Blackfyre
15 Fantasmas
Notas iniciais

Fantasmas
Sansa precisava treinar mais. Ela não conseguia esconder seus sentimentos, nem fingir sentir algo que não sentia. Mas ela melhorava, muito aos pouquinhos.
Valerion estava no Pequeno Conselho, como esperavam que ele estivesse. Mas ele desejava estar lá fora, apreciando o calor e lutando no torneio que fizeram para celebrar o dia do nome de Joffrey. Imaginava que Lady Sansa deveria estar especialmente bela naquele dia, afinal era um dia importante. Se perguntou qual vestido ela deveria estar usando. Se ela usasse uma roupa de camponesa, ainda seria mais bonita do que todas as mulheres dessa corte.
Suspirou escutando os passos pesados de Pycelle, que trazia consigo uma grande gaiola, com um pano cheio de detalhes em pérola, com as bordas de ouro, formando desenhos bonitos e bem trabalhados. Nunca tinha visto uma gaiola daquela, mas já lera a respeito e aquilo fez sentir um arrepio em sua espinha. Lembrava-se de sua irmã falar sobre os Outros, os Caminhantes Brancos, que ela vira em seus sonhos, com armaduras de gelo brilhante e olhos azuis faiscantes, trazendo frio e morte por onde quer que passassem.
Mas preferiu ficar em silêncio, mirando Pycelle com um olhar sombrio, escondendo seus temores para si. Todos adquiriram um olhar mais sério e pesado, menos Cersei, que parecia alheia ao significado daquela gaiola.
—Um corvo chegou da Cidadela esta manhã, Vossa Graça. O conselho reuniu relatórios consideráveis dos Meistres de todos os Sete Reinos, e declararam que esse longo verão finalmente chegou ao fim. – disse Pycelle colocando a gaiola em cima da mesa e mostrando um grande corvo branco, maior que um corvo comum, lá dentro – O verão mais longo que se tem memória.
—Um longo verão significa um inverno ainda maior. – sussurrou Valerion – Precisamos aumentar a produção de alimentos, Vossa Graça, enquanto temos tempo. – disse ele olhando o corvo e sentindo um aperto no estômago.
—Uma tola superstição. – disse Pycelle e Valerion começou a se irritar – Não esperava outra baboseira de um garoto que cheira a leite. Quando Haegon voltará para o Conselho?
—Provavelmente depois de colocar algum juízo em minha irmã e convencer Robb a fazer a paz... ou ao menos depois de fazer alguma coisa em relação aos nortenhos. – devolveu Valerion – Você vai ter que me engolir, Pycelle. – ele se virou para Cersei – Temos trigo o suficiente para cinco anos de inverno, mas irá faltar caso a guerra continue e os camponeses seguirem fugindo para a cidade.
—A cidade está cheia de refugiados... e com a guerra, não temos mais onde colocá-los. E com o inverno chegando, isso só vai piorar. – adicionou Slynt.
Cersei respirou fundo, sem olhar pra ninguém em específico, como se aquela conversa fosse tediosa demais para ela. Valerion suspirou aborrecido. Queria que Lorde Tywin regressasse logo para começar seus planos. Estava cansado de adular Cersei e começou a notar que ela estava lhe testando com flertes.
E ele não sabia como reagir a isso.
—Você comanda a Patrulha da Cidade, não comanda, Lorde Slynt? – perguntou Cersei.
—Eu comando, Sua Graça.
—E você não é um Lorde sob o meu comando?
—Eu... devo meu título e terras à sua generosidade, Sua Graça.
—Então faça seu trabalho. Feche os portões aos camponeses. Eles devem ficar no campo, não em nossa capital. – resmungou Cersei e Valerion se perguntou se seu pai algum dia concordaria em fazer o mesmo com os próprios camponeses...
—Sim, Sua Graça... – respondeu Slynt.
Foi quando a porta se abriu. Todos viraram o rosto e viram, com surpresa, Sor Tyrion Lannister entrar.
—Não se levantem. – riu ele, mas Valerion não resistiu.
—Sor Tyrion! – disse sorridente, se levantando e indo cumprimentá-lo com alegria – Céus, como é bom vê-lo, Sor.
—Pelos Deuses. – riu Tyrion com seu sorriso animado – Você cresceu! E está deixando a barba crescer. Quem olha para você até acha que é um homem feito. – riu ele.
—Um dia serei tão alto quanto você. – devolveu e os dois riram – O que o trás a Porto Real?
—O que faz aqui? – perguntou Cersei com desgosto na voz e Valerion notou que ela não aprovara de forma alguma sua alegria ao receber Tyrion – Por que não está no campo de batalha?
—Cersei. – riu Tyrion a olhando – Mais deslumbrante do que nunca, irmã mais velha. – ele a olhou com um jeitinho travesso – A guerra faz bem à você. – ele continuou andando e se sentou no lugar que deveria pertencer a Tywin Lannister e Valerion sorriu imaginando o que Tyrion fazia ali. Voltou a se sentar em seu lugar, ao lado esquerdo dele, completamente satisfeito. Diziam que a Mão deveria sempre estar ao lado da lei e da sabedoria. Portanto Tyrion estava na ponta da mesa entre ele e Meistre Pycelle – Desculpem a interrupção. Por favor, continuem.
—O que você está fazendo aqui? – perguntou Cersei, novamente.
—Ah, foi uma jornada incrível. – riu Tyrion e Valerion lhe serviu uma taça de vinho – Obrigado. – riu ele e Valerion apenas sorriu – Eu mijei na ponta da Muralha... – e ele se lembrou de Jon Snow. Se perguntou se sua irmã seguia apaixonada pelo bastardo... – Eu dormi em uma cela no céu, lutei com as tribos dos montes... tantas aventuras. – ele lançou um olhar penetrante a Mindinho e Valerion se perguntou o motivo. Foi quando se lembrou o que Mindinho disse sobre a faca que um assassino usara para matar Brandon. Uma faca que ele dissera pertencer a Tyrion e que tanto Valerion quanto o pai duvidaram plenamente disso – Tanto pelo o que ficar agradecido.
—O que você está fazendo aqui? – insistiu Cersei, que ainda não tinha entendido. Valerion suspirou precisando tomar uma decisão. Precisava escolher um lado. E já estava tentado a largar a rainha de lado. Não gostava dela e não confiava nela. Não podia dizer o mesmo de Tyrion. Tinha uma grande afeição por ele pelo que sua irmã falara dele. E no torneio de Harrenhal os dois conversaram tanto que pareciam ser amigos desde sempre. E no caminho para Winterfell, quando se uniram à comitiva do rei, Tyrion se tornou seu companheiro de viagem, o levando para lugares obscenos, que ele sempre esperara que Aegon o levasse. Considerava Tyrion um amigo, um homem esperto, leal e correto. Não tão honrado a ponto de ser burro, como Ned Stark fora. Ele era o que precisava naquele momento – Esse é o pequeno conselho.
—Sim, bom... eu acredito que a Mão do Rei é bem vinda nas reuniões do pequeno conselho. – disse Tyrion e Valerion teve suas suspeitas confirmadas.
—Nosso pai é a Mão do Rei. – sibilou Cersei.
—Sim, mas na ausência dele... – Tyrion pegou um pergaminho do bolso e lhe entregou. Valerion conferiu e selo e disse com um sorriso satisfeito.
—É legítimo. – disse quebrando o selo e lendo a carta – Seu pai nomeou Lorde Tyrion Lannister para servir como a Mão em seu lugar enquanto ele luta...
—PARA FORA! – gritou Cersei se levantando – Todos vocês! Para fora! – Valerion pegou suas anotações, fez uma reverência para os dois e saiu, ainda pode escutar Cersei praguejando enquanto se dirigia a porta – Eu gostaria de saber como você fez nosso pai cair nessa.
—Se eu fosse capaz de enganar nosso pai, eu seria o imperador do mundo por agora... – respondeu Tyrion e Valerion fechou a porta enquanto saía.
Os membros do conselho se entreolharam.
—Acho que isso desequilibra um pouco as coisas, não acham? – perguntou Mindinho.
—Sua amizade por Lorde Tyrion me comoveu, Sor Valerion. – disse o eunuco.
—Não sou nenhum Sor, Lorde Varys. Nunca fui consagrado cavaleiro.
—Mas participou de um torneio de justas, não foi? E eu não sou um Lorde, tampouco. – respondeu ele. Valerion concordou e deu de ombros.
—Eu imagino que se Tyrion está aqui, Lorde Tywin deve estar indo para Harrenhal, unir seu exército ao do meu pai. – disse Valerion, se perguntando quem chegaria primeiro lá. Shiera ou Tywin.
—Eu me pergunto a quem seu pai irá escolher ajudar. – disse Mindinho, com astúcia – Escutei que sua irmã está bem convencida de que terá o apoio de Harrenhal.
—Meus passarinhos ouviram o mesmo. – disse Lorde Varys e Valerion engoliu em seco.
—Eu não sei a intenção do senhor meu pai. – disse com o rosto impassível – Mas minha lealdade não é à Harrenhal, ou à minha irmã, ou ao meu irmão. Nem mesmo ao meu pai. Minha lealdade é ao Trono de Ferro. Eu curvei meu joelho ao Rei Joffrey. – disse sem hesitar e teve certeza de que soou convincente – Mas devo lembrar que meu pai não foi socorrer Riverrun quando Lorde Hoster chamou os vassalos.
—Nem foi ajudar Jaime Lannister quando cercaram Riverrun. – disse Pycelle – Lorde Haegon se atrasou mais do que Lorde Frey para escolher um lado.
—Ele provavelmente está sendo cauteloso, afinal Robb tem minha irmã. – disse como se não estivesse preocupado com uma hipotética traição de seu pai. Sabia dos planos dele e das intenções dele. Precisava ganhar a confiança dos Lannister a todo custo, mesmo que isso significasse arriscar a própria vida. O conselho se dispersou, mas ele ficou ali para conversar com Tyrion. Releu suas notas e quando ele finalmente saiu o olhou com divertimento. Os homens dele o esperavam do lado de fora, mas não lhe disseram nada – Lorde Tyrion. Uma palavra, por favor.
—Apenas uma? – perguntou Tyrion com um sorriso.
—Na verdade, várias. – disse Valerion.
—Ande comigo, Valerion. Mas a passos curtos, porque suas pernas são compridas demais. – riu ele e Valerion sorriu.
—O inverno está chegando...
—Pensei que fosse Shiera quem tivesse virado uma Stark. – cortou ele e Valerion sorriu.
