Blackfyre
72 Os Encantos da Donzela
Notas iniciais

Os Encantos da Donzela
Passara-se mais de uma semana. Onze dias, para ser pontual. O rei do Norte tinha voltado para casa e Winterfell o recebera em festa. Robb desceu do cavalo, usando sua coroa de ferro e bronze. A barba dele estava por fazer e os cabelos muito cacheados enfeitavam o topo de sua cabeça, num tom vivo de vermelho. Assim que ele desceu, os poucos Lordes que já estavam na cidade se curvaram em reverência.
Shiera respirou fundo em sua carruagem. Arianne estava ao seu lado, tremendo de frio, espiando pela janela.
—Gelo. Pra todo lado que olho, só vejo gelo.
—Bem vinda ao Norte. – Resmungou.
—Como aguenta? – Perguntou ela. Shiera suspirou olhando para Robb, que vinha em sua direção – Oh, o Rei do Inverno tem mãos quentes?
—Muito quentes. – Garantiu e as duas riram. Robb abriu a porta e a ajudou a descer. Aegon apareceu em seguida, ajudando Arianne. Era de se estranhar que ele estivesse a tanto tempo dando atenção para a dornesa e Shiera desconfiava que a relação deles não era um reles flerte comum. Nunca tinha visto Aegon dedicar tanto tempo a alguém. Mesmo com Daenerys, de quem ele sempre falava com muita devoção... Quando Arianne apareceu, resgatada de um navio, Aegon dedicava quase todo seu tempo a ela. Shiera não se importou, pois Arianne parecia muito divertida. Sentia mais empatia por ela do que por Sansa, por exemplo.
Andaram recebendo aplausos do povo. Robb andou até Sansa que o recebeu com um sorriso.
—Robb, Winterfell é sua. – Disse ela.
—Sansa. Estou exausto. Mas gostaria muito que organizasse um jantar e conseguisse alguma música.
—Para qual ocasião? – Perguntou ela.
—Falaremos disso mais tarde. – Disse Robb e Shiera tinha certeza de que ele iria anunciar que ela estava esperando mais um herdeiro para o Norte.
—Robb. – Chamou a voz de Valerion. Ele desceu do cavalo e sacudiu o cabelo, onde acumulavam-se flocos de neve – Não podemos ficar muito tempo aqui. Aconselho que amanhã comecemos a marchar para a Muralha. Preciso voltar o quanto antes para Porto Real. – Disse ele enfadado. Ultimamente Valerion estava sempre enfadado.
—Sim, imagino que sua esposa esteja aguardando teu retorno. – Disse Sansa e Shiera notou frieza na voz dela. Valerion a olhou com alguma secura.
—Eu espero que sim. Não recebi notícias de Myrcella. Winterfell tem alguma para compartilhar? – Perguntou ele como se nunca tivesse tido alguma história com Sansa Stark.
E Shiera notou que isso doeu na garota. Ela pareceu atingida por aquelas palavras, mas logo respirou fundo, como se não se importasse.
—As notícias dadas foram as que Cersei governa Porto Real. Ou Myrcella está morta, ou está debilitada demais para governar. Apesar de que dizem que ela já não governava há séculos. Dizem que ela enlouqueceu há tempos. – Respondeu Sansa. Aegon deu um tapa nas costas de Valerion e bradou.
—Um problema a menos, Valerion.
—Tire as mãos de mim. – Rosnou ele se afastando e marchando para os estábulos, puxando seu cavalo.
Shiera olhou com censura para o irmão mais velho que a olhou como quem não tivesse entendido o que tinha feito de errado. Arianne respirou fundo tentando conter uma risadinha e Sansa olhou para Shiera com alguma frieza.
—Seja bem vinda, Vossa Graça. – Disse ela com fria cortesia.
—Oh, não me julgue pelos atos de Valerion, está bem? – Perguntou Shiera. Pretendia falar com doçura, mas achou que seu tom saiu mais duro do que pretendia – Não sou culpada pelas ações dele.
