Blackfyre
42 Planos
Notas iniciais

Planos
—Tem certeza de que essa é sua palavra final? – perguntou Stannis. Shiera concordou com um aceno de cabeça. Seus homens estavam prontos para marchar, esperando suas ordens, ao lado dos homens de Stannis – Essa é uma péssima ideia, Shiera Blackfyre. – disse o homem e a mulher suspirou.
—Stark.
—Stark, Blackfyre, Bolton, não importa. É uma ideia ruim. – insistiu ele e Shiera o olhou com seriedade – Ele mata você antes que...
—Bolton não vai me matar. – disse ela com firmeza – Assim como não vai colocar as mãos no meu filho. – disse afagando a crina de sua égua. Stannis suspirou e mirou Jon Snow, que dava instruções para seus homens.
—O meu plano tinha muito mais chances de dar certo. Eu proclamaria Rickon como Protetor do Norte até seu filho ter idade o suficiente e nós uniríamos nossas forças. Rickon poderia até casar com Shireen, para unir nossas casas.
—E dar mais forças para ele? Não, obrigada.
—Case seu filho com a minha filha então. – disse Stannis e Shiera negou com um aceno de cabeça.
—Não prometerei meu filho a ninguém. – disse convicta. Depois olhou uma última vez para Jon. Ele a olhou no mesmo momento – Não se atrase, Stannis. – disse puxando as rédeas do cavalo, para trotar até Theon. Seu amigo de confiança estava averiguando se a carruagem estava em ordem. Talisa e Vento Cinzento se acomodavam na enorme carruagem. Ned sorria acariciando o fucinho do lobo gigante e Shiera sentiu o coração apertar. Nym surgiu logo atrás de si, com suas feições duras – Cuidem deles, ouviram? – perguntou Shiera e Theon concordou com um aceno de cabeça.
—Os manterei a salvo, Shiera. – prometeu Theon a ajudando a descer do cavalo. Shiera mirou a amiga e seu pequeno bebê, sentindo medo do que viria em breve – Tem certeza de que é isso que deseja? – perguntou Theon. Shiera concordou com um aceno de cabeça – Por favor... tome cuidado. – pediu Theon e Shiera o olhou com os olhos inquietos – Eu prometi a Robb que cuidaria de vocês dois... eu não deveria sair do seu lado. Venha comigo para as Ilhas de Ferro. Poderemos nos reorganizar lá. Preparar a maior frota que os Sete Reinos já viram e...
—Navios não irão recuperar Winterfell... e não temos homens o suficiente para derrotar os Lannister. – disse sorrindo ternamente para o amigo. Colocou as mãos nos ombros de Theon e o beijou na bochecha – O futuro do Norte está nas suas mãos, Theon. Se tudo der errado, prometa-me que cumprirá com sua missão, não importa o que aconteça. – disse num sussurro no ouvido do rapaz.
Theon engoliu em seco e se afastou para olhá-la nos olhos.
—Eu juro, pela minha honra. – disse ele, engolindo em seco – Pelas Ilhas de Ferro, pelo meu nome. Eu juro, Shiera. – disse ele e Shiera sorriu tristemente. Depois ela se curvou para beijar Ned, que já estava dentro da carruagem. O abraçou com carinho e então mirou Vento Cinzento.
—Cuide dele, ouviu? Proteja-o. Ele é tudo o que nos restou de Robb. – disse Shiera e Vento Cinzento a olhou nos olhos como se compreendesse cada palavra. O beijou no focinho e o afagou na orelha, com todo o carinho e então saiu de dentro da carruagem. Olhou para Talisa, que segurava Ned, pois ele tentava sair da carruagem também – Cuide dele, Talisa Whent.
—Vou cuidar e me comportar, afinal, não sou mais uma bastarda por decreto real. – riu ela com um sorrisinho – E você tome cuidado, Shiera. Roose Bolton não é brincadeira. Ele já fez sua cabeça uma vez. Não o deixe te controlar de novo. Você precisa enganá-lo se quiser fazer seu plano dar certo. – Shiera sentiu um arrepio lhe subir a espinha e concordou com um aceno de cabeça.
