Blackfyre

74 Abraçando o Passado


Notas iniciais
AAAAAAAH! OBRIGADA BABYDOLL! A fic ganhou mais uma recomendação!!! Fiquei tão feliz! Muito obrigada a todos que recomendaram! ♥ Desculpem a demora para postar. É que eu estou com milhões de projetos e de histórias. Com o tempo super apertado e talz! Mas obrigada a todos que continuam aí, firmemente apoiando a fic! Beijos pra todos. #PartiuLer

Abraçando o Passado

Winterfell estava cheia de vida, diferente da maior parte das lembranças que tinha dali. Shiera andou até a janela, mirando o corredor do septo. Escutava a festa que as pessoas faziam, mesmo através das grossas e pesadas paredes de pedra. Humfrey andava ao seu lado, taciturno e pensativo, completamente diferente de tudo o que ele costumava ser. Ainda mais num ambiente festivo, como o que estavam imersos. O castelo comemorava o retorno do rei. A campanha havia sido bem sucedida e agora a ferraria de Winterfell estaria ocupada por um bom tempo, trabalhando com todo o vidro de dragão que tinham minerado de Dragonstone.

Mirou Humfrey assim que entraram no septo. Não havia ninguém ali, mas houvera há pouco tempo, pois velas queimavam ainda praticamente inteiras ali. Shiera mirou a Donzela e fez uma reverência respeitosa, por ter conseguido se acertar com Robb. Aproveitou que Humfrey estava de joelhos em frente à Velha, para agradecer em silêncio por sua vida de casada, que voltava a normalidade.

Depois aproveitou para pedir à Mãe que protegesse seu filho. Que fosse um rapaz forte e saudável, como Ned fora, e que um dia viesse a reger Winterfell, com toda a prosperidade possível.

Quando terminou sua prece, se virou e notou que Humfrey a olhava desconfiado, estudando o que tinha acabado de notar. Shiera respirou fundo, erguendo a cabeça e ele murmurou como se falasse algo proibido.

—Você está grávida. – Disse ele. Não era uma pergunta, mas uma constatação. Concordou com um aceno de cabeça e ele engoliu em seco, desviando o olhar – Entendo. – Disse ele dando um sorriso que parecia ligeiramente zangado – Felicidades, Shiera.

—O que deseja falar comigo, Humfrey? – Perguntou indo direto ao assunto. Humfrey suspirou e mirou a estátua do Pai. Apesar do clima festivo no castelo, as vozes eram abafadas e apenas um murmurinho era ouvido ali dentro. Os Novos Deuses olhavam para os dois com muita atenção e Shiera sentiu-se pressionada por eles. Aqueles eram os Deuses de Valerion, apesar de ter recorrido a eles umas três ou quatro vezes na vida. Mas ainda assim não se sentia exatamente bem vinda ali – O que poderia ser tão secreto que precisou me trazer aqui para falar?

—Vim a mando do meu pai. – Disse ele num sussurro, andando até a porta e espiando o corredor. Depois fechou a porta e voltou para se aproximar e segurar suas mãos – Somos vassalos dos Tyrell, como bem sabes. Mas as forças deles estão em massa em Porto Real. Teu irmão tem a frota de Ferro sob o poder dele. Old Town está em uma posição bem delicada. – Sussurrou ele. Shiera o olhou com curiosidade – Sabendo que podemos ser atacados a qualquer momento pelo mar e que a maior parte dos nossos homens foi enviada para Porto Real e se manteve lá, mesmo depois de derrotar Stannis... Estamos muito vulneráveis. Então, pela nossa amizade no passado e por toda nossa história... Eu gostaria de uma garantia tua de que Old Town não será atacada.

—Vocês são aliados dos nossos inimigos. – Disse Shiera, seriamente.

—Foi a teu irmão a quem eu dobrei o joelho. – Retrucou ele – Mas já não é mais ele quem senta no Trono. É Cersei. E duvido muito que ela devolva o lugar caso ele volte para Porto Real. Então... De certo modo, poderíamos garantir que Old Town segue leal ao rei do Trono de Ferro. Mas... – Humfrey suspirou – Estamos numa situação delicada, com poucos homens e com pouco contingente para nos proteger de um ataque no mar. Com seu irmão Aegon estando com a frota de ferro e com a ameaça vinda de Essos... Digamos que não estamos nos sentindo muito seguros. – Humfrey a olhou nos olhos, parecendo realmente preocupado – Meu pai já não tem muita saúde. Há mais de uma década não sai do castelo... Até mesmo mandou um dos meus irmãos até minha irmã Lyssane, em Essos, para pedir ajuda, já que ela é muito influente.

—E por que ele te mandou para cá? – Perguntou Shiera – Você foi escudeiro de Willas. Foi armado cavaleiro por ele. E os Tyrell são os maiores aliados dos Lannister. Se Cersei tomou o trono pra ela, Mace Tyrell nada fez para impedir, mesmo meu irmão sempre tendo sido um bom amigo da família dele. E eu não vi Old Town mover um dedo para nos ajudar no início da guerra, quando minha sogra foi até Renly para pedir ajuda.

—Eu aconselhei o rei Renly a ajudar o teu marido. – Defendeu-se Humfrey, mas Shiera o olhou com descrença.

—É mesmo? Você estava lá? – Perguntou com as sobrancelhas arqueadas.

—Se tu não houvesses matado Catelyn Tully, ela mesma poderia falar que eu o fiz. – Disse ele. Shiera sentiu uma vertigem ao escutar aquela alfinetada. Desviou o olhar, se lembrando de quando decapitara Catelyn em frente ao Represeiro, aceitando o conselho de Roose Bolton. E pensar em Roose a deixou ainda mais desconfortável – Quando Renly declarou suas intenções de tomar o Trono do bastardo Joffrey, meu pai me enviou até ele para conquistar um lugar entre seus homens, afinal, nossos suseranos o apoiaram. Eu me tornei membro da Guarda Arco-Íris. – Ele se virou e se ajoelhou em frente à estátua da Velha. Depois se levantou, mostrando um manto roxo vibrante – Eu queria ter sido o Verde, mas Guyard Morrigen pegou o manto verde antes de mim. Sor Garland o matou na luta do Água Negra, no entanto. Mas já não estávamos mais usando nossas cores. Renly foi morto por... por uma sombra. – Disse ele fechando o semblante. Shiera lembrava vagamente de Catelyn contar algo do gênero – Shiera, estás em perigo aqui. – Disse ele e Shiera o olhou surpresa – Eu segui Renly por ordem do meu pai, mas vendo essa bagunça que o reino virou... – Ele se afastou parecendo muito velho sem seu charmoso sorriso no rosto – Renly era a melhor aposta para o reino. Ele sempre esteve na corte, sabia como as coisas funcionavam. Era inteligente, carismático e bondoso. Eu acredito que ele teria sido um bom rei. Muito melhor do que Stannis ou Robert. Robert foi um péssimo rei. – Ralhou ele e Shiera seguiu calada – Mas ele foi morto por magia negra. E agora fiquei sabendo que teus aliados viajam com a feiticeira de Stannis. Aquela mulher não é de confiança. – Declarou ele e Shiera se lembrou de Harrenhal. Lembrou-se vagamente do pedido dela – Ela vive aos sussurros com teu irmão. Ela o está corrompendo, da mesma maneira como fez com Stannis. Stannis que matou o próprio irmão, com magia negra, no lugar de honrar o duelo que haviam decidido fazer para decidir quem ficaria com o Trono.

