eu sou Aegon. Primeiro do meu nome, filho de Haegon Blackfyre, herdeiro de Harrenhal. O Jovem Dragão Negro. E eu vou matar qualquer um que ousar encostar um dedo que seja...
—Aegon! – Chamou Jorah. Olhou para trás e viu o homem erguer Daenerys no colo – O bebê está nascendo.
Quase deixou sua espada cair.
—O que?! Agora? – perguntou sentindo medo pela primeira vez.
Os dothrakis gritavam, Mirri Maz Duur uivava dentro da tenda como se não tivesse nada de humano, Quaro pedia água enquanto morria. Dany gritou por ajuda, mas ninguém a ouviu. Rakharo lutava com Haggo, arakh dançando com arakh, até que o chicote de Jhogo estalou, sonoro como um trovão, enrolando-se em volta da garganta de Haggo. Um puxão, e o companheiro de sangue tropeçou para trás, perdendo o equilíbrio e a espada. Rakharo saltou para a frente, uivando, empurrando o arakh para baixo com ambas as mãos através do topo da cabeça de Haggo. A ponta prendeu-se entre os olhos, vermelha, estremecendo. Alguém atirou uma pedra, e, quando Aegon viu, tinha o ombro rasgado e ensanguentado.
—Não – chorou Dany –, não, por favor, parem, é demais, o preço é demais...
—Vamos levá-la pra dentro. – disse Jorah e Aegon se lembrou do que Mirri tinha dito. Drogo não escutara a bruxa e morrera por isso. Mas antes que pudesse dizer isso a Jorah, Cohollo atacou os dois, Mormont e Daenerys.
—Morra! – gritou ele, mas Aegon correu até ele, rapidamente. Jorah tentou lutar com Cohollo ainda com Dany no colo, mas o Dothraki o desarmou e pegou Daenerys pelos cabelos.
—Meu bebê! – gritou ela e Aegon brandiu a espada, decapitando o atacante com um só golpe – Atrás de você! – se virou já bloqueando o golpe de outro Dothraki e quase o cortou ao meio com outro golpe. As tripas do homem caíram e ele se ajoelhou, em desespero, tentando colocá-las de novo para dentro.
Olhou ao redor e viu a multidão se dispersar; os dothrakis se esgueirando em silêncio de volta às suas tendas e esteiras de dormir. Alguns selavam cavalos, montavam e afastavam-se. O sol se pusera. Fogueiras ardiam por todo o khalasar; grandes chamas cor de laranja que crepitavam com fúria e cuspiam fagulhas para o céu. Escutou Daenerys gritar de dor e olhou para Jorah.
—Vamos levá-la pra dentro. – disse Mormont.
—Não ai. – murmurou assustado com os gritos – Outra tenda...
—Achei que não acreditasse em magia. – riu Jorah com desdém e Aegon engoliu em seco.
—Você quer entrar ai? – perguntou olhando para a tenda, escutando os gritos e observando as sombras monstruosas dançando pelo tecido. O som da voz de Mirri Maz Duur era como uma poesia fúnebre. Dentro da tenda, as sombras rodopiavam. Daenerys se contorceu de dor nos braços de Jorah, enquanto chorava de dor.
—Ajudem aqui! – gritou Jorah para as aias, mas nenhuma delas se aproximou. Estão com medo... claro que estão com medo...— Doreah, maldita seja! – rugiu Sor Jorah. – Ande. Vá buscar as parteiras.
—Elas não virão. Dizem que ela está amaldiçoada. – respondeu a escrava que viera de Lys.
—Se não vierem, arranco-lhes a cabeça. – rosnou Jorah.
—Elas se foram, senhor – chorou Doreah.
—A maegi – disse Aggo – Leve-a à maegi.
Dany gritou em resposta.
—Esse lugar está imundo, cheia de sangue, pus e morte. Não leve Daenerys para dento dessa tenda, pelos deuses. – ralhou Aegon.
—E onde acha que devemos fazer isso? – perguntou Jorah.