—Não é um mantra. O inverno realmente está chegando, a cidadela mandou o corvo branco. – explicou e Tyrion concordou – Com essa guerra, a população de camponeses na cidade deve aumentar e só temos trigo o suficiente para cinco anos de inverno... mas pelo que dizem, o inverno pode durar muito mais. Quanto maior for o verão, maior será o inverno. – explicou – Podemos ficar sem comida. – Tyrion sorriu e parou de andar.
—Pelo que sua irmã me falou, você é um garoto muito esperto. E pelo que eu descobri enquanto partilhávamos da companhia um do outro, você é ainda mais esperto do que ela diz. Você tem alguma ideia do que fazer?
Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Eu pretendia falar diretamente com Lorde Tywin, mas já que você está aqui como Mão do Rei, não vejo motivos para não confiar essa informação a você. – disse Valerion com um sorriso divertido. Ele tirou um mapa de suas anotações e o apoiou na parede – Está vendo esse lago, bem perto de Porto Real?
—Sim. – respondeu Tyrion o olhando com curiosidade – É um grande lago...
—Em Harrenhal desenvolvemos um tipo de agricultura para alimentar todo mundo. Meu pai tem muitos homens e o terreno é alagadiço demais, o que prejudica as plantações. Harrenhal sempre foi um lugar difícil de manter por conta disso. Precisa de muita gente, mas os arredores não costumavam ser propícios para a agricultura. Então nós aprendemos a plantar ali, de maneira que tudo cresce numa velocidade maior do que o normal, sem nunca cansar o solo.
Tyrion o olhou surpreso.
—Está dizendo que podemos plantar interruptamente?
—Até que fique frio demais para plantar. – concordou Valerion.
—E produziremos mais do que o normal?
—Não tanto, pois o lago não é tão grande e a região não é tão alagada. Mas poderemos ter mais locais para plantação e mais comida de qualquer maneira. E tem mais. – Voltou a guardar o mapa e pegou outro pergaminho – Estou fazendo por conta própria um estoque. – disse Valerion – Comercializando sedas e tapeçarias, entre outros produtos caros de Essos e investindo em comida. Comprei um grande depósito na cidade e já comecei um estoque próprio para ajudar a cidade no inverno, mas gostaria de não precisar contar com esse estoque. – explicou ele – Eu aconselharia a investir no nosso comércio marítimo, principalmente com Volantis. Precisamos melhorar nossos estoques de comida.
—Tem razão. – riu Tyrion – Eu o coloco no comando do projeto de agricultura. Lhe darei um papel em seguida. Com minha assinatura e tudo.
—Sim, senhor. – riu Valerion. Tyrion se virou e avançou alguns passos, mas então se virou novamente – Senhor?
—Ande comigo mais um pouco, Valerion. Tem mais coisas que desejo conversar.
—Sim, senhor. – respondeu Valerion.
—Muito me estranha a atitude de seu pai. – disse Tyrion e Valerion ficou alerta, apesar de tentar não transparecer – Deixar você aqui no lugar dele... não responder ao chamado de Jaime ou de Hoster Tully... e agora eu estou curioso para saber a quem ele vai apoiar. A meu pai ou à sua irmã. – Tyrion lhe olhou com curiosidade e Valerion olhou para os homens dele com desconfiança – Teremos tempo para falar sobre isso. – Tyrion deu algumas ordens para os próprios homens e tentou dispensar os soldados Lannisters que a rainha colocara para vigiar Valerion. Quando eles pareceram hesitar, Tyrion adicionou – Lembrem-se que prestaram juramento a Rochedo Casterly e não a Cersei e Joffrey... e nesse momento eu represento meu pai. – adicionou ele perspicaz. Os quatro soldados se entreolharam de novo e então deram as costas, se afastando – Vamos, vamos pegar uns cavalos.
Uma hora mais tarde, Valerion e Tyrion saíam da Fortaleza Vermelha acompanhados por uma dúzia de guardas Lannister usando mantos carmesim e meios-elmos com leões em cima. Quando passaram por baixo da porta levadiça, ele reparou nas cabeças espetadas no topo das muralhas. Negras de podridão e alcatrão, já tinham se tornado irreconhecíveis há muito tempo. Tyrion também reparou, pois fez uma careta de desagrado.
—Capitão Vylarr – Tyrion chamou –, quero aquilo tirado dali de manhã. Entregue-as às irmãs silenciosas para que as limpem.
Supunha que seria um inferno fazê-las corresponder aos corpos, mas isso tinha de ser feito e ficou feliz que Tyrion tivesse aquela decência, ao contrário de Joffrey ou Cersei.
Vylarr mostrou-se hesitante.
—Sua Graça disse-nos que deseja que as cabeças dos traidores permaneçam nas muralhas até encher aqueles três últimos espigões que estão ali, na ponta.
—Deixe-me adivinhar. Um é para Robb Stark, e os outros para os Lordes Stannis e Renly. Estou certo?
—Sim, senhor.
—Meu sobrinho fez hoje treze anos, Vylarr. Tente se lembrar disso. Quero aquelas cabeças tiradas dali de manhã. Caso contrário, um daqueles espigões poderá ter um inquilino diferente. Compreende aonde quero chegar, capitão? – perguntou Tyrion arrancando risadinhas de Valerion.
—Vou me assegurar pessoalmente de que sejam tiradas, senhor.
—Ótimo – Tyrion começou a se afastar e Valerion encostou os calcanhares no cavalo e afastou-se a trote, obrigando os homens de manto vermelho a segui-los o melhor que pudessem.
Tyrion Lannister não pareceu satisfeito com muito do que viu na cidade. As ruas de Porto Real sempre tinham sido lugares apinhados, desagradáveis e ruidosos, mas agora fediam a perigo, de um modo que ele não recordava de visitas anteriores. Um cadáver nu estava estatelado na sarjeta perto da Rua dos Teares, e era devorado por uma matilha de cães ferozes, mas ninguém parecia se importar. A patrulha estava bem evidente, deslocando-se aos pares pelas vielas, com seu manto dourado e camisas de cota de malha negra, as mãos sempre perto dos porretes. Os mercados encontravam-se repletos de homens esfarrapados, que vendiam os bens das suas casas por qualquer preço que conseguissem alcançar… e notoriamente não haviam fazendeiros vendendo alimentos. Os poucos produtos que via eram três vezes mais caros do que tinham sido um ano antes. Um vendedor ambulante anunciava ratazanas assadas no espeto. “Ratazanas frescas”, gritava o homem sonoramente, “ratazanas frescas”. Não restavam dúvidas de que ratazanas frescas eram preferíveis a velhas ratazanas fedidas e podres. O que era assustador era que as ratazanas pareciam mais apetitosas do que a maior parte daquilo que os açougueiros vendiam. Na Rua da Farinha, Valerion viu guardas porta sim porta não. Quando as vacas estão magras, até os padeiros acham mercenários mais baratos do que pão, refletiu.
—Não há comida chegando à cidade, não é? – disse Tyrion a Valerion.
— Muito pouca – admitiu o garoto – Com a guerra nas terras fluviais e Lorde Renly recrutando rebeldes em Jardim de Cima, as estradas estão fechadas para sul e para oeste. Por isso o aconselhei a melhorar nossas atividades marítimas.
—E o que fez minha boa irmã quanto a isso?
—Pycelle disse que era bobagem, pois investir nisso desprenderia muito dinheiro e poderíamos perder nossos investimentos em tempestades ou com piratas. Como Mindinho falou que era caro demais e Varys disse que haviam muitos piratas daqui para Essos, Cersei não me deu ouvidos. Mas eu estou lucrando bastante com o comércio. De três barcos que eu tinha, já estou com oito. Dois deles adquiridos depois de um pirata imbecil achar que poderia lidar com o Dragão da Noite, o meu Dracar.
—Entendo... mas o que minha irmã tem feito, já que não quis investir na marinha?
—Ela está tomando medidas para restaurar a paz do rei. – Disse Valerion. – Lorde Slynt triplicou o tamanho da Patrulha da Cidade, e a rainha pôs mil artesãos para trabalhar nas nossas defesas. Os pedreiros estão reforçando as muralhas, os carpinteiros constroem balistas e catapultas às centenas, fabricantes de flechas as produzem, ferreiros forjam lâminas e a Guilda dos Alquimistas prometeu dez mil frascos de fogovivo.
Tyrion remexeu-se desconfortavelmente na sela, como Valerion imaginou que faria.
—Onde minha irmã achou dinheiro para pagar por tudo isso?
Não era segredo para ninguém que Rei Robert deixara a coroa muito endividada, e os alquimistas não costumavam ser confundidos com altruístas.
—Lorde Mindinho sempre acha uma maneira, senhor. Criou um imposto sobre todos aqueles que desejem entrar na cidade.
—Sim, isso deve funcionar – Tyrion respondeu. Dezenas de milhares tinham fugido da luta em troca da suposta segurança de Porto Real. Eles estavam aos montes na Estrada do Rei, grupos de mães, filhos e pais ansiosos, que olhavam para cavalos e carroças com olhos cobiçosos. Quando chegassem à cidade, não havia dúvida de que pagariam tudo o que possuíam para colocar aquelas muralhas altas e reconfortantes entre eles e a guerra… Embora, talvez, pensassem duas vezes se tivessem conhecimento do fogovivo.
A estalagem que ficava por baixo do letreiro da Bigorna Quebrada erguia-se à vista dessas muralhas, perto do Portão dos Deuses. Quando adentraram o pátio, um rapaz correu a fim de ajudar Tyrion a desmontar do cavalo.
—Leve seus homens de volta para o castelo. – disse ele ao capitão da guarda Lannister. – Passarei a noite aqui.
O capitão parecia em dúvida.
—Ficará a salvo, senhor?
—Bem, quanto a isso, capitão, quando deixei a estalagem, esta manhã, estava cheia de Orelhas Negras. Nunca se está propriamente a salvo quando Chella, filha de Cheyk, se encontra por perto. – Tyrion bamboleou na direção da porta, deixando Vylarr sozinho, tentando compreender aquela resposta.
—Sor? E eu? – perguntou Valerion.
—Ah, você pode vir, ainda temos perguntas sem respostas, não é? – perguntou ele e Valerion suspirou, o seguindo.
Uma rajada de alegria acolheu os dois quando entraram na sala comum da estalagem. Estava tudo muito cheio e ele não reconheceu ninguém, apesar de muitos cumprimentarem Tyrion. Uma moça estava sentada perto da lareira, bebendo vinho, em uma mesa redonda de madeira, com três tipos muito selvagens, e um homem rechonchudo que estava de costas para a porta. Pensou que fosse o estalajadeiro… Até que a moça chamou Tyrion pelo nome, e o intruso se ergueu.