—Aegon matou Stannis.

—Mas não matou a feiticeira vermelha. – Disse Humfrey.

—Humfrey. Como sabe de todas essas coisas? – Perguntou arqueando as sobrancelhas. Ele deu de ombros.

—Esse povo do interior adora fofocar. Eu soube o que ela fez na Muralha, fazendo os Selvagens abrirem mão de sua religião em troca de permanecerem aqui. Sempre fui muito cético, mas depois da morte de Renly e das histórias que chegaram a Winterfell, sobre Jon Snow ter matado um Caminhante Branco... Bem... – Ele suspirou e afagou suas mãos – Não consigo parar de pensar nos sonhos que sempre narraste pra mim. Era Robb o rapaz dos seus sonhos, ou era Jon? – Perguntou ele e Shiera puxou as mãos.

—Não importa. – Disse cruzando os braços e dando as costas para ele. Humfrey suspirou e andou até ela.

—Estiveste com Daenerys. – Disse ele e ela concordou com um aceno de cabeça – O que ela deseja?

—O Trono de Ferro, é claro. E toda Westeros, que ela garante que é dela por direito.

Humfrey ficou ao lado dela e os dois olharam o Estranho.

—É verdade que ela tem três dragões? – Perguntou ele – As pessoas falavam que Aegon esteve em posse de um deles.

—É verdade. – Disse simplesmente – Três dragões, um exército poderoso e bem treinado. Força e um bom nome para reivindicar o Trono. Não há como Cersei ganhar essa guerra.

—Não subestime Cersei. Ela sabe como as coisas funcionam e está num lugar de poder há muito tempo.

—Assim como Renly. – Retrucou Shiera – E tudo o que foi preciso para vencê-lo foi uma sombra.

—Não falaria nesse tom, no seu lugar. – Disse ele fechando o semblante.

—Você viu acontecer? – Perguntou Shiera. Humfrey engoliu em seco e negou com a cabeça.

—Não. Mas eu questionei Brienne de Tarth assim que a reencontrei, no casamento de Joffrey. – Disse Humfrey – Ela também era da Guarda do Rei Renly. Ela era a Azul. Loras queria matá-la de qualquer jeito. Não acreditou na história da sombra... Mas bem... – Ele respirou fundo – Eu estudei muito na Cidadela. Eu já não sou mais um incrédulo. Eu acredito nos teus sonhos, nas magias dos sacerdotes vermelhos, em wargs, nos Caminhantes... – Humfrey olhou para Shiera e a olhou profundamente – Há anos venho estudando sobre as coisas que tu sonhavas. Descobri algumas coisas. Coisas importantes há muito esquecidas. Passei muito tempo na Cidadela. Minha família é sempre bem vinda ali e como tu sabes, eu conquistei alguns elos com meus estudos lá.

—Lembro que antes que descobrisse o mulherengo que era, você desejava ser meistre. – Disse desviando do olhar dele. Humfrey sorriu um sorriso bem dele, a recordando quem ele sempre fora.

—Bem. Nem tão mulherengo assim. Sempre tive meus limites e tu sabes. – Defendeu-se ele – Mas não estamos aqui pra relembrar o passado. Eu preciso te fazer uma proposta. Teu marido precisa do conhecimento que eu consegui na Cidadela e eu preciso da tua garantia de que nem Daenerys, nem teus irmãos, nem teu marido irão atacar Old Town, independentemente do que já aconteceu. – Disse ele e Shiera sorriu.

—Old Town nunca esteve nos nossos planos de ataque. O Norte só quer ser livre.

—Mas teu irmão gêmeo pode tentar nos atacar, ou Daenerys, através de Aegon. E tu és meu maior escudo contra qualquer um deles. – Pontuou ele – Estaríamos dispostos a apoiar a libertação do Norte. Somos uma cidade poderosa e rica. Nosso apoio a vossa causa seria uma grande rasteira em Cersei. Poderia fazer com que os Tyrell retirassem suas tropas de lá. Levando em consideração que dizimaram as pelo menos duas mil espadas dornesas, isso enfraqueceria bastante Porto Real. Se vocês forem atacar Highgarden, poderíamos atacar por duas frentes. Se forem atacar diretamente Porto Real, já temos uma boa quantidade de soldados Hightower e Blackfyre lá. Nenhum vassalo Tyrell tem tantas espadas quanto nós.

—Loras Tyrell é muito próximo do meu irmão. Jamais atacaríamos Highgarden. – Disse Shiera e Humfrey suspirou – Humfrey, eu não sou idiota. O que você realmente quer? Oldtown não está à beira de um ataque. Se temem Daenerys, apenas nos ajude que Valerion fará uma aliança com ela. Ele mesmo não tem interesse em permanecer no Trono de Ferro por muito mais tempo. Se seu pai está absolutamente afundado em preocupações, pode dizer a ele que fique tranquilo.

Humfrey suspirou e negou com a cabeça.

—Cersei não confia em ninguém. Nem nos Tyrell e nem nos vassalos deles. E ela sabe o quanto podemos ser perigosos. Se tu não vês o risco em que minha casa está, ou não tem visão o suficiente ou simplesmente não te importa. – Disse ele parecendo ligeiramente desapontado. E Shiera sentiu-se uma garotinha de oito anos ao escutar Humfrey falar daquela maneira – Não podemos romper nossa aliança com os Lannister a menos que tenhamos algo bom em troca. E Daenerys é uma ameaça bastante real.

—Bem, posso tratar sua preocupação com meus irmãos e com Robb. E podemos criar uma aliança. – Disse mirando Humfrey. O rapaz segurou o manto roxo com firmeza, parecendo ponderar – O que você descobriu, Humfrey? – Ele a olhou nos olhos, num olhar perfurante, profundo e firme. Daqueles que pareciam ler sua alma e seus pensamentos.

—Eu descobri onde está a Luminífera. – Respondeu ele – A espada usada pelo herói da Aurora para derrotar os inimigos de gelo. – Respondeu ele e Shiera se lembrou do Fantasma de Coração Alto. Ela não tinha entendido que a Luminífera era a espada que ela e as irmãs fizeram para os filhos do herói.

—Onde?

