Blackfyre

5 Os Deuses Serão Testemunhas


Notas iniciais
Mais um capítulo dessa fic que eu to amando escrever (apesar que tem umas duas ou três semanas que eu não escrevo...) Espero que gostem, ok? Por favor, comentem! Recomendem para os amigos, façam propaganda, essas coisas! =D Beijos! ^^

Os Deuses Serão Testemunhas

Por quatro dias, os uivos de lobo se espalharam por Winterfell, como uma bandeira de lamento. A luz do amanhecer em breve atravessaria a janela alta, mas Shiera já não tinha mais sono. Sansa e ela estavam dividindo o quarto com Arya, já que a princesa Myrcela estava usando o quarto de Sansa. Para não acordar as irmãs Stark, se arrumou o mais silenciosamente possível e deixou o quarto.

O pesar de todo castelo parecia se misturar com seu ser e ela sentia-se numa profunda depressão. Podia ver o pesar em cada rosto que cruzava.

O pequeno Brandon Stark caíra de uma torre e se machucara profundamente. Praticamente todo mundo achou que ele morreria, mas o Meistre o salvara, porém, o pequeno garoto jamais andaria novamente.

Shiera ainda escutava os lamentos do lobo de Bran. Ele uivava dia e noite embaixo da janela do garoto. O Meistre dos Stark dissera que eles fecharam as janelas do quarto uma vez, para calar o barulho, mas ao fazerem isso, Bran pareceu enfraquecer. Quando abriram as janelas novamente, seu coração bateu mais forte. Por isso, poderia jurar que o lobo estava ajudando Bran a ficar vivo.

Seguiu para a mesa onde costumava tomar café da manhã, mas era muito cedo para que tivesse alguém ali, além dos criados. Pediu um pouco de bacon frito, dois pães e mel, com alguma bebida para ajudar a engolir. Depois ficou sentada no pequeno salão, esperando para comer. Escutou passos, mas não tinha gana de se virar. Cumprimentaria quem quer que fosse quando se sentasse.

Logo notou que era Lorde Eddard, que a olhava com surpresa.

—Um pouco cedo para uma garota, não acha? – perguntou ele, gentilmente.

—Bom dia, Lorde Eddard. Como está Bran? – perguntou preocupada. Lorde Eddard a olhou com um olhar gentil e suspirou.

—Não houve mudança. – respondeu ele e Shiera concordou com um aceno triste de cabeça, escutando um uivo de um dos lobos.

—Parece que até os lobos choram. – sussurrou fechando os olhos. Parecia que seu corpo se enchia de tristeza toda vez que um uivo ecoava pelas paredes do castelo – Bran é um menino muito querido. Eu espero muito que ele fique bem. – murmurou. Lorde Eddard suspirou e concordou com um aceno de cabeça – Escutei que, mesmo que ele acorde, não voltará a andar. É verdade? – perguntou tristemente. Lorde Eddard concordou com outro aceno triste de cabeça – Meus sinceros sentimentos, meu senhor.

Eddard concordou com mais um aceno de cabeça, parecendo perdido em sentimentos. Logo os criados chegaram com a comida e ela fez o desjejum com Lorde Eddard. Ele era um homem sério e calado, pensativo, mas achou-o muito gentil assim mesmo.

—Seu pai me fez uma proposta. – disse o lorde e Shiera respirou fundo, com o copo de cerveja escura em suas mãos – Sobre você vir passar um tempo aqui em Winterfell...

—Seria estranho, já que Sansa e Arya não estariam aqui. – murmurou sem olhá-lo de volta.

—Não seria por Sansa ou Arya. – rebateu o homem e Shiera engoliu em seco, colocando o cálice na mesa – Eu tinha um irmão mais velho... antes da guerra... ele estava prometido a Catelyn... desde que ela tinha doze anos. – Shiera olhou para o homem, com atenção – Mas Brandon, meu irmão, morreu graças ao Rei Louco... e eu acabei me casando com Catelyn no lugar dele... no início foi... foi difícil. – murmurou ele – Mas eu aprendi a amar a minha senhora e ela aprendeu a me amar. E tudo ficou muito fácil. Se der uma chance a Robb, sei que ele poderia facilitar as coisas, também... mas se você não quiser se casar com ele, eu não tomarei como ofensa. – garantiu Lorde Eddard – Nem todas as donzelas do sul conseguem se adaptar ao norte... mesmo depois de tantos anos, Catelyn não se adaptou por completo. Temos costumes muito diferentes aqui.

Shiera suspirou, pensando em Robb e em Jon. Seu coração já tinha um dono e era o bastardo. Por mais que dissessem que o que sentia por ele não passava de uma paixão, ela sabia a verdade.

—Jon irá mesmo para a Muralha? – perguntou ela, sem encarar Lorde Eddard.

—Foi a vontade dele... eu não queria isso... mas ele assim desejou. Eu não posso impedi-lo. – respondeu Lorde Eddard. Shiera soltou um suspiro e chamou uma criada.

—Pode preparar uma bandeja pra mim? Com mel, pães, peixe e bacon frito, por favor? Um pouco de suco ou cerveja também, se possível. Ou melhor, vinho quente com mel. – disse baixinho. A criada concordou e logo voltou com o que tinha pedido – Com sua licença, Lorde Eddard. – murmurou. O homem concordou com um aceno de cabeça e o rei Robert entrou no salão enquanto saía – Vossa Graça. – disse baixando a cabeça em respeito, tentando não derrubar a bandeja.

—Olhe só pra você. É a coisinha mais linda dos Sete Reinos. – riu o rei a olhando de maneira que se sentiu desconfortável. Porém, sorriu para ele, fingindo-se galanteada, para voltar a subir as escadas. Andou até a enfermaria, onde Bran estava e com alguma dificuldade abriu a porta.

Lady Catelyn mal a olhou. Estava com os olhos pregados no pequeno garoto. Ela não saía de perto dele, nunca. Lembrava-se de quando sua mãe adoecera e que fizera o mesmo, sem sair do leito dela, nem por um momento que fosse.

—Bom dia Lady Stark... eu trouxe um pouco de comida. – disse timidamente. Lady Stark parecia um tanto intimidadora. Antes ela parecia gentil, mas agora ela parecia um bicho protegendo o filhote e Shiera não sabia se seria bem vinda ali ou não. Tinha vindo ver Bran todos os dias, mas nunca ficara mais do que alguns minutos. Vê-lo assim, tão frágil na cama, só fazia com que se recordasse de sua mãe – Se importa se eu entrar? – Lady Stark apenas moveu o rosto em negativa, então ela entrou. Serviu o vinho quente com mel em dois copos e ofereceu um para Lady Stark, que não pareceu notar. Num suspiro, o colocou em cima da cabeceira de Bran e o olhou – Ele é tão lindo. – disse baixinho – Todos os seus filhos são bonitos. – murmurou olhando para Bran – Eu rezei todos os dias no septo e no represeiro, para os Sete e para os Deuses Antigos... rezei para que Bran acordasse logo... – engoliu em seco segurando sua taça – Eu rezei da mesma maneira, anos atrás, quando minha mãe adoeceu... mas os deuses não me escutaram... espero que escutem agora. – sussurrou timidamente. O lobo uivou de novo e Lady Stark fungou, fazendo um objeto com fios. Uma oferenda para os Deuses, um pedido de proteção. Algo que as mães faziam para os filhos, ao pedir para que a Mãe cuide deles. – Há algo que eu possa fazer para ajudar, Lady Stark? – perguntou timidamente.

—Não... não há nada que nenhum de nós possa fazer... – suspirou ela, parecendo muito cansada. Shiera concordou com um aceno de cabeça e mirou Bran.

—Se importa se eu lhe fizer companhia? – perguntou Shiera – Eu gostaria de ficar com Bran, também. Se importa? Eu prometo não atrapalhar.

Lady Stark não respondeu, mas Shiera aceitou aquilo como um “sim”. Portanto passou o resto do dia ali, contando histórias para Bran, acariciando suas pequenas mãozinhas, lhe afagando a cabeça e até cantando para ele. Lady Stark lhe dirigiu um único olhar de gratidão, uma única vez, mas depois voltou a mirar Bran, enquanto enrolava os fios no objeto de madeira que confeccionava para ele e para a Mãe.

Só saiu do quarto depois que o sol se pôs, sentindo-se muito cansada, se perguntando como Lady Stark podia continuar ali durante todos aqueles dias, sem sair para nada.

Acredito que mulheres ganham força e resistência no momento que trazem uma criança para o mundo.

Carregando a bandeja quase intocada e sentindo muita fome, começou a descer os degraus, para as cozinhas. No caminho, no entanto, cruzou com Eddard Stark.

—Eu estava com Lady Stark. – murmurou timidamente – Estava ajudando a cuidar de Bran. – disse apesar de não ser verdade. Estavam alimentando o garoto apenas com água e mel e Lady Stark fazia tudo sozinha, sem permitir que tocassem em seu precioso menino – Mas ele ainda não acordou. Espero que o faça em breve.

—Obrigado, Shiera. – disse Ned Stark com um sorriso pequeno e gentil. Os mesmos sorrisos que Jon dava. Os dois eram tão parecidos. Jon se parecia mais com o pai do que qualquer um de seus irmãos – Catelyn ainda está lá?

—Sim. Não acredito que sairá antes que ele acorde. – respondeu Shiera – Pretendo ajudá-la, se ela me permitir. – adicionou com os olhos baixos – Afinal, logo Winterfell será meu lar e ela será minha mãe.

Lorde Eddard lhe deu outro sorriso tímido e voltou a subir as escadas. Shiera continuou a descer e quando chegou nas cozinhas, viu Jon Snow. Se perguntou se ele sairia como se não a tivesse visto, que era o que ele estivera fazendo.

Mas estava cansada demais para aquele jogo. Apenas colocou a bandeja sobre uma mesa e se virou para uma criada.

—Por favor... qualquer coisa de comer e um pouco de vinho quente com mel. – disse se sentando, sentindo-se dolorida pelo dia. Não dirigiu o olhar a Jon. Não viu necessidade disso. Seria apenas magoar-se mais um pouco.

—Como está Bran? – escutar a voz dele fez com que sua pele se arrepiasse por completo.

—Não houve melhora. – respondeu simplesmente – Mas também não houve piora. – adicionou olhando para ele e vendo seu semblante triste – Mas ele está lutando, eu sei que sim... – soltou um suspiro e se levantou se aproximando dele. Jon desviou o olhar, como se tivesse medo de lhe dirigir o olhar – Por que não foi vê-lo ainda? – perguntou.

—Medo... medo de ser a última vez que vou vê-lo... e a última visão ser ele deitado numa cama... de olhos fechados, sem ouvir ou falar... – murmurou Jon – Sem falar que Lady Stark não me quer lá dentro. Ela não gosta de mim.

Shiera concordou com um aceno de cabeça.

—Bem... espero que Bran acorde antes que você parta para a Muralha. – disse olhando para ele. Jon concordou com o olhar baixo e suspirou.

—Eu também espero.

—Vai mesmo vestir o negro? – perguntou Shiera e Jon finalmente a olhou.

—Sim, eu vou.

—Poderia ao menos me explicar o porquê? Por que recusou a oferta do meu pai para ir servir na Muralha? – perguntou magoada. Jon desviou o olhar e ela se sentiu ainda mais ferida – Achei que gostasse de mim...

Escutaram passos e logo a criada apareceu com a comida. Agradeceu e estava para se sentar, quando Jon segurou sua mão.

—Eu explico se me encontrar no represeiro daqui a alguns minutos. – disse ele. Concordou simplesmente e Jon se aproximou de leve. Por um instante achou que ele lhe daria um beijo, mas o rapaz simplesmente se virou e saiu.

Voltou-se para sua comida e comeu o mais depressa que conseguiu. Depois tentou arrumar um pouco os cabelos e andou apressada para o represeiro. Se sua septã a visse, diria que estava indo rezar para os Deuses Antigos por Bran.

Quando chegou lá, trazendo uma lâmpada de óleo, encontrou Jon, também com uma dessas, de pé, ao lado do represeiro.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, mas ela não tinha vindo ali para ficar em silêncio.

—E então?

—Seu pai disse que... – Jon suspirou como se ainda não soubesse como falar aquilo – Ele me fez uma oferta... para alguém do sul poderia ser irrecusável, mas... – Jon a olhou, colocou sua lanterna no chão e segurou sua mão – Eu sou do Norte, Shiera. Eu tinha esperanças de que um dia meu pai pediria ao rei para que me legitimasse... quando eu ouvi que o rei Robert estava vindo para Winterfell, eu tive esperanças novamente... e se eu fosse um Stark, talvez seu pai me permitisse casar com você e poderíamos viver aqui... mas... mas você foi prometida a Robb. – Jon engoliu em seco – Arya me contou que Lady Stark estava pensando em fazer uma proposta para seu pai... e eu sei que Robb iria gostar... eu não pude ficar no meio disso... eu conheço o meu lugar. Eu sou apenas um bastardo. Meu pai não me legitimizou. Eu não sei quem é minha mãe, não sei se ela está viva ou morta, se ela sabe onde eu estou, se ela sabe como eu cresci... quem sou eu para almejar você? – perguntou ele a olhando nos olhos – E eu não suportaria viver aqui, ao seu lado, com você prometida ou casada com Robb... – Jon lhe afagou a face, enquanto ela escutava aquelas palavras – Ele é digno de você, eu não... eu vou para a Muralha, que é um lugar onde até um bastardo pode ter honra e glória... vou manter você segura...

—Segura de que? – o cortou, inconformada – Selvagens? Acha que os selvagens pulariam a Muralha e atacariam Winterfell? – perguntou magoada e desviando o olhar – Você está fugindo para a Muralha, é isso o que você está fazendo. – disse sem olhá-lo – Se você está tão conformado com a sina de um bastardo, só me resta ficar conformada com a sina de uma pobre garota que não pode escolher o que quer.

—O que você quer? – perguntou ele franzindo a testa – Fugir comigo? Para onde? – questionou ele – Para vivermos numa cabana, ou para dormirmos com os porcos? Casar comigo e ter um Snow? Ou talvez nem nos preocupemos em dar um sobrenome a ele. Venderíamos as suas joias e seus vestidos? E quando o inverno chegasse? Porque ele está chegando... como iríamos sobreviver?

—Iríamos para o sul. E sim, eu dormiria com os porcos, venderia minhas coisas e lhe daria todos os Snows ou Rivers, ou Sands, ou Waters ou Stones que viessem. Se fosse com você, Jon. Porque eu escolhi você para amar com todo o meu coração. Mas você não me escolheu. Você primeiro escolheu o norte... e agora escolheu o negro... e eu vou ficar aqui, pensando que eu poderia estar com você, mas não estou. Você teve coragem de usar uma armadura de torneio e enfrentar os lordes, um ano atrás. Mas não teve coragem de ser aquele homem de armadura, não de verdade.

Se virou para ir embora, sentindo os olhos encherem-se de água, mas as palavras dele a fizeram se interromper.

—Não imaginei que um donzela bem nascida como você compreendesse o que pensa um bastardo como eu. Adeus, Lady Shiera.

Se virou, o olhando completamente magoada.

—E eu não imagino que possa entender como eu me sinto, Snow. – devolveu – Pois só quem ama de verdade sabe o que é sentir-se rejeitada. Admito que esse era um sentimento que nunca imaginei que sentiria. Passar bem.

Deu alguns passos para longe dele, mas sentiu uma mão forte puxá-la de volta. Se virou e sentiu o corpo prensado contra o dele. Os olhos cinzentos dele encararam os seus, perdidos numa confusão de sentimentos. Ele queria. Ele desejava. Só não se permitia. Mas ela não tinha esse pudor. Puxou o rosto dele e o beijou.

Sabia que ele não seria convencido com um simples beijo, mas não havia outra coisa que pudesse fazer. Jon envolveu sua cintura e a beijou de volta. Ficaram alguns minutos, naquele momento secreto, embaixo do represeiro, com os Antigos Deuses como testemunhas de seus sentimentos. Um último momento entre eles. Sentindo o coração bater tão rápido que doía. Podia sentir o coração dele bater da mesma maneira. Sentiu as mãos dele puxarem seu esguio corpo mais para perto, como se ele não quisesse nenhum centímetro os separando. Nada pode fazer além de deixar-se levar. De se entregar a ele. Faria o que ele quisesse. O que ele desejasse. Que os Deuses fossem testemunha de seu amor e de sua entrega.

Quando Jon interrompeu o beijo ele a olhou nos olhos, mas ela não estava pronta para parar e o beijou novamente, mais aflita, mas desesperada e ele fez o mesmo. Parecia doer cada segundo que não tinha os lábios dele contra os seus. O abraçou com força e ele a guiou até o Represeiro. Sentiu o nortenho lhe girar, para que suas costas ficassem contra a árvore. Depois sentiu-se prensada por ele, contra a madeira, com as folhas vermelhas caindo sobre suas cabeças. Sentiu as mãos dele passearem por sua cintura, lutando contra o desejo de explorá-la. Entendia perfeitamente, pois desejava mais do que tudo tocá-lo por debaixo da camisa. Senti-lo, conhecê-lo. Aproveitar o aconchegante vapor quente que se desprendia do pequeno lago do Bosque Sagrado. Sentiu o nortenho lhe morder o lábio com carinho e sorrir de leve, aproveitando o momento. Sorriu também e sentiu um arrepio quando as mãos dele subiram de leve. Achou que ele tocaria seus seios, mas ele não o fez. Suas mãos grandes e calosas pararam em suas costelas, lhe causando arrepios de ansiedade.

—Jon... – sussurrou gemidamente – Me toque... – pediu constrangida e ele obedeceu. O rapaz soltou um ruído parecido com um gemido de satisfação ao apertar seus seios de maneira deliciosa. Mas durou apenas um segundo, pois ele voltou a tocar sua cintura.

—Os... os Deuses. – riu ele, sem jeito.

—Eles não contarão a ninguém. – disse com um sorriso constrangido. Os dois sorriram por um breve momento. Sentiu a mão dele lhe afagar a face, com todo o carinho do mundo.

—Eu jamais vou esquecê-la, Shiera. Adeus.

—Adeus... por favor, tome muito cuidado... o Inverno está chegando...

—O Inverno está chegando.

Ainda nem era uma Stark e já estava repetindo aquelas palavras.

—Eu... eu jamais vou esquecê-lo, também. – jurou para ele. O rapaz engoliu em seco e os dois se encararam por longos segundos. Queria tanto poder ficar com ele e viver aquele sentimento que estava sentindo... mas sabia que Jon não ficaria entre ela e Robb...

Se virou soltando um soluço e voltou para o castelo. Se escondeu em um quarto vazio e chorou. Queria que Aegon estivesse ali para lhe dar um conselho. Valerion simplesmente concordaria com qualquer coisa que seu pai dissesse, mas Aegon era como ela.

Nenhum dos dois nascera para servir ou simplesmente obedecer sem questionar...

**

Sou Daenerys, nascida da Tempestade. Princesa da Pedra do Dragão. Ela disse a si mesma. Enquanto as horas de seu casamento passavam, isso era tudo que ela conseguia fazer sem gritar.

Tinha medo dos Dothrakis, que pareciam assustadores, monstruosos... como se fossem bestas com pele humana.

Ela tinha medo de seu irmão, do que ele poderia fazer se ela falhasse com ele. E acima de tudo, ela tinha medo do que aconteceria naquela noite, quando seu irmão lhe desse a Khal Drogo.

Eu tenho o sangue do Dragão!

Quando o sol estava baixo no céu, os tambores, os gritos e o banquete tiveram uma súbita parada. Era hora dos presentes da noiva. Muitas pessoas vinham lhe entregar presentes. Ostras, figos, um homem lhe entregou uma caixa cheia de serpentes. Sabia que o irmão lhe observava, exigindo que ela fosse simplesmente perfeita.

Mirou timidamente seu futuro marido, pensando no quão enorme ele era.

Viserys lhe trouxe três mulheres, que se ajoelharam com os olhares baixos.

—Essas não são servas comuns, querida irmã. Irri e Jhiqui ensinarão a você a cavalgar e a língua Dothraki. Doreah, as artes do amor. Ela é muito boa, posso jurar isso.

Concordou com um aceno tímido de cabeça e então um homem se aproximou. Alto e forte, muito peludo, apesar de estar ficando careca. E o mais interessante foi que falou no idioma comum.

—Isso é uma coisa pequena princesa. Mas tudo o que um pobre exilado pode presentear. Histórias e canções dos Sete Reinos, escritas na língua comum. – disse ele.

—Obrigada, senhor. – disse timidamente, encantada com o presente – É do meu país?

—Sor Jorah Mormont, da Ilha dos Ursos. – disse ele – Servi seu pai por muitos anos. Pelos deuses, espero sempre servir o rei de direito. – adicionou ele mirando Viserys.

O homem se afastou e então Illyrio veio. Ela sabia que ele podia se dispor a ser luxuoso. Tinha coletado uma fortuna em cavalos e escravos, sua parte na venda dela.

Alguns escravos dela apareceram com uma bonita caixa de madeira, que foi aberta aos seus pés. Três lindas pedras coloridas jaziam lá dentro. Sua imaginação fértil lhe permitiu sonhar com o que seriam, mas não quis se iludir.

—O que são eles? – perguntou quase sem ar.

—Ovos de dragões, das terras das sombras, além de Assahai. As eras os transformaram em pedra, mas eles ainda brilham com beleza. – disse Illyrio.

Três ovos. Cada um de uma cor. O primeiro era verde, com detalhes em ouro e cobre em seu topo, com marcas que lembravam escamas. O segundo era cor de pérola, com detalhes em ouro brilhante como o sol, que parecia escorrer do topo até a base do ovo. O terceiro era negro, com uma linha rubi escarlate, que descia em espiral e ondas por ele.

—Eu os carregarei comigo sempre. – disse atordoada com tal presente.

Outros presentes ela teve em abundância. Os companheiros de sangue de Khal Drogo ofereceram a ela armas, cuja tradição dizia que seu marido carregaria. Outros Dothraki lhe deram chinelos, joias e anéis de prata para o seu cabelo. Vasos de perfume, vestes pintadas, pequenas garrafas de vidro púrpura, um vestido feito da pele de vários roedores, entre outras coisas.

Foi quando um rapaz apareceu. Ele parecia ter a idade de Viserys, apesar de ser mais alto, mais forte e parecer mais perigoso. Ele tinha uma barba fechada, rente ao rosto, pintada de azul, assim como os cabelos, na altura do maxilar e lisos. Ele lhe dirigiu um sorriso quase insolente e se colocou de joelhos.

Não era a primeira vez que o via. Ele tinha aparecido cedo no casamento, com vestes estranhas, um chapéu emplumado e um tonel de vinho. Um dothraki julgou que não tinha gostado dele e os dois brigaram, com o dothraki acabando morto. Sabia que um casamento dothraki sem pelo menos três mortes era considerado tedioso, mas ela sentiu que seu marido não gostou de ver aquele homem matando um dos seus.

—Olá, khaleesi. – disse ele com uma voz grave e forte – Espero que goste do meu presente. – mas ele não trazia nada. Na verdade, ele parecia muito bêbado. Khal Drogo soltou um barulho, como um rosnado e o homem piscou confuso, olhando para trás – Onde está aquele idiota com meu maldito presente?! – rosnou ele em alto valiriano. Dois homens, que também pareciam ter bebido mais do que deveriam, apareceram apressados, trazendo um baú, ainda maior do que o de Illyrio – Eu devia arrancar suas orelhas... – então ele se virou para ela e disse no idioma comum – Desculpe-me, princesa. Aqui está. – ele abriu o baú e Dany piscou, surpresa. Uma linda coroa de ouro, delicada, com três pequenas cabeças de dragão, com olhos de rubi estava ali, sobre uma longa, mas delgada espada de um aço diferente e rajado, que ela nunca tinha visto, mas julgava ser aço valiriano, que estava sobre muitas e muitas joias, ouro e pedras preciosas – Um presente de Nyessos, o grande Rei Pirata de Volantis. – adicionou ele retirando o chapéu e fazendo uma reverência.

—Você é um pirata? – perguntou olhando para aquele baú e imaginando quantos navios ele havia pilhado para lhe dar aquilo.

—Por pouco tempo, se tudo der certo. – riu ele lhe lançando um sorriso divertido. Ele andou então até Viserys e se ajoelhou – Eu pretendo jurar lealdade ao rei Viserys, legítimo rei dos Sete Reinos. Tenho cinco navios a sua disposição, Vossa Graça. Quando pretender recuperar seu trono, pode contar com meus homens e com minha espada. – disse ele para Viserys, que sorriu pomposo.

—Sempre há espaço para mais um fiel súdito.

—Sim, Vossa Graça. – concordou Nyessos.

Daenerys suspirou achando-o muito bonito, mas sua mente logo se desviou daqueles pensamentos, quando seu marido se levantou, para conduzi-la ao seu próprio presente.

Ela o seguiu e Drogo lhe trouxe um maravilhoso cavalo. Uma égua que não parecia normal. Havia algo nela que tirava seu fôlego. Cinza como o inverno e com uma crina como poeira prateada.

—O que devo fazer? – perguntou Daenerys, insegura, enquanto Drogo a pegava no colo e a colocava em cima da égua.

—Segure as rédeas e cavalgue. Não precisa ir muito longe.

Rezando para que não caísse e desgraçasse a si mesma, ela comandou a égua com o mais leve e tímido toque possível de seus joelhos. A égua começou a trotar e pela primeira vez em horas Daenerys esqueceu de ter medo.

Ou talvez fosse só a primeira vez em sua vida...

Cavalgou alegremente e deu alguns saltos, sentindo-se muito bem consigo mesma. Depois parou em frente ao marido e Illyrio.

—Diga a Khal Drogo que ele me deu o vento.

Illyrio disse alguma coisa qualquer a Drogo, que rosnou com um sorriso.

—É a hora, vá até ele. – disse Viserys se aproximando – Agrade-o, querida irmã, ou juro a você que verás o dragão acordar como nunca acordou antes.

E o medo voltou a ela, então.

Eu tenho o sangue do Dragão!

Khal Drogo subiu em seu próprio cavalo e começou a guiá-la para a praia.

Eu tenho o sangue do Dragão...

E o dragão nunca tinha medo.

Quando chegaram em um lugar deserto, Khal Drogo a tirou de sua égua, como se não passasse de uma simples boneca de pano. Ela se sentia frágil como vidro em suas mãos enormes. Seus membros tão fracos quando água. Assustada e com medo, começou a chorar.

—Não. – murmurou Khal Drogo.

—Você... você fala a língua comum?

—Não. – respondeu ele a colocando no chão e a guiando para um lugar na relva. Ele se sentou e ela se sentou ao seu lado. Talvez ele sabia somente essa palavra, mas isso era mais do que ela sabia sobre ele. Algo que a fez se sentir um pouco melhor. Drogo lhe entregou a própria trança e ela começou a tirar os sinos e a desfazê-la, aos poucos. Ele então levou suas mãos aos cordões de couro que prendiam seu gibão e ela o despiu com as mãos trêmulas. O Khal a despiu também a olhando com atenção e, num momento de timidez, escondeu os próprios seios, envergonhada. Mas ele baixou suas mãos – Não. – disse ele gentilmente.

—Não...

Ele terminou de despi-la calmamente e ela começou a permitir que ele lhe acariciasse a pele. Depois de alguns afagos, ele a puxou para perto.

—Não?

Respirou fundo e sorriu, antes de olhar para ele.

—Sim.

**

Fazia mais de uma semana que o senhor seu pai tinha partido com o Rei. Mas Shiera ficara. Lorde Blackfyre dissera que visitaria Porto Real, pois precisava rever velhos amigos e resolver algumas questões pessoais, então visitaria Casterly Rock, depois voltaria até o norte, para ver a Muralha e na volta pra casa levaria Shiera, ou casaria a filha.

Ela ficaria ali por pelo menos uns seis meses, dependendo de quanto tempo levariam os negócios de Lorde Haegon.

Mas mesmo Lady Shiera não era seu principal pensamento. Sua mãe quem o preocupava. Lady Shiera passava o dia todo com ela, saindo apenas a noite e o cansaço estava muito bem desenhado em seu rosto bonito. Sua mãe, então, parecia só uma sombra do que costumava ser.

Sabia que Meistre Luwin tinha dito que conversaria com ela, mas Robb conhecia sua mãe o suficiente para saber que ela não cederia fácil. Por isso foi até a enfermaria e a pegou conversando calorosamente com o Meistre.

—Sim, minha senhora, mas as nomeações... – explicava o Meistre, mas Robb o interrompeu antes que sua mãe o fizesse.

—Eu farei as nomeações. – disse Robb segurando um pedaço de pergaminho. Shiera estava bordando ao lado da cama de Bran e o olhou preocupadamente, mas ele não tinha vindo ali para flertar com ela – Eu preparei uma lista daqueles que podemos considerar. Falaremos sobre eles amanhã. Agora deixe-nos. – disse Robb.

—Deseja que eu me retire, Sor Robb? – perguntou Shiera.

—Não. – disse ele – Ou talvez sim... – murmurou. Lady Shiera se levantou e saiu calmamente da enfermaria, fechando a porta atrás de si. Andou até a janela, a abrindo, e suspirou – Mãe, quando foi a última vez que saiu deste quarto?

—Eu tenho que cuidar dele. – replicou sua mãe, ainda fazendo aquele amuleto para a Mãe.

—Ele não vai morrer. – disse sem paciência para aquilo. – Meistre Luwin disse que o perigo já passou...

—E se ele estiver errado? – cortou sua mãe – Bran precisa de mim!

—Rickon precisa de você! – discordou Robb – Ele tem seis anos. Ele não sabe o que está acontecendo, me segue o dia inteiro, choramingando, confuso, achando que foi abandonado pelas irmãs, pelo pai e por você... – disse enquanto os lobos uivavam lá fora.

—FECHE AS JANELAS! – gritou sua mãe – Não posso suportar! Por favor! Os faça parar! Mate todos eles se for preciso, mas faça-os parar!

—Não tenha medo, mãe. Eles nunca machucariam Bran ou você. Por favor, descanse. Você mal dormiu desde...

—Eu não posso. – disse ela entre o uivo dos cães – E se ele morrer enquanto eu estiver adormecida? Eu não posso... OH, DEUSES, FECHE AS JANELAS!

—Eu fecharei se você prometer dormir, mas... – Robb se interrompeu, escutando algo estranho – Espere... os cachorros também estão latindo... eles nunca... – olhou pela janela e viu fumaça e fogo na torre da biblioteca. – Droga! Mãe! Fique aqui. Voltarei assim que o fogo acabar.

Saiu pela porta, apressado e cruzou com Shiera no corredor. Ela o olhou confusa e se aproximou.

—O que houve?

—Fogo, no edifício da biblioteca. Fique aqui com a minha mãe, ok? – perguntou para ela. Shiera negou com a cabeça.

—Eu vou com você. – disse ela decidida.

—Não, fique aqui e...

—Se vamos nos casar, é bom que você aprenda uma coisa, Robb. Eu raramente aceito um não como resposta. – disse ela, teimosamente.

Robb concordou com um sorrisinho e os dois foram até a biblioteca. Apesar de usar um vestido, Shiera não se intimidou de pegar um balde com neve para ajudar a conter o incêndio. Ela não se preocupou de ficar com o rosto sujo com a fuligem e nem teve medo das chamas. Nem parecia uma dama do sul.

Quando o incêndio foi contido, ambos estavam suados e cansados, mas orgulhosos de seus esforços. Robb pediu para que alguns criados procurassem pelo que poderia ter começado o incêndio e começou a voltar para a enfermaria.

—Então... sobre esse casamento. O que pensa disso? – perguntou para ela.

—É uma honra servir a Casa Stark. – disse ela ensaiadamente, sem o menor entusiasmo e isso o deixou extremamente constrangido. Nunca imaginou que ficaria mais ansioso por um casamento do que a própria noiva. Ele era o herdeiro de Winterfell, afinal.

—Prometo honrá-la e respeitá-la, milady. – disse intimidado pela falta de entusiasmo dela.

—Prometo o mesmo, sor Robb. Espero não desapontá-lo. – ela disse, simplesmente, apressando o passo. Robb soltou um suspiro e a seguiu para o quarto da enfermaria. Assim que entraram, levaram um choque, pois encontraram sua mãe sentada num chão ensanguentado. O lobo de Bran estava com a boca suja de sangue, em cima da cama e havia um homem morto, com a garganta estraçalhada no chão – Oh! Lady Stark! – disse Shiera entrando no quarto e se ajoelhando em frente a ela – Robb, as mãos delas estão feridas!

—Chame Meistre Luwin! – disse se aproximando do homem – O que aconteceu aqui?

—Ele tentou matar Bran... mas o lobo o protegeu... – murmurou sua mãe, parecendo em choque – Não tire o lobo daqui, Robb...

Envolveu a mãe num cobertor e a levou a seus aposentos. