Blackfyre

73 Fantasmas do Passado


Notas iniciais
Olá, minhas lindezas! Quanto tempo! E então... Prontos pra conhecerem mais o Humfrey e o passado dele com a Shiera? Espero que sim! Aqui vai!!! Beijos e... #PartiuLer

Fantasmas do Passado

Harrenhal era um castelo enorme. O maior castelo do continente, com uma grande quantidade de quartos, cada um maior que o anterior. Muitos diziam que seu pai tinha vendido a alma para demônios, para que eles terminassem de construir cada pedaço que estava quebrado, mas a verdade é que o castelo ainda não estava pronto. Sempre havia algo para ser consertado, construído ou reformado.

Mas ainda assim, ela amava cada pedra, cada lareira, cada árvore. Tudo. Andava como uma princesa, sendo seguida por suas damas de companhia. Walda e Talisa, suas melhores amigas. Uma vida perfeita, cheia de brincadeiras. Recheada com flores no café da manhã, tecidas numa grinalda em seus cabelos. Adoçada com caçadas junto de Aegon e de aventuras infinitas com Valerion, dentro da biblioteca.

As paredes do castelo só se tornaram assustadoras depois daquela festa de comemoração pelo dia do nome da senhora Rohanne de Volantis, a Senhora daquele castelo. Lorde Walder Frey estava contando como aquele castelo era amaldiçoado, mas Aegon não acreditou. Valerion sugeriu que muitos desastres aconteceram ali e Shiera fingiu que tinha a coragem do irmão mais velho.

Mas Lorde Walder Frey contou sobre cada senhor daquele castelo, desde que Harren morrera, pelo fogo do dragão de Aegon, o Conquistador. O primeiro alvo a cair pela maldição de Harren Negro fora a Casa Harroway. Tornados senhores de Harrenhal no reinado de Aenys I, Lorde Lucas Harroway viu sua filha se casar com Maegor, o Cruel. Mas Maegor o matou, assim como toda sua linhagem.

Depois a Casa Towers conquistou o castelo, apesar de o líder da família, Sor Walter Towers, não tenha resistido muito depois de alcançar o feito. Apenas duas gerações foram necessárias para que a Casa deixasse de existir, pois o último Towers morreu sem deixar herdeiros.

A Casa Strong veio em seguida e regeu o castelo até a Dança. E por mais que tenham sobrevivido à Dança dos Dragões, não o fez diante do Julgamento do Lobo, quando um Stark se tornou regente do castelo e condenou todos os traidores e criminosos da guerra, antes de abdicar ao título e voltar para o Norte.

A Casa Lothston veio em seguida. Harrenhal foi um presente do rei Aegon III. Mas eles não duraram no castelo, pois uma senhora Danelle Lothston se voltou para as artes negras e mergulhou a linhagem na loucura e no caos, durante o reinado de Maekar I.

Então veio a Casa Whent. Eles regeram o castelo, até que seu pai o reivindicasse. Mas a tragédia marcou a história da Casa, com mortes prematuras, incêndios e doenças.

E Shiera e Valerion ficaram com tanto medo que quase não puderam suportar. Aegon, se ficou assustado, não demonstrou. E quando a Senhora Rohanne foi colocar seu par de gêmeos para dormir, as crianças confessaram seu temor. De morrerem pela maldição de Harren o Negro.

—Não há motivos para se preocuparem. Vocês são descendentes de Aegon, o Conquistador. Ele derrotou Harren e não há como a maldição deles tocar qualquer um de vocês. – Garantiu a bela dama de Volantis, acalmando os corações de seus rebentos.

E os dias após aquele se passaram divertidos, com os três jovens Blackfyre indo brincar de caçar fantasmas pelos corredores do castelo. Chegaram a ouvir correntes e escutar lamentos pelos corredores. Uma vez Aegon jurou ter visto o fantasma do próprio Harren, mas Valerion o acusou de estar mentindo. Brincadeiras intercaladas de risadas, cavalgadas, passeios... Sempre com flores enfeitando suas tranças.

Mas um dia as flores pararam de enfeitar seus cabelos, porque, infelizmente, Lady Rohanne não era descendente de Aegon. Os ovos de dragão não a protegeram, nem os remédios de ervas, nem orações em septos ou em bosques.

E o castelo de Harrenhal, sempre tão encantador e mágico... Cheio de bardos, músicas, banquetes... Mudou.

O castelo agora estava em luto. Em silêncio. Agora, mais do que nunca, ele parecia o castelo amaldiçoado das histórias. Lady Rohanne fora cremada, suas cinzas foram colocadas num jarro de prata. Seus três filhos choraram e seu marido lamentou ser deixado para trás.

E naquela noite, Aegon e Haegon foram escutados numa briga que parecia guiar a um duelo de espadas. Mas não houve mais sangue, em respeito ao luto pela senhora de Volantis.

Lorde Haegon se preparou para viajar a Essos, para deixar as cinzas da esposa em sua terra de origem. Aegon ficou responsável pelo castelo e Shiera imaginou que esse talvez fosse um dos motivos da briga dele com o pai. Mas logo notou que as aias arrumavam suas coisas e as de Valerion. Arrumavam suas roupas e jóias, assim como vestidos de corte e simples. Walda chorou quando lhe avisaram que teria que voltar para as Gêmeas. Talisa reclamou que ficaria em Harrenhal. Aegon ficaria para trás e Shiera sentiu medo. Valerion a acalentou, falando que provavelmente ela finalmente iria visitar o avô, em Volantis, e essa esperança foi tudo o que a impediu de mergulhar em pranto.

Os navios velejaram pelo profundo rio que levava para o mar. Ancoraram depois de um dia de viagem na cidade vermelha de Porto Real.

Shiera logo constatou que era um local horrível, sujo e fedorento. Shiera vinha num trote lento, logo atrás do irmão, temendo os olhares imundos dos camponeses que os viam passar. Seu pai não lhe dirigiu nenhuma explicação. Logo conheceu a família real. A Rainha era uma mulher linda e tinha três filhos, dois deles em idades de se tornarem seus amigos. O mais novo era muito moleque para ela. O rei era um homem barulhento e roliço, muito chegado a bebidas e mulheres.

Ficaram em Porto Real por dois dias e tudo o que ela queria era partir para Volantis logo.

Mas não foi o que aconteceu. Quando seu pai e Valerion foram para os barcos, ela ficara para trás, chorando em uma torre, observando os navios se afastarem e sumirem no horizonte. Só, abandonada. Infeliz.

Nos primeiros dias, só queria chorar. Não queria ver ninguém, mas a Rainha insistia em vê-la. Shiera tentava não chorar perto dela, por mais que Cersei lhe lançasse olhares gentis.

—Eu também perdi minha mãe quando tinha a idade próxima a sua. Eu entendo a sua dor, minha pequena pombinha. – murmurava ela – Eu sei como sofre. Somos parecidas, eu e você. – Mas Shiera não via como poderia ser parecida com ela e a olhou de maneira que ficasse claro que discordava. Mas a Rainha não ficou zangada. Ela sorriu e lhe apertou a bochecha – Não aqui. – disse apontando para seu rosto. – Aqui. – Explicou ela apontando para seu coração.

Porto Real era um lugar infeliz, mas havia coisas interessantes. Rei Robert adorava eventos, banquetes e justas. E Septã Venira, que era sua única companhia desde Harrenhal, fazia questão que estivesse sempre muito bem apresentável nesses eventos. No início achara Joffrey, o herdeiro do trono, um rapaz muito galante e educado. Mas o tempo ensinara que ele era falso e absolutamente cruel. O evitava sempre que conseguia, pois sabia que Cersei, por mais que fosse gentil, jamais tomaria partido dela contra o próprio filho. Myrcella era um doce, mas era mimada demais, manhosa demais. E Tommem era como ela. E Shiera sentia-se presa naquele lugar, cheio de pessoas vazias, com conversas vazias.