—Anos atrás um Meistre partiu para Hardhome, para estudar os costumes dos selvagens. Ele passou quatro anos vivendo com eles, até que uma rebelião matasse o líder que lhe garantira proteção. Parte do estudo do Meistre se perdeu quando os selvagens o mataram, mas nem tudo. Consegui por as mãos nesse manuscrito. – Humfrey veio se aproximando – Vocês não fazem a menor ideia do que estão para enfrentar. – Humfrey baixou a cabeça apertando o seu manto – Mas eu sei. Quero me candidatar para ir buscar essa espada.

Shiera mirou Humfrey sem se deixar convencer por aquilo. Ele nunca fora um mártir. Ele estava atrás de alguma coisa, com certeza. Mas o olhar dele não vacilava e estava cheio de obstinação. Mas ainda assim. Havia algo que ele queria. Algo que ele não estava contando... e ela não fazia ideia do que seria.

**

A noite gelada soprava violenta pelas paredes de pedra sólida do castelo de Winterfell. Os principais Lordes estavam mais uma vez reunidos no castelo e celebravam com um banquete a aliança firmada com Daenerys Targaryen. Em teoria, Valerion Blackfyre também era um aliado, mas ele estava sem suas forças no momento e muitos o considerariam mais um refém do que qualquer outra coisa. Mas obviamente ninguém falaria isso em voz alta.

Havia música e canecas cheias de cerveja a brindar. O cheiro de assados se desprendia das cozinhas. A Rainha do Norte estava ao lado de seu marido, o Rei do Norte. Do lado dele, estava Brandon Stark, com um semblante distante e solene. Do lado da rainha estava Sansa Stark, bela e elegante em vestes cinzentas que contrastavam com sua trança vermelha. Na mesa destinada aos convidados de honra estavam Valerion Blackfyre, muito bonito e sério. Seu semblante melancólico lhe dava um ar ainda mais belo e misterioso. Ao lado dele também estava o bonito Sor Loras Tyrell, seu membro da guarda real. Ao contrário do rei que jurara defender, estava rindo um sorriso debochado, observando o bastardo Hoster Rivers cantar a canção O Urso e a Donzela. Lorde Jon Umber e Lorde Karstark gargalhavam e batiam palmas enquanto os recém casados Aegon Blackfyre e Arianne Martell dançavam animados, gargalhantes.

Um casamento era tudo o que se poderia sonhar. Aqueles sorrisos, aquelas palmas, aquela música. Quase era possível esquecer o perigo que avançava sobre os Sete Reinos.

Jon mirou discretamente o rapaz que Shiera lhe apresentara como Humfrey Hightower. Ele estava vestido como seu nascimento exigia, no lugar das vestes simples de um aprendiz de Meister. Se perguntava se a aquela altura Sam já estaria estudando para conseguir sua corrente.

Os gritos de alegria o fizeram se esquecer do amigo e logo notou que era Robb chamando Shiera para uma dança. Ela sorriu e o seguiu para se juntar ao casal de recém unido. As palmas eram animadas e as risadas dominavam o salão. Mas mesmo com todo aquele barulho, com toda aquela distração, sentiu alguém se aproximar.

Era Melisandre. Ela lhe lançou um sorriso, batendo palmas como o resto do salão.

—Está amuado. – Disse ela – Um dia tão bonito como esse... Um casamento celebrado na frente do Represeiro e abençoado pelo Senhor da Luz. Não é um dia para se estar com esse semblante. – Disse ela amavelmente. Jon mirou Shiera sorrir ao dançar com Robb. Lembrou de anos atrás, quando a beijara em frente ao Represeiro. Baixou o olhar ao ver o olhar apaixonado de Robb ao dançar com a esposa – A menos que esteja apaixonado por alguém completamente fora de alcance. – Riu ela. Jon suspirou, voltando a olhar para o irmão – Não se preocupe, Snow. – A olhou e recebeu um sorriso que o arrepiou inteiro – Seu par para dança chegará em alguns dias.

—O que quer dizer? – Perguntou Jon, franzindo o cenho, mas Melissandre sorriu e suspirou. Então ela perdeu o sorriso mirando alguém. Seguiu o olhar dela e viu Humfrey Hightower se levantando e indo até Sansa, fazendo uma mesura.

—Cuidado com aquele ali. – Disse ela num tom sombrio.

Melisandre se retirou e Jon observou a meia irmã ir de mãos dadas com o rapaz da Campina. Os dois se cumprimentaram na dança e logo se juntaram aos que dançavam. Theon dançava com Alys Karstark. Loras chamou Walda, mas ela se recusou de maneira ligeiramente fria. Então ele convidou Meera Reed, que aceitou sem saber muito bem o que fazer com aquilo.

Começou a bater palmas, seguindo o ritmo. Mas seu olhar estava fixo em Humfrey. Por um segundo, mirou Valerion, que aplaudia seguindo o ritmo da música também. Ele também mirava Sansa e Humfrey e seu olhar era ligeiramente sombrio e triste. Provavelmente como o seu era ao mirar Robb e Shiera.

—Como fazemos para chamar uma mulher pra dançar? – Perguntou Tormund, de cenho franzido.

—Não a acerte na cabeça e tudo terminará bem. – Disse Jon, mirando Humfrey conversar com Sansa durante a dança. Ele tinha um sorriso irritantemente parecido com o de Theon e ele não gostava nada disso – Só faça como todo mundo aqui fez.

—E você acha que aquela maravilhosa mulher alta dançaria comigo? – Perguntou ele com intensidade e Jon o olhou estranhando. Depois procurou o alvo do olhar fulminante dele para ver a mulher de armadura que sempre protegia Sansa – Nunca vi alguém tão alta. Imagine como nossos filhos seriam? – Perguntou ele de maneira quase insana. Brienne de Tarth mirava Humfrey com desconfiança também. Parecia que ninguém, além de Shiera, confiava muito nele. E aquilo lhe pareceu um sinal convincente – Seriam os maiores bebês que esse mundo já viu. Os confundiriam com gigantes! – Ele falava isso olhando para Lady Tarth de maneira indiscreta e quase indecente, com um sorriso obviamente repleto de segundas intenções.

Jon não tinha tempo para aquilo, ainda mais porque Brienne parecia muito capaz de se defender sozinha. Mas Sansa não. Andou até a meia irmã, que parecia ligeiramente arrependida de ter aceitado o convite para dançar, e pediu uma dança com ela.

—Mas é claro. – Riu Humfrey fazendo uma mesura profunda e respeitosa. Mas seu sorriso estava longe de ser respeitoso. Ele se afastou e Jon mirou Sansa tendo total ciência de que era um desastre na dança. Sua irmã sorriu parecendo agradecida e o cumprimentou na dança, erguendo a mão para ele. O correto seria que a guiasse, mas Sansa definitivamente sabia o que ele deveria fazer, então ela guiou a dança e ele a seguiu.