Bolton não veria seu golpe chegar.
Ainda não havia chegado a aurora e estava muito frio, por mais que não fosse algo incômodo para si. Estava bastante escuro, mas as carruagens estavam prontas. Sam iria partir com Goiva e Meistre Aemon, pois iriam para a Cidadela. Theon levaria Mance para as Ilhas de Ferro, junto com o filho de Mance, Ned, mais uma escolta. Assim manteriam os bebês longe das feitiçarias de Melissandre. Uma parte de seus homens acompanhariam Stannis, para uma missão importantíssima. E ela partiria com Mindinho, para Winterfell...
Shiera segurou as rédeas de seu cavalo e ficou observando seus queridos aliados partirem. Seu coração apertava ao ver os cavalos e carruagens se afastarem, além de se sentir muito desprotegida sem Theon, Nym e Vento Cinzento. Mas o lobo de Robb deveria ficar com o sangue dele, com Ned. Sentiu um focinho gelado em sua mão e notou que era Lady. A afagou na orelha e a loba esfregou sua enorme cabeça contra seu quadril, como se tentasse lhe confortar. Sua melhor amiga.
—Não sei se estará segura em Winterfell, Lady. – confessou para a loba – Mas não terei coragem de prosseguir sem você. Vem comigo? – perguntou para a Loba, mas ela não tinha os olhares profundos e intensos de Vento Cinzento. Shiera suspirou e olhou novamente para o horizonte e sentiu alguém se aproximar. Não precisou escutar a voz dele ou vê-lo para saber quem era. A presença dele era óbvia para ela. Jon passou o braço ao redor de seu ombro, lhe dando conforto e ela se permitiu ser confortada – Senhor Comandante da Muralha...
—Rainha no Norte. – sussurrou Jon – Posso falar com você, a sós, no meu quarto? – perguntou ele, com sua grave voz sussurrada. Shiera suspirou e concordou com um aceno de cabeça. Os dois foram em direção ao estábulo, onde ela deixou sua égua, depois foram para o quarto do Senhor Comandante da Muralha.
Jon a olhou com os olhos cheios de preocupação e ela não aguentou sustentar o olhar.
—O que houve?
Jon fechou a porta e respirou fundo.
—Não faça isso. – pediu ele e ela sentiu o coração apertar.
—Eu não tenho escolha. – disse ela e Jon respirou fundo.
—Faça aliança com Stannis e conquiste Winterfell pela guerra. – pediu Jon. Shiera engoliu em seco, pois ele não sabia todo o plano.
—Não posso, Jon. Eu estou cansada. – disse ela – E não há nada certo ainda.
—Se você for para Winterfell, não conseguirá ir embora. Eles não vão deixar. – disse ele.
Shiera o olhou com os olhos cheios de medo. Estava com medo. Medo de Roose Bolton. Medo de suas mãos frias, sua pele pálida e seus olhos sem cor. Medo de pronunciar os votos e de como ele a trataria... mas tinha uma missão. Não poderia vacilar, não agora.
—Eu já fugi de Winterfell uma vez...
—E não vão te deixar fugir de novo. Fique aqui, em Castelo Negro.
—Até quando? – perguntou ansiosa.
—Até o final do Inverno. Preciso dos seus soldados. Para a verdadeira grande guerra.
—Não há provisões para todos, Jon. A Muralha não sustentará a todos nós. O Inverno já está aqui, no meio de nós. Não teremos comida, morreremos de fome. – ela respirou fundo – Eu o ajudei a reformar os castelos da Muralha, eu o ajudei a defender a Muralha. Mas agora temos que seguir nossos caminhos... – ela suspirou e tocou seu rosto – Nossos caminhos de fato se cruzam, mais de uma vez... mas eles não seguem juntos, meu amor. – Sussurrou e sentiu as mãos de Jon em sua cintura – O último Lorde Comandante que se casou fez coisas horríveis... – murmurou o olhando nos olhos – A Velha Ama me contou as histórias... – adicionou ela e Jon concordou com um aceno de cabeça.
