Blackfyre

23 Eu Renego o Lobo do Norte


Notas iniciais
Esse capítulo é um dos mais tristes da história. Espero que vocês gostem e que não me odeiem ahsuahsuahsauhsaushau xD Mas vamos que vamos! Beeeijos! #PartiuLer ATUALIZAÇÃO Gente... eu esqueci de postar um capítulo! Vou adicioná-lo aqui! Ele é muito importante!

Rancor e Mágoa

Sua mão tremia enquanto segurava a pesada espada de Theon. Respirava nervosamente, sendo observada por todas aquelas pessoas. Algumas a olhavam com desgosto. Na verdade, a grande maioria a olhava com desgosto. Seu coração batia acelerado. Roose Bolton a olhava com expectativa. Lembrava-se de como aquela senhora sempre lhe tratara com gentileza. Sempre torcendo para que ela e Robb se amassem.

Meistre Luwin a olhava com desgosto, Sor Rodrik parecia sentir pena de seu fardo. Theon a olhava com determinação, querendo lhe dar forças para continuar. Alguns homens pediam clemência, mas todos os que tinham lutado na guerra olhavam Lady Catelyn com desgosto.

Prendera Verão e Cão Felpudo no canil e proibira que Bran e Rickon saíssem de seus quartos. Encomendara uma estátua de Lady Catelyn, pois pretendia colocar seus restos mortais na cripta, junto com os ossos de Lorde Eddard. Mas antes disso precisava fazer o que tinha decidido. Olhou para Lady Catelyn, que parecia firme e corajosa, sem demonstrar medo, completamente conformada com a própria morte. Mesmo de joelhos, na lama, prestes a ser executada como uma traidora, Lady Catelyn parecia muito solene. Mais solene do que Shiera sentira-se no próprio casamento. Respirou fundo mirando a mãe de seu amado Robb.

Me perdoe, Robb, mas farei isso por você.

—Lady Catelyn. – disse em alto e bom tom, ignorando os pedidos de clemência que vinham da pequena multidão que assistia – Você está sendo acusada de traição. Você prejudicou a campanha do Norte, libertando Jaime Lannister, que até agora não foi encontrado. Tem algo a dizer em sua defesa? – perguntou elevando o tom de voz, para sobrepor-se aos que pediam piedade.

—Que a Mãe me proteja e o Pai me perdoe. Que ambos continuem olhando por Robb, que a Velha dê a ele sabedoria, que a Donzela o ajude a continuar amando, que o Ferreiro faça sua espada forte, que o Guerreiro o proteja em batalha e que o Estranho fique longe dele. – disse ela firmemente. Somente na última bênção sua voz tremeu – E que os Novos Deuses e os Antigos protejam meu neto. – Lady Catelyn a olhou com seus olhos azuis, exatamente iguais aos de Robb – Saiba que não há rancor. Eu entendo o que você faz e agradeço por sua coragem. Espero que um dia Robb também entenda. Seja forte.

Shiera engoliu em seco e olhou para cima, querendo não chorar. Não choraria. Não seria fraca agora. Não podia.

Por Robb... aguentarei o ódio, o rancor, o ressentimento e a desconfiança... por Robb...

—Eu, Lady Shiera Stark, Rainha do Norte, regente de Winterfell na ausência do meu marido, a condeno à morte diante dos deuses e dos homens. – disse respirando fundo, apertando o punho da espada com toda a força. Olhou mais uma vez para Theon e Lorde Bolton, que acenaram positivamente com muita discrição. Respirou fundo, levantou a espada, perguntando de Robb seria capaz de olhá-la nos olhos novamente depois disso. Faço por ele. Ela precisa morrer ou... ou os Lordes irão pensar que Robb é fraco...— Me perdoe... – sussurrou baixinho para Lady Catelyn e para o vento, desejando que suas palavras fossem levadas para Robb. Inspirou profundamente e então segurou o ar, para baixar a espada de uma só vez. O aço atravessou carne e ossos com pouca resistência e logo sua espada estava suja de sangue e a cabeça de Lady Stark estava no chão. Soltou o ar que tinha nos pulmões e jogou a espada no chão, se virando.

—Traidora! – gritou alguém na multidão.

—Monstro!

—Feiticeira!

—Bruxa!

Engoliu em seco e marchou de volta para o castelo. Achou que seria capaz de chegar no próprio quarto, mas não foi. Entrou na primeira porta que encontrou e a fechou atrás de si, escorregando para o chão, chorando de medo. Medo do que iria vir a acontecer. Medo de como Robb reagiria. Medo de ser odiada. Medo de que enviassem alguém para degolá-la durante a noite. Medo de ter feito algo imperdoável. Medo até por seu próprio filho.

Suas mãos tremiam sem parar e ela chorava de maneira barulhenta e escandalosa, respirando curta e rapidamente. Tentou sufocar o choro com as próprias mãos, mas não conseguiu. Apenas chorou. Chorou. Chorou. Chorou.

Chorou tanto que adormeceu ali mesmo, no chão, daquele quarto qualquer. Sonhou que Robb a amaldiçoava por aquela traição. Que ele gritava, furioso, jurando que jamais a perdoaria. Jurando que a odiava e que jamais a amaria de novo. Jurando que jamais sequer amaria o filho deles. Sonhou que o marido jurava que cortaria a cabeça de seu filho, para se vingar.

Acordou assustada e trêmula, na própria cama. Olhou ao redor e viu Theon, de pé, com a armadura e a mão descansando dobre o cabo da própria espada.

—Vossa Graça. – murmurou ele.

—Como cheguei aqui? – perguntou olhando ao redor, notando que estava no próprio quarto. Ned dormia tranquilamente em seu cesto de dormir e ela sentiu-se indigna dele.

—Eu te trouxe. Tentei acordá-la, mas você não acordava de maneira alguma. Meistre Luwin achou melhor que deixássemos você dormir. – explicou Theon – Você dormiu um dia inteiro. Arrumamos uma ama de leite para o pequeno príncipe. Bran e Meistre Luwin estão tomando conta de tudo.

—Como... como Bran está? – perguntou infeliz.

—Ele não está feliz. – murmurou Theon – Ninguém parece feliz, por mais que muitos concordem que você fez algo necessário. – adicionou ele. Theon suspirou, baixando os olhos – As forças nortenhas expulsaram os homens de ferro de Fosso Cailin. Os expulsamos daqui. Mas Robb se machucou.

—O que ele tem? – perguntou sentindo medo.

—Ele vai ficar bem. Garantiram isso... mas ele precisou ficar alguns dias de repouso. Por isso ainda não voltou. Mas ele deve chegar nos próximos sete ou oito dias. – explicou Theon. Shiera desviou o olhar.

—E ele já sabe? – perguntou sentindo-se pesada.

Theon respirou fundo.

—Meistre Luwin achou que o rei merecia saber sobre a administração de Winterfell enquanto está ausente... quando Robb voltar ele já vai estar ciente, Shiera.

Pressionou os lábios. Aquela ratazana cinzenta... será que teria a oportunidade de se explicar para Robb? Queria poder ter sido a pessoa a contar, para explicar a situação toda... mas Robb já chegaria com um juízo formado... fechou os olhos, cheia de angústia. Deitou-se novamente em sua cama e fechou os olhos sabendo que o marido jamais iria perdoar o que fizera. Mesmo que tivesse sido por ele e pelo Norte.

Os dias seguintes pareceram se arrastar. Todo seu tempo era apenas para Ned. Ficava vigiando a janela, temendo a hora em que Robb fosse chegar, mas ele nunca chegava. Talvez ele não fosse se dar ao trabalho de voltar. Talvez voltasse a marchar para o sul, para a guerra, sem nem mesmo querer vê-la.

Enquanto ficava mergulhada naquele oceano de incertezas, tinha vontade de viajar para a Muralha, para ver Jon. Gostaria de pedir conselhos, conversar, apresentar Ned a ele. Talvez rir um pouco. Saber como ele estava e como era a Muralha. Nunca tinha visto a Muralha... apenas em sonhos...

—Será que você ainda pensa em mim? – sussurrou para a janela, pensando nele.

Quando Ned dormiu, deixou-o com suas aias, para ir até o Bosque Sagrado. Achou sensato que Theon e mais alguns soldados Blackfyre a seguissem e logo viu que não era uma preocupação a toa. Muitos habitantes de Winterfell a olhavam com olhos cheios de julgamentos.

Quando chegou no Bosque Sagrado, rezou aos Deuses Antigos, pedindo ajuda. Por favor... que Robb entenda... mesmo que leve algum tempo... que ele entenda... por favor... por favor...

Mas os Deuses se mantiveram em silêncio. Como sempre. Nem mesmo aquela sensação de paz que sempre sentia ao rezar pareceu voltar. Como se até mesmo isso lhe tivesse sido tirado. Estou amaldiçoada... entendeu. Os deuses lhe tinham retirado suas bênçãos. Estava só.

Passou muito tempo ali, no Bosque Sagrado. Tentando encontrar algum tipo de paz, mas não a achou. Apenas aquele aperto no peito, aquele medo profundo. Suas mãos tremiam. Seu coração batia dolorosamente. Vez ou outra lágrimas escorriam por seu rosto. Queria estar longe dali. Queria que nunca tivesse aceitado ir com Robb para a guerra. Queria não sentir nada por ele. Seria menos doloroso. Queria que Jon tivesse aceitado a proposta de seu pai, anos atrás... assim seriam casados a aquela altura e Lady Catelyn nunca teria sido sua responsabilidade. Arfou, colocando as mãos na boca, se sentindo mais traidora ainda, por estar pensando em Jon. Não deveria estar pensando nele. Por que sempre acabava pensando nele?

Respirou fundo, fechando os olhos e rezou para a Donzela, pedindo que Robb a perdoasse e entendesse. Não gostava da fé dos Sete, mas estava desesperada. Um vento frio soprou, vindo do sul e Shiera abriu os olhos, notando que a noite já estava para cair. Se levantou, pronta para voltar para seu quarto, cansada de rezar. Theon e os outros a aguardavam, mas quando estavam deixando o bosque, eles toparam com Lorde Karstark.

—Vossa graça.