—Obrigada. – Murmurou ela – Humfrey Hightower ainda vai me enlouquecer.

—O que sabe sobre ele? – perguntou girando com Sansa, uma mão nas costas, a outra tocando apenas os dedos dela.

—Ele está bem longe de herdar qualquer coisa, pois tem três irmãos homens mais velhos que ele, além de quatro irmãs mais velhas. Provavelmente está desesperado para arrumar um lugar para si mesmo. – Disse ela – E ele se acha bastante íntimo de Shiera.

—Ela confia nele. – Disse num sussurro e Sansa o olhou com cautela, trocando os braços da dança.

—Mas você não? – Perguntou ela. Jon concordou com um aceno de cabeça e Sansa suspirou – Faz certo em não confiar. Ele está tramando alguma coisa. Só não sei o que. – Disse ela – Ele se ofereceu para ir com vocês, para além da Muralha.

—Não é todo homem que se oferece para algo assim. – Disse Jon e Sansa concordou.

—Ou ele não é tão ruim quanto imaginamos, ou ele está apostando muito alto em alguma coisa. – Disse Sansa. Jon concordou – Você não estava na reunião de hoje. Shiera implorou que Robb permitisse que Humfrey fosse com vocês. Ela definitivamente confia nele e ele me deixou bem claro que os dois se conhecem muito bem. – Sansa suspirou e Jon franziu o cenho. O quão bem eles poderiam se conhecer?— Ele pediu a mão dela em casamento, anos atrás, mas o pai dela negou. Quando vocês foram para Harrenhal. – Disse Sansa enquanto ele a fazia girar no próprio eixo – Você se lembra dele?

—Um pouco. Lembro que ele machucou Valerion em um treino. Por isso eu o substituí. Lembro apenas vagamente das justas. Eu estava nervoso demais.

Sansa suspirou e os dois voltaram a andar de um lado para o outro.

—Gostaria de ter ido ao torneio, mas papai não deixou. Eu poderia ter voltado de lá com um noivado. Um que não fosse com Joffrey. Teria me poupado de muito sofrimento. – Murmurou ela e Jon suspirou.

—Você não sabe disso. – Disse ele com convicção – De todo modo, você contou de suas desconfianças para Robb?

—Não. Mas certamente falarei antes que vocês partam para a Muralha. – Disse Sansa com determinação. Jon concordou com um aceno de cabeça e engoliu em seco.

—Posso pedir um favor a você? – Perguntou ele. Sansa o olhou curiosa, mas deu de ombros.

—Por que não? Lhe devo uma por Humfrey Hightower. – Disse ela e Jon concordou, interrompendo a dança.

—Venha até as criptas comigo. – Pediu ele. Sansa o olhou surpresa, provavelmente sem esperar por aquilo, mas deu de ombros.

—Pode ser. – Respondeu simplesmente.

Os dois deixaram o salão e começaram a descer para as criptas. Mas enquanto desciam os primeiros lances de escada escutaram passos. Os dois olharam para trás e viram Melisandre, que segurava um archote. Ela sorriu para os dois e logo os alcançou.

—Permitam-me, por favor. – Pediu ela com gentileza – Há coisas aqui que gostaria de averiguar.

Jon concordou e Sansa não fez questão de proibir Melisandre. Então o trio desceu as escadas com Jon sentindo o coração bater acelerado. Desceram escadas e passaram por inúmeras estátuas. Os antigos reis do norte olhavam para eles com frieza e desprezo. A grande maioria com as espadas faltando, pois tinham se desfeito com o passar dos anos.

Desceram até a cripta onde estavam os ossos de Lorde Eddard Stark, próximo aos irmãos e ao pai. Ainda havia uma estátua de Robb ali, mas o caixão com os ossos que pertenceram a algum estranho qualquer tinha sido retirado e os ossos queimados. Sansa e Jon miraram a estátua de Lorde Eddard. Sansa deu um passo a frente e segurou a mão da estátua com um ar tristonho. Jon soltou um suspiro mirando a estátua e fez um agradecimento silencioso.

Mas depois se dirigiu a estátua de Lyanna. Lyanna Stark, filha de Lorde Rickard Stark, irmã de Brandon, Eddard e Benjen Stark. Minha mãe. A estátua o olhava com carinho, algo que nunca havia notado. Como se estivesse feliz por ele finalmente saber a verdade.

—Quem é essa? – Perguntou Melisandre.

—Minha tia Lyanna. – Explicou Sansa andando até eles – Algumas vezes eu via meu pai descer até aqui para colocar velas para ela. Mas ele nunca falava o que quer que fosse sobre ela. – Murmurou Sansa.

—É mesmo? – perguntou Melisandre mirando a estátua – Como ela morreu?

Jon engoliu em seco, mirando a estátua.

—Ela foi sequestrada por Rhaegar. Num torneio em Harrenhal. – Narrou Sansa e Jon suspirou, se lembrando da primeira vez que viu Shiera – Foi uma grande competição. Estavam todas as pessoas importantes do reino. O príncipe, meu pai, o rei louco, Robert Baratheon... E ela, minha tia Lyanna. – Contou Sansa e Jon levantou o olhar para a estátua. Se perguntou como os pais tinham se apaixonado. Se ele a tinha sequestrado e os dois se apaixonaram em algum momento. Ou se ela realmente fugira com ele. Se lembrou de todas as vezes que ele e Shiera sugeriram fazer isso. Fugir juntos, para serem felizes juntos. Mas sempre que um queria o outro não se permitia – Foi o maior torneio que se teve história, pelo menos até ali. Na final do torneio, todos celebraram a vitória do príncipe Rhaegar. Ele não era famoso por justar, mas ninguém podia negar seu talento. – Lembrava de usar a armadura de Valerion e de derrubar um oponente atrás do outro, lembrando de que muitos falavam que Lorde Haegon casaria sua filha com o vencedor do torneio. E ele desejou ser essa pessoa. Começou de maneira desajeitada, mas então foi pegando o jeito. Notou que era algo inato. Algo que ele simplesmente era capaz de fazer, depois de algumas tentativas. A cada lança seu braço ficava mais forte e mais preciso. Derrubou mais cavaleiros do que jamais sonharia. E a cada vitória se virava para ver Shiera e ela sorria de maneira amorosa – Mas quando ele foi coroar a rainha da beleza, ele passou direto pela esposa... E todos os vivas e sorrisos morreram. – Se lembrou de quando a reencontrou, quando já estava com a Patrulha da Noite, quando todos acharam que Robb havia morrido. Quando ela passou a ajudar a Muralha contra Mance Rayder e os dois acabaram não resistindo ao sentimento que tinham um pelo outro – Ele passou direto pela esposa e colocou a coroa de flores no colo da minha tia. Ela já estava prometida a Robert, então é claro que foi um escândalo. – Jon baixou os olhos, engolindo em seco. Tinha decidido que desistiria dela. Ela era a esposa de Robb. Mas não podia matar o sentimento em seu coração, ou certamente já o teria feito – Um ano depois ele sequestrou minha tia a estuprou e ela morreu. Meu pai foi para Dorne, para resgatá-la, mas quando chegou, já era tarde demais. Robert declarou guerra para tê-la de volta, mas ela morreu assim mesmo.

