Blackfyre

78 The Fall of the Dragon


Notas iniciais
FELIZ 2019! "Credo, Tia Vênus. Isso são horas? Quantos meses se passaram?" Sim, tivemos um grande hiatos, maaaaaas... Eu vou explicar o porquê Primeiro tive um problema com os banners e esses sites que fazem banners. Eu sei que é um serviço gratuito e que eles só querem nos ajudar. Mas o descaso de alguns ADMs desses sites é realmente gritante. Eu não sou de citar nomes, mas vou dizer que a INK Fanfics foi o cúmulo. Além de me tratarem mal por MESES, repassando meu pedido várias vezes, sendo mal educados e grossos, quando eu fui fazer uma reclamação no site, explicando o meu caso, eles apagaram a minha reclamação. E isso aconteceu 3 vezes. Além disso, eles tiraram o meu pedido da lista de espera e agora não fazem mais Banners de Capítulo. Quem acompanha minhas fics sabe que essa é a PRIMEIRA vez em mais de 4 anos de Nyah! que eu cito nomes, mas é que eu acredito que colhemos o que plantamos. Além disso, depois de toda a chateação com o banner (que eu consegui em outros sites que acabei descobrindo, que possuem staffs maravilhosas, como a Fairy Edits e a Hogwarts Edits), ainda tivemos um probleminha aqui mesmo. Poxa, gente. Eu aqui me matando para fazer uma história legal. Só tivemos um comentário no último capítulo u.u Então, quero agradecer à Gabs, que foi a única que comentou. Obrigada, Gabs E também quero agradecer à zawey, que me mandou uma MP, elogiando a fic. Obrigada, linda. Esse capítulo é pra você (não se se você lê as notas iniciais, já que é nova na fic, mas saiba que o capítulo é pra você assim mesmo.) e pra linda da Gabs! Obrigada, suas lindas ♥ Beeeeijos! Preparem-se, porque o capítulo tá tenso! =D #PartiuLer

The Fall of the Dragon

Jon se defendeu de outra mão e tentou correr. Eram mortos demais. Lutavam do lado de fora da caverna, pois tinham conseguido abrir caminho até a entrada. Lutar lá dentro, com toda aquela fumaça era impossível. Corriam para ganhar espaço, mas logo os mortos os alcançavam e precisavam tentar matá-los antes de acabarem mortos. E eram inimigos demais. Não teriam a menor chance contra eles. Aegon lutava com fúria e Valerion também parecia completamente fora de si. Jon sentia alguma dificuldade. Era o mais baixo dos três e a neve estava muito alta, dificultando sua movimentação.

Depois de cortar um morto ao meio, levantou o olhar para o Caminhante Branco. Ele o olhava com aquele semblante sério e sem vida. Respirou fundo e marchou até ele, cortando quem se colocava em seu caminho. O caminhante brandiu a lança e se preparou para o combate. Jon tentou acertá-lo, mas ele bloqueou o ataque. Notou que a criatura se surpreendeu com sua espada e usou aquele um segundo de vantagem para atacar. A criatura conseguiu se defender, apesar de ter perdido espaço e ter tido que recuar. O atacou, esquivou, atacou, bloqueou, atacou. A criatura recuava, perdendo equilíbrio e Jon colocou mais força em seus golpes. O Caminhante, perdendo o equilíbrio, tentou golpeá-lo mais uma vez, mas cortou alto demais. Jon se abaixou com velocidade, fez mais um ataque, que foi bloqueado de qualquer jeito. Na segunda investida a criatura não conseguiu acompanhar sua velocidade e Longclaw a atravessou, transformando o Caminhante em pequenos pedaços de gelo.

Escutou gemidos guinchados e quando se virou, notou que os mortos tinham desfalecido. Aegon e Valerion olharam chocados para ele e então olharam ao redor. Aegon chutou de leve um dos mortos, mas nada aconteceu.

—O que significa isso? – Perguntou Aegon e Jon respirou fundo, sentindo o corpo suar de leve pelo esforço. Mirou a caverna e viu que muita fumaça saía de lá.

—Eu tenho um palpite, mas é apenas uma hipótese. – Disse Valerion embainhando a espada – Essa criatura reviveu esses mortos. Quando ele morreu, a magia que mantinha os mortos nos atacando acabou. – Ele olhou o irmão, que também guardou a espada, olhando ao redor.

—Então temos que matar as criaturas de gelo e não os mortos. – Disse Aegon e Valerion deu de ombros.

—É o meu palpite. – Disse ele. Aegon olhou em volta e então mirou a caverna.

—Devemos voltar? Temos que dizer aos outros que temos como sair por aqui. – Aegon olhou para o céu limpo e mirou as estrelas. Ele fez alguns cálculos e Jon o imitou, mirando os pontos brilhantes no céu – A Muralha fica praquele lado. Sabe-se lá há quantos dias estamos dela. Precisamos nos apressar ou ficaremos sem mantimentos.

—E aqui não parece um lugar rico em provisões. – Concordou Valerion.

—Certo. – Murmurou Jon olhando novamente a caverna e finalmente guardando a espada. Um vento frio soprou do Sul e ele ouviu um som agourento. O mesmo som que o vento tinha feito antes do Rei da Noite aparecer em Hardhome. Aegon e Valerion se viraram e o trio observou uma nevasca se aproximar, vinda de Sudeste dali.

—Uma tempestade. – Resmungou Aegon e Jon engoliu em seco – E se aproxima ridiculamente rápido. Melhor voltarmos pra caverna para nos abrigarmos lá dentro. Em pouco tempo ela estará aqui.

—Aquilo não é uma tempestade comum. – Murmurou Jon e Aegon o olhou, curioso – Aquilo é o Rei da Noite.

—Por que ele está vindo aqui? – Perguntou Valerion – Ele não deveria estar indo pro Sul, pra Muralha? Está pegando um desvio, por nós?

—Ele não quer que a gente descubra algo daqui. – Sugeriu Jon – Ele provavelmente veio pra cá quando Bran estava escondido aqui.

—Vocês Stark deveriam, realmente, conversar e trocar umas histórias, sabe? – Resmungou Valerion.

—Vamos parar de perder tempo e avisar os outros. Com alguma sorte despistaremos os mortos nas galerias subterrâneas. E se não conseguirmos, teremos mais vantagem lutando nos túneis. Não adianta nada ter um exército e ter pouco lugar para atacar. Se não formos flanqueados, podemos proteger os túneis e matar o máximo de mortos possível. – Disse Aegon e Jon começou a andar até a caverna, sendo seguido.

—Mesmo se tivéssemos comida para ficar aqui lutando durante anos, mais cem homens, para revezar, não seríamos capazes de deter o exército dos mortos. Eles são muitos.

—Quantos? – Perguntou Aegon, como se duvidasse da possibilidade de não conseguir lutar contra o exército de mortos naquelas situações.

—Só em Hardhome ele conseguiu uns trinta mil homens. E ele já tinha um exército de pelo menos cinquenta mil. – Disse Jon – Ele ainda tem mais de quinhentos soldados da Patrulha da Noite, de quando Lorde Mormont nos liderava numa expedição. E sabe-se lá quantos mortos de anos atrás ele conseguiu reacordar. – Enumerou Jon colocando a mão com uma luva sobre o rosto, para se proteger da fumaça. Lá dentro estava muito quente e a raiz do represeiro pegava fogo magnificamente. Algo brilhou nas raízes, logo embaixo de onde o cadáver do Patrulheiro estava. Conseguiu distinguir o brilho mesmo com toda a fumaça. Foi na direção da fogueira gigante e Aegon o segurou no ombro.

—O que houve? – Perguntou ele.

—Acho que vi uma coisa. Ali.

—Vamos sair antes que sufoquemos. – Pediu Valerion, mas Jon teimou. Se aproximou do fogo, mesmo que isso fizesse seus olhos arderem e seu rosto queimar. Tinha algo brilhando lindamente ali. Piscou, tentando aliviar a ardência nos olhos e estudou o objeto. Era uma espada. E o fio dela brilhava de um jeito difícil de explicar. Quis alcançá-la, mas ela estava protegida pelas chamas. Sentiu Aegon se abaixar ao seu lado e tirar Blackfyre da bainha.

—Aquela espada deveria estar vermelha por conta do calor. – Disse ele – Mas só está brilhando. Sabe o que significa? – Perguntou ele e Jon negou com a cabeça – Ela é mais resistente ao calor que outras espadas.

—É aço valiriano? – Perguntou Valerion ao seu lado e Aegon usou Blackfyre, que era a maior espada que tinham ali, para puxar a espada que estava escondida entre as raízes queimadas. Demorou um pouco até que Aegon conseguisse puxá-la. Parecia que as chamas queriam impedi-lo. Ele praguejou um pouco, mas logo conseguiu puxar a lâmina. O punho estava arruinado, mas a lâmina parecia inteira – Como ela está?

—Precisará de um pouco de trato. – Disse Aegon – Como uma espada de aço valiriano veio parar nesse buraco? – Perguntou Aegon. Jon saiu da caverna e pegou um pouco de neve. Depois voltou para jogar no já arruinado cabo da espada, apenas para poder ser capaz de segurá-la.