—Lorde Karstark? – perguntou surpresa – O que faz aqui?

—Acabamos de chegar. – disse ele – Faz alguns minutos, quase uma hora. – adicionou ele. Sua barba branca, com uma listra negra, estava desgrenhada, assim como seu ralo cabelo. Mas ele era um homem forte e robusto – Robb sabe o que fez. Todos nós escutamos. – adicionou ele e Shiera desviou o olhar – Robb vai reunir o conselho aqui em Winterfell, iremos escutar sua versão dos fatos e então o rei vai decidir o que fazer com você.

—Robb pretende me matar? – perguntou chocada. Imaginara que ele ficaria com raiva e gritaria com ela. Mas jamais passara por sua cabeça que ele pensaria em uma execução. Fizera aquilo pela causa nortenha. Por Robb.

—Essa possibilidade foi sugerida. Os Tully não estão nada satisfeitos. Nem os Frey. – explicou Lorde Karstark, se aproximando – Mas eu entendo o que fez e acho que não poderia ter feito nada mais correto. Lady Catelyn nos traiu e é isso que fazemos com os traidores. Pelo que escutei, ela nem mesmo resistiu, não é?

—Lady Catelyn sabia da gravidade de seus crimes e abraçou o julgamento de Lady Shiera. – disse Theon.

—Bom. – murmurou o velho – Vamos, Vossa Graça. O rei a espera.

Shiera concordou, sentindo mais medo. A medida que era levada de volta ao castelo, mais e mais homens Stark se juntavam a sua comitiva. Já não era proteção. Estava sendo escoltada como uma prisioneira. Engoliu em seco, se perguntando o que Robb faria. Ele precisava entender que tinha feito aquilo por ele. Não lhe dera prazer algum arrancar a cabeça de Lady Catelyn...

Quando chegou no grande salão do castelo, Robb estava na mesa principal. Seus Lordes estavam sentados nas mesas de honra. E ela notou que Robb sentara-se entre Rickon e Bran. Não havia lugar para ela ali, no salão. Engoliu em seco, erguendo a cabeça, tentando parecer firme. Mas tinha medo. Muito medo. Principalmente quando recebeu o frio olhar de Robb. Ele nunca, nunca, nunca a olhara daquela maneira. Diminuiu o passo, sentindo-se ser guiada para a boca do lobo. Seu corpo tremeu quando Vento Cinzento rosnou e ela diminuiu ainda mais as passadas, mas um soldado Stark a empurrou com truculência, quase a jogando no chão.

—Cuidado. – ralhou Theon com o soldado, mas o homem não deu mais atenção a ele do que daria a uma formiga na parede.

Engoliu em seco, baixando os olhos e parou de andar quando sua escolta lhe permitiu.

—Eu quero-a morta. – rosnou Edmure Tully e muitos homens bateram suas canecas com vigor na mesa, apoiando a ideia.

—Se matarmos Shiera Blackfyre, pode ter certeza que Lorde Haegon se unirá a Tywin Lannister e cairá sobre nós. – disse Lorde Blackwood.

—Foda-se ele. Ela matou a mãe do Rei e permitiu que Jaime Lannister fugisse. – rosnou Lorde Bracken. Lorde Bolton ficou em silêncio, sem defendê-la. Ele era o único Lorde que estava presente no dia da traição de Lady Catelyn. Ele sabia que não havia o que pudesse ter feito. Estava parindo o filho de Robb, quando Lady Catelyn traiu a todos eles.

—Ela matou a mamãe! – chorou Rickon – Arrancou a cabeça dela! – adicionou ele e Shiera desviou o olhar – Ela tem que pagar, Robb!

—Ela tem que pagar. – concordou Bran com uma gélida e afiada voz. Mesmo Bran que sempre fora tão gentil... de quem ela ajudara a cuidar durante meses...

Robb não vai nem mesmo me deixar explicar. Serei tratada como uma criminosa? Mas nada disse. Ficou em silêncio, escutando os Lordes atacarem.

—Lady Catelyn era uma boa mulher. Haegon Blackfyre deve ter mandado a filha libertar Jaime Lannister. Ele é e sempre foi amigo de Tywin. – rosnou Grande Jon Umber – Concordo com Bracken. Ela deve pagar pela traição que nos fez.

—Lady Catelyn era filha do suserano de meu pai. – disse Sor Stevron – Isso não deve passar sem punição. A Rainha deve ser executada.

—E o Rei deverá casar-se de novo? – perguntou Lorde Glover – Com uma Frey, imagino?

—Algum problema? Temos muitas garotas bonitas, Frey. Walda, que já é conhecida de Robb, diga-se de passagem!

—Lembro-lhes que minha filha é donzela... – disse Lorde Cerwyn. Shiera corou, indignada com tudo aquilo. Ainda não tinha nem mesmo sido julgada, nem mesmo lhe fora dada a chance de se explicar, e já estavam sondando Robb. Pensava que as coisas eram diferentes no Norte, mas era exatamente tudo igual a Porto Real.

E ela não ficaria ali nem mais um segundo para ser insultada daquela maneira. Robb apenas a olhava parecendo frio e furioso.

Se virou, segurando o próprio vestido e se preparou para sair dali, mas os soldados Stark se colocaram em sua frente.

—O rei não lhe deu permissão pra sair. – disse um deles.

Não disse uma palavra, apenas insistiu, com se fosse dar a volta, mas os soldados fecharam seu caminho, ameaçando sacar as espadas. Theon a olhou assustado e Nym recuou, sacando o arco.

—Antes que saquem a espada, já terei matado todos vocês. – rosnou ela – Afastem-se de Lady Shiera.

Fez-se silêncio, mas os soldados não fizeram menção de guardar as espadas. Escutou outras lâminas serem retiradas da bainha. Homens Blackfyre, homens Frey, Umber, Tully e Starks.

—Robb! – disse Theon, pedindo que o rei se manifestasse – Robb! Ela é a mãe do seu filho. – adicionou ele – Lorde Bolton, diga alguma coisa!

Virou-se para encarar Lorde Bolton, mas o homem seguiu calado.

Sentindo-se humilhada e abandonada pelo marido, voltou-se para os Lordes e os encarou com frio olhar.

—Eu executei Lady Catelyn. – disse e alguns Lordes cuspiram no chão, em desgosto, a olhando com fúria – Ela aproveitou do momento de euforia do castelo, quando eu dei a luz a um filho saudável. Um príncipe. Aproveitando que muitos abandonaram suas posições para comemorar, ela dispensou os poucos que restaram em seus postos e libertou Jaime Lannister na esperança de que ele libertasse Sansa e Arya. – disse com firmeza. O desgosto lhe dava forças – Robb seria pressionado a fazer isso, se eu não fizesse. Lady Catelyn nos traiu por motivos egoístas e ajudou nosso principal refém a fugir. Eu fiz o que achei correto. – insistiu tentando parecer confiante do que dizia – Se devo ser julgada por isso, que assim seja. Só peço para ser julgada pelo Rei. – disse olhando para o marido – Porque, Vossa Graça, – disse ainda olhando para ele – Não podemos pensar como pessoas comuns. Somos Rei e Rainha. Temos que nos distanciar das situações para julgar. Não podemos julgar pensando em nós mesmos, mas no nosso reino, no nosso povo. Lady Catelyn deveria ser punida, mas não acho que seria correto que fosse punida pelo próprio filho. Então fiz o que fiz. Que o Rei decida se foi o melhor ou não para a causa nortenha.

Fez-se silêncio durante alguns segundos. Via confusão, mágoa, ressentimento e raiva nos olhos de Robb. Porém quando o primeiro gritou, pareceu que ninguém seria capaz de fazê-los calar.

—Puta!

—Traidora!

—Assassina!

—Lady Catelyn nos traiu primeiro!

—Shiera! Shiera! Shiera!

—Catelyn! Catelyn! Catelyn.

Fechou os olhos por um momento. Até mesmo as paredes pareciam vibrar com as vozes dos nortenhos, seus gritos, seus sacar e guardar espadas, seus dedos apontados uns para os outros.

—Quero-a morta! – rosnou Lorde Edmure, novamente.

—Ela fez o que deveria ter sido feito! – rosnou Lorde Karstark.

E então, de repente, todos se calaram. Shiera abriu os olhos e notou que Robb tinha se levantado, tendo o semblante sombrio e frio. O mesmo semblante que tivera ao ler a carta enviada pela Rainha, nas letras de Sansa. Estou perdida... ele não vai entender. Ele não vai me perdoar...

—Eu escutei o seu lado, Shiera. – disse ele – Meistre Luwin... minha mãe... o que ela disse quando Shiera resolveu cortar-lhe a cabeça?

—Sua mãe concordou. – disse Meistre Luwin com pesar – Disse que entendia. Lady Stark estava consumida pela culpa e não estava em condições de entender...

—Lady Catelyn Stark... – começou Shiera, mas Robb a olhou furioso.

—Cale a boca! – gritou ele e o silêncio reinou. O tom dele lhe doeu como uma bofetada e foi tão doloroso que sua voz lhe escapou. Robb engoliu em seco, passando a mão pela barba ruiva – Meistre Luwin... você concordou com Shiera?

—Não, senhor. – respondeu o Meistre e Shiera olhou para baixo, envergonhada e furiosa com o modo como tinha sido tratada.

—E você aconselhou Shiera a não fazer?

—Sim, senhor. Mas ela parecia decidida. – adicionou ele.

—Aparentemente, não são apenas os Targaryen que tem essa mania de grandeza e crueldade. – disse Grande Jon – Em breve estará tão louca quanto Aerys foi.

Aquilo doeu.

—Sor Rodrik. Você escutou as ideias de Shiera.

—Sim, Vossa Graça. – respondeu Sor Rodrik – Eu fui contra, também. Concordo que Lady Catelyn deveria receber algum tipo de punição, mas... mas... mas achei que era um direito seu decidir sobre isso. Ao meu ver, foi covardia.

Aquilo também doeu.

—Theon Greyjoy. – chamou Robb e Theon o olhou com um semblante sério – Você estava presente quando Lady Shiera decidiu tomar essa decisão.