—Meu bom senhor, estou tão contente por ver você – disse efusivamente o homem, com um suave sorriso de eunuco no rosto empoado.
Tyrion tropeçou.
—Lorde Varys. Não esperava encontrar você aqui.
—Eu o aconselho a parar de se surpreender. – riu Valerion cumprimentando Varys com um aceno de cabeça.
—Perdoe-me a intromissão. – disse Varys. – Fui tomado por uma súbita vontade de conhecer sua jovem Lady.
—Jovem Lady... – repetiu a moça bonita, saboreando as palavras. – Está meio certo, senhor. Sou jovem.
Valerion achou que ela deveria ter mais ou menos a sua idade... talvez fosse um pouco mais velha, mas mesmo assim era muito bonita e fácil de se olhar, com grandes olhos escuros, um belo cabelo negro e uma boquinha doce, suave.
—Receio que seja eu o intruso, Lorde Varys. – disse Tyrion com uma cortesia forçada. – Quando entrei, estavam no meio de algo muito divertido.
—O senhor Varys elogiou Chella pelas orelhas e disse que deve ter matado muitos homens para ter um colar tão bonito – a mocinha explicou – E Chella disse que só covardes matam os vencidos.
—É mais valente deixar o homem vivo, com chance de lavar a humilhação se reconquistar a orelha – explicou a tal Chella, uma pequena mulher escura, cujo macabro colar pendia sob o peso de nada menos que quarenta e seis orelhas secas e enrugadas. – Só assim pode provar que não teme os seus inimigos.
A mocinha soltou uma gargalhada.
—E, então, o senhor disse que se fosse um Orelha Negra nunca dormiria, por causa dos sonhos com homens sem uma orelha.
—Um problema que eu nunca precisarei encarar – Tyrion retrucou. – Os meus inimigos me aterrorizam, portanto mato todos.
Varys soltou um risinho e Valerion o olhou achando graça. Nunca imaginaria Tyrion um guerreiro.
—Toma um pouco de vinho conosco, senhores? – perguntou o eunuco.
—Tomo um pouco de vinho. – respondeu Tyrion se sentando ao lado da mocinha. Valerion se sentou ao lado da mulher que o olhou com interesse. Sentiu-se uma donzela sendo olhada por um monte de soldados bêbados.
Valerion sabia o que estava acontecendo ali. Já tinha passado por aquilo mais de uma vez. Varys entregava uma mensagem. Quando disse: Fui tomado por uma súbita vontade de conhecer sua jovem senhora, quis na verdade dizer: Tentou escondê-la, mas eu sabia onde ela estava e quem era, e aqui estou. Perguntou-se quem teria traído Tyrion. O estalajadeiro, o cavalariço, um guarda no portão… Ou algum de seus próprios homens?
—Gosto sempre de voltar à cidade pelo Portão dos Deuses – disse Varys à mocinha, enquanto enchia as taças de vinho. – As esculturas na guarita são magníficas, fazem-me chorar sempre que as vejo. Os olhos… tão expressivos, não acha? Quase parecem nos seguir quando passamos por baixo da porta levadiça.
—Nunca reparei, senhor – a mocinha respondeu. – De manhã volto a olhar, se quiser.
—Cuidado, menina. Porto Real anda muito perigosa nesses dias. – disse Valerion bebendo de seu vinho e a garota o olhou com curiosidade.
—E quem é você?
—Sou Valerion Blackfyre. – respondeu ele bebendo de seu vinho e desviando a atenção dela, deixando claro que ela não o interessava. Não queria ofender Tyrion de modo algum.
—Sor Valerion tem razão. – advertiu Varys. – Conheço bem estas ruas, e, no entanto, quase tive medo de vir hoje até aqui, só e desarmado como estou. Há homens sem lei por todo lado nesses tempos escuros, ah, sim. Homens com aço frio e corações mais frios ainda – onde eu posso ir só e desarmado, outros podem ir com espadas nas mãos, ele estava dizendo.
A menina limitou-se a rir.
—Se tentarem me incomodar, ficarão com uma orelha a menos quando Chella botá-los para correr.
Varys riu como se aquilo fosse a coisa mais divertida que já tivesse ouvido, mas não havia riso nos seus olhos quando os virou para Tyrion.
—Sua jovem senhora tem um jeitinho tão agradável. Se fosse você, tomaria conta dela muito bem.
—É o que pretendo fazer. Qualquer homem que tente machucá-la… Bem, eu sou pequeno demais para ser um Orelha Negra, e não me considero valente... mas...
—Vou deixá-los – Varys se levantou. – Sei como deve estar cansado. Só quis lhe dar as boas vindas, senhor, e dizer como me sinto feliz pela sua chegada. Precisamos demais de você no conselho. Viu o cometa?
—Eu sou baixo, mas não cego. – Tyrion devolveu.
Na estrada do rei, parecia cobrir metade do céu, superando em brilho o crescente da lua.
—Nas ruas é chamado de Mensageiro Vermelho – Varys continuou. – Dizem que chegou como um arauto perante um rei, a fim de prevenir do sangue e fogo que estão para vir – o eunuco esfregou as mãos empoadas. Sangue e fogo... as palavras dos Targaryen...
—Eu discordo. – disse Valerion e todos o olharam – Meu pai disse que viu esse mesmo cometa quando foi para Valíria, há muitos anos atrás. Esse cometa significa que a magia está voltando para o nosso mundo. Significa que é a Era dos Dragões. – aquilo era tudo mentira, mas todos o olharam seduzidos. Todos já tinham ouvido que seu pai tinha ido a Valíria, mas seu pai nunca dissera a ninguém o que encontrara lá. Então podia dizer qualquer coisa e a maioria das pessoas acreditaria ser verdade.
—Interessante... mas o que quer dizer com isso? – perguntou Varys.
Sempre deixe-os confusos para que nunca saibam o que está pensando. Meu pai me disse isso, uma vez...
—Daenerys Targaryen. Ela está com meu irmão, sabe? – perguntou Valerion bebendo seu vinho – Talvez teremos uma dança de dragões negros em breve.
Varys o olhou com os olhos cheios de interesse e então voltou-se para Tyrion.
—Posso deixá-lo com um pequeno enigma, Lorde Tyrion? – não esperou resposta. – Numa sala estão sentados três grandes homens, um rei, um sacerdote e um homem rico com o seu ouro. Entre eles está um mercenário, um homem pequeno, de nascimento comum e sem grande inteligência. Cada um dos grandes pede a ele para matar os outros dois. “Faça isso”, diz o rei, “pois eu sou seu governante por direito”. “Faça isso”, diz o sacerdote, “pois estou ordenando em nome dos deuses”. “Faça isso”, diz o rico, “e todo este ouro será seu”. Agora, diga-me: Quem sobrevive e quem morre?
Com uma profunda reverência, o eunuco apressou-se em sair da sala comum, os pés com chinelos macios.
—Lorde Varys! – gritou Valerion e o homem se virou – Se importa se eu responder?
Ele sorriu e voltou.
—Bem. Sempre me disseram que é um garoto inteligente, por mais que isso aborreça Meistre Pycelle. – riu Varys – Que resposta me dá?
—Por ser do povo, não tem instrução nenhuma e provavelmente nasceu e cresceu ouvindo que deveria obedecer o rei, então, não é tão fácil assim pra ele matar o rei. Também deve acreditar nos deuses e na punição divina de matar um sacerdote. Porém ele é um mercenário, vive de dinheiro, e tem um homem que lhe oferece muito dinheiro. Não é um enigma tão simples. A resposta depende daquilo que o mercenário mais quer. Se quiser poder, deixará o rei viver. Se quiser ouro, deixará o homem rico viver. Se quiser perdão dos deuses, deixará o sacerdote viver. O mercenário, se for uma pessoa simples e de pouco intelecto, não pensaria de forma tão abrangente a ponto de matar os três e ficar com ouro e poder. – analisou Valerion, enquanto bebericava seu vinho, apreciando as expressões de espanto dos que o escutavam – Mas isso nos faz pensar... onde está o poder, de fato? Numa suposta regra que diz que o rei é soberano? No divino impalpável? Ou no dinheiro, propriamente dito? Não seria o mercenário o dono de todo o poder? – questionou Valerion terminando seu vinho e Tyrion o aplaudiu – Afinal é ele quem segura a espada.
—Impressionante. – disse Varys o olhando atentamente – Se fala tão eloquentemente, porque ficar tão calado durante as reuniões do Conselho?
—Porque ninguém espera que eu fale e argumente. Apenas que concorde com o que já foi dito. – disse aquelas palavras, apesar de se referir exclusivamente à rainha. Mas sabia que Varys tinha entendido.
—Que pena. Tanta inteligência sendo desperdiçada. Talvez sua voz passe a ser mais ouvida no Conselho agora que Lorde Tyrion está aqui. – disse Varys, de maneira macia.
—Eu espero que fale tudo o que achar necessário. – disse Tyrion enchendo seu copo com mais vinho e Valerion respirou fundo. Cersei costumava tentar deixá-lo bêbado, para lhe arrancar informações. Tinha criado um mecanismo de defesa de fingir-se de bêbado quando estava com ela. Se perguntou se Tyrion cairia nessa, afinal, ele já o vira completamente bêbado diversas vezes – A nós. Aos filhos inteligentes numa família onde há beleza absoluta e extrema habilidade com espadas.
—À inteligência. – brindou Valerion. Os dois conversaram um pouco antes que Tyrion falasse.
—Venha, quero falar com você, lá em cima. – disse ele e Valerion concordou. Subiu os degraus e sorriu ao ver o amigo suar para alcançá-lo.
—Deseja que eu o pegue no colo, senhor? – perguntou com um sorrisinho.
—Desejo que cale a boca. – ralhou Tyrion, mas logo os dois sorriram. Assim que entraram no quarto de Tyrion, Valerion jogou os curtos cabelos platinados para trás.
—Espero que não esteja com segundas intenções, Sor. – disse em tom de brincadeira e Tyrion o olhou com suspeita – Eu estou prometido a uma mulher, afinal. Sua sobrinha...
—Eu quero a verdade. De que lado seu pai está, por que ele te deixou aqui e por que ele não se juntou a nenhum dos senhores que o chamaram? – perguntou Tyrion, indo direto ao ponto, enquanto se sentava na cama para massagear as pernas curtas.
Praticara aquele diálogo imaginando que seria Lorde Tywin a questioná-lo. Mas deveria servir para Tyrion. Suspirou, como se aquele fosse um assunto muito problemático... apesar que de fato o era.
—Sabes da briga de Aegon e meu pai, não sabes?
—Ouvi rumores. – respondeu Tyrion.