Os banquetes não eram capazes de preencher seu coração e ela passava a maior parte do tempo no que deveria ter sido um bosque sagrado, tempos atrás. Havia um tronco cortado de Represeiro e era ali que ela rezava para seus deuses, implorando que viessem buscá-la dali.

Os dias se arrastavam infelizes e ela sempre buscava ficar sozinha, para chorar em paz. Só queria voltar para casa. Chegou a cogitar roubar um cavalo e tentar voltar sozinha para Harrenhal. Seria simples. Precisava apenas seguir o rio.

Então acordou numa madrugada, fugiu de seu quarto, deixando Septã Venira a roncar sozinha. Vestiu uma capa e foi até os estábulos. Roubaria um cavalo qualquer e fugiria. Seu pai que pagasse o prejuízo depois. Era culpa dele por deixá-la sozinha naquele lugar horrível.

Tentou selar um cavalo, mas logo decidiu que o montaria sem sela. Não teria força para selar direito e poderia cair durante o galope. Estava procurando um lugar para se apoiar e subir, pois o cavalo era alto demais, quando sentiu alguém lhe segurar o pulso. Um rapaz alto e magricelo. Ele a observou pela luz de uma lamparina, seu rosto tão iluminado quanto o dela. Desvencilhou-se e correu dele. O escutou gritar um “espere”, mas não parou de correr até estar de volta em seu quarto. Bufou, enfurecida e o roncar de Septã Venira a irritou ainda mais profundamente.

No dia seguinte estava sentada na relva, escutando Venira recitar versos do livro sagrado dos Sete, por mais que Shiera fosse fiel aos Antigos Deuses. Vez ou outra lançava um olhar distraído para os jardins, onde cavaleiros e cavalariços treinavam. Suspirou, mergulhada em tédio e desejou ter conseguido fugir na noite anterior. Arrancou algumas gramas sentindo-se infeliz e teve vontade de levantar e procurar um lugar para chorar. Mas estava cansada de chorar. Decidiu que iria tentar achar ao menos uma coisa boa em Porto Real. Algo realmente bom. E iria se prender a esse algo com todas as forças. Pensou, claro, na Rainha e em Myrcella. Elas foram as melhores coisas que obtivera até ali, naquele mês em que se vira enclausurada naquele lugar afastado de sua casa, de seus deuses, de seus parentes.

—Um dia tão bonito para um serzinho tão triste. – Disse uma voz. Shiera levantou o olhar e sentiu um frio lhe subir a espinha. Um rapaz. Um rapaz esbelto e magro, com os cabelos num castanho escuro e com olhos da cor do mar de ressaca. Um sorriso travesso estava no rosto dele e ele se sentou entre ela e a Septã, numa total falta de educação – Tome. Para alegrar seu dia. – Disse ele lhe entregando uma grinalda de lavanda – Sei que não é grande coisa, mas... – Ele deu de ombros enquanto ela pegava a grinalda – Sou Humfrey. Humfrey Hightower. Sou escudeiro de Willas Tyrel, herdeiro de Highgarden. – Explicou ele – Qual o seu carma?

—Meu... carma? – Perguntou ela, confusa e Septã Venira olhou o jovem com um olhar cheio de censura, mas para sua surpresa, nada fez. Jurou que ela iria acertar a cabeça dele com a mão, como ela fizera com Walder Negro, meses atrás, quando ele interrompeu sua monótona leitura. Mas a mulher nada fez além de dirigir um olhar zangado ao rapaz.

—Como te chamam? – Ele a olhou nos olhos – Não, espere, não diga. – Ele a olhou aproximando mais o rosto, sem respeitar pudor algum. Shiera corou, pois os únicos garotos que já estiveram tão próximos assim foram Valerion e Aegon.

—Jovenzinho! – Ralhou Venira, perdendo finalmente a paciência. Mas ela não o estapeou.

—Blackfyre. Você é uma Blackfyre. – Disse ele e Shiera sorriu brevemente.

—Como adivinhou? – Perguntou surpresa.

—Ora. Com um rosto tão lindo, não poderia ser alguém sem sangue Valiriano. – Riu ele e Shiera corou novamente – Não fique longe de sua septã. Porto Real é um lugar perigoso, cheio de homens sem escrúpulos. Nunca se sabe quando um deles pode guiar você a força a um estábulo, não é mesmo?

Não entendeu a totalidade da malícia daquela frase, mas assim que ele a pronunciou, teve certeza de que já o tinha visto antes. Ele era o rapaz da noite anterior. Ele se levantou e fez uma mesura cortês e se virou para ir embora, sem cumprimentar Septã Venira.

**

Humfrey Hightower era o caçula de uma família de muitos irmãos. E ele era o quarto filho homem de Lorde Hightower e o oitavo filho no total, o que significava que ninguém esperava muita coisa dele, apesar de, ao mesmo tempo, exigirem muita coisa dele.

O pai esperava que um dia ele entrasse para a Guarda Real, sem saber o que poderia fazer com um quarto filho.

—O tio dele foi Comandante da Guarda Real, sabe? – Perguntou ele. Shiera concordou enquanto conversavam sob o olhar atento de Venira, durante um banquete – Eu tinha pouco mais de um ano quando ele morreu. Então não faço a menor ideia de como ele era, mas todo mundo que o conheceu diz que eu me pareço com ele. Mas acho que é só porque eu sou muito alto. – Resmungou ele.

—Precisa ser um grande espadachim pra se tornar membro da Guarda Real. Meu irmão também quer entrar. – Disse com saudades de Aegon.

—Ele pode ficar com a vaga. – Resmungou Hunfy, retirando um cacho de uvas do bolso e lhe oferecendo algumas – Eu antes preferiria me tornar um Meister. – Garantiu ele – Eu até estudei como acólito durante um tempo. Minha mãe queria muito que eu virasse um Meister. Tenho três irmãos mais velhos para levar Hightower caso eu não possa deixar herdeiros. Mas todos os três já são casados ou prometidos, então a missão de vestir o branco caiu sobre mim. – Lamentou ele. Shiera bufou e desviou o olhar.

—Sei como é... não poder fazer o que quer. Ter suas vontades negligenciadas por aqueles que deveriam nos escutar.

Humfrey deu de ombros, mastigando sua uva e a olhou travesso. Shiera sorriu, esperando algum plano.

—Venira parou para conversar com o Alto Septão. – Riu ele se levantando devagar. Shiera o imitou, segurando as saias. Logo estavam correndo para longe dela. O sol começava a se por quando ele terminou de selar seu cavalo e os dois trotaram até os muros da cidade, quase atropelando meio mundo de gente. Suas gargalhadas tomaram as ruas, enquanto apostavam corridas. O ultrapassou no último momento e logo se viram cercados por guardas da Patrulha dourada – Oh-Oh...

—Corra! – Gritou alegre e logo estavam a galope, tentando fugir, mas minutos depois estavam de volta ao castelo, onde escutaram muitos gritarem o quanto eram irresponsáveis. E aquilo aconteceria ainda muitas vezes.

**

Sor Willas montou seu cavalo com a ajuda de Humfrey. Ele a olhou e acenou. Shiera acenou de volta.

—Não gosto desse garoto. – Ralhou Septã Venira.

—Claro que não. Você parece ter alergias a frutos do mar tanto quanto a diversão. – Disse sem deixar seu sorriso morrer.

—Shiera. – A Septã engoliu em seco e Shiera a olhou curiosa – Uma donzela não deve cultivar a amizade de rapazes.