—Aqui mesmo. Os Dothraki não tem pudor com essas coisas! – resmungou – Se eles transam em qualquer lugar, podem nascer em qualquer lugar. Vamos sair daqui de perto e ir pra um lugar sem cadáveres e...
—E você fará o parto? – perguntou Jorah com desdém.
—Não é só ela empurrar e alguém pegar quando sair? – perguntou perdido e Daenerys gritou de dor novamente. Dentro da tenda, as formas dançavam, escuras contra a sedareia, rodeando o braseiro e o banho sangrento, e algumas não pareciam humanas. Vislumbrou a sombra de um grande lobo, e outra que era como um homem envolvido em chamas – Não devemos entrar ai. Não devemos. Está sujo. Vamos para outra tenda.
—A Mulher-Ovelha conhece os segredos da cama de partos – disse Irri. – Foi ela que disse, eu a ouvi dizer.
—Pelos deuses! Por que ninguém me escuta?! Me entregue a princesa. – rosnou Aegon.
—Ela precisa de alguém para fazer o parto. – insistiu Jorah.
—Para o inferno com isso! Eu já vi uma cabra nascer. É a mesma coisa. Eu faço isso, longe desse lugar! – rosnou apontando para a tenda – Não vou deixar que entre ai.
Viu Jorah olhar para alguém e acenar com a cabeça. Antes que pudesse se virar, sentiu alguém lhe acertar algo na cabeça. Caiu no chão, zonzo, com a visão ficando cada vez mais turva. Levavam Daenerys para longe de si. Tentou manter-se acordado, mas tudo escurecia. Seus olhos abriram-se para um céu vazio e morto, negro, triste e sem estrelas. Por favor, não. O som da voz de Mirri Maz Duur ficou mais forte até encher o mundo. Lembrou-se de abraçar Shiera e Valerion, muitos anos atrás enquanto eles choravam. Sentiu-se impotente naquele dia tanto quanto agora. Sua cabeça tocou o chão, com a visão quase negra. Via as formas... Via os dançarinos!
Mas Jorah entrou com ela na tenda e tudo ficou completamente escuro.
**
Os bosques estavam cheios de murmúrios. O luar tremeluzia nas águas agitadas do córrego enquanto este abria seu caminho rochoso pelo fundo do vale. Sob as árvores, cavalos de guerra relinchavam baixinho e escavavam o solo úmido e coberto de folhas, e homens trocavam palavras nervosas em vozes segredadas. De quando em quando ouvia-se o tinir de lanças, o leve deslizar metálico da cota de malha, mas até esses sons eram abafados.
Hallis Mollen, o capitão da guarda de Winterfell estava ao seu lado. Era tarefa dele vigiá-la e impedi-la de cavalgar até Robb. Ele me prometeu que me levaria, mas vai me deixar aqui. Eu o fiz atravessar as Gêmeas, eu lhe dei cinco mil homens Frey, o que permitiu que os Mallister pudessem se unir a nós. Eu... mas ele vai me deixar para trás, para lutar sozinho.
Shiera trazia seu arco, sua espada e sua adaga, como se estivesse pronta para a guerra. Vestia cota de malha também e várias proteções. Não usava vestidos, mas calça, botas e um gibão reforçado. Seus cabelos estavam trançados e bem presos no alto de sua cabeça. Eu poderia ir e lutar tão bem quanto qualquer outro. Mas ele não vai deixar.
Quarenta homens ao seu redor, para fazer sua guarda e a de Lady Catelyn, assim como a de suas damas de companhia. Walda não queria estar ali, ela preferiria estar longe, num acampamento. As primas dela desejavam o mesmo. Linda Frey e Waldra Frey. A primeira tinha sua idade e era muito bonita. A segunda lembrava bastante o avô, com a mesma cara de fuinha, as orelhas grandes e a falta de queixo. Era da idade de Arya, mas parecia ter a idade de Rickon, de tão pequena e medrosa que era.
