Blackfyre
41 Propostas Indecorosas
Notas iniciais

Propostas Indecorosas
Shiera recebeu o Lorde Comandante com o coração apertado. O jovem rapaz não parecia nada menos do que infeliz, mas vestia a responsabilidade que lhe fora colocada com determinação. Seu pequeno conselho o aguardava com inquietação. Stannis estava se preparando para partir para guerra, para Winterfell, numa campanha que ela julgava suicida. Mas ele pedira uma reunião com ela antes. Mas primeiro a Rainha do Norte precisava negociar com Jon Snow.
Sabia que a noite que tinham passado juntos não influenciaria a decisão do rapaz e precisava não se deixar levar também. Precisava pensar no seu reino e em seu filho. Em suas responsabilidades. Jon Snow estava, oficialmente, para sempre, longe de seu alcance. Talvez um dia escreveriam uma música sobre aquilo... ou talvez todos pensassem que seu coração sempre tivera sido inteiramente de Robb... mas aquilo não era o importante.
Uma semana tinha passado desde que a Patrulha elegera Jon Snow, o Bastardo de Winterfell, como o 998º Lorde Comandante da Muralha. E o rapaz estivera muito inquieto resolvendo todo tipo de problema, principalmente tentanto convencer Stannis a não queimar todos os selvagens que estavam ao seu alcance. Muitos dos reféns de Stannis tinham preferido voltar para o Norte da Muralha a se render ao deus vermelho de Mellissandre e Jon estava muito interessado nesses homens.
—Senhor Comandante. – disse sem olhá-lo nos olhos. Fazia um silêncio quase fúnebre no pequeno escritório – Pensou em minha proposta?
A pergunta era meramente decorativa. Sabia muito bem a resposta que Jon Snow daria.
—Sim, Vossa Graça. – murmurou ele como se sentisse muito e ela fechou os olhos, sem saber o que fazer – Mas eu fiz um juramento e sou responsável pela Muralha. Eu não posso seguir para Winterfell, como Jon Stark. Por mais que eu desejasse isso. – disse ele e Shiera suspirou.
—Entendo. Se é só isso...
—E quanto aos selvagens? – perguntou Zoltan.
—Eu conversei com Mance. – disse Jon com firmeza – Ele não tem a menor intenção de ajudá-la. Nem de pedir que os selvagens a ajudem. O Povo Livre é livre. – explicou Jon e Shiera suspirou de novo – Mas... se me permite um conselho, Vossa Graça...
—Um conselho?! – perguntou Zoltan, furioso, se levantando – De um pivete que dá as costas para a própria Rainha?
—Zoltan. – disse Shiera, se levantando. Zontan se calou, voltando a se sentar. A rainha mirou Jon Snow e o olhou no fundo dos olhos – Sou toda ouvidos, Jon Snow.
Jon respirou fundo e se aproximou um passo, mas Nym avançou um também, deixando claro que não permitiria que ele se aproximasse mais. Jon baixou os olhos por um instante, mas depois voltou a olhá-la nos olhos, também.
—O Norte não tem muitas cidades, mas tem pequenas vilas, espalhadas por todo o território. Cada vila com seu próprio senhor. Muitos deles, que nunca imaginaram ver um rei ou uma rainha. Homens acostumados com o inverno e tempos difíceis, mas que conhecem o nome Stark e que são confiáveis. Meu pai me contava sobre eles. Algumas vezes ele viajava pelo reino, para se encontrar com esses homens e mostrar que os Stark estavam sempre ali por eles. – Jon deu um sorriso nostálgico e Shiera suspirou – Meu pai sempre dizia que sempre ganhava uns quilos a mais depois dessas viagens, porque esses homens sabiam como receber as pessoas. Procure-os, Vossa Graça. Peça ajuda a eles. Nenhum exército Lannister jamais marchou tão ao norte. Essas vilas não foram tocadas pela guerra. Eles podem ajudar.
—Ajudar? Com o que? Forcados e foices? – debochou Zoltan, mas Grande Jon se levantou, com um sorriso.
—Não subestime um nortenho com uma foice, anão. – riu ele e Zoltan o encarou totalmente ultrajado – É uma boa ideia. Podemos conseguir arrumar uns bons homens, que sabem lutar na neve, que conhecem o Norte. Eles podem nos ajudar a lidar com os Bolton. – riu Zoltan.
—Podemos ir para as Ilhas de Ferro. – disse Theon – Os homens de ferro lutam melhor na água do que na terra, mas precisamos de mais homens, de qualquer maneira.
—Depois de termos esmagado a rebelião deles, não acho que eles vão querer nos seguir. – discordou Lorde Karstak – Ainda mais porque você não é exatamente muito querido entre eles. Te chamam de Theon Vira-Casacas, por ter se mantido fiel aos Stark e não aos Homens de Ferro.
—Ao que eu serei eternamente grata. – disse Shiera com um tom gentil e Theon lhe lançou uma piscadela, abusada.
—Precisamos marchar para Harrenhal. – disse Hoster – Nos unir ao que sobrou dos Tully. Fazer alianças com os Senhores do Rio.
—Matam meu irmão, se eu ousar chegar perto de Harrenhal. – disse Shiera, com a cabeça pesada.
—Valerion é um homem morto, de qualquer maneira. – apontou Nym e Hoster a olhou feio.
—Valerion sabe como cuidar de si mesmo. – discordou ele – E agora que eu soube que Sansa Stark desapareceu...
—Sansa desapareceu?! – cortou Jon e Hoster o olhou com um sorrisinho.
—Eu escutei na taberna deVila Topeira... Sansa Stark fugiu de Porto Real. Dizem que se transformou em um lobo gigante, matou Joffrey e fugiu da capital.