—Isso já fez nossa vinda aqui ter valido a pena. – Garantiu Jon. Ele pegou a espada e notou que havia um grande rubi na empunhadura. As hastes do punho certamente tinham o formato de alguma coisa, mas o fogo as contorceu e amoleceu. Certamente era uma empunhadura de ouro.

—Lembra um pouco Blackfyre, não acha? – Perguntou Valerion.

—Sim, mas muito mais fina. Essa espada foi feita para as mãos de uma mulher. – Disse Aegon com convicção. Jon notou que ela era realmente muito leve. Mais leve que Longclaw, que era uma espada de uma mão e meia.

—Vamos pensar sobre isso depois. Primeiro precisamos voltar para junto dos outros.

Um vento sinistro veio de dentro da caverna, pelo caminho que aparentemente Bran usara para fugir.

—Ah, não. – Resmungou Aegon, se levantando. Jon se levantou também e o vento uivou novamente, de um jeito que foi capaz de apagar o fogo das raízes, deixando apenas algumas brasas. O frio se enroscou nele como se fossem cabelos molhados. Por um momento se lembrou de uma de suas noites com Shiera Blackfyre. Quando ela se sentara nua em seu colo e o calor e suor de seus corpos grudaram os cabelos contra suas peles. Mas aquele calor parecia muito longe dele naquele momento – Essas coisas não cansam? – Perguntou Aegon.

—Não. Estão mortas. – Resmungou Valerion, voltando a sacar a espada.

—Será que essa é a espada que precisávamos resgatar? – Perguntou Aegon.

—Não sei. Ela não deveria estar num lago? – Perguntou Valerion. Aegon xingou baixinho e Jon bufou.

—Vamos recuar. Não temos porque esperar o inimigo aqui. – Disse com convicção. Valerion e Aegon concordaram. Uma neblina gelada começou a entrar pelas entradas da caverna, mas o trio não ficou ali para ver. Começaram a avançar pelo caminho de volta, mas logo ficaram mergulhados no escuro – Não temos nenhuma tocha.

—É um caminho em linha reta. Apenas vamos de uma vez. – Esbravejou Aegon.

—É perigoso assim mesmo. – Resmungou Valerion e outro sopro de vento frio fez seus ossos doerem.

—Não temos tempo. Vamos. – Disse Jon, decidido – Que os Velhos Deuses do Norte olhem por nós. – Pediu numa prece. E então, como se os Deuses tivessem escutado, cristais na parede brilharam. Primeiro pensou que eram cristais. Mas depois viu que era obsidiana, pontudas e protuberantes nas paredes. E elas tinham fogo em suas pontas. Fogo aceso por magia.

—Não sei como isso aconteceu. – Começou Aegon – Mas não vou reclamar. Vamos. – Disse ele. Jon concordou. Caminhavam o mais rápido que podiam, sem deixar de lado a cautela. O vidro de dragão que encrustava a parede da caverna brilhava apenas por onde eles passavam, e ia se apagando à medida que avançavam, acendendo mais à frente. Como se os Deuses guiassem o caminho. Jon engoliu em seco, grato, jurando que ficaria no Bosque de Winterfell a agradecer os Deuses por aquilo. Foi quando ouviu sussurros a frente. Interromperam o passo e respiraram fundo – Reconhecem as vozes? – Perguntou Aegon.

Jon permaneceu calado, tentando escutar, mas outra lufada de vento soprou, dessa vez parecendo ainda mais perigosa. Sentiu o peito vibrar. Eles estavam perto. Perto demais. Escutou um silvo de onde tinham vindo e antes que pudesse se virar, algo atacou Aegon. As chamas no vidro de dragão bruxulearam de leve e Aegon jogou o corpo do morto no chão. Era um dos mortos de antes, reanimado, o que significava que havia outro Caminhante por perto.

Aegon rosnou um palavrão e cortou metade do morto, mas ele continuou se mexendo, tanto a parte de cima quanto a de baixo.

—Amarrem o desgraçado. Rápido. – Resmungou Aegon e Valerion e Jon se abaixaram. Valerion colocou um saco que antes abrigava provisões na cabeça dele. Depois pegou as cordas que tinha amarradas na cintura para prender o morto. Outros mortos apareceram, mas Aegon era um espadachim como nenhum outro. Jon nunca tinha visto alguém lutar daquele jeito. Ele parecia saber de onde os ataques vinham. Parecia prever o futuro. Parecia coreografado. Mesmo lutando contra três mortos, com apenas a parca luz do vidro de dragão, ele parecia um espadachim melhor do que jamais sonharia em ser. Lembrava do breve duelo que tinha tido contra ele em Coração Alto e sorriu, voltando a ajudar Valerion a prender a parte de cima do morto. A de baixo apenas se sacudia, sem conseguir ter coordenação, se debatendo toscamente. Aegon jogou um dos mortos contra a parede e foi como se a criatura estivesse besuntada em óleo. Ao ser tocada pelo fogo do vidro de dragão, as chamas a tomaram e os outros dois mortos, que já tinham recebido muitos cortes, recuaram, assustados – Bom mesmo. – Riu Aegon e o morto correu por onde viera. Centenas de mortos abriram caminho, formando um corredor, até que ele desacelerou e caiu, ainda pegando fogo. Jon engoliu em seco, Valerion colocou o morto no ombro. Os mortos miravam a criatura que ardia. Depois olharam para eles. Engoliu em seco e deu um passo para trás – Jon, me entregue a espada que você achou nas raízes. – Disse Aegon. Os mortos ainda os encaravam.

—O que? Pra que? – Perguntou Jon.

—Porque eu sou quem luta melhor e quem melhor ganharia tempo aqui. – Disse Aegon. Jon entendeu o que ele pretendia. Aegon lhe estendeu Blackfyre e Jon não quis aceitá-la – Diga a Arianne que eu sinto muito.

—Não! – Disse Valerion – Eu ficarei aqui...

—Não. Você precisa levar o morto para Daenerys e Cersei.

—Eu não vou te deixar pra trás! – Disse Valerion.

Os mortos ainda estavam parados, como se esperassem que eles se resolvessem.

—Eu sou seu lorde e seu irmão mais velho. – Disse Aegon, com firmeza e Jon pegou Blackfyre, para então entregar a outra espada a Aegon – Vá embora. É uma ordem. – Disse Aegon sem olhar pra trás, tirando o capuz. Jon puxou Valerion pelo ombro.

—Mas...

—Você dobrou o joelho para Jon, lembra? Você deve protegê-lo. – Disse Aegon – Só assim as pessoas que amamos estarão a salvo. Eu confio em você, Valerion. – Disse Aegon. Valerion engoliu em seco – Jon.

—Sim?

—Proteja Daenerys, Arianne e Shiera. – Pediu ele fazendo pose de batalha e os mortos olharam para o corredor, por onde eles tinham vindo. Escutou novamente o som de vidro se partindo e imaginou que era o Caminhante Branco – Vão, eu vou ganhar o máximo de tempo possível. Jon, não morra. – Aegon sorriu e olhou pra trás. Jon teve certeza que jamais esqueceria aquele sorriso e aquele momento. Não havia um pingo de medo ou hesitação em Aegon – E cuide bem dessa espada. Lembre-se de mim quando lutar com ela. Será como se eu fosse membro de sua Guarda Real, Vossa Graça. Pense na conversa que tivemos. Seja o rei que você nasceu pra ser. – Concordou e Valerion mirou o irmão pela última vez. Jon engoliu em seco e Aegon se virou para os mortos. Ele empunhou a espada recém encontrada e tomou postura de batalha novamente, mas os mortos não atacaram – Vão! – Ordenou e os mortos rosnaram. O frio aumentou. O som de vidro sendo partido aumentou. O Caminhante estava se aproximando. Puxou Valerion pelo ombro e os dois trocaram um olhar. Sinto muito, Valerion. O rapaz se virou e colocou o morto de maneira mais confortável nos ombros e então começou a se afastar do irmão. Jon e Valerion começaram a correr pelo corredor, com o vidro de dragão brilhando à medida que avançavam. Mas um lugar, lá atrás, continuou brilhando e logo eles escutaram um grito de guerra e o som de aço contra ossos – DAENERYS! PELA CASA TARGARYEN! – Escutou Aegon gritar – POR HARRENHAL! PELA CASA BLACKFYRE!

Aquilo era no mínimo horrível. Correram até os gritos dele se perderem no escuro. Apenas o som de suas respirações era escutado.

Viram uma luz dourada mais a frente e o vidro de dragão apagou. Era Robb e os outros.

—Onde está Aegon? – Perguntou Humfrey.

—Ganhando tempo. Precisamos ir! Este caminho está cheio de mortos. Precisamos voltar. – Disse Jon e todos lançaram breves olhares de solidariedade antes de darem meia volta e correrem por onde tinham vindo.

—E o Caminho de Gorne? – Perguntou Valerion.

—Aparentemente a espada que viemos buscar está em Winterfell, com Brandon Stark. – Resmungou Humfrey enquanto corriam. O som da luta de Aegon tinha ficado muito pra trás. Correram o máximo que conseguiram, mas Thoros logo parou de acompanhar. Ele estava ferido, afinal.