—Achei que Harrenhal iria cair. – murmurou sombrio – Os dois brigaram feio, pois Aegon se fartou do rei Robert. Disse que ele era um velho gordo e bêbado... entre outras verdades que ninguém deveria dizer do rei. – disse dando de ombros – Meu pai não gostou, mas Aegon continuou. Disse que era a hora dos dragões voltarem ao Trono de Ferro... mas não o Dragão escarlate. O negro. Meu pai ficou furioso, como era esperado que ele ficasse e... e os dois perderam o limite durante a briga. – Valerion suspirou de novo – Sabes que Aegon é cabeça quente... impulsivo demais. Quando dei por mim, ele tinha desembainhado a espada e a colocado no pescoço de meu pai. Por um momento achei que veria sangue, mas meu irmão se arrependeu no mesmo momento. Pegou suas coisas e jurou que colocaria os Dragões certos no poder. Pegou as próprias coisas e partiu para Essos... mas meu pai disse que se ele partisse, não precisaria voltar... – Valerion fez uma pausa, como se estivesse tentando lembrar dos detalhes – Primeiro achei que tudo logo voltaria ao normal. Aegon e meu pai sempre brigaram muito. Aegon nunca foi muito esperto e isso sempre frustrou meu pai.
—Seu pai é notoriamente um homem esperto. – disse Tyrion – Ter um herdeiro que não seguiu seu padrão deve tê-lo deixado...
—Meu pai ama Aegon, mas ele temia que meu irmão fizesse Harrenhal ruir. Aegon pegou a herança de nossa mãe e disse que voltaria para coroar o príncipe Viserys... mas Viserys morreu, com a ajuda de meu irmão, diga-se de passagem... então não acho que ele voltará. – disse Valerion se sentando em uma cadeira – Ouvi rumores que ele estava servindo a irmã de Viserys, que se casou com um homem poderoso, que tinha um exército de sessenta mil homens. Os guerreiros mais temidos do continente...
—Isso pode ser preocupante.
—Sim... mas de todo modo, quando meu irmão partiu, meu pai me declarou como herdeiro de Harrenhal. Se Aegon voltar e conseguir derrubar Joffrey, provavelmente entrará para a Guarda Real. Ele não vai clamar por Harrenhal... não depois do que ele fez com meu pai. – fez outra pausa e suspirou – Meu pai queria mostrar sua lealdade ao Trono de Ferro. Me instruiu a cortejar a princesa Myrcella, o que eu não andei fazendo com muito esforço. – confessou sem hesitar – Infelizmente acabei me interessando pela filha de Ned Stark... meu pai me proibiu de continuar cortejando a menina e eu o fiz, voltando minha atenção para a princesa. E meu pai também prometeu Shiera a Robb Stark. Filho da Mão do Rei... o homem mais honrado dos Sete Reinos... – Valerion fez uma careta – Bem... não se pode acertar todas... – Valerion olhou para Tyrion e falou um tanto desconfortável – Ned Stark disse ao meu pai que tinha descoberto um segredo da rainha... sobre os filhos dela... – Tyrion o olhou muito sério – Você sabe do que estou falando. – disse, mas Tyrion fingiu não saber – Sobre os filhos da sua irmã não serem do rei Robert. Meu pai acreditou em Ned e o aconselhou a deixar isso de lado, pelo reino, mas Lorde Stark se recusou. Meu pai disse que não iria ajudá-lo, de qualquer modo e foi falar com a sua irmã. Ele disse que não ajudaria Lorde Eddard, mas caso Robert viesse a descobrir, ele jurou protegê-la e proteger Joffrey, Myrcella e Tommen. E quando Ned Stark foi traído, meu pai foi um dos primeiros a dobrar o joelho para Joffrey. – Valerion fez uma pausa novamente – Meu pai e a rainha tinham feito um acordo. Ele apoiaria Joffrey e não tocaria no assunto sobre a paternidade dos três. Em troca, eu me casaria com Myrcella, quando ela tivesse idade. E, além disso, eu voltaria com meu pai para Harrenhal, pois eu tinha muita coisa para aprender com ele. Mas Cersei não cumpriu sua parte do trato. Ela mandou meu pai de volta e me obrigou a ficar aqui, como refém, eu acho, além de ter me garantido que eu não casaria com Myrcella. Obviamente meu pai não gostou nada disso. – adicionou dando de ombros – E os mimos que ela deu a ele não foram o suficiente para deixá-lo feliz. Eu sou o herdeiro de Harrenhal e estou preso aqui. E minha irmã se casou sem ele. Meu pai provavelmente espera que o seu pai vá se resolver com ele.
—Cersei foi mesmo tola a ponto de trair Lorde Blackfyre? – perguntou Tyrion, franzindo a testa – Bem... precisamos dar um jeito nisso. Está com saudade de casa?
—Com todo o respeito, Sor... eu não ligo. – disse prontamente – Eu gostei daqui. Eu gostei do perigo, da intriga, do jogo... – Suspirou mais uma vez, preparado para o momento máximo de tudo aquilo – E há mais uma coisa sobre meu pai... mais um motivo para que ele não queria sair de Harrenhal, ou ser visto.
—E o que seria? – perguntou Tyrion.
—Ele está doente. Muito doente. – respondeu Valerion – Meu pai acredita que não vai viver para ver o inverno chegar de fato. Logo eu serei o Lorde de Harrenhal... mas isso é um segredo que confiarei apenas a você.
Por enquanto...
**
Os dothrakis chamaram o cometa de shierak qiya, a Estrela que Sangra. Os velhos resmungavam que era um prenúncio do mal, mas Aegon vira-o pela primeira vez na noite em que Daenerys cremara Khal Drogo, fazendo três dragões despertarem. Ele acreditava que o cometa indicava uma nova era... uma era onde os dragões governariam... e não queria dizer apenas os animais. Os deuses enviaram esse cometa para nos indicar o caminho.
Dany achava mais ou menos o mesmo, mas quando expressou o pensamento em palavras, sua aia Doreah tremeu:
—Naquela direção ficam as terras vermelhas, Khaleesi. Um lugar sombrio e terrível, dizem os cavaleiros.
—A direção que o cometa aponta é a que temos de seguir. – Dany insistiu, embora, na verdade, fosse a única aberta para ela.
Ela não se atrevia a virar para o norte, para o vasto oceano de mato que chamavam de mar dothraki. O primeiro khalasar que encontrassem engoliria seu esfarrapado bando, matando os guerreiros e escravizando os outros. As terras dos Homens-Ovelha ao sul do rio estavam igualmente proibidas. Eram poucos demais para se defenderem até desse povo pacífico, e os lhazarenos tinham poucos motivos para gostar deles. Poderia ter descido o rio na direção dos portos de Meereen, Yunkai e Astapor, mas Rakharo a prevenira de que o khalasar de Pono havia partido nessa direção, levando à sua frente milhares de cativos para vender nos mercados de gente que infestavam a costa da Baía dos Escravos.
—Por que devo temer Pono? – Dany quis saber, ingenuamente. – Ele era ko de Drogo, e sempre falou comigo com gentileza.
—Ko Pono falou com você com gentileza. – explicou Aegon – Khal Pono matará você. Ele foi o primeiro a abandonar Drogo. Foram com ele dez mil guerreiros. Você tem cem.
—Tenho os dragões.
—Crias. – corrigiu-a Sor Jorah. – Um golpe de arakh daria cabo deles, embora seja mais provável que Pono os capture para si. Seus ovos de dragão eram mais preciosos do que rubis. Um dragão vivo não tem preço. No mundo inteiro há apenas três. Todos os homens que os virem vão desejá-los, minha rainha.
—Jorah diz a verdade. – riu Aegon – Infelizmente eu sou o único dragão que Vossa Graça tem, que já está apto para lutar. – disse com um sorriso convencido e Daenerys sorriu para ele – Escute Jorah, e garanto que seus dragões crescerão tanto que colocarão mais medo em seus inimigos do que eu.
—São meus filhos, esses três dragões. – ela disse ferozmente – Ninguém vai tirá-los de mim enquanto eu viver.
—Não viverá por muito tempo caso se encontre com Khal Pono. Nem com Khal Jhaqo, ou qualquer um dos outros. Tem de ir para onde eles não forem. – disse Jorah, do seu jeito sério e direto.
Dany nomeara-o o primeiro da sua Guarda Real, mas Aegon era seu general. Pretendia treinar todos os jovens de cabelos não trançados, para começar uma pequena guarda leal. Mas só poderia fazer isso quando tivessem comida e água, caso contrário condenaria a todos.
Aegon olhou para sua rainha. Seu cabelo tinha ardido na pira de Drogo, por isso as aias envolveram-na na pele do hrakkar que Drogo havia matado, o leão branco do mar dothraki. A medonha cabeça do animal formava um capuz para cobrir seu couro cabeludo nu, e a pele era um manto que escorria pelos seus ombros e costas, dando a ela uma aparência régia e intimidadora, o que era muito bom. O dragão de cor creme enfiou suas negras garras afiadas na juba do leão e enrolou a cauda no braço de Dany, enquanto Sor Jorah ocupava a seu lado o lugar de costume. Aegon cavalgava do outro lado, o lado direito, o lado da espada, pois era a espada da Rainha. Mas desejaria estar do lado do coração dela... céus, Aegon, pare com isso... está pensando asneiras iguais às que Valerion falava para as donzelas bobas que cortejava.
—Seguimos o cometa. – Dany falou ao khalasar. Depois da frase pronunciada, não se levantou uma única palavra de discórdia. Eles tinham sido o povo de Drogo, mas agora eram dela.
Chamavam-na de A Não Queimada e de Mãe dos Dragões. Sua palavra era a lei deles. Avançavam durante a noite, e de dia refugiavam-se do sol sob as tendas. Em breve, Aegon viu a verdade das palavras de Doreah. Aquela não era uma região receptiva. Deixaram atrás de si um rastro de cavalos mortos e moribundos, pois Pono, Jhaqo e os outros tinham levado o que havia de melhor nas manadas de Drogo, deixando para Dany os animais velhos e esqueléticos, os doentes e os coxos, os animais inutilizados e os de mau temperamento. Era o mesmo com as pessoas. Não são fortes, Aegon disse a si mesma, portanto, Daenerys deve ser a sua força e eu devo ser sua mão forte.
Três dias depois de iniciarem a marcha, o primeiro homem morreu. Um velho desdentado, com olhos azuis enevoados, caiu exausto da sela e não conseguiu se levantar. Uma hora mais tarde, partiu. Moscas de sangue enxamearam em volta do seu cadáver e transportaram sua má sorte para os vivos.
