Blackfyre
14 Reis e Rainhas
Notas iniciais

Reis e Rainhas
O sangue ainda não havia descido e ela estava simplesmente aceitando seu destino. Em meses daria um herdeiro a Robb. Vira isso em sonho, não via motivo para negar isso.
Notícias chegaram do sul logo depois de terminarem de reconquistar Riverrun. Recuperaram Sor Edmure, irmão de Lady Catelyn, e descobriram que Lorde Hoster Tully estava terrivelmente doente, provavelmente prestes a morrer. Estavam agora no castelo dos Tully. Tinha ido lá apenas uma vez, quando era muito pequena, para a celebração do dia do nome de Sor Edmure. Riverrun era um castelo pequeno, mesmo quando era comparado com outro castelo que não Harrenhal. O forte dos Tully era rodeado em dois de seus lados por rios. A oeste, o terceiro lado se encontrava defronte a um enorme fosso artificial; em tempos de perigo, comportas eram abertas e o fosso era preenchido, deixando o castelo completamente cercado de água, tornando Riverrun uma ilha, praticamente inatacável.
O castelo possuía muralhas de pedra-de-areia, que se erguiam altas sobre a água, e nas diversas reentrâncias das ameias se encontravam buracos de flechas; torres comandavam as margens opostas. No interior, havia uma fortaleza. Devidamente guarnecida, Riverrun poderia estocar suprimentos para homens e cavalos por quase dois anos; uma guarnição de duzentos homens é maior do que Riverrun precisaria na maioria das circunstâncias.
Shiera e Robb estavam rezando no Bosque Sagrado, que tinha um jardim claro e arejado, com sequoias, flores, ninhos de pássaros e pequenos córregos. Em seu centro, se encontrava uma alta e entalhada árvore de represeiro branca.
Ela estava agradecendo pela vitória de Robb, por ambos terem sobrevivido à batalha e por tido sucesso em capturar bons reféns. Rezou pela primeira vez pela saúde de seu bebê e pediu para que ele nascesse forte e saudável. Depois rezou pedindo proteção a Aegon, Valerion e ao senhor seu pai.
Precisavam partir para Harrenhal o quanto antes, pois havia sonhado que Tywin Lannister estava marchando para lá. Se seu pai se rendesse aos Lannisters, não receberia absolutamente nada dele. Tinha contado a Robb sobre seu sonho e ele lhe prometera que Harrenhal seria o próximo destino de suas tropas, mas ele pediu que ela não contasse sobre seus sonhos, ou os senhores do norte fariam pouco disso novamente.
Quando terminou suas orações, respirou fundo, apreciando a tranquilidade daquele lugar. Robb, que estava de joelhos, logo se endireitou e ficou em pé ao seu lado. Ele ainda estava muito abatido e infeliz, apesar de tentar aparentar para seus lordes que estava firme e forte. Mas quando estavam sozinhos, Robb deixava de lado sua máscara de Senhor e voltava a ser apenas Robb Stark. Seu amigo e marido.
—Pronta? – perguntou ele a olhando com carinho. Os olhos dele desceram para seu ventre, para então voltarem a subir até seu rosto – Temos muito o que discutir com o Conselho. – disse ele.
—Eu sei. – respondeu se aproximando e segurando as mãos dele – Agradeceu pelo nosso bebê? – perguntou ela colocando a mão no ventre.
—Claro. – riu Robb, mas o sorriso dele logo morreu – Eu queria que meu pai tivesse vivido para conhecê-lo... – sussurrou ele. Shiera suspirou e lhe beijou os lábios com carinho.
—Já contou para sua mãe?
—Não... talvez fosse melhor esperar um pouco, não acha? – perguntou ele lhe afagando o queixo – Talvez seja melhor manter isso em segredo por um tempo. Um segredo meu, seu e dos Deuses...
Shiera sorriu e concordou antes de beijá-lo de novo. Nunca se cansaria dos beijos de Robb. Quando notou que suas ideias estavam sujas demais para um Bosque Sagrado, afastou-se do marido e o olhou nos olhos.
—É melhor irmos.
—Sim, minha senhora. – murmurou Robb. Os dois se viraram e viram Lady Stark se aproximar – Mãe – chamou Robb quando viu a mãe ali em pé. – Temos de convocar um conselho. Há coisas para decidir.
—Seu avô gostaria de vê-lo – ela disse – Robb, ele está muito doente. – Shiera sabia disso. Escutara dos soldados que Lorde Hoster não reconhecia todos, apenas os mais próximos. E muitas vezes embaraçava as lembranças...
—Sor Edmure me disse. Lamento, mãe... por Lorde Hoster e pela senhora. Mas primeiro temos de nos reunir. Recebemos notícias do sul. Renly Baratheon reivindicou o trono do irmão. – disse Robb e Shiera suspirou lembrando-se de Margaery Tyrell. Seu pai tentou noivá-la uma vez, fazia algum tempo, com seu irmão Aegon, mas ele nem quis saber do assunto. Depois seu pai tentou fazer com que Valerion a cortejasse, mas quando notou que a princesa em pessoa estava cheia de suspiros para ele, acabou por desistir... e agora Margaery Tyrell estava casada com Renly Baratheon, coroada rainha, com um marido disposto a passar a perna no irmão mais velho para reivindicar a coroa.
—Renly? – disse Lady Catelyn, parecendo chocada. – Pensei que seria certamente Lorde Stannis...
—Todos nós pensávamos o mesmo, senhora – disse Shiera – Mas parece que Sor Renly não tem interesse em respeitar o direito do irmão mais velho...
O conselho de guerra reuniu-se no Grande Salão, em quatro longas mesas de montar dispostas num quadrado quebrado. Lorde Hoster estava muito fraco para participar e dormia em sua varanda. Sor Edmure ocupava o cadeirão dos Tully, com Brynden Peixe Negro a seu lado e os vassalos de Lorde Tully dispostos à esquerda e à direita e ao longo das mesas laterais. A notícia da vitória em Riverrun chegara aos senhores fugitivos do Tridente, atraindo-os de volta. Karyl Vance entrou, agora um lorde, com o pai morto sob o Dente Dourado. Sor Marq Piper estava com ele, e trouxeram um Darry, filho de Sor Raymun, um rapaz que não era mais velho que Bran. Lorde Jonos Bracken chegou das ruínas da Barreira de Pedra, carrancudo e fanfarrão, e ocupou um lugar tão afastado de Tytos Blackwood quanto as mesas permitiam.
