Blackfyre
22 Recompensas
Notas iniciais

Recompensas
Sonhou com Daenerys e seus lábios carnudos, a distribuir beijos por seu corpo. Mas antes que a boca desejada chegasse onde mais queria, se obrigou a acordar. Não poderia incentivar aqueles sonhos. A última vez que se apaixonara por uma mulher de nascimento mais elevado que o seu só tinha lhe causado sofrimentos. Daenerys era sua rainha e ele não tinha o direito de desejá-la da maneira que o fazia. Suspirou sonolento e olhou para o lado, onde Doreah dormia tranquilamente, nua, sob a luz da lua que entrava pela janela. Se virou para passar uma mão pela pele macia dela. Doreah deveria estar dormindo com Daenerys e não com ele. Ela era uma aia da rainha.
Resmungou sentindo seu membro viril pulsar por causa do sonho que tivera e decidiu que não acordaria Doreah. Sabia que ela tinha engravidado e tirado um filho seu e a última coisa que ele queria era um bastardo. Já tinha um em Westeros e outro em Volantis. Ou ao menos era o que disseram aquelas mulheres. Como nenhum dos dois tinha traços valirianos, não pode ter certeza, mesmo tendo dando um bocado de ouro para as duas. Por um momento se lembrou do garoto que supostamente era seu filho, em Volantis. Parecia um dornês, na verdade, com os cabelos e olhos escuros e a pele morena. Já deveria estar com oito anos? Provavelmente menos. Só o vira umas três vezes e o menino, aparentemente, não sabia de quem supostamente era filho. Preferia assim. Se fosse para ter um filho Dornês, que ao menos fosse com... Sacudiu a cabeça afastando aqueles pensamentos. Não permitiria que o passado viesse assombrá-lo novamente.
Olhou para Doreah e imaginou que seu filho com ela provavelmente teria feições Valirianas. Mas um filho com Daenerys certamente teria...
Se levantou, se proibindo de ter aquele tipo de pensamento. Andou pelo quarto, completamente nu, agradecendo pela brisa fresca que entrava pela janela. Mirou a lua cheia e se perguntou como estariam seus irmãos. Valerion estava em Porto Real, provavelmente fazendo os outros de idiotas. Ele nascera para a corte, Valerion. Muito mais do que Shiera.
Sorriu ao lembrar-se da irmã. Pelo que escutara, ela estava esperando um filho do Rei do Norte. Sim, sua irmã nascera para ser rainha.
—E eu? Para que nasci? Para ser uma espada, apenas? – perguntou para a lua, mas não recebeu resposta. Suspirou e foi até a mesa, servir um pouco de vinho para si mesmo. Iriam partir no dia seguinte. Como sabiamente Daenerys decidiu não casar-se com Xaro, o comerciante cansou-se de recebê-los. Mas ainda não sabiam para onde iriam. Somente que seguiriam para o porto no dia seguinte, para conseguir um navio. De lá iriam para Pentos, onde se encontraria com Alexander e seus escudeiros. Adicionaria seus navios à frota e então... – E depois, o que faremos? – perguntou franzindo o cenho – Poderíamos ir para Volantis... para meu avô... pelo menos até que os dragões estejam maiores.
Notou uma movimentação na cama e deu um bom gole em seu vinho. Doreah moveu-se na cama e ele ficou admirando sua bela silhueta à pouca luz. Era uma mulher bonita, Doreah. E nunca tinha tido alguém tão boa de cama. Não cansava de fodê-la... ainda mais porque ela fazia de bom grado.
Seu avô lhe contara certa vez que nenhuma puta fazia algo por caridade, nem comerciantes. Se perguntou qual preço ela cobraria. Imaginou, quando ela lhe disse que estava grávida, que iria ter o bebê, para forçá-lo a bancá-la. Mas ela deu fim à gravidez sem perguntar sua opinião e ele não a julgou por isso. Ela tinha escapado da morte no deserto e certamente desejaria esperar um momento melhor para resolver ter um filho. Por isso sempre comprava folhas no porto para ela, para que fizesse um chá e evitasse de engravidar.
Doreah moveu-se de novo e abriu os olhos, sonolentas.
—Meu cavaleiro prateado... – sussurrou ela manhosamente – Por que deixaste a cama? – indagou ela se sentando, fazendo com que o lençol de seda azul escorregasse para seu colo, permitindo que ele vislumbrasse seus pequenos e firmes seios rosados. Seu membro pulsou novamente, desejando-a e Doreah notou – Vejo que estava me observando dormir. – concordou com um aceno de cabeça. Ela se levantou e veio andando em sua direção, com os cabelos bagunçados pelo travesseiro, numa selva macia e cor de mel, adornando sua linda cabeça – O que houve, senhor?
—Não tenho mais sono. – murmurou e sentiu a mulher sentar-se em seu colo, colocando cada perna de um lado de seus quadris. Apertou-lhe o queixo, com delicadeza e ela lhe deu um beijo gentil, movendo-se de maneira a encaixar-se sobre ele, sendo preenchida e fazendo com que gemessem ao mesmo tempo. A segurou nas ancas, com força e a beijou de volta, a apertando contra si. Seus lábios deixaram os dela para aventurar-se no vale entre seus seios, antes de passear a língua por cada auréola rosada que circundava os pequenos mamilos. Os sugou e mordiscou, forçando a moça contra si, sentindo-a apertar seu membro enquanto soltava os mais deliciosos gemidos, calmos e sussurrados, como se fossem um segredo entre eles – Doreah...
—Sim, meu cavaleiro de prata? – perguntou ela com a voz gemida e sensual.
—Daenerys sabe de nós? – perguntou roucamente.
—E isso importa? – perguntou ela parando de uma vez, provavelmente sentindo ciúmes. No início ela nunca demonstrara ciúmes, mas nos últimos tempos ela deixava transparecer claramente.
—Sim. – respondeu ele a olhando convencido – Não quero que a rainha fique brava comigo por sequestrar sua dama de companhia. – ele suspirou e olhou para Doreah – Daenerys perdeu o marido há alguns meses, já.
—E por acaso já deseja tomar o lugar dele?! – perguntou ela, imóvel em seu colo.
—Não cabe a mim desejar isso. – riu mais uma vez – Penso que talvez a rainha sinta falta... de prazer. – explicou ele e Doreah sorriu.
—Gostaria de me ver com a Khaleesi. – deduziu ela. Aegon sorriu imaginando a cena e quando Doreah voltou a mover o quadril, de maneira deliciosa, ele soltou um gemido rouco – Precisa esquecê-la, meu cavaleiro de prata. Deve entregar seu coração a quem possa recebê-lo. – explicou ela. Aegon sorriu se perguntando se ela era tola o suficiente a ponto de pensar que ele seria dela de verdade.
—Doreah... – murmurou, mas achou que seria melhor satisfazer-se primeiro, antes de conversar aquilo com ela. A pegou pelas pernas, levantou-se e a colocou na cama, para transar da maneira que preferia. Por cima, com força e selvageria. Logo a mulher começou a gemer, com um sorriso no rosto. Adorava o sorriso no rosto naquele momento – Oh, Doreah... – sussurrou para ela e a mulher soltou um gemido mais comprido, o arranhando nas costas com força, rasgando-lhe a pele de maneira deliciosa.
