Blackfyre

13 Sangue de Dragão


Notas iniciais
OLAAAAAAAAAAAA Hoje não é dia de postar, maaaas, em comemoração a mais uma Recomendação, teremos um capítulo bônus, de natal, dedicado à Elaena Targaryen, que foi quem recomendou! Beijos, sua linda! Fiquei super contente. AMEI a recomendação! Beijos da Tia, e espero que goste do capítulo!


Sangue de Dragão

Joffrey prometera misericórdia a Sansa e Valerion não sabia o que esperar disso. Tinha participado de duas reuniões no conselho, como Mestre das Leis, e notado que Pycelle não gostava dele. O julgava muito jovem para ocupar uma posição tão importante e cheia de detalhes.

Mas Valerion já tinha estudado grande parte do que deveria saber e preferia ficar em silêncio até que pedissem sua opinião. Estava aprendendo e absorvendo o que podia.

Varys normalmente era gentil, mas não confiava em Varys. Baelish sempre tinha um comentário debochado para fazer, mas não confiava em Baelish. Janos Slynt era polidamente educado, mas o olhava um tanto desconfiado, mas também não confiava em Slint.

E tinha a rainha. A rainha sempre lhe era cheia de palavras doces e elogios. Ela o testara várias vezes e ele achava que estava indo bem, fingindo cega lealdade e verdadeira gratidão por ela ter lhe dado a oportunidade de participar do Pequeno Conselho.

Mas não confiava em Cersei e nem sabia se ela confiava nele.

Prendeu seu broche em forma de um dragão de três cabeças e se olhou no espelho. Aprovou a imagem e se virou para seus quatro vigias.

—Como estou? – perguntou. Nenhum dos quatro responderam. Eles nunca falavam com ele, não quando estavam sóbrios. Tinha passado a embebedá-los sempre que podia, normalmente durante a noite. Era quando eles ficavam mais amigáveis – Eu imaginei. – se virou para encarar-se novamente no espelho e soltou um suspiro – Vamos. Vamos ver o que Vossa Graça fará com Ned Stark.

Valerion se virou e saiu do quarto, sendo escoltado pelos soldados. Se perguntava que destino aguardava Ned Stark. Valerion tinha sugerido no Pequeno Conselho que Ned deveria confessar ser um traidor e então o rei deveria pedir um tempo a mais para decidir o que fazer com ele. Não deveriam mandar Ned Stark para a Muralha, sem antes fazer o homem escrever ao filho, pedindo para que ele voltasse para Winterfell. Garantiriam a paz assim. Os vassalos do norte iriam preferir obedecer a Ned antes de Robb. E então, quando as tropas estivessem voltando para o norte, mandariam Ned para a Muralha, mantendo Sansa como refém.

Cersei, Varys e Janos gostaram da ideia. Baelish disse que talvez fosse ingenuidade de um menino pensar que o Norte iria concordar com aqueles termos. Pycelle riu e disse que era por isso que crianças não deveriam participar do conselho.

Mas Valerion fingiu não se importar.

Logo avistou Baelish e se aproximou dele para seguirem juntos até o septo de Baelor, que era onde levariam Ned Stark.

—Vai conseguir olhar nos olhos do homem que você abandonou? – perguntou Baelish.

—Você vai? – perguntou Valerion calmamente.

—Claro. Não duvide disso nem por um segundo.

—Não duvido, Baelish. – riu Valerion.

As ruas estavam apinhadas de pessoas. Todos pareciam loucos para descobrir que destino teria a Mão do Rei. Valerion se perguntava se elas esperavam por sangue, pois esse era seu maior medo. Nunca fariam as pazes com o Norte se algo acontecesse a Ned Stark e Joffrey era um louco... um louco que tinha a vida de Lorde Eddard nas mãos.

Lorde Eddard encontrava-se em pé no púlpito do Alto Septão, à porta do septo, apoiado em dois homens de manto dourado. Vestia um gibão de rico veludo cinza com um lobo branco cosido com contas na parte da frente, e um manto de lã cinza debruada de peles, mas estava mais magro do que Valerion se lembrava, com a longa face tensa de dor. Eram mais os homens mantendo-o em pé do que ele se sustentando; o gesso que envolvia a perna quebrada mostrava-se encardido e apodrecido.

O próprio Alto Septão estava atrás dele, um homem atarracado, grisalho pela idade e enormemente gordo, usando uma longa túnica branca e uma imensa coroa de ouro encordoado e cristal que lhe decorava a cabeça com um arco-íris sempre que se movia.

Em volta das portas do septo, um grupo de cavaleiros e de grandes senhores aglomerava-se na frente do púlpito elevado de mármore. Entre eles destacava-se Joffrey, vestido todo de carmesim, seda e cetim adornados com veados empinados e leões rugindo, e uma coroa de ouro na cabeça. Ao seu lado via-se a rainha sua mãe, trajando um vestido negro de luto com fendas carmesins e um véu de diamantes negros nos cabelos. O Cão de Caça, que usava um manto branco de neve sobre a armadura cinza-escura, estava ali com quatro dos membros da Guarda Real à sua volta. Viu Varys, o eunuco, deslizando entre os senhores em chinelos suaves e com uma toga de damasco estampada, e se aproximou juntamente ao lado de Baelish, sentindo-se muito deslocado ali.

E ali, entre eles, estava Sansa, vestida de seda azul celeste, com os longos cabelos ruivos lavados e encaracolados, usando braceletes de prata nos pulsos.