—Bem, vamos entrar. Está muito frio. – Disse Arianne e Aegon a puxou para perto, passando o braço pelos ombros dela.
Shiera notou que Robb lhe ofereceu o braço e aceitou prontamente. Robb estava para marchar para dentro do castelo, quando ela interrompeu o passo.
—Meu amor. Irei ao Bosque Sagrado, se não se importa. – Disse e Robb aquiesceu. Tocaram de leve as testas, olhando-se nos olhos e então se afastaram. Caminhou pela neve dura até o Bosque, sentindo o mormaço do lugar aquecer seu rosto. Se ajoelhou em frente ao represeiro e juntou as mãos, agradecendo em silêncio pelas graças que recebera. Seus irmãos estavam sãos e salvos, pelo menos até aquele momento, esperava um filho de Robb, conseguiram acertar uma trégua com um possível aliado importante. De olhos fechados, pensou em Daenerys e lembrou-se de seu sonho. Um navio, um corredor. Jon atravessava o corredor e batia em uma porta. Esta se abria e Daenerys o olhava surpresa. Ele entrava no quarto e os dois se entregavam à paixão. Abriu os olhos e mirou o represeiro – Permitam que eu não esteja presente quando isso acontecer... – Murmurou.
—O que gostaria de evitar presenciar? – Perguntou Jon às suas costas. Shiera sentiu o rubor aquecer suas bochechas. Olhou para trás sem se levantar e viu Jon se sentar num tronco que havia ali. Ele retirou a espada do cinto e a colocou sobre o colo – Não precisa responder se não quiser. Não estou te seguindo. Vim pelos deuses. – Murmurou ele como se sentisse muito.
Shiera sentou-se nos próprios calcanhares e nada disse. Jon fechou os olhos e respirou fundo, parecendo muito concentrado. Movia a boca rapidamente, fazendo sua prece e Shiera não conseguiu evitar de olhar pra ele. Jon tinha se tornado um rapaz muito bonito. Ele lembrava mais Lorde Eddard do que Robb. Tinha os mesmos cabelos escuros, que formavam alguns cachos. Ao contrário de Robb, Jon deixara o cabelo crescer e já era possível prendê-lo num penteado bem nortenho, num coque atrás da cabeça. Uma barba suave cobria seu rosto. Uma cicatriz cortava sua sobrancelha, mas era muito fina e discreta, em nada prejudicando os traços dele.
Desviou o olhar e mirou o represeiro. Lembrou-se de quando beijou Jon naquele lugar. Os Deuses foram testemunhas de nosso amor, Jon. Mas infelizmente esse amor nos foi proibido. Jon abriu os olhos e a mirou. Ela o mirou de volta. Os dois se encararam longamente e Shiera se levantou. Jon se levantou em seguida, guardando a espada, e se aproximou. Baixou os olhos sabendo da decisão que tinha tomado, mas Jon tocou seus cabelos, fazendo seu coração disparar. Mas ele apenas retirava uma folha seca e vermelha que caíra. Sabia que não deveria olhar direto nos olhos dele. Era perigoso. Mas havia mais força na ligação entre eles do que ela possuía.
Seus olhos ganharam vida e subiram para encontrar os dele. Jon sorriu um sorriso gentil e lhe entregou a folha seca. Sorriu de volta e a segurou. Sua mão roçou a dele e a folha caiu quando seus dedos entrelaçaram. Jon respirou fundo e trouxe seu pulso até seus lábios. Sentiu a barba macia dele acariciar sua pele. Os lábios dele beijaram seu pulso com carinho e ela precisou respirar fundo.
—Não... não faça isso. – Disse puxando a mão. Jon a soltou de imediato e desviou o olhar – Eu preciso ir. – Murmurou, mas seus pés não se moveram. Jon concordou com um aceno de cabeça, mas tampouco se moveu. Mais uma vez trocaram um olhar e o calor em seu peito foi demais.
—Por que fazemos isso? – Perguntou ele.
—Isso? – Perguntou sabendo a que ele se referia, mas sem ter uma resposta. Jon respirou fundo e se ajoelhou a sua frente – O que está fazendo?