Jon a abandonara em Harrenhal, sem nem mesmo se despedir. Depois foi a vez de Aegon, que foi embora, prometendo que voltaria. Então Jon a deixou para trás novamente, em Winterfell. Em seguida seu pai e Valerion a deixaram para trás naquele castelo estranho e solitário.
E agora era por Robb que esperava... por Robb e por Jaime Lannister, o cavaleiro dourado que os homens diziam que nunca aprendera a esperar. "O Regicida é irrequieto e irrita-se facilmente", dissera Sor Brynden a Robb. E apostariam suas vidas e suas melhores esperanças de vitória na verdade do que dissera.
Se Robb estava assustado, não mostrava sinal disso. Shiera observou o marido enquanto se movia por entre os homens, tocando um no ombro, trocando um gracejo com outro, ajudando um terceiro a sossegar um cavalo ansioso. Sua armadura tinia levemente quando se movia. Só a cabeça se encontrava descoberta. Shiera viu uma brisa agitar seus cabelos ruivos e ondulados e se lembrou de que tinha ficado a afagá-los durante a noite passada até que ele caísse no sono. Perguntou a si mesma quando fora que seu sentimento por ele crescera tanto. Estava magoada com ele e jurara a si mesmo que não lhe dirigiria palavra. Mas agora estava convencida que se ele viesse falar com ela, simplesmente o beijaria e pediria que tomasse cuidado. Mas só se ele vier. Não vou ir atrás dele. Não vou.
Robb a olhou de longe e suspirou. Ele sabe que eu estou zangada. Ele sabe que me havia prometido algo e que agora não vai cumprir. Desviou o olhar do dele e bufou aborrecida.
—Não fique assim, Shiera. – murmurou Walda – Ele só está preocupado com você.
—Não me importa. – resmungou magoada, ainda evitando de olhar para ele.
—Seu lugar é aqui, querida. – disse Lady Catelyn com delicadeza – Provavelmente já está esperando um filho de Robb... você não pode se arriscar indo até a batalha e...
—Eu não estou grávida. – disse franzindo a testa, apesar de estar um tanto nervosa. Bebia todos os dias o chá de Venira. Todos os dias, sem pular um. Seu sangue de lua deveria descer em um dia ou dois e imaginava que seu nervosismo e agitação era por isso. Sempre ficava mais agitada antes do sangue descer – Eu estou em perfeitas condições de lutar.
—Você é uma mulher. Mulheres não participam de batalhas. – ralhou Mollen.
Minha mãe participou. Ela lutou ao lado do meu pai em todas as batalhas. Todas. Ela conquistou Harrenhal tanto quanto ele.
Mas não respondeu. Estava agitada e com medo. Aquela era uma batalha decisiva. Extremamente importante. Robb tinha feito um plano arriscado, enviando uma pequena parte de seus homens para atacar Lorde Tywin. Assim Sor Jaime estaria ainda mais convencido de que estavam longe de Riverrun. Mas se perdessem essa batalha, de nada iria valer o sacrifício... não teria nem ao menos chegado em Harrenhal. E tinha planos para quando chegasse lá...
Logo viu Peixo Negro e Robb se aproximarem. Robb trazia seu cavalo cinzento, vestido com armadura completa e com Vento Cinzento ao seu lado. Ele a olhou como se pedisse desculpas, mas ela ficou muda, confusa demais com os próprios sentimentos. Tinha vontade de pular em seus braços, mas tinha igual vontade de atirar em seu cavalo, para derrubá-lo no chão.
Robb dera ao Peixe Negro trezentos homens com lanças e os enviara à frente para ocultar sua marcha.
—Jaime não sabe. – dissera Sor Brynden quando regressara. – Aposto nisso a minha vida. Nenhuma ave lhe chegou, meus arqueiros certificaram-se disso. Vimos alguns de seus batedores, mas os que nos viram não sobreviveram para ir lhe contar. Ele deveria tê-los mandado em maior número. Não sabe.
—De que tamanho é a sua tropa? – perguntou seu marido, ainda a olhando, esperando que ela o olhasse, mas Shiera não o fez. Olhou para o horizonte, com a cara fechada, escutando a conversa.