Se levantou um pouco, para virá-la, colocá-la de quatro, como os Dothraki fodiam. O som de seus corpos batendo um contra o outro tomou o quarto, sendo cortado vez ou outra pelo som dos gemidos femininos. Curvou-se contra ela, enquanto movimentava-se, para afagá-la em sua intimidade, estimulando-a mais, arrancando mais gemidos da mulher. Quando estava para terminar, ela soltou um gemido mais sofrido e longo, chamando seu nome repetidamente. Desejou que ela não fizesse isso. Não precisava que a mansão inteira soubesse que a estava fodendo. Mas continuou movendo-se até explodir dentro dela. Soltou um gemido rouco e aliviado, movendo-se cada vez mais devagar, até parar. Acariciou a nádega redonda dela e lhe deu um tapa de leve.
Desceu da cama e foi beber mais vinho, enquanto Doreah se enroscava como uma gata nos lençóis, com um sorriso de pura satisfação no rosto.
—Isso foi mesmo maravilhoso. – sussurrou ela, parecendo feliz.
—Sou mesmo tudo isso? – perguntou curioso – Ou só faz o que foi treinada para fazer. Enganar os homens?
Ela soltou uma risadinha cruel e se virou, abrindo as pernas para ele e se tocando com os dedos.
—Você nunca saberá.
Sorriu achando a visão excitante e assim que terminou seu vinho, se enfiou dentro dela novamente.
No dia seguinte, Doreah foi para o quarto de Dany, nas pontas dos pés, antes mesmo do sol nascer e ele aproveitou para dormir mais um pouco. Foi acordado por Aggo, que dizia que Dany queria ir logo para o porto. Se arrumou o mais rápido possível, usando uma roupa mais leve e confortável, deixando sua armadura para trás. Porém, atou Blackfyre firmemente no cinto. Nunca ia a lugar algum sem sua espada. A espada de sua família.
Depois seguiu para junto de sua rainha. Ele, Jorah e ela, cada um em um cavalo, andando num trote lento e mole, pelas ruas apinhadas de Qarth, com Aggo e Jhogo abrindo caminho mais a frente.
—O dragão tem três cabeças – suspirou Dany. – Sabem o que isso quer dizer? – perguntou ela de repente. Aegon franziu o cenho, pensando a respeito. Seu pai falara isso para ele, antes que deixasse Harrenhal.
—Vossa Graça? – disse Jorah – O símbolo da Casa Targaryen é um dragão de três cabeças, vermelho sobre fundo negro.
—Acho que ela sabe disso, Sor. – riu Aegon arqueando as sobrancelhas, com um sorriso divertido.
—Não existem dragões de três cabeças. – disse Dany, com o cenho franzido, pensando a respeito.
—As três cabeças eram Aegon e as irmãs. – disse Aegon lembrando da história que seu pai lhe contava quando era apenas um menino sonhador, que dormia com ovos de dragão.
—Visenya e Rhaenys – recordou Dany – Descendo de Aegon e Rhaenys através de Aenys, seu filho, e de Jaehaerys, seu neto.
—Lábios azuis só dizem mentiras, não foi o que Xaro disse? – perguntou Jorah, com pouco interesse – Por que se importa com o que os magos sussurraram? Agora sabe que tudo o que queriam era sugar sua vida.
Os magos tinham roubado os dragões e atraído Dany para a Casa dos Imortais, com a intenção de roubarem a magia da rainha, ou era isso que tinham entendido. Porém Drogon impediu que Pyat Pree a atacasse e deu tempo para que Rakharo, Jorah e Aegon chegassem para salvá-la.
—Talvez... – ela disse relutante – Mas as coisas que vi…
—Um homem morto na proa de um navio, uma rosa azul, um banquete de sangue… O que significam essas coisas, Khaleesi? Falou de um dragão de pantomimeiro. O que é um dragão de pantomimeiro, diga-me?
—Um dragão de pano montado em varas – Dany explicou. – Os pantomimeiros usam-nos em seus espetáculos, para dar aos heróis algo com que lutar. – Sor Jorah franziu a testa. Dany não conseguia abandonar o assunto — É sua a canção de gelo e fogo, disse meu irmão. Tenho certeza de que era meu irmão. Não Viserys, mas Rhaegar. Tinha uma harpa com cordas de prata.
—Todos sabem que Rhaegar tinha uma harpa de prata. – disse Aegon – Escutei que suas músicas eram as coisas mais belas que se poderia ouvir em vida. – continuou ele.
O franzir de testa de Sor Jorah aprofundou-se tanto que as sobrancelhas se juntaram.
—O Príncipe Rhaegar tocava uma harpa, sim... – ele anuiu. – Viu-o?
Ela confirmou com a cabeça.
—Havia uma mulher numa cama, com um bebê no peito. Meu irmão disse que o bebê era o príncipe que havia sido profetizado e falou à mulher para chamá-lo Aegon.
—O Príncipe Aegon era herdeiro de Rhaegar, filho de Elia de Dorne – disse Aegon – Mas se era ele o príncipe da profecia, esta foi quebrada com o seu crânio, quando Gregor Clegane atirou sua cabeça contra uma parede.
—Eu me lembro. – a voz dela soou triste – Também assassinaram a filha de Rhaegar, a princesinha. Chamava-se Rhaenys, como a irmã de Aegon. Não havia uma Visenya, mas ele disse que o dragão tem três cabeças. O que é a canção de gelo e fogo?
—Não é nenhuma canção que eu tenha ouvido. – disse Jorah e Aegon sorriu.
—Meu pai me falou sobre a Canção de Gelo e Fogo. – disse Aegon – Infelizmente eu não costumava prestar atenção em suas histórias... mas era algo relacionado com o príncipe que foi prometido. – esclareceu ele. Daenerys franziu a testa novamente.
—Meu irmão falou isso. – disse ela – Ele disse que Aegon era o príncipe que foi prometido.
—Ele não era, porque o Dragão tem três cabeças. – riu Aegon dando de ombros – Ele precisava ter mais um filho. Ou filha. – ele suspirou – Mas dizia-se que a princesa Ellia tinha uma saúde muito frágil. Portanto ela não poderia engravidar de novo. Talvez tenha sido por isso que Rhaegar capturou Lyanna. Uma Stark. Um filho deles seria filho do gelo e do fogo. Targaryen e Stark. – por um momento pensou em Shiera. Ela era feita de fogo, também, sendo uma Blackfyre. E se casara com o herdeiro dos Stark e aparentemente estava grávida. O Príncipe do Norte, que foi prometido... seria ele?
—Fui encontrar os magos esperando respostas, mas em vez disso deixaram-me com uma centena de novas perguntas. – resmungou Daenerys.
Àquela hora do dia já havia muitas pessoas nas ruas.
—Abram alas – gritava Aggo, enquanto Jhogo farejava o ar com uma expressão de suspeita.
—Estou sentindo o cheiro, Khaleesi — ele gritou. – A água venenosa – os dothrakis desconfiavam do mar e de tudo o que se movesse nele. Água que um cavalo não podia beber era água com que não queriam lidar. Idiotas supersticiosos.
Qarth era um dos grandes portos do mundo, com longos cais abrigados que eram uma profusão de cores, sons e estranhos cheiros. Tabernas, armazéns e antros de jogo alinhavam-se ao longo das ruas, ao lado de bordéis baratos e aos templos de deuses peculiares. Batedores de carteira, assassinos, vendedores de feitiços e cambistas misturavam-se em todas as multidões. A margem era um grande mercado, onde a compra e a venda prosseguiam de dia e de noite, e bens podiam ser obtidos por uma fração do que custariam na feira, se não se fizesse perguntas sobre sua origem.
Velhos encarquilhados, encurvados como corcundas, vendiam águas aromatizadas e leite de cabra, armazenados em cântaros de cerâmica vidrada que traziam presos aos ombros. Marinheiros de meia centena de nações vagueavam por entre as bancas, bebendo licores temperados e trocando piadas em línguas de estranhas sonoridades. O ar cheirava a sal e a peixe frito, a alcatrão quente e a mel, a incenso, óleo e esperma.