—Que triste história. – Murmurou Melisandre – O que tem a dizer sobre ela, Jon? – Perguntou a feiticeira e ele a olhou. Se lembrou do Fantasma de Coração Alto. Se lembrou da história de Howland Reed.

—Que foi uma grande mentira. – Respondeu ele. Sansa e Melisandre olharam para ele. Sansa parecendo surpresa e Melisandre satisfeita.

Então, pela primeira vez, Jon Targaryen contou a verdade sobre seu nascimento a alguém. E pela primeira vez ele acreditava plenamente naquelas palavras.

**

Aegon andava pelo castelo ao lado de sua esposa. Arianne parecia simplesmente feliz e ele não poderia deixar compartilhar da felicidade dela. Pararam em frente a uma janela qualquer, para mirar a neve que caía lá fora, de maneira leve e bela.

—Mas tudo aqui é coberto de neve. Sinto falta das areias quentes de Dorne. – Ela se virou para olhá-lo – Vai vir comigo, para Dorne, não é? Ser meu consorte e me ajudar a levar o reino, após a morte de meu pai.

—Irei assim que terminarmos essa guerra. Prometo. – Disse Aegon com um sorriso feliz – Luto por Dorne tanto quanto por Daenerys. Se os mortos nos vencerem, não haverá porto seguro.

—Eu sei e entendo. – Disse ela colocando a mão sobre a sua – Mas tome cuidado, Aegon. Não esperei todos esses anos para te ver de novo, para então perdê-lo novamente.

Aegon sorriu para sua irmã e ouviu passos. Era Shiera. Ela vinha com Walda e aquele rapaz abusado, Humfrey. Aegon não gostava muito dele, não com a irmã. Mas Shiera estivera muito melancólica naqueles tempos e a chegada do Hightower lhe trouxera o sorriso de volta. Então não reclamaria.

—Ele é bonito, esse amigo da sua irmã.

—Bonito demais para a própria segurança dele. – Sussurrou Aegon e logo mais passos vinham do outro lado do corredor. Melisandre, Jon e Sansa Stark. Encontraram-se todos em frente à janela, onde todos se cumprimentaram. Jon parecendo constrangido, por estar perto de Shiera. Shiera do mesmo jeito, parecendo se obrigar a olhar para tudo menos o rapaz. Sansa torcendo o nariz para Humfrey, Walda parecendo até achar graça disso. E Humfrey estava como sempre. Com aquele sorrisinho travesso no rosto, como se aquele encontro estivesse nos planos dele desde sempre.

—Lady Sansa. Devo salientar que esta noite te deixaste mais bonita do que nunca. – Disse ele numa mesura, com os olhos e o sorriso cheios de travessura. Sansa arqueou a sobrancelha, sem dar muito crédito a ele.

—E por acaso poderia me explicar que efeito mágico essa noite pode ter aplicado a mim em específico? – Perguntou ela sem sorrir, mas isso não intimidou Humfrey.

—Oras. Certamente deve ser porque a cada noite estás a ficar ainda mais bela. Mas talvez o crédito não seja do céu, da lua ou das estrelas. Apenas teu, minha senhora. – Disse ele com um sorriso abusado e Aegon revirou os olhos. Walda tentou engolir um sorrisinho, assim como Shiera e Jon Snow não pareceu gostar muito daquilo, apesar de escolher o silêncio. Melisandre olhava Humfrey como um gato estuda um vira latas. Com calculada desconfiança.

—Me poupe. – Resmungou Sansa, para em seguida virar para Shiera – Vossa Graça, me concederia um momento a sós? – Perguntou ela e Shiera sorriu.

—Claro. Por favor, Hunfy, faça companhia a Walda, por mim. – Disse Shiera – E toda felicidade aos noivos. – Adicionou ela para ele e Arianne.

—Muito obrigada, Vossa Graça. – Disse Arianne abraçando seu braço – Acho que estou prestes a encerrar a noite. E nem pense em querer fazer aquele ritual de arrancar as roupas!

—Isso é um costume mais nortenho. – Disse Aegon.

—Infelizmente morei toda minha vida muito ao sul. – Lamentou Humfrey – Diga-me Shiera, como foi na sua vez. Passaste por tal tradição?

Aegon mirou a irmã, completamente chocado.

—Sim, é assustador. – Riu Shiera – Mas ainda assim, não me arrependo.

—Isso não é pra mim. – Disse Arianne.

—Muito menos pra mim. – Bufou Aegon.

**

Sansa e Shiera entraram no quarto da Rainha, que fechou a porta. Sansa respirou fundo e mirou sua cunhada.

—Não se acanhe, sente-se. – Disse Shiera, gentilmente, vindo até uma mesa. Sansa se sentou e Shiera pegou uma jarra de vinho que alguma aia tinha deixado ali. Ela se serviu e lhe serviu uma taça. Sansa mirou o ventre da Rainha e notou que havia uma curvinha ligeiramente mais acentuada ali, do que costumava ser. Shiera se sentou na cadeira a sua frente e a encarou com curiosidade – Então, Sansa, o que posso fazer por você?

—Desejo saber o que fez para conquistar Robb. – Disse Sansa e Shiera a olhou, surpresa – Digo, ele sempre te achou bonita. Mas algo aconteceu para que ele agisse do jeito que agiu. Levando você com ele na campanha contra o Trono de Ferro. Se casando com você, no meio da guerra, sem saber se seu pai aceitaria isso ou não. Isso não soa nada como Robb.

—Não sei o que eu possa ter feito para que ele me amasse. Mas sei o que fiz para controlá-lo. Pelo menos no início. – Disse Shiera suspirando – Foi algo que Cersei me ensinou.

—Transou com ele? – Perguntou Sansa, em choque.

—Não. Minha virtude me foi retirada apenas no casamento. – Garantiu Shiera e Sansa suspirou, surpresa – Mas bem. O importante não é entregar o que eles querem. É deixá-los ver o que você quer que eles vejam, para então manipulá-los. Parece cretino, mas eu não queria ficar sozinha aqui em Winterfell. – Shiera engoliu em seco e desviou o olhar – E creio que fiz certo.

—Então o que fez, com Robb? – Perguntou curiosa. Shiera suspirou e então sorriu.