—Ela me contou essas mesmas histórias.
—Eu preciso ir. – disse num sussurro, mas Jon a puxou mais para perto – Jon... eu não... posso...
Mas seus lábios acharam os dele e logo não havia missão ou urgência que a afastaria de Jon Snow. Ele a puxou com força, a beijando com ansiedade. Suas mãos acharam os cordões da roupa dele e as dele acharam o caminho para sua pele. Logo estava deitada na cama do Senhor Comandante, embaixo do cobertor velho, feito de pele de lobo. Se afogou nos beijos dele, amando cada toque gentil e cheio de amor. Sabia que não sentiria algo assim novamente, não tão cedo. Jon a amou com todo o sentimento que tinha e quando ambos terminaram, por mais maravilhoso que tivesse sido, Shiera tinha os olhos cheios de água.
—Fique. – pediu ele entrelaçando os dedos com os seus.
—Eu não posso, Jon. – disse querendo chorar e se esconder nos braços fortes dele até o fim de seus dias – Eu tenho uma missão para cumprir. Eu tenho que manter o Norte. Eu...
—Bolton vai tirar o Norte de você. Não se engane. – disse Jon e Shiera suspirou. Ele não sabe do plano. Ele não sabe o que eu pretendo fazer— Você... ele nunca vai... – Jon parecia procurar as palavras, mas não as encontrava – Eu amo você, Shiera. – sussurrou ele e ela sentiu o coração acelerar, o rosto queimar e um sorriso se formar em seu rosto – Eu amo você... eu... eu não... vou suportar saber... que você está com ele... ele traiu Robb. – disse Jon – Case-se com qualquer outro homem, eu teria ciúmes e ficaria infeliz de qualquer modo, mas eu aceitaria... mas... mas Roose Bolton? Não faça isso.
—Quantas vezes pedi para que ficasse comigo, Jon? – perguntou se sentando e olhando a janela – Sua resposta era sempre: eu sou um bastardo. Você nunca se permitiu lutar por mim. Agora é meu título que não me permite ficar. Eu sou uma rainha. Eu sou responsável pelo meu povo, que vai ficar lutando entre si. Eu preciso de Winterfell, para poder ajudar a Muralha na guerra contra os mortos. Se eu não tiver a Winterfell, é possível que o Norte espere tempo demais antes de se unir para lutar. Eu preciso evitar isso, meu amor. Ou vamos todos morrer.
—Por isso mandou Theon levar Ned embora? – perguntou Jon.
—Verei Ned novamente quando o verão voltar... e se o verão não voltar, então Theon o levará para Volantis, para meu avô. Meu avô cuidará dele, tenho certeza... e Aegon. Aegon o fará um homem correto e de coragem. Ned será um grande homem, tenho certeza. Mesmo que cresça longe de mim. – disse torcendo para que não estivesse errada sobre aquilo – Ned é filho do gelo e do fogo. Ele vai ficar bem. – disse com um suspiro.
—Do gelo e do fogo? – perguntou Jon.
—Eu sou fogo, Robb era o gelo, afinal era um Stark. Ned será um grande homem, tenho certeza. – disse com um suspiro. Jon a olhou com os olhos cheios de carinho e se sentou ao seu lado. Os dois colaram as testas e ele lhe beijou a ponta do nariz.
—Eu assim espero. – sussurrou ele antes de lhe roubar um beijo mais profundo e intenso.
O sol já tinha nascido há muito quando deixaram o quarto. Alguns de seus Lordes a olhavam com divertimento, como Lady Maege e Lorde Blackwood. Lorde Umber, no entanto não aprovava, mas ela não se importava. Seu coração sempre pertencera a Jon Snow e aquela provavelmente seria a última vez que estaria nos braços dele...