—Você é a rainha do norte. – Disse ele. Shiera respirou fundo – Juro minha espada e minha vida a ti. – Prometeu ele – Assim como meu coração. Prometo-lhe.
—Não precisa me prometer isso. – Disse constrangida e ele sorriu.
—Eu sei. Mas é o que eu quero fazer... ou ao menos é o que eu posso fazer. – Disse ele baixando os olhos.
Shiera sentiu-se tocada pelo momento, sem saber como reagir, mas o calor abandonou seu corpo ao ouvir palmas lentas. Sentiu-se como se tivesse sido pega fazendo algo muito errado.
—Mas que lindo momento. – Disse uma voz familiar, que há muito não ouvia. Se virou e viu um rapaz alto, de cabelos e barba castanho escuros. Seus olhos tinham a exata mesma cor do mar ao redor de Dragonstone e o sorriso dele era mais travesso do que o sorriso de Aegon. Havia até um pouco de crueldade ali. Não uma crueldade absolutamente má, como a de Joffrey. Mas um pouco de malícia e más intenções, como os velhos sorrisos de Theon – Não, não, continuem. Não queria atrapalhar... Digo... O rei talvez fique um pouco desconfortável se souber, mas bem... Shiera sabe como eu sei guardar segredos sujos. – Riu ele e Shiera sorriu.
—Quem é você? – Perguntou Jon, ficando de pé, com a mão quase na espada.
—Humfrey! – Disse animada e Humfrey abriu os braços com um sorriso malicioso. O sorriso típico dele. Shiera correu para abraçá-lo e ele a abraçou apertado, mais apertado do que os bons modos permitiriam. E ela notou que ele olhou fixamente para trás dela, para Jon Snow. O soltou e recebeu um olhar intenso de seu amigo de infância. Humfrey olhou em seus olhos, parecendo ler sua alma – O que faz em Winterfell? – perguntou curiosa e Humfrey sorriu, travesso.
—Preciso conversar com você. Mas sem seu valoroso cavaleiro. – brincou ele e Shiera mirou Jon, que olhava para o rapaz de Oldtown com desconfiança.
—Sobre o que? – perguntou o olhando – Não se acanhe com Jon, eu confio plenamente nele. – Garantiu Shiera e Humfrey sorriu novamente, mirando o nortenho.
—Mas eu não. – Discordou Humfrey. Shiera desviou o olhar para Jon, que mirava Humfrey com absoluta desconfiança – Não me leve a mal. Você é Jon Snow, não é? – Perguntou ele e Jon concordou com um aceno de cabeça – Eu me lembro de você, do Torneio de Harrenhal. Você participou como cavaleiro misterioso no lugar de Valerion. – Disse Humfrey e Shiera sentiu um calafrio. Será que ele ainda tinha ressentimentos por aquela época? – Graças a mim, inclusive. Acabei machucando Valerion num treino. Sou Humfrey Hightower. – Disse ele e Jon concordou com um aceno de cabeça.
—Lembro que você teve um excelente começo. – Disse Jon, simplesmente e Humfrey sorriu zangado.
—Sim. Aquele torneio acabou sendo uma grande decepção. Mas pelo menos Aegon ganhou. – Riu ele e Jon o olhou confuso – Não que isso tenha melhorado a minha sorte, é claro. – Shiera sentiu o olhar de Humfrey lhe penetrar a alma, novamente – Vejo que trocou a coroa de lavanda por uma de ferro e bronze. Devo admitir que a coroa que Margaery usou era mais bonita. Feita de ouro, com rosas entalhadas. Robb poderia te arrumar uma de prata, com algumas ametistas, para combinarem com seus olhos. Prata sobre preto sempre fica bonito. – Riu ele e Shiera suspirou.
—Não nos importamos com essas futilidades aqui no Norte. – Ralhou Jon e Humfrey o olhou com malícia.
—Por isso que as mulheres aqui ficam tão sérias e sem humor. Os homens deveriam tratar suas esposas de maneira mais sulista. – Riu ele.