Aggo deu a um moleque uma moeda de cobre por um espeto de ratos assados com mel, que foi mordiscando enquanto avançavam. Jhogo comprou uma porção de grandes cerejas brancas. Em outro local, viram belos punhais de bronze à venda, lulas secas e ônix esculpido, um potente elixir mágico feito de leite de virgem e de sombra da tarde, até ovos de dragão que se pareciam, de forma suspeita, com pedras pintadas.
Enquanto passavam pelos longos cais de pedra reservados aos navios dos Treze, Dany viu arcas de açafrão, olíbano e pimenta sendo descarregadas do ornamentado Beijo Cinábrio de Xaro. A seu lado, barris de vinho e fardos de folhamarga e de peles listradas eram rolados pela prancha acima até a Noiva de Blau, que devia zarpar na maré da noite. Mais à frente, reunira-se uma multidão em volta da galé da Guilda, Resplendor Solar, a fim de licitar escravos. Era bem sabido que o lugar mais econômico para comprar um escravo era logo à saída do navio, e as bandeiras que flutuavam em seus mastros proclamavam que o Resplendor Solar tinha acabado de chegar de Astapor, na Baía dos Escravos.
Avançaram com seus cavalos ao longo de várias milhas dos cais, docas e armazéns das três associações, até a ponta mais distante do porto em forma de ferradura, onde era permitida a ancoragem dos navios provenientes das Ilhas do Verão, Westeros e das Nove Cidades Livres.
Desmontaram junto a uma arena de apostas, onde um basilisco fazia em pedaços um grande cão vermelho, no centro de um ruidoso anel de marinheiros.
—Aggo, Jhogo, guardem os cavalos enquanto Sor Aegon, Sor Jorah e eu falamos com os capitães.
—Às suas ordens, Khaleesi. Vamos vigiá-los daqui.
Era bom voltar a ouvir homens falando valiriano, e até o Idioma Comum, Aegon pensou enquanto se aproximavam do primeiro navio. Algumas vezes vinha até ali apenas para ouvir as pessoas falarem. Marinheiros, estivadores e mercadores abriram passagem quando eles se aproximavam, sem saber o que pensar daquela menina magra, de cabelos louro-prateados, que se vestia à moda dothraki e caminhava com dois cavaleiros ao seu lado. Apesar do calor do dia, Sor Jorah vestia sua capa de lã verde sobre uma cota de malha, com o urso negro de Mormont cosido no peito. Aegon optara por algo mais fresco, mas com o bordado do dragão negro no peito.
Mas nem a beleza de Dany nem o tamanho e a força de Jorah, ou mesmo a espada no cinto de Aegon teriam utilidade no trato com os homens de cujos navios precisavam.
—Pede passagem para uma centena de homens dothraki, todos os seus cavalos, você, estes cavaleiros e três dragões? – perguntou o capitão da grande coca Amigo Ardente, antes de se afastar, rindo. Quando ela disse a um liseno, no Trombeteiro, que era Daenerys Nascida da Tormenta, Rainha dos Sete Reinos, ele lhe deu um olhar inexpressivo e disse:
—Bem, e eu sou o Lorde Tywin Lannister e cago ouro todas as noites.
O mestre de carga da galé de Myr, Espírito de Seda, opinou que os dragões eram perigosos demais no mar, onde qualquer fiapo de chama podia incendiar o cordame. O dono da Barriga de Lorde Faro arriscava os dragões, mas não os dothraki.
—Não quero nenhum desses selvagens sem deus na minha Barriga, não, não. – e sinceramente não o julgava...
Os dois irmãos que capitaneavam os navios gêmeos Mercúrio e Galgo mostraram-se compreensivos e convidaram-nos a entrar na cabine para tomar um copo de tinto da Árvore.
Foram tão corteses que Dany pareceu sentir-se esperançosa durante algum tempo, mas, por fim, o preço que pediram estava muito além de suas possibilidades, e talvez estivesse além até das de Xaro.
Petto Beliscão e Donzela de Olhos Negros eram pequenos demais para as suas necessidades; Bravo dirigia-se para o Mar de Jade, e Magíster Manolo quase não parecia capaz de navegar.
Enquanto se dirigiam ao cais seguinte, Sor Jorah pôs a mão na parte de baixo das costas de Dany, deixando Aegon enciumado com a intimidade.
—Vossa Graça. Está sendo seguida. Não, não se vire. – sussurrou ele e Aegon se envergonhou por não ter notado também. Jorah os guiou até a bancada de um vendedor de latões. – Isto é um trabalho notável, minha rainha. – proclamou em voz alta, erguendo uma grande bandeja para que ela a inspecionasse. – Vê como brilha ao sol?
O latão estava muito polido. Aegon conseguia ver nele o seu rosto… e quando Sor Jorah o inclinou para a direita, conseguiu ver atrás de si. Depois virou para que Dany pudesse ver também.
—Vejo um homem gordo mulato e outro mais velho com um bastão. Qual deles é? – perguntou ela.
—Os dois – Sor Jorah respondeu. – Vêm nos seguindo desde que deixamos para trás o Mercúrio.
As ondulações no latão esticavam os dois estranhos de forma bizarra, fazendo com que um dos homens parecesse alto e muito magro e o outro imensamente atarracado e gordo.
—Um latão excelente, grande senhora – exclamou o mercador. – Brilhante como o sol! E para a Mãe de Dragões, são só trinta honras.
A bandeja não valia mais do que três.
—Onde estão os meus guardas? – Dany quis saber. – Este homem está tentando me assaltar! – dirigindo-se a Jorah, abaixou a voz e falou no Idioma Comum: – Podem não me querer mal. Os homens olham as mulheres desde o início dos tempos, talvez não seja mais do que isso.
Aegon duvidava muito disso, olhando de maneira indiscreta e desconfiada para a dupla. O mulato era quase tão gordo quanto parecera na bandeja, com uma cintilante cabeça calva e o rosto liso de um eunuco. Trazia um longo arakh curvo enfiado na seda amarela manchada pelo suor de sua faixa de cintura. Acima da seda, estava nu, à exceção de um colete absurdamente minúsculo com tachões de ferro. Velhas cicatrizes entrecruzavam-se em seus braços grossos como troncos de árvores, peito e barriga enormes, numa cor mais clara do que a de sua pele cor de avelã. O outro homem usava um manto de viajante feito de lã crua, com o capuz atirado para trás. Longos cabelos brancos caíam sobre seus ombros, e uma barba branca e sedosa cobria a metade inferior do seu rosto. Apoiava o peso num bastão de madeira dura tão alto quanto ele. O vendedor de latões ignorou os sussurros.
—Trinta? Eu disse trinta? Que tolo sou. O preço é vinte honras.
—Nem todo o latão desta bancada vale vinte honras – disse-lhe Dany enquanto estudava os reflexos. O velho tinha um aspecto que lembrava Westeros, e o de pele escura devia pesar cento e vinte quilos.
—Dez, Khaleesi, por ser tão bela. Use-o como espelho. Só um latão assim tão bom pode captar tamanha beleza.
—Podia servir para levar dejetos. Se a jogasse fora, eu poderia recolhê-la, desde que não tivesse de me dobrar. Mas pagar por ela? – Aegon colocou a bandeja em suas mãos. – Os vermes rastejaram por seu nariz acima e comeram seu cérebro.
—Oito honras – o homem gritou – Minhas esposas vão me bater e me chamar de idiota, mas em suas mãos sou uma criança desamparada. Vá, oito, é menos do que o seu valor.