—Já tinha passado seu tempo. – a aia Irri declarou. – Nenhum homem deve viver mais do que os seus dentes.
Os outros concordaram. Dany ordenou-lhes que matassem o mais fraco dos cavalos moribundos, para que o morto pudesse partir montado para as terras da noite, mas ele achou um desperdício. Mesmo o cavalo mais fraco tinha carne que poderia ser muito bem vinda em alguns dias.
Duas noites mais tarde, foi uma menina pequena quem pereceu. Os lamentos angustiados da mãe duraram o dia inteiro, mas não havia o que fazer. A pobre criança era pequena demais para montar a cavalo. O mato negro sem fim das terras da noite não era para ela; teria de voltar a nascer.
Havia pouco alimento no deserto vermelho e ainda menos água. Era uma terra ressequida e desolada de montes baixos e planícies estéreis varridas pelo vento. Os rios que cruzaram estavam secos como ossos de cadáveres. As montarias subsistiam da dura erva-do-diabo marrom que crescia em moitas na base dos rochedos e de árvores mortas. Dany enviou batedores à frente da coluna, mas não encontraram poços nem nascentes, apenas charcos amargos, rasos e parados, minguando ao sol quente. Quanto mais profundamente penetravam no deserto, menores se tornavam os charcos, enquanto a distância entre eles crescia. Se havia deuses nessa vastidão sem trilhas feita de pedra, areia e barro vermelho, eram duros e secos, surdos às preces que pediam chuva.
O vinho foi o primeiro a acabar, e pouco depois terminava o leite coalhado de égua que os senhores dos cavalos apreciavam mais do que hidromel. Então esgotaram-se também as reservas de pão frito e carne-seca. Os caçadores não encontravam caça, e só a carne dos cavalos mortos enchia suas barrigas. As mortes sucediam-se. Crianças fracas, velhas encarquilhadas, doentes, estúpidos e imprudentes, a terra cruel reclamava-os todos. Doreah tornou-se magra e de olhos encovados, e seu delicado cabelo dourado ficou quebradiço como palha.
Aegon passava fome e sede como os outros. Sentia os braços ficarem mais fracos e finos, suas mãos mais ossudas e até seu rosto forte ficou magro, mas era pelos dragões que temia.
Os dragões não eram maiores do que os gatos magros… Até abrirem as asas. A envergadura era três vezes maior que o comprimento do corpo, e cada asa era um delicado leque de pele translúcida, maravilhosamente colorida, bem retesada entre longos ossos finos. Quando se olhava com atenção, via-se que a maior parte do corpo dos animais era pescoço, cauda e asas. Coisas tão pequenas, ele pensou, enquanto Dany os alimentava na mão. Ou melhor, tentava alimentá-los, pois os dragões não queriam comer. Silvavam e cuspiam todos os pedaços de carne de cavalo, exalando vapor pelas narinas, mas não aceitavam a comida…
—Talvez se cozinharmos isso. – disse Aegon franzindo a testa. Daenerys o olhou curiosa – Quando eu era pequeno e sonhava em ter um dragão, meu irmão me disse que dragões não comiam nada cru.
Quando Dany mandou as aias torrarem a carne de cavalo até deixá-la preta, os dragões devoraram-na avidamente, projetando as cabeças como serpentes. Desde que a carne estivesse crestada, engoliam várias vezes seu próprio peso todos os dias, e por fim começaram a crescer e a se fortalecer. Aegon maravilhava-se com a maciez das suas escamas, e com o calor que emanavam, tão palpável que, em noites frias, os corpos inteiros pareciam gerar vapor.
Sempre que caía a noite, quando o khalasar se punha em movimento, Dany escolhia um dragão para seguir empoleirado no seu ombro. Aegon pedira para levar um deles também e o terceiro costumava ficar em uma gaiola, chiando revoltado por não poder ficar solto. Mas se o que ficasse preso não visse Daenerys, ele entrava em desespero, agitando-se a ponto de se machucar, então os três sempre acabavam perto um do outro.
Era a única maneira de mantê-los tranquilos.
—Os dragões de Aegon I foram batizados em homenagem aos deuses da antiga Valíria. – Aegon contou a Daenerys e a quem mais quisesse escutar, depois de uma longa noite de viagem – O dragão de Visenya era Vhagar, Rhaenys tinha Meraxes e Aegon montava Balerion, o Terror Negro. Dizia-se que o sopro de Vhagar era tão quente, que era capaz de derreter a armadura de um cavaleiro e cozinhar o homem lá dentro; que Meraxes engolia cavalos inteiros; e quanto a Balerion… Seu fogo era negro como suas escamas, as asas tão vastas que vilas inteiras eram engolidas pela sua sombra quando passava por cima delas.
Os dothrakis olhavam incomodados para as crias. O maior dos três era de um negro luzidio, com as escamas rasgadas por faixas de um escarlate vivo que combinava com as asas e os chifres.
—Khaleesi — Aggo murmurou –, ali está Balerion revivido.
—Pode ser como diz, sangue do meu sangue. – Dany respondeu gravemente – Mas terá um novo nome para esta nova vida. Quero batizá-los evocando aqueles que os deuses levaram. O verde será Rhaegal, em homenagem ao meu valente irmão, que morreu nas margens verdes do Tridente. Ao creme e dourado chamo Viserion. Viserys era cruel, fraco e assustado, mas, ainda assim, era meu irmão. Seu dragão fará o que ele não pôde fazer. – logo o meu favorito, pensou torcendo o nariz.
—E o animal negro? – Sor Jorah Mormont quis saber.
—O negro é Drogon.
Mas, enquanto os dragões prosperavam, o khalasar definhava e morria. Em volta deles, a terra se tornava ainda mais desolada. Até a erva-do-diabo escasseava; os cavalos caíam mortos no caminho, sobrando tão poucos, que alguns dos seus tinham de se arrastar a pé. Doreah pegou uma febre e foi piorando a cada légua que venciam. Em seus lábios e mãos estouraram pústulas de sangue, seu cabelo caiu em chumaços e num entardecer faltaram-lhe forças para montar o cavalo.
Jhogo disse que tinham de abandoná-la, ou atá-la à sela, mas Dany não concordou.
Aegon então andou até a menina e cortou a própria mão, lhe oferecendo sangue.
—Meu pai me contou que sangue muitas vezes é mais nutritivo do que a maioria das coisas. – disse Aegon a deixando beber do seu – Mas ela vai precisar de água e ervas... – ele pegou sua bolsa de ervas e fez um chá que Shiera lhe ensinara a fazer quando a mãe deles adoeceu. Sua querida irmãzinha pesquisara tantos remédios em seus livros, desejando ardentemente salvar a vida da senhora sua mãe, que Aegon achou que ela poderia receber uma corrente de Meistre por isso. No dia seguinte, apesar de fraca, Doreah melhorou e foi capaz de seguir viagem.
Não viram sinal de outros viajantes. Os dothrakis começavam a murmurar, temerosos, que o cometa os levava para algum inferno. Uma manhã, Dany foi falar com Sor Jorah Mormont e Aegon, enquanto montavam acampamento no meio de um amontoado de rochas pretas polidas pelo vento:
—Estamos perdidos? Será que este deserto não tem fim? – perguntou ela, em voz baixa, temerosa.
—Tem um fim. – respondeu Jorah com a voz cansada.
—Eu conheço muitos mapas de Essos, senhora. – concordou Aegon – Devemos chegar a Qarth em algum momento.
—Sobreviveremos o suficiente para chegar lá?
—Não vou mentir. O caminho é mais duro do que me atrevi a imaginar. – disse Aegon – Em um navio tudo é mais rápido.
Aegon estava exausto, mas Mormont estava pior. O rosto do cavaleiro estava cinzento e exausto. A ferida que tinha sofrido no quadril, na noite em que lutara com os companheiros de sangue de Khal Drogo, nunca chegou a sarar por completo. Aegon via as caretas que Mormont fazia quando montava, e parecia andar encurvado na sela enquanto avançavam.
—Talvez estejamos condenados se prosseguirmos… Mas sei, com toda certeza, que estaremos condenados se voltarmos. – disse Jorah.
Dany deu um leve beijo no rosto de Mormont e outro em Aegon, que sentiu-se um menino virgem ao receber um gracejo de uma puta.
O charco seguinte que encontraram estava fervendo e fedia a enxofre, mas seus odres já estavam quase vazios. Os dothrakis arrefeceram a água em vasilhas e cântaros e beberam-na tépida. O sabor não ficou melhor, mas água era água, e todos tinham sede. Aegon olhou o horizonte com desespero. O número do grupo tinha se reduzido a um terço, e o deserto ainda se estendia à sua frente, ermo, vermelho, e sem fim.
No dia seguinte, a alvorada surgiu quando atravessavam uma planície de dura terra vermelha, cheia de rachaduras e fissuras. Aegon desejava descer do cavalo e descansar, quando os batedores voltaram a galope.
—Uma cidade, Khaleesi! — gritaram – Uma cidade pálida como a lua e adorável como uma donzela. A uma hora de cavalgada, não mais.
—Mostrem-me – pediu Dany e Aegon não cogitou não cavalgar com ela.
Quando a cidade surgiu à sua frente, com as muralhas e torres tremeluzindo, brancas, por trás de um véu de calor, parecia tão bela que Aegon estava certo de se tratar de uma miragem.
—Sabe que lugar pode ser este? – perguntou a Sor Jorah.
O cavaleiro exilado sacudiu fatigadamente a cabeça.
—Não. Nunca viajei até tão longe para leste. Você quem conhece o continente.
—De navio. Conheço a costa de Essos. Já fui até Asshai uma vez. Agora por terra? – negou com a cabeça – Eu nunca ouvi falar nessa cidade.
As distantes muralhas brancas prometiam descanso e segurança, uma chance de cura e fortalecimento, e não havia nada que Aegon desejasse mais do que correr para elas. Mas, Dany virou-se para os seus companheiros de sangue:
—Sangue do meu sangue, vão à nossa frente e investiguem o nome desta cidade e que tipo de recepção devemos esperar.
—Sim, Khaleesi — Aggo respondeu.
Os companheiros não levaram muito tempo para voltar. Rakharo saltou do cavalo. Do seu cinto de medalhões pendia o grande arakh curvo, que Dany lhe tinha oferecido quando o nomeou companheiro de sangue.
—Esta cidade está morta, Khaleesi. Encontramo-la sem nome e sem deus, com os portões quebrados, e não mais do que vento e moscas se movendo pelas ruas.
Jhiqui estremeceu.
—Quando os deuses vão embora, os espíritos do mal banqueteiam-se à noite. É melhor evitar esses lugares. É sabido.