—Qual o problema? Sempre fui amiga dos meus irmãos e eles sempre foram amigos das minhas amigas. – Disse sem entender.

—Bem, não é apropriado. – Abriu a boca para falar, mas a Septã não permitiu – Quando for o tempo, contarei o motivo. Mas ainda está muito jovem para saber. – Disse ela.

Shiera olhou para Humfrey, que estava puxando assunto com uma vendedora de maçãs, que sorriu com alguma coisa que ele lhe disse.

—O que sua septã quer dizer... – Disse uma voz sentada um degrau acima do seu. Shiera se virou e viu o Mestre da Moeda, Sor Petyr Baelish, que estava sentado ao lado dos Arryn – É que muitas vezes donzelas se deixam levar por romances com rapazes.

—Oh. Petyr! – Ralhou a senhora Arryn, abrindo um leque para se abanar e esconder um sorrisinho. O marido dela apenas olhava quase desinteressadamente para Sor Willas, que galopava contra Boros Blount.

—Não vou ter um romance com Hunfy. Somos amigos e ele queria se tornar um Meister. – Disse zangada.

—Olhe direito, menina. – Disse Petyr e Shiera mirou seu amigo. Ele estava muito próximo da vendedora de maçãs e logo ele a beijou na mão, a olhando com intensidade. Shiera logo se deu conta que por mais que Humfrey tivesse interesse por conhecimento, principalmente com coisas relacionadas a história e a literatura, ele também tinha um grande interesse por garotas – Um quarto filho, te dando tanta atenção... Você sendo a única filha de Lorde Blackfyre... talvez ele se veja vivendo ao seu lado em Harrenhal.

Achou aquilo tolice, mas não podia negar que os olhares de Humfrey para garotas eram bastante constantes.

Para as aias, para as cozinheiras. Para damas de companhia, até mesmo para senhoras recém casadas. O via flertar com moças quando estavam a caminho das celebrações no septo. O via flertar com filhas de lordes e com filhas de pequenos senhores. Uma vez o viu assoviar para uma garota que viera trazer um vestido para a princesa Myrcella.

Um ano se passara desde que viraram amigos e Shiera viu que o rapaz partira mais de um coração. Mas com ela... com ela ele era diferente. A tratava como Aegon tratava seus colegas. Era como se nunca tivesse notado que ela era uma menina, apesar de algumas vezes perder a conta da etiqueta e acabasse falando perto demais de seu rosto.

Estavam, certo dia, na véspera da comemoração do seu décimo primeiro dia de seu nome, treinando com o arco. Era muito melhor do que ele, apesar disso não fazer com que ele fosse realmente ruim.

—E então Alla Tyrell corou quando eu contei uma piada suja para ela envolvendo meu sobrenome. – Disse ele. Ele tinha deixado Porto Real por uns meses, voltando para Highgarden, acompanhando Willas Tyrell. Porto Real ficara terrivelmente enfadonha sem ele.

—O que você disse para ela? – Perguntou curiosa, mas ele sorriu e negou com a cabeça.

—Não é algo que se fale para uma menina. Quando você crescer, talvez eu te conte. – Garantiu ele. Shiera bufou e o empurrou, fazendo com que ele errasse feio o alvo. A flecha fincou numa carroça e os dois fizeram careta – Ei, garotinha. Não faça isso. Eu poderia ter acertado alguém.

—Ninguém mandou ter a mira de um cego. – Resmungou e ele gargalhou.

—Adoro esse seu humor flutuante. Já começou a sangrar por sua fruta? – Perguntou ele e Shiera corou de leve.

—Que pergunta! Você é um bárbaro! – Ralhou se virando.

—Não deve estar longe. Com essas suas mudanças de humor. – ele começou a segui-la e Shiera cruzou os braços – Céus. Teremos um dragão aqui em Porto Real novamente, a cuspir fogo pelas narinas? – perguntou ele e Shiera bufou, jogando o arco no chão e correndo para longe dele. Cheio de segredos e de deboche. Odiava ter sentido a falta dele. E odiava o fato de que ele viera de Highgarden apenas para a comemoração do dia de seu nome. Aegon prometeu que viria, assim como Valerion. Só desejava que viessem mesmo, pois não daria atenção ao idiota do Humfrey. Ele passara metade do dia falando de suas ultrajantes aventuras.

Foi tomar um banho e depois foi almoçar com a família real a convite de Myrcella. Mas o rei estava caçando e Joffrey não quis ficar muito tempo, pois queria praticar espadas. Tommem estava sonolento depois da refeição e Myrcella o acompanhou até o quarto, fazendo com que ficasse a sós com a rainha.

—Soube que seu amigo voltou. – Disse Cersei, bebendo vinho. Shiera concordou com um aceno de cabeça, mas logo bufou.

—Ele voltou um idiota.

—Ele está naquela idade em que os homens só pensam em uma coisa. – Disse Cersei e Shiera a olhou curiosa. Ela suspirou e colocou a taça sobre a mesa – Sua Septã está te ensinando as coisas importantes?

—Sempre estudamos o livro...

—Eu disse as coisas importantes. – Cortou Cersei, para em seguida revirar os olhos – Claro que não está. Septãs nunca ensinam o que deveriam. Pois saiba, Shiera, que se quiser, poderá ter aquele rapaz da maneira como desejar.

—Eu só o quero longe de mim. Ele é irritante. – Resmungou e Cersei deu um sorrisinho.

—Sua flor já sangrou, minha pombinha? – Perguntou a rainha e Shiera corou – Não há motivo para vergonha e embaraço. Comigo aconteceu quanto eu tinha treze anos. – Disse ela – Você vai completar onze... ainda está cedo para sangrar... Não é?

—Ainda não sangrei. – Disse amuada por perguntarem isso duas vezes no mesmo dia.

—Pois saiba que isso que tem entre as pernas será sua maior arma contra os homens. – Riu Cersei e Shiera a olhou sem entender – Pois chega um momento em que tudo o que eles querem, é isso. E quanto mais difícil parece que é conseguir, mais sedentos eles ficam. E se souber utilizar com jeito, terá todos aos seus pés.

Duvidava um pouco daquilo, afinal, se fosse como ela dizia, Robert não seria um grande porco, devasso e bêbado.

Depois do almoço, voltou para seu quarto, onde Venira a esperava, para ajudá-la nos estudos. Estudou com ela durante boa parte da tarde. Quando o sol estava para se por, Venira a convidou para assistir o por do sol, mas se recusou. Resolveu ficar na cama, lendo poemas e canções, sentindo saudades de casa. Fechou os olhos e sonhou com aquele rosto que sempre via em seus sonhos. Um garoto com olhos de tempestade e cabelos negros.

Acordou então com onze anos, mas desejando muito estar num lugar cheio de neve. Era onde seu garoto de sonhos estava.

—Ele é do Norte. – Disse fechando os olhos e respirando profundamente.

**

—Sonhos proféticos? É... Não seria a primeira pessoa na história. – Disse Humfrey, mirando os navios no porto – Com o que sonha? – Perguntou ele descascando uma maçã.

—Com um rapaz. – Disse sorridente. Humfrey a olhou com troça – Com o homem com quem irei me casar! – Adicionou sonhadoramente.

—E eu perdendo o meu tempo te levando a sério. – Resmungou ele e Shiera pegou a casca da maçã, para comer. Adorava cascas de maçã.

—Falo sério. Ele será um grande líder, numa guerra.

—Guerra? – Perguntou ele, interessado – Contra quem?

—Não tenho certeza. Vejo rostos de gelo, com olhos azuis e cheiro de morte.