—Para que preciso de latão baço quando Xaro Xhoan Daxos me alimenta de pratos de ouro? – ao virar-se para se afastar, Dany deixou que seu olhar passasse sobre os estranhos.
—O velho não usa espada – disse Aegon a Jorah no Idioma Comum enquanto se afastavam da banca.
O vendedor de latão veio aos saltos atrás deles.
—Cinco honras, por cinco é sua, estava destinada à senhora.
Sor Jorah disse:
—Um bastão de madeira rija pode quebrar um crânio tão bem como qualquer maça.
—Quatro! Eu sei que a quer! – o homem dançou na frente deles, dando corridinhas para trás enquanto enfiava a bandeja no rosto deles.
— Seguem-nos?
—Levante isso um pouco mais – disse Aegon ao mercador. – Sim. O velho finge ver a mercadoria da banca de um oleiro, mas o mulato só tem olhos para a senhora.
—Duas honras! Duas! Duas! – o mercador arquejava pesadamente com o esforço de correr para trás.
—Pague-lhe antes que se mate – disse Dany a Sor Jorah, mas foi Aegon quem pagou. Mas antes de terminar de contar as moedas, notou que Dany se afastara.
Um qarteno entrou no caminho dela
—Mãe de Dragões, para você – ajoelhou-se e apresentou-lhe uma caixa de joias.
Dany aceitou-a quase por reflexo. A caixa era de madeira entalhada, com tampa de madrepérola embutida de jaspe e calcedônia. Terminou de pagar e correu até ela, já com a mão na espada.
—É muito gentil – disse Dany abrindo-a. Lá dentro encontrava-se um cintilante escaravelho verde esculpido em ônix e esmeralda. Ou pelo menos foi o que pensou a primeira vista. Em seguida reconheceu o perigo e bateu na caixa de joias com força.
—Desgraçado! – rosnou Aegon sacando a espada e o qarteno saiu correndo. O bicho, furioso, correu em direção à Dany, mas um bastão de madeira o acertou com força o esmagando.
—O que era aquilo? – perguntou Daenerys, mirando o velho que os tinha seguido, que esmagava o bicho.
—Vossa Graça, mil perdões – murmurou Aegon – Está morto. Machuquei sua mão?
Ela fechou os dedos
—Parece que não.
—Tive de atirá-lo para longe – explicou olhando para o velho – Era uma manticora. – virou-se para o velho – Pretende seguir-nos o dia inteiro? E acho que já matou o bicho.
—Obrigada, sor. – disse Daenerys.
—Nada me deve, Vossa Graça. Chamo-me Arstan, embora Belwas tenha me apelidado de Barba Branca na viagem para aqui.
—E quem é Belwas? – Dany quis saber.
O enorme eunuco mulato avançou, pavoneando-se, embainhando o arakh.
—Belwas sou eu. Chamam-me Belwas, o Forte, nas arenas de luta de Meereen. Nunca perdi – deu uma palmada na barriga, coberta de cicatrizes. – Deixo todos os homens me ferirem uma vez antes de matá-los. Conte os golpes, e saberá quantos homens Belwas, o Forte, matou.
Aegon não precisava contar as cicatrizes; com um rápido olhar dava para ver que eram muitas.
—E por que está aqui, Belwas, o Forte? – perguntou a Khaleesi.
—De Meereen fui vendido a Qohor, e depois a Pentos, e ao homem gordo com um fedor doce no cabelo. Foi ele quem enviou Belwas, o Forte, de volta por mar, e o velho Barba Branca para servi-lo.
O homem gordo com um fedor doce no cabelo…?
—Illyrio? – Dany disse. – Foram enviados pelo Magíster Illyrio?
—Fomos, Vossa Graça – respondeu o velho Barba Branca. – O Magíster suplica a bondade de sua indulgência por nos enviar em seu lugar, mas já não pode montar a cavalo como podia quando jovem, e a viagem por mar perturba sua digestão – antes falava no valiriano das Cidades Livres, mas agora tinha mudado para o Idioma Comum. – Lamento se lhe causamos alarme. Para falar a verdade, não estávamos certos, esperávamos alguém mais… mais…
—Régio? – Dany riu. Não havia trazido nenhum dragão consigo, e seu vestuário dificilmente podia ser considerado próprio de uma rainha. – Fala bem o Idioma Comum, Arstan. Vem de Westeros?
—Venho. Nasci na Marca de Dorne, Vossa Graça. Quando rapaz fui escudeiro de um cavaleiro ao serviço de Lorde Swann – segurava o grande bastão verticalmente a seu lado como uma lança à espera de um estandarte. Aegon o olhava desconfiado. Tinha a impressão que conhecia aquele homem – Agora sou escudeiro de Belwas.
—É um pouco velho para isso, não? – Sor Jorah avançara através da multidão até tomar posição ao lado de Dany, segurando desajeitadamente a bandeja de latão debaixo do braço.
—Mas não velho demais para servir meu suserano, Lorde Mormont.
—Também me conhece?
—Vi-o lutar uma ou duas vezes. Em Lanisporto, onde quase derrubou o Regicida. E em Pyke, lá também. Não se lembra, Lorde Mormont?
Sor Jorah franziu a sobrancelha.
—Seu rosto parece-me familiar, mas havia centenas de homens em Lanisporto e milhares em Pyke. E eu não sou lorde. A Ilha dos Ursos foi tirada de mim. Não sou mais do que um cavaleiro.
—Um cavaleiro da minha Guarda Real – Dany tomou seu braço. – E meu amigo fiel e bom conselheiro. – Ela fez uma pausa – Certamente conhece...
—Aegon Blackfyre. Não é um rosto que dê para esquecer. – sussurrou ele e Aegon manteve-se impassível. Estava mais do que acostumado a escutar aquele tipo de coisa – Dizem que não há melhor espadachim no mundo do que ele.
—Dizem coisas demais. – resmungou com modéstia – Mas eu atrevo-me a dizer que posso chamá-lo de mentiroso. – o velho desviou o olhar – Devo dizer que fica muito diferente sem sua armadura branca, Sor Barristan Selmy.
O velho o olhou contrariado e Aegon notou que Sor Jorah finalmente reconhecera o homem.
—Conhecem esse homem? – perguntou Daenerys.
—Sim, conheço. – murmurou Jorah – É um dos maiores lutadores que os Sete Reinos já viram.
—E serviu como o Senhor Comandante da Guarda real do Rei Robert. – adicionou Aegon.
—Rei Robert está morto. – disse Selmy se aproximando e tanto Jorah quanto Aegon sacaram as espadas, ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado – Eu a tenho procurado, Daenerys, Nascida na Tormenta... para pedir seu perdão. – adicionou ele – Eu jurei proteger sua família... mas eu fracassei. – ele se colocou de joelhos – Sou Barristan Selmy, Guarda Real de seu pai. – ele fez uma pausa – Permita-me ser parte da Guarda da Rainha. E eu não fracassarei novamente.
Fez-se silêncio por alguns segundos e Dany olhou para Jorah, que negou com o rosto.
—Não confio nele. – disse o urso. Dany olhou então para Aegon, que avaliou Selmy com um olhar penetrante. Depois sorriu e avançou, oferecendo a mão para o velho.
—Levante-se, Sor Barristan. Pois tem meu voto de confiança. – o velho apertou sua mão e se levantou, olhando para a rainha – Este é um homem bom, Vossa Graça. Estará mais segura com ele presente.
**
A sala do trono era um mar de joias, peles e tecidos brilhantes. Senhores e senhoras enchiam o fundo da sala e aglomeravam-se por baixo das grandes janelas, empurrando-se como vendedores de peixe numa doca.