—Vamos, Thoros! – Rosnou Robb e o homem sorriu, brandindo a espada e fazendo com que ela pegasse fogo.

—Eu vou segurá-los o máximo que der quando chegarem aqui. – Prometeu ele – Eu não estou em condição de correr. – Disse ele. Jon engoliu em seco – Vão. Corram. – Thoros se virou e se preparou para o que quer que estivesse prestes a atacá-los.

—Não vamos desonrar o sacrifício alheio. Mostre o caminho, Hightower! – Rosnou Hoster e Humfrey fez uma mesura para Thoros antes de voltar a guiá-los.

O caminho era difícil e tortuoso, cheio de escaladas, subidas e descidas. Escutaram apenas um eco, muito lá atrás, uma sombra de um grito. Jon engoliu em seco e ajudou Humfrey a escalar uma pedra. Depois ajudou a subir o morto, que se contorcia. Ainda bem que é só metade de um morto. E o fato dele ainda estar se mexendo corroborava com a hipótese de que provavelmente Aegon Blackfyre já não estava mais.

Continuaram a correr, sem olhar para trás, mas logo Valerion começou a arfar. Pegou o morto das costas dele e revezou, andando o mais depressa que conseguiu. Não pararam para nada, apenas diminuindo o passo para descansarem, beberem e comerem. Sempre em movimento, nunca parados. Estavam a um dia de caminhada da superfície por aquele caminho. Demorou uma eternidade até chegarem no local onde Tormund tinha começado a marcar as paredes. Agora apenas Humfrey poderia guiá-los.

—Esperem! – Gritou Robb. Todos pararam e ele pediu silêncio. Hoster levantou a tocha e um gato das sombras rosnou. Um gato morto das sombras. Ele avançou contra Robb, que se esquivou com agilidade. Valerion sacou a espada, assim como Robb. Tormund e Gendry atacaram a criatura, mas ela era muito ágil. Jon olhou para trás, preocupado e apertou Blackfyre com força. Gendry acertou seu machado de guerra na criatura e Tormund também, mas o enorme felino avançou no selvagem, o derrubando no chão. Hoster enfiou a tocha nas costelas do animal e as chamas o tomaram. Gendry acertou um golpe tão poderoso no felino, que o jogou contra a parede. Robb então cortou a cabeça do gato das sombras, que finalmente parou de se mexer.

—Você está bem? – Perguntou Jon e Tormund fez uma careta para sua roupa rasgada.

—Ele me cortou, mas já tive ferimentos piores. Vamos rápido.

Voltaram a correr e escutaram os silvos mais uma vez.

—Humfrey. Precisamos ir mais rápido. – Ralhou Hoster, enquanto o sulista mirava os mapas.

—Quer correr, sem olhar pro chão, com pouca luz, prestando atenção no caminho desenhado num mapa, tomando todo o cuidado para não se confundir? – Perguntou ele sem humor, sem desviar o olhar do mapa.

—Quero que ande mais rápido. – Rosnou Hoster. Humfrey chegou num caminho onde haviam três passagens. Ele escolheu a da esquerda, num caminho cheio de raízes, e Robb o puxou para o lado. Outro morto, que Gendry esmagou com o martelo de guerra. Hoster o tocou com a tocha e o fogo o consumiu – Eu tive uma ideia. – Disse o bastardo e o grupo o olhou – Essas porras pegam fogo rápido. Me entregue o óleo que temos. – Exigiu ele. Gendry engoliu em seco e o obedeceu – Ei, garoto da luz. Consegue fazer aquilo que Thoros faz? De tocar fogo nas coisas com sangue?

Robb piscou confuso, sem entender que era com ele que Hoster falava.

—Eu o vi fazendo isso diversas vezes. – Murmurou Robb sacando a espada. Hoster molhou o chão com óleo, assim como algumas raízes nas paredes.

—Então joga o fogo abençoado aqui. – Pediu ele e Robb respirou fundo, cortando a própria mão com a espada. E então a lâmina pegou fogo. Robb piscou, ligeiramente surpreso e então tocou as raízes. Uma barreira de fogo surgiu e Hoster sorriu – Esse bastardo aqui não vai ficar pra trás pra morrer, mas vai ganhar tempo. – Disse ele se referindo a si mesmo – Vamos!

—Não era suficiente usar a tocha pra botar fogo? – Perguntou Gendry.

—Não questione meus métodos, bastardo. – Debochou Hoster e Gendry o olhou feio. Lembrava que também se sentia ofendido, tempos atrás, quando o chamavam de bastardo – Agora corre, Humfrey.

Humfrey voltou seus olhos para o mapa e depois de um instante voltou a guiá-los. Escutaram os silvos dos mortos, mas eles ficaram para trás. Robb se ofereceu para levar o morto e Jon o entregou. Logo estavam mais uma vez correndo a toda.

Depois de minutos deram uma diminuída no ritmo, para beberem água. Os túneis não estavam tão frios, os silvos ficaram para trás. Mas Jon sabia que assim que o Caminhante chegasse, ele poderia apagar o fogo. Fora assim em Hardhome. Os Caminhantes não eram fracos a fogo. Apenas os mortos.

—Estamos chegando. – Disse Humfrey. E era verdade. Já reconhecia o lugar. Era o lugar com uma lagoa. Onde certa vez se banhara com Ygritte.

—Graças, a tocha irá apagar a qualquer momento. – Lamentou Hoster – E é a última que temos.

—Nossas provisões estão no fim, também. – Murmurou Tormund – Apesar que somos menos bocas agora.

Jon mirou Valerion e ele baixou o rosto, entristecido. O tocou no ombro, em solidariedade e o rapaz o olhou agradecido.

—Vamos. – Disse com firmeza.

**

Daenerys tinha ficado furiosa com o que tinha visto. Provavelmente enxergava apenas uma futura ameaça. Shiera dormindo com os ovos de dragão. Mas não poderia imaginar do que ela a acusaria.

Bran explicara que Jon e os outros estavam em perigo e Daenerys quis ir ao resgate de Aegon imediatamente, mas Shiera não queria permitir que ela fosse sozinha.

—Eu irei com você. – Disse Shiera. Daenerys a olhou, furiosa.

—Você tem ovos de dragão. Todo esse tempo, tinha ovos de dragão! – Rosnou ela.

—Aegon nunca contou? – Perguntou, conferindo se o arco estava preso de maneira apropriada.

—Achei que estavam em Harrenhal. Não aqui, com você. Está tentando chocá-los? – Perguntou Daenerys. Shiera a olhou, com frieza.

—Não é hora pra isso. Meus irmãos, meu marido, seu sobrinho estão todos além da Muralha. Eles precisam de nós. – Disse convicta. Daenerys sorriu com algum desdém.

—Nós? E como você pretende ir pra lá? – Perguntou Daenerys e os dragões a olharam. Drogon baixou o ombro para que ela subisse.

—Irei em um dos dragões. – Disse convicta.

—Pelos deuses. – Lamentou Nym – Seja sensata e fique aqui. Você está grávida. Você espera o herdeiro do Norte, Shiera.

Mas não poderia ficar. Não com sua família em perigo. Não com as pessoas que amava em perigo. Engoliu em seco e mirou Daenerys.

—Se conseguir que qualquer um deles a leve. – Disse a Targaryen, com o tom de voz deixando claro que duvidava muito que fosse conseguir obter algum sucesso – Mas não me responsabilizo com o que eles podem fazer a você. – Drogon abriu as asas, para voar, ganhando altura. Mirou Rhaegal, mas ele nem perdeu tempo com ela, abrindo as asas para seguir sua mestra.

—Viserion! – Chamou quase num choro. O dragão branco a olhou curioso, prestes a voar, mas fechou as asas ao se virar para ela – Eu preciso ajudar Valerion e Aegon. Por favor. – Pediu olhando para ele. Viserion bufou e rosnou. Se aproximou dele e ele pareceu agressivo. A crista dourada ficou eriçada, como um gato fica ao se preparar para lutar. Tentou esticar a mão e ele baforou, agressivo.

—Shiera! Deixe-o. Ele mata você! – Disse Theon, atrás de si.

—Você precisa ficar em Winterfell. – Disse Sansa. Shiera não olhou para trás. Olhou nos olhos de Viserion, que rosnou, como que brigando com ela. Deixando claro que não permitiria que ela o montasse.

Mas precisava ajudá-los.