—É sabido – Irri concordou.
—Não por mim – Dany esporeou o cavalo e indicou-lhes o caminho, trotando sob o arco estilhaçado de um antigo portão e avançando ao longo de uma rua silenciosa. Aegon agradeceu mentalmente e a seguiu prontamente, seguido por Sor Jorah e os companheiros de sangue da Khaleesi, e depois, mais lentamente, o resto dos dothrakis.
Não podia saber há quanto tempo a cidade estava deserta, mas as muralhas brancas, tão belas quando vistas de longe, estavam rachadas e arruinadas quando vistas de perto. Lá dentro havia um labirinto de ruelas retorcidas. Os edifícios apertavam-se uns contra os outros, com fachadas caiadas nuas, sem janelas. Tudo era branco, como se o povo que aí vivera não conhecesse cores.
Passaram por pilhas de entulho lavados pelo sol onde casas tinham ruído e em outros pontos viram as desbotadas cicatrizes do fogo. Num lugar onde seis vielas se juntavam, Aegon passou por um pedestal vazio de mármore. Ao que parecia, os dothrakis já tinham visitado aquele local. Talvez a estátua que ali faltava estivesse entre os outros deuses roubados em Vaes Dothrak. Podia ter passado por ela cem vezes, sem saber.
Acamparam em frente aos restos de um palácio devastado, numa praça varrida pelo vento, onde a erva-do-diabo crescia entre as pedras do pavimento. Dany enviou homens para explorar as ruínas. Alguns foram com relutância, mas foram… Um velho cheio de cicatrizes voltou pouco tempo depois, saltando e sorrindo, com as mãos repletas de figos. Eram umas coisinhas pequenas e mirradas, mas o povo de Dany atirou-se avidamente sobre eles, puxando-se e empurrando-se, enfiando a fruta na boca e mastigando em êxtase.
Outros exploradores regressaram com histórias sobre outras árvores frutíferas, escondidas atrás de portas fechadas em jardins secretos. Aggo encontrou um pátio repleto de videiras retorcidas e minúsculas uvas verdes, e Jhogo descobriu um poço onde a água era pura e gelada. Mas também encontraram ossos, os crânios dos mortos por enterrar, embranquecidos e quebrados.
—Fantasmas – murmurou Irri. – Terríveis fantasmas. Não podemos ficar aqui, Khaleesi, este lugar é deles.
—Não temo fantasmas. Os dragões são mais poderosos do que fantasmas. – disse Dany. E os figos são mais importantes, pensou Aegon. — Vá com Jhiqui e encontre para mim um pouco de areia limpa para um banho, e não me incomode mais com conversas bestas.
Aegon e Jorah preferiram explorar a cidade a atrapalhar o banho de Dany. Os irmãos de sangue dela estavam lá para fazer sua guarda. Andaram por entre as alvas paredes rachadas, em silêncio, pois nem mesmo os três dragões foram capazes de recuperar a amizade que tinham começado a forjar antes da morte de Drogo.
Mas havia algo a mais ali. Um pequeno sentimento de rivalidade surgia entre eles, pois ambos desejavam Daenerys. Se perguntava qual deles a amava mais e isso o assustava, vez ou outra. Sabia que estava apaixonado. Nunca fora um poço de inteligência, mas não era estúpido. Sabia dos próprios sentimentos... mas não sabia dizer o quão enraizado aquele sentimento estava em si.
Entrou em uma casa, se separando do ândalo. Se sentou numa cadeira de pedra, olhando o lugar. Havia alguns esqueletos ali. Um deles de uma criança que não deveria ter mais que três anos. Engoliu em seco se perguntando se ela tinha morrido assassinada ou por alguma praga. E se fosse, se perguntava se havia alguma chance de sofrerem com isso também.
Andou pela casa, indo para o jardim que havia lá atrás. Encontrou uma árvore branca com folhas vermelhas e abriu a boca, chocado por ver um represeiro, ali, tão longe. Os deuses de Shiera. Andou até ele e se ajoelhou. Tirou sua espada e a colocou no chão. Depois fechou os olhos e fez uma prece. Nunca tinha sido religioso, mas ver Daenerys sair de dentro do fogo, trazendo três dragões consigo, o fizera rever alguns conceitos.
Nunca tinha rezado para o Represeiro. Achava idiota rezar para uma árvore, mas a saudade da irmã era grande demais. Não só dela, mas do pai e de Valerion também, além de seus amigos. Seus escudeiros estavam com seus navios, em Pentos, recebendo ordens de seu homem de confiança: Orys, o Negro. Seu imediato e quem estava tomando conta de seus homens e navios. Prometeu encontrar-se com ele em Pentos ou Volantis, mas não dava notícias já havia meses. Se perguntava se o homem ainda esperava vê-lo de novo, ou se tinha tomado seus dez navios para si. Três dracares, o restante eram navios de comércio e passeio.
Respirou fundo e olhou para os olhos do rosto do represeiro. A seiva estava quase rosa, por conta da poeira e do tempo.
—Aos velhos Deuses de Westeros... se me escutam... olhem pela minha família, pela minha casa... e se for possível, olhem por mim. – murmurou sem saber muito bem o que falar – Saibam que eu, Aegon Blackfyre, jurei lealdade a minha rainha Daenerys e somente por ela brandirei minha espada. – engoliu em seco – E se um dia ela amar outro homem que não eu... se um dia ela... ela conquistar seu Trono de Ferro e escolher outro homem para seu rei, me permitam ser um membro de sua Guarda Real. Juro que vestirei o branco antes de me casar com outra mulher, mesmo que isso signifique abrir mão de Harrenhal. – soltou um suspiro, olhando para o chão – Valerion nasceu pra ser um lorde... um lorde de um castelo como aquele... eu... eu sou apenas a minha espada.
Soltou um suspiro e se levantou. Não sabia se deveria falar mais alguma coisa, mas decidiu que já tinha sido o suficiente. Caminhou pelo jardim e encontrou algumas árvores com frutos. Um deles em tons de amarelo a marrom, enquanto o outro era verde, numa vagem. Pegou os frutos amarelos, que tinham o cheiro bom. Se perguntou se seriam venenosos, tinham o tamanho de um limão e quando ele o cortou ao meio, notou que era suculento e que tinha um suco espesso, que lembrava mel em consistência. Estava morrendo de fome, então o mordeu. Quase gemeu de alívio, apreciando o sabor doce e delicioso, comendo o fruto inteiro. Pegou algumas folhas verdes para guardar as sementes dentro, fazendo uma trouxinha com elas, e resolveu comer mais alguns frutos. Guardou três deles para dá-los a Daenerys e voltou a explorar. Encontrou ainda alguns pêssegos e azeitonas, que ele voltou a guardar alguns para sua rainha, enquanto devorava outros.
Depois voltou para onde Dany estava e entrou. Jorah estava com ela e ela comia um pêssego, parecendo apreciá-lo aos poucos.
—Vossa Graça. Encontrei algumas frutas. Essa é doce como mel e parece mesmo ser recheada com isso. – disse mostrando a fruta marrom alaranjada e Daenerys a olhou curiosa.
—Kumbaru. – explicou Jorah – Onde encontrou isso? – perguntou ele – É uma fruta muito nutritiva e seria bom fazer chá com suas folhas para os doentes, principalmente Doreah.
—Poderíamos passar alguns dias aqui, Vossa Graça, para nos fortalecermos. Eu encontrei azeitonas também. E aqui há uma boa fonte de água. – explicou ele e Jorah concordou.
—Fruta, água e sombra – Dany disse, com o rosto melado de sumo de pêssego. – Os deuses foram bons por nos trazer para este lugar.
—Concordo com Aegon, Khaleesi. Devemos descansar aqui até ficarmos mais fortes. – disse Jorah – As terras vermelhas não são gentis para com os fracos.
—Minhas aias dizem que aqui há fantasmas. – murmurou Dany, com preocupação.
—Há fantasmas por todo o lado. – Sor Jorah respondeu em voz baixa. – Iremos levá-los conosco para onde quer que formos.
Sim, Aegon pensou. Viserys, o rei que eu ajudei a matar, Drogo, o guerreiro que eu não pude salvar... e meu rei, que morreu antes mesmo de nascer... Rhaego.
—Diga-me o nome do seu fantasma, Jorah. Conhece todos os meus. – pediu Daenerys e Aegon se sentou num tapete para comer mais um de seus kumbarus.
O rosto de Jorah ficou muito quieto.
—O nome dela era Lynesse.
—Sua esposa? – perguntou Dany.
—Minha segunda esposa.
Dói-lhe falar dela, Aegon percebeu. Não fazia questão de saber da vida de Jorah. O passado de um homem é problema dele.
—Isso é tudo o que quer dizer dela? – perguntou Daenerys. A pele de leão deslizou por um ombro e ela a puxou de volta para seu lugar. Aegon notou então que ela não usava nada além da pele de leão e sua mente começou a divagar para aventuras insanas. Desejou despi-la daquela pele e prová-la com seus lábios. Ela certamente era mais doce do que a fruta que tinha na boca – Era bonita?
—Muito bonita – Sor Jorah ergueu os olhos do ombro da Khaleesi para o rosto. – Da primeira vez que a contemplei, pensei que fosse uma deusa descida à terra, a própria Donzela transformada em carne. Seu nascimento era muito acima do meu. Era a filha mais nova de Lorde Leyton Hightower, de Vilavelha. O Touro Branco, que comandava a Guarda Real do senhor seu pai, era tio-avô dela. Os Hightower são uma família antiga, muito rica e muito orgulhosa.
—E leal – Dany completou. – Eu me lembro. Viserys dizia que os Hightower estiveram entre aqueles que permaneceram fiéis ao meu pai.
—É verdade. – o cavaleiro admitiu.
—Meu pai falava muito bem deles também. Meu irmão era bem amigo do filho de Lorde Hightower, diga-se de passagem. – murmurou Aegon. Ele olhou para Jorah e perguntou – Foram seus pais que arranjaram o casamento?
—Não. Nosso casamento… Essa é uma história longa e aborrecida, Vossa Graça. Não quero incomodá-la com isso.
—Não tenho de ir a nenhum lugar. Por favor – Dany insistiu.