Aqueles que habitavam a corte de Joffrey tinham procurado superar uns aos outros naquele dia. Jalabhar Xho estava coberto de penas; uma plumagem tão fantástica e extravagante que parecia prestes a levantar voo. A coroa de cristal do Alto Septão disparava arco-íris pelo ar a cada movimento de sua cabeça. À mesa do conselho, a Rainha Cersei cintilava num vestido de fios de ouro, com cortes de veludo bordô, enquanto, ao seu lado, Varys se agitava e sorria afetadamente dentro de brocado lilás. O Rapaz Lua usava novos trajes multicolores, limpos como uma manhã de primavera. Até a Senhora Tanda e as filhas pareciam bonitas em vestidos de seda que combinavam turquesa e penas, e Lorde Gyles tossia para dentro de um quadrado de seda escarlate debruado de renda dourada. Rei Joffrey sentava-se acima de todos eles, entre as lâminas e farpas do Trono de Ferro. Vestia samito carmim, com o manto negro incrustado de rubis, e, na cabeça, trazia sua pesada coroa de ouro.
Valerion usava sua armadura rubra, com o dragão negro de três cabeças em alto relevo. Não usava elmo, então exibia seus cabelos finos, como fios de prata dourada. Os olhos estudando o salão, observando cada movimento que sua amada Lady Sansa fazia. Ela estava à frente da galeria e lhe lançou um doce sorriso, que ele retribuiu com uma piscadela. Tudo muito discreto e sigiloso. Apenas Shae sabia do momento dos dois no Bosque Sagrado e Valerion desejava que continuasse daquela maneira.
Não demorou muito para o estrondo das trombetas anunciar a entrada de Lorde Tywin Lannister. Ele atravessou o salão montado no cavalo de guerra e desmontou perante o Trono de Ferro.
Tywin usava uma armadura esplendorosa, toda de lustroso aço vermelho com arabescos e ornamentos de ouro nele embutidos. Os medalhões eram resplendores, o leão rugindo que coroava seu elmo tinha olhos de rubi, e uma leoa em cada ombro prendia um manto de fios de ouro tão longo e pesado que envolvia os quartos traseiros de seu cavalo. Até a armadura do cavalo era dourada, e os jaezes, de brilhante seda carmesim brasonada com o leão de Lannister.
O Senhor de Rochedo Casterly fazia uma figura tão impressionante que foi um choque quando seu corcel despejou um monte de esterco bem na base do trono. Joffrey teve de rodeá-lo com cuidado quando desceu para abraçar o avô e proclamá-lo Salvador da Cidade.
Joffrey fez do pedido do avô para assumir o governo do reino um grande espetáculo e Lorde Tywin aceitou solenemente a responsabilidade, “até que Vossa Graça seja maior de idade”. Então, escudeiros tiraram sua armadura e Joffrey prendeu em torno de seu pescoço o colar da Mão. Lorde Tywin ocupou um lugar ao entre Valerion e a rainha, na mesa do conselho. Depois de o corcel ter sido levado e sua “homenagem” removida, Cersei fez sinal para que as cerimônias prosseguissem.
Uma fanfarra de trombetas de bronze saudou cada um dos heróis no momento em que atravessavam as grandes portas de carvalho. Arautos gritavam seus nomes e feitos para que todos ouvissem, e os nobres senhores e as bem-nascidas senhoras aplaudiam tão vigorosamente como assassinos numa rinha de galos. Um lugar de honra foi dado a Mace Tyrell, o Senhor de Jardim de Cima, um homem outrora forte que havia engordado, mas que ainda era bonito. Os filhos entraram atrás dele; Sor Loras e o irmão mais velho, Sor Garlan, o Galante. Os três vestiam-se de forma semelhante, de veludo verde forrado de zibelina.
O rei desceu do trono uma vez mais para saudá-los, uma grande honra. Prendeu, em volta do pescoço de cada um, uma corrente de rosas trabalhadas em ouro mole e amarelo, da qual pendia um disco de ouro com o leão dos Lannister realçado com rubis.
—As rosas apoiam o leão, assim como o poder de Jardim de Cima apoia o reino. – proclamou Joffrey. – Se houver alguma mercê que me queira pedir, peça-a, e será sua.
É agora, Valerion pensou.
—Vossa Graça – disse Sor Loras –, peço a honra de servir em sua Guarda Real, a fim de defendê-lo de seus inimigos.
Joffrey pôs o Cavaleiro das Flores em pé e lhe deu um beijo no rosto.
—Dito e feito, irmão.
Lorde Tyrell inclinou a cabeça:
—Não há maior prazer do que servir à Graça Real. Meu pai é um grande homem, também. Muito sábio e justo. Se fosse considerado digno de integrar seu real conselho, não encontraria ninguém mais leal ou fiel.
Joffrey pousou uma mão no ombro de Lorde Tyrell e o beijou quando se pôs em pé.
—Seu desejo é concedido.
Sor Garlan Tyrell, cinco anos mais velho do que Sor Loras, era uma versão mais alta e barbuda do irmão mais novo e famoso. Era mais largo de peito e ombros, e embora seu rosto fosse bastante agradável, faltava-lhe a surpreendente beleza de Sor Loras.
—Vossa Graça, – disse Garlan, quando o rei se aproximou dele – tenho uma irmã donzela, Margaery, o encanto de nossa Casa. Era casada com Renly Baratheon, como sabe, mas Lorde Renly partiu para a guerra antes de o casamento poder ser consumado, e portanto continua inocente. – ele fez uma pausa e Valerion mirou a garota. Céus, ela era linda de morrer. E Aegon fugiu para o mar para não casar-se com ela, apesar disso...— Peço que encontre em seu coração a bondade de conceder a honra de juntar nossas casas.
Margaery estava de pé, entre o pai e Loras, olhando para baixo, usando o vestido mais decotado que Valerion já tinha visto. Seus olhos percorreram o caminho do vale entre os seios dela e começou a imaginar coisas nada corretas. Por isso desviou o olhar para sua adorável Sansa, que vestia-se de maneira mais comportada. Lembrou-se do beijo que dera nela na noite da batalha e de repente Margaery Tyrell não era mais tão maravilhosa assim. Lhe faltava a inocência e pureza de Sansa. Duvidava muito que aquela mulher fosse virgem.
Mas quando ela levantou o olhar para Joffrey, notou que havia beleza justamente nisso. Sentiu-se tentado a permitir que sua imaginação seguisse, mas por amor a sua donzela, se censurou.
—Esse é o seu desejo, Lady Margaery? – perguntou Joffrey. Ele a devorava com os olhos, mas não o julgava por isso. Fez-se silêncio no salão enquanto a garota avançava a passos lentos e felinos em direção ao trono. Foi a voz dela que quebrou o silêncio, repercutindo como música pelas paredes.
—De todo meu coração, Vossa Graça. – disse ela e Valerion concordou que ela tinha uma linda voz, e lindos olhos... toda muito bonita. Joffrey não a merecia – Passei a amá-lo à distância – prosseguiu ela e Valerion pensou que essa seria a única maneira de amar Joffrey – Histórias de sua coragem e sabedoria chegaram a mim. De sua bravura ao lutar bravamente pela cidade, derrotando todos os homens de seu vil tio, que se colocaram em seu caminho. – disse ela e Valerion sorriu pomposo, ignorando a tremenda dor nas costas que ainda sentia da batalha. Podiam cantar as proezas como se fossem de Joffrey, mas eram dele. Joffrey sorriu como se toda aquela fama lhe fosse mesmo digna e Valerion precisou se conter para não revirar os olhos – E tais histórias criaram profundas raízes dentro de mim. – céus, o tom de voz dela era tão sensual. Ela transbordava sensualidade na mesma proporção que Sansa transbordava inocência e pureza.