Theon engoliu em seco e Shiera soube que Theon não a apoiaria.

—Sim, Vossa Graça. – disse ele.

—E então?

—E então eu concordei com ela. – disse Theon e Shiera o olhou surpresa – Shiera fez o que uma rainha faria. Lady Catelyn concordou que sua morte seria necessária...

—MENTIROSO! – gritou Bran e Shiera sentiu-se um monstro – Mentira! Minha mãe nunca faria isso!

Rickon pegou a caneca de Robb e a jogou contra Theon, mas errou por muitos centímetro.

—Lorde Bolton. – disse Robb, com a voz gélida – E você? Você apoia a versão dos fatos de Shiera?

—Sim, Vossa Graça. – respondeu Roose – Lady Shiera pediu minha opinião sobre o assunto e eu disse que decapitação em frente a uma árvore coração é como lidamos com traidores. Mesmo o mais elevado deles.

—Então foi sua ideia deixar que ela decapitasse minha mãe.

—Eu disse qual é a lei vigente aqui no norte. – explicou Roose com uma fria calma, como se aquela conversa fosse uma tremenda perca de tempo – Eu concordei com a rainha de que algo deveria ser feito e de preferência antes do seu retorno. Por mais que tenha sido difícil para Lady Shiera, para o rei seria muito pior. – Roose deu um gole em seu vinho e seguiu falando em seu típico tom de voz sussurrado – É dever dos reis manter a lei e a ordem.

—Lorde Bolton tem razão. O fato de ser mãe do Rei só fez o crime ser ainda mais terrível. – disse Lorde Karstark.

Os lordes voltaram a digladiar uns com os outros, ferozmente. Shiera apenas seguiu calada, olhando para Robb, esperando sua sentença.

Robb suspirou e levantou a mão, pedindo silêncio. Prontamente todos se calaram para olhar o Jovem Lobo. Respirou fundo, erguendo a cabeça, desejando parecer tão solene quanto Lady Catelyn.

—Eu escutei tudo o que disseram. – disse Robb – Para começar, Meistre Luwin, devemos arrumar novos carcereiros. Pois aqueles que deixaram o Regicida sair não merecem mais sua ocupação.

—Sim, Vossa Graça. – disse Meistre Luwin.

—Theon e Lorde Bolton. Vocês têm o perdão real pelo que fizeram. Vocês foram consultados e deram sua opinião. O dever de pesar e decidir não cabia a vocês. – continuou ele e Shiera entendeu que Robb não a perdoara e não entendera. Só havia mágoa em seus sentimentos. Apenas o garoto órfão. Olhou para ele, esperando seu destino – Eu perdoo a rainha também. Eu entendo que fez isso desejando o melhor para seu rei e para o Norte...

—Robb! – rosnou Rickon.

—Não! Robb, não pode! Não pode! – rosnou Bran.

—Mas eu estou, nesse momento, retirando todo seu poder. Você não dá mais ordens, você não toma decisões por Winterfell, você não tem mais força de regente, não participa do conselho do rei e nem tem mais o direito de assistir aos conselhos de guerra. Está confinada apenas a sua missão de mãe e nada mais. – decretou ele.

—Vai punir a garota por cumprir a lei? – questionou Lorde Karstark, mas Robb não respondeu. Ele deu a volta na mesa, sendo seguido por Vento Cinzento. Shiera sentia-se furiosa com aquilo. Era tão injusto. Só fizera o que era necessário. O que deveria ser feito. Até a morta tinha entendido.

—Você está livre para voltar para seu quarto, ou para rezar. Só deverá deixar o castelo para isso. – adicionou Robb – Não poderá praticar o arco, ou a espada, nem andar a cavalo ou fazer passeios.

—Sou prisioneira de Winterfell? – perguntou com mágoa, para ele, que se aproximava – Por que não me joga numa cela de uma vez?

—Eu pensei nisso... mas você precisa cuidar do nosso filho.

—Que ele seja mais compreensível com você, do que você foi comigo. – rosnou se virando e deixando o salão. Voltou para seu quarto e bateu a porta, com força. Estava mais do que furiosa. Sentia-se extremamente traída. Poucos minutos depois Talisa apareceu com Ned nos braços, que chorava copiosamente.

—Shiera. Ele tem fome. – sussurrou ela parecendo sentir muito. Deveria ter escutado tudo de algum lugar. Mas não ligou.

—Eu sacrifiquei tudo por ele. – rosnou olhando para o filho – Meu conforto, meu nome, minha virgindade e meu amor verdadeiro. Eu abri mão da herança de meu pai. Coloquei Harrenhal numa posição delicada com o Trono de Ferro... Eu o poupei da dor de julgar a própria mãe... mas em troca ele me tratou feito um lixo.

—Ele não te tratou feito lixo. Ele teria te matado se te tratasse como lixo. Ele foi clemente. – discordou Talisa.

—Aquilo não foi clemência! – rosnou inconformada e Ned chorou mais alto – Leve-o daqui! – rosnou rejeitando o bebê e Talisa a olhou em choque – Chame uma aia, uma ama de peito. Que digam que meu leite secou.

—Vai ficar insuportável, minha senhora. O leite se tornará pedra em seu seio e a dor pode até mesmo dar febre.

—Não importa. – rosnou indo para a janela. Talisa suspirou e confortou Ned nos braços.

—Eu entendo que esteja nervosa, Shiera. Mas, por favor, não desconte em quem é inocente, sem culpa de absolutamente nada. – disse ela e Shiera sentiu-se tentada a ignorar o chorinho sofrido de Eddard. Mas por fim o instinto materno falou mais alto. Virou-se e andou até a cama, abrindo o vestido e o tirando. Colocou algo mais leve e fácil para a tarefa de amamentação e quando Ned começou a sugar o bico de seu seio, um alívio tomou o local, como se ele sugasse suas aflições a partir daquele ponto – Quer que eu saia? – perguntou Talisa.

—Não. – respondeu sentindo-se péssima, por muitas coisas. Ainda julgava ter feito o certo, mas... mas o olhar de Robb... Ficou com Talisa por longos minutos. Ned mamou um seio inteiro e chorou querendo mais, então deu o outro para ele, sentindo o peito amolecer a medida que o leite ia saindo. Olhou para o bebê que tanto se parecia com Robb e sentiu-se completamente desgostosa e arrependida de tê-lo tido – Eu deveria tê-lo nomeado Aegon. – disse olhando para o bebê, que a olhava com atenção. Ele tinha os olhos num lilás escuro bem forte – O Norte não o merece.

—Um dia ele vai herdar o Norte. Então fará o que achar melhor. Talvez ele seja a punição que aqueles prepotentes merecem. – disse ela e Shiera sorriu fracamente.

—Talvez. – murmurou – Talvez ele nem mesmo sobreviva ao inverno. – suspirou fracamente – Eu nunca deveria ter deixado Harrenhal para conhecer o Norte...

—Mas estava tão desesperada para rever Jon Snow. – riu Talisa – Que acabou se casando com o irmão dele.

Concordou com um aceno de cabeça. Lembrava-se da primeira vez que vira Jon em Winterfell. Ele sorriu aquele sorriso tímido que lhe tirara o fôlego por conta da saudade que sentira. Por um momento toda a viagem valeu a pena, mas apenas por um momento. Pois no segundo seguinte ele ficou sério, se virou e sumiu, a evitando durante muito tempo. Até aquele dia em frente ao represeiro. Trocaria seu título de rainha e seu conforto e suas joias e sua espada e seu arco... trocaria tudo pela chance de ter fugido com ele, naquele dia... para ser eternamente pobre, porém, feliz... a única coisa que não tinha coragem de trocar por aquele sonho, era o amor de Robb... mas ele... ele não a amava mais.

Ned finalmente dormiu enquanto mamava e ela o colocou sobre o ombro, para que arrotasse. Quando ele o fez, o deitou na cama, completamente encolhido dentro de muitas mantas. Ele bocejou e virou o rostinho, completamente envolto num sono tranquilo e profundo. Sorriu fracamente para ele e escutou a porta abrir. Era Robb e ele cheirava a vinho. Muito vinho. O olhar que ele dirigiu a Talisa deixou claro que ele queria que ela saísse e ela o fez. Engoliu em seco e o escutou fechar a porta. Ficaram sem se encarar, em silêncio, durante quase um minuto, até que a voz dele ecoou pelo quarto.

—Dormirei no quarto de minha mãe. – disse ele parecendo bêbado.

—A filha donzela de Lorde Cerwyn lhe fará companhia? – alfinetou, magoada.

—Você bem merecia que todas as suas damas de companhia fizessem. – rosnou ele e ela o olhou furiosa – Mas não. Dormirei sozinho hoje e pelo resto dos meus dias, pois nunca mais me deitarei com você. – disse ele e ela o olhou em choque.

—Eu sou sua esposa. Você disse que havia entendido que eu fiz tudo aquilo pelo bem do reino! – disse se virando para ele. Robb tirou a coroa e a jogou em cima da mesa.

—A perdoei como Rei, mas não como marido. Não como uma pessoa de carne e osso. Você decapitou a minha mãe! – rosnou ele.

—Ela nos traiu. – disse perdendo a paciência – Quantas vezes terei que lembrá-lo disso?! – questionou indo até ele e o segurando pela manga das vestes. Mas Robb a olhou com profunda fúria e colocou a mão em seu rosto, apertando de maneira dolorosa.

—Meu pai foi decapitado injustamente, sendo acusado de traidor. Você fez o mesmo com a minha mãe. – ele a empurrou contra a parede e sua mão desceu para seu pescoço. Assustada, segurou o pulso dele, mas Robb era muito mais forte. Sentiu uma dor terrível e temeu que ele fosse matá-la ali – Você não me permitiu nem mesmo falar com ela uma última vez. A matou na casa dos filhos dela, na casa dela. Com Bran e Rickon presos no quarto. – rosnou ele a olhando mais de perto. Sentiu os pés deixarem o chão, de leve e toda dor piorou ainda mais – Eu amava você, como pode fazer isso? – perguntou ele com dor na voz.