—Parece bastante verídico. – debochou Zoltan – Você só fala asneira, Hoster.
—Não sou eu quem espalhou isso. Só estou contando o que eu ouvi. – riu Hoster e Shiera revirou os olhos.
—Se Sansa escapou de Porto Real, por que meu irmão não foi com ela? – perguntou impaciente – Valerion não desperdiçaria uma chance de fugir de lá.
—A menos que ele não quisesse fugir de lá. – riu Hoster – Talvez faça parte dos planos dele...
—O que mais escutou sobre Sansa Stark? Ouviu algo sobre Arya também? – perguntou Jon e Hoster sorriu.
—Valerion ajudou a mais nova a escapar de Porto Real. Ele a entregou para um membro da Patrulha, que aparentemente nunca retornou. Então ela deve estar morta. Sansa se casou com Tyrion Lannister, contra a própria vontade. Valerion me mandou para o Norte pouco antes do casamento. Mas ele estava cuidando dela. Com mais empenho do que você demonstrou pela irmã dele, inclusive. – alfinetou Hoster e Shiera sentiu o rosto ferver de vergonha. Estava para mandar o irmão de Talisa para o inferno, quando bateram na porta. Os senhores do conselho se entreolharam e Grande Jon se levantou.
—Deve ser algum enviado do babaca do Stannis. – resmungou ele. Lorde Umber foi até a porta e a abriu. Um Imaculado entrou e fez uma reverência respeitosa para Shiera, para então falar, com um idioma comum péssimo e carregado do sotaque de Essos.
—Vossa Graça. Há um mensageiro do seu irmão aqui.- disse ele e Shiera piscou, surpresa. Em seguida ela sorriu e deu a volta na mesa, para ir até o Imaculado.
—Traga-o aqui.
—Sim, Vossa Graça. – respondeu o Imaculado, se curvando e saindo, em seguida. Shiera torceu as mãos, cheia de nervosismo e ansiedade. Da última vez Valerion lhe salvara a vida. O que ele traria agora?
—Isso é estranho. – resmungou Hoster – Em quem seu irmão iria confiar para te mandar uma mensagem? – perguntou ele e Shiera deu de ombros.
—Sansa Stark, talvez? – brincou ela. Seus conselheiros deram risadas nervosas, mas todos se calaram quando o mensageiro chegou. O conhecia da época em que fora morar em Porto Real. Era um homem baixo e de físico pequeno, com um rosto bonito, os olhos eram verde-acinzentados, tinha uma pequena barba pontuda no queixo, e fios brancos em meio a seus cabelos pretos – Lorde Baelish. – disse franzindo o cenho.
—Certamente não esperava por isso. – riu Mindinho, estudando cada um ali presente – Fico feliz por vê-los com saúde e tão firmes, meus senhores. – disse ele de maneira cortês e Grande Jon sacou sua espada, avançando contra o homem. Shiera estendeu o braço, se colocando entre os dois e sorriu amavelmente.
—Seja bem-vindo, Lorde Baelish. No que posso lhe ser útil? – perguntou ela – Soube que tem um recado do meu irmão.
—Tive que sair às pressas de Porto Real, para encontrar-me contigo. – disse Mindinho – Você é difícil de localizar, Shiera.
—Eu preciso me manter assim. Em breve pretendo deixar a Muralha. – disse, sentindo os olhares de todos em sua nuca.
—Ah, vai marchar para casa, imagino. Para Winterfell? – perguntou Mindinho.
—Não. Para as Ilhas de Ferro. – disse com um sorriso gentil – Onde uma frota espera meus homens. Meu exército aumentou drasticamente, agora que os Selvagens concordaram com uma aliança. – disse ela voltando para a mesa – Principalmente agora que tenho um castelo em tão boas condições para oferecer.
—Forte Pavor, imagino. – riu Mindinho a seguindo e se sentando numa cadeira vaga. Forte Pavor era o castelo dos Bolton, que ela pretendia oferecer a alguém em troca de apoio.
—Imaginou bem. – disse gentilmente.
—Espero que não esteja tão determinada assim. – suspirou Mindinho, como se estivesse preocupado com qualquer coisa – Nem que os Selvagens desejem tanto esse Forte Pavor. – adicionou ele. Shiera arqueou as sobrancelhas – Imagino que essa aliança seja absolutamente recente, pois escutei coisas bem diferentes lá embaixo... aliás, como vai Stannis?
—A convivência com ele não é tão difícil quanto imaginei que seria. – disse sorrindo, calmamente, por mais que houvesse uma sensação de peso e expectativa no ambiente.
—Fico contente em ouvir isso. – riu Mindinho, tirando uma carta de dentro das vestes – Bem. Vamos direto aos negócios. Aliás. – ele se virou para Jon e sorriu – Parabéns pela promoção. Deve estar muito orgulhoso, não é? – disse ele, mas Jon não respondeu.
—O que é isso, Lorde Baelish? – perguntou Shiera, pegando o cilindro, que vinha selado com o brasão da Mão do Rei – Valerion foi promovido também?
—Valerion e seu pai fizeram parte do Pequeno Conselho. O que está aí é do consentimento deles. Inclusive, há a assinatura de seu pai aí. – riu Mindinho e Shiera abriu o selo, para desenrolar o papel – É um perdão real. Para você e para todos os leais homens que a seguiram até aqui. – explicou Mindinho e Shiera o olhou, desconfiada – O rei Tommen está perdoando você de sua traição, garantindo ao seu filho o castelo de Winterfell e o título de Protetor do Norte, quando ele tiver idade para isso. Ele crescerá são e salvo, em Winterfell, ou onde quer que prefiras. Harrenhal, Porto Real, o Vale, não importa. – riu ele tirando um floco de neve de cima do próprio ombro – Desde que você cumpra com algumas exigências.