—Doze mil homens a pé, espalhados em torno do castelo em três acampamentos separados, com os rios entre eles. – respondeu Sor Brynden, com seu sorriso assimétrico – Não há outra forma de montar cerco a Riverrun, mas, mesmo assim, isso será a ruína deles. Dois ou três mil homens a cavalo.
—O Regicida tem três homens contra cada um dos nossos. – disse Galbart Glover com preocupação na voz.
—É verdade – disse Sor Brynden –, mas há uma coisa que falta a Sor Jaime.
—Sim? – perguntou Robb.
—Paciência.
A tropa do Norte era maior do que quando deixara as Gêmeas. Lorde Jason Mallister trouxera as suas forças de Guardamar para se juntar a eles quando rodeavam a nascente do Ramo Azul e se dirigiam a galope para o sul, e outros também haviam se juntado, pequenos cavaleiros e senhores, homens de armas sem chefe que tinham fugido para o norte quando o exército de seu irmão Edmure fora desfeito sob as muralhas de Riverrun. Tinham exigido o mais que se atreviam dos cavalos, a fim de chegar àquele lugar antes que Jaime Lannister soubesse de sua vinda, e agora a hora estava próxima.
Robb guiou seu cavalo, que vinha trazendo pela rédeas. Olyvar Frey seguia-o. Era filho de Lorde Walder, dois anos mais velho que Robb, apesar de parecer dez anos mais jovem e ansioso. Atou o escudo de Robb no lugar e entregou-lhe o elmo, mas Robb meneou a cabeça negativamente.
—Só um momento, Olyvar. – disse ele vindo em sua direção e Shiera respirou fundo – Minha senhora, por favor... fale comigo. – pediu Robb – Pois eu a escutaria mesmo que isso me custasse as orelhas. – o olhou assim que ele disse isso e se lembrou do dia em que ele lhe roubara um beijo, em Winterfell. Tentou ficar séria e controlar seu rosto, mas estava preocupada demais com ele. Era a primeira batalha que teriam. Engoliu em seco o olhando e Robb sorriu para ela com tanto carinho que seus olhos se encheram de lágrimas.
—Idiota! – ralhou ela andando até ele para lhe dar um beijo. Sentiu a armadura dele contra seu corpo, mas não se importou. O beijou apaixonadamente e soluçou sem querer. Robb a abraçou com carinho e suspirou em seus cabelos. Sentiu o corpo dele tremer e entendeu que ele estava com medo, por mais que fingisse que estava bem. Tentou abraçá-lo com mais força, mas a armadura atrapalhava – Tome cuidado, está bem? – perguntou ela. Ele concordou a afagando no topo da cabeça – Não morra. Se você morrer, eu juro que... que... – mas aquela possibilidade lhe foi tão assustadora que simplesmente não conseguiu falar. Soluçou de novo e o beijou mais uma vez.
—Não se preocupe, meu amor. Eu voltarei. Tem minha palavra. – disse ele e ela temeu que ele não pudesse cumprir aquela promessa – Tome cuidado e fique com a minha mãe, está bem? – perguntou ele. Shiera concordou e Robb lhe beijou os lábios de maneira carinhosa novamente – Ainda está com raiva, não está?
—Sim. Estou! – ralhou ela e Robb sorriu.
—Me desculpe, mas... mas eu simplesmente não posso arriscar perder você.
—Você me prometeu! – disse se afastando e desviando o olhar, secando as lágrimas com as mãos. Robb suspirou e lhe sussurrou ao pé do ouvido.
—Eu amo você. Jamais deixaria de te proteger.
Shiera corou de leve e o olhou. Notou que ele esperava que ela dissesse que o amava também, mas no lugar disso, deu as costas para ele e se afastou. Chamou Lady consigo e simplesmente deixou os homens para trás. Suas damas de companhia vieram correndo para acompanhá-la, mas não deu atenção a elas. Estava muito nervosa. Seu estômago revirava de ansiedade e preocupação. Eu deveria ter dito alguma coisa... eu não deveria ter simplesmente me afastado. Cruzou os braços e ficou parada sentindo aquele nó no estômago. Ele é meu marido e eu devo fazê-lo feliz...