—Per... per... – tentou falar, mas não conseguiu. O ar faltava e sua cabeça doía profundamente. Robb a soltou e Shiera caiu no chão, tossindo copiosamente. Ned acordou assustado e chorou, mas não tinha forças para ir até ele.

—Eu vou dormir no quarto de minha mãe, hoje... mas amanhã pedirei aos criados que tirem suas coisas daqui. Você quem dormirá no quarto dela e eu rezo para que os fantasmas do norte, principalmente o dela, nunca mais lhe deem descanso. – rosnou ele.

—Me per-doe... – disse respirando fundo e segurando a calça dele – Eu... eu fiz... por...

—Não ouse dizer que fez por mim. Eu jamais mataria minha própria mãe.

—Mas... os homens...

—Que se danem! Que se danem todos eles! – rosnou Robb e Ned chorou mais alto.

—Robb... eu fiz por você, por favor, me escute! Me escute! – implorou, mas ele lhe deu as costas – Robb! Por favor! – E foi o que Robb fez depois que mais doeu. Ele ainda não tinha conhecido Ned, seu primogênito... e aparentemente o único filho que teria. Mas ele não se importou. Ele apenas deixou o quarto, abandonando-a ali. Deitada no chão de pedra, com o rosto tomado pelo choro e pela culpa.

Eu Renego o Lobo do Norte

Sempre se gabara de não sentir frio. Acostumara-se a usar roupas nortenhas, mas elas nunca lhe fizeram falta. Principalmente depois do que Rob e os senhores do Norte fizeram. Por isso usava a moda sulista, nas roupas e nos penteados. Os homens a olhavam com desejo. As roupas abertas e mais decotadas, reveladoras, chamavam atenção para seu corpo mudado pela gravidez. Não tinha mais barriga, mas suas curvas estavam mais sensuais e mais bonitas, os seios estavam maiores, duros pelo leite. Seu quadril estava largo e convidativo e sua expressão de desgosto lhe davam uma aparência majestosa.

Mas mesmo com as roupas mais abertas, não era o vento e a temperatura que lhe faziam sentir frio. Eram os olhares e a ausência de Robb.

Talisa lhe dissera para ser paciente e devotada, pois o tempo faria com que Robb superasse aquilo. Mas a verdade era que não tinha tempo. Logo ele voltaria a marchar para o sul e sabe-se lá quando o veria de novo...

Talvez ele voltasse exatamente da mesma maneira que Ned Stark tinha voltado. Vitorioso e com um bastardo. Não sabia como reagiria a isso.

Todas as noites ficava rolando na cama, esperando que ele mudasse de ideia e viesse fazer as pazes. Mas ele não vinha. No café da manhã ele sempre se sentava com Bran e Rickon, e esposo e esposa nem sequer conversavam. Lorde Karstark, no entanto, era mais amável e dizia-se honrado por poder compartilhar da companhia dela durante as refeições.

Todo dia ia para o Bosque Sagrado e para o Septo. No Septo pedia que a Velha colocasse sabedoria na cabeça de Robb e que a Donzela o permitisse amá-la novamente.

Mas suas orações pareciam ser todas em vão.

Os ânimos ficaram ainda mais complicados quando Edmure Tully disse que se Shiera não fosse executada pelo que tinha feito, ele voltaria para Riverrun, dando as costas para os Stark, levando seus vassalos consigo. E os Frey não pareceram se impor a essa ideia. Com isso o exército de Robb ficava reduzido a menos da metade. E com a vitória dos Lannister em Porto Real, somada com a nova aliança entre os leões e as rosas, o poder de Joffrey crescera exponencialmente.

Não sabia o que Robb iria fazer, pois não podia mais participar dos conselhos de guerra e ele proibira os lordes de comentarem com ela o que quer que fosse. Então estava no escuro. Completamente no escuro.

Por isso, a noite, acabava sonhando com a Muralha, com Jon, se perguntando o que ele estaria fazendo, se ainda pensava nela, se ainda tinha aquele par de brincos que ela dera a ele, anos atrás. Em alguns dias em que ficava particularmente zangada com o comportamento de Robb, até se atrevia a ter sonhos ousados com Jon. E nessas noites acordava tão molhada e dolorida que só melhorava se gastasse um bom tempo fazendo com os dedos o que Robb costumava fazer quando estavam bem um com o outro.

E ainda tinha Ned. Sentia-se estranha em relação a ele. Algumas vezes o amava de todo o coração, de maneira incondicional, sendo capaz de matar ou viver por ele. Outras vezes sentia raiva do bebê e nesses momentos não suportava nem mesmo vê-lo. Alguns homens a achavam ainda mais monstruosa por isso, mas a Velha Ama veio em sua defesa. Ela explicara que algumas vezes mães passavam por isso, de rejeitar a criança após o parto. Normalmente acontecia quando a mãe estava vivendo momentos difíceis, mas ela garantiu que com no máximo um ano não sentiria mais isso.

Desejava isso, pois se sentia um monstro por rejeitar um serzinho tão inocente e puro.

Na véspera da véspera de partir de Winterfell, fez-se um banquete para os lordes do Norte. Estava prestando atenção nas conversas e notara que Robb pretendia atacar as Ilhas de Ferro, para conseguir navios. Tendo Theon como herdeiro de Balon, mais os navios, somando com os que Lorde Haegon presenteara, enviando a Porto Branco, teriam uma grande frota. Era a melhor esperança que tinham de tomar Porto Real. Ela achava suicídio. Em sua opinião deveriam tomar Rochedo Casterly e pilhar o castelo e as minas de Lorde Tywin. Os Lannister sem seu precioso ouro ficariam muito mais debilitados.

Mas nada disse, pois sua opinião já não era mais bem vinda. Ficou conversando com Lorde Karstark e Lorde Blackwood, que eram basicamente os dois Lordes que defendiam o que tinha feito sobre Lady Catelyn, mas vez ou outra seus olhos corriam o salão para mirarem Robb. Ele estava bebendo muito e ela não estava muito atrás. Queria afogar as mágoas com vinho, apesar de saber que mágoas nadavam muito bem. Basicamente todas as noites ela e Robb ficavam muito bêbados. Se perguntava se estavam para se tornar Robert Baratheon e Cersei Lannister. Muitos, provavelmente, já a viam tão perversamente quanto viam a mãe de Joffrey.

Conhecera Cersei no tempo em que ficara em Porto Real, logo depois de perder a mãe. A rainha fora gentil e atenciosa com ela, na maior parte do tempo, até que Meistre Pycelle começou a falar sobre um casamento entre Shiera e Joffrey. Cersei não gostara nada daquilo e passara a tratar a garota com fria indiferença. Se não fosse por Myrcella, não teria suportado Porto Real. Por Myrcella e por toda distração que tinha na cidade. Todos os torneios e toda a falsidade da corte. Fora muito cortejada, por muitos filhos de lordes. Até tivera uma paixonite por Renly Baratheon durante um tempo. Um amor platônico por um rapaz bonito e muito mais velho... mas Joffrey era um pesadelo.

Mas mesmo Joffrey era um pesadelo mais fácil de se lidar do que sua vida atual. Theon ainda era um bom amigo, ficando ao seu lado sempre, mas ele mesmo confessara que Robb já não o considerava como antes. Os grandes lordes do norte envenenavam seu rei e esposo com palavras de desconfiança e ódio. Sabia muito bem que a qualquer momento poderia ter sua cabeça arrancada.

—Talvez fosse o momento de começar a pensar num plano de fuga, pro caso das coisas piorarem... – sussurrou Theon, preocupado.

Eu já fui a salvação deles. A rainha guerreira. Todos me amavam pelos sacrifícios que me dispus a fazer... mas agora sou odiada pelos mesmos motivos.

Cansada daqueles homens selvagens e rudes, se levantou e caminhou para fora do salão, sentindo os olhares sobre si. Os ignorou, marchando para fora do castelo, como se fosse para o Bosque Sagrado. Alguns guardas a seguiram, como ditava as ordens de Robb, mas nenhum deles entrou no Bosque com ela. Parou em frente ao Represeiro e suspirou sentindo-se abandonada até mesmo pelos deuses. Sacou seu punhal, única arma que Robb lhe permitiu manter e testou seu fio na ponta de um dos dedos. Sua carne rompeu-se como uma fruta muito madura, permitindo que rubras gotas escapassem do pequeno corte, caindo no chão cheio de folhas. O vapor aconchegante do pequeno lago em frente ao represeiro pareceu sussurrar seu nome, junto com o vento abafado que soprava. O bosque era um lugar escuro e primordial, três acres de floresta antiga, intocada ao longo de dez mil anos, enquanto o castelo se levantava a toda sua volta. Cheirava a terra úmida e a decomposição. Aquele era um bosque de obstinadas árvores sentinelas, revestidas de agulhas cinza-esverdeadas, de poderosos carvalhos, de árvores de pau-ferro tão velhas como o próprio reino. Ali, espessos troncos negros enroscavam-se uns aos outros, enquanto ramos retorcidos teciam um denso dossel elevado e raízes deformadas batalhavam sob o solo. Aquele era um lugar de profundo silêncio e sombras meditativas, e os deuses que ali viviam não tinham nomes.

E ali deixou cair seu sangue. Fez um corte ainda maior na palma de sua mão. Mais uma vez foi fácil, desta vez fácil como cortar manteiga com uma faca quente. O sangue escorreu por seu punho e ela o fechou, sentindo nada mais do que uma leve ardência. Parecia que sua capacidade de sentir estava dormente. Largou seu punhal ali, no chão, e tomou a decisão mais egoísta de sua vida.