Estava tudo pronto para sua partida. Mindinho já tinha levantado e a esperava com um sorriso cheio de malícia. Jon o olhou carrancudo e Rickon veio se despedir. Um simples aceno de cabeça. Os dois irmãos ficaram lado a lado e Mindinho a ajudou a subir em seu cavalo.
—Obrigada por tudo, Jon Snow. Prometo que Winterfell não se esquecerá de sua ajuda. – disse olhando para seu amado. Jon concordou com um aceno de cabeça.
—A Muralha espera que não se esqueça mesmo. – riu ele com a mão no ombro do meio irmão.
—O Norte se lembra. – disse Shiera soltando um suspiro. Ela olhou ao redor, para todos aqueles selvagens que Jon tinha colocado sob sua proteção – Tome cuidado, Jon. – disse olhando para ele. Jon se virou para olhar os selvagens e sorriu.
—Eles sabem que precisam da Muralha, minha senhora. Estão comprometidos com nossa aliança.
—Os selvagens talvez... mas alguns membros da Patrulha não... – disse o olhando – Tome muito cuidado, meu amigo. Está rodeado de inimigos, com máscaras de aliados.
Jon olhou para Mindinho e ficou sombrio.
—Lhe devolvo o conselho, Vossa Graça. Tome muito cuidado.
Shiera suspirou e apertou as rédeas, temendo o que estava por vir.
—Estamos prontos, Vossa Graça. – disse Zoltan se aproximando a galope.
Shiera respirou fundo e concordou com um aceno de cabeça.
—Então... então vamos. Winterfell está há três dias de viagem daqui. Ou uma semana, dependendo da neve...
—Que os Deuses nos protejam se a neve nos pegar antes de chegarmos lá. – murmurou Lorde Karstark – Não devemos esperar mais.
Shiera lançou um último olhar para Jon Snow. Ele a olhou nos olhos e por um momento ele era tudo o que existia. Jurou seu amor a ele, mentalmente, mas depois guiou o cavalo em direção ao Sul. Seus Lordes a acompanharam, assim como Lorde Baelish. Seu estômago se contorcia, enquanto pensava no que a aguardava... Roose Bolton e suas mãos geladas, seus olhos sem cor e sua pele pálida. Sua voz sussurrante e seu coração frio. Apertou as rédeas, rezando para que Stannis não se atrasasse. Um mês. Era o que ele precisaria. Um mês...
**
—Ele é tão lindo. – suspirou uma de suas damas de honra. Myrcella sorriu contente vendo Valerion e Loras praticarem. Tinha sido convidada pela cunhada para assistir aos treinos. Margaery tinha se casado com Tommen e agora era a rainha dos Sete Reinos. Chamavam sua mãe de Rainha Mãe agora – Você é tão sortuda. Eu estou com tanta inveja... nunca vou arrumar um marido assim.
—Valerion é mesmo muito bonito. – riu Margaery entrelaçando seus dedos. As duas eram boas amigas, ou ao menos estavam trabalhando para serem. Mas Myrcella sabia que não deveria confiar demais nela. Ela não era uma Lannister. Era uma Tyrell... e já escutara fofocas... fofocas sobre ela e Valerion. Não gostava nem de imaginar isso... – Gosto dos olhos dele. – disse Margaery – São tão diferentes de tudo o que já vi.
—Sim, ele tem os olhos maravilhosos. – riu Myrcella. Ela o olhou enquanto ele e Loras degladiavam. O som das espadas tomava o ar naquela manhã fria. Mesmo no sol achou necessário usar um manto nos ombros, para se esquentar – Eu sou mesmo sortuda por me casar com o maior espadachim dos Sete Reinos. – gabou-se se esticando inteiro – Nem mesmo Loras pode derrotá-lo. Num combate a sério ele foi capaz de derrubar o Montanha. – disse feliz. Escutou um suspiro coletivo das mocinhas que estavam ali e isso a encheu de satisfação.
—Ele não é o melhor guerreiro dos Sete Reinos. – disse alguém logo atrás delas. O grupo se virou para olhar e deram de cara com o Príncipe Oberyn Martell. Ele era um membro do Conselho, convidado pelo seu avô antes da morte dele. Muito charmoso, com uma barba elegante e bem-feita, dono de um sorriso sedutor. Tudo nele transbordava charme e sensualidade.