—As coisas são bem diferente no Norte. Os homens não precisam dar milhares de presentes para suas esposas para compensar suas puladas de cerca. – Riu Shiera e Humfrey sorriu para ela – Os homens no Norte são muito fieis.
—Eu notei. Jon aqui se mostrou bastante fiel, principalmente para com o próprio irmão. – Humfrey deu de ombros – Mas o que esperar de um bastardo? – Shiera respirou fundo e mirou Jon, esperando vê-lo sacar a espada, furioso. Jon estava vermelho e irado, mas se conteve.
—Humfrey. Jon é um bom amigo meu. A relação dos nortenhos com seus suseranos é bem diferente aqui no norte. Eles levam seus votos muito a sério.
—Eu sei reconhecer uma declaração de amor quando vejo uma, Shiera. Ou por acaso se esqueceu de mim? – perguntou ele lhe afagando o queixo com malícia e Shiera se afastou um passo.
—Não acho que seria possível esquecer de Humfrey Hightower. – Disse Shiera com um sorriso, enquanto se desvencilhava do toque dele – Tenho-o em alta estima, Hunfy, mas não seja descortês com meus amigos. Jon me é muito importante. – Garantiu e Humfrey sorriu ligeiramente zombeteiro e ligeiramente zangado. Ele olhou desafiadoramente para Jon e fez uma mesura completamente sarcástica.
—Peço perdão se ofendi o bastardo... – Ele se levantou e o olhou desconfiado, enquanto Shiera se preparava para censurá-lo – Perdoe-me se eu estiver enganado. Mas você não era o Lorde Comandante da Muralha? Qual é mesmo a punição para deserção? Decapitação? Não te vejo usar o negro, Sor.
—Eu cumpri com meus votos. Minha Patrulha terminou. – Disse Jon, secamente.
— Ele foi morto na Muralha. Permaneceu morto por dois dias. Depois Thoros de Myr o trouxe de volta com o poder de seu deus vermelho. – Explicou Shiera e Jon a olhou desconfortável – Mas cumpriu com seu dever e morreu pela Muralha.
—Me considero livre para fazer o que quiser. – Resumiu Jon.
—Agora Jon é um mercenário da Companhia Dourada, que está respondendo a Aegon. – Concluiu Shiera e Humfrey olhou ainda desconfiado para Jon.
—Deus Vermelho? – Perguntou Humfrey, franzindo o cenho. O rosto dele empalideceu de leve e ele lançou outro olhar desconfiado para Jon – Shiera, devo insistir em uma conversa em particular contigo. No Septo, se me permitir. Sei que segue a fé dos Deuses Antigos, mas eu prefiro estar sendo protegido pela minha fé. E o que eu tenho para te contar é de extrema importância. – Disse ele, muito sério – Posso te encontrar em alguns minutos no pequeno Septo de Winterfell? – Perguntou ele e Shiera concordou com um aceno de cabeça. Humfrey falava muito sério e isso era muito estranho. Humfrey pouquíssimas vezes levara algo a sério...
**
Valerion estava de joelhos em frente à Mãe, como se estivesse lhe jurando a espada. Estava zangada com ele, sentindo-se traída e deixada de lado. Mas ao mesmo tempo, estava ainda mais apaixonada por ele. Ele tinha seguido a honra e o dever e isso era tão raro naqueles dias que não podia deixar de impressionar.
Ele estava mais alto do que se lembrava, por mais que não tivesse muito mais de seis meses desde que o vira pela última vez. Ele estava mais forte também, recuperando a boa forma que os radicais da Fé tinham tirado dele. E nem mesmo o trauma daquele momento, as torturas, a prisão. Nem mesmo aquilo lhe tinha tirado a fé e isso o aproximava ainda mais dos cavalheiros das canções. Valerion parecia ter saído de uma canção e ela lamentava que ele estivesse tão próximo e tão distante ao mesmo tempo.