—Como pode saber o que é cheiro de morte. Já viu alguém morrer, por um acaso? – Perguntou ele, com divertimento.

—E você já, por um acaso? – Perguntou cruzando os braços.

—Já. Faz alguns meses, quando estava em Old Town. – Respondeu ele – Era aniversário de Garth, meu irmão. Fomos caçar para o banquete da comemoração do dia do nome dele e encontramos um leão da planície. Ele matou um dos nossos homens antes que pudéssemos evitar. – Hunfy a olhou parecendo um pouco afetado – Sabia que as pessoas se borram quando morrem? Não é nada digno. O cara não morreu na hora, mas sabíamos que não conseguiríamos levá-lo de volta vivo. Ele estava tentando falar suas últimas palavras, com o sangue escorrendo por um talho feio em seu pescoço. E então soltou um peido tão alto que provavelmente assustou todos os pássaros que tinham por ali. Acho que nunca precisei fazer tanto esforço para não rir em toda minha vida, já que todos fingiam que o peido não tinha acontecido.

Shiera caiu na gargalhada e Humfrey fez o mesmo.

—Você precisa mesmo ir amanhã? – Perguntou Shiera. Humfrey suspirou e cortou um pedaço da maçã para si mesmo.

—Sim. Mas voltarei assim que puder, prometo. – Garantiu ele – Tente não fazer nada que eu não faria se não estivéssemos juntos para aprontar.

—Você apronta um monte de coisa sem mim. Acho que lhe devo o mesmo.

—Não diga isso. – Riu ele – Se você for aprontar as coisas que apronto... Dirão que eu sou uma péssima influência.

—Você É uma péssima influência, Hunfy. – Devolveu e Humfrey sorriu.

—Eu sei. – Disse ele – Mas essa péssima influência voltará antes do dia do teu nome com uma preciosa surpresa. – Garantiu ele e Shiera o olhou curiosa.

—O que?

—Ah... não seria surpresa se eu contasse. – disse ele lhe oferecendo mais um pedaço de casca e Shiera sorriu a pegando para provar.

**

Faltavam três dias para o décimo segundo dia de seu nome. Não haveria comemoração nesse ano. Nada mais que um simples jantar, afinal, seu pai não aparecera nos últimos dois e a família real resolveu por não fazer nada, já que não havia notícia de Lorde Haegon. Já sussurravam por aí que ele estava morto, mas Shiera sabia que sentiria caso o pai morresse.

Valerion estava em Porto Real, já que Stannis viera ajudar Jon Arryn a resolver um problema qualquer. Mas, por mais que desfrutasse da companhia do irmão, desejava que o anoitecer chegasse logo. Humfrey disse que deveria encontrá-lo depois do anoitecer, no lugar onde se conheceram. Estava com a carta dele em mãos. Viera de um garotinho, assustado, que carregava uma bolsa cheia de moedas, provavelmente dadas por Humfrey.

Se despediu do irmão e foi para o quarto. Fingiu estar exausta e se deitou, como se nada mais desejasse além de dormir. Logo os roncos de Septã Venira tomaram o quarto. Então pegou a capa e saiu na surdina. Desceu as escadas, até o estábulo e lá viu um homem encapuzado. Ele se virou e sorriu, tirando o capuz.

—Humfrey! – Disse animada, correndo até ele. Humfrey a abraçou apertado e sorriu para ela.

—Vamos. Suba no cavalo! – Disse ele.

—Onde iremos? – Perguntou surpresa.

—Apenas me siga. – Respondeu ele – Mas se prepare para se meter na maior das encrencas. – Garantiu ele e Shiera sentiu o corpo vibrar. Montaram e cavalgaram até os muros da cidade, onde Humfrey subornou um guarda para que fingisse estar dormindo. Depois galoparam até um rio e por minutos sem fim, por toda a sua margem. Fazia uma noite fresca, sem nuvens. O céu estrelado e a lua cheia eram tudo que iluminava o caminho. Logo emparelhou com o amigo e ele sorriu divertido.

—Estamos fugindo? – Perguntou animada.

—Estamos indo para sua casa. – Respondeu ele e Shiera achou que seu coração explodiria – Yah! – Gritou ele instigando o cavalo e ela o imitou. Cavalgaram durante toda a noite e pararam brevemente para ver o nascer do sol, enquanto bebiam groselha e comiam um pouco de carne seca salgada – Não podemos demorar, ou vão nos alcançar e eu serei estrangulado antes de estar sob a proteção de seu irmão. – Riu ele e logo estavam mais uma vez cavalgando.

Chegaram a Harrenhal um dia e meio depois de deixarem Porto Real. Ver os muros altos do castelo aqueceram seu coração. Cavalgou para dentro e logo algumas pessoas começaram a reconhecê-la. Pediu por Aegon e logo ele apareceu, para abraçá-la e mirá-la, sem parecer acreditar que a estava vendo. Fazia quase um ano que não via seu irmão mais velho.

—Como veio parar aqui? – Perguntou ele. Shiera olhou para trás, para Humfrey, que fez uma referência bastante cortês. Apenas seu sorriso era debochado – Eu lembro de você. – Riu Aegon e Humfrey se aproximou com um sorriso muito satisfeito. Uma barba rala crescia em seu rosto. Seu nariz fino e seu sorriso debochado formavam traços bem feitos e harmoniosos em seu rosto. Além disso, os braços dele começavam a ganhar forma, combinando com os ombros largos que ele tinha – São quase dois dias a cavalo, se tiver pressa, para sair de Porto Real e chegar aqui. Vocês passaram todo esse tempo sozinhos?

E Shiera corou entendendo a preocupação do irmão. Poderiam contestar sua honra por aquele disparate.

—Eu, Shiera e os Deuses, a quem sou obediente. – Disse Humfrey, de maneira humilde. Mas Shiera sabia que, de todos os Hightower de Oldtown, Humfrey era o menos chegado aos deuses. Ele era quase um cético. Aegon o olhou feio e Shiera temeu pela vida do amigo – Claro que todos saberão que eu apenas o auxiliei a tirá-la da cidade e que foi você quem a tirou de Porto Real. Eu e Shiera não ficamos sozinhos a tempo de fazer o que quer que fosse. – Garantiu ele e Aegon a olhou muito efusivamente.

—Aegon, Humfrey não tocou um dedo que fosse em mim. – Disse honestamente e Aegon suspirou – Algumas vezes acho que ele nunca se deu conta de que sou uma garota. – Pontuou e Humfrey revirou os olhos.

—Claro que sei que é uma garota. Uma muito pequena e inocente. – debochou ele.

Aegon os mandou entrar e lhes ofereceu comida de verdade. Até colocou Humfrey em um quarto bem confortável. Depois mandou uma carta, contando como ele tinha ido buscar Shiera em segredo, para que comemorassem o décimo segundo dia de seu nome.

Mais uma vez havia bardos, banquetes e festas em Harrenhal. Até mesmo um urso que dançava em uma bola apareceu para um espetáculo. E ela notou os olhares de Humfrey para o decote de Talisa, que sorria constrangida para ele. Os seios dela já estavam redondos e muito visíveis, enquanto Shiera ainda se sentia reta como uma espada.

E depois da festa, quando todos dormiam, sentiu Talisa sair de sua cama. A seguiu em silêncio e notou que ela entrou no quarto onde Humfrey dormia. Revirando os olhos pela luxúria dos dois, resolveu dormir, mas não conseguiu. Então se levantou novamente e desceu até os estábulos. Pegou um cavalo e, contra todo o bom senso, galopou até o lago. Pegou um barco e remou até a Ilha das Faces. Lá, se enrolou na própria capa e foi dormir.