—Eu sou Shiera Blackfyre. Sou filha de Lorde Haegon, o último Corsário a navegar a Valíria. – Disse sem desviar o olhar do dragão – Eu morri afogada, mas voltei graças a ajuda do Deus Afogado e de Theon. Eu fui subjugada pelo traidor, que fez causa conjunta com os Lannister, Roose Bolton. Mas eu o derrotei no final. Eu sou a Rainha do Norte. Eu tenho sangue de dragão. E eu vou montar você para salvar meus irmãos. – Disse determinada. Seu coração batia acelerado. Viserion gritou como se não se importasse. Mas ela o faria se importar. Pensou em Robb, pensou em Jon, pensou em Valerion, em Aegon, em Humfrey, em Hoster. Pensou até no bastardo de Porto Real, um garoto jovem e cheio de empolgação. Pensou em Tormund e então pensou em si mesma. Viserion avançou a cabeça, ameaçando mordê-la, mas os dentes dele se fecharam há centímetros dela. Sentiu o hálito quente do dragão, quase a queimar seus cabelos compridos. Os olhos pareciam feitos de ouro derretido brilhante. Shiera engoliu em seco e respirou fundo, avançando um passo sem querer demonstrar medo. Viserion abriu as asas e as bateu, levantando uma nuvem de neve gelada. Seu vestido se molhou com neve, mas ela não sentiu frio. Viserion avançou contra ela novamente – Não! Viserion! – Rosnou sem recuar. Os dentes negros dele se fecharam a centímetros de seu rosto, novamente, dessa vez ainda mais perto. O olhou nos olhos e ele a olhou de volta. Os olhos dele pareciam ferver. Está me testando. Se eu correr ou demonstrar medo, falharei e ele me queimará viva. Não ousarei afastar o olhar. E assim o fez. O olhou sem piscar, sem recuar, com as mãos fechadas em punho. Viserion rosnou em seu rosto, com o hálito quente o suficiente para deixar sua pele ardida, como se caminhasse todo o dia sob o sol, num dia quente de verão.

—Shiera! Saia daí! – Pediu Theon. Mas não desviou o olhar.

Seu olhar estava nos olhos de Viserion. Viu seu reflexo neles. De pé, decidida, firme. Mais uma vez ele rosnou e abriu a boca, como se fosse atacar, mas Shiera desafivelou o cinto e o acertou com o cabo de sua espada.

—Não! – Gritou cortando o ar com a lâmina ainda dentro da bainha, o cinto pendurado nela. Viserion a encarou, furioso e rosnou. Avançou um passo – Eu disse que não! – Disse firme e o dragão recuou um passo, abrindo as asas, cobrindo-a com aquele belo couro dourado. Quando ele tentou mordê-la novamente, o acertou com a bainha da espada mais uma vez, para em seguida desembainhar a espada. Ele abriu a boca para cuspir fogo e Shiera se jogou na neve, esquivando-se.

—Shiera! – Gritou Nym pegando o arco.

—Não faça isso. – Gritou para a arqueira – Quieto, Viserion. Quieto. Eu vou montar em você. Eu vou voar em você. E nós vamos salvar Aegon. Ouviu? Nós vamos encontrá-lo. Se demorarmos, ele vai morrer. – Explicou e Viserion soltou um silvo mais baixo – Agora abaixe esse ombro e me deixe subir! – Exigiu. Viserion rosnou, abrindo as enormes asas douradas. O encarou determinada. As asas dele bateram três vezes antes de se fechar e Viserion deu um último silvo, baixo e conformado, deitando-se sobre a barriga. Prendeu novamente o cinto com a bainha ao redor da cintura e embainhou a espada. Viserion baixou o ombro e Shiera subiu para o pescoço dele, do mesmo modo como Daenerys tinha feito com Drogon. Viserion então abriu as asas e no momento seguinte Shiera sentiu uma pressão empurrá-la para baixo. Viserion ganhou os céus e ela se agarrou às escamas dele. Podia sentir o calor do dragão entre suas coxas a medida que as largas asas de Viserion batiam no ar. Sentia-se prestes a explodir. Viserion começou a seguir Drogon e Shiera viu que Daenerys olhava para trás, surpresa – Alcance-a, Viserion. Quero olhar nos olhos dela! – Disse decidida. Viserion bateu as asas com mais vigor e avançou no ar.

Shiera e Daenerys se encararam por um momento. A loira deu um sorriso torto, e aquiesceu. Shiera fez o mesmo. As duas sabiam o que precisavam fazer. Eram aliadas agora, mais do que nunca. Então deitou seu corpo contra o corpo quente de Viserion e mirou o Norte. Tinha um breve conhecimento sobre a Muralha. Sabia mais ou menos pra onde os rapazes tinham ido, pois Humfrey e Robb haviam comentado. Respirou fundo e guiou Viserion para a Muralha. Sabia que aquilo poderia ser suicídio, mas não havia escolha em seu coração.

Precisava salvá-los.

Precisava ao menos tentar.

E por mais egoísta que fosse para com seus irmãos ou para com o marido, acabou se lembrando da Ilha das Faces.

“Com esse beijo, empenho o meu amor...” Sussurrou Jon em sua memória.

—Com esse beijo, juro que meu coração será para sempre teu. – Sussurrou engolindo em seco.

Por favor, não morra...

**

Os túneis estavam silenciosos, então se permitiram uns poucos minutos de descanso. Tinham corrido por horas, sem parar. Dividiram o vinho que tinham, procurando se aquecer, além de beberem um pouco de água e mordiscarem filetes de carne seca e salgada. Valerion tinha aproveitado para se afastar e ficar de joelhos, sentindo luto pelo irmão mais velho. Jon fez uma prece silenciosa aos deuses e viu que Robb parecia fazer o mesmo. Só não sabia para qual deus ele orava. Respiraram fundo, cansados. O caminho para Muralha é longo. Espero que nos reste energias. Espero que nos reste forças.

Todos pareciam em luto pelas perdas. Hoster só não parecia pior que Valerion. O bastardo mirava seu Lorde com os olhos tristes e Jon foi até ele.

—Lembro quando vi Aegon pela primeira vez. – Sussurrou Hoster – Ele tinha uns quinze anos e estava prestes a ir para sua primeira batalha. A rebelião dos homens de ferro. – Hoster soltou um suspiro – Eu era apenas um ano mais novo que ele, mas quando o vi naquela armadura escarlate, me senti tão pequeno. – Hoster cruzou os braços, entristecido e Jon suspirou – Aegon era justo. Não era muito esperto, mas era justo. E humilde em seus pontos fracos. Quando a mãe morreu e o pai deixou o castelo para que ele administrasse, ele o fez, mas sempre dando ouvidos aos mais velhos. Ele sabia escutar. Ele sabia lutar. Ele sabia cavalgar. Ele foi o melhor cavaleiro que eu conheci. – Murmurou Hoster e Jon escutou Valerion fungar. Todos olharam o mais novo dos Blackfyre e ele gritou de angústia, socando o chão com os dois punhos. Jon viu o corpo dele dar espasmos e todos o ouviram chorar – Sempre falaram que Shiera e Valerion eram os verdadeiros filhos de Haegon, por sua astúcia e esperteza, mas no final os dois sempre acabavam contando com Aegon. No final eles sempre esperavam que ele resolveria o que eles não eram capazes de resolver. Valerion torcia que Aegon viria resgatá-lo de Porto Real e Shiera torcia para que o irmão viesse ajudá-la a vencer a guerra pelo Norte. E agora nem Haegon e nem Aegon estão mais aqui. – Jon engoliu em seco e Hoster o olhou, com os olhos castanhos e brilhantes – Contamos com você agora, Jon.

Sentiu uma enorme responsabilidade naquele momento. Engoliu em seco e mirou Robb. Ele parecia exausto de uma maneira que não poderia explicar. Tormund parecia ansioso para sair dali. Gendry também. Humfrey tinha guardado seus mapas e arrumava suas peles de maneira a ficar o mais protegido do frio possível. Ele era o único que não parecia cheio de luto pelas perdas. Ele não conhecia direito nem Thoros e nem Aegon. Ele só está aqui por Shiera. Se perguntou se a desconfiança que sentia dele era apenas ciúmes.

Sansa também não gosta e nem confia nele. E Melisandre nos avisou para tomar cuidado com ele.

[n.a = A música é essa aqui Song of The Seven ]

Humfrey pareceu conferir tudo e então suspirou. Ele andou até Valerion, que chorava, curvado no chão. O rapaz de Hightower se abaixou ao lado de Valerion e suspirou. Jon o viu colocar a mão sobre as costas de Valerion, para afagá-lo de maneira gentil.

—A face do Pai é severa e forte, entre o bem e o mal determina um corte. Pesa a vida, do nascimento à morte, e adora os seus filhinhos. – Cantou ele. Jon conhecia aquela canção. Era a canção dos Sete. Se perguntou se eles eram capazes de escutá-los ali, tão ao Norte. Lembrou do Septo de Winterfell e aquele verso o fez pensar em Lorde Eddard Stark – A Mãe concede a dádiva da vida, pras esposas é apoio e guarida. Um sorriso e pra tudo há saída, e ela ama os seus filhinhos. – E isso o fez pensar em Lady Catelyn. Ela vivera e morrera pensando nas filhas. Ela morrera pela espada de Shiera, pelo que tinha escutado. Jon respirou fundo e o próximo verso foi acompanhado de Hoster.