Com a mão ainda sangrando copiosamente, entrou para a parte mais profunda do bosque, querendo desaparecer mata adentro. Saindo pelo outro lado, atravessou os canis e caminhou até os muros. Seguiu andando, sem parar e ficou a observar os guardas, quando eles se distraíram, atravessou os portões, que estavam ainda abertos, para se enfiar dentro da Mata dos Lobos. Logo estava tão escuro que nem mesmo conseguia enxergar. Mas seguia sem sentir frio. Nunca sentia frio. Apenas quando olhava para os azuis olhos de Robb. Seguiu adentrando a floresta e logo escutou o som que procurava. O córrego que dava num rio qualquer. Aquele que seguira certa vez, com Robb, para catar amoras para Bran. Foi escutando o som das águas, enquanto adentrava mais e mais na Mata de Lobos. O vento frio acertava suas costas e ombros desnudos, mas ela não se sentia incomodada pela temperatura. Apenas seguiu marchando pela floresta, esperando que algum bicho sentisse o cheiro de seu sangue. De preferência um lobo. Talvez se deixasse cair no rio. Qual morte doeria mais? Ser devorada ou morrer afogada? Só desejava que não restasse nem mesmo um corpo a Robb. Não queria que sobrasse nada. Nem mesmo ossos para enterrar. Talvez o rio fosse uma opção melhor, se olhasse por esse ângulo. Se deixou guiar pelo som da água e soltou um grito de susto quando caiu, escorregando num mar folhas.

Ela não sentia frio, mas gritou ao sentir a água gelada, como centenas de facas afiadas, a rasgar-lhe a pele. Tentou segurar-se em alguma raiz, mas o rio não permitiu e logo a água a levou com fúria. Por um momento não tentou resistir, apenas fechou os olhos e se entregou aos deuses, sentindo sua mão arder e doer. Seu corpo todo doía. Sentiu bater com força contra uma pedra e se segurou ali, sem fôlego, seu corpo desejando viver, por mais que sua mente já tivesse desistido. Logo conseguiu controlar os próprios braços novamente e soltou a pedra, sendo arrastada pela correnteza. Por fim chegou em um lugar onde a água estava tão gelada que a superfície congelara. Tentou subir para respirar, mas a capa de gelo não permitiu. Sentiu absoluto medo e fechou os olhos pensando em Ned, em Robb e em Jon. Pensou nele com muita força e sua mente a levou para longe do corpo, para um futuro que ela não sabia onde ficava. Onde Jon vestia a roupa de um nortenho e não o manto negro da Patrulha. E um exército o seguia. Depois viu-se novamente nas Gêmeas. Lorde Walder Frey falava com Robb, enquanto começava a tocar aquela música... a música de Tywin Lannister... Rains of Castamere... e então uma flecha o acertou no peito e depois outra e então mais uma. Gritou, querendo ajudá-lo, mas isso fez com que a água entrasse em seu corpo e tentasse expulsar a vida que tinha dentro de si. Era feita de fogo e a água iria extingui-lo. Mas Robb estava morrendo e não havia o que fazer.

Viu três Dragões voando ao redor de Aegon.

Viu Valerion de pé, com espada em punho, preparado para lutar pela própria vida.

Viu seu pai deitado em um barco, sendo levado pelo rio.

Viu a cripta de Winterfell. Algo escondido atrás da estátua de Lyanna Stark.

E então os viu. De pé, com uma multidão, avançando para o sul, com suas armaduras brilhantes, feitas de gelo e fantasmagóricos olhos azuis.

E depois disso, não viu mais nada. Apenas escuridão... frio... e silêncio...

**

Robb marchou pelo corredor, sentindo-se bêbado. Cambaleou sozinho pelos compridos e sombrios corredores de Winterfell, sentindo o mundo balançar devido ao vinho. Abriu a porta que procurava e encontrou Talisa, no lugar de Shiera. A ama de leite de Eddard o amamentava enquanto Talisa olhava preocupadamente pela janela. Quando ela o viu, correu parecendo aflita.

—Vossa Graça. Lady Shiera... onde ela está? – perguntou ela.

Robb franziu a testa, confuso. Era isso o que viera procurar, Shiera. A vira deixar o salão horas atrás, portanto imaginou que ela estaria no quarto, com Ned. Abafou um arroto baixando o rosto, tentando raciocinar, por mais que a bebida fizesse seu cérebro funcionar num ritmo muito lento. Olhou novamente para Talisa e negou com a cabeça.

—Achei que ela estaria aqui. – murmurou – Se não está, está no Bosque. – adicionou entrando no quarto e se jogando na cama, muito, muito bêbado. Aquela não era sua cama, mas não queria dormir sozinho. Não queria Shiera, tampouco, mas era melhor passar uma noite ao menos com a esposa, antes de deixar Winterfell. Partiriam em dois dias para as Ilhas de Ferro, com a intenção de conquistar os navios de Balon. E isso levaria muito tempo, pois precisariam dar a volta em Westeros, já que o arquipélago ficava do lado oposto do mar de Porto Branco. Fechou os olhos e sentiu alguém jogar algo pesado contra sua cabeça. Se virou, colocando a mão onde doía e viu que tinha sido Talisa que lhe arremessara um sapato – O que pensa...

—Seu grande filho da puta! – rosnou ela – É isso o que você é! – adicionou ela indo pegar o mesmo sapato que tinha jogado contra ele – Lady Shiera desapareceu há horas. Está escuro e frio lá fora! E você não dá a mínima? Ela é sua esposa, seu maldito! – Robb bufou e voltou a se deitar, não dando a mínima. Ou ao menos era o que repetia a si mesmo – Você não a merece! – rosnou ela e ele a ignorou – Levante e vá atrás dela! – bufou e se levantou para encará-la.

—Eu sou o rei e você não me dá ordens. Não passa de uma bastarda, dama de companhia. – resmungou bêbado. Talisa o olhou parecendo mais furiosa que antes.

—Jon Snow era um bastardo também e ele é dez vezes mais homem que você! – rosnou ela – Não é pra menos que Lady Shiera sempre o amou muito mais. Você nunca foi digno dela. – ela o cutucara numa ferida que nunca tinha cicatrizado por completo. Se levantou, a olhando com fúria e a mulher recuou alguns passos, mesmo que o olhasse com desafio – Vá em frente! Me acerte um tapa. Não é o que deseja? Mas já aviso que não vai fazer de você mais homem! Pelo contrário! – disse ela respirando fundo – Você já olhou pro seu filho alguma vez? Heim? Você ao menos tentou se colocar no lugar de Shiera? Presa num castelo tão diferente da terra dela. Tendo que lidar com problemas que você causou! Ela cortou a cabeça de Lady Catelyn Stark. Eu queria que Lorde Haegon tivesse cortado a sua, quando o recebeu de braços abertos, depois de sequestrar a filha dele, desvirginá-la e arrastá-la pra guerra com você! Você é um maldito... – já estava tão perto dela que ela o acertou repetidos socos no peito – cretino... traidor! Você merece é que ela arranje um bom amante enquanto você está lá fora! Lutando essa guerra imbecil, pelo simples motivo de que não sabe que algumas vezes reis precisam ser firmes e... e cortar cabeças!

—Posso cortar a sua. – rosnou sacando seu punhal e colocando no pescoço dela, mas Talisa não se intimidou.

—Vá em frente, Vossa Graça. Cause esse desgosto para os seus pais. Trate com frieza seu próprio filho recém nascido, ignore sua esposa que fez de tudo para ajudá-lo e corte a cabeça de uma pobre bastarda que não pode se defender. Realmente, tudo muito régio.

—Robb, o que você está fazendo? – perguntou uma voz vinda da porta. Virou-se e viu que era Theon. O Theon que tinha apoiado a ideia de Shiera de decapitar a senhora Catelyn.

—Vossa Graça está mostrando como reis se portam no norte. – debochou Talisa dando-lhe um tapa na mão e saindo de perto dele, como se ele não passasse de um garoto inofensivo – Theon, onde está Shiera?

—Eu não sei. – respondeu ele, parecendo preocupado – Eu fui até o Bosque, porque ela tinha ido pra lá. Tinha a intenção de trazê-la de volta para o castelo, pois já estava tarde, mas tudo o que eu encontrei foi... foi isso. – disse ele mostrando algo para Talisa, que arfou, parecendo assustada.

—Oh, não...

—O que é? – perguntou indo de maneira atrapalhada para junto de Theon. O rapaz lhe mostrou um punhal imundo de terra, folhas secas e sangue. Aquilo pareceu despertar Robb de sua embriaguez, pois reconhecia aquele punhal. Era o punhal da rainha. De Shiera – Onde... onde achou isso?

—Do lado do lago, em frente ao represeiro... – ele engoliu em seco – Eu gritei por ela, mas não tive resposta e...

—Theon, mande Rodrik falar com o mestre do canil. Precisamos dos cães. – disse sentindo um profundo desespero. Olhou para o filho, nos braços da ama de leite e engoliu em seco. Que os deuses não tenham permitido que ela tenha pulado no lago depois de tentar se matar...

—Acha que ela... a essa hora... já não está morta? – perguntou a ama de leite, enquanto tentava fazer Ned arrotar – Talvez os deuses a tenham levado. Por seus crimes.

—Cale a boca! – gritou Robb, assombrado com aquela possibilidade. Saiu do quarto sentindo uma profunda angústia no próprio peito. Não queria pensar nela. Não... ela não estava morta. Não podia estar morta. Voltou até o salão, onde muitos ainda estavam – Jon! JON! – gritou aflito e Grande Jon veio apressado, junto de outros lordes que se assustaram com seu tom de voz – Venham... venham para o Bosque comigo. Depressa! – disse já se colocando a caminho. Seus lordes o seguiram a princípio, mas logo ficaram para trás quando ele se pôs a correr. Nem notou quando começara a correr. Estava escuro demais para enxergar, mas não se importou – Vento Cinzento! Aqui! – gritou e o lobo logo estava ao seu lado. Parou de correr assim que chegou no bosque. Alguns soldados pareciam já vasculhar o lugar, com archotes. Pegou um deles e correu para o lago – SHIERA! – gritou desesperado, mas não houve resposta – Pelos deuses... não... – murmurou sentindo-se perdido – SHIERA! – gritou, mas não houve resposta – Vento Cinzento. Encontre Shiera. Encontre Shiera! – disse para o lobo, que saiu em disparada, mata a dentro – Shiera! – gritou olhando para o lago. Quando Jon Umber finalmente chegou, lhe entregou o archote e começou a tirar o grosso de suas vestes.

—Robb! Garoto! O que houve? – perguntou o lorde, mas não respondeu. Tirou as botas e pulou no lago quente. Procurou no fundo, por ela, desejando não encontrá-la ali. Se ela estivesse ali, seria apenas um corpo morto, afogado. Procurou até não ter mais fôlego e voltou para respirar – Robb! O que está acontecendo?