Mas ele tinha quebrado uma promessa.
Bufou aborrecida e secou mais algumas lágrimas que escorriam por seu rosto.
—Shiera... – murmurou Walda, mas não queria ouvi-la – Você não devia tratar seu marido assim. Ele só quer o melhor pra você. – murmurou ela – Vá lá e se despeça dele, antes que ele vá para batalha e você fique se revirando em arrependimentos.
—Não vou. Ele é um cretino, mentiroso! – rosnou enfurecida – E eu já estou me revirando em arrependimentos. Arrependimentos por ter dividido a cama com ele! – ralhou cruzando os braços, lembrando de várias noites com Robb. Lembrando de seus beijos calorosos e da maneira como ele a amava toda a noite, lhe arrancando gemidos de prazer, a fazendo perder o fôlego e desejar mais e mais dele. Eu nunca contei uma mentira tão descarada em toda a minha vida.
—Se estivesse arrependida não acordaria toda manhã com um sorriso no rosto. – riu Linda. Shiera bufou novamente, pois sabia que aquilo era a mais pura verdade. Mas não saiu de lá. Ficou escutando suas damas de companhia insistirem para que ela fosse se despedir dele até que sua guarda se aproximou. Quando olhou para trás, notou que Robb já tinha partido para a guerra.
—Seu cavalo, senhora. Nós vamos nos afastar um pouco. – disse Maege Mormont lhe entregando seu castrado negro.
Montou sentindo um grande aperto no peito. Olhou para trás, para onde o exército marchava e desejou ter dito a Robb alguma coisa. Já estava escondendo um grande segredo dele, com aquele chá. Agora isso. Guiou o cavalo seguindo sua guarda. Lady caminhava ao seu lado. Eu deveria ter dito... eu deveria ter dito que o amava também. Engoliu em seco e soluçou de novo, se achando estúpida. Agora é tarde demais, Shiera. De que lhe servirão as lágrimas? Em que elas ajudariam Robb? Em nada.
Por fim chegaram no lugar onde deveriam esperar pelos soldados. Soltou um suspiro, morrendo de preocupação e escutou um corvo fazendo o som que os corvos fazem. Isso fez com que se lembrasse de Jon. A essa altura ele já estava vestindo o negro. A essa altura ele também já tinha feito seus votos. Se perguntava se ele ainda pensava nela com a mesma frequência que ela pensava nele. Penso nele com muito mais frequência do que uma mulher casada deveria pensar em alguém que não fosse seu marido...
Logo o som das batalhas começou a ecoar. Mesmo ali, onde estavam distantes demais para ver qualquer coisa. As árvores que serviam de proteção para eles também os impediam de ter alguma visão do cerco a Riverrun. Olhou para Lady Stark e notou que ela tinha um semblante sombrio, extremamente preocupada.
Depois voltou a olhar para as árvores. Apertou as rédeas de seu cavalo e engoliu em seco.
“Eu amo você. Jamais deixaria de te proteger.”
Essas foram as últimas palavras que ouvira dele. E ela respondera essas lindas palavras com um silêncio terrível. Soltou outro soluço e respirou fundo. Apertou as rédeas de novo e então acertou os calcanhares em seu cavalo com força.
—Lady Shiera! – escutou Walda gritar, mas já estava a galope. Escutou o som dos cascos a lhe seguirem, mas não parou. Gritou com seu cavalo se lembrando de quando apostava corridas com Valerion pelos campos de Harrenhal.
Gritou de novo, fazendo o cavalo acelerar e seguiu os sons da batalha. Logo sentiu o cheiro de sangue, e de morte. Um cheiro terrível de fezes também. Sabia que os homens, quando morriam, se borravam todos. Pegou seu arco e armou a primeira flecha, mirando no primeiro soldado Lannister que viu. O acertou no buraco do elmo, que dava visão. Pegou outra flecha e atirou. Depois outra e depois outra. Seu cavalo se aproximando aos poucos, nervoso pelos sons. O cheiro a deixava enjoada e sentiu muita vontade vomitar. O sangue estava em todo lugar, assim como pedaços de pessoas, que jaziam mortas aqui e ali.