—Exigências? – perguntou Shiera, reconhecendo a assinatura do pai naquele papel. Me usando novamente, num arranjo político, sem pedir minha opinião. Por que não estou surpresa? – E não vejo a assinatura de meu irmão aqui.
—Valerion não fazia mais parte do Conselho, mas estava sempre de acordo com o pai. E ele quem vai substituir seu pai, agora que ele morreu. – Mindinho soltou um longo suspiro, como se sentisse muito. Shiera ainda estava lendo sobre o perdão real, mas parou ao escutar aquilo – Eu fiquei sabendo da notícia em Winterfell, por um corvo, quando estava a caminho da Muralha. Lorde Bolton manda suas estimas e pergunta quando pretende voltar para Winterfell. Ele parece gostar muito da senhora.
—Lorde Bolton não parecia gostar nada de mim. – discordou, levantando a cabeça de maneira arrogante – Eu sempre lhe fui um estorvo. Ele só queria me tirar do seu caminho, para ter Winterfell só para si.
—Eu realmente discordo. – disse Mindinho – Lorde Roose anseia pelo seu retorno.
—Para me esfolar viva?
—Para fazer a paz com você e se casar.
Shiera abriu a boca em completo choque e baixou a carta que estivera tentando ler. Quis descobrir no olhar de Mindinho se era algum tipo de brincadeira, mas antes que pudesse fazer isso, escutou o som de espadas sendo desembainhadas. Pensou que seriam Lorde Jon Umber e Theon, os dois mais explosivos... mas seu rosto ferveu ao notar que era Jon Snow. Ele pegou Lorde Baelish pelo colarinho e lhe colocou a espada no pescoço.
—Mate esse cretino, Snow! – rosnou Zoltan – Como se Shiera fosse se casar com Bolton, aquele traidor lambe botas dos Lannister!
—Vamos deixá-lo para a feiticeira vermelha do Stannis. Esse aí eu vou gostar de ver queimar! – rosnou Lorde Umber, cuspindo nos pés de Mindinho. Jon parecia enfurecido com a ideia do acordo de trégua e Shiera achou melhor intervir.
—Desculpe, Lorde Baelish, mas meus amigos são um tanto protetores para comigo... ainda mais depois do que os seus amigos fizeram com o meu marido. – disse calmamente, tentando ignorar o rubor das bochechas. Jon ainda segurava Lorde Baelish, com fúria no olhar e Mindinho parecia encolher cada vez mais.
—Eu entendo... mas gostaria de lembrar que sou apenas um mensageiro. E não o autor da ideia.
—É que você acabou sendo nomeado Lorde de Riverrun... o assunto se tornou um ponto sensível para todos nós. – riu Hoster – Ainda mais porque você é um merdinha, ardiloso e perigoso. Valerion dizia que é o homem mais perigoso dos Sete Reinos.
Mindinho virou-se para Hoster e o olhou, como se tentasse se lembrar de onde o conhecia.
—E você é? – perguntou ele.
—Hoster Rivers. – respondeu ele – Sou...
—Meu bardo. – respondeu Shiera – Sabe como são os bardos, não calam a boca. – sibilou ela para Hoster, que sorriu voltando a dedilhar seu alaúde.
—Eu posso fazer uma música divertida sobre um homem que foi perdendo os dedos das mãos, até que só sobrasse o mindinho... mas então ele faria um comentário estúpido e nem mesmo o mindinho sobraria. – riu Hoster.
—Não acho que vou gostar dessa música. – riu Jon Umber, mostrando a mão que perdera alguns dedos, graças a uma mordida de Vento Cinzento, anos atrás. Lorde Karstark, Theon e Lady Maege caíram na gargalhada, mas Shiera manteve-se quieta.
—Lorde Baelish. Os Lannister esperam mesmo que eu vá me casar com Lorde Bolton, abrindo mão da coroa? – perguntou arqueando as sobrancelhas, com profundo descaso – Depois dele ter traído a minha família? Os Lannister esperam mesmo que eu faça a paz com eles, depois deles terem matado o meu marido, quando este fez uma proposta de paz e eles negaram?
—Eu adoraria falar o que os Lannister esperam, mas eu gostaria que pedisse ao seu amigo que me soltasse, primeiro.
Jon pareceu ainda mais propenso a cortar a cabeça de Mindinho fora, mas Shiera suspirou.
—Jon. Largue-o, por favor. – pediu com doçura e Jon bufou antes de fazê-lo.
—Já disseram que você parece muito com seu tio Brandon? – perguntou Mindinho arrumando as roupas, que ficaram desalinhadas pelo avanço de Jon. O nortenho bufou de novo e guardou a espada, apesar de ainda olhar muito feio para Mindinho.
—Está livre, mais uma vez, Lorde Baelish. Sou toda ouvidos. – disse Shiera e Mindinho respirou fundo.
—Depois disso, para minha segurança, gostaria que me servisse um pouco de pão e vinho. Me sentiria mais confortável para conversar. E também gostaria que mantivesse menos pessoas aqui. Apenas um bom soldado de confiança, para fazer sua proteção.
—Pão e vinho? De que isso valeu para meu amado Robb? – perguntou Shiera com desdém e Mindinho sorriu sem jeito.
—Eu não sou um Frey. – assegurou ele –Muito pelo contrário. Eu sou o marido de Lisa Arryn. Tia do seu falecido esposo. Lorde do Vale, o único lugar dos Sete Reinos que não sangrou nessa guerra. E sabe... – Mindinho brincou um pouco com a própria barbicha, a olhando maliciosamente – A última vez que o Winterfell e o Ninho da Águia se uniram, eles derrubaram a maior dinastia que esse mundo conheceu.