—O Guerreiro enfrenta o inimigo, e é sempre para todos um abrigo. Com espada e lança e com arco e espigo, protege os seus filhinhos. – Cantou Hoster acompanhando Humfrey. E Jon não pode deixar de pensar em Aegon, ficando para trás, para enfrentar a morte certa. Apertou o punho de Blackfyre, engolindo em seco. Respirando fundo – A Velha é tão sabedora e antiga, que de todos o destino investiga. Uma candeia de ouro ergue e liga, orienta os seus filhinhos. – Jon acabou se lembrando de Meister Aemon e Meister Luwin, com sua infinita sabedoria. Ambos haviam falecido, pelo que tivera notícia. Sentia-se no escuro, sem ninguém para iluminar o caminho. E ao pensar nisso, aquela caverna pareceu ainda mais imersa em trevas e frio.

—O Ferreiro trabalha noite e dia, pra devolver ao mundo a harmonia. Com martelo, arado, fogo e mestria, constrói para os filhinhos. – A voz de Gendry se uniu à canção, que ao mesmo tempo era uma prece. Jon olhou para Tormund e Robb, que estavam ambos em silêncio, apenas a observar. Não são os meus deuses, nem os de Tormund. Mas Robb os cultuava, antes de partir em campanha contra o Sul.

—A Donzela anda pelo céu a dançar, vive quando um amante suspirar. Sorri e as aves aprendem a voar, e dá sonhos aos filhinhos. – Cantou Robb, se unindo ao coro. Valerion respirou fundo e a última estrofe foi cantada por todos, menos Jon e Tormund.

—Os Sete Deuses que a todos criaram, sempre ouviram aqueles que os chamaram. Podem adormecer, não cairão, eles vigiam-nos, filhinhos. Só fechem os olhos, não cairão, eles vigiam-nos, filhinhos.

A caverna caiu em silêncio por alguns segundos. Jon caminhou até Tormund, que baixou os olhos e fez uma prece silenciosa. Jon fez o mesmo, pedindo que os Antigos Deuses abraçassem as almas de Thoros e Aegon, as guiando para o conhecimento eterno, junto da natureza.

Humfrey deu duas palmadas nas costas de Valerion e ficou de pé.

—Eu só posso imaginar tua dor, meu velho amigo. Mas precisamos mais do que nunca nos apressar, ou o sacrifício daqueles bravos homens será em vão. Nós devemos a eles nossa vitória e sucesso. – Disse Humfrey de maneira aveludada e gentil. A voz de um homem acostumado a lidar com pessoas importantes ou difíceis de lidar. Uma voz macia de quem sabe falar com humildade, apesar dessa ser uma qualidade que jamais usaria para definir aquele rapaz. Jon respirou fundo, apertando o cabo de Blackfyre e de Longclaw. Seus olhos correram o chão, até alcançarem o morto, que ainda se contorcia.

—Humfrey tem razão. Precisamos partir. – Disse Jon, com firmeza. Tormund ficou ao seu lado, assim como Robb. Os dois o olharam prontos para irem. Gendry também parecia pronto e colocou o morto nas costas. Hoster e Humfrey se aproximaram um passo e então todos miraram Valerion. Ele soltou um longo suspiro e então se levantou. O rapaz fungou e secou as bochechas com a mão, para então se virar e finalmente estar pronto para ir. Jon olhou para ele. O último dragão de linhagem masculina. Se parar para pensar, nós dois somos os últimos dragões— Vamos. – Disse dando duas batidas no ombro de Valerion, que concordou sem alegria.

Humfrey subiu primeiro, depois Tormund. Gendry e Jon ajudaram a subir o morto. Depois Jon subiu, e então Gendry, Valerion, Robb, e por último, Hoster. Finalmente estavam fora da caverna. Há dois dias de viagem dali estava a Muralha. Mas era impossível vê-la de onde estavam.

—Precisamos chegar em Castle Black. – Murmurou Hoster – Jon, pra que lado? – Perguntou ele. Jon olhou para o alto. O sol estava para se pôr. Apreciou isso por um momento, pois ficara mais de um dia sem ver a luz do dia.

—Leste. Para lá. – Disse apontando na direção oposta do sol. Foi quando escutou aquele ruído novamente. O ruído da tempestade. Trocaram olhares e Valerion pareceu lívido, sacando a espada. Hoster não esperou por ordens e subiu em um dos represeiros. Com uma destreza admirável, ele escalou pelos galhos até chegar no topo – Está vendo alguma coisa?

—Está bem longe, Jon. O que faremos? – Perguntou Hoster. Jon pensou por um momento. Estavam mais próximos da costa Oeste, de Torre Sombria. Respirou fundo e se lembrou de Forte Noite. Era o lugar mais próximo, mas a entrada ele estava lacrada. Talvez se tentassem a Torre Sombria. Era mais perto e o castelo estava mais inteiro que Castle Black.

—Bem longe? Quão longe? – Perguntou.

—Não tanto quanto Castle Black. – Disse Hoster – Mas posso estar enganado.

—Pra onde iremos, Jon? – Perguntou Humfrey – Precisamos voltar para a Muralha. Iremos para Castle Black?

—Não. Vamos para Torre Sombria. – Resolveu Jon – O Castelo é guardado por Sor Denys Mallister. Ele irá nos receber. É o castelo mais próximo.

—Não tem um com as Esposas de Lança e com os selvagens? – Perguntou Valerion.

—Tem, mas não tem portões abertos. Iríamos renovar os portões depois do Inverno. – Explicou ele – Vamos, rápido.

Hoster pulou de um dos galhos e caiu com muito equilíbrio na neve fofa. Então foram marchando rapidamente. O morto nas costas de Gendry se contorcia, ficando mais agitado e Jon não conseguiu deixar de pensar que aquilo era um mau augúrio. O grupo andou num passo apressado, com a floresta os impedindo de ver se a tempestade vinha na direção deles. Em algum momento Hoster pediu que esperassem e o grupo aproveitou para se sentar. O rapaz voltou a escalar os galhos de outro represeiro e sorriu.

—Jon. Eles não estão vindo na nossa direção. – Disse ele.

—E pra onde eles estão indo? – Perguntou Jon.

—Para Leste. – Respondeu Hoster.

—Pelos Sete, vamos aproveitar para descansar, por favor. – Lamentou Humfrey – Minhas bolhas estão com bolhas a essa altura.

—Aposto que não estava acostumado com esse tipo de coisa, não é, menino? HÁ! – Riu Tormund e Humfrey negou com a cabeça.

—Você pode fazer piadas de como sou um menininho sulista mimado. Eu não me importo. – Resmungou Humfrey deitando na neve. Tormund deu uma risadinha e suspirou.

—Você foi até bem, com aqueles pergaminhos. – Murmurou Tormund. Humfrey fechou os olhos, abrindo e fechando os braços e pernas, deixando um formato característico na neve.

—Essa foi minha primeira vez no Norte. Minha primeira vez fazendo algo verdadeiramente sério. – Ele suspirou e abriu os olhos, mirando o céu – Bem, eu entrei pra Guarda Real do Renly, mas era só ser bom espadachim. Foi algo sério, mas não foi algo difícil. Agora isso aqui. – Ele sorriu e fechou os olhos – Isso aqui, caso eu viva o suficiente, será uma história para contar aos meus netos.

—Netos. – Riu Tormund, para então explodir numa gargalhada – Só mesmo um menino do Sul para ficar pensando em netos em pleno início de Inverno.

Hoster pulou mais uma vez para o chão e se sentou ao lado de Valerion. Jon estudou o rapaz e viu o quanto ele parecia abatido.

—Podíamos tentar dormir um pouco. – Murmurou Hoster, coçando os olhos – Vamos escolher alguns vigias e dormir.

—Eu gosto dessa ideia. – Disse Humfrey, se encolhendo deitado na neve, deixando claro que o primeiro turno de vigília não seria dele.

—Eu posso ficar com o primeiro turno. Não estou com sono. – Disse Gendry.

—Então seremos eu e você. – Disse Valerion – Também não tenho sono – Valerion ficou de pé e andou até um represeiro – Acha que consegue subir na árvore, Gendry? Teremos uma visão melhor ali de cima.

—Certo. – Disse Gendry analisando um dos represeiros, calculando por onde tentaria subir.

Jon concordou com um aceno de cabeça. Se deitou na neve e fechou os olhos, sentindo-se muito cansado. Sua respiração foi ficando mais calma e relaxada e logo escutou Tormund soltar um grande ronco. Se lembrou do sorriso de Aegon. Ele ficara firme e confiante até o fim. Ele sorrira ao enfrentar a morte. Nunca encontrarei outro espadachim como ele. Guerreiros assim aparecem uma vez a cada muito tempo.

Pouco depois que se deitou, notou o quanto estava realmente cansado. Todos os seus músculos pareciam terrivelmente doloridos. Sua cabeça parecia pesada demais para voltar a ser levantada. Todo ele estava exausto. E por conta disso, notou que não tardaria a conseguir dormir. Seu corpo começou a ficar mole e pesado, com o sono se aproximando. Sua mente ficou sonolenta e o tirou dali. O levou para Castle Black. Para Shiera. Para aquela noite logo antes dele ser proclamado o Lorde Comandante da Muralha. Quando haviam se entregado ao sentimento que sentiam. Sonhou com ela. Com Shiera. Sonhou que tinha aceitado se tornar Jon Stark, naquele dia, naquela torre. Depois sonhou que estava em Winterfell, que era o Lorde de Winterfell e que Shiera se aproximava, enquanto ele a esperava no represeiro. Estavam sozinhos ali, no escuro. Ele tinha uma lamparina e nada mais. Shiera o beijou e ele a beijou de volta. Queria possuí-la ali mesmo, mas aquele era um lugar sagrado, então a levou para o castelo. Andavam lado a lado, em Winterfell, indo para o quarto que um dia pertencera a Lorde Eddard Stark. Estava para entrar com ela, ali, quando escutou uma voz.