Sonhou com seu rapaz de sonhos. Ele liderava um exército de soldados para enfrentar monstros. Depois sonhou que estava em frente a ele, em um represeiro. Sonhou que fechava os olhos e recebia dele um beijo doce. Sonhou todo o tipo de coisas que mocinhas tolinhas sonham e quando acordou, desejou poder encontrá-lo logo. Ele seria um herói. Um guerreiro. Um líder. E ela seria sua esposa um dia.

Mas para isso, precisava estar à altura. Cedo ou tarde ele surgiria em Porto Real. Então voltou para o castelo, onde todos já procuravam por ela. Agradeceu pela hospitalidade e pediu que Aegon lhe fizesse uma escolta para a capital, pois pretendia voltar.

Aegon pediu que ela permanecesse em Harrenhal, que era seu verdadeiro lar, mas ela o convenceu que ficaria em Porto Real até o dia em que o pai voltasse para buscá-la. Humfrey fez parte de sua comitiva e logo ela estava de volta.

Cersei quis saber como ela deixara a cidade e pediu para que não o fizesse de novo. Shiera concordou e apenas repetiu a história que Humfrey tinha ensaiado com Aegon.

Humfrey não poderia ficar muito mais tempo e logo se despediu dela, lhe deixando como presente uma grinalda de lavanda, além de um pouco de groselha. Bebeu até a última gota lá no bosque. Colocou a grinalda sobre o tronco do represeiro e jurou a si mesma que quando Humfrey voltasse para o décimo terceiro dia de seu nome, ele não a olharia como um garoto olha um outro garoto. Mas a olharia como um homem olhava uma mulher.

Pois se nunca conseguisse chamar a atenção de um mulherengo cafajeste como Humfrey Hightower, nunca seria capaz de conquistar o coração do Nortenho que via em seus sonhos.

E naquela noite seu sangue de lua desceu pela primeira vez.

**

Precisara trocar praticamente todo seu guarda roupa. Seu pai mandara roupas de Volantis e seus irmãos lhe compraram alguns vestidos. Outros, a própria rainha lhe concedera. Conversava muito com Cersei e via nela uma figura materna muito importante. Trocavam segredos e histórias. Cersei tinha muitas delas. Tentava aprender como ela controlava o marido e logo notou que ele não era mulherengo por nada. Era ela quem o manipulava para que ficasse longe de seu leito. Não havia amor entre eles e Shiera estava bem convencida de que a Rainha deveria ter algum amante, pelo menos.

Em algum momento sua Septã resolveu vir falar sobre sexo, mas achou muito estranho e terrível. Então, quando teve um momento com Cersei, pediu que ela lhe contasse, pois não gostava do modo como Venira contava as coisas.

—Parece mais um ritual estranho do que algo natural. – Disse para a rainha – Deve ser algo bom, não é? Caso contrário não teríamos tantas aias perguntando sobre meu irmão ou sobre Humfrey. – Disse revirando os olhos e Cersei concordou, lhe servindo vinho – Devo mesmo, Vossa Graça? – Perguntou, pois não era um costume beber. Humfrey sempre a alertara para não beber caso Valerion não estivesse presente, pois muitos já tinham notado que ela abandonava a infância.

—Claro que deve. Duas mulheres não conversam sobre isso sem beber. – Garantiu ela – Se sua mãe estivesse viva, faria o mesmo. E quando Myrcella tiver idade, terei com ela a mesma conversa que terei com você agora. – Garantiu Cersei. Shiera concordou com um aceno de cabeça – Sexo é uma arma. Pode ser usado por ambos os lados, mas é mais poderosa para nós do que pros homens. Existem alguns idiotas que dizem que apenas homens sentem desejos, mas não é verdade. Nós sentimos e muito. Algumas vezes passamos o dia inteiro pensando apenas nisso. Mas é importante saber que somos treinadas a achar sexo algo horrível, enquanto os homens são treinados para amar o ato. É como uma caça. Eles são os caçadores e nós, a caça. Mas a verdade é muito diferente disso. Somos nós quem caçamos e não se esqueça disso. Nós quem decidimos a que homem iremos entregar o que eles mais desejam. E apenas a promessa de cogitarmos é o suficiente para colocar muitos homens de joelhos. Alguns são fáceis de seduzir. Outros não.

—Mas como é? Como podemos... Digo... Parece algo tão... Pobre. – Shiera suspirou – E parece desconfortável também.

—Nas primeiras vezes, talvez. – Concordou Cersei – Mas depois, se fizer com a pessoa certa, te garanto que é satisfatório. E se essa pessoa conseguir te excitar o suficiente... – Ela se calou e a olhou com um olhar muito parecido com o de Humfrey – Nenhum vinho produzirá um calor igual, lhe garanto, minha pombinha.

**

Era o décimo terceiro dia de seu nome. Seu pai a olhava emocionado e lhe abraçou apertado, sem conseguir falar nada conexo. Ele tinha mandado uma quantidade de ouro para Porto Real, pedindo que lhe fizessem um jantar. Não era realmente uma grande festa. Apenas uma comemoração simples. Seu pai prometera que em breve a levaria para a casa, só havia mais umas coisas para resolver.

Estava sentada com Valerion, até que Joffrey a chamou para dançar. O odiava, mas não poderia negar uma dança ao príncipe herdeiro, por mais que não suportasse o sorriso terrível dele. Dançaram duas músicas, até que Sor Arys, da Guarda Real, pediu uma dança. E depois Renly Baratheon, que lhe fez corar de leve. Ele era o irmão do rei e era muito bonito, galante e charmoso. Depois veio Petyr Baelish, depois Sor Monford Velaryon. E então Humfrey.

Tocaram as mãos, girando de leve e ele deu uma risadinha.

—Você deveria ter visto. – Riu ele e ela girou no lugar, conduzida pela dança – Pycelle sugeriu que você seria uma adorável noiva para Joffrey. Conseguiu irritar Cersei, Robert e seu pai com o comentário.

—Cersei também? – Perguntou surpresa.

—Deveria ter visto a cara dela. Parecia que a tinham obrigado a comer esterco. – Garantiu ele enquanto dançavam – Me encontre hoje à noite, na escada que leva para a Arcada da Donzela. – Disse ele e ela concordou.

O banquete terminou e Shiera se recolheu aos seus aposentos. Fingiu estar mais do que adormecida, pois Venira estava realmente furiosa por suas escapadas. Quando a escutou roncar, esperou mais um tempo, sentindo um pouco de receio. Seu pai estava no castelo...

Mas Humfrey a esperava.

Colocou uma capa e saiu do quarto, com o coração na mão. O encontrou na arcada das donzelas, onde ele a esperava com um vestido nas mãos. Ele sorriu travesso e lhe entregou o vestido.

—Quer saber como se faz uma festa de verdade? – Perguntou ele e Shiera concordou – Então vista-se. – Disse ele desamarrando sua capa. Shiera a sentiu cair até o chão e se viu nas vestes de dormir – Vai precisar tirar esse vestido para colocar esse outro.

—Não uso nada por baixo desse vestido. – Disse se cobrindo com os braços e Humfrey lhe lançou um olhar faminto, do tipo que ele lançava para as mulheres que sorriam demais para ele – Colocarei esse vestido por cima. – Disse determinada e Humfrey sorriu como se não esperasse que fosse de outra maneira. Logo notou que o vestido era muito simples, do tipo que um camponês usaria ao ir comprar leite pela manhã. E isso fez sua mente voar ao cogitar as possibilidades daquela noite – Pra onde vamos? – Perguntou enquanto seguia Humfrey pelo castelo.

—Para a Rua das Sedas.