Shiera conhecia todos eles e sentiu falta do senhor seu pai ali. Mas não foi a única. A grande maioria lhe perguntou onde estivera Lorde Haegon quando Riverrun chamou os vassalos de volta.
Ela respondeu apenas que ele achou melhor não vir, pois não tinha notícias de Aegon e Valerion era refém em Porto Real. Mas ela tinha suas dúvidas, assim como os outros Lordes dos Rios, pois seu pai recebera um cargo no Pequeno Conselho.
—Meu pai tem um plano, senhores. Conversaremos sobre isso depois... – era o que sempre respondia.
Os senhores do Norte sentaram-se do lado oposto, com Shiera e Robb em frente ao tio dele. Eram menos. Lady Catelyn sentou-se à esquerda de Robb, e em seguida Grande Jon, Theon Greyjoy; Galbart Glover e a Senhora Mormont estavam à direita de Shiera. Lorde Rickard Karstark, desolado e de olhos vazios na sua dor, ocupou seu lugar como um homem perdido num pesadelo, com a longa barba por lavar e pentear. Deixara dois filhos mortos no Bosque dos Murmúrios e não havia notícias do terceiro, o mais velho, que liderara os lanceiros Karstark contra Tywin Lannister no Ramo Verde.
A discussão prolongou-se noite dentro. Cada senhor tinha direito a falar, e foi o que fizeram... e também gritaram, e praguejaram, e argumentaram, e lisonjearam, e acusaram, e brincaram, e regatearam, e bateram na mesa com canecas de cerveja, e ameaçaram, e saíram, e regressaram, mal-humorados ou sorrindo. Shiera permaneceu sentada ouvindo tudo.
Roose Bolton tinha reunido os restos de sua maltratada tropa no início do talude. Sor Heiman Tallhart e Walder Frey ainda mantinham as Gêmeas, o exército de Lorde Tywin atravessara o Tridente e dirigia-se para Harrenhal. Shiera desejava mais do que tudo correr para chegar antes dele. E haviam dois reis no reino. Dois reis e nenhum acordo.
Muitos dos senhores vassalos queriam marchar sobre Harrenhal de imediato, a fim de defrontar Lorde Tywin e terminar com o poderio dos Lannister de uma vez por todas, contando com o apoio de Lorde Blackfyre. O jovem e temperamental Marq Piper sugeria, em vez disso, um ataque a oeste contra Rochedo Casterly.
Outros ainda aconselhavam paciência. Riverrun estava atravessado nas linhas de abastecimento dos Lannister, fez notar Jason Mallister; que aguardassem o tempo certo, negando a Lorde Tywin provisões e soldados frescos, enquanto iam fortalecendo as defesas e descansando as tropas fatigadas. Lorde Blackwood não queria ouvir falar daquilo. Deveriam terminar o trabalho que tinham começado no Bosque dos Murmúrios. Marchar contra Harrenhal e trazer também para baixo o exército de Roose Bolton. Àquilo que Blackwood sugeria, Bracken opunha-se, como sempre; Lorde Jonos Bracken pôs-se em pé a fim de insistir que deviam declarar lealdade ao Rei Renly e ir para o sul juntar as suas forças às dele.
Shiera achava mais sensato unirem-se a Renly, mas conhecia o marido o suficiente para saber que ele não concordaria. Stannis tinha mais direito ao trono do que Renly e ele nunca apoiaria um golpe daqueles.
—Renly não é o rei – disse Robb. Era a primeira vez que o marido falava. Ele sabia ouvir seus homens e pesar os prós e contras de cada um.
—Não pode pretender aderir a Joffrey, senhor – disse Galbart Glover. – Ele ordenou a morte de seu pai.
—Isso faz dele um mal rei. – respondeu Robb. – Não sei se faz de Renly rei. Joffrey ainda é o filho legítimo mais velho de Robert, por isso o trono é dele segundo todas as leis do reino. Se ele morresse, e pretendo fazer com que morra, tem um irmão mais novo. Tommen segue na linha de sucessão a Joffrey.
—Tommen não é menos Lannister que o irmão – exclamou Sor Marq Piper.
—Eu discordo, senhor. – disse Shiera – Eu vivi anos na corte. Eu convivi com Joffrey e Tommen. Os dois são como água e fogo, completamente opostos. Tommen seria um bom rei se tivesse uma boa Mão para orientá-lo e bons homens em seu Conselho. E digam o que quiserem de Lorde Tywin, mas ele é uma excelente Mão do Rei, Lannister ou não.
—Em todo caso. – disse Robb, perturbado, sem gostar que ela falasse aquilo de Tywin. Notou que muitos senhores torceram o nariz para aquilo, mas não julgou ter dito uma mentira. Lorde Tywin foi mão do Rei por vinte anos, pelo que aprendera... e o reino prosperou muito com isso – Mas, mesmo assim... se nem Tommen e nem Joffrey forem reis, como pode Lorde Renly sê-lo? Ele é o irmão mais novo de Robert. Bran não pode ser Senhor de Winterfell antes de mim, e Renly não pode ser rei antes de Lorde Stannis.
A Senhora Mormont concordou.
—Lorde Stannis tem a melhor pretensão.
—Renly foi coroado – disse Marq Piper, – Jardim de Cima e Ponta Tempestade apoiam sua pretensão, e os de Dorne não ficarão atrás. Se Winterfell e Riverrun acrescentarem suas forças às dele, teremos cinco das sete grandes casas atrás dele. Seis, se os Arryn se moverem! Seis contra o Rochedo! Senhores, dentro de um ano teremos todas as suas cabeças em lanças, a rainha e o rei rapaz, Lorde Tywin, o Duende, o Regicida, Sor Kevan, todos. Será isto que ganharemos se nos juntarmos ao Rei Renly. Que tem Lorde Stannis contra isso para que ponhamos tudo de lado?
Shiera concordava com ele, mas sentiu um aperto no peito ao pensar no que eles fariam com Tyrion. Amava Tyrion de todo coração. Ele sempre fora um bom amigo, desde que o conhecera, em seus anos na corte.