Crianças corriam pelo corredor. Muitas delas e Shiera sorriu olhando-as com o mesmo olhar que Lady Catelyn dirigia a seus filhos. Jon mirou as crianças, mas elas corriam rapidamente e quando ele deu por si, elas já estavam a virar no corredor. Mas chegou a ver um garoto de cabelos vermelhos gritando que cortaria a cabeça dos desertores, enquanto as risadas das crianças, que fugiam dele, tomavam todo o sonho. Jon suspirou e imaginou como seria uma criança sua com Shiera. Desejou aquilo, apesar de sempre ter proibido a si mesmo de pedir por aquilo. Não sou um bastardo. Não estarei dando vida a um bastardo. Ele era um príncipe. Um príncipe perdido, de uma casa antiga. Ele era um Targaryen...

“E esse não é o seu lugar.” Jon se virou e o viu. O rosto dele era estranho, envolto em neblina. Mas os cabelos eram platinados e os olhos eram violetas. Ele lembrava ligeiramente Lorde Haegon, mas tinha o rosto liso e sem barba, com os cabelos bem mais compridos, como os de Aegon. “Você não deveria estar aqui.” O homem tinha um sorriso misterioso e Jon respirou fundo. Era Rhaegar Targaryen, tinha certeza disso. Nunca tinha visto um retrato que fosse do homem, mas sabia que era ele. “Porto Real. Você deve ir pra Porto Real. Aquele é o seu trono.”

Jon engoliu em seco e Aegon apareceu ao lado dele.

“Sua rainha não é Shiera. Ela é de Robb.” Murmurou Aegon “Case-se com Daenerys.” Aegon já não mais sorria como naquele momento que o vira pela última vez. Ele parecia uma criatura. Não os mortos, mas um caminhante. Os cabelos estavam brancos, como a neve, inclusive a barba por fazer. A pele dele estava azul gelo, e a armadura vermelha dele estava completamente negra, sem o dragão negro entalhado em alto relevo.

Jon se virou para Shiera e ela sorriu. O rosto dela estava muito pálido. Muito pálido. Se aproximou dela e a tocou no rosto, mas ela estava fria. Congelando. E aquilo não fazia sentido. Shiera era quente. A pele dela parecia cada vez mais fria. Fria como gelo. O vestido dela era negro e ela começou a desatar os cordões. Engoliu em seco e o vestido dela escorreu até a cintura. Os seios dela estavam ali como se lembrava deles, firmes, redondos, orgulhosos. Mas cada vez mais pálidos.

“Mire no coração.” Pediu ela. Jon engoliu em seco.

—Não.

“Mate o garoto, Jon Snow.” Murmurou Meister Aemon.

“Você se lembra? Em Castle Black? Na biblioteca?” Perguntou Shiera. Jon se lembrava. Fora onde a beijara pela primeira vez em muito tempo, depois daquele dia em frente ao Represeiro. “Para pegar a Luminífera, precisa mirar no coração.”

—Eu não quero. – Disse aflito e Shiera se aproximou um passo.

“Não me deixe voltar como uma criatura. Me queime. Mire no coração.” Murmurou Shiera.

“Ela pertence ao Inverno, Jon.” Disse Aegon e Jon se virou para olhá-lo “Destrua o coração dela. Case-se com Daenerys.”

—Não vou matar Shiera. Não vou deixá-la morrer! – Disse decidido.

E então todas as figuras de seu sonho ficaram daquela cor, branco azulado. A cor dos caminhantes. Todos eram caminhantes, esticando as mãos para enforcá-lo. Todos menos Rhaegar. Seu pai esticou o braço. Ele usava roupas de cor verde, cobre e laranja. E aquilo não lhe fez sentido algum. Ele era um Targaryen. Suas cores deveriam ser vermelho e preto.

“Venha.” Disse ele. Jon esticou a mão, para segurar a mão dele “Aceite quem você é e não tenha medo.” Disse ele e Jon conseguiu alcançá-lo.

Acordou de uma vez, com a respiração ofegante. Viu que Valerion e Gendry tentavam acordar todo mundo.

—O que houve? – Resmungou Humfrey, encolhido na neve.

—Não sentem? O frio? – Perguntou Valerion. Jon sentia. Estava dolorosamente frio. Quando Valerion falava, nuvens de neblina sopravam de sua boca, perdendo-se no ar, em espirais geladas – Não vimos tempestade alguma, mas está frio demais. – Murmurou ele.

Jon concordou e se abraçou, para em seguida afastar a neve que se prendera em sua roupa. Ficou de pé, sentindo a carne e os ossos doerem de leve pelo cansaço e pelo frio. Tremeu um pouco, batendo os dentes e viu que Valerion tentava acordar Hoster.

—Só mais... um pouco... – Murmurou Hoster.

—Hoster. Precisamos ir. Os mortos estão vindo. – Resmungou Valerion – Anda logo, seu cretino. Está fazendo todo mundo perder tempo!

Hoster xingou em alguma língua estrangeira e se sentou, praguejando. Gendry ajudava Robb a levantar. Tormund se levantou também e logo estavam todos de pé, todos tremendo de frio. Menos Robb e Valerion, que pareciam nem mesmo notar o quão gelado estava.

—Vamos avançar à noite? – Perguntou Humfrey – Estamos sem tochas e sem óleo. – Lamentou ele.

—Temos a lua, será o suficiente. – Resmungou Tormund tomando a dianteira – Se quiser ficar, os Outros que te carreguem.

—Não vou ficar aqui. – Resmungou Humfrey, se abraçando e seguindo Tormund. Jon ficou para trás, com Robb e os dois seguiram a fila, cuidando da retaguarda.

—Você estava tendo pesadelos? – Perguntou Robb. Jon concordou, para mirar o primo com algum questionamento no olhar – Estava falando enquanto dormia. E estava parecendo ter um sonho inquieto.

—O que eu disse? – Perguntou constrangido. Robb suspirou e deu de ombros.

—Estava negando alguma coisa.

Jon mirou a lua e depois o caminho que Tormund liderava. Robb não fez mais perguntas e Jon não tentou dar explicações. Andaram por horas, com a temperatura parecendo ficar ainda mais fria. Hoster, em algum momento, parou de andar, apenas tremendo e tentando arrumar algum calor para si.

—Pelos Sete. Vamos pegar madeira e fazer uma fogueira. – Pediu ele.

—Fogueiras aqui é pedir pra morrer. – Resmungou Tormund.

—P-p-por fa-favor... – Implorou Hoster, tremendo muito. Jon e Robb se aproximaram dele – E-e-eu n-n-não dou c-c-conta. – Lamentou o rapaz tremendo demais. Jon e Robb trocaram um olhar e Valerion andou até o rapaz, retirando as peles que usava.

—Use, Hoster. – Murmurou ele e Hoster se enrolou nas peles de urso – Está melhor?

—E... E v-vo-vo-v-vo...

—Eu vou ficar bem. Tenho sangue de dragão. – Disse Valerion. Ele usava pouca cobertura, mas não pareceu ligar. Lembrou de Shiera, com seus vestidos decotados em plena Muralha. Os homens pareciam prestes a devorá-la com os olhos sempre que ela passava – Estamos perto?

—Estamos há alguns dias de caminhada. – Disse Tormund. Humfrey praguejou, esfregando as mãos uma na outra.

—Maldito Norte grande demais. Poderíamos estar em Dorne, onde as mulheres andam seminuas e o calor é aconchegante, a comida é picante e os cavalos são resistentes. – Reclamou ele, mas o rapaz não demorou a se colocar a andar novamente.

—Será que esse frio não é simplesmente o Inverno? – Perguntou Gendry, com ranho congelado embaixo do nariz.

—Acha que eu não saberia a diferença? – Perguntou Tormund – Vamos logo. Estamos perdendo tempo.

Jon continuou seguindo o caminho. Tormund alertava sobre a geografia, avisando onde era seguro ou não pisar. Avançavam a passo lento, por conta da escuridão. Soprou um bafo quente nas mãos e tentou esfregar os braços em busca de calor. Um frio como nenhum outro parecia persegui-los por mais que avançassem. Humfrey e Gendry começaram a diminuir o ritmo e Jon sentiu-se cansado também. Robb segurou o braço de Humfrey e olhou com camaradagem.

—Vamos. – Disse ele e Humfrey concordou. Estava ligeiramente impressionado com Humfrey e Gendry. Os dois eram de terras quentes e estavam no Norte pela primeira vez. Mas ambos pareciam estar segurando bem as pontas. Um frio gelado soprou do Norte e Jon tentou andar mais depressa. Estava muito cansado.