—Quem é melhor que ele? Você? – perguntou com desdém e algumas de suas damas deram risadinhas nervosas e constrangidas por sua petulância. Eu sou a princesa, meu irmão é o rei, não preciso de modos com esse homem que ousa desafiar a honra do meu futuro marido. Mas Oberyn não pareceu ofendido. Ele sorriu e se aproximou mais um pouco, fazendo as meninas de Jardim de Cima darem risadinhas nervosas.
—Não diria com toda certeza quanto a isso, mas conheço alguém que faz esses dois parecerem dois garotinhos. – riu Oberyn se sentando ao seu lado, afastando uma de suas damas de honra, Launet Rykker, sem muita delicadeza. Mas ela nem pareceu se importar com isso, olhando maravilhada para o dornês.
—E quem seria esse tão maravilhoso espadachim? – perguntou Margaery com um sorriso animado. Algumas vezes era irritante o fato de Margaery estar sempre sorridente e animada. Parecia que ela era incapaz de se irritar. Ela era uma dama perfeita e isso a irritava profundamente, mas Myrcella sorriu como se estivesse super animada para receber uma resposta.
—Esse espadachim é o irmão mais velho de Valerion. Aegon Blackfyre. – riu Oberyn – Soube que ele te desrespeitou, Vossa Graça. Sugeriram casá-la com ele e ele preferiu meter-se num navio, cercado por homens e fugir do continente. – adicionou ele para Margaery, que corou com fúria, parecendo ofendida – Eu conheci Aegon. Um bom rapaz. Nunca vi alguém beber um copo de cerveja tão rápido quanto ele. Parece que simplesmente cai até o estômago. E ele é muito bom no jogo de arremeçar machados. Valerion parece muito com ele fisicamente, mas é fácil distingui-los. Valerion pode ser um bom espadachim, mas certamente não nasceu pra isso. Ele nasceu para a corte, para as tramas, para política. Aegon nasceu pra lutar e derramar sangue. Ah, sim... todos esperam que ele não resolva voltar para exigir Harrenhal pra ele.
—Ele pode pedir o quanto quiser. Lorde Haegon declarou a todos que Harrenhal pertence a Valerion. – disse Myrcella. Oberyn a olhou com divertimento e lhe apertou a bochecha. Depois, com a mão macia e perfumada, acariciou sua nuca com os dedos. Antes que pudesse se sentir assediada, ele retirou a mão e lhe mostrou uma rosa vermelha como sangue.
—Uma bonita flor para uma bonita garota. – riu Oberyn e Myrcella escutou Launet suspirar de inveja – Valerion gosta muito de você. – adicionou ele quando ela segurou a rosa. Ela sorriu satisfeita, mirando o noivo, que tinha acabado de derrubar Loras no chão – Mas ele ainda não esqueceu Sansa Stark.
Myrcella sentiu o estômago dar um salto e sua face ferveu de raiva. Ela olhou para o príncipe, que se levantou com um sorrisinho irritante.
—Não importa. Ele vai se casar comigo. Aquela sonsa provavelmente está morta. – rosnou Myrcella.
—Será mesmo? – perguntou Oberyn. Ele olhou para Valerion, que gargalhava ajudando Loras a se levantar – Não achou estranho o fato dos dois terem desaparecido ao mesmo tempo. Há quem tenha visto os dois deixarem o salão juntos no dia em que o rei Joffrey morreu.
—Valerion passou todo o tempo comigo! – disse num sibilo, mas Oberyn sorriu e deu de ombros.
—Como quiser... mas... sabe... se quiser saber a verdade, talvez devesse perguntar. – riu ele – E existem momentos que nenhum homem é capaz de mentir. – Oberyn olhou para Margaery das ancas até os ombros e ela empinou o nariz numa pose arrogante – Pergunte a ela. Com certeza ela sabe do que eu estou falando. – riu ele antes de se afastar.