Joffrey fingiu ponderar por um momento. Como se aquilo tudo não tivesse sido ensaiado e combinado.
—Eu também ouvi histórias de sua beleza e graça, mas... – ele lambeu os lábios a olhando – essas histórias não lhe fazem justiça, minha senhora. – E então Margaery mostrou que era capaz de dar um sorriso digno de uma donzela inocente. Ela sabe jogar. Entendeu na hora e se perguntou se poderia fazer dela uma aliada ou inimiga. Os Tyrell eram muito poderosos e sua casa os havia insultado. Pelos Sete, Aegon!— Seria uma honra retribuir o seu amor. Mas eu fui prometido a outra. Um rei deve manter a sua palavra.
Valerion se levantou de seu lugar no conselho e disse em alto e bom tom.
—Vossa Graça, eu, como guardião da lei, estudei a respeito de tal situação, pois meu amigo Loras já havia me contado sobre os sentimentos de sua bela irmã. – fez uma pausa para fazer uma reverência a Lady Margaery – Na opinião de seu pequeno conselho, não seria nem próprio, nem sensato, que se casasse com a filha de um homem decapitado por traição, uma garota cujo irmão se encontra em rebelião aberta contra o trono neste exato momento. Senhor, seus conselheiros suplicam-lhe, para o bem de nosso reino, que ponha Sansa Stark de lado. A Senhora Margaery será para o senhor uma rainha muito mais adequada. – explicou, para depois fazer uma reverência.
Como uma matilha de cães treinados, os senhores e as senhoras no salão começaram a gritar seu júbilo. “Margaery”, gritavam; “Dê-nos Margaery!” e “Nada de rainhas traidoras! Tyrell! Tyrell!”.
Joffrey levantou uma mão.
—Poucos sabem, mas no dia da batalha, minha mãe, a rainha, estava tão desesperada, temendo por minha segurança, que não queria que eu me arriscasse em batalha. Eu não teria conseguido acalmá-la sem a sua nobre ajuda, Sor Valerion. – disse Joffrey e Cersei ergueu a cabeça como se fosse a dona do mundo – Por mais que tivéssemos tido momentos difíceis na corte, confiei no seu juízo e o coloquei responsável pela vida de minha mãe e meu irmão. E mesmo sem armadura, lutou contra traidores assassinos, enviados por Stannis, para matar minha família. Lutou por eles e os protegeu na minha ausência, enquanto eu lutava contra as forças de meu tio. Por isso tem minha confiança e gratidão. – ele fez outra pausa e Valerion se curvou num cumprimento respeitoso – Gostaria de ceder aos desejos de meu povo, meu bom amigo, mas fiz um voto sagrado.
O Alto Septão deu um passo à frente.
—Vossa Graça, os deuses consideram a promessa de casamento um ato solene, mas seu pai, o Rei Robert, de abençoada memória, fez esse pacto antes de os Stark de Winterfell revelarem sua falsidade. Os crimes deles contra o reino libertaram-no de quaisquer promessas que possa ter feito. No que diz respeito à Fé, não existe nenhum contrato de casamento válido entre o senhor e Sansa Stark.
Um tumulto de aclamações encheu a sala do trono, e gritos de “Margaery, Margaery ” irromperam por todos os lados. Sansa inclinou-se para a frente, agarrando com força o parapeito de madeira da galeria. A olhou com interesse, orgulhoso de como ela parecia aflita. De como fingia ter medo de Joffrey falar que casaria com Margaery, quando tudo o que ela mais desejava era que ele fizesse isso.
Lorde Tywin fitava o neto. Joffrey deu-lhe um olhar mal-humorado, arrastou os pés, e ajudou Sor Garlan Tyrell a se levantar. Depois caminhou até Margaery.
—Os deuses são bons. Estou livre para seguir o meu coração. Casarei com a sua querida irmã, e com alegria, Sor – ele fez uma pausa e Margaery sorriu como se nada a fizesse mais feliz no mundo. Um sorriso que parecia tão cheio de sinceridade que se surpreenderia se ela não desejasse ser mesmo a rainha de Joffrey com todas as suas forças – A amarei desde este dia, até o dia de minha morte.
Está feito. Pensou Valerion. Um passo importante foi dado.
Quando a explosão de júbilo se atenuou, o Senhor de Jardim de Cima já ocupara um lugar à mesa do conselho, e os filhos tinham se juntado aos outros cavaleiros e fidalgos debaixo das janelas. Valerion se sentou novamente enquanto outros heróis da Batalha da Água Negra eram chamados a fim de receber as suas recompensas.
Paxter Redwyne, Senhor da Árvore, marchou ao longo do salão flanqueado pelos dois filhos, Horror e Babeiro, com o primeiro coxeando de um ferimento recebido na batalha. Depois, veio Lorde Mathis Rowan vestindo um gibão branco como a neve, com uma grande árvore bordada em fios de ouro no peito; Lorde Randyll Tarly, magro e perdendo os cabelos, com uma grande espada amarrada às costas numa bainha incrustada de joias; Sor Kevan Lannister, um homem atarracado com pouco cabelo e uma barba bem aparada; Sor Addam Marbrand, de cabelos acobreados que caíam sobre seus ombros; os grandes senhores do ocidente Lydden, Crakehall e Brax.
A seguir, vieram quatro homens de nascimento inferior que tinham se distinguido na luta: o cavaleiro zarolho Sor Philip Foote, que matara Lorde Bryce Caron em combate singular; o cavaleiro livre Lothor Brune, que abrira caminho através de meia centena de homens de armas Fossoway para capturar Sor Jon da maçã verde e matar Sor Bryan e Sor Edwyd da vermelha, ganhando assim o apelido de Lothor Papa-Maçãs; Willit, um homem de armas grisalho a serviço de Sor Harys Swyft, que puxara seu senhor de debaixo do cavalo moribundo e o defendera contra uma dúzia de inimigos; e um escudeiro de rosto liso chamado Josmyn Peckledon, que matara dois cavaleiros, ferira um terceiro e capturara mais dois, embora não pudesse ter mais do que catorze anos. Willit foi trazido numa liteira, devido à gravidade de seus ferimentos. Quando os arautos terminaram de anunciar os feitos dos heróis, Tywin levantou-se:
—É desejo de Sua Graça que esses bons homens sejam recompensados por seu valor. Por seu decreto, Sor Philip será de hoje em diante Lorde Philip da Casa Foote, e para ele irão todas as terras, direitos e rendimentos da Casa Caron. Lothor Brune será elevado ao estatuto de cavaleiro e lhe serão atribuídas terras e fortaleza nas terras fluviais, após o fim da guerra. Para Josmyn Peckledon irá uma espada e uma armadura, o direito de escolher qualquer cavalo de guerra dos estábulos reais e um grau de cavaleiro quando se tornar maior de idade. E, por fim, para Morgado Willit, uma lança com haste reforçada em prata, um camisão de cota de malha recém-forjada e um elmo completo com viseira. Além disso, seus filhos serão recebidos ao serviço da Casa Lannister em Rochedo Casterly, o mais velho como escudeiro e o mais novo como pajem, com a hipótese de avançarem para cavaleiros se servirem bem e com lealdade. A Mão do Rei e o pequeno conselho consentem com tudo isso.