Valerion fechou a cara, perguntando a si mesmo como Sansa poderia ter tanta fé em Joffrey e como poderia parecer tão feliz.

Uma longa fileira de lanceiros de manto dourado segurava a multidão, comandada por Janos Flynt, que usava uma armadura elaborada, toda ela de laca negra e filigrana dourada. O manto tinha o brilho metálico de ouro verdadeiro.

Quando o sino parou de soar, um silêncio foi lentamente cobrindo a grande praça, e lorde Eddard ergueu a cabeça e começou a falar, com a voz tão fraca que Valerion teve certeza que não ecoou até o povo que se aglomerava para assistir. As pessoas comuns começaram a gritar "Quê?", "Mais alto!". O homem com a armadura de negro e dourado aproximou-se de Ned e aguilhoou-o com força.

Ned ergueu a voz e recomeçou.

—Sou Eddard Stark, Senhor de Winterfell e Mão do Rei – disse, mais alto, fazendo a voz chegar a toda a praça –, e venho até vós para confessar minha traição perante os deuses e os homens. – aquilo era mentira e Valerion sabia. Ned era o melhor entre todos ali e ele incluía até sua amada donzela Sansa nisso. A multidão desatou a berrar e a gritar. Insultos e obscenidades encheram o ar. Sansa escondera o rosto nas mãos e Ned ergueu a voz ainda mais alto, esforçando-se por ser ouvido – Traí a fé do meu rei e a confiança do meu amigo Robert. – gritou – Jurei defender e proteger seus filhos, mas antes ainda que seu sangue arrefecesse conspirei para depor e matar seu filho, e tomar o trono para mim. Que o Alto Septão, Baelor, o Amado, e os Sete sejam testemunhas da verdade que digo: Joffrey Baratheon é o verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro, e, pela graça de todos os Deuses, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Território.

Uma pedra saltou da multidão e Valerion viu Ned ser atingido. Os homens de manto dourado evitaram que caísse. Sangue escorreu-lhe pelo rosto, vindo de um profundo golpe na testa. Mais pedras se seguiram. Uma atingiu o guarda à esquerda de Lorde Eddard e Valerion achou sábio dar um passo para trás.

Outra pedra retiniu na placa de peito de Slynt. Dois homens da Guarda Real puseram-se na frente de Joffrey e da rainha, protegendo-os com os escudos. Ficou olhando a multidão quando viu um garotinho pendurado na estátua de Baelor. Piscou em choque e reconheceu Arya. Ela segurava sua espada e olhava para todos eles com os olhos marejados. Negou com a cabeça, desejando que ela guardasse a espada e continuasse escondida. Ela o olhou nos olhos e ele se perguntou se ela podia notar que ele não queria que aquilo tudo se sucedesse.

Valerion olhou para Sansa e depois para Ned.

—Eu... eu vou voltar... – murmurou. Seus soldados vigias estavam muito ocupados ajudando a conter a multidão e ele se perguntou se era uma boa oportunidade para tentar fugir. Talvez devesse pegar Arya e correr para seus navios e unir-se a sua irmã. Mas isso significava abrir mão de todos os planos do pai... engoliu em seco saindo de lá. Apenas Baelish o viu, mas logo a atenção dele se voltou para a confusão.

O Alto Septão ajoelhou perante Joffrey e sua mãe.

—Como pecamos, assim sofremos. – entoou, numa voz profunda e empolada, muito mais forte que a de Stark. Valerion não parou para olhar e se esgueirou para longe dali. Se escondeu entre algumas pilastras, mantendo os olhos em Arya. Um mendigo passou ao seu lado e Valerion o segurou – Este homem confessou seus crimes à vista dos deuses e dos homens, aqui neste lugar sagrado...

—Te dou dois veados de prata se me entregar essa sua manta imunda. – disse ao mendigo que usava um cobertor fedido e furado ao redor das costas.

—Feito.

Pagou o homem e pegou o cobertor, o usando como um capuz. Foi andando por entre a multidão, com a cabeça baixa, ainda mirando Arya, que olhava para onde o pai estava.

—Baelor ensinou-nos que também são misericordiosos. O que será feito com este traidor, Vossa Graça? – perguntou Pycelle lá de cima.

Mil vozes gritavam e Valerion se apressou para abrir caminho até a menina. O Príncipe Joffrey... não, o Rei Joffrey... saiu de trás dos escudos de sua Guarda Real.

—Minha mãe pede-me que permita que Lorde Eddard vista o negro, e a Senhora Sansa suplicou misericórdia para o pai. – Não olhou para Joffrey e finalmente segurou Arya pelo braço. Ela o olhou e tentou puxar a espada, até que Joffrey voltou a falar – Mas elas têm coração suave de mulher. Enquanto eu for vosso rei, a traição nunca passará impune. Sor Ilyn, traga-me a cabeça dele.

Isso fez com que Arya esquecesse de se defender e ele a puxou para o chão.

—Preciso te tirar daqui ou vão te usar como refém também, como fazem comigo e com Sansa.

—O que? – perguntou ela.

—Vamos! – disse a puxando.

—Não! Não! – gritou ela e Valerion sentiu alguém segurar seu braço.

—Solte a menina. – disse uma voz áspera e ele reconheceu Yoren, um homem da Patrulha da Noite e amigo de Lorde Eddard.

A multidão rugiu, e Valerion sentiu uma lâmina ameaçar perfurar suas costelas. Ele e Yoren olharam para o septo, ansiosos. O Alto Septão agarrou a capa do rei, e Varys aproximou-se correndo, sacudindo os braços, e até a rainha estava lhe dizendo alguma coisa, mas Joffrey balançou a cabeça.

Senhores e cavaleiros afastaram-se quando ele passou, alto e descarnado, um esqueleto em cota de malha, o Magistrado do Rei. Indistintamente, mesmo que de uma grande distância, Valerion ouviu Sansa gritar. Ela caíra de joelhos, soluçando histericamente. Sor Ilyn Payne subiu os degraus do púlpito.

—Precisamos tirá-la daqui. – disse Valerion olhando para Yoren – Eu posso arrumar um navio.

—Ela não vai ficar com você. – rosnou o homem.

—Mas...

—Se tem algum pingo de honra, me entregue o rapaz e eu cuidarei dele. Você vai fazer de conta que nunca nos viu. – disse Yoren e Valerion piscou. Rapaz? Ele olhou para Arya e notou que ela parecia mesmo um garotinho, por estar com os cabelos embaraçados e sem penteado.

Bem no alto do púlpito, Sor Ilyn Payne fez um gesto, e o cavaleiro de negro e dourado deu uma ordem. Os homens de manto dourado atiraram Lorde Eddard ao mármore, projetando-lhe a cabeça e o peito sobre a borda.

—Tire o moleque da cidade e o leve pra casa. Tenho sua palavra? – perguntou Valerion. Yoren concordou com um aceno de cabeça – Se encontrar minha irmã no caminho, diga a ela que seja paciente. Papai a salvará.

—Como quiser. Me entregue o garoto. – disse Yoren. Valerion lhe entregou Arya e se abaixou, para olhá-la nos olhos.

—Tome cuidado. Não diga seu nome a ninguém e não se esqueça que eu e minha irmã somos seus amigos, ouviu? – perguntou ele e Arya concordou olhando dele para o pai – Não olhe! – disse a abraçando e escondendo o rosto dela em seu peito.

—Eu... eu... eu... – soluçou Arya.

—Não olhe. – insistiu se levantando, olhando para Ned. O homem o olhava lá de cima, com um olhar de quem sabia que estava para morrer. Valerion o olhou como se tentasse dizer que ficaria tudo bem e então Sor Payne baixou a espada, decapitando o homem.

Mesmo dali escutou o grito de Sansa e sentiu muita pena dela e de Arya.

—Precisamos ir. – disse Yoren.

—Dê um jeito nesse cabelo. – murmurou entregando Arya de novo. Os dois sumiram na multidão e Valerion escondeu-se sob o manto fedorento, tentando ir até os navios. Precisava escrever para Shiera...

**

A felicidade de Robb fazia com que se sentisse cada vez mais culpada. Quando Venira veio lhe entregar o copo de chá, Shiera o despejou no chão e suspirou.

—De nada vai adiantar. – murmurou simplesmente – Está cinco dias atrasada, estou com o estômago indisposto e com os sentimentos a flor da pele... – murmurou. Venira deu de ombros.

—Como quiser.

—Onde está Robb? – perguntou Shiera. Estava para anoitecer e logo ele viria procurá-la para afogarem-se um no outro.

—Está reunido com seus homens. – murmurou Venira – Um corvo chegou... de Porto Real. – murmurou Venira e Shiera a olhou curiosa.

—É sobre... Ned Stark? – perguntou Shiera e Venira concordou. Olhou para sua cama e suspirou – Ele está morto... como eu previ que estaria.

—Você deve dar apoio ao seu marido. Ele vai precisa de toda a doçura que... – mas Venira se calou e Shiera mirou Robb. Ele tinha acabado de entrar na tenda, a olhando desolado.

—Robb... – murmurou e Venira pediu licença para se retirar – Oh, Robb... eu sinto muito. – murmurou baixinho.

—Você sabia. – disse ele entrando na barraca, a olhando com os olhos vermelhos – Você sabia. Tentou me contar, mas eu não quis escutar... como você sabia? – perguntou ele. Shiera engoliu em seco.

—Eu vi... em sonho. – murmurou – Eu já disse que quando eu sonho, acontece. – murmurou cabisbaixa. Robb escondeu o rosto com uma das mãos e se sentou numa cadeira. Shiera correu até a entrada da tenda e a fechou da melhor maneira que conseguiu. Depois foi até o marido e o abraçou – Ele morreu...

Concordou com um aceno de cabeça e o afagou nos cabelos. Depois começou a tirar a armadura pesada que ele usava. Peça por peça. Tentou fazer isso da maneira mais carinhosa possível, o afagando sempre que podia. Robb não conseguiu conter o choro e a abraçou. O abraçou de volta, sentindo a cabeça dele em sua barriga.

—Sinto muito, meu amor...

—Matarei todos eles! – prometeu Robb em meio a um soluço – Cada um deles! – disse ele e ela o afagou mais uma vez. Sentiu Robb roçar o nariz contra seu ventre e sentiu-se perdida, com medo – Eles mataram meu pai, mas eu vou tirar tudo deles. Eu vou salvar Sansa e Arya e... e vou vencê-los. Vou colocar a cabeça de Joffrey numa estaca! – jurou ele e Shiera engoliu em seco – E eu vou ensinar ao nosso filho tudo o que meu pai me ensinou. Eu juro, Shiera. Eu juro...

—Eu acredito em você, meu amor... – murmurou sentindo-se pesada – Vamos... vamos para a cama... – Robb negou com a cabeça e ela o puxou com mais força – Vamos, meu amor. Vamos pra cama. Vamos ficar um tempo apenas nós três. – murmurou sentindo um calafrio lhe subir a espinha. Era a primeira vez que admitia em voz alta que estava esperando um filho. Robb a olhou com os olhos tristes e se levantou. Ela o guiou até a cama e o fez deitar. Retirou as botas sujas de lama, o gibão de couro, o calção, tudo, até que o tivesse completamente nu. Depois desatou o cordão de seu vestido e o deixou cair no chão, junto das roupas dele. Se deitou ao lado dele e suspirou – Nós vamos fazê-los pagar, meu amor... – murmurou.

Robb concordou e a afagou na barriga. Shiera segurou a mão dele ali e suspirou. Depois se deitou em cima dele e o beijou. Robb a beijou de novo, apesar de estar triste. Os beijos dele pareciam ausentes de fogo. Tentou acendê-lo e ele a possuiu com carinho, mas notou que ele seguia muito triste.

Se deitou ao lado dele, o afagando nos cabelos. Cantarolou uma música, que Aegon lhe ensinara anos atrás, e logo ele caiu no sono. Fechou os olhos, soltando um suspiro e desejou poder confortá-lo. O sono lhe tomou lentamente, como quem quer passar despercebido.

Sonhou que estava em Winterfell e que amamentava um pequeno bebê de cabelos vermelhos e olhos azuis. Escutou Theon falar que era o herdeiro de Winterfell, que Robb tivera sorte de ter logo um menino saudável e forte.

Quando abriu os olhos, o sol já estava nascendo. Robb ainda dormia e ela suspirou o beijando nos lábios. O beijou várias vezes até que ele acordasse e a olhasse. Ela sorriu para ele e lhe afagou os cabelos.

-É um menino. – sussurrou para ele.

—Quem? – perguntou Robb confuso pelo sono. Shiera pegou a mão do marido e a guiou para o ventre – Como sabes? – ele engoliu em seco e fez uma pausa – Sonhou com isso?

—Sim. – respondeu Shiera, sorrindo com doçura.

**

Valerion era um rapaz que apreciava a leitura, portanto sempre imaginou que jamais teria um livro do qual não gostasse.

Logo viu que estava tremendamente enganado. Os livros de leis e de casos eram terrivelmente chatos e aborrecedores e levou muito tempo até achar alguma graça neles. Gostava dos casos difíceis e gostava de comparar como as Mãos do Rei agiam diferente, cada uma em seu tempo. Mas dizer que a leitura era divertida seria uma mentira. Eram no máximo, ligeiramente interessantes.

Olhou de soslaio para seus guardas e notou que um deles dormia. Os outros três estavam bebendo o bom vinho que comprara da Árvore. Cada um mais bêbado que o outro. Sorriu satisfeito, voltando a sua leitura, estudando sobre alguns casos difíceis de Baelon Targaryen, Mão do Rei de Jaehaerys I.

Foi quando bateram a sua porta. Seus homens Lannister estavam rindo e um deles se levantou para ver quem era. Valerion imaginou que seria a rainha, mas para sua surpresa era Sansa Stark. Ela estava muito bonita naquela noite. Não a via direito desde o dia que assassinaram o senhor seu pai. Ela tinha entrado em profundo luto desde então, se escondendo em seu quarto, sem falar com quem quer que fosse. Joffrey a obrigou a participar das audiências daquela tarde, mas Valerion só a vira de relance e lutou para não lhe dar atenção e não aborrecer a rainha.

Ficou de pé, olhando para a donzela. Ela tinha os olhos fundos e vermelhos de quem chorara muito. Seu lábio estava cortado e parecia ter sangrado, além dela ter um roxo nos dois lados do rosto.

Valerion a olhou em profundo choque e andou até ela, surpreso. Tocou seu rosto com as mãos trêmulas e frias. Sentiu o estômago revirar-se de ódio ao notar que tinham machucado o rosto de sua amada.

—Quem fez isso? – perguntou furioso. Sansa olhou para os guardas Lannister e fungou.

—Oh, meu senhor. Eu sou tão desastrada... eu apenas caí. – disse baixinho, sem encará-lo nos olhos, numa mentira extremamente fraca.

—Joffrey fez isso. – disse concluindo por si só.

—Não. Meu amado rei Joffrey jamais bateria em sua dama. A rainha sua mãe lhe ensinou isso. – murmurou Sansa, segurando as lágrimas e falando com absoluta infelicidade. Valerion suspirou e lhe afagou no rosto, comovido.

—Então ele mandou fazer. Foi o Cão ou Sor Meryn? – perguntou, mas ela não respondeu e ele ficou feliz por ela finalmente começar a aprender – Eu devo dizer que não me dá absolutamente nenhum prazer dizer que te avisei, Sansa.

Viu a menina encolher e o lábio dela tremeu violentamente. Ela levou as mãos ao rosto e começou a soluçar e a chorar compulsivamente. Valerion a puxou para um abraço e olhou para seus vigias.

—Meu senhor. Deseja alguma privacidade para a senhorita? – perguntou um deles.

—Não deveríamos... – disse outro.

—Apenas alguns minutos. Para a senhorita se acalmar. – disse o primeiro.

—Senhores. Eu agradeço pela gentileza, mas não será necessário que saiam. Não devemos aborrecer a rainha. – disse calmamente tirando um lenço do bolso, vermelho, com o dragão negro da Casa Blackfyre no centro – Tome, minha senhora. – disse gentilmente e Sansa aceitou o lenço – Venha comigo. Vamos andar para você se acalmar. – Sansa concordou e ele se virou para os guardas – Seria muito gentil e cavalheiresco de vocês se permitissem que eu e ela ficássemos a uma distância onde possamos conversar. A senhorita está muito abalada.

Os soldados concordaram. O que tinha desmaiado de bêbado continuou lá, enquanto os outros três começaram a segui-los a uma distância confortável. Mas mesmo que estivessem mais perto, falavam tão alto, devido a embriaguês, que Valerion duvidou que poderiam escutar qualquer coisa que dissesse a Sansa.

—O senhor é muito gentil. – sussurrou ela – E eu muito estúpida.

—Você é uma criança inocente, criada num lar protegido de falsidades e perigos. – riu Valerion – Mas sim, você não foi exatamente esperta. Espero que possa me dar ouvidos nas próximas vezes.

—Por favor. Você precisa me ajudar a voltar pra casa! Antes que meu sangue de lua venha. – lamentou Sansa desesperada – Joffrey falou que vai se casar comigo assim que eu sangrar, e que vai fazer um filho em mim! Eu não quero dar um filho a aquele monstro! – chorou ela e Valerion suspirou.

—Sansa... eu sou um prisioneiro aqui, tanto quanto você. – disse baixinho.

—Mas você está no Pequeno Conselho. E tem guardas. E faz comércio... – murmurou ela, confusa.

—Mas sou um refém. Numa posição privilegiada, porque Cersei não quer perder a amizade de meu pai. Ele disse a ela que eu deveria voltar a Harrenhal, mas ela me manteve aqui, para controlá-lo. Então, para não ter a profunda inimizade dele, ela me garante regalias. Mas quando meu pai voltar, eu provavelmente terei permissão para voltar para Harrenhal...

—E então me levaria contigo? – perguntou ela sonhadoramente, com um profundo medo incrustado em seus lindos olhos azuis.

—Sansa... eu não tenho poder pra isso... nem meu pai. – disse ele – Eu poderia até ter, mas isso foi antes de Joffrey cortar fora a cabeça de seu pai. Sua irmã desapareceu, você é a única refém Stark que eles têm. Eles jamais vão se dar ao luxo de perder você. – explicou Valerion e Sansa pareceu ficar mais infeliz – Você precisa aprender a sobreviver aqui, minha senhora. Você não sabe lutar, nem sobreviver sozinha. Você é apenas uma mocinha bonita. Não é astuta, está com pouco prestígio e não tem ninguém capaz de vir aqui te resgatar... você precisa aprender a se defender com as armas que tem.

—Eu não tenho nenhuma arma. – lamentou ela e Valerion sorriu.

—Não tem? – perguntou ele e Sansa o olhou, confusa – Eu vou te mostrar suas armas, venha... – eles andaram apressados até um corredor que tinha uma grande janela de vidro. Como já estava escuro do lado de fora, o reflexo de ambos estava na superfície do vidro – Olhe só. Como pode dizer que não tem armas?

—Não tenho. – murmurou ela, confusa.

—Bem... é verdade que seu rosto está machucado. Em primeiro lugar tem que aprender a não incentivar Joffrey a machucar você. Dê o que ele quer e ele não vai te machucar.

—Mas... eu não entendo.

—Você é uma mocinha linda, Sansa. A mais bela flor do norte. Olhe seus olhos, seu cabelo... e eu ainda estou para conhecer um sorriso mais lindo que o seu. Essas são suas armas. Armas que você já tem. Você é linda e se for esperta, vai aprender a usar isso, como Cersei aprendeu, e minha irmã também. Mas não é só isso. – ele a olhou com atenção – Por mais que as pessoas façam pouco disso agora... Você é uma Stark e muitos matariam pela chance de ser seu marido, apenas por isso.

—Mas eu estou prometida a Joffrey...

—E se aprender a lidar com ele, terá uma arma ainda maior em mãos... o rei. – riu Valerion e ela o olhou chocada.

—Não. Eu não posso... não posso tentar enganar Joffrey... ele...

—Ele sempre estará subestimando você, senhora. Mas ele sabe que um dia você o amou. Você precisa enganar a ele... e a todos, de que ainda é uma linda corsa mansa. Disposta a fazer tudo pelo seu amado Joffrey. Não por você. Mas por ele.

—Depois do que ele fez? Impossível. – chorou Sansa.

—Seria mais fácil se não tivesse ido implorar pela vida de seu pai, como eu te aconselhei. Mas não me deu ouvidos. Me dará agora?

Ela o olhou perdida e concordou.

—Sim... mas... mas o que eu devo fazer... eu não sei mentir, eu não sei tramar... eu sou... eu sou estúpida...

—Não. Você não é. Você é ingênua. – riu Valerion – Faça o que eu te digo. Seja comportada, mansa. Dê a Joffrey e a Rainha o que eles desejarem... esteja sempre bonita e aberta aos Lannister e não faça nada que eles não aprovariam. Assim eles vão achar que você está domada.

—É o que você está fazendo? – perguntou Sansa. Valerion sorriu e negou.

—Meu jogo é diferente do seu.

—Jogo? – perguntou ela.

—Minha irmã dizia que tudo aqui na Corte é como um jogo. – concordou Valerion voltando a andar. Sansa o acompanhou, e eles escutaram os sons metálicos dos passos dos guardas Lannisters – Estão todos sempre interpretando. Sempre tentando vencer o outro. Dar uma rasteira em alguém e conquistar seu lugar. Você se torna alguém forte, quando aprende a jogar. Você tem um bom sobrenome, um rosto lindo... se aprender a jogar será a mais perigosa pessoa nesse castelo... sem falar que você tem uma arma secreta, que nenhum deles têm.

—E o que seria? – perguntou ela, mas Valerion sorriu.

—Eu temo que ainda não está pronta para saber. – riu ele – Mas eu te contarei no dia em que me contar uma mentira e eu acreditar nela. Você precisa aprender a mentir. Você precisa aprender a interpretar um papel. Falaremos mais disso em outro momento.

—Por que? Me ensine, Sor Valerion. Me ensine agora. – implorou ela e Valerion sorriu.

—Não. Não ainda. – respondeu ele – A rainha não me quer andando com você. Mas vou te dar uma tarefa. – disse ele – Quando estiver sozinha em seu quarto, quero que se olhe no espelho e treine para amanhã.

—O que devo treinar? – perguntou ela.

—Eu vou lhe perguntar algo amanhã, na corte. E eu quero que me lance seu maior olhar de desdém. Como se tivesse nojo de mim. Como se...

—Se tivesse cortado a cabeça de meu pai e me mandado ver? – perguntou ela com mágoa e Valerion piscou, surpreso.

—É... pode ser... Joffrey fez isso? – ela concordou com um aceno de cabeça – Um dia ele vai ter o que merece, não se preocupe. Vamos. Eu vou levá-la até seu quarto. Não esqueça de praticar.

—Sim, Sor.

**

Daenerys dormiu durante dias. Chegou até mesmo a pensar que ela estava morta. O Khalasar de Drogo se dispersara e agora ele precisava ir cada vez mais longe para trazer comida. Ele e Jorah caçavam juntos, Jorah sendo um arqueiro muito melhor que ele. Lembrava de uma época em que o considerara quase um amigo. Uma época em que confiava nele...

Mas agora os dois não falavam mais do que o necessário um com o outro.

O bebê de Dany tinha nascido. Talvez aquela expressão fosse forte demais para o que saiu de dentro dela. Uma criaturinha estranha, com asas e algo que parecia ser um rabo. O tinha visto quando acordou. Jorah o estava tentando enterrar. Quando viu a criatura, perguntou o que era e Jorah respondeu que era Rhaego.

O socou tão forte no rosto que ele caiu desacordado. Depois ficou de joelhos para aquela criaturinha. Seu rei. Ele teria sido seu rei. O filho de Daenerys com Khal Drogo...

Mas o garoto parecia mais um dragão do que um ser humano... e os dragões estão todos mortos. Enterrou o pequeno bebê assim mesmo e deixou sobre ele seu broche de dragão. Era o dragão errado, negro no lugar de vermelho, mas ainda assim um dragão. Depois foi velar Daenerys.

Só saia de perto dela para caçar. Mirri Maz Duur cuidava dela também e Aegon não sabia se a odiava ou se tinha pena dela. Ela seria considerada culpada por tudo... pelo que acontecera com Drogo, pelo bebê morto... e pelo que quer que acontecesse com Daenerys...

—Ainda não acredita magia, Sor? – perguntou Mirri Maz Duur.

Mas ele já não sabia.

—O que aconteceu aqui? – perguntou ele – Por que o filho dela morreu? E o que raios aconteceu com Drogo? – perguntou confuso. Mirri suspirou.

—Eles atrapalharam o encantamento. Não me deixaram terminar. E tudo ficou pela metade... mas o sangue dela é forte, assim como o seu. – disse ela – Seu sangue é forte... ele poderá fazer qualquer magia que desejar.

—Eu não acredito em magia... – murmurou, mas dessa vez não havia sua convicção e certeza, como costumara ter – Quando ela vai acordar?

—Quando terminar de sonhar... quando atravessar o meio mundo... – respondeu Mirri.

—Você sabe que vão matar você, não sabe? – perguntou Aegon a olhando. Mirri não pareceu com medo.

—Tudo faz parte do grande plano. Eu tenho um papel nele, assim como a Senhora de Prata e você, Cavaleiro de Prata. Logo meu papel vai terminar, mas eu não terei ido em vão... você saberá que minhas intenções sempre foram boas.

—Saberei? – perguntou ele a olhando com as sobrancelhas arqueadas – Eu nunca fui conhecido por ser a pessoa que sabe das coisas. Eu sou apenas a minha espada e nada mais do que isso.

—Você é sua espada e muito mais do que isso. A magia está em você, em seu sangue. Você logo vai entender e aceitar isso...

Aegon suspirou e andou até os ovos de dragão de Daenerys. Pegou seu favorito, o perolado com ouro. Era incrível como os ovos de dragão, mesmo quando há muito transformados em pedra, mantinham seu calor. Como se ainda houvesse a chama que dava vida aos dragões dentro deles.

—Quando eu era pequeno, meu pai me mostrou três ovos de dragão que ele resgatara de Valíria... – murmurou – Um era azul safira, com tons de pérola. Outro era negro e lilás. O último era prateado e azul claro. Eu adorava imaginar que um dia eu os faria eclodir e então eu teria um dragão... eu voaria pelos Sete Reinos e me tornaria o rei, como Aegon I, o Conquistador, tinha feito. Eu dormia com os ovos, eu contava histórias para eles. Eu não desgrudava deles em momento algum... eu sempre acreditei que havia alguma magia em mim que os faria chocar. Eu sonhava com aquilo e desejava aquilo com todas as minhas forças... – ele devolveu o ovo para sua caixa e suspirou – Até que eu levei um soco da realidade e aprendi que... magia não é real... fé não é real. Os Deuses são surdos, ou não se importam... ou estão mortos. Os dragões estão mortos. Assim como a minha esperança de voltar pra casa. Vou passar o resto dos meus dias em Volantis e... – calou-se quando sentiu Mirri Maz Duur segurar sua mão. Ela lhe cortou o dedo com sua adaga e respirou fundo, como se quisesse sentir o cheiro de seu sangue. Observou uma gota escorrer de seu dedo e cair em cima do ovo perolado e olhou confuso para a curandeira. Ela olhou para o ovo com expectativa e ele prendeu a respiração, esperando ver algo inexplicável, como o que acontecera no dia em que a bruxa invocara as sombras e os demônios para salvar a vida de Drogo. Mas nada aconteceu e ele se aborreceu. Não com a bruxa, mas consigo mesmo, por ter esperanças de novo – Nada. – disse puxando a mão e Mirri o olhou com um sorriso que dizia que ela era mais esperta que ele.

No dia seguinte Daenerys acordou, ou foi o que disseram. Quando voltou da caça, ela estava dormindo com o ovo perolado. Ficou de guarda o resto do dia, mas ela seguiu dormindo.

No outro dia foi caçar sozinho, para espairecer e quando voltou, finalmente a encontrou acordada. Ela conversava com Mirri e Jorah sobre aquele dia em que todas suas convicções caíram por terra.

—Eu vi, Maegi... Vi-a, sozinha, dançando com as sombras. – disse Jorah.

—A sepultura produz longas sombras, Senhor de Ferro. – disse Mirri. – Longas e escuras, e no fim nenhuma luz consegue resistir a elas.

Aegon sabia que Sor Jorah matara o filho de Daenerys. Fizera aquilo por amor e lealdade, mas a transportara para um lugar onde nenhum homem vivo devia ir e entregara o bebê às trevas. E Jorah também o sabia; o rosto cinzento, os olhos vazios, o coxear... Tudo cheio de culpa.

—As sombras também o tocaram, Sor Jorah. – disse-lhe Dany. O cavaleiro não deu resposta.

—Dany... eu sinto muito. Falhei contigo e com seu filho. – disse colocando-se de joelhos, envergonhado demais para olhá-la nos olhos – Eu tentei, mas falhei, Vossa Graça.

—Não há motivos para pedir perdão, Sor Aegon. – disse Daenerys – Eu vi o quão bravamente lutou por mim e o quanto tentou me proteger. Não há mágoas, não se preocupe... – ela se virou para a esposa de deus. – Preveniu-me de que só a morte podia pagar pela vida. Pensei que se referisse ao cavalo.

—Não... – disse Mirri Maz Duur – Era nisso que queria acreditar. Conhecia o preço.

Conhecia? Conhecia? Aegon engoliu em seco, sem querer acreditar que sua rainha conhecera o preço e tinha se disposto a pagar.

—O preço foi pago. – disse Dany – O cavalo, meu filho, Quaro e Qotho, Haggo e Cohollo. O preço foi pago, pago e pago – ela ergueu-se das almofadas – Onde está Khal Drogo? Mostre-me, esposa de deus, maegi, maga de sangue, o que quer que seja. Mostre-me Khal Drogo. Mostre-me o que comprei com a vida de meu filho.

Aegon suspirou e baixou o olhar. Ele vira Drogo uma vez e fora o suficiente.

—Às suas ordens, khaleesi. – disse a velha – Venha, a levarei até ele.

—Há tempo suficiente para isto mais tarde, princesa. – disse Sor Jorah a ajudando a levantar. Aegon concordou com um tímido aceno de cabeça, mas Dany parecia convencida.

—Quero vê-lo agora, Sor Jorah.

O sol queimava como ouro derretido, e a terra estava seca e vazia. As aias esperavam com frutas, vinho e água, e Jhogo aproximou-se para ver se estava tudo bem. Aggo e Rakharo seguiam atrás. O clarão do sol na areia fez com que lhe fosse difícil ver mais, até Aegon erguer a mão para dar sombra aos olhos. Viu as cinzas de uma fogueira, alguns cavalos que andavam às voltas, apaticamente, em busca de um pouco de capim, tendas e esteiras espalhadas. Uma pequena multidão de crianças reunira-se para ver Daenerys, e atrás delas vislumbrou mulheres que tratavam de seus deveres e velhos mirrados que olhavam o céu azul uniforme com olhos cansados, enxotando fracamente moscas de sangue. Uma contagem mostraria umas cem pessoas, não mais. Onde as outras quarenta mil tinham montado acampamento, só o vento e a poeira restavam agora.

—O khalasar de Drogo desapareceu. – disse Dany. Aegon concordou com um aceno de cabeça.

—Um khal que não pode montar não é um khal. – disse Jhogo.

—Os dothrakis seguem apenas os fortes. – disse Sor Jorah.

—Lamento, minha princesa. – disse Aegon, pesaroso – Não havia maneira de detê-los. Ko Pono foi o primeiro a partir, chamando-se a si mesmo Khal Pono, e muitos o seguiram. Jhaqo não esperou muito tempo para fazer o mesmo. O resto foi se esgueirando noite após noite, em bandos grandes e pequenos. Há uma dúzia de novos khalasares no mar dothraki, no lugar que em tempos passados foi apenas de Drogo.

—Os velhos ficaram. – disse Aggo – Os assustados, os fracos e os doentes. E nós, que juramos. Nós ficamos.

—Levaram as manadas de Khal Drogo, khaleesi. – disse Rakharo. – Não éramos suficientes para impedir. É direito dos fortes roubar dos fracos. Levaram também muitos escravos, do khal e seus, mas deixaram alguns.

—Eroeh? – perguntou Dany, e Aegon lembrou-se da criança assustada que ela salvara fora da cidade dos Homens-Ovelhas.

—Mago, que é agora companheiro de sangue de Khal Jhaqo, capturou-a para si. – disse Jhogo. – Montou-a por cima e por baixo e a deu ao seu kha, e Jhaqo a deu aos seus outros companheiros de sangue. Eram seis. Quando ficaram satisfeitos, cortaram-lhe a garganta.

—Foi o destino dela, khaleesi. – disse Aggo.

—Não culpe o destino por homens serem inescrupulosos. – discordou Aegon.

—Eles terão o castigo deles. – prometeu Dany – Prometo, pelos velhos deuses e pelos novos, pelo deus-ovelha e pelo deus-cavalo e por todos os deuses que vivem. Juro pela Mãe das Montanhas e o Ventre do Mundo. Antes de acabar com eles, Mago e Ko Jhaqo suplicarão pela clemência que mostraram a Eroeh.

—Um belo discurso, Khaleesi... mas não vejo como cumpri-lo. – disse Aegon e Dany suspirou.

Os dothrakis trocaram olhares inseguros.

—Khaleesi – explicou a aia Irri, como se estivesse falando com uma criança. – Jhaqo é agora um khal, à frente de vinte mil cavaleiros.

Dany ergueu a cabeça,

—E eu sou Daenerys, nascida na Tempestade, Daenerys da Casa Targaryen, do sangue de Aegon, o Conquistador, e Maegor, o Cruel, e da velha Valíria antes deles. Sou a filha do dragão, e, juro-lhes, esses homens morrerão aos gritos. Agora leve-me a Khal Drogo.

Drogo jazia sobre a terra vermelha e nua, de olhos fixos no sol. Uma dúzia de moscas de sangue pousara em seu corpo, embora ele não parecesse senti-las, Dany enxotou-as e ajoelhou-se a seu lado. Os olhos dele estavam muito abertos, mas não viam, pois ele estava cego. Quando Daenerys sussurrou seu nome, não pareceu ouvir. A ferida no peito estava curada como jamais poderia estar, com a cicatriz que a cobria cinzenta e vermelha e hedionda.

—Por que ele está aqui sozinho ao sol? – perguntou Dany.

—Parece gostar do calor, princesa. – disse Sor Jorah – Seus olhos seguem o sol, embora não o veja. Consegue fazer algo semelhante ao andar. Vai para onde o levam, mas não mais longe. Come se lhe puserem comida na boca e bebe se lhe escorrerem água para os lábios.

Dany beijou Drogo suavemente na testa, e ergueu-se para encarar Mirri Maz Duur.

—Seus feitiços são caros, maegi.

—Ele vive. – disse Mirri Maz Duur – Você pediu vida, e pagou por vida.

—Isto não é vida para quem era como Drogo. Sua vida eram gargalhadas e carne assando numa fogueira, e um cavalo entre as pernas. Sua vida eram um arakh na mão e as campainhas tinindo no cabelo enquanto cavalgava ao encontro de um inimigo. Sua vida eram os seus companheiros de sangue, e eu, e o filho que lhe devia ter dado. – Mirri Maz Duur não deu resposta – Quando voltará a ser como era? – quis saber Dany.

—Quando o sol nascer no ocidente e se puser no oriente. – disse Mirri Maz Duur – Quando os mares secarem e as montanhas forem sopradas pelo vento como folhas. Quando seu ventre voltar a ganhar vida para dar à luz um filho vivo. Então, e não antes, ele regressará.

Dany fez um gesto para ele e os outros.

—Deixem-nos. Quero falar a sós com esta maegi. – disse ela. Aegon encarou Jorah e concordou com um aceno de cabeça. Os dois se afastaram obedientemente. Um silêncio constrangido pairou entre eles, até que Sor Jorah o quebrou.

—Foi minha culpa. – murmurou ele.

—Foi. – disse Aegon – Mas se Dany o perdoou, não há motivos para se culpar. Ela foi quem mais perdeu com tudo isso.

Sor Jorah concordou e suspirou com pesar.

—Nós dois não voltaremos nunca para casa. – disse ele – Eu sou um exilado, mas você... você simplesmente não vai deixá-la pra trás. Você a ama. – e ele disse isso num tom acusatório. Aegon sentiu um calafrio lhe subir a espinha e olhou o homem.

—Eu não a amo como você a ama. – defendeu-se Aegon – Você tem sonhos românticos com ela... eu não. – disse sem conseguir encarar Jorah.

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Notas finais
HEhehehehe Desculpem, gente... eu precisei matar o Ned hehehehe Perdoem-me. Beeeijos e até a próxima ^^