Myrcella bufou furiosa e jogou a rosa que o príncipe dornês lhe entregara no chão. Depois se levantou e foi marchando até Valerion e Loras. Suas damas e Margaery a seguiram, mas nenhuma a impediu de chegar até eles. Loras fez uma mesura assim que a viu e logo Valerion se virou para olhá-la também.
—Vossa Gra... – começou ele, mas ela estava tão furiosa que o acertou no rosto com um tapa bastante barulhento. Foi tão forte que parecia que as veias de sua mão estourariam. Valerion cambaleou surpreso para trás, parecendo confuso e em seguida caiu no chão.
—Não caia, Valerion, ou vai ficar feio pra mim. Ser derrubado por um homem que desmonta ao enfrentar uma garota. – zombou Loras. Valerion piscou confuso e colocou a mão no rosto, onde o tinha acertado.
—Perdoe-me, Vossa Graça, mas posso saber o que foi isso? – perguntou ele fechando a cara. Myrcella o olhou furiosa, ainda pensando no que Oberyn tinha dito. Olhou no fundo dos olhos violetas dele e rosnou:
—Você ajudou Sansa Stark a fugir?!
Valerion abriu a boca, em choque e então revirou os olhos.
—Claro que não. Não acredito que me bateu por conta disso! – rosnou ele se levantando. Mas antes que ele se levantasse, ela o empurrou e ele caiu no chão, arrancando algumas risadinhas das meninas.
—Foi por isso que admitiu a culpa pelo assassinato do meu irmão? Por que minha mãe está certa e foi meu tio e Sansa quem mataram ele?! – perguntou sentindo o caração pesar de tanta raiva. Valerion bufou e tentou se levantar novamente, mas ela o empurrou de novo.
No entanto, no lugar de derrubá-lo, ele a puxou pelo pulso, a jogando no chão. Em seguida ele rolou para ficar em cima dela, segurando seus pulsos com uma mão.
—Escute bem, Myrcella. Não faça isso de novo. – rosnou ele – Eu sou seu futuro marido e se você não me respeitar, eu não vou respeitar você, entendeu? – ele a soltou e ficou de joelhos antes de se levantar – Esse é um mundo difícil para mulheres. Mesmo para princesas ou rainhas. Nunca mais levante a mão contra mim.
E dizendo isso, ele saiu parecendo irritado.
Oh, mas ela era uma leoa furiosa.
Myrcella se levantou de uma vez, sem se preocupar em fazer uma cena. Ela o alcançou depois de uns metros e o puxou pelo ombro. Os dois se encararam com irritação e por um momento os olhos púrpura dele pareceram cheios de descaso. Ele nunca a olhara daquele modo e só conseguiu pensar que deveria ter extrapolado. Tentou conter a respiração e pensar antes de agir. O tinha estapeado sem um motivo bom o suficiente na frente dos amigos dele. Engoliu em seco, parando para pensar em seu ato de raiva e suas bochechas coraram de vergonha. Aquilo tinha sido algo digno de Joffrey. Fiquei louca de ciúmes e me prejudiquei... Valerion não pode ter ajudado aquela idiota a fugir... ele ficou todo o tempo comigo. E depois todos o viram no templo. Ele não teve tempo nem oportunidade de fazer algo assim...
Praguejou mentalmente, se perguntando se tinha estragado tudo o que conquistara até ali. Suas emoções pareciam estar à flor da pele. Toda aquela raiva se transformou em vergonha e Myrcella sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Se virou, para sair correndo, pois odiava chorar na frente dos outros, mas sentiu uma mão segurar seu braço com firmeza. Era Valerion que a olhava com mais brandura.
—Desculpe, meu senhor. – murmurou ela e ele sorriu.
—Não peça desculpas. – disse ele a abraçando – Está tudo bem... creio que nós dois passamos do limite. Se eu fiz algo que a deixasse insegura, meu amor, eu peço desculpas. – disse ele a afagando no topo da cabeça. Myrcella sorriu, um pouco mais aliviada e o abraçou, mesmo que ainda sentisse um pouco de vergonha pelo o que tinha acontecido.