—Quer saber o que fazer com meu irmão? – Perguntou ela com alguma malícia. Sansa corou de leve e não conseguiu esconder uma feição cheia de culpa – Entre você e Myrcella, sou mais você. Mas ele se casou. Não sei se há algo a ser feito. Apesar de ele amar você. – Shiera suspirou – Valerion sempre levou os votos de cavaleiro muito a sério. Mesmo antes de se tornar um cavaleiro. Ele sempre sonhou com a cavalaria. Mas bem... Ele engravidou Myrcella, antes de se casar com ela. Ele não é perfeito no fim das contas. Se quiser mesmo saber o que eu fiz, e se quiser repetir o ato com meu irmão, eu contarei com alegria. Mas vou pedir que tome cuidado. Tanto com você mesma, quanto com ele. Quando eu provoquei seu irmão, ele não me amava. E a única vez que eu tentei usar o amor de Robb contra ela, não deu muito certo e a pessoa que mais se feriu fui eu mesma. – Disse Shiera e Sansa a achou muito mais vivida do que ela seria algum dia.

O que provavelmente não era tão verdade assim. Shiera tinha passado por muitos horrores e por muitas coisas. Mas eu também tive minha coleção de horrores.

—Conte-me. – Pediu Sansa, sentindo o corpo ferver tanto quanto o rosto.

—Depois de uma reunião de guerra, Robb foi para o Bosque Sagrado. Eu o esperei no quarto dele. Subornei um guarda para que ele não o alertasse que eu o esperava. E ao entrar no quarto dele, tirei minha capa, ficando apenas com um singelo vestido de dormir, das terras sulistas. Um tipo de vestido leve, para as noites mais quentes. E, portanto, bastante revelador.

—Oh! – Sansa corou e riu e Shiera também acabou rindo e parecendo ser a jovem de dezenove anos que ela era. Algumas vezes ela parecia ser muito mais velha, mas talvez fosse só aquela coroa de rainha – Imagino que ele deve ter ficado surpreso.

—Sim. Ele avançou contra mim, querendo me possuir ali mesmo.

—Robb? – Perguntou chocada.

—Robb. – Concordou Shiera, lhe dando algum tempo para absorver aquela informação. Sansa nunca imaginou seu irmão daquela maneira. Ele sempre parecera tão comportado, mesmo já tendo beijado Jeyne Pole várias vezes – Mas eu pedi para que ele esperasse e ele foi muito respeitoso. – Riu Shiera – E então eu pedi e insisti que ele me levasse com ele. Estávamos deitados na cama dele e então eu me aproveitei para ficar mais próxima dele. – Sansa recebeu um olhar efusivo e acabou dando risadinhas – E quando ele concordou em me levar, eu tirei meu vestido.

—O que?

—Deixei que ele visse e tocasse um pouco em mim, como prêmio por fazer o que eu queria. Assim, ele começaria a ceder às minhas vontades, em troca de... Bem... De mais. – Disse Shiera – É bem parecido com treinar um cachorro, na verdade. – Disse ela e Sansa acabou rindo de novo – Foi isso.

—E como foi com Humfrey? – Perguntou Sansa, astutamente e Shiera não se deu nem ao trabalho de corar.

—Foi mais fácil com Humfrey, afinal ele é um cretino, mulherengo. Eu só precisava prometer que cederia um pouco mais na próxima vez que ele fazia tudo o que eu pedia. Mas ele acabou se apaixonando e eu coloquei um ponto final naquilo.

—Por que? – Perguntou Sansa.

—Por que? – Repetiu Shiera. Ela suspirou e olhou pela janela – Porque eu sabia que meu futuro era no Norte. – Respondeu ela e Sansa se lembrou que certa vez Valerion dissera que a irmã podia sonhar com o futuro.

—Você sabia que se apaixonaria por Robb um dia? – Perguntou Sansa, achando aquilo romântico. Shiera engoliu em seco e ficou ligeiramente triste. Então ela suspirou e negou com a cabeça.

—Não. Por Jon. – Respondeu ela e Sansa a mirou, em choque, se lembrando das coisas que Jon lhe havia contado. Sobre ser o legítimo filho de Rhaegar Targaryen e Lyanna Stark.

**

Robb entrou em seu quarto e notou que Shiera já estava lá. Ela fungou e limpou o nariz com as costas das mãos, desviando o olhar. Seu nariz tinha a ponta avermelhada e o rosto estava inchado. Ela estava sentada próxima à janela e segurava a manta que um dia pertencera a Ned. Robb engoliu em seco e se ajoelhou ao seu lado. Shiera fungou, sem conseguir não chorar e levou a manta ao rosto, para beijá-la e cheirá-la, mas seu olhar era para Robb.

—Shiera...

—Eu fui uma mãe horrível. – Lamentou ela – Eu o odiei. Eu o quis longe de mim. Eu o rejeitei. E então os deuses o levaram. – Chorou ela e Robb suspirou.

—Éramos jovens, inexperientes, tendo que lidar com uma guerra sem fim. Fizemos o que podíamos e lidamos com todas as situações da melhor maneira que podíamos. Não tenha dúvidas disso.

Shiera apertou a manta contra si e seguiu chorando. Robb suspirou e tocou a barriga dela, que começava a despontar, apesar de ainda estar muito discreta.

—Os deuses nos concederam outra chance, Shiera. – Disse Robb e ela suspirou.

—Não vá. – Pediu ela de uma vez – Humfrey irá no seu lugar. Fique aqui. – Pediu ela, provavelmente se referindo à Missão na Muralha.

—Não posso. – Disse Robb, engolindo em seco – A magia que me trouxe de volta, exige que eu vá. – Explicou ele – Se eu ficar, simplesmente não permanecerei vivo.

Shiera o olhou com desespero no olhar.

Ela tomou seu rosto entre as mãos e o beijou, trêmula.

—Por que esse deus te quer lá? – Perguntou Shiera.

—Eu não sei. – Respondeu Robb – Vamos, não falemos mais sobre isso. Vamos para a cama. – Pediu ele e Shiera concordou se levantando. Ela repousou a manta sobre uma mesinha e começou a se despir. Robb a assistiu fazer isso, achando a silhueta dela simplesmente perfeita. Os seios tinham voltado a inchar, as curvas femininas estavam acentuadas. Ela transbordava uma feminilidade atraente que o enfeitiçava. Quando viu sua esposa completamente nua, suspirou, apaixonado, a admirando. Depois se despiu também e foi até ela, para abraçá-la – Shiera. Não importa o que aconteça. Você vai sobreviver. Você já sofreu o suficiente. Agora você terá a mim, e o nosso bebê. Nós vamos vencer a guerra. Nós vamos vencer os Caminhantes. E nós teremos uma vida próspera.

Shiera o olhou com os olhos violetas brilhantes.

—Robb. Não me deixe mais.

—Não deixarei. – Prometeu ele engolindo em seco, para em seguida beijar sua esposa. A amou com fervor aquela noite, arrancado gritos e gemidos. Metade do castelo devia tê-la escutado. Mas não se importou. Shiera dormiu antes dele e Robb suspirou sentindo-a ressonar em seu peito – Não deixarei... – Sussurrou para si mesmo, se perguntando se seria capaz de cumprir tal promessa.