—Esse, definitivamente, não é um local apropriado para uma donzela. – Disse com a curiosidade ardendo, pois a Rua das Sedas era onde ficavam os maiores bordeis de Porto Real. Humfrey sorriu e a olhou como se a censurasse.

—Mas quanto preconceito com um local tão agradável.

—Agradável para alguém do seu tipo, claro. – Alfinetou e Humfrey nem se deu ao trabalho de negar.

Se esgueiraram até as cozinhas e Humfrey atravessou por uma passagem logo atrás de uma tapeçaria. Um túnel secreto, que levava a um córrego. Depois tiveram que escalar uma boa parte de pedras escorregadias e íngremes, mas não foi um problema realmente difícil. Logo chegaram numa ruela e Humfrey tirou a espada do cinto.

—Apenas uma precaução, minha senhora. – Disse ele com debochada cortesia ao notar seu olhar surpreso.

Porto Real era uma cidade suja e fedorenta, além de muito escura, durante a noite. Mas a Rua das Sedas parecia ser outro lugar. Era como se entrasse numa outra cidade, colorida, cheia de música, perfumes, mulheres e bebida. As risadas vindas de dentro dos estabelecimentos podiam ser escutadas da rua e as pessoas pareciam estupidamente felizes ali.

—Para onde estamos indo? – Perguntou curiosa e Humfrey lhe ofereceu o braço, apesar da outra mão ainda segurar a espada.

—Não poderia ousar estragar a surpresa, minha senhora. – Riu ele e Shiera o olhou feio. Entraram no que lhe pareceu uma taverna, onde as pessoas cantavam e bebiam. Era um lugar abafado, quente e relativamente pequeno. Humfrey pediu uma mesa e cerveja para os dois, para então mirar a banda. Não era exatamente uma banda, mas um monte de foliões que cantavam enquanto sacudiam suas canecas de ferro. Havia apenas um flautista, que estava absolutamente bêbado, e um homem com um alaúde. Era o único que parecia mais profissional, ou talvez fosse apenas porque estava fazendo pose para a filha do taberneiro – O que está achando?

—Interessante, no mínimo? – Perguntou ela enquanto os homens começaram a cantar uma música sobre um urso preto e marrom. A cerveja ainda não tinha chegado, mas Humfrey se levantou, tirando a capa e oferecendo a mão para ela.

—Uma dança?

—Eu realmente não saberia dançar isso. – Riu ela, mas ele não se importou e a puxou assim mesmo. Sentiu a mão dele enlaçar sua cintura de maneira muito abusada, a puxando para perto, mais perto do que jamais ficara de alguém. Humfrey sorriu e começou a pular e girar com ela, daquele jeito, e seus corpos ficavam cada vez mais próximos, se chocando de maneira irresponsável. Mas era absolutamente divertido, como tudo era com ele. A música então ficou um pouco mais lenta e ele fez uma pose formal, se afastando e sapateando no mesmo lugar, a olhando como se a desafiasse a imitá-lo. Shiera segurou as saias e as levantou de leve, o fazendo e os dois cruzaram os braços, gargalhando e girando, felizes. A música terminou e a cerveja chegou. Os dois se sentaram e Shiera sentiu que seus cabelos faziam uma cachoeira de cachos rebeldes e despenteados ao redor de sua cabeça – Oh, essa cerveja é horrível! – Lamentou fazendo careta e Humfrey brindou com ela, com aquele mesmo sorriso debochado.

—Que não sobre uma gota que seja! – Riu ele. Viraram a cerveja e acabou gargalhando ao engasgar. Humfrey riu de sua incapacidade para beber e pediu mais uma caneca, enquanto Shiera prestava atenção na próxima música. A Mulher do Dornês.

“A mulher do Dornês tão bela quanto o Sol

Com beijos quentes primaveris

E a espada do Dornês feita em negro metal

Cada beijo era uma cicatriz

A mulher do Dornês em seu banho cantava

Com voz suave, qual doce mel

E a espada do Dornês com sua própria canção

Mortal, como a de uma cascavel

Cercado por trevas, no chão estirado

Na boca o seu próprio sangue

E enquanto os seus companheiros rezavam

E sorrindo cantava exultante

Irmãos, os meus dias aqui se acabaram

O Dornês me derrotou de vez.

Mas pouco me importa, pois todos morremos

Comi a mulher do Dornês

Irmãos, os meus dias aqui se acabaram

O Dornês me derrotou de vez.

Mas pouco me importa, pois todos morremos

Comi a mulher do Dornês

—E se eu pudesse comia outra vez! – Adicionou Humfrey e todos gritaram em aprovação. Todos brindaram pelo verso que ele cantara e Shiera sentiu o amigo lhe fitar – Mais uma dança, minha senhora?

—Não. Mais uma cerveja. – Disse sorridente e Humfrey concordou.

E aquela noite foi recheada de cerveja e música e dança e muitas gargalhadas. Quando Humfrey insistiu em ir embora, Shiera quase não conseguia manter os pés firmes. Ele a carregou de leve enquanto os dois vagueavam pelas ruas de Porto Real. Ninguém tentou assaltá-los, mas muitos olhavam desconfiados e com olhos censuradores. Principalmente para ela.

—Até parece que nunca viram uma mulher que bebe. – Disse Shiera e Humfrey sorriu.

—Não uma tão jovem, é claro.

—Pois já sou uma mulher feita! – Disse o olhando, desafiando-o a contrariá-la. Humfrey deu uma risadinha debochada, mas ficou em silêncio – Sou sim!

—Não nego. – Disse ele como negasse sim.

—Pois saiba que já flori. Já posso até mesmo me casar, se meu pai assim desejar! – Disse tropeçando. Humfrey a segurou e a puxou de uma vez para que ela não caísse. Shiera se apoiou nele e os dois se olharam nos olhos. Suspirou e se aproximou mais, para beijá-lo, mas sentiu o rapaz afastá-la.

—Calma, mocinha. – Riu ele e Shiera pensou que nunca tinha se sentido tão idiota em toda a sua vida – Não que eu não queira. Mas vamos deixar para um dia em que você não esteja bêbada, ok? Ou então vai achar que eu sou um canalha aproveitador. – Explicou-se ele e ela finalmente abriu os olhos. Humfrey não tinha o sorriso debochado. Mas a olhava com muita gentileza, algo um tanto raro da parte dele. Respirou fundo se afastando e sentiu algo parecer pressionar a garganta.

—Podemos fingir que isso não aconteceu? – Perguntou ela.

—Certo. Eu tomo a iniciativa da próxima vez. – Disse voltando a ser debochado – Poderia parar de ser uma mandona pelo menos nesses momentos? – Perguntou ele e Shiera negou com a cabeça.

—Jamais perderei a majestade. – Disse empinando o nariz e se soltando dele, para avançar. Mas poucos passos depois, caiu na lama e ralando o cotovelo.

**

Shiera estava acompanhando a princesa Myrcella num passeio. Myrcella tagarelava sem parar sobre como Valerion era bonito e galante, como segurara a mão dela e como a puxara para dançar. Shiera queria que ela calasse a boca, pois Valerion apenas tinha obedecido as regras de cortesia. Até onde sabia ele estava se engraçando com uma bastarda de Dragonstone. Ou ele gostava muito de falar sobre todas as piadas que ela contava. Myrcella provavelmente não passara de uma obrigação de cortesia para ele.

Seu pai tinha saído para caçar e levado a maioria das pessoas interessantes, como o Rei, Sor Jaime e a maior parte da Guarda Real, Humfrey, Valerion, Stannis, Renly e etc. Então estava com Myrcella, apesar de estar com pouca paciência para os suspiros infantis dela sobre um romance ilusório da parte.