Mas continuou atirando, contendo o mal estar, tentando encontrar Robb. Logo, três homens que deveriam fazer sua guarda estavam lutando ali e aqui. Pegou mais uma flecha e os ajudou a se livrarem dos atacantes. Foi quando um homem enfiou uma espada em seu cavalo. O animal soltou um berro horrível e empinou-se nos quartos traseiros. Se jogou no chão, largou o arco e pegou sua espada para se defender.
Cortar um homem com uma espada era muito mais impactante do que matar alguém com uma flecha. Sentir a carne sendo cortada pela lâmina de metal era assustador. Mas a adrenalina do momento fez o susto e o choque passarem e ela puxou a espada com força, deixando o homem Lannister cair no chão.
Escutava os homens gritarem o nome de seus castelos.
“Winterfell.”
“Forte Pavor.”
“Riverrun.”
“Rochedo Casterly...”
Mas ela não perdeu tempo, nem fôlego, gritando isso. Voltou a pegar o arco, que por sorte não tinha molhado, e pegou suas últimas flechas. Atirou, atirou, atirou, atirou, atirou e atirou. Prendeu o arco no peito, ficando entre a madeira e a linha, voltando a pegar a espada. Sentiu alguém lhe acertar um golpe na cota de malha e suas costas doeram de maneira terrível. Caiu no chão, na lama e logo estava imunda, suja de sangue, terra e suor.
Perguntou a si mesma se Aegon estaria orgulhoso por ela. Talvez ele estivesse decepcionado com sua perícia com a espada. Mas para sua sorte, muitos ali não eram melhores que ela. Tinham mais força, é verdade, mas não tinham técnica e ela conseguiu sobreviver um bom tempo, defendendo-se e usando todos os truques que Robb e Theon lhe tinham ensinado.
Estava lutando contra um soldado que tinha o javali da Casa Crakehall, quando sentiu uma dor pontuda no ombro. Rodou no próprio eixo e caiu no chão sentido algo quente em seu ombro, na parte de trás. Ficou de joelhos e viu o soldado preparar para cortar sua cabeça fora, mas um soldado Mallister o atacou pelas costas. Shiera pegou sua adaga e cortou o pescoço do inimigo de um lado a outro e o rapaz Mallister a olhou assombrado.
—Lady Shiera? – perguntou ele. Concordou com um aceno de cabeça e o soldado pegou a espada do homem Crakehall para se defender.
Olhou seu ombro e notou que tinha levado uma flechada. Quebrou a haste da flecha e voltou a lutar sem sentir tanta dor. Era apenas um ligeiro incômodo. Uma dor boba. Provavelmente a flecha não tinha entrado muito... ou talvez estivesse bêbada pela adrenalina da batalha. Viu um cavalo qualquer parecendo perdido e subiu nele, segurando sua espada. Guiou o cavalo para frente e tentou cortar algumas cabeças, ou simplesmente machucar alguém.
Tentaram lhe derrubar do cavalo novamente, mas ela se manteve esperta, fazendo o animal empinar e acertar quem se aproximasse com as patas. Por fim encontrou quem estava procurando e fez o cavalo galopar. As pessoas gritavam os nomes de suas casas nortenhas. Estavam ganhando a batalha, sabia que sim.
—Robb! – gritou abrindo caminho. Robb se virou e a viu. Ele atiçou o próprio cavalo, vindo em sua direção. A guarda dele o manteve protegido e logo ela estava cercada de aliados – Robb.
—O que faz aqui?! – gritou ele parecendo furioso – Eu mandei ficar lá! A salvo! – gritou ele e Shiera sorriu tentando conter o próprio cavalo, que se assustara com Vento Cinzento, cuja cabeça estava completamente suja de sangue, assim como as patas e a barriga.