—Não deveria ter te batido. – murmurou ela.
—Não... não deveria. – disse Valerion – Você pareceu a sua mãe, por um momento... e eu realmente não gosto da sua mãe. Ela já me ameaçou vezes demais. – disse ele e Myrcella sentiu o estômago saltar.
—Minha mãe te ameaçou? – perguntou Myrcella o olhando. Valerion desviou o olhar, como se lamentasse ter dito aquelas palavras – Me conte sobre isso.
Ele suspirou e baixou o olhar.
—Lembra quando vieste perguntar o motivo de eu estar distante? Já faz algum tempo. Antes de partir para Harrenhal...
—Lembro.
—Sua mãe ameaçou me matar caso eu me aproximasse de você. – explicou Valerion – E mesmo depois que voltaste, ela insistiu em me manter afastado. Só depois da morte do seu avô que ela passou a apoiar nosso noivado. Mas temo que ela tente nos manipular se ficarmos aqui em Porto Real por muito mais tempo. – explicou ele – Foi ela quem colocou essas ideias sobre Sansa Stark na sua cabeça, não foi? – perguntou ele com alguma censura e Myrcella achou mais sensato concordar do que falar que tinha sido um príncipe de Dorne com quem ela nunca trocara mais do que alguns poucos minutos de conversa. Valerion a afagou no queixo e sorriu – Você deveria falar com o seu irmão, que é o rei... falar com Margaery, que é sua amiga. – disse ele e Myrcella o olhou com descrença, pois não era amiga da prometida do irmão – Vocês duas insistem em fingir que são. Pedir favores é uma boa maneira de manter a farsa. Margaery será uma boa aliada nossa, meu amor. – explicou Valerion oferecendo o braço para que andassem juntos. Myrcella o olhou confusa e ele prosseguiu – Ela vai ter muita influência sobre seu irmão. Se ele se convencer de que você seria mais feliz em Harrenhal, poderíamos deixar Porto Real e começar nossas vidas sem que os outros ficassem tentando nos controlar. Poderíamos casar logo... numa grande festa, num torneio, talvez. – explicou ele e Myrcella sentiu seu coração se empolgar com a ideia – E então estaríamos livres das tramas da capital... ficaremos seguros da guerra e de jogos de influência. Poderemos apenas nos devotar a nós mesmos. Não seria ótimo?
—Seria maravilhoso. – disse Myrcella pensando em como seria bom não ter que reportar tudo para a mãe, assim como seria ótimo não ter um monte de garotas tentando se colocar entre ela e Valerion, só porque ele era rico e bonito. Ela o amava além disso e ninguém mais, além dela, o merecia – Mas não sei se posso convencer meu irmão a me mandar pra lá. Ele está com medo de ser rei. Ele pediu para que eu não deixasse a capital, pois precisa da minha ajuda. – disse Myrcella e Valerion fechou o cenho, parecendo pensativo.
—Entendo... – ele suspirou, parecendo um tanto decepcionado – Eu sei o quanto é difícil nos separarmos dos nossos irmãos...
Myrcella sentiu pena por ele. Ele estava sozinho, afastado de Shiera e Aegon, enquanto ela tinha a mãe, o tio e o irmão para apoiá-la e aconselhá-la sempre que fosse preciso.
—Sem falar que você é um membro do pequeno Conselho. Você precisa estar aqui para ajudar meu irmão a governar. Agora que Lorde Baelish saiu, que meu avô faleceu, assim como o seu pai... o conselho precisa de você. – Myrcella o olhou com um sorriso, deixando o momento de raiva para trás – Você seria uma excelente Mão do Rei. – disse ela. Valerion interrompeu o passo e ela viu ambição brilhar nos olhos dele.
—Não acha que sou muito novo? – perguntou ele e ela sorriu.