—Shiera... ela... ela sumiu... – disse desesperado – Theon... ele encontrou um punhal... o punhal dela, sujo de sangue... – disse notando que a voz faltava – Eu preciso encontrá-la...

Antes que Grande Jon falasse, voltou a prender a respiração, para mergulhar, mas logo notou que ela não estava ali. Saiu do lago, um pouco menos desesperado, pois agora havia esperança. Roose Bolton já tinha montado um grupo de busca. Logo a Mata dos Lobos estava repleta de pontos brilhantes, por conta dos archotes. Todos gritavam o nome dela. Robb tremia de frio, mesmo enrolado em uma manta quente e em algumas peles, mas nem cogitou a possibilidade de não procurá-la. Gritou pelo nome dela pelo que pareceu toda a noite. Cada segundo parecia mais próximo do desfiladeiro e da eterna melancolia.

Que os deuses não a tirem de mim. Por favor. Já me tiraram tudo. Não ela. Não ela. Por favor, não ela...

—SHIERA! – gritou em desespero, lembrando-se de quando a vira pela primeira vez, dançando, disfarçada de camponesa, com os cabelos compridos e negros, soltos ao redor do corpo. Tão linda, tão perfeita. Com aquele sorriso maravilhoso no rosto – SHIERA! – Deuses Antigos e Novos, por favor, me ouçam... não a tirem de mim. Não, por favor... não a tirem de mim... o que eu vou falar para Ned? Como eu vou explicar para ele que eu deixei que a mãe dele morresse?— SHIERA! – mas a única coisa que ouvia era as vozes dos outros homens a procurar por ela. Depois de horas de busca, seus homens pararam de gritar. Ninguém mais procurava pela rainha, procuravam por um corpo. Mas ele não abandonou a esperança – SHIERA! – gritou rouco, mas não houve quem respondesse.

—Volte para o castelo, Robb. – disse Roose Bolton, de cima de seu cavalo. Robb segurava as rédeas do seu com tanta força que os nós de seus dedos doíam – Nós procuraremos por ela. Se ficar no frio a essa hora, ficará doente.

Mas ignorou o conselho do lorde e seguiu trotando. Chamou-a uma vez mais e depois mais uma e então mais outra. Mas novamente só obteve o silêncio como resposta. Lembrou-se das palavras de Talisa e sentiu vontade de morrer ali também.

—Shiera... onde você está, Shiera? – perguntou baixinho, aflito, sentindo seus olhos serem tomados por grossas lágrimas. Sozinho e no meio da Mata dos Lobos chorou pela esposa que temia nunca mais rever. Como iria encarar Ned? Como? Nada daquilo teria acontecido se ela tivesse esperado que ele retornasse. Ela quis poupá-lo de um enorme fardo, mas o condenou a outro. O de odiá-la e amá-la ao mesmo tempo. O de desejá-la a cada segundo e de desprezá-la com a intensidade do frio de inverno. De sentir falta de seu sorriso, mas de sentir vontade de feri-la, magoá-la. Então chorou, sozinho na floresta, sentindo que tudo ruía ao seu redor. Como seria capaz de guiar o norte se não era capaz de proteger sua própria família? Encheu o pulmão de ar e gritou o nome dela o mais alto que conseguiu, mas tudo o que escutou foi o piar de uma coruja no alto de uma árvore. – Cadê você? – e então escutou um uivo. Um uivo familiar e alto, por mais distante que estivesse – Vento Cinzento? – murmurou prestando atenção, girou o cavalo na direção do uivo e quando o escutou de novo, bateu as esporas na montaria a colocando para cavalgar o mais rápido possível. Embrenhou-se o mais profundamente na floresta do que nunca antes, mesmo quando saía para caçar com seu pai. O uivo de seu lobo gigante sendo a única coisa que parecia aquecer seu corpo, prestes a congelar de frio. O uivo foi ficando mais alto e seu cavalo começou a ofegar por ser forçado a correr tanto, no escuro. Teve medo de que o animal tropeçasse e quebrasse a pata, mas não parou de galopar. Não estava pensando. Só precisava chegar logo. Não via nenhuma luz de nenhum archote em lugar algum. Era o único que seguia aquela pista. Teve a impressão de sentir o gosto de sangue na boca, uma sensação que sempre o tomava quando estava em batalha. Nunca soube explicar aquilo. Mas não havia tempo para pensar em tais coisas. Apenas precisava galopar e galopar. Precisava alcançar seu lobo. Logo seu cavalo sentiu o cheiro de Vento Cinzento, pois se colocou nervoso e arredio. Robb se obrigou a ir mais devagar. Desceu da cela, amarrou a rédea num galho qualquer e finalmente encontrou Vento Cinzento. Ele estava deitado ao lado de alguma coisa que parecia muito com um corpo humano. Seu lobo chorou baixinho e Robb se jogou de joelhos no chão, ao lado dela. Baixou o archote e reconheceu sua senhora. Engasgou-se por um momento e debruçou-se sobre ela, mas não sentiu sua respiração – Não... não... não... Shiera... Shiera! – sussurrou para ela. Tirou suas luvas e tocou seu rosto, sentindo um tremendo desespero. Ela estava fria. Tão fria... mas como ela poderia estar fria? Shiera era quente como o verão. Quente como o sol. Quente como uma lareira. Então por que ela estava tão gelada? – Minha senhora... por favor... não faça isso comigo... – pediu desesperado e notou que as duas mãos dela estavam feridas. Uma parecia ter sido um corte. A outra tinha sido mordida, provavelmente por Vento Cinzento. Talvez para tirá-la do rio. Talvez na intenção de acordá-la. Robb sentia seus dedos tremerem enquanto a dura realidade pareceu acertá-lo com fúria. Fechou os olhos e se deitou sobre ela, chorando completamente desolado – Me perdoe, minha senhora. Me perdoe... – sussurrou entre os soluços. Olhou para o rosto dela, completamente desolado, sozinho e infeliz – Fale comigo, Shiera, por favor... – implorou para ela, mas ela estava pálida e imóvel – Eu te ouviria... mesmo... mesmo que me custasse... – engoliu em seco sem conseguir concluir e sentiu alguém puxá-lo pela capa. Caiu pesadamente no chão, de costas, sem forças para reagir. Largou seu archote no chão, e a neve o apagou. Não ligou. Apenas chorou. Escutou uns sons estranhos, mas não tinha forças para reagir.

—Vamos, Shiera, vamos. Volte. Volte! – escutou a voz de Theon, mas não se importou. Apenas seguiu deitado, sentindo frio. Sentindo a cabeça doer tanto que não se espantaria se ela explodisse – Droga, Shiera. Acorde! Acorde! – insistiu Theon, mas era inútil. Sua amada Shiera estava morta e ele não dissera que a perdoava. Ele não dissera que a amava. Ele deixara aquilo acontecer. Que grande rei eu sou! Eu deveria ser o bastardo. Eu quem deveria estar na Muralha. Jon quem deveria estar aqui, guiando o norte, casado com ela. Eu não a mereço. Eu não mereço Winterfell... eu falhei com meu pai, com minha mãe e com minha esposa. Eu falhei com meu filho. Eu falhei com meus lordes. Eu fui fraco e cego.— Shiera. Respire! Respire!

E então Robb ouviu uma tosse feminina. Piscou em choque e se sentou, para então se arrastar até ela. Shiera estava de lado, cuspindo água, enquanto tossia, mas logo pareceu desmaiar novamente.

—Ela está viva? – perguntou em choque. Theon a abraçou e concordou.

—Precisamos levá-la de volta para o castelo. Ela precisa que Meistre Luwin cuide dela. – disse ele com firmeza. Theon a pegou no colo e lhe entregou uma lamparina – Eu vou te seguindo, nos guie, Robb. – disse Theon e Robb concordou. Correram até os cavalos e galoparam para Winterfell. Theon a levou para a enfermaria e Meistre Luwin começou a tratá-la com mel e ervas, logo depois que a meteram em roupas quentes e secas.

—Coloque mais lenha na fogueira. Ela está congelando. – disse o Meistre – Theon, peça que alguém coloque carvões incandescentes em uma panela de ferro, para que coloquemos embaixo do colchão dela. – adicionou ele.

—Sim, Meistre.

Robb se ajoelhou ao lado da esposa, segurando sua pequena mão entre as suas. Ela ainda estava fria. Por que ela estava fria? Por que? Ela não sentia frio. Ela nunca sentia frio... só uma vez, durante um pesadelo que ela tivera, mas em segundos ela ficou quente novamente.

—Ela vai sobreviver? – perguntou assustado. Meistre Luwin o olhou com benevolência.

—Ainda a ama... – murmurou ele. Robb concordou com um aceno de cabeça – Então diga a ela, Robb. Quem sabe isso a ajude a voltar. – Meistre Luwin voltou a lidar com suas poções e Robb beijou a esposa na testa. Ela respirava muito fracamente. Seu peito mal se movia ao respirar. O Meistre começou a tratar dos ferimentos das mãos dela e Robb se lembrou das mãos de sua mãe, depois que aquele homem que tentara matar Bran lhe cortara as palmas.

Theon voltou com o carvão e eles colocaram entre um colchão e outro, deixando a cama muito quente. O Meistre fez um chá que tinha um cheiro bem agradável e foi dando aos poucos para sua esposa, que parecia desacordada. Lembrou-se de Bran, deitado ali durante quase um mês. Shiera ajudara a cuidar dele também. Sempre tão amável. Bran a amava tanto...

Só soltou a mão dela quando o Meistre foi cuidar da mordida que Vento Cinzento dera. Mas em momento algum Shiera acordou.

—Robb... – escutou a voz de Bran, que vinha no colo de Hodor. Sabia que o irmão odiava Shiera, então não quis que ele notasse o quanto ele não queria que ela morresse – Shiera... ela vai sobreviver? – perguntou ele, timidamente.

—Precisamos vigiá-la em turnos. – explicou o Meistre – Foi você quem a trouxe de volta, Theon?