—Às ordens da minha rainha – Sor Jorah franziu a sobrancelha. – Meu lar… precisa compreender isso para entender o resto. A Ilha dos Ursos é bela, mas remota. Imagine velhos carvalhos retorcidos e pinheiros altos, espinheiros em flor, pedras cinzentas recobertas de musgo, pequenos riachos correndo, gelados, por vertentes íngremes. O salão dos Mormont é feito de enormes toras, rodeado por uma paliçada de terra. Fora alguns arrendatários, minha gente vive ao longo da costa e pesca no mar. A ilha fica muito ao norte, e nossos invernos são mais terríveis do que você possa imaginar, Khaleesi. Apesar disso, a ilha servia-me bem, e nunca me faltaram mulheres. Tive a minha cota de mulheres de pescadores e de filhas de arrendatários, antes e depois de casado. Casei-me novo, com uma noiva escolhida por meu pai, uma Glover de Bosque Profundo. Ficamos casados durante dez anos, ou tão perto disso que não faz diferença. Ela era uma mulher de rosto comum, mas não desagradável. Creio que acabei amando-a depois de um tempo, embora nossas relações fossem mais respeitosas do que apaixonadas. Abortou três vezes ao tentar me dar um herdeiro. Da última vez não chegou a se recuperar. Morreu não muito tempo depois.
Dany pousou sua mão na dele e a apertou.
—Lamento por você, de verdade.
Sor Jorah fez um aceno com a cabeça.
—A essa altura, meu pai tinha vestido o negro, então eu era o legítimo Senhor da Ilha dos Ursos. Não me faltaram ofertas de casamento, mas, antes de chegar a me decidir, Lorde Balon Greyjoy rebelou-se contra o Usurpador, e Ned Stark convocou seus vassalos para ajudar o amigo Robert.
—Foi nessa batalha que me consagrei cavaleiro. – murmurou Aegon – Uma grande batalha, aquela.
—Sim... – murmurou Jorah, parecendo tentar se lembrar dos detalhes – A batalha final ocorreu em Pyke. Quando as catapultas de Robert abriram uma brecha na muralha do Rei Balon, um sacerdote de Myr foi o primeiro homem a entrar, mas eu não estava muito atrás. E por isso fui armado cavaleiro. Para celebrar sua vitória, Robert ordenou que se realizasse um torneio fora das muralhas de Lanisporto. Foi aí que vi Lynesse, uma donzela com metade da minha idade. Ela tinha vindo de Vilavelha com o pai, a fim de ver as justas dos irmãos. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Num ataque de loucura, supliquei seu distintivo para usar no torneio, sem sonhar que atenderia ao meu pedido, mas ela atendeu. Luto tão bem como qualquer outro, Khaleesi, mas nunca fui um cavaleiro de torneios. No entanto, com o distintivo de Lynesse atado em volta do braço, fui um homem diferente. Ganhei justa atrás de justa. Lorde Jason Mallister caiu perante mim, assim como Bronze Yohn Royce. Sor Ryman Frey, o irmão, Sor Hosteen, Lorde Whent, o Javali Forte, até Sor Boros Blount, da Guarda Real. Derrubei todos do cavalo. No último desafio, quebrei nove lanças contra Jaime Lannister sem resultado, e o Rei Robert deu-me os louros de vencedor. Coroei Lynesse Rainha do Amor e da Beleza, e nessa mesma noite fui falar com seu pai e pedi a sua mão. Estava bêbado, tanto de glória como de vinho. Pelo direito, devia ter obtido uma recusa desdenhosa, mas Lorde Leyton aceitou minha proposta. Casamo-nos lá, em Lanisporto, e durante uma quinzena fui o homem mais feliz do mundo inteiro.
—Só uma quinzena? – Dany perguntou.
—Uma quinzena foi o tempo que levamos para velejar de Lanisporto à Ilha dos Ursos. Meu lar foi uma grande decepção para Lynesse. Era frio demais, úmido demais, longe demais, com um castelo que nada mais era do que um salão de madeira. Não tínhamos bailes de máscaras, nem de pantominas, nem bailes, nem feiras. Estações inteiras podiam passar sem que um cantor viesse tocar para nós, e não há na ilha um ourives. Até as refeições foram julgadas. Meu cozinheiro pouco sabia além dos seus assados e guisados, e Lynesse perdeu rapidamente o gosto por peixe e carne de veado. Eu vivia para os seus sorrisos, por isso mandei buscar um novo cozinheiro em Vilavelha, e trouxe um harpista de Lanisporto. Ourives, joalheiros, modistas, tudo o que ela queria eu encontrei, mas nunca era suficiente. A Ilha dos Ursos é rica em ursos e árvores, mas pobre em tudo o mais. Construí um belo navio para ela, e viajamos a Lanisporto e Vilavelha para festivais e feiras, e uma vez até fomos a Braavos, onde recebi um grande empréstimo dos agiotas. Tinha sido como campeão de torneio que conquistara sua mão e seu coração, então, por ela participei de outros torneios, mas a magia tinha desaparecido. – Jorah o olhou e Aegon desviou o olhar. Lembrava de ter derrubado Jorah do cavalo em pelo menos dois torneios, mas nunca imaginara o custo que ele tivera ao lhe pagar os resgates por suas próprias coisas – Não voltei a me destacar, e cada derrota significava a perda de mais um cavalo e de outra armadura para justas, que tinham de ser resgatados ou substituídos. Não podia arcar com os custos. Por fim, insisti que voltássemos para casa, mas aí as coisas ficaram ainda piores do que antes. Já não podia pagar ao cozinheiro e ao harpista, e Lynesse ficou furiosa quando falei em empenhar suas joias. O resto… Fiz coisas que me envergonho de contar. Por ouro. Para que Lynesse pudesse conservar suas joias, seu harpista e seu cozinheiro. No fim, custou-me tudo. Quando ouvi dizer que Eddard Stark se dirigia à Ilha dos Ursos, estava tão desprovido de honra que, em vez de ficar e enfrentar seu julgamento, trouxe-a comigo para o exílio. Nada importava a não ser o nosso amor, disse eu a mim mesmo. Fugimos para Lys, onde vendi o navio em troca de ouro para nos manter.
A voz do cavaleiro estava pesada de desgosto, e Aegon se perguntou se Dany iria pressioná-lo a continuar.
—Ela morreu lá? – perguntou a Khaleesi, gentilmente.
—Só para mim. – ele respondeu. – Em meio ano, meu ouro tinha acabado e fui obrigado a prestar serviços como mercenário. Enquanto lutava com bravosianos em Roine, Lynesse mudou-se para a mansão de um príncipe mercador chamado Tregar Ormollen. Dizem que agora é a sua concubina principal, e até a esposa dele a teme.
Dany parecia horrorizada, mas Aegon não. Jorah não fora o primeiro a passar tragédias por amor e não seria o último.
—Você a odeia? – perguntou Dany.
—Quase tanto quanto a amo. Peço que me desculpe, minha rainha. Parece-me que estou muito cansado.
Dany lhe deu licença para ir, mas quando ele levantou a aba da tenda, não conseguiu evitar chamá-lo para uma última pergunta.
—Como era a aparência da sua Senhora Lynesse?
Sor Jorah deu um sorriso triste.
—Ora, parecia um pouco a senhora, Daenerys – ele fez uma profunda reverência. – Durma bem, minha rainha.
Dany estremeceu e apertou bem a pele de leão à sua volta. Aegon notou compreensão no rosto dela e então se deu conta que ela nunca havia percebido os sentimentos de Jorah. Provavelmente não teria percebido os seus também.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!—Deseja ficar sozinha, senhora? – perguntou colocando as frutas que colhera em uma cesta. Dany suspirou e o olhou.
—Não. Me diga, Sor Aegon. – pediu ela e ele sentiu o estômago saltar – Existiu alguma mulher que amou? Tem fantasmas assim, como Sor Jorah?
Voltou a se sentar, ao lado dela e suspirou.
—Não como o dele... mas certamente tenho meus fantasmas também. – murmurou cabisbaixo.
—Se importaria de contar?
Aegon suspirou e negou com a cabeça.
—Eu nasci em Volantis. – murmurou cabisbaixo – Só quando meu pai ajudou Robert a ganhar a guerra que pudemos nos mudar para Harrenhal. Como filho mais velho, eu seria o herdeiro. – suspirou se lembrando da infância feliz que tivera – Eu sempre fui um guerreiro e meu pai quem me ensinou a lutar. Eu sempre me destaquei mais do que qualquer um com uma espada ou uma lança, em um cavalo. Filho de um lorde muito rico, com um castelo importante... sem falar que sou um homem bonito. – disse dando de ombros sem se importar em fingir modéstia – Mulheres nunca me faltaram e eu acabei me apaixonando por uma ou duas... nenhuma delas de alto nascimento, então eu não deixei o sentimento crescer. – Aquilo era uma grande mentira. Pensar sobre uma certa mulher ainda lhe causava tristeza. Há muito se apaixonara por alguém, mas o pai dela não o aceitara. Então fingira que nada tinha acontecido. – O matava antes que ficasse complicado... eu simplesmente ia embora. Decidia não voltar para tal mocinha... eu devo ter partido muitos corações por ai. – disse dando de ombros, se perguntando se o coração dela também tinha ficado partido... Quase dez anos tinham se passado desde que deixara Dorne e seu coração para trás – Muitas donzelas me ofereceram seus favores nos torneios que participei, mas eu sempre lutei pela minha irmã Shiera. Ela é muito bonita, a Shiera... parece muito com a minha mãe... elas duas foram as duas únicas mulheres que eu amei na vida. – ele suspirou profundamente – Minha mãe morreu já faz alguns anos... eu era muito apegado a ela. Quando ela morreu eu... perdi a fé em tudo. – Aegon tirou as luvas e começou a estalar os dedos – A fé nos deuses, na magia, nas pessoas... Antes eu era sonhador como meu irmão Valerion. Eu sonhava em ter dragões... – ele afagou a cabeça de Viseryon, que fechou os olhos, apreciando o carinho – Meu pai tem ovos de dragões que ele diz ter recuperado na própria Valíria... eu brincava com eles, sonhava que um dia eles iriam chocar e eu dominaria o mundo, me tornaria o rei, como Aegon fizera antes de mim... – ele suspirou pesaroso – Mas com a morte de minha mãe, eu parei de acreditar nisso tudo. Eu nunca mais perdi tempo dormindo com os ovos, ou pesquisando informações sobre como chocá-los... e como me tornei um homem sem fé em nada... acho que me tornei alguém de quem meu pai não se orgulhava... então ele me deu uma missão. – Aegon suspirou e a olhou – Ele me disse que teve uma visão. Ele e minha irmã juram que podem sonhar com o futuro. Eu acreditei, certa vez... depois não... agora já não sei. Mas meu pai me disse que um dragão vermelho iria chocar três ovos de Dragão. Então ele me mandou vir aqui fazer uma aliança secreta com Viserys e pedir sua mão em casamento, para fortalecer a aliança... mas eu fui pego por piratas e então por tempestades e me atrasei mais do que poderia imaginar. – Aegon suspirou – Quando cheguei aqui, você estava prometida a Khal Drogo. – Aegon olhou para a saída da tenda – Eu pensei em te sequestrar, ou em tentar convencer Viserys a trair Drogo... mas eu achei que isso poderia ser ruim... Drogo poderia prejudicar os negócios do meu avô em Volantis... eu poderia colocar os grandes homens de Volantis contra a minha família... então me disfarcei de Corsário e segui Viserys e você... o resto da história você já sabe... – murmurou cabisbaixo – A última notícia que tive da minha família era que Valerion estava sendo feito de refém em Porto Real. Meu pai está doente em Harrenhal e minha irmã prometida e feita de refém pelos inimigos do Trono de Ferro, os Starks. Não sei porque motivo os Starks são inimigos do Trono de Ferro, mas...