—Eu sei, mas... Eu amo você. Jamais deixaria de te proteger. – disse olhando para ele.
—Ok, não é hora pra isso! – ralhou Theon jogando para ela uma aljava cheia – Atire, Shiera. Atire.
E ela o fez. Quase uma hora depois eles tinham Riverrun e Jaime Lannister com eles.
Quando o levaram de volta para o acampamento, Robb cavalgou ao seu lado. Vento Cinzento vinha do outro. Eles lideraram a marcha e quando Lady Catelyn os viu, notou que foi difícil para ela conter as lágrimas. Shiera viu a loba Lady trotar feliz até ela e seu cavalo se assustou, mas foi capaz de contê-lo, enquanto sorria para a loba gigante.
Shiera estava machucada, dolorida, com os dedos sangrando por conta de todas as flechas que disparara, com a cabeça doendo de cansaço, os ombros doendo pelo esforço e pela ferida. Seu estômago ainda revirava e ela torcia para conseguir vomitar longe do olhar curioso de todos... mas ela estava feliz e satisfeita. Tinha provado que era capaz. E Robb vira. E todos os senhores dele viram.
Alguns a elogiavam enquanto trotavam de volta e Shiera encheu-se de orgulho por aquela vitória.
Uma multidão de soldados seguia-os ao longo da vertente, sujos, amassados e sorridentes, com Theon e Grande-Jon à cabeça. Entre os dois, arrastavam Sor Jaime Lannister. Atiraram-no ao chão em frente do cavalo de Catelyn.
—O Regicida. – anunciou Hal, sem necessidade. O Lannister levantou a cabeça.
—Senhora Stark. – disse, de joelhos. Corria-lhe sangue por uma face, de um golpe no couro cabeludo, mas a luz pálida da aurora devolvera-lhe o brilho do ouro aos cabelos. – Ofereceria à senhora minha espada, mas parece que a perdi.
—Não é a sua espada que desejo, Sor. – disse-lhe Catelyn Stark. – Dê-me o meu pai e o meu irmão Edmure. Dê-me as minhas filhas. Dê-me o meu marido. – Shiera respirou fundo, sentindo-se tonta. Theon a olhou, mas ela virou o rosto, fingindo que estava bem. Não. Aguente, Shiera. Só mais um pouco. Só mais um pouco...
—Temo que os tenha perdido também. – disse Sor Jaime.
—Uma pena. – retrucou Catelyn friamente.
—Mate-o, Robb. – pediu Theon Greyjoy – Arranque-lhe a cabeça.
—Não. – respondeu Robb e Shiera respirou fundo de novo, sentindo o cheiro de merda, sangue e lama. Seu estômago se revirou ainda mais – Ele é mais útil vivo que morto. E o senhor meu pai nunca perdoou o assassinato de prisioneiros após uma batalha.
—Um homem sensato. – disse Jaime Lannister – E honroso.
—Leve-o e acorrente-o. – disse Catelyn.
—Faça como diz a senhora minha mãe. – ordenou Robb – E trate para que haja uma guarda forte à volta dele. Lorde Karstark quererá sua cabeça num espeto.
—Isso sem dúvida. – concordou Grande-Jon, gesticulando. O Lannister foi levado para ser tratado e acorrentado. Shiera respirou fundo de novo, fechando os olhos, com a cabeça pesada.
—Por que motivo Lorde Karstark o quer morto? – perguntou Catelyn.
Robb afastou os olhos para a floresta, com a mesma expressão pensativa que Jon fazia com frequência.
—Ele... ele os matou...
—Os filhos de Lorde Karstark. – explicou Galbart Glover.
—Os dois. – disse Robb – Torrhen e Eddard. E Daryn Hornwood também.
—Ninguém pode acusar o Lannister de falta de coragem. – disse Glover – Quando viu que estava perdido, reuniu os vassalos e abriu caminho pela vertente acima, esperando chegar a Lorde Robb e abatê-lo.