—Ainda há um pouco de comida? – Perguntou Gendry – Um pedaço de carne salgada e seca?

Jon, sem parar de andar, tirou um pedaço quase congelado de carne de uma sacola amarrada ao cinto. As provisões estavam no fim.

—Aqui. – Disse oferecendo a Gendry. Ele pegou o pedaço e o colocou na boca, fazendo careta.

—Quando chegarmos na Muralha, eu quero comer alguma coisa quente. Um ensopado de queimar a língua... – Murmurou ele.

—Oh, eu quero linguiças. Dessas que estouram na boca quando as mordemos. – Murmurou Humfrey de maneira sonhadora – Com a gordura a escorrer.

—Oh, calem a boca. Estou com fome. – Lamentou Hoster e Jon sorriu – Conte uma história, Humfrey. Para nos distrair. Algo que me faça esquecer o frio.

—Acho que nem o melhor bardo do mundo poderia nos fazer esquecer do frio. – Reclamou Gendry.

—Nem a boceta mais molhada. – Concordou Tormund – Acho que até mesmo uma boceta rosada congelaria nesse frio.

—Mesmo que eu tivesse muita curiosidade para constatar esse ponto... – Começou Humfrey – Não acho que teria coragem de colocar o pau pra fora. Ele provavelmente congelaria. – Tormund deu uma gargalhada e Humfrey respirou fundo, parecendo pensativo – Existe uma história em Oldtown... – o rapaz suspirou e Jon o mirou – Que conta sobre um capitão que decidira explorar o mar Oeste. Mas sete dias depois de deixar o porto, uma tempestade o pegou. O navio naufragou e ele ficou à deriva, sendo o único sobrevivente, a boiar agarrado a um pedaço de madeira. Um pedaço grande o suficiente para que ficasse sentado em cima. Tudo o que tinha eram algumas garrafas de rum, dois cantis com água, um pouco de pão molhado e sua espada. No primeiro dia ele rezou para o Pai, pedindo sabedoria, e então arrumou um pedaço de madeira e começou a remar para Oeste, na intenção de achar uma Ilha que fosse, pois sabia que não sobreviveria para voltar ao continente. O primeiro dia ele remou, mas nada encontrou. – Humfrey fez uma pausa e todos tentaram andar mais próximos, para escutá-lo. E isso trouxe uma sensação de ficar minimamente menos frio – No segundo dia, rezou para a Mãe, procurando proteção, e continuou remando para o desconhecido. Mas quando o dia chegou ao fim, ainda estava cercado por água, por mais que as correntes marítimas tivessem sido generosas em ajudá-lo a rumar ao Oeste. – Humfrey respirou fundo, procurando algum fôlego – No terceiro dia, rezou ao Ferreiro, pedindo que pudesse ser abençoado por ele. E então encontrou cordas e mais madeira flutuando na água, além de uma rede. Ele usou o que tinha para construir uma jangada e então usou a rede para pescar. Ele se alimentou da carne crua dos pescados e, quase morrendo de fome, achou tudo delicioso. No quarto dia, rezou ao Guerreiro assim que viu barbatanas negras cortarem a água. Duas delas. Dois tubarões começaram a rodear sua pequena jangada improvisada. – O vento soprou mais uma vez, violento, fazendo a neve flutuar pelo chão, açoitando as pernas deles. Logo uma pequena película de neve cobria toda a lateral direita de seus corpos – Ele lutou contra os tubarões, que fugiram, mas não antes de perderem suas barbatanas, que o homem usou de alimento. – Humfrey suspirou, parecendo sem ar. Jon abriu e fechou os dedos, sabendo que se ficasse sem mexê-los, eles poderiam congelar – No quinto dia, ele rezou para a Velha, pedindo que ela o guiasse. O céu estava escuro e cheio de nuvens, escondendo as estrelas. E mesmo antes da noite chegar, o sol parecia completamente escondido. Mas então a Velha fez o mar brilhar, apontando a direção que ele deveria seguir. No sexto dia, a Donzela esperou que ele rezasse por ela, mas o homem não poderia imaginar o que a Donzela poderia fazer por ele. Então ele rezou ao Estranho, implorando que ele não viesse. E o Estranho sentou pacientemente, até que fosse chamado. Ficar à deriva por muito tempo, sem chance de resgate, faz com que um homem prefira logo uma morte rápida a definhar lentamente por muito tempo. Então o Estranho esperou ser chamado. No sétimo dia, ele sabia que só havia mais um deus a quem recorrer. Mas mais uma vez ele não viu o que a Donzela poderia fazer por ele. Pensou em voltar ao início, pedindo proteção do Pai, mas preferiu dedicar o dia a si mesmo. E então continuou remando para o Oeste. Mas nada encontrou. Quando a noite chegou, sentindo-se perto do final, se perguntou se chamaria o Estranho, se entregando, ou apostaria na improvável chance de ser salvo pela Donzela. No fim optou por rezar para ela. – Humfrey olhou para o céu e suspirou – Mas a divindade já estava ofendida o demasiado pela pouca fé dele. Quando ele terminou sua oração, viu a superfície da água agitar-se. Pensou que eram os tubarões, novamente, mas era uma mulher. Uma linda mulher. Ela sorriu e o chamou para água, falando que ele estava muito próximo de terra. Apaixonado pela beleza dela, ele não pensou duas vezes e pulou na água. Foi quando notou que a mulher tinha cauda de peixe. Era uma Sereia.

—Uma mulher com cauda de peixe? – Perguntou Tormund – Vocês do Sul têm cada ideia.

—A Sereia nadou com ele montado em cima dela. Nem parecia ter ficado tanto tempo à deriva, tamanho vigor que exibia entre as pernas. – Narrou Humfrey e Hoster e Gendry deram risadinhas – E depois de algum tempo, ela parou de nadar e ele deslumbrou a praia. Ele nadou até o raso e a Sereia o agarrou quando a água estava batendo em seu peito. Ela então jurou que ele não deixaria a água, pois ela não tinha carinho por ele. Então o devorou. – Humfrey suspirou e mirou o céu.

—Se ele morreu, quem contou a história? – Perguntou Tormund.

—Nunca disse que era uma história real. – Riu Humfrey – Não existe terras ao Oeste. O mundo acaba numa Ilha com um farol, no Mar do Oeste. Nada mais além de mar existe do outro lado.

—Como é que você sabe? – Perguntou Tormund.

—Está escrito. – Disse ele dando de ombros – Se os Meisters estão certos e o mundo é redondo, em algum ponto o Oeste vira Leste. Ele chegaria nas terras pra lá de Yi Ti.

O vento gelado lhes açoitou mais uma vez e Tormund interrompeu a marcha. Todos pararam, olhando para ele. A neve estava flutuando com vigor, e era difícil enxergar muito mais a frente. O som do gelo levado pelo vento fazia um silvo característico, principalmente agora que Humfrey terminara a história. Todos olharam para frente, procurando o que quer que fosse que tinha feito Tormund encerrar o passo. O único som que Jon escutava era o soprar do vento, os pequenos cristais de gelo a cortarem o ar e o desembainhar de espadas. Sua mão foi até o cabo de Longclaw e a desembainhou. Blackfyre continuava presa firmemente em suas costas. Sombras confusas começaram a aparecer por todos os lados. O morto que tinham capturado se mexia tanto que Gendry o jogou no chão. Ouviu um respirar profundo coletivo, assim como um prender a respiração também. As sombras começavam a parecer menos estranhas na escuridão e pontos azuis brilhantes começaram a surgir em meio à nevasca que soprava.

Jon prendeu a respiração quando as criaturas começaram a se tornar nítidas. O vento parou de soprar repentinamente e a lua lá em cima brilhou com força, iluminando o inimigo. Haviam mortos ali. Mortos que os cercavam, posicionados em meia lua. Eles bloqueavam o caminho norte e oeste. Incontáveis. A Sul estava a Muralha e eles tinham vindo do Leste. Estávamos tão perto. Lamentou apertando o punho de Longclaw. Haviam três Caminhantes ali. Os três montados em aranhas grandes o suficiente para abraçar um urso com suas longas patas finas e peludas, revestidas com inúmeros cristais de gelo. Jon respirou fundo e uma nuvem branca saiu de sua boca. Estava mais frio do que nunca, por mais que o vento tivesse cessado. Ele olhou para os mortos. Eram muitos, um verdadeiro exército. Depois mirou os três Caminhantes. O do meio era o mesmo que vira em Hardhome e o encarava com frio desprezo.

Era a segunda vez que via aquele Caminhante. Se perguntou se haveria uma terceira.

Os monstros rosnaram, se aproximando lentamente. Robb o encarou por um segundo e Jon olhou para ele. Não sairiam dali vivos, mas não morreriam sem lutar. Robb cortou de leve a própria mão e o sangue que ficara na lâmina da espada pegou fogo, como Thoros costumava fazer. Jon apertou Longclaw, Valerion girou Dragonblood antes de posicionar-se. Tormund sacudiu de leve seu machado e Gendry pegou o martelo de guerra. Humfrey sacou sua espada, olhando para os lados. Hoster lutava com duas espadas de uma mão e ele as empunhou, parecendo assustado. Os mortos vieram, enquanto os Caminhantes assistiam de uma pedra mais alta. Jon sentia os olhares deles sobre si. Será que ele sabe quem eu sou? Da história do Fantasma? Será que já nos enfrentamos, em outra vida? E se eu morrer agora? Terei outra vida para viver? Nascerei de novo?