**

O choro das crianças a fez despertar. Sua mãe insistira que não dormisse no mesmo quarto que elas, para que pudesse descansar. Propuseram até que ela não desse o peito aos bebês, por conta do veneno que aparentemente lhe tinham dado. Mas não quis saber. Aquilo era uma coisa pela qual iria passar.

Daena chorava, absolutamente enfurecida, mexendo os braçinhos e as perninhas para cima. Mas o choro de Haegon era quase um resmungo. Myrcella todo o tempo o cutucava e o importunava, desesperada, tentando escutá-lo chorar. Ele dormia tanto que várias vezes ficava desesperada com a possibilidade dele ter morrido. Meistre Pycelle falara que ele não era um bebê saudável. Que muito provavelmente não sobreviveria ao primeiro ano de vida. E, por tanto, Myrcella fazia questão de cuidar dele com todo carinho, esperando um milagre.

Rezava todos os dias para que os deuses não lhe tirassem seu filho.

Então, por mais que Daena estivesse abrindo o maior berreiro, pegou Haegon primeiro e lhe ofereceu o seio. A madrugada já estava bem avançada e o castelo parecia adormecido. Apenas os três deveriam estar acordados, apesar que logo teria mais gente desperta, graças ao choro forte e estridente de Daena.

—Só um minuto, meu amor. Precisamos cuidar do seu irmão, está bem? – Perguntou Myrcella com doçura e sua voz acalmou Daena, mas apenas um pouquinho. O choro dela deixou de ser algo raivoso e passou a ser algo suplicante. O que antes era “Pelos Sete infernos, me alimentem”, se tornou um “Por favor, tenho fome”. Mas Myrcella mirou Haegon, que sugava seu seio com pouco vigor. Mas ele abrira os olhos e a olhava com muita atenção. Os olhos de um púrpura escuro, muito bonito. Ele era mais cabeludo que Daena, com finos fios dourados. O nariz dele era o dela, pequeno e arrebitado, ligeiramente pontudo. Haegon era muito parecido com ela, com exceção dos olhos. Daena era a cara de Valerion, com toda a beleza mística de Valíria. Sabia que ela seria uma mulher muito bonita no futuro e isso a encheu de felicidade – Mame, Haegon. Sua irmã tem fome. – Pediu Myrcella e Haegon resmungou algo com seu mamilo na boca. Os olhos dele a fitavam com extrema atenção, como se isso fosse ainda mais importante que mamar. Uma aia abriu a porta de seu quarto e Myrcella viu uma ama de leite entrar.

—Vossa Graça. Permita-me auxiliá-la com os bebês. Meus seios estão cheios de leite. – Disse ela com humildade e Myrcella mirou Daena, que voltava a se remexer, agitada e cheia de fome.

—Está bem. Alimente Daena. – Disse Myrcella e a aia veio pegar o pequeno bebezinho. Mas Daena não quis nem saber dos seios da ama de leite – Vamos, mocinha. Beba. – Pediu Myrcella sentindo Haegon sugar seu seio com muita preguiça. Os seios estavam duros e cheios, doloridos. Quando Daena mamava, parecia uma cura para o desconforto. Mas Haegon mamava muito lentamente e tinha a impressão de que o seio produzia mais leite, mais rápido do que ele mamava. E aquilo a preocupava demais – Daena. Vamos! – Mas Daena soltou um grito e então chorou um lamento tão horrível que Myrcella entendeu que não havia o que ser feito – Oh, está bem. Está bem. Não chore, meu amor. Entregue-me Daena. – Ordenou se deitando mais confortavelmente. A aia colocou Daena em seu outro braço e Myrcella amamentou os dois bebês ao mesmo tempo. Daena sugava seu seio com muita determinação, movendo a cabeça, parecendo querer arrancar seu mamilo, que estava ligeiramente esfolado. Mas Haegon era educado como um singelo cavaleiro. Parecia que ele tentava tomar muito cuidado para não machucá-la. E outras vezes parecia que mamar era tedioso, pois ele dormia antes de terminar. Myrcella precisava ameaçar tirá-lo de seu seio para que ele voltasse a mamar por mais alguns segundos antes de cair novamente no sono.

Mas Daena parecia muito empenhada em comer e parecia querer compensar o irmão. A pequena terminou a refeição antes de Haegon, suspirando um pouco letárgica. A aia a pegou no colo, para fazê-la arrotar e tentar colocá-la para dormir, mas Haegon ainda estava longe de terminar. O seio que ele mamava estava dolorido e cheio, enquanto o seio de Daena estava vazio e anestesiado.

Myrcella afagou seu filho na cabeça e ele acordou mais uma vez, abrindo os olhinhos preguiçosamente, para vê-la. Sorriu para ele e ele estendeu a mãozinha para seu rosto. Segurou a pequena mão branca dele e a afagou com carinho, sentindo os dedinhos dele se fecharem ao redor de seu polegar. Haegon então a segurou com força e suspirou, para mamar um pouquinho mais forte. Ainda muito mais fraco que Daena, mas parecendo com a energia renovada.

Cuidarei de você até o fim, meu amor. Prometeu para ele em pensamento, pois tinha certeza que ele era capaz de entender, principalmente pelo modo como ele a olhava tão intensamente.

Muitos minutos depois, Haegon parecia exausto e dormiu sem acordar com seus toques. O fez arrotar, sentindo que o peito estava mais leve, mas não tanto quanto o outro. Haegon soltou um arroto muito discreto e dormiu em seu colo. O colocou com muito cuidado no berço e suspirou olhando para ele, completamente apaixonada. O futuro rei de Westeros. Haegon Blackfyre. Primeiro de seu nome. Rei dos Ândalos e dos Primeiros Homens. Protetor dos Sete Reinos. Ele inspirou como se não se importasse com nada disse e soltou um suspiro muito gostoso de se ouvir.

A aia deixou seu quarto e Myrcella mirou a janela. Não havia lua no céu. Apenas nuvens escuras, que deixavam pequenos flocos de gelo caírem lentamente. Myrcella fez algum esforço para se levantar, sentindo alguma dor e muita fraqueza. Engolindo em seco, com passos curtos e desengonçados, andou até a janela e mirou Porto Real.

—Por onde estás, Valerion? Esqueceste de mim? Nem mesmo uma carta me enviaste por todo este tempo. – Lamentou sentindo falta dele. Não se passara nem mesmo um mês desde que tinha dado a luz, mas só de estar longe da comida dornesa tinha feito sua mente clarear bastante. Não tinha mais visões e nem mudanças drásticas de humor. Mas seu corpo parecia absolutamente enfraquecido. Sua cabeça doía todo o tempo. Se perguntou se ele estava escrevendo e se sua mãe não estava mencionando isso. Estava proibida de participar da política e ninguém estava te dando informação alguma. Mas como tinha os gêmeos para cuidar, conseguia manter a mente ocupada. Dormia quando eles dormiam e suas horas despertas eram todas deles.