—Mãe, por favor, estenda sua proteção para minha esposa e para meus filhos. – Rezou ele sem saber que ela estava presente – Que o Estranho não os toque. Que eu possa conhecer meus filhos, que eles estejam saudáveis e seguros. Por favor. Proteja-os. Proteja a mim também, pois tenho um caminho difícil pela frente. Afasta-me dos encantos da Donzela para que eu não caia em tentação. Aplaca a dor do meu coração. Não permita que ele pese mais que a minha honra. – Valerion se levantou e mirou a estátua da Mãe. Ele já tinha rezado para o Pai, quando ela tinha chegado, afinal ele fora direto para o Septo e Sansa precisou conversar sobre muitas coisas com Robb. Mas o deixou com o Meistre para resolver seus próprios assuntos. Ela já os negligenciara em prol de Winterfell. Aquele castelo, e até mesmo Robb, poderiam esperar um pouco antes de ter sua total devoção. Ainda estava na porta do Septo, entre a Donzela e o Guerreiro, escutando as orações de Valerion, se perguntando se ela seria o que ele se referia aos “Encantos da Donzela”. E isso não a ajudou a desejar colocar uma pedra sobre seu próprio coração. Valerion passou pelo Ferreiro sem lhe dirigir atenção e se ajoelhou em frente à Velha. Sansa se perguntou se deveria sair dali, logo chegando à conclusão de que obviamente deveria. Mas seus pés pareciam ter sido congelados no lugar, pelo frio do Inverno Nortenho – Sábia Senhora, ilumine meu caminho e me ajude a encontrar espaço em meu coração para perdoar quem deve ser perdoado e para ser firme com quem devo ser firme. Ajuda-me a ser mais brilhante que meus inimigos e me ajude a identificá-los entre aqueles que sorriem falsamente para mim. Dá-me diligência e protege-me do Estranho. Ilumina a mente de Myrcella, que aparentemente se perdeu. Por favor, a ajude a melhorar, para que possa cuidar bem de nossos filhos, até meu retorno. Ajuda-me a lidar com Cersei quando for a hora. Ajuda-me a não deixar a mente vacilar quando for testado pelo meu coração. Permita-me uma mente sã, calma e sensata. – Ele seguiu ajoelhado por alguns segundos, respirando fundo e então se levantou. Mas quando estava a caminho do Estranho, ele notou que não estava só no Septo. Sansa o olhou profundamente e avançou alguns passos. Valerion desviou o olhar, mas isso não a intimidou. Tinha escutado o suficiente para se sentir segura. Mirou a estátua da Donzela, que parecia até mesmo sorrir, como se tivesse planejado que tudo fosse daquela forma. Odiava a Donzela e a amava com gratidão. Algumas vezes desejava ver-se livre daquele sentimento, mas era impossível.
Valerion salvara Lady das mãos de Cersei, ele lhe fora gentil e sincero. Ele lutara pela sua honra no Torneio da Mão, mesmo que ela não lhe tivesse dado seu favor. Ele a protegera de Joffrey, de Cersei, do Cão, das mãos daqueles homens enlouquecidos pela raiva, no dia que Myrcella zarpara para Harrenhal. Ele escalara as paredes da Fortaleza Vermelha, apenas para beijar seus lábios. Ele lutara contra a Guarda Real e levara uma flecha no braço por ela. Ele a consolara pela morte de sua mãe e de Robb, ele a fizera voltar a comer, quando não sentia mais fome. Ele a salvara de Porto Real. E por mais que sempre se dissesse apaixonado, lhe respeitou a virtude, sem nunca desonrá-la, mesmo quando ela se mostrou disposta a se entregar ao desejo. Valerion, seu doce cavaleiro de canções.
Deveria ter o mínimo de gratidão e sair da vida dele para sempre. Ou macularia sua honra de cavalheiro. E isso talvez fosse absolutamente cruel, principalmente depois de todos os sacrifícios que ele fizera para mantê-la incólume. Ele abraçara as responsabilidades de seus atos, voltando para Myrcella. Cabia a ela respeitar isso?