—Sim. – respondeu o rapaz – Eu já vi muitos afogamentos, quando era criança. O Deus Afogado deu a ela a sua bênção. – Theon bateu no próprio peito –O que está morto, não pode morrer. Mas volta mais firme e mais forte.

—Precisamos tomar cuidado... se ela parar de respirar, precisamos garantir que ar entre em seus pulmões. – explicou o Meistre.

—Eu ficarei com ela. – disse Robb.

—Você está cansado, meu lorde... – começou o Meistre, com a voz gentil.

—Eu ficarei com ela! – rosnou segurando as mãos dela – Ficarei aqui até que ela acorde. Se levar dias, meses, não me importa. Não deixarei Winterfell antes que ela acorde. – disse sentindo o peito doer. Beijou a delicada mão dela e a olhou sentindo-se perdido.

—Você a ama. – disse Bran – Mesmo depois do que ela fez com a mamãe. – adicionou ele e Robb não teve coragem de olhar para o irmão. Olhava apenas para Shiera, que parecia tão pequena e magra, tão pálida por baixo de sua cabeleira negra. Com os lábios cinzentos e os olhos fechados. E a pele fria, tão fria. A queria quente. Quente... como naqueles dias em que dormiam juntos, suados, com sorrisos no rosto. Quando ele a afagava no ventre inchado e sonhava com uma vida feliz ao lado dela, com Ned e muitos outros filhos – Tudo bem, Robb... – murmurou Bran – Eu amo Shiera. Mas eu não posso perdoá-la... que bom que você pode. – murmurou Bran e Robb fechou os olhos, soltando um soluço.

—Vamos. Vamos deixá-los aqui. – murmurou Theon – Vamos, Hodor.

—Hodor. – concordou Hodor.

Robb esperou que todos saíssem e ficou observando Shiera. Segurou a mão dela com delicadeza, pois não queria machucá-la. A beijou novamente nos dedos e ficou observando-a dormir. Suspirou e a colocou mais para o lado na cama, para deitar-se ao lado dela. A abraçou, prestando atenção em sua fraca respiração, sentindo medo, muito medo, de que os Deuses lhe tirassem ela. A afagou com carinho no rosto, sentindo falta de seu calor e de seu sorriso. Puxou a cabeça dela com gentileza, para beijá-la na têmpora.

—Eu te amo. Volte pra mim. – pediu desesperado, mas ela não respondeu. Ficou zelando por ela, mas o cansaço bateu e acabou caindo no sono. Acordou um tempo depois, sentindo-se culpado e com desespero no peito. Averiguou a respiração dela e notou que ela ainda respirava, por mais que ainda estivesse gelada e pálida. Levantou, sentindo o corpo suar pelo calor, e foi atiçar a lareira. Pegou outro cobertor e jogou em cima dela, mas Shiera não reagiu. Sentou-se mais uma vez na cadeira e ficou a observando, tentando encontrar em seu coração amor o suficiente para perdoá-la. Ela fizera por ele. Ela ouvira os conselhos de Roose Bolton e de Theon. O lorde que ele sempre dissera ser muito inteligente e estratégico... e Theon, seu melhor amigo. Ela os ouvira antes de ouvir Meistre Luwin, um homem em que ela nunca confiara, nem gostara. Shiera não gostava dos Meistres e Meistre Luwin nunca pareceu sentir por ela alguma afeição. Levantou-se e saiu do quarto. Talisa estava do lado de fora e o olhou com puro desprezo – Cuide dela por mim. – pediu humildemente – Se ela parar de respirar...

—O Rato Cinzento me explicou, agora se não se importa... – ela entrou no quarto tomando todo o cuidado para não tocá-lo. Não a julgou.

Afastou-se e foi até o Septo que seu pai tinha mandado construir para sua mãe, quando se casaram. Entrou ali e ajoelhou-se em frente à Donzela e implorou para que ela lhe devolvesse a esposa. Depois rezou para a Mãe, pedindo que ela acolhesse sua querida mãe. Pediu também que Ela lhe ajudasse a criar Ned de maneira correta, para torná-lo um homem honrado e correto. Depois rezou para o Pai, pedindo que soubesse encontrar justiça em seu coração. Rezou para a Velha pedindo sabedoria, depois para o Estranho, implorando que ele não levasse Shiera.

Depois foi para o Bosque Sagrado e se ajoelhou, rezando também para os Deuses Antigos, agradecendo por eles terem ajudado a encontrá-la, por eles terem permitido que Vento Cinzento a encontrasse antes de uma matilha. Lhes agradecendo por tê-la tirado da água. Lhes agradecendo por ela ainda estar viva. Quando saiu de lá, foi para o quarto de Ned. Ele estava com as meninas Frey, enquanto elas o mimavam e sorriam para ele. Mas assim que viram Robb, lhe olharam com tanto desgosto que sentiu-se intimidado. Tenho o direito de vê-lo? De tocá-lo? De ser um pai para ele? Ou será que perdi tudo?

—Por favor... eu só queria... vê-lo. – sussurrou e as aias de Shiera ficaram de pé e deixaram o quarto da mesma maneira como Talisa, fazendo de tudo para que não encostassem nele. Como se ele fosse algo podre, sujo e contagioso. Algo tão repugnante quanto escamagris. Aproximou-se da cama e mirou o bebezinho, que mexia os pés e as mãos no alto. Sorriu vendo o quanto ele era cabeludo, com os fios vermelhos, finos e macios. Parecia muito com Bran, com exceção dos olhos. Os olhos eram parecidos com os de Shiera, mas mais escuros. O pegou pela primeira vez, muito desengonçado e o bebê se assustou chorando. Alarmou-se, com medo de tê-lo machucado e se deu conta que era melhor segurando uma espada do que um bebê – Ned, calma. Não tenha medo. – sussurrou tentando deitá-lo de maneira confortável, assustando-se com o quão mole era o pescoço dele – Eu sou seu pai, Ned. Seu pai. – sussurrou tentando confortá-lo, mas o bebê chorou ainda mais. O aproximou mais um pouco do rosto e o beijou ternamente na testa e isso finalmente fez com que ele se acalmasse. Ned levantou as pequenas mãozinhas e segurou sua barba de maneira desengonçada. Robb engoliu em seco e caminhou até a janela. Ned era quente como Shiera era e isso o confortou novamente – Cuide de sua mãe quando eu partir. – sussurrou para ele – Cuide sempre dela. – o olhou com carinho – Quando eu voltar da guerra, vou lhe ensinar tudo o que meu pai me ensinou. Caçaremos na Mata dos Lobos, visitaremos Jon na Muralha, eu o ensinarei a cavalgar e a segurar uma espada... e um dia tudo isso será seu. Todo o Norte. E se tudo der certo, você terá muitos irmãos com quem brincar por aqui. – sussurrou para ele. Ned ainda estava afagando sua barba, com os dedos sem muita coordenação. Robb sorriu para ele e o deitou na cama novamente, deitando-se ao seu lado – Perdoe-me, Ned.

Pensou que só precisava fechar os olhos por um segundo, mas não. Quando acordou já passara da hora do almoço. As aias de Shiera tinham levado Ned para a enfermaria. Descobriu quando foi ver a esposa, mas assim que entrou, as mulheres saíram, recusando-se a tocar nele, cada uma o olhando com mais desgosto que a outra. Principalmente Talisa. Ela era a melhor amiga de Shiera e o olhava como se ele fosse simplesmente grotescamente desprezível.

Ficou sentado ao lado da esposa, a observando tristemente, ela seguia pálida, gelada e imóvel, com o peito movendo-se lentamente. Beijou suas mãos várias vezes e sussurrou em seu ouvido, mas ela não respondeu. Pediu que ela acordasse, que abrisse os olhos... pediu perdão por seu comportamento e lembrou-se envergonhado de que a tinha machucado no pescoço. A beijou ali, sentindo o cheiro dela e desejou poder voltar no tempo. Voltar para quando dançara com ela, no banquete do Rei, logo depois de receber a bênção de Jon para cortejá-la. Queria voltar para aquele dia, quando se enfiaram juntos na floresta, para procurar amoras. Queria voltar para aqueles dias, quando convocara os vassalos, quando confiava a ela seu segredo... o segredo de que estava com medo. Quando segurava a mão dela por baixo da mesa e os dois se confortavam sem que ninguém notasse. Queria voltar para aquele dia quando ela implorou que a levasse com ele, quando a beijou durante toda a noite. Queria voltar para aquele dia em que ela concordara em casar-se com ele, mesmo sem a presença do pai. Céus, queria voltar para aqueles dias, quando ela perdera a vergonha e o medo dele, quando lhe dava sorrisos e afagos enquanto a amava naquela cabana de guerra. Mataria alguém para voltar ao dia em que ela viera para batalha, para lutar ao seu lado. Naquele dia em que descobrira que ela esperava um filho seu. Queria voltar para aquele dia em Riverrun, quando ela o chamou de “meu rei”, num sussurro só dos dois, enquanto se preparavam para dormir. Queria tanto voltar para aquele dia, em Harrenhal, quando se desculpou para o pai dela e finalmente recebeu a bênção dele. Depois quando a amou em Harrenhal, no tapete, a olhando nos olhos com imenso carinho.

Céus, como queria voltar para aquele tempo, antes de ter recebido aquela maldita notícia. Que sua mãe soltara o Regicida. Depois que Shiera a prendera por isso e logo em seguida, a decapitara. Queria voltar para antes de tudo aquilo. Quando vê-la não era uma confusão. Quando vê-la era um alívio. Sempre tão cheia de energia e força. Tão linda, tão amável. Tão perfeita. Ficou com ela até o por do sol, sem sentir fome ou sede, apenas sussurrando em seu ouvido que a amava e que a queria de volta.

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—Volte... volte pra mim, por favor... – implorava num sussurro segredado a ela, mas Shiera não respondeu. Ela ainda seguia fria, gelada, pálida, como uma morta.

Depois que o sol se pôs, o Meistre veio lhe trazer algo de comer e implorou que fosse ver seus homens. Os vassalos queriam saber se marchariam ou não. Alguns já começavam a falar sobre assuntos que precisavam tratar em seus castelos.