—O direito – disse teimosamente Robb e Shiera suspirou. Aquilo era uma guerra...
—Robb, meu amor. – murmurou e todos a olharam – Não era direito de Viserys reinar depois de Rhaegar e Aerys? Mas Robert sucedeu o Rei Louco, por ser neto de um Targaryen... – ela fez uma pausa e Lorde Bracken e Marq Piper concordaram com energia – Não seria crueldade com os nossos exigir que lutem contra duas frentes? Contra os Lannisters e contra Renly, apenas porque Stannis tem mais direito? Meu irmão Valerion viveu sob tutela de Stannis durante algum tempo. – Shiera respirou fundo, sabendo que Robb não concordava com o que dizia – Ele dizia que Stannis nunca concordou com o modo como Robert perdoou todos os homens que foram leais ao rei Aerys... ele vai deixar o reino instável.
—Se Stannis vai ser um rei ruim, pior ou melhor que Tommen ou Renly, não importa. – disse Robb – Eu não vou apoiar Renly antes de Stannis.
—Tem intenção de nos declarar por Stannis, então? – perguntou Edmure.
—Não sei. – disse Robb. – Rezei para saber o que fazer, mas os deuses não responderam. Os Lannister mataram meu pai por traição, e sabemos que isso foi uma mentira, mas se Joffrey for o rei de direito e lutarmos contra ele, nós seremos traidores.
—O senhor meu pai aconselharia cautela – disse o idoso Sor Stevron, com o sorriso de fuinha de um Frey. – Esperem, deixem que esses dois reis joguem o seu jogo de tronos. Quando terminarem de lutar, podemos dobrar os joelhos ao vencedor, ou podemos nos opor a ele, conforme seja a nossa escolha. Com Renly armando-se, é provável que Lorde Tywin acolha bem uma trégua... e a devolução em bom estado de seu filho. Nobres senhores, permitam-me que vá conferenciar com ele em Harrenhal e nos arranje bons termos e resgates...
Um rugido de afronta afogou a sua voz.
—Covarde! – trovejou Grande-Jon.
—Suplicar por uma trégua só fará com que pareçamos fracos – declarou a Senhora Mormont.
—Que se danem os resgates, não devemos abdicar do Regicida – gritou Rickard Karstark.
—Por que não fazer a paz? – perguntou Catelyn.
Os senhores olharam-na e Shiera desejou aquilo também, mas sabia que não iriam concordar.
—Senhora, eles assassinaram o senhor meu pai, seu esposo. – disse Robb em tom sombrio. Desembainhou a espada e pousou-a na mesa à sua frente, fazendo cintilar o aço brilhante contra a madeira rústica. – Esta é a única paz que eu tenho a dar aos Lannister.
Grande Jon berrou a sua concordância, e outros homens acrescentaram suas vozes, gritando, desembainhando espadas e batendo na mesa com os punhos. Catelyn esperou até que se calassem.
—Senhores – disse ela então –, Lorde Eddard era seu suserano, mas eu partilhei sua cama e dei à luz aos seus filhos. Julgam que o amo menos que os senhores? – sua voz quase se quebrou, mas Catelyn inspirou longamente e sossegou. Shiera entrelaçou sua mão com a de Robb por debaixo da mesa e ele lhe afagou com o polegar – Robb, se esta espada pudesse trazê-lo de volta, eu nunca deixaria que a embainhasse até que Ned estivesse de novo ao meu lado... Mas ele partiu, e duas centenas de Bosques dos Murmúrios não mudarão isso. Ned partiu, tal como Daryn Hornwood, tal como os valentes filhos de Lorde Karstark, tal como muitos outros bons homens, e nenhum deles regressará para nós. Precisaremos ainda de mais mortes?
—É uma mulher, senhora. – estrondeou Grande Jon com sua voz grave – As mulheres não compreendem estas coisas.
—É o sexo gentil e fraco. – disse Lorde Karstark, com rugas de dor frescas no rosto. – Um homem tem necessidade de vingança.
—Como ousam dizer uma besteira dessas?! – ralhou Shiera se levantando e batendo as mãos na mesa – O dia, Lorde Karstark, que for capaz de trazer três crianças ao mundo, como sua mulher fez, você vem me falar de sexo frágil! – rosnou zangada e escutou alguns risinhos – Não se trata de perdoar e deixar barato. Se trata apenas de fazer o mais sensato. Negociar uma paz é melhor que se desgastar em uma guerra sem previsão de fim. O Inverno está chegando, senhores. E nós precisamos nos preparar para ele. Vocês sabem muito melhor do que qualquer um o que acontece quando não se está pronto. – ela parou e olhou os lordes – Eu não vejo problema em negociar a paz. – ela se sentou novamente e respirou fundo – Mas os Lannisters terão que pagar. E pagar caro. Joffrey é um garoto louco, indisciplinado e eu não duvido que Lorde Tywin esteja desgostoso dele. Provavelmente pensa que já lidou o suficiente com reis loucos. Pode ser que ele concorde em nos dar a cabeça do neto, em troca do nosso apoio, pelo que Joffrey fez com Ned Stark. A cabeça de Joffrey, os ossos de Ned, pela paz e apoio a Tommen. E então trocamos o Regicida por Sansa e Arya.
Fez um barulho com alguns Lordes apoiando, enquanto outros rechaçavam sua ideia, mas todos se calaram quando Lady Stark começou a falar.
—Eu talvez não compreenda as táticas e a estratégia... mas compreendo a futilidade. Partimos para a guerra quando os exércitos Lannister assolavam as terras do rio, e Ned era um prisioneiro, falsamente acusado de traição. Lutamos para nos defender e para conquistar a liberdade do meu senhor. Pois bem, uma parte está feita, e a outra, para sempre além do nosso alcance. Farei luto por Ned, até o fim dos meus dias, mas tenho de pensar nos vivos. Quero as minhas filhas de volta, e a rainha ainda as tem. Se tiver de trocar os nossos quatro Lannister pelas duas Stark deles, chamarei a isso uma pechincha e darei graças aos deuses. Quero-o a salvo, Robb, governando em Winterfell do assento do seu pai. Quero que desfrute sua vida, que beije sua mulher e que ela lhe dê muitos filhos. – Shiera colocou a mão no ventre, sem conseguir evitar e sorriu para Lady Catelyn – Quero pôr fim a isto. Quero ir para casa, senhores, e chorar pelo meu esposo.