—Jure-me, Shiera. Jure por nossa amizade. Falará coisas boas de mim para teu irmão! – Pediu ela repentinamente e Sheira sorriu como se nada a agradasse mais do que falar aquelas asneiras.

—É claro, Vossa Graça. Nada me faria mais feliz do que ver meu irmão apaixonado por tão doce donzela. – Disse Shiera e Myrcella corou baixando os olhos.

—Não sou tão bonita.

—Claro que é. – Disse resistindo a um virar de olhos. A última coisa que queria era trabalhar a baixa alto-estima da princesa.

—Você é muito mais. Todos olham para você quando passa. Até Joffrey disse que você era muito bonita. – Disse Myrcella – E aquele rapaz, o Humfrey. Ele sempre te olha mais do que todos.

Shiera arqueou as sobrancelhas, lembrando-se de beijos escondidos nos labirintos de plantas do castelo, nas masmorras e em corredores vazios. Sabia que era apenas desejo da parte de ambos e não tinha a intenção de dar mais crédito que isso ao que tinham. Mas Myrcella a olhava como se tivesse revelado uma informação maravilhosa.

—Eu e Humfrey somos amigos.

—Uma amizade que pode virar uma promessa. Você pode se tornar esposa dele.

Shiera desviou o olhar e se perguntou se aquela hipótese faria com que Cersei voltasse a tratá-la como antigamente. Nos últimos meses ela apenas a tratava como se fosse algo extremamente inconveniente. Mas finalmente seu pai iria levá-la para casa. Eram seus últimos dias ali. Ficara quase cinco anos em Porto Real e fora mais do que o suficiente.

—Não me casarei com Humfrey. – Confidenciou a Myrcella.

—Por que? – Perguntou Myrcella – Ele é bem gentil e bonito. E é um Hightower. A família dele é bem importante.

—Ele é um quarto filho. – Resumiu Shiera dando de ombros – E meu coração já tem um dono. – Disse pensando em seu herói de sonhos. Cabelos negros e cacheados, com olhos de tempestade. Bravo e corajoso, liderando um exército.

—Quem? Oh, por favor, diga-me. – Pediu Myrcella encantada e Shiera sorriu como se estivesse com toda a paciência do mundo para aquela conversa.

—Perdoe-me, Vossa Graça, mas teria que matar-te caso lhe confidenciasse tal segredo. – Disse e Myrcella fez um beicinho que ela julgou extremamente infantil. Shiera suspirou e desviou o olhar, voltando a andar.

O dia seguiu tedioso e os homens só voltaram no entardecer seguinte. Humfrey e Valerion conversavam sobre qualquer coisa durante o jantar, mas os olhares verdejantes do jovem Hightower todo o tempo escorregavam para admirá-la. Shiera tinha se arrumado com mais atenção naquele dia. Usava um vestido negro que ganhara dele. A última moda da Campina. Havia um decote bem trabalhado na frente e outro absolutamente indiscreto atrás. Pequenos rubis incrustavam delicadas correntes de ouro em suas costas, o que era levemente desconfortável. Mas o vestido era indiscutivelmente bonito. Algumas vezes sentiu os olhares tanto de Joffrey quanto o do próprio rei para seu corpo, o que deixara seu pai visivelmente desconfortável.

—Mas que frutinha interessante que você tem aqui, Haegon! – Bradou Robert, com sua voz forte. Shiera o olhou, com se estivesse curiosa. Mas a verdade era que preferiria que o rei ficasse calado, que encerrasse o comentário ali. Não queria irritar ainda mais a rainha – Adoraria saber o sabor que tem. – Disse ele com malícia e Shiera escutou um bufar coletivo. Seu irmão, Stannis, seu pai e Humfrey pareciam completamente indignados. Fingiu alguma vergonha, pois era o que se esperava de uma mocinha na sua posição. Mas a situação apenas a deixava enojada – Pois você sabia que Aegon IV favoreciam homens que lhe dispusessem belas filhas? – Perguntou ele. Shiera suspirou insultada com aquilo e viu Humfrey enfiar um garfo num pedaço de carne com força demais. Achou aquilo estranho e olhou para o rosto dele. Ele parecia transtornado e mirava seu pai com expectativa.

—Bem, já fui favorecido o suficiente. – Disse Haegon – Mas confesso que Myrcella também me parece deliciosamente promissora, não é? – Perguntou seu pai com malícia e se virou para Myrcella – Diga-me, garotinha. Eu já contei sobre a vez que sequestrei a filha de um magíster de Pentos e a tive só pra mim durante quase um mês no meu navio?

—Tenha modos! – Exigiu Cersei se levantando. Haegon sorriu com desdém e olhou para ela e depois para Robert, que parecia deveras aborrecido.

—Não entendo o motivo de tanto alarde. Ambos estavam sorrindo quando as brincadeiras eram dirigidas à minha filha. – Disse seu pai friamente e tanto Robert quanto Myrcella coraram, constrangidos. Seu pai deu um belo gole no vinho e se levantou – Estou satisfeito. – disse ele indo até o seu lado e lhe oferecendo o braço – E você, meu amor? Ainda lhe resta algum apetite?

Shiera sorriu por tudo aquilo e negou com a cabeça, para se levantar e abraçar o braço do pai. Ele a levou para longe da mesa e caminhou até a janela.

—Obrigada, papai. – Murmurou e ele negou com a cabeça.

—Não fiz mais do que minha obrigação. – Disse a olhando – Sempre soube que passaria por essas coisas. Você é uma bela donzela. Mais de um olhar devorou seu corpo essa noite. – Disse ele visivelmente desconfortável.

—Deveria ter usado um vestido mais comportado, imagino. – Disse desviando o olhar.

—A culpa não é sua. Não há motivo para se esconder só porque os homens aqui agem de maneira selvagem. – Riu seu pai – Jamais te proibirei de usar qualquer vestido que seja. – Garantiu ele – Eu já estive nas Ilhas de Verão. Esse vestido ainda está comportado, creia-me. – riu ele e Shiera o olhou chocada, antes de rir – Diga-me, minha querida. O que pensa do jovem Hightower?

—Humfrey? – perguntou surpresa com a mudança de assunto – Bem... ele é um bom amigo.

—Sabe que ele está apaixonado por você, não sabe? – Perguntou ele e Shiera riu com pouco caso.

—Não. Ele no máximo quer se divertir às minhas custas. – Disse se lembrando de todas as vezes em que ele tentara ser mais ousado do que permitia, tentando subir os dedos por suas coxas, para alcançar sua fenda. Mas nunca permitia.

—Acredite em mim, Shiera. Eu sei reconhecer um cafajeste apaixonado quando vejo um. Eu fui um deles. – Riu seu pai olhando para a mesa. Shiera o imitou e capturou um olhar de Humfrey, que logo voltou a mirar Valerion. Shiera respirou fundo, chocada – Por isso eu pergunto... Quando ele vier me fazer uma proposta... O que devo dizer? Ele é de uma boa família e por ser um quarto filho, ficaria satisfeito em levar a vida em Harrenhal. Com Aegon ambicionando um lugar na Guarda Real, e com uma amizade com Valerion, ele se tornaria bem influente no castelo casando com você. É o que ele poderia desejar de melhor. E sinceramente... Eu gostei do garoto. Ele lembra a mim mesmo, quando eu tinha a idade dele.

Shiera mirou Humfrey de novo e pensou em seu rapaz de sonhos.

—Papai...

—Eu sei que sonha com um outro rapaz. Valerion me contou. – Disse seu pai e Shiera olhou feio para o irmão – Mas muito melhor que um homem de sonhos é um homem de carne e osso, apaixonado e disposto a cuidar de você pelo resto da vida. Em Harrenhal ou em Old Town. Pense nisso.