Ou deveria apelas lutar pela própria felicidade? Estivera lutando para sobreviver, depois lutando para manter o povo bem, seguro, vivo. Mas agora Robb estava em casa, ela estava em casa. Cercada de amigos e aliados. Será que agora poderia se permitir lutar por sua felicidade? Seria assim tão egoísta sonhar com isso naqueles tempos sombrios?
Mas a estátua da Donzela sorria, como se garantisse que seria sua cúmplice. Mirou a mãe, que tanto parecia com sua própria. A Mãe deseja a felicidade de seus filhos, não é? E o Pai? Olhou para ele, mas seu semblante era Neutro, como se não quisesse se envolver naquilo.
Então mirou Valerion. Ele olhava para tudo, menos para ela. Mas o olhar dele pousou sobre a Velha e Sansa buscou o consentimento dela também. E ela se pareceu tanto com a Velha Ama naquele momento que Sansa não teve dúvidas de que não deveria vacilar. Ninguém em Winterfell conhecia mais histórias de amor do que a Velha Ama. E muitas delas eram cheias de dilemas, assim como sua vida estava agora.
Aproximou-se um passo de Valerion e isso causou algum efeito nele. Como se fosse um gato de rua que se assustasse com algum barulho repentino. Ele saltou de susto e a mirou, engasgado. Sorriu para ele e caminhou em sua direção, mirando-o nos olhos. Ele parecia perdido. Como se não soubesse o que fazer. Ele respirou fundo, enquanto ela se aproximava com um sorriso impertinente no rosto. Valerion pigarreou e baixou a cabeça, em sinal de respeito.
—Com sua licença, minha senhora. – Murmurou ele e Sansa sorriu ainda mais ao notar o nervosismo na voz dele. Ele já não era capaz de fingir frieza. Não com os dois ali, no Septo. Não com os Deuses olhando. Não com a Donzela sorrindo atrás dela, encarando-o em desafio.
—Não. – Respondeu Sansa e ele a olhou pego de surpresa – Você está na minha casa e não tem permissão para sair daqui. Não agora. Não antes de me ouvir. – Disse ela e ele respirou fundo. Se aproximou e colocou o rosto dele entre suas mãos. Ele a olhou nos olhos e ela notou que ele se sentia culpado. Por ela ou por Myrcella, ainda não poderia dizer. Mas, antes que fizesse qualquer coisa para se aproximar dele, o estapeou no rosto. Valerion a olhou chocado, com a mão na face, que ficara vermelha e Sansa sentiu toda a raiva que se acumulara dentro de si por ter sido abandonada se esvair – Isso é por ter mentido pra mim e ter fugido na calada da noite, para voltar para os braços de outra mulher, logo depois de falar que me amava! Logo depois de eu garantir que amaria seu bastardo e o aceitaria sob meu teto! – Disse sentindo-se leve por ter feito aquilo e Valerion engoliu em seco. Ele baixou os olhos e Sansa suspirou. Então, sem pudor algum, o puxou pela cota de couro e o beijou. Sentiu o rapaz arrepiar-se e suspirar, chocado. Ele estava paralisado pela surpresa, mas antes que ele pudesse se recompor para afastá-la ou puxá-la, o soltou e o olhou com carinho – E isso é por ter feito justamente o que fez. – Falou e o rapaz a olhou ainda mais perdido.
—O... o que? – Perguntou Valerion e Sansa sorriu.
—Você é um bom homem, um homem honrado, do tipo que não se vê todos os dias, principalmente nesses tempos. Você é a prova de que mesmo eu não era assim tão tola por amar canções. Homens como as canções existem e você é um deles. E eu fico feliz de você ser o homem no meu coração. – Sansa respirou fundo – Robb é o rei do Norte. Talvez ele me prometa a alguém, para forjar alianças. Talvez eu me case com algum lorde do sul ou até mesmo do norte. Mas meu coração é, sempre foi e sempre será seu. Obrigada por me amar, Valerion. – Disse sorridente, se virando. Mirou a Donzela, que lhe pareceu ligeiramente desapontada. Mas não seria justo com Valerion exigir o que quer que fosse dele.