—Eles vão partir, meu senhor. Só precisamos saber se será com ou sem você. – explicou o Meistre. Engoliu em seco e se sentou.

—Eu não sei o que fazer, Meistre... eu causei isso. Eu. – sussurrou entristecido.

—Você precisa ser forte, Robb. O Norte precisa de seu senhor.

—E o senhor do Norte precisa de sua senhora. – sussurrou olhando para ela.

—Não precisa, Robb. Você é o Norte. Não ela. – explicou o Meistre – Você é grande sozinho. Todas suas conquistas foram suas. Você nunca foi derrotado.

—Fui derrotado sim... por mim mesmo. – murmurou olhando as próprias mãos – Eu a machuquei, Meistre Luwin. Eu a enforquei, a estrangulei. Eu quis matá-la... eu a desejei morta... e... e olha o que aconteceu. Como vou poder olhar para ela de novo? – perguntou ele olhando para o velho – Se eu for embora sem falar para ela... que eu a amo e que eu a perdoo... como posso ir embora, sem saber que ela me perdoa também?

—Eu direi a ela. – explicou o Meistre – Agora respire fundo. É hora de matar o garoto, Robb. – explicou o Meistre – É hora de matar Robb Stark, o garoto. Agora é hora de ser... – o velho lhe entregou a coroa de bronze e ferro – Rei Robb... o Rei no Norte.

Aquela coroa nunca pesara tanto. Foi para o quarto, seu escudeiro o ajudou a se arrumar, vestiu seu manto de Senhor, colocou a coroa em sua cabeça e respirou fundo, tentando esconder suas preocupações, sua culpa, tentando esconder o quão desolado estava. Sentou-se com seus lordes, os escutou discutir sobre estratagemas, sobre atacar ou não as Ilhas de Ferro, sobre fazer as pazes com Riverrun, sobre tentar reunir-se com o que restara de Stannis, sobre até mesmo se render. Escutou a todos, mas quando Grande Jon Umber sugeriu matar Shiera e enviar sua cabeça para Riverrun, ele se levantou.

—Senhores... – murmurou sombrio. Não sabia o que falar. Não tinha o que ser dito, mas Meistre Luwin apareceu no exato momento de salvá-lo.

—Perdoe-me, Vossa Graça, mas acredito que precise olhar isso. – disse o Meistre lhe entregando um pergaminho. Enquanto lia, Luwin explicava aos outros o que estava acontecendo – Um exército Lannister marcha para Riverrun. O Montanha, Gregor Clegane, lidera esse exército. Está incendiando campos e passando a espada nos camponeses. Edmure marcha para enfrentá-lo. Está há poucos dias a nossa frente.

—Aí está nossa chance de salvar nossa relação com Riverrun. – disse Roose Bolton, com seu típico tom de voz baixo.

—Sim, vamos lá salvar a bunda de Lorde Edmure novamente. – riu Grande Jon.

—Brynden Peixe Negro está mantendo o castelo, mas tem apenas duzentos homens. – informou Meistre Luwin.

—Riverrun não vai cair facilmente assim mesmo. – disse Roose – É um castelo muito bem localizado, com a natureza servindo como muros altos demais para serem vencidos. – Robb sentiu o coração acelerar – Mas precisamos sair daqui o quanto antes, para poder alcançarmos Riverrun e pegar a Montanha desprevenida.

—E o que faremos depois disso? – perguntou Lorde Bracken – Não temos como derrotar a aliança entre as Casas Lannister e Tyrell.

—Não sem Haegon Blackfyre. – sussurrou Robb.

—O velho não nos quis ajudar antes, não vai ajudar agora. – resmungou Lorde Cerwyn.

—Não com vocês querendo a todo custo matar a filha querida dele. – rosnou Lorde Karstark. O velho suspirou e coçou a barba nervosamente – Seus homens não encontraram a menor trilha de Jaime Lannister, Bolton?

—Infelizmente aquele homem sabe se esconder muito bem. – respondeu Roose Bolton.

—Um feito que sempre achei que ele não seria capaz de fazer. – resmungou Lorde Karstark – Eu digo o que devemos fazer. Nós devemos esperar que Lady Shiera acorde. – ouviu-se gritos e contestações e Robb levantou a mão, exigindo silêncio – E então perguntamos a ela sobre seus sonhos. Ela estava certa sobre tudo o que previu, não estava? Talvez...

—Ela enfeitiçou você também, Lorde Karstark? – perguntou Grande Jon – Vamos, Robb. Não podemos perder tempo. Precisamos partir o quanto antes ou perderemos Riverrun de vez.

Robb engoliu em seco. Não podia ser Robb, o esposo, naquele momento. Não podia esperar que Shiera acordasse. Ele precisava ser o Rei Robb, por mais que isso significasse... por mais que isso significasse perdê-la. Esse era o fardo de um rei e ele entendia mais ou menos o que ela sentira. Entendera quando Edmure exigiu a cabeça dela e entendia cada vez mais sempre que algum Lorde exigia que ela morresse. Mas não tinha coragem. Não tinha. Simplesmente não tinha.

Mas já que não poderia matá-la, então deveria abandoná-la. Deveria confiar em Meistre Luwin.

—Marchamos para Riverrun amanhã. Preparem-se. – definiu sentindo a coroa pesar desconfortável em sua cabeça. Jantou, mesmo sem sentir fome e se despediu de seus homens, por mais que eles pedissem que ficasse mais tempo. Mas não podia. Primeiro foi para o quarto do filho, que mamava na ama de leite. Esperou que ele terminasse e pediu para ficar com ele um pouco. O fez arrotar, da maneira que a ama explicou e então conversou um pouco com ele, por mais que o menino tivesse caído no sono. Depois o colocou no cesto de dormir e foi para junto de Shiera. Ela ainda dormia, ainda pálida e gelada. Imóvel. Retirou a roupa, ficando apenas de calção, para em seguida colocar mais lenha na lareira e atiçar o fogo. Deitou-se ao lado dela e a beijou com carinho no rosto, a abraçando por baixo dos cobertores – Eu te amo, minha senhora. Por favor, acorde. – sussurrou, mas Shiera não respondeu – Eu preciso partir amanhã... não me deixe partir sem ouvir sua voz, por favor. Mesmo que seja para... para me expulsar do quarto. Mesmo que seja para falar que eu sou um ingrato desprezível... apenas acorde e fale comigo, minha senhora. Meu amor... pois eu a escutaria falar tudo o que desejasse, mesmo que isso me custasse as orelhas. Mesmo que isso me custasse as mãos e os pés e os olhos... só me fale alguma coisa. Qualquer coisa. Por favor, Shiera, meu amor, minha senhora, minha esposa... apenas não me deixe nesse silêncio frio e vazio. Eu lhe imploro. – mas ela seguiu calada, quieta, como uma morta. Dormiu ao lado dela, a abraçando, para esquentá-la. Sonhou com ela e seus sorrisos e afagos. Sonhou com a época em que ela estava grávida e ficavam os dois deitados na cama, observando Ned mover-se na barriga dela. Foi acordado por Meistre Luwin no dia seguinte e desejou não ir embora. Desejou mandar seus homens e ficar. Mas não podia. Era um rei. O Rei no Norte. Pediu para ficar sozinho com ela apenas mais um pouco e quando o Meistre saiu, a beijou nos lábios, sentindo falta dela – Eu te amo...

Ela não se moveu.

Levantou-se e a olhou novamente. Depois foi se preparar para partir. Quando já estava tudo pronto, foi despedir-se de Ned e depois dela. A beijou novamente e mirou Vento Cinzento. O lobo o olhou atentamente. Se ajoelhou ao lado dele e suspirou.

—Cuide deles, Vento Cinzento. Cuide deles por mim. – pediu. Vento Cinzento chorou baixinho, mas não o seguiu. O lobo pulou para a cama e deitou-se ao lado de Shiera. Soltou um suspiro mandou chamar Lady. Deixou a loba ali também. Como era mais comportada, Lady contentou-se com o tapete – Cuidem deles por mim. – pediu novamente. Os lobos choraram baixinho. Olhou para Shiera e voltou para beijá-la uma última vez antes de partir. A beijou nos lábios, com delicadeza, mas ela não correspondeu – Eu te amo, Shiera... – sussurrou com a testa colada na dela – Adeus...

E então, finalmente, partiu.

Notas finais
Segura o Coração! Prévias? "-Eu soube de seus encontros secretos com Sansa Stark. – sibilou Lorde Tywin. —E eu soube que Cersei Lannister andou transando com Lancel Lannister. Nem por isso saí comentando isso por aí. – riu Valerion servindo o vinho pra si mesmo e para Lorde Tywin, que pareceu ficar mais zangado – Apesar que essa é uma fofoca até inocente se formos comparar com as coisas que dizem dela... como anda Jaime Lannister?" Gente, que menino ousado O_O "-Seriam? – perguntou ela e Valerion sorriu. —Lady Margaery. O que você está fazendo? – perguntou cansando-se daquele jogo. —Passeando, por que? – perguntou ela e ele sorriu a olhando com atenção. —Você sabe jogar. Pra onde está me conduzindo? – ela sorriu e largou seu braço, lhe lançando um sorriso cheio de segundas intenções." Margaery e Valerion? O_O "– Deve estar me achando patético... —Um pouco. – riu Barristan – Mas não o julgo. Eu entendo. – adicionou ele – Mas se acha que não está a altura da rainha, então melhore, Aegon. – aconselhou o velho e Aegon o olhou – Seja mais do que uma simples espada. —Meu pai passou a vida tentando fazer isso comigo... acho que eu não nasci pra ser mais do que isso. —Se simplesmente aceitar seu destino, então não há mesmo o que ser feito. – decretou o velho – Mas eu me pergunto se antes você já desejou ser mais do que uma simples espada. Pense nisso com esmero." Bem, chega de prévias! Próximo capítulo vai sair dia 20 de Janeiro, a menos que a) A fic receba uma recomendação antes b) Tenhamos pelo menos 10 comentários. Pois é, a maratona terminou e eu vou passar a postar uma vez por semana novamente (ou duas, dependendo do meu tempo e humor) Beijos Titia ama vocês ^~