Shiera respirou fundo. Humfrey a olhou de novo e ela desviou o olhar.

—Estou mais do que convencida, papai. Humfrey não é o homem certo pra mim. Não desejo me casar com ele. – Disse decidida e seu pai suspirou, parecendo ligeiramente decepcionado.

—Bem... Prepare-se então para partir o coração do rapaz.

**

Era 297 Depois da Conquista.

Lorde Haegon convocara o reino para prestigiar sua filha, oferecendo prêmios fantásticos para a disputa de justas. Westeros compareceu em peso, de Dorne até o Norte.

Shiera estava em seu quarto, penteando os cabelos. Walda mirava a janela, encantada com tanta atividade. Mas Talissa estava deitada e enfada na cama.

—Não acredito que não podemos deixar o castelo. Olha só a música lá fora. – Lamentou ela e Shiera sorriu pegando o frasco de perfume para prová-lo. Um presente de Humfrey. Ele de tempos em tempos lhe enviava um frasco, para que não se esquecesse dele. Já não era mais um flerte velado. Não eram mais palavras sussurradas em segredos. Ele a cortejava para que todos vissem. Seus dois irmãos incentivavam o romance. Talisa também, alegando que ele era muito competente na arte de amar. Mas Shiera não o queria. Tinha um pressentimento. Ele viria. Seu verdadeiro amor. Seu homem feito de sonhos – Ah, Lorde Haegon é muito malvado quando quer. Faz essa festa toda e nos proíbe de aproveitar de verdade.

—Ele só está tentando nos proteger. Todos esses homens sem modos, bêbados... Pode ser perigoso para donzelas como nós. – Disse Walda.

—Como vocês, né, meu bem? – Perguntou Talisa ficando de joelhos – De donzela eu não tenho nem a fama.

—Claro que não. Você é... – Começou Walda, mas se calaram com um bater na porta. Shiera se virou e Talisa se levantou para ver quem era. Ela abriu a porta e Shiera prendeu a respiração.

—Humfrey. Sempre bom te ver. – Disse ela e Humfrey sorriu procurando Shiera com os olhos.

—Sempre maravilhoso ver vocês. – Garantiu ele, vestido numa armadura reluzente da cabeça aos pés – Shiera... me permitiria um momento?

Shiera concordou, se levantando e indo até ele. Talisa e Walda lançaram sorrisos e Shiera bateu a porta, silenciando-os. Humfrey sorriu e tentou lhe roubar um beijo, mas o impediu.

—Não, Humfrey. – Disse com firmeza, recebendo um olhar magoado da parte dele.

—Por que faz isso comigo? – Perguntou ele e Shiera suspirou – Shiera. – Ele respirou fundo – Eu finalmente fui consagrado cavaleiro. Poderia me conceder teu favor? Ganharei esse torneio em teu nome. – Disse ele de maneira estranhamente formal. Shiera o olhou nos olhos e suspirou.

—Humfrey. Desista. – Pediu se virando, para entrar novamente em seu quarto, mas ele a segurou no braço.

—Shiera. Eu amo você. – Disse ele.

—Você me vê como uma escada e nada mais do que isso, Humfrey. – Ralhou se desvencilhando dele.

—Pode ter começado assim, Shiera. Mas o que eu sinto é genuíno. – Disse ele e Shiera o olhou sentindo muito por aquele momento – Eu falo sério. Eu amo você.

—Mas eu não amo você, Humfrey. Eu pensei já ter deixado isso muito claro.

Ele baixou os olhos, parecendo magoado.

—Então não me concederá teu favor? – Perguntou ele. Shiera respondeu com um acenar de cabeça negativo e entrou novamente em seu quarto. Escutou Humfrey socar alguma coisa do outro lado da porta e logo escutou os passos a se afastarem. Talisa e Walda olharam para ela, com curiosidade e Shiera suspirou decidida a não voltar a trás.

—Vamos fugir. – Disse de uma vez. As duas a olharam, confusas – Vamos nos disfarçar e ir até as festas, nas tendas. Talisa, você pode usar um dos meus vestidos.

—Duvido que algum caiba em mim. – Disse ela apertando os próprios peitos.

—Faremos caber. – Disse Shiera.

—Oh, não, Shiera. Isso é uma péssima ideia. – Lamentou Walda – Podemos nos meter em encrenca!

—Eu espero que sim!

Levou algum tempo, mas logo tinha convencido Walda. Walda usava seu vestido, Shiera usava o de Talisa e Talisa usava o de Walda, já que Shiera era a que tinha menos seios das três. Deixaram o castelo, olhando para todos ao redor. Passaram pelos cavaleiros e lordes que não caíram na graça de Lorde Blackfyre e estavam acampados do lado de fora. Depois passaram pelos cavaleiros errantes e pelos comerciantes, onde tudo parecia muito mais agitado. Um grupo tocava uma música animada e os camponeses dançavam, batendo palmas. As donzelas brincavam, descalças e alguns homens bêbados as chamavam para dançar. Lembrou-se imediatamente de quando Humfrey a levou para aquela taverna, no dia de seu nome. Por um momento se perguntou se estava sendo sensata. Se não deveria aceitar ficar com aquele rapaz que sempre lhe fizera sorrir. Se valeria a pena esperar eternamente, por um homem que talvez nem existisse...

Talisa comprou um pouco de cerveja para as três e apenas Walda reclamou do gosto. Shiera suspirou, ouvindo a música e quando um homem veio mexer com ela, não lhe deu atenção e o dispensou. Sua cabeça não queria saber de romances. Ainda se perguntava se tinha cometido um erro.

Foi quando o viu se aproximar. Estava junto de dois rapazes. Os olhos dele tinham a cor das nuvens em uma tempestade. Os cabelos cacheados e negros. Um rosto de garoto e um olhar tímido. Mas definitivamente ele. Seu rapaz de sonhos. Sorriu animada, mirando sua cerveja. Não tinha sido um erro, afinal.

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Notas finais
Pois é... Se não fosse pelos sonhos com o Jon, Shiera estaria casada com esse patife (lindo) do Humfrey E então, o que acham dele? Ele está bem intencionado? Ele pretende se vingar? Ele só quer ver o circo pegar fogo? Ele deixou o passado para trás e quer ajudar a salvar o mundo? Façam suas apostas e... Enquanto isso... Prévias! "-Anos atrás um Meistre partiu para Hardhome, para estudar os costumes dos selvagens. Ele passou quatro anos vivendo com eles, até que uma rebelião matasse o líder que lhe garantira proteção. Parte do estudo do Meistre se perdeu quando os selvagens o mataram, mas nem tudo. Consegui por as mãos nesse manuscrito. – Humfrey veio se aproximando – Vocês não fazem a menor ideia do que estão para enfrentar. – Humfrey baixou a cabeça apertando o seu manto – Mas eu sei. Quero me candidatar para ir buscar essa espada." E agora?? Ehehehehe E temos mais "-Ou ele não é tão ruim quanto imaginamos, ou ele está apostando muito alto em alguma coisa. – Disse Sansa. Jon concordou – Você não estava na reunião de hoje. Shiera implorou que Robb permitisse que Humfrey fosse com vocês. Ela definitivamente confia nele e ele me deixou bem claro que os dois se conhecem muito bem. – Sansa suspirou e Jon franziu o cenho. O quão bem eles poderiam se conhecer? – Ele pediu a mão dela em casamento, anos atrás, mas o pai dela negou. Quando vocês foram para Harrenhal. – Disse Sansa enquanto ele a fazia girar no próprio eixo – Você se lembra dele?" Hehehehehe Espero que tenham gostado do capítulo. Comentem e recomendem! Até a próxima Titia ama vocês