—Os Starks ajudaram a depor meu pai... eles são culpados por...
—Os crimes deles são meus e da minha família também. – retrucou Aegon
—Mas você veio até mim e meu irmão. – retrucou Daenerys – Você veio nos apoiar antes que qualquer outro grande lorde viesse.
—Você sabe o motivo dos Stark terem se unido a Robert para depor seu pai? – perguntou Aegon, franzindo o cenho. Dany o olhou parecendo achar sua pergunta estranha.
—Meu irmão Rhaegar se apaixonou por Lyanna Stark e fugiu com ela para o sul. Ela era prometida de Robert e ele quis destruir todo o império por conta disso. – respondeu ela e Aegon sorriu achando graça.
—É uma linda versão dos fatos. Viserys quem te disse isso, não foi? – perguntou a olhando de lado e ela concordou parecendo sem jeito – Veja bem... não foi apenas isso que aconteceu. Seu pai era louco, Vossa Graça. – disse Aegon e Dany o olhou de cara feia – Não estou mentindo... quando eu era apenas um menino, meu pai me levou a Porto Real, para pedir um pedaço de terra e permissão para morar em Westeros. Qualquer lugar que fosse. – explicou ele e Dany desviou o olhar – Mas no lugar de nos conceder isso, seu pai exigiu que meu pai cortasse minha cabeça e entregasse nossa espada, ensanguentada com meu sangue, para ele, como presente de boa fé. Eu era apenas um garoto... quando meu pai se recusou e disse que voltaria para Volantis... seu pai mandou que os guardas nos matassem... só escapamos por muito pouco. – soltou um suspiro e prosseguiu – Quando seu irmão levou Lyanna Stark para o Sul, por quaisquer motivos que fossem, ela era prometida a outro homem... e ele não teve a permissão do pai dela. E quando o pai dela, junto do irmão dela, foram exigir justiça... seu pai tacou fogo em um deles, deixando o outro se enforcar no processo. Depois exigiu ao lorde que criava o filho caçula de Lorde Stark, que o entregasse à coroa, para ser executado... por se chamar Stark. – Aegon a olhou soltando outro suspiro – E mesmo assim, mesmo encontrando a irmã estuprada e praticamente morta. Mesmo depois de perder o pai e o irmão... mesmo assim Eddard Stark achou abominável o que Tywin Lannister ofereceu a Robert no fim da guerra... os corpos ensanguentados dos filhos de Rhaegar. O menino com o crânio quebrado. A menina morta estrangulada... e Elia, a princesa, estuprada e morta. Lorde Stark ficou tão furioso por Robert não ter punido Lorde Tywin Lannister por isso que os dois ficaram sem conversar por anos. – Aegon olhou sua rainha em seus olhos violetas – Rhaegar seria um excelente rei e foi uma pena que ele perecesse pelo machado de guerra de Robert... mas ninguém sentirá falta de Aerys, Vossa Graça. Seu irmão era louco como seu pai. Eu não sei quem era pior... mas eu acredito que você será tão grande quanto Rhaegar teria sido. Talvez até maior. Eu acredito nisso. – Aegon suspirou e olhou para o punho fechado – E eu também acredito que Ned Stark é um homem honrado, assim como o filho, Robb Stark. Essa guerra vai colocar meus irmãos um contra o outro e vai fazer meu pai escolher um. – Aegon engoliu em seco e se colocou de pé – Nós precisamos voltar o quanto antes para Westeros... eu preciso ajudar minha família.
—Nós iremos voltar. Eu lhe prometo isso, Aegon. – disse Daenerys ficando de pé e o olhando com carinho. Achava que era carinho – Assim que eu tiver um exército e assim que meus dragões estiverem maiores. Eu vou ir para Westeros e vou salvar seus irmãos. Sua irmã pode ser minha dama de companhia. Seu irmão será livre para fazer o que quiser... e você será o meu general. Eu juro isso, Sor Aegon. – disse ela e ele engoliu em seco. Colocou a mão no queixo dela e o acariciou com o polegar, sorrindo para ela.
—É muito gentil, Vossa Graça... – sussurrou. Por um momento sentiu-se tentado a beijá-la, mas se conteve – Deposito minhas esperanças em você. – se afastou um passo, relutante e se curvou – Boa noite, Khaleesi.
Na manhã seguinte, Dany convocou seus três companheiros de sangue.
—Sangue do meu sangue, preciso de vocês. Cada um deverá escolher três cavalos, os mais resistentes e saudáveis que nos restarem. Carreguem tanta água e alimentos quanto as montarias aguentarem e partam por mim. Aggo irá para sudoeste, Rakharo para sul. Jhogo, você deverá seguir o shierak qiya para sudeste.
—O que devemos procurar, Khaleesi? – perguntou Jhogo.
—O que houver – respondeu Dany. – Procurem outras cidades, vivas ou mortas. Procurem caravanas e pessoas, rios, lagos e o grande mar salgado. Procurem saber até onde se estende este deserto à nossa frente e o que há do outro lado. Quando deixar este lugar, não pretendo partir às cegas de novo. Quero saber para onde vou e qual é a melhor maneira de chegar lá.
E eles foram, com os guizos nos cabelos tilintando suavemente, enquanto Dany se instalava com seu pequeno bando de sobreviventes no lugar que chamaram de Vaes Tolorro , a cidade dos ossos. Os dias seguiram-se às noites, e estas aos dias. As mulheres colhiam frutos dos jardins dos mortos. Os homens cuidavam das suas montarias e consertavam selas, estribos e sapatos. As crianças vagueavam pelas ruelas retorcidas e encontraram velhas moedas de bronze, pedaços de vidro roxo e canecas de pedra com alças esculpidas em forma de serpentes. Uma mulher foi picada por um escorpião vermelho, mas essa foi a única morte. Os cavalos começaram a ganhar alguma musculatura. Dany cuidou pessoalmente da ferida de Sor Jorah, e ela começou a sarar.
Aegon aproveitou para começar a treinar os garotos mais fortes. Doreah, que ficava a cada dia mais forte, lhe lançava olhares de admiração e agradecimento. Na sexta noite ela parecia tão forte que era difícil imaginá-la doente.
Rakharo foi o primeiro a voltar. Ao sul, o deserto vermelho estendia-se por uma longa distância, ele relatou, até terminar numa costa desolada junto à água venenosa. Entre aquele lugar e a costa havia apenas turbilhões de areia, rochedos polidos pelo vento e plantas eriçadas de espinhos pontudos. Tinha passado junto às ossadas de um dragão, jurou, tão imensas que havia conduzido o cavalo por entre as suas grandes maxilas negras e Aegon desejou poder vê-las. Mas foi apenas isso que o Dothraki viu.
Dany o encarregou, e mais uma dúzia dos seus homens mais fortes, de remover o pavimento da praça a fim de chegar à terra que tinha por baixo. Se a erva-do-diabo crescia entre as pedras, outras ervas poderiam crescer depois de se remover as pedras. Tinham bastantes poços, não faltava água. Se houvesse sementes, poderiam fazer a praça florescer. Aegon ajudou com isso também, nas horas vagas e insistiu que os garotos em treinamento ajudassem. O trabalho ajudava a fortalecer os músculos.
Aggo retornou em seguida. O sudoeste era estéril e queimado, jurou. Havia encontrado as ruínas de mais duas cidades, menores do que Vaes Tolorro, mas, tirando isso, iguais. Uma era protegida por um anel de crânios montados em lanças de ferro enferrujadas, então ele não se atreveu a entrar, mas explorou a segunda tanto quanto pôde. Mostrou a Dany uma pulseira de ferro que encontrara, ornamentada com uma opala de fogo bruta do tamanho do seu polegar. Também havia rolos de pergaminho, mas estavam secos e desfazendo-se, por isso Aggo os deixou onde estavam.
Dany agradeceu-lhe e lhe disse para tratar do conserto dos portões. Se inimigos tinham atravessado o deserto para destruir aquelas cidades nos tempos antigos, podiam perfeitamente regressar.
—Se assim for, devemos estar preparados – ela declarou.
Jhogo ficou longe tanto tempo, que Aegon pensou que tivesse se perdido, mas, por fim, quando já tinham quase desistido de esperar por ele, chegou a cavalo vindo do sudeste. Um dos guardas que Aggo havia colocado de sentinela nos portões foi o primeiro a vê-lo e soltou um grito, e Aegon correu para as muralhas para ver com seus próprios olhos. Era verdade. Jhogo regressava, mas não vinha sozinho. Atrás dele, três estranhos vestidos de modo esquisito, montados camelos. Imaginou que deveriam ser homens de Qarth e isso o alegrou. Estavam perto do mar. Poderia mandar cartas a seus homens e pedir informações de casa.
Puxaram as rédeas diante dos portões da cidade e ergueram o olhar para contemplar Dany, na muralha acima deles, Aegon e Sor Jorah postos de pé, cada um de um lado.
—Sangue do meu sangue. – chamou Jhogo. – Estive na grande cidade de Qarth e voltei com três homens que queriam vê-la com seus próprios olhos.
Aegon fitou os estranhos.
—Aqui estou. Olhem, se é essa a sua vontade… Mas primeiro digam-me seus nomes. – disse Dany, com seu manto de leão na cabeça, lhe coroando no lugar de seus lindos cabelos prateados.
O homem pálido com lábios azuis respondeu em um dothraki gutural:
—Sou Pyat Pree, o grande mago.
O calvo com joias no nariz respondeu no valiriano das Cidades Livres:
—Sou Xaro Xhoan Daxos, dos Treze, um príncipe mercador de Qarth.
A mulher com a máscara laqueada de madeira falou no Idioma Comum dos Sete Reinos:
—Sou Quaithe da Sombra. Viemos em busca de dragões.
—Não procurem mais – Daenerys Targaryen respondeu. – Encontraram-nos.
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