—Não sou um cavalheiro de canções. – Disse ele. Sansa se interrompeu e o olhou. Ele a olhava completamente vermelho – Não... – Ele respirou fundo, lutando alguma luta interna – Sansa... – Ele a olhou, com os olhos violetas, engolindo em seco – Eu sinto muito. Eu a magoei e fui cruel. Perdoe-me. – Murmurou ele e Sansa concordou – Você merece um homem ainda melhor do que eu.
—Eu sei. – Garantiu sorrindo e Valerion suspirou – Mas está perdoado, Valerion. Não se escuta uma palavra que seja sobre Myrcella. Talvez você seja viúvo. Minhas esperanças ainda não secaram. E, de acordo com Meistre Emyr, se você foi enganado sobre o nascimento de Myrcella, seu casamento pode ser anulado, sabia? – Perguntou ela e ele piscou – Mas essa é uma decisão sua. Só se apresse, Valerion. Robb pode me prometer a qualquer momento. – Então ela se virou e saiu, deixando seu amado para trás. Mas assim que atravessou a porta, cruzou com Loras Tyrell. Ele sorriu e lhe lançou uma piscadela, como se apoiasse o que tivesse feito. E isso lhe arrancou um sorriso daqueles.
**
Robb abriu a porta, surpreso. Theon estava sentado numa cama com Bran sentado numa cadeira com rodas, ao lado dele. Theon estava mais magro do que se lembrava, com uma aparência mais velha também. Ele tinha envelhecido bastante naqueles últimos meses. Antes de falar com o amigo, se ajoelhou em frente a Bran, completamente assombrado.
—Bran... me falaram que você... que você tinha morrido. – Murmurou Robb. Bran concordou com um aceno de cabeça, mirando o irmão.
—Eu fiz parecer que tinha. – Murmurou ele. – Mas agora estou de volta.
—Vocês, Starks, são difíceis de matar. – Riu Theon e Robb levantou o rosto para ele, apesar de ainda estar de joelhos em frente a Bran. Winterfell parecia um pouco mais com seu lar, agora. Theon, Bran, Sansa e Jon. Apenas Arya e Rickon estavam faltando, provavelmente ambos mortos... ou talvez... Talvez Arya estivesse viva. Se Bran estava, ainda restava esperança em seu coração – Bom ter você de volta, Vossa Graça. – Disse Theon ficando de pé. Robb o olhou, surpreso. Ele usava armadura e estava como um cavaleiro, como se não tivesse quase morrido meses atrás. Apenas um pouco mais envelhecido e um pouco mais magro. Mas ainda Theon. Podia até mesmo ver uma sombra de seu antigo sorriso, por mais que estivesse um tanto enlutado.
Qual de nós manteve o mesmo sorriso de anos atrás? Ninguém... nem eu, nem Shiera e nem mesmo Sansa... o Inverno chegou e mudou a todos nós.
Robb se levantou e cumprimentou Theon, olhando dele para o irmão. Robb sorriu, sentindo-se muito vivo e feliz naquele momento. Theon sorriu de volta e Bran fez o mesmo, mas o sorriso dele era diferente. Theon sorria cheio de saudade e alegria. Robb sorria do mesmo jeito. Mas Brandon sorria como um avô que vê seus netos brincarem numa tarde de neve de primavera. Um sorriso sereno, nostálgico, tranquilo. Um sorriso velho demais para um rosto tão jovem.
Mas naquele momento Robb só conseguiu ficar feliz por mais um lobo ter voltado pra casa. E com aquele pensamento, se deu conta que Verão não estava com Bran.
—Onde está seu lobo, Bran? – Perguntou Robb. Vento Cinzento estava descansando com Fantasma, provavelmente. Os dois lobos, por mais que Robb e Jon estivessem cada vez mais afastados, não costumavam ficar muito tempo longe um do outro.
Bran o olhou com pesar no rosto e mesmo antes da resposta vir, Robb soube o que tinha acontecido.
—Ele, Hodor e Jojen estão mortos, Robb. Hodor e Verão morreram para nos salvar. Jojen, ele... – Bran pareceu ficar muito distante naquele momento – Ele não resistiu ao Além da Muralha.