Mas agora, a cada dia que se passava, com sua mente voltando aos poucos a se reorganizar, as últimas coisas que Valerion lhe tinha dito a estavam assombrando. Caminhantes Brancos...

—Ele garantira que buscaria um para mim. Para provar o que o irmão dissera. E ele foi com uma escolta ridícula, ainda mais para um rei. Ele deixou todos os homens dele comigo. Sob as ordens do meu tio. – Myrcella suspirou e tomou uma decisão. Assim que despertasse no dia seguinte, mandaria chamar tio Tyrion – Ele vai me contar tudo o que eu quero e preciso saber. Minha mãe gostando disso ou não.

**

Estava em Porto Real. Andava segurando seu livro de anotações, onde analisava o resultado das colheitas. Um relatório do mestre das moedas estava em cima de seu próprio relatório sobre o estoque de comida. O cofre estava cheio, as dívidas pagas, o Banco de Ferro apenas ligeiramente insatisfeito. Guardas Blackfyre e Martell o cumprimentaram quando passou por um grupo deles. Uma menina de cabelos e pele escuros sorriu para ele, andando de mãos dadas com suas damas de companhia. Ou talvez ela fosse a dama de companhia. Era um adorável pequeno grupinho de umas cinco meninas, todas sorridentes e muito bem protegidas. E olhá-las passear pelos corredores, risonhas e cheias de travessuras o fizeram pensar que aquela guerra terrível parecia ter sido em outra vida.

Acompanhou com o olhar todas elas passarem e voltou a andar para seu destino. A Torre da Mão. Tinha muito o que calcular. O Inverno está chegando... se escutar mais alguém resmungar isso, acho que vou arrancar minhas orelhas.

Mas não havia o que ser feito. O Inverno estava mesmo chegando, de acordo com Humfrey.

“A Cidadela mandou o Corvo Branco, Valerion. Você sabe o que isso significa.”

“É. E foi rápido demais.”

“Foi um inverno curto, afinal. Depois de tudo o que falaram que ele seria... Fiquei quase decepcionado.” Brincou ele pomposo e Valerion riu do gracejo.

Mas naquele momento estava só, em frente à enorme escadaria que levava para a Sala da Mão.

Vossa Graça me espera.

Pensou e aquele pensamento o assustou de leve.

Como assim, Vossa Graça?

Pensou em Myrcella e a viu sorrindo, sentada nos jardins da Fortaleza Vermelha, brincando com um garotinho de cabelos platinados. Não conseguia ver o rosto dele, mas tinha certeza que era seu filho. Nosso filho. Sentiu falta dela, de Myrcella. Não de quando ela estava grávida. Mas de quando estavam flertando. Eu poderia tê-la amado. Eu poderia ter sido um bom marido para ela e eu sei que ela teria sido uma boa esposa pra mim. Mas tudo deu errado. Jogamos um com o outro, querendo tirar vantagens. E com isso destruímos o que tínhamos.

Engoliu em seco, imaginando Myrcella, logo ali, com o filho que ela sempre dizia que teria. Ela tinha absoluta certeza de que seria um menino.

Remexeu-se, despertando, mesmo sem querer, com a visão de Myrcella e de um garotinho sem rosto se dissipando. Lutou para manter aquela imagem em mente, mas era como tentar segurar água com as mãos. Aos poucos não restou nada.

Abriu os olhos e se viu deitado numa cama, em Winterfell. O castelo era quente, como se lembrava que ele era, apesar de estar fazendo um enorme frio lá fora. Robb lhe providenciara um quarto confortável, além de guardas para ficarem de guarda nas janelas e na porta. Afinal, Obara Sand ainda estava por aí. Loras não era obrigado a protegê-lo durante o sono, então o dispensou e mandou que o amigo descansasse. Mas ele, provavelmente, estava fazendo algo nada comportado com Hoster. Ou pelo menos sonhando com isso. Não sabia o quão devasso Hoster era. Não com outros homens, no caso.

Se sentou na cama e suspirou, mirando a coroa que usara e repousava sobre a mesa. Queria se livrar daquilo o quanto antes. Nunca imaginou o quão pesada uma coroa poderia ser. Se perguntava como Shiera usava a sua com tanta propriedade. Como se fosse natural, uma extensão de seu corpo.

—Apesar que minha irmã já não sorri tanto quanto outrora. – Sussurrou sozinho. Coçou a barba se perguntando como estaria a saúde da esposa e do filho. Se ambos estavam bem e vivos. Escutara tantos rumores. Rumores de que ela tinha dado à luz a monstros. Que morrera no parto, que fora exilada, que fora capturada pela Fé... Engoliu em seco, sentindo-se culpado por não estar ao lado dela. E pior. Por estar em Winterfell. Com Sansa.

Bem... Não estava realmente com Sansa. Tiveram aquele momento no Septo, mas nada mais do que aquilo. Tocou os lábios e suspirou, se lembrando do rápido beijo que ela lhe tinha roubado. Não tivera tempo para reagir e não tinha muita certeza do que faria. Uma parte de si dizia que certamente a afastaria por respeito a Myrcella, mas não estava realmente muito convicto disso.

Escutou um murmurinho do lado de fora, mas não deu atenção. Provavelmente eram os guardas se acordando para revezar a vigília. Se levantou, sentindo o cobertor de pele escorregar por seu corpo nu e andou até a mesa para pegar um pouco de vinho. Algo para ajudá-lo a dormir. Serviu um pouco de vinho e enquanto bebia, coçou uma das muitas cicatrizes que tinha nas costas, deixadas pela Fé Militante. Foi quando escutou a porta abrir. Se perguntou quem poderia ser e quando notou a silhueta de uma mulher, sentiu o rosto ferver. A mulher fechou a porta e tirou a capa. Pela pouca luz das velas notou que era Sansa e se sentiu ainda mais constrangido.

—Oh, minha senhora. – Murmurou tentando esconder a nudez – Não esperava encontrá-la aqui! A essa hora. – Disse ele nervosamente. Sansa o olhou dos pés à cabeça e sorriu travessa e isso o fez pensar em Margaery. Ela puxou o cordão que prendia a capa e a peça escorregou lentamente até o chão. Ainda estou sonhando. Meu sonho mudou e eu estou delirando. Piscou, completamente confuso e observou Sansa se aproximar mais. Respirou fundo observando as mãos dela puxarem os outros cordões que prendiam seu fino vestido – Eu estou acordado? – Perguntou piscando, completamente perdido.

Notas finais
SERÁ QUE VALERION E SANSA VAI CONSTAR?! O que vocês acham? Opinem nos comentários!! Beeeijos Titia ama vocês! ♥