—E quase conseguiu. Perdeu a espada no pescoço de Eddard Karstark, depois de arrancar a mão de Torrhen e de abrir o crânio de Daryn Hornwood. – disse Robb. – E todo o tempo gritava por mim. Shiera acertou duas flechas nele antes que ele caísse no chão... se não fosse por isso...
—... Eu estaria agora de luto em vez de Lorde Karstark. – disse Catelyn – Seus homens fizeram o que juraram fazer, Robb. Morreram protegendo seu suserano. Chore por eles. Honre-os pelo valor demonstrado. Mas agora não. Não há tempo para o luto. Pode ter cortado a cabeça da serpente, mas três quartos do corpo ainda estão enrolados ao redor do castelo de meu pai. Ganhamos uma batalha, não a guerra.
—Shiera prometeu muitas coisas... mas meter uma flecha em quem tentasse mexer com o Robb não foi uma delas... – riu Theon, mas agora Shiera não conseguia olhá-lo. Seu corpo inteiro doía. Estava se sentindo muito, muito mal – Lady Shiera... a senhora está bem?
—Não... – conseguiu sussurrar e tudo girou. Sua visão escureceu e ela se viu de pé, em frente a uma multidão, em Porto Real. Havia um lobo gigante a sua frente e Sor Payne lhe arrancou a cabeça. Tudo girou de novo e ela sentiu algo lhe subir pela garganta. Seu ombro doeu terrivelmente e ela gritou de dor, mas ao fazer isso, um jato quente lhe saiu pela boca.
Sua cabeça pesava e escutou alguém dizer que ela tinha perdido sangue. Piscou olhando para cima e sentiu-se terrivelmente triste.
Lorde Eddard... está morto...
Fechou os olhos, se lembrando de Winterfell, quando tomara o desjejum com ele. Respirou fundo, sentindo-se ser carregada e quando finalmente acordou, estava numa cama e Robb a olhava preocupado.
—Eu... eu sinto muito, meu amor... – murmurou olhando para ele.
—Shh... não diga nada. – riu Robb, alheio ao que tinha acontecido – Você teve uma vertigem. Se machucou no ombro, mas já me garantiram que você vai ficar bem...
—Robb... eu...
—E tem mais uma coisa. – riu ele.
—Robb... o seu pai... – murmurou cansada – Eu o vi... em Porto Real... – murmurou sentindo o corpo doer – Eu o vi.
—Foi só um sonho... escute, Shiera... temos boas notícias.
—Não... são péssimas notícias... péssimas... eu sinto muito, meu amor...
—Mas... – murmurou Robb a olhando com um sorriso – Sua septã acha que você está grávida. – riu ele.
Shiera engoliu em seco e colocou a mão no próprio ventre.
—Mas... – murmurou franzindo a testa – Não... não pode ser... eu... – murmurou sentindo-se cansada. Extremamente cansada.
—Shh... durma, meu amor. – pediu Robb lhe beijando a testa – Eu preciso ir. Tenho que...
—Robb! – disse aflita. Ele o olhou curioso e ela notou que ele estava muito feliz – Robb... eu... eu preciso te contar uma coisa... – murmurou.
—O que, meu amor? – riu ele se sentando de novo e pegando sua mão para lhe beijar ali. Ele a olhou com um olhar extremamente apaixonado e colocou uma mão em seu ventre. Ele está tão feliz... está embriagado pela vitória e pela minha improvável gravidez...— Diga... – pediu ele. Shiera engoliu em seco olhando aqueles vívidos olhos azuis. Seu pai está morto... eu vi... mas as palavras não vieram – Pode dizer.
Respirou fundo e murmurou.
—Eu... eu amo você. – disse no lugar da péssima notícia. Robb sorriu e se deitou ao seu lado.
—Eu também te amo... – murmurou ele lhe acariciando o ventre. Robb lhe beijou a testa e então a barriga – Descanse, meu amor... você teve um dia agitado...
Shiera concordou e fechou os olhos. Poderia contar outro dia... no dia seguinte... contaria no dia seguinte...
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