Robb suspirou triste por ouvir aquilo. Crescera com Hodor. E devia muito ao lobo Verão. Ele protegera Bran e sua mãe, anos atrás, de um assassino enviado nas sombras. E o garoto Jojen... era o filho de um Lorde leal. O filho de Lorde Howland Reed.
Robb deu dois tapinhas no ombro de Bran e respirou fundo.
—Eu sinto muito pelas suas perdas, Bran. – Disse Robb.
—E eu estou feliz que tenha entrado em Paz com Jon, apesar de tudo. – Disse Bran e Robb o olhou chocado.
—Não estranhe. Parece que Brandon sabe de tudo. Ele está me dando nos nervos, mas Sansa me incumbiu de cuidar dele. – Resmungou Theon e Robb olhou do irmão para o amigo – Ele adquiriu habilidades mágicas além da Muralha. – Explicou Theon e Robb riu nervoso, duvidando por um instante. Mas então lhe ocorreu que tanto ele quanto Jon tinham sido ressuscitados, então duvidar do que quer que seja, sem escutar tudo, lhe parecia no mínimo insensato.
—Eu vi muitas coisas. – Disse Bran num tom monótono e constante – Eu vi o sofrimento de Shiera, eu vi quando ela matou nossa mãe e escutei as últimas palavras dela.
—Você estava no quarto, Bran. Como pode ter ouvido? – Perguntou Robb sentindo o coração apertar. Bran o olhou nos olhos, com uma sinceridade incontestável brilhando em seu rosto.
—Que a Mãe me proteja e o Pai me Perdoe. Que ambos continuem olhando por Robb, que a Velha dê a ele sabedoria, que a Donzela o ajude a continuar amando, que o Ferreiro faça sua espada forte, que o Guerreiro o proteja em batalha e que o Estranho fique longe dele. E que os Novos Deuses e os Antigos protejam o meu neto. Saiba que não há rancor. Eu entendo o que você faz e agradeço por sua coragem. Espero que Robb também entenda. Seja forte. – Recitou Bran e Robb engoliu em seco – Os últimos pensamentos dela foram praticamente todos sobre você. – Disse Bran – Mas a Velha não lhe deu sabedoria, a Mãe não a protegeu. O Guerreiro não pode impedir que caísse numa armadilha e o Estranho te abraçou. E nem os Novos nem os Antigos deuses puderam fazer algo por Ned. – Bran baixou os olhos – Ninguém merece morrer como ele morreu. Eu não tive estômago para assistir. – Lamentou Bran e Robb sentiu um nó na garganta ao ouvir tudo aquilo.
—Bran, acalme-se. – Ralhou Theon, atormentado com as palavras de Bran.
—Há mais para contar, Robb. Mas não é o momento. Só digo que sinto pelo que aconteceu a você, a ela e ao filho de vocês. – Explicou Bran e Robb sentiu-se muito distante da felicidade que sentira momentos atrás. Jurou ouvir um som de choro de um bebê e ficar ali lhe pareceu impossível.
Se retirou do quarto, apesar de Theon lhe chamar. Subiu escadas e dirigiu-se até uma janela. O vento frio lambeu seus cabelos e Robb mirou a vista. O seu norte. Sua terra. Ned jamais apreciaria as árvores da Mata de Lobos, nem poderia caçar com primos e amigos. Não nadaria no fosso de Winterfell e nem conheceria o sabor dos lábios de uma donzela. Mas tinha esperança de que o filho que Shiera agora carregava em seu ventre poderia fazer tudo isso e muito mais.
Fechou os olhos desejando ao menos poder vê-lo nascer. Desejando que a chama que o mantinha vivo, como num milagre, ainda ardesse por tempo suficiente. Abriu os olhos e se perguntou se era tempo de procurar Melisandre. Sabia que escutaria dela palavras duras e difíceis. Mas ele não estava disposto. Não ainda. Ainda haveria de ter tempo para um último banquete. Tempo para amar Shiera uma última vez.
Tempo para se despedir.
—O Inverno chegou...
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