Shiera se sentou mais confortavelmente em sua cadeira, absorvendo aquelas palavras de Petyr Baelish. Ela estava cansada da guerra. Queria um lugar tranquilo e protegido para criar Ned. Para ensiná-lo a ser tão nobre e honrado quanto Robb, mas tão astuto e determinado quanto ela. Um lugar onde poderia ter alguém estudado para ensinar a ele tudo o que um futuro Lorde precisaria saber, onde teria alguém para cuidar de sua saúde, para ensiná-lo a montar e a lutar espadas... alguém que o transformasse no Lorde que Winterfell precisava. Alguém que um dia seria tão amado quanto Eddard e Robb foram.
E para isso, precisava de trégua. De paz. Precisava de um lugar seguro para sobreviver ao inverno. Precisava de aliados para vencer a ameaça que vinha do norte, trazendo escuridão e morte para todos.
—Continue, Lorde Baelish... – disse engolindo em seco – Quais as exigências dos Lannister?
—Garota, não pode mesmo estar pensando em... – começou Grande Jon, mas Shiera levantou a mão, pedindo silêncio e ele obedeceu.
—Bem. A primeira coisa é que você deve abrir mão do seu título de rainha e jurar lealdade ao rei Tommen, o único e verdadeiro rei dos Sete Reinos, senhor dos Ândalos...
—Sim, sim, eu conheço os títulos. O que mais? – perguntou impaciente.
—Deve se casar com Lorde Bolton. – continuou Mindinho e Shiera evitou olhar para o lado, para Jon – Seu filho mais velho será Lorde de Winterfell quando tiver idade, e se tornará Protetor do Norte quando Lorde Bolton falecer. – adicionou ele.
—Os Stark sempre foram os senhores Protetores do Norte. – rosnou Jon Snow.
—Mas os Stark nunca tinham se rebelado contra o reino. – pontuou Mindinho, sem olhar para Jon – O seu primeiro filho com Lorde Bolton será o herdeiro de Forte Pavor. Seu primogênito poderá ser criado em Porto Real, por seu irmão... – pelos Lannister, pensou Shiera, com desgosto – ou em Harrenhal, por alguém que você aponte, ou por mim, em Riverrun, assim que terminarmos de reconquistar o castelo... ou em Winterfell, mesmo.
—Por Bolton. – disse Shiera com desdém.
—Aquele porco traidor. – rosnou Maege.
—Rickon Stark deve ser entregue a Porto Real, como prova de lealdade, é claro. – disse Mindinho.
—Isso não será possível. – disse Shiera, antes que Jon explodisse de novo.
—E por que? – perguntou Mindinho.
—Rickon deseja se tornar um homem da Patrulha da Noite. Ele é Intendente de Jon, certo? – perguntou Shiera, como se a ideia não a interessasse muito – O garoto era difícil demais para se lidar. Achei melhor deixá-lo aqui, com o irmão.
Rickon era um garoto agressivo e cheio de energia, que merecia levar umas sovas vez ou outra, mas Shiera jamais levantaria a mão para ele. O garoto não tinha se unido à Patrulha da Noite, mas seguia Jon para todos os lugares que ia. Falar que ele estava com a Patrulha era a melhor maneira de protegê-lo dos Lannister, ou dos Bolton.
—Rickon é meu irmão. – disse Jon – Ele fica aqui comigo. Um dia pode ser que ele comande a Patrulha, como eu estou fazendo agora.
—Hum... ele já fez os votos? – perguntou Mindinho, maliciosamente.
—Não, mas ele já falou que quer ser um Patrulheiro. Ele já está sob a proteção da Patrulha da Noite e fora do alcance de qualquer rei que seja. – disse Jon, com frieza na voz. Mindinho deu um sorrisinho desdenhoso e a olhou com atenção. Ele olhou para seus ombros desnudos, para seu colar com diamantes negros e vermelhos, os cabelos soltos e compridos. Olhou para suas roupas e para a coroa de ferro e bronze em sua cabeça. Então ele sorriu e se sentou mais confortavelmente em sua cadeira.
—Me permite uma conversa mais privada, Vossa Graça? – perguntou Mindinho com o tom de voz comedido. Shiera sabia que Lorde Baelish era um perigoso e astuto, capaz de qualquer coisa para conseguir o que queria. Não ficaria à vontade completamente a sós com ele. Mindinho olhou ao redor e seus olhos pousaram sobre Lorde Karstark – Lorde Karstark pode ficar aqui para sua segurança e para aconselhá-la se julgar necessário. Mas adianto que pretendo ficar aqui pelo menos uns três dias, para dar descanso aos meus homens e aos cavalos. Não precisa decidir hoje o que vai fazer. Terá uns dias antes de me entregar uma resposta oficial, sobre seu posicionamento em relação à proposta do Trono de Ferro.
Shiera respirou fundo e concordou.
—É meu convidado, Lorde Baelish. E meu protegido. Esteja certo de falar isso em alta voz sempre que passar perto dos homens de Stannis. – disse Shiera.
—Sim, mas antes de me dispensar, por favor. Me conceda um pouco de vinho, pão e uma conversa particular. – pediu ele e Shiera achou melhor conceder.
—Hoster, traga vinho e pão para Lorde Baelish. Lorde Karstark, Theon, vocês ficam. Todos os outros podem sair. – disse Shiera se levantando e andando até a janela, para mirar o horizonte.
—Lady Shiera, permita-me ficar aqui para... – começou Jon, mas Shiera o interrompeu, sem nem mesmo olhá-lo. Preciso agir como uma rainha, não como uma garota.