Não era tempo de pensar nisso. Era tempo de lutar e se defender, de novo.

Seus braços e costas estavam doloridos, feridos. Cansados. Mas brandiu a espada, defendendo-se dos mortos. Sempre que podia, observava seus companheiros. Hoster, Humfrey, Gendry, Valerion, Tormund e Robb. Engoliu em seco e continuou a lutar. Um monstro pulou em suas costas, mas Robb o arrancou de lá. Deram as costas um para o outro, para protegerem suas retaguardas e então espadas cortaram o ar. Escutou um gemido e sua atenção foi desviada. Hoster fora derrubado no chão e os mortos se jogaram em cima dele.

—HOSTER! – Gritou Valerion tentando abrir caminho. Mas eram mortos demais. Jon cortou a cabeça de um inimigo a tempo de ver um punhado de tripas ser jogado para cima. Hoster, o Bardo, estava morto. Engoliu em seco e chutou um morto para longe, para então cortá-lo ao meio. Outro grito.

—Socorro! – Lamentou Tormund. Os mortos o desarmaram e o puxavam para perto – Socorro! – Gritou ele e Humfrey cortou os braços que seguravam o selvagem.

—Nada mal para um menino sulista. – Riu Humfrey, mas um morto pulou em cima dele e o mordeu no pescoço. O ouviu gritar, tentando se livrar da criatura e Tormund a arrancou das costas dele.

—É, mas fala demais. – Ralhou o selvagem. Foram se apertando, dando as costas uns para os outros. Seus ombros estavam colados. Cercados. Derrotados. Mirou o Rei da Noite e depois os mortos. Eles esticavam os braços, mas o aço veloz cortou o ar, assim como carne e ossos. Mas não poderia impedir o inevitável por muito tempo.

Foi quando um rugido cortou os céus. Todos olharam para cima, até mesmo os mortos. Três sombras se aproximavam com velocidade. Não entendeu o que era quando as viu. Mas quando o brilho e o calor tomaram o ar da noite, entendeu do que se tratava. Era Daenerys. O calor das chamas atingiu o chão e um som de coisas explodindo tomou a noite. Fogo começou a queimar toda aquela carne podre. Os mortos os esqueceram por um momento e Robb aproveitou para começar a abrir caminho.

—Vamos! – Gritou ele.

Os três dragões queimavam tudo ao redor deles. O calor deles era sufocante, mas muito bem-vindo.

—Não é possível... – Murmurou Humfrey, paralisado, mirando as feras, mas Tormund o puxou pelo cotovelo.

—O momento para contemplação não é agora! – Ralhou ele e Jon não poderia concordar menos que isso.

O Dragão negro pousou, enquanto os outros dois o cercavam, colocando fogo nos mortos, que tentaram ir para cima dele. Com a cauda ele esmagou, quebrou e arremessou um monte corpos.

—Venham! Rápido. – Gritou Daenerys de cima da fera.

Começaram a correr na direção dela.

—Sete Infernos. – Escutou Valerion rosnar.

—O que foi? Não me diga que ainda tem medo de altura. – Riu Humfrey e Valerion engoliu em seco. Robb e Jon ficaram segurando os mortos para que os outros subissem, mas logo Jon viu algo que fez seu sangue gelar.

—O nosso morto! – Ralhou. Robb e ele olharam para o lugar onde tinham estado e depois trocaram um olhar. Começaram a voltar correndo para onde tinham estado e escutaram os gritos dos companheiros – Leve o corpo. Eu te cubro.

Robb era mais alto e mais forte que ele. Conseguiria correr mais rápido por conta disso.

—Certo.

Correram até o corpo e Jon ficou matando tudo que se aproximasse. Mas quando Robb colocou a criatura nas costas, Jon foi atacado pelos dois lados. Se defendeu da melhor maneira que podia, mas foi agarrado pelas costas. Rosnou tentando se livrar e escutou um silvo cortar o ar, junto com um solavanco, que arrancou o monstro de suas costas. Olhou para o lado, para o morto e viu que havia uma flecha na cabeça dele. O monstro sacudiu a cabeça e começou a se levantar, mas o cortou ao meio. Voltou a correr, observando o dragão branco e notou que ele também estava montado. Montado por um arqueiro. Um arqueiro de longos cabelos negros.

—Shiera! – Disse chocado e escutou Robb bufar.

—Eu disse que ela não deveria vir. Mas que mulher teimosa dos infernos. – Ralhou o rapaz e Jon riu abrindo o caminho.

—Venham rápido! – Gritou Daenerys. Robb começou a subir o morto, com a ajuda de Gendry, enquanto Drogon, Shiera e Jon davam cobertura. Mirou Shiera lá de baixo, impressionado com a boa mira dela. Ela era uma excelente arqueira, mesmo atirando do dorso de um dragão. Sorriu para ela, mas seu sorriso logo morreu, seu sangue gelou e seu coração pareceu parar por um segundo. O Rei da Noite atirou uma lança no dragão branco, mas errou por pouco.

—SHIERA! CUIDADO. – Gritou.

Um caminhante entregou outra lança para o Rei da Noite. Shiera o colocou na mira. Todos observavam, chocados. A lança cortou o ar, assim como a flecha. Um momento de silêncio se extendeu e então, um rugido choroso cortou o ar.

—NÃO! – Gritou Valerion. Robb parecia ter perdido a capacidade de falar. O dragão despencou do céu, caindo muitos metros dali, acertado pela lança de gelo do Rei da Noite. Daenerys mirava a cena, em choque. Tudo parecia extremamente silencioso, até escutarem o baque da fera caindo sobre a neve. Depois disso os outros dois dragões rugiram e isso fez todo mundo despertar do choque.

—Faz essa coisa voar! – Pediu Gendry.

—Eu vou salvá-la! – Disse Valerion, mas Tormund o segurou com o olhar cheio de pesar – Me solte! – Implorou Valerion. Jon sentiu uma pontada no coração e mirou Robb. Ele parecia prestes a cair de joelhos. Preciso ser forte... Puxou o primo e o fez subir no dragão.

—Vai, Daenerys! Vai! – Rosnou e Daenerys fez Drogon abrir as asas.

Jon mirou o Rei da Noite. Ele tirava uma flecha que o acertara onde deveria ficar seu coração. Ele observou a ponta de pedra e pegou outra lança, entregando a flecha que o acertara a um de seus caminhantes. Com a lança em mãos, ele fez a mira e Daenerys notou também. A lança cortou o ar e Drogon fez um giro perigoso para esquivar. Foi quando Robb escorregou. Tentou agarrá-lo, mas não houve tempo e ele foi escorregando pelo dragão, soltando um grito assustado. Humfrey pulou, perigosamente, num reflexo, agarrando-se à crista do dragão com uma mão e segurando a mão de Robb com a outra. Jon prendeu a respiração, mirando aquele rapaz que sempre fora seu irmão e seu melhor amigo.

—ROBB! – Gritou, segurando-se ao dragão. Daenerys olhou para trás, assustada com seu grito e Drogon gritou enquanto voava.

—Segure-se! – Pediu Humfrey – Vamos, Robb, segure. Segure com força! – Jon mirou o primo, mas ele simplesmente despencou lá do alto, lentamente. Conseguiu ver o rosto de Robb se afastar, até desaparecer na escuridão – NÃO! MERDA! – Humfrey quase se soltou do dragão, mas Valerion o puxou e ele se equilibrou. Jon sentiu o olhar de Humfrey, como se ele dissesse que sentisse muito – A mão dele... estava escorregadia. – O rapaz lhe mostrou a mão ensanguentada. Robb a tinha cortado para colocar fogo na espada – Eu sinto muito, Jon. Eu tentei. – O rosto dele estava cheio de pesar.

Jon engoliu em seco e mirou Valerion. O rapaz chorava em silêncio, segurando o morto que se remexia. Olhou lá para baixo, para a neve. Nada viu do irmão, que há muito ficara para trás, devido à velocidade que Drogon voava. Não poderia fazer diferente de Valerion. Robb e Shiera sorriram em sua memória. E então Jon soltou um grito de dor e lamento, para então chorar desolado.

Notas finais
Pois é, gente. E aí? Me digam o que acharam ehehhehee Vamos para as prévias? "-Onde estão Robb e Shiera? – Perguntou Sansa, apesar da resposta ser bastante óbvia – Eles estão com Viserion, em alguma outra missão?" "Sentiu as duas mãos dela sobre seu peito e os dois suspiraram – Valerion. —Sim? —Volte pra mim. Não fique com Myrcella. " Só isso mesmo. Plz, comentem. Não me deixem aqui, catatônica, falando sozinha, ok? Beijos. Titia ama vocês