O salão ficou muito silencioso quando Catelyn parou de falar.
—Paz... – disse o tio Brynden. – A paz é doce, minha senhora... mas em que termos? De nada serve forjar um arado a partir de uma espada se for necessário forjar de novo a espada no dia seguinte.
—Para que morreram Torrhen e o meu Eddard, se tiver de regressar a Karhold sem nada a não ser os seus ossos? – perguntou Rickard Karstark.
—Sim – disse Lorde Bracken, – Gregor Clegane arrasou meus campos, massacrou meu povo e transformou Barreira de Pedra em uma ruína fumegante. Deverei agora dobrar o joelho àqueles que lhe deram as ordens? Para que lutamos, se pusermos tudo como era antes?
Lorde Blackwood concordou, para surpresa e desânimo de Shiera.
—E se fizéssemos a paz com o Rei Joffrey, não seríamos então traidores para o Rei Renly? E se o veado vencer o leão, em que situação ficaremos?
—Seja o que for que decidirem, nunca chamarei um Lannister de rei! – declarou Marq Piper.
—Nem eu! – gritou o pequeno Derry. – Nunca o farei!
De novo começaram os gritos. Olhou para o marido, observou-o enquanto escutava o debate dos senhores, de sobrancelha franzida, perturbado, mas casado com a sua guerra tanto quanto com ela.
—Certo, senhores. Já que estão todos tão dispostos a sangrar e a lutar, então vamos à guerra. – disse vencida e determinada – Mas se for o caso, eu acredito que devemos colocar dragões ao nosso lado. Meu pai realmente não se juntou aos senhores do rio... mas tampouco se uniu aos leões. Meu irmão é refém em Porto Real, é verdade... e eu sinceramente não sei quando Aegon voltará de Essos com sua frota... mas meu pai tem mais soldados que qualquer um das Terras Fluviais. Seja qual for o nosso lado, precisaremos da ajuda de Harrenhal.
Então todos pareceram finalmente concordar com alguma coisa. Foi quando Grande Jon se pôs em pé de um salto.
—Senhores! – gritou, fazendo a voz reverberar nas traves. – Eis o que eu digo a esses dois reis! – cuspiu. – Renly Baratheon não é nada para mim, e Stannis também não. Por que haveriam de governar a mim e aos meus de uma cadeira florida qualquer em Jardim de Cima ou Dorne? Que sabem eles da Muralha ou da Mata de Lobos, ou das sepulturas dos Primeiros Homens? Até os seus deuses estão errados. – ele fez uma pausa e Shiera deu uma risadinha, pois, ao contrário do irmão gêmeo, sempre foi devota aos deuses antigos – Que os Outros levem também os Lannister, já tive deles mais do que a minha conta! – esticou a mão atrás do ombro e puxou a sua imensa espada longa de duas mãos. – Por que não havemos de nos governar de novo a nós próprios? Foi aos dragões que nos curvamos. Pois bem, nós temos um dragão aqui. – ele apontou para ela e Shiera piscou surpresa – E esse dragão se casou com o único rei para quem eu pretendo dobrar o joelho! – então ele apontou com a lâmina para Robb – O Rei do Norte!
Ajoelhou-se, e depositou a espada aos pés de seu marido.
—Aceitarei a paz nesses termos. – disse Lorde Karstark. – Podem ficar com o seu castelo vermelho e com a sua cadeira de ferro também – tirou a espada da bainha. – O Rei do Norte! – disse, ajoelhando-se ao lado de Grande-Jon.
Maege Mormont pôs-se em pé.
—O Rei do Inverno! – declarou, e pousou sua maça de espigões ao lado das espadas. E os senhores do rio também estavam se erguendo, Blackwood, Bracken e Mallister, casas que nunca tinham sido governadas por Winterfell, mas Shiera viu-os erguer-se e puxar as lâminas, vergando os joelhos e gritando as velhas palavras que não eram ouvidas no reino havia mais de trezentos anos, desde que Aegon, o Dragão, chegara para fazer dos Sete Reinos um só... mas agora eram ouvidas de novo, ressoando no madeirame do salão de Lorde Hoster Tully:
—O Rei do Norte!
—O Rei do Norte!
—O Rei do Norte!
Robb entrelaçou os dedos com os seus por debaixo da mesa. As mãos dele tremiam tanto quanto as suas. Mas ambos olharam para frente, como se nada no mundo fosse capaz de assustá-los.
**
A terra era vermelha, morta e ressequida, e era difícil encontrar boa madeira. Os forrageiros regressaram com algodoeiros nodosos, arbustos roxos, feixes de grama seca. Abateram as duas árvores menos retorcidas, desbastaram os galhos, arrancaram a casca e dividiram-nas, dispondo as toras em quadrado. Encheram o centro com palha, arbustos, aparas de casca de árvore e fardos de mato seco. Rakharo escolheu um garanhão da pequena manada que lhes restava; não era tão nobre como o vermelho de Khal Drogo, mas poucos cavalos o eram. No centro do quadrado, Aggo deu-lhe uma maçã mirrada e o abateu num instante com um golpe de machado dado entre os olhos. Tudo parte de uma tradição idiota. Cavalos seriam úteis e os selvagens estavam dispostos a sacrificarem um dos melhores apenas por supertições. Mas o pior ainda estava por vir.
Atada de pés e mãos, Mirri Maz Duur observava da poeira com inquietação em seus olhos negros.
—Não basta matar um cavalo – disse a Dany – Em si mesmo, o sangue não é nada. Não sabe as palavras para fazer um feitiço, nem tem a sabedoria para encontrá-las. Julga que a magia de sangue é um jogo de crianças? Chamam-me maegi como se fosse uma praga, mas tudo o que isso significa é sábio. E és uma criança, com a ignorância de uma criança. Seja o que for que pretenda fazer, não dará resultado. Solte-me destes nós, e eu a ajudo.