—Agradeço, Senhor Comandante da Muralha. Agradeço sua ajuda e seus bons conselhos. Mas acho que o que tínhamos para conversar, acabou. Você tem suas responsabilidades e eu tenho as minhas. – disse sentindo o coração doer, mas sua voz não falhou. Falou com firmeza e determinação, como Robb falava com seus Lordes. Sem aumentar o tom de voz, mas de maneira firme e segura.
Jon ficou em silêncio por um instante, mas logo ele suspirou.
—Como quiser, Vossa Graça. – disse ele com a voz suave e baixa. Escutou seus homens saírem da sala e logo estava apenas Theon e Lorde Karstark a lhe ajudar com Mindinho.
—O que precisa dizer para mim a ponto de ser tão importante me ter longe dos meus homens de confiança, Lorde Baelish?
—Roose Bolton era um homem de confinça de seu marido. Olhe no que deu. Cautela sempre é um movimento inteligente. – disse Baelish e Shiera se virou para encará-lo.
—Você realmente espera que eu aceite essa proposta? – perguntou sacudindo o pergaminho.
Mindinho cruzou os dedos das mãos, sentando-se mais confortavelmente.
—Eu conheci uma menina, há muito tempo atrás, chamada Shiera Blackfyre. Ela certamente não aceitaria. – riu Mindinho – Mas Shiera Stark... essa pessoa eu ainda não conheci. Mas uma coisa eu vou confessar. Eu fiquei surpreso ao saber que você e Robb Stark se rebelaram contra o Trono de Ferro. Eu conheci seu pai e sua mãe, assim como eu conheci Ned Stark e Catelyn Stark... – ele suspirou – Ah, eu conheci muito bem a senhora Stark. Melhor do que muitos homens... e eu nunca imaginaria que essas quatro pessoas criariam rebeldes, traidores do Trono de Ferro... quando ouvi Cersei lendo a proposta de paz de Robb Stark... que era basicamente um escarro aos pés de Joffrey... eu me perguntei: como essa situação chegou a esse ponto... ao ponto de Robb Stark e Shiera Blackfyre pegarem coroas, colocarem-nas sobre suas respectivas cabeças e para então darem as costas ao reino... Conte-me como isso aconteceu.
—Vocês decaptaram Ned Stark. – defendeu-se Shiera.
—Eu entendo o motivo de Robb querer a cabeça de Joffrey numa estaca. Mas nada parece uma boa explicação para o fato de existir um Rei e uma Rainha no Norte... – insistiu Mindinho.
—Nós não nos proclamamos reis. Nossos nobres o fizeram. – respondeu Shiera – Nós apenas abraçamos a responsabilidade. – adicionou ela e Lorde Baelish a olhou atentamente.
—Deve ter sido difícil... – disse ele – Passar por tudo isso... por uma decisão que não foi sua.
—Foi minha decisão casar com Robb e apoiá-lo em todas suas decisões. – respondeu rispidamente e Lorde Baelish sorriu divertido.
—Mas não deve ter sido fácil... ou não teria tentado fugir. – respondeu Baelish e Shiera respirou fundo – Soube que quase morreu afogada, tentando fugir de Winterfell... o amor maravilhoso entre o Rei e a Rainha do Norte não era assim tão maravilhoso, era? – perguntou Baelish – Isso explica o motivo de ter fugido, o motivo de o senhor Comandante ser tão super protetor... eu escutei rumores sobre o que aconteceu no Torneio de Harrenhal.
—Eu e Jon Snow flertamos em Harrenhal, anos atrás. Ele conquistou meu afeto, meu pai lhe ofereceu minha mão e ele recusou. Desde então não tivemos mais nada. – disse Shiera secamente – O único homem que eu verdadeiramente amei foi Robb.
Aquilo era mentira, mas Lorde Baelish não precisava saber disso. Ela não sabia como ele poderia saber de sua tentativa de suicídio... desejava que ele não soubesse de muito mais coisas.
—Então... por que motivo tentou fugir? – perguntou Baelish e Shiera deu um sorrisinho.
—Acho interessante o fato de ter tanta certeza de que eu tentei fugir. – disse o encarando com algum desdém.
—Foi o que Roose me contou. Ele disse que seus últimos dias com Robb Stark foram... conturbados. – disse Mindinho e Shiera bufou. Claro que Roose contaria aquilo.
—Mas Roose não teria como saber o tanto que o rei amava sua rainha. – disse Lorde Karstark e todos olharam para ele – Robb e Shiera tiveram um desentendimento, é verdade. Mas ele a amava, Vossa Graça. Com todo o coração. Mesmo sendo um rei, ia todas as noites sozinho para a cama e acordava da mesma maneira. E sempre estava olhando para o norte, pensando na senhora, sempre mandando cartas, desejando saber se já tinha acordado. Sempre tão obviamente apaixonado e cheio de culpa por ter partido sem poder se despedir ou ao menos fazer as pazes. – Shiera corou ao escutar aquilo e seu coração doeu de saudades. Saudades do sorriso de Robb, de sua voz, de seu cheiro, de seus toques. De suas conversas, de sua risada, de seus olhos azuis e brilhantes. Por um momento se arrependeu de ter ido para a cama com Jon Snow, mas se obrigou a lembrar que Robb estava morto e que ela jamais o tinha traído. Tinha sido devotada a ele até que a morte os separara – Quando escutou aquela música, sobre vocês, o garoto chorou de saudades. – garantiu Lorde Karstark e Shiera sorriu um tanto triste e nostálgica.