Os capitães dos navios de guerra reais Vento Vivo , Príncipe Aemon e Seta do Rio foram honrados em seguida, em conjunto com alguns oficiais inferiores do Graça dos Deuses, Lança, Senhora de Seda e Cabeça de Carneiro. Até onde Valerion sabia, seu feito principal tinha sido sobreviver à batalha no rio, um feito de que bem poucos podiam se gabar. Hallyne, o Piromante, e os mestres da Guilda dos Alquimistas também receberam os agradecimentos do rei, e Hallyne foi elevado ao título de lorde, embora nem terras nem castelo acompanhavam o título, o que fazia com que o alquimista não fosse um lorde mais verdadeiro do que Varys. Sem dúvida, a mais significativa senhoria foi atribuída a Sor Lancel Lannister. Joffrey premiou-o com as terras, castelo e direitos da Casa Darry, cujo último jovem senhor perecera durante a luta nas terras fluviais, “sem deixar herdeiros legítimos de sangue Darry legal, mas apenas um primo bastardo”.
Sor Lancel não apareceu para aceitar o título; dizia-se que seus ferimentos podiam lhe custar o braço ou até a vida. Dizia-se também que o Duende estava à beira da morte, por conta de um terrível golpe na cabeça.
Quando o arauto chamou “Lorde Petyr Baelish”, ele avançou, vestido em tons de rosa e ameixa, com um padrão de tejos no manto. Valerion conseguiu vê-lo sorrir ao se ajoelhar perante o Trono de Ferro. Parece tão satisfeito.
Sor Kevan quem se levantou para proferir:
—É desejo da Graça Real que seu leal conselheiro Petyr Baelish seja recompensado pelos fiéis serviços prestados à coroa e ao reino. Que se saiba que a Lorde Baelish é atribuído o castelo de Riverrun com todas as suas terras e rendimentos, para dele fazer sua sede e governar de hoje em diante como Senhor Supremo do Tridente. Petyr Baelish e seus filhos e netos deterão e usufruirão dessas honrarias até o fim dos tempos, e todos os senhores do Tridente vão lhe prestar homenagem como seu suserano de direito. A Mão do Rei e o pequeno conselho consentem.
Valerion não gostou nada de ter Mindinho como seu suserano, mas nada disse. Não havia o que dizer. De joelhos, Mindinho ergueu os olhos para o Rei Joffrey:
—Agradeço-lhe humildemente, Vossa Graça. Suponho que isso queira dizer que terei de tratar de arranjar alguns filhos e netos.
Joffrey riu, e a corte o acompanhou. Senhor Supremo do Tridente, pensou Valerion, e também Senhor de Riverrun. A cada dia que passava Petyr se mostrava mais e mais perigoso. Talvez precisasse enfiar um punhal em suas costelas, da mesma maneira como fizera com Sor Dontos.
Joffrey se levantou novamente e todo o salão ficou em silêncio.
—Há anos atrás, durante a rebelião Greyjoy, meu pai armou Aegon Blackfyre cavaleiro por sua incrível habilidade com a espada e por seu desempenho na guerra. Hoje eu gostaria de pedir que meu avô armasse Valerion Blackfyre como cavaleiro, pelo que fez por mim e por minha família. Mesmo sem armadura, mesmo ferido. Ele mostrou coragem e honra que poucos homens mantiveram.
Valerion se levantou, juntamente com Tywin Lannister. Os dois andaram até a frente do trono e Valerion se colocou de joelhos. Sob o som de muitos vivas, aplausos e suspiros, Tywin Lannister finalmente o armou cavaleiro.
—Pelo seu bom comportamento. – sussurrou ele. Valerion sorriu.
—Também gostaria de anunciar que é meu desejo unir minha família a sua, Sor Valerion. – bradou Joffrey e Valerion se ajoelhou perante ao rei novamente – Muitos sabem que minha doce irmã Myrcella o ama de todo coração. Desejo que se casem assim que ela tiver idade.
Ele soltou um suspiro e levantou o olhar para Joffrey.
—O rei me honra com tudo isso. – fez uma pausa – Tomarei Myrcella como esposa. Juro que a farei feliz e que cuidarei bem dela, Vossa Graça.
Não se atreveu a dizer que a amava. Não na frente e Sansa.
—Eu confio em sua palavra, meu bom amigo. – riu Joffrey com desdém.
Em seguida era hora de Lordes jurarem sua lealdade ao rei. Aqueles que tinham mudado de campo durante a batalha só precisavam jurar lealdade a Joffrey, mas os que lutaram por Stannis até o amargo fim eram obrigados a falar. As palavras que dissessem decidiam seus destinos. Se suplicassem perdão por suas traições e prometessem servir lealmente daí em diante, Joffrey os acolhia de volta à paz do rei e restituía-lhes todas as terras e direitos. Mas um punhado permaneceu desafiador.
—Não pense que isso acabou, garoto. – alertou um deles, filho bastardo de algum Florent. Reconheceu pelas orelhas e pelo nariz – O Senhor da Luz protege o Rei Stannis, hoje e sempre. Nem todas as suas espadas e artimanhas vão salvá-lo quando sua hora chegar.
—A sua hora chegou agora mesmo – Joffrey chamou com um gesto Sor Ilyn Payne para levar o homem lá para fora e cortar sua cabeça. Mas, assim que foi arrastado para fora do salão, um cavaleiro de porte solene, com um coração flamejante na capa, gritou:
—Stannis é o legítimo rei! É um monstro que se senta no Trono de Ferro, uma abominação nascida do incesto!
—Silêncio! – Sor Kevan Lannister bradou.
Em vez de se calar, o cavaleiro levantou a voz ainda mais.
—Joffrey é o verme negro que corrói o coração do reino! Seu pai foi o negrume e a mãe foi a morte! Destruam-no antes que os corrompa a todos! Destruam-nos a todos, a rainha rameira e o rei verme, o anão vil e a aranha dos segredos, as falsas flores e o dragão traidor. Todos sabem que o dragão negro é vil e traiçoeiro. Salvem-se! – um dos homens de manto dourado atirou o homem ao chão, mas ele continuou a gritar. – O fogo purificador virá! Rei Stannis regressará!
Joffrey pôs-se em pé:
—O rei sou eu! Matem-no! Matem-no já! Ordeno-o – fez um movimento brusco com a mão, num gesto furioso… e guinchou de dor quando o braço roçou num dos afiados dentes de metal que o rodeavam. O brilhante samito carmesim de sua manga tomou um tom mais escuro de vermelho quando o sangue o empapou. – Mãe! — o menino gemeu.
Se lembrou da velha lenda que dizia que o trono rechaçava aqueles que não fossem dignos de se sentarem nele. Não deveria ser mentira.
Com todos os olhos postos no rei, de algum modo o homem no chão conseguiu arrancar uma lança de um dos homens de manto dourado e usou-a para se pôr de novo em pé.
—O trono renega-o! – gritou. – Ele não é rei coisa nenhuma!
Cersei correu para o trono, mas Lorde Tywin permaneceu imóvel como pedra. Teve apenas de erguer um dedo, e Sor Meryn Trant avançou com a espada desembainhada. O fim foi rápido e mortal. Os homens de manto dourado seguraram o cavaleiro pelos braços.
—Rei coisa nenhuma! — ele voltou a gritar quando Sor Meryn espetou a ponta da espada em seu peito.
Joffrey caiu nos braços da mãe. Três meistres aproximaram-se correndo para levá-lo pela porta do rei. Então, todo mundo começou a falar ao mesmo tempo. Quando os homens de manto dourado arrastaram o morto para fora do salão, deixaram um rastro brilhante de sangue no chão de pedra.
Lorde Baelish afagou a barba enquanto Varys lhe segredava ao ouvido. Ainda havia vinte cativos à espera, mas quem poderia dizer se seria para jurar lealdade ou gritar xingamentos?
Lorde Tywin ficou em pé:
—Prosseguimos – disse numa voz clara e forte que silenciou os murmúrios. – Aqueles que desejarem pedir perdão por suas traições podem fazê-lo. Não teremos mais loucuras – deslocou-se até o Trono de Ferro e sentou-se num degrau, a um mero metro do chão.