Aegon poderia tentar argumentar com Dany, mas sabia que ela precisava fazer aquilo para se perdoar. Ele sabia a dor de perder alguém que amava e ele mesmo precisou fazer muitos sangrarem para aliviar a dor que sentira quando a mãe morreu. O mesmo aconteceu com seu pai...
—Estou farta dos zurros da maegi – disse Dany a Jhogo.
Ele brindou-a com o chicote, e depois daquilo a esposa de deus manteve-se em silêncio. Mas Aegon tinha pena dela. A olhou como se perguntasse se ela desejava que ele intercedesse, mas ela negou discretamente com um aceno de cabeça. Ela sabia que Dany jamais a perdoaria e que jamais confiaria nela... Ela está pronta para morrer. Vai soltar mais um de seus supostos feitiços e morrer para ajudar Daenerys.
Por cima da carcaça do cavalo, construíram uma plataforma de toras decepadas; troncos de árvores menores e braços das maiores, e os mais grossos e direitos galhos que conseguiram encontrar. Dispuseram a madeira de leste para oeste, do nascente ao poente. Sobre a plataforma, empilharam os tesouros de Khal Drogo: sua grande tenda, os coletes pintados, as selas e arreios, o chicote que o pai lhe dera quando se fizera um homem, o arakh que usara para matar Khal Ogo e o filho, um grande arco de osso de dragão. Aggo queria juntar também as armas que os companheiros de sangue de Drogo tinham dado a Dany como presentes de noivado, mas ela o proibiu.
—Essas são minhas. – disse-lhe – E quero ficar com elas – outra camada de arbustos foi depositada em volta dos tesouros do khal, e feixes de mato seco foram espalhados sobre eles.
Sor Jorah Mormont puxou Dany de lado quando o sol se aproximava do zénite.
—Princesa... – começou.
—Por que me chama assim? – desafiou Dany. – Meu irmão Viserys era seu rei, não é verdade?
—Era, senhora.
—Viserys está morto. Eu sou sua herdeira, o último sangue da Casa Targaryen. O que quer que fosse dele é agora meu.
—Rainha seja, então. – murmurou Aegon, ficando de joelhos e sacando a espada – Minha vida e minha espada são suas.
—Minha... rainha – disse Sor Jorah, caindo sobre um joelho. – Minha espada, que era dele, é sua, Daenerys. E o meu coração também, que nunca pertenceu a vosso irmão. Sou apenas um cavaleiro, e nada tenho a oferecer-lhe exceto o exílio, mas escute-me, suplico-lhe. Esqueça Khal Drogo. Não estará só. Prometo-lhe que nenhum homem a levará para Vaes Dothrak a menos que deseje ir. Não tem de se juntar às dosh khaleen. Venha para o leste comigo, Yi Ti, Qarth, o Mar de Jade, Asshai da Sombra. Veremos todas as maravilhas que ainda há para ver, e beberemos os vinhos que os deuses achem por bem nos oferecer. Por favor, khaleesi. Sei o que pretende fazer. Não o faça. Não o faça.
Aegon também sabia o que ela pretendia fazer. Sonhara com aquilo e a cada minuto que passava, se conformava mais e mais que Daenerys pretendia se matar, jogando-se no fogo. Ele não acreditava em magia... não importava o que Mirri Maz Duur dissesse.
—Tenho de fazê-lo – disse-lhe Dany. Tocou-lhe o rosto, com carinho, com tristeza. – O senhor não compreende.
—Compreendemos que o amava... – disse Aegon com uma voz carregada de desespero. – Dany, vamos para Volantis, eu lhe imploro. Lá poderá viver bem. Eu juro a você. Podemos reunir a frota do meu avô, nos reunir com meu pai e então tentar conquistar o trono. O seu Trono. Por favor, eu lhe imploro, Vossa Graça. Não faça isso. És a minha rainha, a minha espada é sua, mas não me peça para me afastar enquanto sobe para a pira de Drogo. Não a verei arder.
— É isso o que teme? – Dany deu-lhe um leve beijo na testa e ele sentiu um calafrio. – Não sou assim tão infantil, querido sor.
—Não planeja morrer com ele? Jura, minha rainha? – perguntou aflito – Meu coração não aguentaria vê-la morrer desse jeito. – disse engolindo em seco – Eu não acredito em magias, Dany. Não me faça sofrer assim. Jure pra mim que não pretendes morrer.
—Juro. – disse ela no Idioma Comum dos Sete Reinos que por direito eram dela. Mas isso não fez seu coração se acalmar.
O terceiro nível da plataforma foi tecido com ramos que não eram mais grossos que um dedo, e coberto com folhas e raminhos secos. Dispuseram-nos de norte a sul, do gelo ao fogo, e em cima colocaram uma grande pilha de suaves almofadas e sedas de dormir. O sol começava a baixar em direção a oeste quando terminaram. Dany chamou os dothrakis. Restavam menos de uma centena.
Dany se voltou para os poucos Dothraki que sobraram. Os velhos, as crianças, os feridos e algumas mulheres...
—Serão o meu khalasar. – disse-lhes – Vejo os rostos de escravos. Liberto-os. Tirem as coleiras. Partam se quiser, ninguém lhes fará mal. Se ficarem, serão como irmãos e irmãs, maridos e esposas. – os olhos negros observavam, cautelosos, sem expressão. – Vejo crianças, mulheres, os rostos enrugados dos idosos. Ontem era uma criança. Hoje sou uma mulher. Amanhã serei velha. A cada um de vocês digo: deem-me suas mãos e os seus corações, e haverá sempre lugar para todos – virou-se para os três jovens guerreiros do seu khas. – Jhogo, a você ofereço o chicote de cabo de prata que foi meu presente de noivado, nomeio-o ko e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal.
Jhogo aceitou o chicote de suas mãos, mas o rosto mostrava confusão.
—Khakesi – disse hesitantemente –, isto não se faz. Seria uma vergonha ser companheiro de sangue de uma mulher.
Se Shiera ouvisse isso, Jhogo levaria uma flechada, com certeza... ou pelo menos uma bela joelhada nas bolas.
—Aggo – chamou Dany, sem prestar atenção às palavras de Jhogo. – A você ofereço o arco de osso de dragão que foi meu presente de noivado. – tinha dupla curvatura, era de um negro brilhante e requintado, mais alto que ela – Nomeio-o ko, e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal.