—Deve sentir muita falta dele. – disse Petyr e Shiera concordou com um aceno de cabeça – Me alegra que o desentendimento de vocês não tenha passado disso. Um desentendimento. E me alegra que tenha tido amor por ele. Eu amei uma vez, muito tempo atrás, mas não pude estar com quem amava. Ela estava prometida a outro. – Shiera olhou para Baelish, que parecia até um pouco entristecido – Mas pelo menos teve uma chance com ele. E mais. Teve um filho com ele. Imagino que o garoto seja tudo pra você. Seu mundo. – Petyr suspirou e Shiera concordou com um aceno de cabeça – Se tem uma coisa que eu tenho certeza é que não existe amor maior no mundo do que o de uma mãe por seus filhos. Pais amam seus filhos profundamente, mas o amor de mãe é algo indescritível. – ele fez uma pausa e a olhou com os olhos astutos – Afinal, ele é só um garotinho inocente e risonho. Sem absolutamente nenhuma culpa do mundo em que ele nasceu estar nessa loucura. Eu acredito que ele mereça ser poupado de todo e qualquer sofrimento. Ele merece paz.
—A paz dos Lannister não significa coisa alguma. – disse Theon e Shiera encarou Petyr.
—Não, mas o futuro de Eddard Stark significa. Acredite, Shiera. Você não vai conseguir governar o Norte sem a ajuda dos Lannister. Cersei entende você, porque ela é mãe também. Ela está cansada do sangue. Ela só quer paz. Aceite a paz dela e crie seu filho, longe de uma guerra infrutífera. Vocês não vão ganhar.
—Você não sabe do que somos capazes! – rosnou Theon.
—Roose Bolton deseja você. – garantiu Mindinho – Ele poderá ser dobrado às suas vontades. Você poderá ser capaz de governá-lo. – disse Mindinho – Deixe-o brincar de ser protetor do Norte, enquanto você o controla. Deixe que seu filho cresça e sobreviva. Não o arraste para uma guerra. Stannis é sua única alternativa para tentar recuperar Winterfell. E com ele, você terá que enfrentar o inverno também, que já está aqui. Fazer um cerco em Winterfell, com seu pequeno bebê... isso é arriscado demais. Eu sei que não é a escolha mais fácil, Shiera. Você tem fogo em seu interior. Você quer lutar e conquistar. Mas você precisa pensar no pequeno Ned.
—Roose mata o Ned se você o levar para Winterfell, aceitando essa trégua! – disse Theon. Shiera respirou fundo.
—Ele não fará isso, pois o pequeno Ned é a única chance que ele tem de manter Winterfell e o Norte, sem arriscar perder o pescoço. Uma aliança entre vocês manterá o reino em paz, Shiera. – garantiu Petyr – É a melhor chance do seu filho. Se você escolher guerra... ele provavelmente não irá sobreviver. A dor de perder um filho... – Petyr suspirou, com pesar – Creio que não há nada pior no mundo. Pergunte a Lorde Karstark, ele te responderá.
Shiera olhou para o velho lorde de Karhold e foi capaz de ver toda a dor que ele sentia. O homem tinha perdido os três filhos na guerra, lhe restando apenas uma filha donzela, que permanecia em Karhold.
—Shiera, não pode estar pensando em escutar esse homem! – rosnou Theon. Shiera respirou fundo.
—Não vou recuperar Winterfell com um exército... não antes do inverno chegar... e a Muralha não tem condições de nos sustentar por todo esse tempo. – disse retirando a própria coroa da cabeça. Petyr sorriu sutilmente e Shiera mirou o Lorde mais velho – O que me diz, Lorde Rickard?
Lorde Karstark a olhou com seus enrugados olhos cheios de pesar e suspirou.
—Eu digo que minha lealdade será sempre para você e jamais para Bolton. Mas se escolher paz, irei respeitar seu sacrifício, por entender o que teme. Nenhum pai deveria ter de enterrar seus filhos... e francamente, Vossa Graça... eu sou apenas um velho cansado. Quero vestir meu luto e voltar pra casa. Continuarei lutando e guerreando se assim desejar. Mas se optar por paz, eu abraçarei a paz. – respondeu ele e Theon avançou um passo.
—Shiera. Robb jamais concordaria com isso! – disse Theon e Petyr se levantou, indo até a porta. Ele a abriu e quatro homens entraram, trazendo dois grandes baús.
—O que é isso? – perguntou Shiera, olhando Mindinho com anseio. Seu estômago se remexia olhando aqueles baús com as cores da casa Stark.
—São os ossos de Eddard Stark e Robb Stark. – disse Petyr Baelish – Eu já tinha entregue os ossos de Eddard a Catelyn, mas na confusão em Ponta Tempestade ela não pode levá-los. Eu ia deixar tudo em Winterfell... mas achei melhor mostrar a você. – explicou Lorde Baelish, ainda na porta – Pense na proposta, Shiera... ou o pequeno Ned poderá ser o próximo a estar com os ossos numa caixa. – suspirou Mindinho – Seu exército está enfraquecido, nem todos são leais a você. Seu pai está morto e seu irmão é leal ao Trono de Ferro. Você não tem mais a quem recorrer. Não seja tola. Escolha paz e viva o suficiente para ver o pequeno Ned ter seus próprios filhos. – Ele parecia prestes a sair, mas parou e voltou, tirando um envelope das vestes – Quase ia me esquecendo. Isto é pra você. Roose Bolton me pediu que lhe entregasse quando tivesse a oportunidade. Shiera pegou o envelope, mirando o selo de Roose Bolton. Mindinho então andou até a porta, com seus dois homens vindo logo atrás. Quando estava para sair, Hoster apareceu com uma taça de vinho e pão. Lorde Baelish sorriu e pegou o pão – Obrigado. – disse com um sorrisinho, saindo da sala.
Hoster entrou, colocando a taça de vinho em cima da mesa e pegou outro pão, para dar uma mordida.
—Ele foi esperto. Eu cuspi no vinho. – resmungou o bastardo e Theon revirou os olhos.