A luz do lado de fora das janelas já desaparecia quando a sessão chegou ao fim. Se sentia exausto e quando foi liberado, tratou de subir as escadas. Desejava falar com Sansa. Quando a encontrou, notou que Petyr tinha chegado nela primeiro. Escondeu-se atrás de uma pilastra e Hoster ficou ao seu lado, novamente usando a armadura dos Lannisters.
—Já aprendeu a ter iniciativa de homem, ou ainda age como uma donzela? – perguntou ele e Valerion lhe mostrou o dedo médio. Ficou esperando até que Petyr se afastasse de sua donzela. A seguiu com Hoster ao seu lado, rindo alto, falando qualquer baboseira. Assim que teve Sansa sozinha em um corredor, correu até ela e a prensou contra a parede.
—Meu amor. – sussurrou baixinho. Ela sorriu para ele e Valerion simplesmente a beijou apaixonadamente. Normalmente eram mais discretos quando se beijavam. Na maioria das vezes iam para o Bosque Sagrado, mas teve uma vez que se arriscou até o quarto dela, entrando pela janela. Mas daquela vez estava tão animado com seu título de cavaleiro e com seus planos que davam certo, que simplesmente não aguentou. A beijou com paixão, deixando que Hoster vigiasse o corredor – Tenho boas notícias.
—Mais? – riu ela, aliviada, feliz por estar livre de Joffrey.
—Sim. Conversei com meus homens. Tenho uma data perfeita para tirar você daqui. – disse ele e ela o olhou em choque.
—Quando?
—No casamento de Joffrey. – segredou ele colocando o dedo indicador em seus lábios – Como já está aprendendo a mentir, lhe contarei isso. – a beijou novamente e ela lhe mordiscou os lábios – Posso encontrar-te em seus aposentos esta noite?
—Vai entrar pela janela novamente?
—Sim.
—Você está louco. – riu ela.
—Louco de amor. – rebateu a beijando de novo e de novo.
—Valerion... – chamou Hoster e ele se afastou. Trocou um sorriso constrangido com a donzela e se afastou com o amigo – Céus. Achei que iria deflorá-la ali mesmo.
—Não antes de casar-me com ela. – disse sentindo-se absolutamente leve – Ela é minha donzela, Sor. Jamais a envergonharia assim.
—Entendo. – riu Hoster – Mentira, não entendo. Mas vou fingir que sim.
Os dois riram e voltaram para os aposentos de Valerion. Assim que abriu a porta, notou que Pod estava lá, encolhido e assustado, como sempre parecia.
—Pod? O que faz aqui? Tyrion acordou? – perguntou surpreso.
—Sim, senhor. E ele pede que vá vê-lo. Meistre Pycelle quem cuida dele... – murmurou Pod e Valerion fechou o cenho.
—Vamos, Hoster. Prepare-se para ajudar Tyrion.
—Eu sei cuidar de ferimentos, mas nem todo o conhecimento da Cidadela arrumaria a cara daquele ali. – debochou Hoster.
—Não ligo. Não vou deixá-lo nas mãos de Pycelle.
Desceu os degraus até o aposento onde Tywin estava escondendo Tyrion. Abriu a porta e viu o amigo deitado na cama, falando com Varys.
—Olha só quem veio me visitar. – disse ele com alguma mágoa.
—Ele veio todos os dias, senhor. – riu Varys. Não era mentira. Tyrion desviou o olhar constrangido por seu julgamento precipitado e Valerion sorriu.
—Tyrion... eu perguntaria como está se sentindo, mas acho que seria cretino de minha parte. – murmurou indo se sentar ao lado de Varys, na ponta da pequena cama encardida – Eu trouxe Hoster... ele quem costuma cuidar de meus ferimentos.
Hoster tirou o elmo Lannister e se aproximou.
—Posso te fazer uma mistura. Vai te deixar bêbado e anestesiado.
—Acho que não poderia pedir por algo melhor. – murmurou Tyrion, parecendo muito cansado – Onde está Bronn?
—Bebendo em algum puteiro por ai. – respondeu Valerion – Ele anda um tanto desocupado desde que seu pai e sua irmã se encarregaram dos Mantos Dourados.
—E meus homens da Montanha?
—Foram embora. – respondeu Hoster – Seu pai os pagou muito bem, meu senhor.
Tyrion pareceu desamparado, sem saber para onde olhar e Valerion suspirou.
—Receio que não nos veremos por um tempo, meu senhor. – murmurou Varys, realmente parecendo sentir muito.
—Não quer nadar muito perto de um homem se afogando? – perguntou Tyrion, parecendo infeliz. As bandagens cobriam seu rosto, que tinha sido ferido num profundo corte desde a testa até o final da face, arrancando-lhe um pedaço do nariz. Ele já não era bonito, mas agora estava simplesmente grotesco – Achei que fôssemos amigos...
—Nós somos. – respondeu Varys e Valerion cruzou os braços, duvidando daquilo – Podrick... Sor Valerion e Hoster, vocês se importam?
—Não. – riu Hoster se virando e levando Pod consigo – Vamos foder umas putas, Pod.
—Se-se-senhor? – perguntou o menino corando absurdos.
Valerion seguiu imóvel, deixando claro que não sairia se Tyrion não pedisse. Hoster fechou a porta e Varys suspirou.
—Eu mantive Shae protegida. – disse Valerion – Eu estou fingindo que ela é minha. Mas o mais discretamente possível. Mas juro que nunca toquei em um fio de cabelo dela que fosse.
—Nós acreditamos. – riu Varys – Mas não podemos dizer o mesmo dos cabelos ruivos de Sansa Stark.
Valerion olhou para Tyrion, que revirou os olhos.
—Esqueça Sansa Stark. – ralhou ele para Valerion, que sorriu insolente.
—Esqueça Shae. – devolveu – Esqueça de respirar. – desafiou – Impossível. Eu a amo, e não é segredo para nenhum de vocês.
Varys concordou.
—Sim, não é. – disse ele – Mas precisava matar Sor Dontos? Seu ciúmes chegou a tanto?
Valerion piscou surpreso e Tyrion o olhou confuso.
—Não foi por ciúmes. Dontos era um dos homens de Mindinho. Ele estava bolando uma maneira de tirar Sansa da cidade. – explicou esperando poder mentir muito bem daquela vez – Mas isso seria terrivelmente aborrecedor para Joffrey. Sansa é a melhor refém que nós temos.
—Segunda melhor. – discordou Varys – Não podemos esquecer que o herdeiro de Lorde Haegon está aqui.
—Me tratam tão bem que algumas vezes me esqueço que sou um refém. Ainda mais pelo tanto de trabalho que tenho aqui. – debochou – Vou deixar Shae naquele quarto que combinamos. Posso acreditar que ao menos a trará aqui? – perguntou para Varys.
—Claro. – respondeu o eunuco. Varys se levantou e mirou Tyrion – Muitos sabem que sem você, a cidade teria sido tomada. – ele fez uma pausa – Ao contrário do que aconteceu com Valerion, o rei não lhe dará honrarias. E como farão com Valerion as histórias não o citarão. Mas nós não esqueceremos. – ele se curvou e saiu. Valerion suspirou e se levantou em seguida.
—Eu vou trazer um vinho.
—Para que? O que há para ser comemorado? – perguntou Tyrion quando a porta bateu. Valerion suspirou.
—Bem... você talvez nada. Mas eu sou um cavaleiro e Joffrey me prometeu sua sobrinha em frente a toda corte. Eu quero comemorar com um dos meus poucos amigos verdadeiros.
**
Fale com o autor