Aggo aceitou o arco com os olhos baixos.
—Não posso dizer essas palavras. Só um homem pode liderar um khalasar ou nomear um ko.
—Rakharo – disse Dany, virando as costas à recusa – Você ficará com o grande arakh que foi meu presente de noivado, com ouro incrustado no cabo e na lâmina. E também o nomeio ko, e peço que jure que viverá e morrerá como sangue do meu sangue, cavalgando ao meu lado para me manter a salvo do mal.
—É khaleesi – disse Rakharo, recebendo o arakh. – Cavalgarei ao seu lado até Vaes Dothrak sob a Mãe das Montanhas, e a manterei a salvo do mal até ocupar o seu lugar com as feiticeiras do dosh khaleen. Não posso prometer mais.
Ela acenou, tão calmamente como se não tivesse ouvido sua resposta, e virou-se para Jorah.
—Sor Jorah Mormont, – disse – primeiro dos meus cavaleiros, não tenho presente de noivado para lhe oferecer, mas juro que um dia receberá das minhas mãos uma espada longa como o mundo nunca viu outra igual, forjada por um dragão e feita de aço valiriano. E quero pedir também seu juramento.
—É seu, minha rainha – disse Sor Jorah, ajoelhando-se para depositar a espada aos pés dela. – Juro servi-la, obedecê-la, morrer pela senhora se for necessário.
—Aconteça o que acontecer?
—Aconteça o que acontecer.
—Lembrarei desse juramento. Rezo para que nunca se arrependa de tê-lo feito – Dany o fez se levantar. Pondo-se na ponta dos pés para lhe chegar aos lábios, deu um leve beijo no cavaleiro e disse: – É o primeiro da minha Guarda Real. – Aegon ainda estava de joelhos, ligeiramente enciumado. Ele era o melhor espadachim dos Sete Reinos, um cavaleiro muito mais habilidoso que Jorah. Muito mais jovem, também. Se havia um homem para ser o primeiro cavaleiro de Daenerys, esse homem era ele, Aegon Blackfyre, herdeiro legítimo de Lorde Haegon Blackfyre, futuro senhor de Harrenhal. Não Jorah, o ândalo – Sor Aegon Blackfyre. – disse ela e ele levantou os olhos para o lindo rosto dela. Pelos deuses. Mais ou menos bonita que Shiera. Começo a pensar que é mais — Dizem que não há no mundo um cavaleiro mais hábil que você. Meu amado Sol-e-Estrelas, Khal Drogo, já dizia que você era mais habilidoso que qualquer homem que ele já tivesse visto. – Daenerys se virou e pegou o presente de noivado que dera a ela. A espada de aço valiriano que ele lhe dera no dia em que casara com Drogo. A espada de minha mãe... que meu pai mandou forjar com os restos que ele recuperou em Valíria... — Me responda. Essa espada foi feita para uma mulher, não foi?
—Sim, Vossa Graça. – respondeu ele engolindo em seco, a olhando nos olhos – Ela pertenceu à minha mãe. Minha irmã deveria herdá-la, mas ela preferiu o arco, então eu fiquei com a espada e meu irmão com a gêmea dessa espada, apesar dele nunca ter sido de lutar, meu irmão caçula. – murmurou.
—Você será meu general. – disse Daenerys o olhando com atenção – Você liderará todas as minhas tropas, meus navios e todo o meu exército. – adicionou ela. Seria uma honra, se ela tivesse qualquer uma dessas coisas – E desejo que me ensine a lutar também, para poder estar a altura dessa espada. Deverá me devolver quando achar que eu estiver boa o suficiente. Até lá, você será a minha espada. O meu braço forte. Você jura me proteger de todo o mal e me servir até que eu conquiste de volta o trono do meu pai, me ajudando então a governar?
—Juro, Vossa Graça. Tem meu juramento, minha espada, meu coração e minha vida. – disse a olhando nos olhos.
-Aconteça o que acontecer?
—Aconteça o que acontecer.
—Lembrarei desse juramento. Rezo para que nunca se arrependa de tê-lo feito. – Dany o fez se levantar e ele obedeceu. Quando ela ficou na ponta dos pés para lhe dar um beijo e firmar o compromisso, sua mão foi para a cintura dela por instinto. Sentiu as bochechas corarem, o coração acelerar e se sentiu um verdadeiro imbecil. Se afastou um passo, envergonhado, mas ela o beijou nos lábios assim mesmo, rapidamente, da mesma maneira que fizera com Jorah. Fechou os olhos por um momento, tentando resistir a tentação de lamber os lábios, apenas para tentar descobrir se ficara um rastro do sabor dos lábios dela ali – Um dia lhe darei um presente a sua altura, Sor Aegon.
—Só de servi-la, minha senhora... digo... Vossa Graça... – ele engoliu em seco – Não preciso de presentes.
Daenerys lhe sorriu com carinho e desviou o olhar para a pira. Depois ela entrou na tenda e ele ficou de pé, sentindo o coração bater acelerado. Céus... eu estou apaixonado. Eu sou muito idiota de deixar isso acontecer. Com que direito eu acho que estou de me apaixonar pela minha rainha?
Os dothrakis resmungavam e lançavam-lhe estranhos olhares de soslaio com seus olhos escuros e amendoados.
—Ainda diz que não a ama? – perguntou Jorah.
—Não faz diferença. – murmurou cabisbaixo – É mais fácil os mortos voltarem a vida, para matar os vivos do que eu ter uma chance com ela. O dragão vermelho é nobre. O negro apenas serve.
Daenerys demorou para sair da tenda. Quando o fez, parecia ter tomado um banho. O sol estava descendo quando ela voltou a chamá-los para levarem o corpo de Drogo até a pira. Os dothrakis observaram em silêncio quando Jhogo e Aggo o trouxeram da tenda.
Dany os seguia.
Depositaram-no nas almofadas e sedas, com a cabeça voltada para a Mãe das Montanhas, lá longe para nordeste.
—Óleo! – ordenou sua rainha, e trouxeram os jarros e despejaram o óleo sobre a pira, empapando as sedas, os arbustos e os feixes de mato seco, até que pingou sob as toras e o ar ficou rico de fragrâncias. – Tragam-me os meus ovos – ordenou Dany às aias. Algo na sua voz as fez correr.
Sor Jorah pegou-lhe no braço.
—Minha rainha, Drogo não terá nenhuma utilidade para ovos de dragão nas terras da noite. É melhor vendê-los em Asshai. Venda um, e poderá comprar um navio que nos leve de volta para as Cidades Livres. Venda os três, e será uma mulher abastada até o fim dos seus dias.
—Não me foram dados para vender. – disse-lhe Dany.
—Acha mesmo que fogo pode destruir os ovos de dragão? – perguntou Aegon com um sorrisinho. Mas este sorriso morreu ao olhar novamente para Daenerys. Ela subiu ela mesma na pira para colocar os ovos em volta de Drogo. O negro junto ao coração, debaixo do braço. O verde ao lado da cabeça, com a trança enrolada nele. O creme e dourado entre as pernas.
Então ela beijou o falecido com carinho e saudade.
Ao descer da pira, reparou que Mirri Maz Duur a observava.
—É louca – disse roucamente a esposa de deus e Aegon não entendeu pra quê toda aquela farsa. Mirri não podia simplesmente falar suas intenções? Por que ela precisava fingir ser inimiga de Dany? Por que fingir que não acreditava nas magias dela, quando na verdade era tão louca quanto sua rainha, no quesito acreditar em magia?
—Há assim tão grande distância entre a loucura e a sabedoria? – perguntou Dany. – Sor Jorah, ate esta maegi à pira.
—À pir... minha rainha, não, escute-me... – começou Jorah e Aegon se adiantou.
—Deixe comigo. – pediu Aegon e Daenerys concordou. Pegou a bruxa pelo braço e a levou até a pira – Tem certeza disso? – sussurrou para ela. A velha mulher o olhou com gratidão.
—Quem diria que a espada mais afiada do mundo poderia ter um toque tão gentil? – perguntou ela e Aegon corou de leve, enquanto a amarrava – Proteja-a. Ela terá um papel muito importante. O destino de muitos estará nas mãos dela... e por conseguinte... nas suas, Cavaleiro de Prata.
—Eu não acredito em suas profecias. Sinto muito. – disse terminando de atá-la.
—Em pouco tempo você vai mudar de ideia. – riu Mirri o olhando daquele jeitinho que dizia que ele não era mais esperto que ela. Odiava aquele jeitinho... – Adeus, Cavaleiro de Prata.
—Adeus, bruxa. – riu Aegon se afastando.
Foi a própria Dany quem despejou o óleo na cabeça da mulher.
—Agradeço-lhe, Mirri Maz Duur – disse –, pelas lições que me ensinou.
—Não me ouvirá gritar. – respondeu Mirri enquanto o óleo lhe pingava da cabeça e ensopava as suas roupas.
—Ouvirei – disse Dany –, mas o que quero não são os seus gritos, só a sua vida. Lembro-me do que me disse. Só a morte pode pagar pela vida – Mirri Maz Duur abriu a boca, mas não respondeu. Ao se afastar, Aegon viu que a bruxa parecia muito determinada. Que fosse assim. Que sua crença estúpida lhe confortasse naquela morte terrível.
Depois ficaram a procurar a primeira estrela. Quando um senhor dos cavalos morre, seu cavalo é morto com ele, para que possa montar orgulhoso nas terras da noite. Os corpos são queimados a céu aberto, e o khal ergue-se na sua montaria de chamas para ocupar o seu lugar entre as estrelas. Quanto mais ferozmente o homem tiver queimado em vida, mais brilhante sua estrela será na escuridão.
Jhogo a viu primeiro.
—Ali – disse ele numa voz abafada. Aegon olhou e a viu, baixa, no leste. A primeira estrela era um cometa que ardia, vermelho. Vermelho de sangue; vermelho de fogo. Piscou surpreso, pois nunca tinha visto algo assim.
Dany tirou o archote da mão de Aggo e o enfiou entre as toras. O óleo pegou fogo de imediato, os arbustos e o mato seco um instante depois. Minúsculas chamas correram pela madeira como velozes ratos vermelhos, patinando sobre o óleo e saltando de casca em ramo, de ramo em folha. Um calor que aumentava soprou-lhe no rosto, suave e súbito como o hálito de uma amante, mas em segundos se tornara quente demais para suportar.
Dany deu um passo atrás, quando ele a puxou gentilmente. A madeira estalou, cada vez mais alto. Mirri Maz Duur começou a cantar numa voz estridente e ululante. Sentiu outro calafrio lhe subir à espinha, como no dia em que ela invocara aquelas sombras estranhas. Quando ela invocara os mortos...
Não seja estúpido. Foi apenas um truque. Nada mais do que isso. Não existe magia. Não existe.
As chamas rodopiaram e contorceram-se, fazendo corridas umas com as outras pela plataforma acima. O ocaso ondulou quando o próprio ar pareceu liquefazer-se com o calor. Aegon ouviu toras que se fendiam e estalavam. O fogo envolveu Mirri Maz Duur. A canção dela tornou-se mais sonora, mais estridente... e então arquejou, uma vez e outra, e a canção transformou-se num lamento trêmulo, agudo, sonoro e cheio de agonia.
E agora as chamas chegavam a Drogo, e o rodeavam por completo. Suas roupas pegaram fogo, e por um instante o khal ficou vestido com farrapos de flutuante seda cor de laranja e elos de fumaça rodopiante, cinzenta e oleosa.
Conseguia sentir o cheiro de carne queimada, em nada diferente da carne de cavalo assando numa fogueira. A pira rugia no crepúsculo que se aprofundava como um grande animal, afogando o som mais fraco dos gritos de Mirri Maz Duur e projetando longas línguas de fogo para lamber a barriga da noite. Quando a fumaça se tornou mais espessa, os dothrakis se afastaram, tossindo.
Grandes gotas de fogo cor de laranja desenrolaram seus estandartes naquele vento infernal, com as toras silvando e estalando, e fagulhas brilhantes erguendo-se na fumaça e afastando-se, flutuando como outros tantos vaga-lumes recém-nascidos. O calor batia o ar com grandes asas vermelhas, afastando os dothrakis, afastando até Mormont, mas Dany ficou no seu lugar, assim como ele. Eram do sangue do dragão, e tinham o fogo em si.
Havia algo de hipnótico naquelas chamas. Algo que o chamava. Algo que o seduzia. Engoliu em seco e viu Daenerys dar um passo para frente.
—Você vai entrar, não vai? – perguntou baixinho, só pra ela.
—Está me chamando... – murmurou ela.
—Eu sei. – murmurou ele. Não estava entendendo, não sabia de onde tirava aquela certeza – Vai voltar pra mim, não vai?
—Eu não sei o que vai acontecer... – respondeu Dany. Ela o olhou e os dois finalmente conseguiram desgrudar o olhar das chamas – Vai esperar por mim, Sor?
—Pelo resto de minha vida, Daenerys. – respondeu. Ela sorriu e olhou novamente para a pira.
As chamas contorciam-se à sua frente como as mulheres que dançaram no casamento de Dany e Drogo, rodopiando, cantando e fazendo girar seus véus amarelos, laranja e carmins, terríveis de admirar, mas ao mesmo tempo adoráveis, tão adoráveis, vivas de calor. Dany abriu os braços, com a pele corada e brilhando. Que eu não tenha ficado louco, pensou. Mirri Maz Duur caíra no silêncio. Que a esposa de deus não estivesse enganada com seus feitiços. Que o sangue de Valíria realmente ainda tenha poder...
Daenerys caminhou em direção às chamas e Jorah tentou segurá-la, mas Aegon não deixou.
—Ela vai morrer!
—É a decisão dela e você deve obedecer. – disse Aegon. E só o soltou quando sua rainha desapareceu nas chamas.
Sor Jorah gritava atrás dela, mas ele já não importava, somente o fogo. As chamas eram tão belas, as coisas mais lindas que jamais vira antes, cada uma delas uma feiticeira vestida de amarelo, laranja e escarlate, fazendo rodopiar longos mantos fumarentos. Viu leões de fogo carmesins e grandes serpentes amarelas e unicórnios feitos de chamas azul-claras; viu peixes e raposas e monstros, lobos e aves brilhantes e árvores floridas, cada uma mais bela que a anterior. Viu um cavalo, um grande garanhão cinzento retratado na fumaça, com uma auréola de chama azul no lugar da crina. Parecia que Khal Drogo finalmente estava deixando aquele mundo.
Ouviu um crac, o som de pedra que se quebra. A plataforma de árvores, arbustos e mato começou a deslocar-se e a colapsar sobre si mesma. Pedaços de madeira ardendo deslizaram. Sentiu o peito esquentar e se aproximou do fogo, seduzido. Mas quando se aproximou demais, sentiu dor e voltou. Jorah bateu em sua cabeça para apagar o fogo que o chamuscara e Aegon sorriu anestesiado. Algo estava acontecendo. Algo de inexplicável. Algo que iria fazer com que ficasse confuso e tonto. Algo que faria com que voltasse a ser aquele garotinho sonhador, que fora antes de sua mãe morrer.
O rugido enchia o mundo, mas, de um modo tênue. Aegon ouviu através da catarata de fogo gritos de algo que ele nunca ouvira antes. Só a morte pode pagar pela vida.
E então se ouviu um segundo crac, tão sonoro e cortante como um trovão, e a fumaça agitou-se e rodopiou subindo para o céu noturno, com as toras explodindo quando o fogo atingiu os seus corações secretos. Ouviu os gritos de cavalos assustados e as vozes dos dothrakis em gritos de medo e terror, e Sor Jorah chamando pelo nome de Daenerys. Mas ele estava tranquilo. Estranhamente calmo. Ansioso, mas feliz.
Com um vômito de chamas e fumaça que subiu a nove metros de altura, a pira ruiu e caiu. Escutou Daenerys lá dentro, chamando por algo e ele desejou ardentemente entrar no fogo com ela, mas sabia que o feitiço de Mirri só protegeria sua rainha. Então esperou, aflito, sem saber o que esperava.
O terceiro crac foi tão sonoro e cortante como se o mundo se rasgasse.
Quando o fogo enfim morreu e o chão ficou suficientemente frio para poder ser atravessado, Sor Jorah Mormont e Aegon avançaram a procura de Dany. Encontraram-na entre as cinzas, rodeada por toras enegrecidas, fagulhas de brasas incandescentes e os ossos queimados de homem, mulher e garanhão. Estava nua, coberta de fuligem, com as roupas transformadas em cinzas, os belos cabelos torrados até desaparecer... mas incólume.
O dragão creme e dourado chupava-lhe o seio esquerdo, o verde e cor de bronze, o direito. Os braços dela os embalavam bem perto. O animal negro e escarlate envolvia-lhe os ombros, com o longo pescoço sinuoso enrolado sob seu queixo. Quando viu Aegon, ergueu a cabeça e o encarou com olhos vermelhos como brasas.
Aegon sorriu e caiu de joelhos, sentindo que aquele menino que um dia fora parecia voltar. Eles vivem. Eles são reais! Ela os trouxe de volta. Viu Sor Jorah se ajoelhar ao seu lado, completamente abobalhado, completamente em choque. Os homens do khas de Dany vieram atrás deles. Jhogo foi o primeiro a depositar o arakh a seus pés.
—Sangue do meu sangue. – murmurou, inclinando o rosto à terra fumegante.
—Sangue do meu sangue. – ouviu Aggo repetir num eco.
—Sangue do meu sangue. – gritou Rakharo.
E depois dele vieram as aias, e depois os outros, todos os dothrakis, homens, mulheres e crianças. Eles eram, hoje, amanhã e para sempre de Dany, como nunca tinham sido de Drogo. Quando Daenerys Targaryen se pôs em pé, seu dragão negro silvou, com fumaça clara saindo da boca e das narinas. Os outros dois afastaram-se dos seios e somaram suas vozes ao chamamento, com asas translúcidas abrindo-se e agitando o ar, e pela primeira vez em centenas de anos a noite ganhou vida com a música dos dragões.
Foi nesse dia que Aegon Blackfyre finalmente voltou a acreditar em magia. E tudo graças a sua amada Rainha, que mesmo suja de fuligem, careca e recém parida, seguia sendo ainda mais bonita que Shiera. Ele tinha total certeza disso.
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