—Sabe, quando Aerys virou rei... antes de ficar louco... ele renovou o Conselho e colocou meu avô como sua Mão. Ele tinha mais ou menos a sua idade, mas foi a melhor Mão que os Sete Reinos já viram. – disse ela com convicção e Valerion pareceu pensar a sério sobre aquilo – Eu acho que posso sugerir isso ao meu irmão. Minha mãe me contou que tio Kevan falou que só aceitaria ser Mão do Rei se ela voltasse para o Rochedo. Mace Tyrell foi nomeado Mestre da Moeda, então estamos sem uma boa Mão.
Valerion deu um sorriso e a olhou de soslaio.
—Sendo o Lorde de Harrenhal e Mão do Rei, sua mão não poderia mais se meter entre nós. – disse ele parecendo gostar da ideia – Eu nunca tinha pensado nisso Myrcella... – ele a olhou com divertimento – Acha que consegue convencer seu irmão a me dar o título de Mão?
Myrcella respirou fundo e sorriu.
—Nada mais justo que o esposo da princesa ser a Mão do Rei. – disse ela e ele concordou.
—Nada mais justo.
—Falarei com Tommen! – prometeu ela e Valerion a olhou nos olhos.
—Sim, fale com ele, mas não deixe sua mãe saber disso, ou ela vai intervir. – disse Valerion – Está bem?
—Não trocarei uma palavra que seja com ela, sobre isso. – prometeu e Valerion sorriu.
—Certo... mas não precisa fazer isso agora. – disse seu prometido a puxando de leve – Tenho outra tarefa para você.
—O que? – perguntou curiosa.
—Preciso que escolha todas as atrações do nosso casamento.
—Podemos fazer um torneio? – perguntou Myrcella – Com justas, competição de espadas e de arco?
—Um torneio? – perguntou Valerion cerrando o cenho – Claro, pode ser um torneio. Dois dias de duração...
—Cinco. Cinco dias! – pediu Myrcella e Valerion sorriu.
—Três, porque estamos em tempos difíceis. – disse ele e Myrcella precisou concordar.
—Cinquenta mil dragões para o vencedor das justas, vinte mil para o segundo lugar. Vinte mil para o vencedor das espadas e dez mil para o vencedor da competição de arco. – sugeriu ela – Além de termos uma rainha do amor e da beleza, claro. E música... precisamos de músicos. E um banquete... um grandioso banquete com pelo menos cinquenta pratos diferentes, já que no casamento de Joffrey tivemos mais de setenta. – disse ela empolgada, se desvencilhando do braço de Valerion, para girar no mesmo lugar – E um maravilhoso vestido para mim, para que não exista no reino uma noiva mais bonita que eu.
—Mesmo se estivesse se casando vestida de camponesa, Myrcella, não haveria uma noiva mais bela. Garanto-lhe isso. – riu Valerion sem parecer se importar com suas exigências.
—Poderemos mesmo pagar tudo isso?
—Bem, Tyrion não é mais o Mestre da Moeda, então precisamos fazer um acordo com Mace Tyrell, afinal, a coroa deverá pegar um terço de tudo. Harrenhal pagará o resto. – disse Valerion, com tranquilidade – Agora, Myrcella, se não se importa... eu preciso me organizar. Tenho que tirar a roupa de treino e ir até o porto, para resolver alguns assuntos. – explicou ele – Posso contar com sua presença no jantar?
—Claro. – riu Myrcella, ainda sorridente. Valerion se aproximou e lhe beijou a testa com carinho antes de se afastar, parecendo insatisfeito e irritadiço. Provavelmente com o assunto de que iria tratar ao sair dali. Myrcella sabia que o noivo a amava de todo o coração. Tinham tido uma pequena briga, mas conseguiram se resolver tranquilamente. Ele é sensível a lágrimas. Pensou consigo mesma. Isso era bom. Ela tinha aprendido a chorar sem ter vontade quando ainda era uma criança. – Vou saber lidar muito bem com você, Valerion. – sorriu satisfeita, antes de começar a articular um discurso para convencer Tommen a promover Valerion a Mão do Rei – Tudo será perfeito!
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