—Não pode mesmo estar pensando em aceitar a paz dos Lannister. – rosnou ele e Shiera suspirou colocando a carta de lado. Depois se ajoelhou em frente aos ossos de Robb. Seu coração pesou e um nó em sua garganta tornou impossível o simples ato de respirar. Mas não permitiu desabar. Abriu a caixa e encontrou ali um monte de ossos. Era o que sobrara dele: ossos. Queria a chance de poder ao menos ver o rosto de Robb uma última vez, mas isso teria sido pedir demais. Os deuses a estavam punindo por ter tentado fugir. Naquela noite, desejou que Robb não tivesse nem mesmo um porpo para enterrar, que ele não pudesse ter a chance de se despedir... e fora ela quem ganhara aquela punição. Como poderia saber se aqueles ossos eram dele mesmo? Respirou fundo, por mais difícil que fosse. Tocou em um dos ossos, tentando sentir alguma conexão com Robb, mas não havia nada. Ele se fora – Me deixem sozinha... – suplicou sentindo os olhos encherem-se de água.
—Shiera... você não está em condi... – começou Theon, mas ela já não estava mais suportando tudo aquilo.
—ME DEIXEM SÓ! – gritou fechando o baú. Escutou os passos apressados dos três homens deixarem a sala e quando a porta bateu, se permitiu soltar um lamento tão alto, que provavelmente todo Castelo Negro ouvira. Seu corpo tremia, enquanto abraçava aquele baú, com os supostos ossos dele. Pediu desculpas em meio ao choro, por sua teimosia, por Catelyn Stark, por Bran, por Jon, por ter tentado se matar, por ter negligenciado Ned. Implorou pelo perdão dele e chorou sozinha, sentindo-se completamente só e desamparada. Perdida. Depois, quando sentiu um certo alívio, se levantou e pegou a carta de Roose. Sentou-se com as costas apoiadas no baú com os ossos de Robb. Rompeu o selo e retirou uma carta de dentro do envelope. Ela era rosa e estava escrita numa tinta vermelho escura – Minha cara Shiera. – leu com a voz trêmula – Espero que volte em breve para Winterfell. Suas damas de companhia a esperam. As mantive seguras, numa torre, com guardas a vigiá-las todos os dias. Meu filho, Ramsay Snow... – e sua voz morreu. Ramsay não fora executado no fim das contas. Bolton mentira sobre isso. E o bastardo provavelmente era aquele tal Fedor. Os olhos de Bolton eram iguais aos dele. – Meu filho, Ramsay Snow, toma conta delas pessoalmente. Devemos trazer a paz para o Norte. Volte para que possamos negociar e conversar. Atenciosamente, Roose Bolton, Lorde de Winterfell, de Forte Pavor e Protetor do Norte...
Shiera engoliu em seco e rasgou a carta. Depois a jogou no fogo, sentindo uma ira gelada em seu coração. Pensou em cada uma de suas amigas e jurou para si mesma que as tiraria das garras de Bolton, nem que isso custasse seu orgulho. Roose vai ganhar mais do que espra. Eu juro isso, pelos novos e velhos deuses. O Norte se lembra. Sempre vai se lembrar.
**
Valerion estava sentado em seu escritório, rodeado de livros, parecendo simplesmente cansado e infeliz. Myrcella o olhou atentamente, desejando ter despistado sor Arys antes de encontrar seu prometido. A princesa respirou fundo, balançando suas madeixas douradas e se aproximou de Valerion. O rapaz notou sua presença e a olhou com atenção. Sentiu uma vertigem ao ser encarada com aqueles olhos violetas, mas tentou disfarçar. No entanto, toda sua pose se desfez quando ele sorriu.
—Princesa Myrcella. Você é como o sol de primavera depois de uma terrível noite de inverno. – disse Valerion se levantando para fazer uma mesura – No que posso lhe ser útil?
—Margaery e Tommem se casam amanhã. – disse ela e Valerion concordou com um aceno de cabeça – Gostaria de saber se o senhor seria meu acompanhante durante a cerimônia. – disse corando e se sentindo completamente sem jeito. Valerion sorriu e se aproximou para segurar sua mão.
—Eu não sei... as duas últimas vezes que te acompanhei a algum evento, acabamos vendo gente morta. – disse ele e Myrcella o olhou horrorizada. Mas Valerion sorria como se fosse apenas uma piadinha abusada e ela viu que não conseguiria não rir daquele comentário – Estamos rindo de nossos parentes mortos... acho que tem algo muito errado com a gente, não acha? – perguntou ele e Myrcella lhe deu um tapa no braço.
—Que comentário inapropriado! – disse sem conseguir ficar séria.
—Sinto muito, princesa. – riu Valerion, olhando para trás, para seus livros – Acho que fiquei tanto tempo sentado aqui que estou perdendo o bom senso. Acho que seria saudável uma caminhada pelos jardins. Levando em consideração que a Rainha Mãe e o Rei escutam, ou ao menos deveriam escutar, os meus conselhos... Vossa Graça poderia fazer um grande serviço ao reino, me acompanhando em uma saudável caminhada.
Myrcella sentia-se como se estivesse flutuando. Concordou com um alegre sorriso no rosto e abraçou o braço forte do rapaz quando este o ofereceu. Passaram quase uma hora caminhando pelos jardins. Ela não era a única a ter uma escolta, pois Valerion sempre andava com pelo menos seis soldados onde quer que fosse.
Myrcella notou que ele estava mais alto, porém mais magro, também. A barba dele crescia platinada ao redor de seu queixo forte, mas os cabelos estavam curtos como os de seu tio Jaime. Valerion parecia mais velho do que realmente era. Aparentava ter uns vinte e poucos anos, quando ainda estava para chegar aos vinte. Precisava pensar em algo para presenteá-lo quando o dia de seu nome chegasse. Talvez um dracar, ou então um barco menor e mais romântico, para que pudessem velejar os dois em dias quentes. Ou talvez um cavalo. O melhor dos corcéis dos estábulos. Tommem não iria se importar, certamente.
—Ainda treina com Sor Loras, Valerion? – perguntou calmamente e Valerion sorriu concordando.
—Todos os dias. Mas... confesso que não encontrei Sor Loras hoje. – disse ele calmamente – Aparentemente ele está ensinando seu irmão a justar.
—Tommem? Justando? Oh... ele só vai se machucar. – resmungou preocupada. Ao contrário de Joffrey, Myrcella sentia uma enorme afeição por Tommem.
—Não se preocupe, Loras não vai machucá-lo... – riu Valerion, a olhando com divertimento – Não muito... – ele se interrompeu e a olhou, galante – Myrcella, lembra da noite anterior a minha luta com Sor Gregor? – perguntou ele, bem baixinho. Estavam andando a alguma distância dos guardas, então teve certeza que eles não escutavam.
—Claro, como poderia esquecer? – disse sorrindo. Se passara uma semana desde que seu sangue de lua descera e fora embora, estragando todas suas esperanças de estar grávida.
—Tomaste um chá apropriado depois daquela noite, certo? – perguntou ele – Ou não?
—Não. – respondeu simplesmente, se aproximando mais dele. Valerion a olhou preocupadamente – Não estou grávida, se é este o teu medo, meu Lorde.
—Não seria o momento apropriado para isso. – disse Valerion – Mas tome cuidado. Se precisar tomar de novo... – ele deu uma tossida um tanto sem jeito e Myrcella sentiu o coração acelerar. Seu corpo esquentou com todas as lembranças daquele dia voltando com força – Não peça a Pycelle... eu... eu vou dar um jeito de conseguir esse chá, está bem?
—E o que te faz pensar que eu precisaria de tal chá? – perguntou com um sorriso divertido e Valerion sorriu um sorriso diferente. Um sorriso safado acompanhado de um olhar faminto, que percorreu seu corpo, parando aqui e ali.
—Eu tenho um palpite... afinal, pretendo desposar você assim que a primavera chegar. – disse ele, brincando com um de seus longos cachos dourados – Ou prefere casar-se ainda no Outono?
Myrcella, sentindo-se um pouco confiante em si mesma, pelo flerte do rapaz, sorriu e empinou o nariz.
—Aguentaria esperar até a primavera? – perguntou o olhando travessa e Valerion devolveu o sorriso.
—Não. – ele respondeu simplesmente – Mas a coroa vai querer que eu pague uma fortuna. E tudo bem, eu pago uma fortuna... depois de ter certeza que vou conseguir alimentar meus homens, lá em Harrenhal. Você esteve lá, sabe o quanto é difícil manter aquele castelo. Os invernos lá são muito difíceis. – explicou ele e Myrcella o olhou analiticamente.
—Está dizendo que quer me ter em sua cama antes de se casar comigo? – perguntou o olhando de maneira até censuradora. Valerion sorriu, no entanto.
—Quero. – respondeu ele – Mas não vou insistir nisso. Sou devoto aos Sete e sei que isso seria pecado, além de desonroso para você. Mas... – ele passou a mão pela barba perfeitamente aparada e rente ao rosto – A carne é fraca e você é linda demais, Myrcella... sem falar que... – ele parou de andar e segurou suas mãos – Eu estou apaixonado por você. – disse ele e ela piscou, surpresa – Você me salvou mais de uma vez, minha princesa. Eu cansei de ser devoto a uma pessoa que não me merece. Eu quero me devotar a quem realmente esteve ali pra mim. Você é perfeita pra mim, Myrcella. Case-se comigo, seja a minha senhora, a senhora de Harrenhal. Eu vou fazer o possível e o impossível para te fazer feliz. – Valerion colocou a mão no bolso das vestes e tirou de lá um lindo anel de ouro, cravejado com esmeraldas. Depois ele colocou o anel em seu dedo e beijou sua mão carinhosamente – Desculpe por demorar tanto para abrir meu coração para você, minha senhora. Se aceitar ser minha esposa, casarei com você quando achar que é o momento. Agora, ou na primavera, não importa. Só quero que seja minha esposa.
—Se eu decidir por agora, casaria? – perguntou eufórica e Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Se a Coroa pagasse pelo menos um terço do casamento. Se formos casar na primavera, Harrenhal arcaria com todas as despesas. Claro, teríamos que esperar um ano ou dois para termos tempo de culti... – mas ela o interrompeu, pulando em seus braços, para lhe roubar um beijo. Escutou Sor Arys reclamar sobre composturas, mas não lhe deu atenção. Valerion lhe abraçou ao redor da cintura e a beijou com paixão como nunca antes. Depois ele a segurou com as duas mãos na cintura e a tirou do chão, para girá-la no alto.
—Caso! Vamos casar! O quanto antes! – disse feliz.
—Esperaremos dois meses. – disse ele com um sorriso satisfeito. – Afinal, Tommem casa amanhã. Não quero tirar o brilho do rei. – disse Valerion com os olhos brilhantes. Estava exultante, tão exultante... o tinha conquistado. Tinha finalmente conquistado o coração dele. Andaram de volta para o castelo, pois ele tinha suas atribuições para fazer. Se despediram com um beijo apaixonado e quando ela foi embora, Valerion voltou a se sentar em sua escrivaninha. Myrcella se virou para olhá-lo uma vez mais e notou que ele parecia um tanto amargo, olhando para seus próprios papéis. Mas deu de ombros. Ele a amava. Tinha certeza que sim. Se casariam e ele nunca mais pensaria em Sansa Stark novamente.
—Eu venci. – disse contente, enquanto corria alegremente pelos corredores.
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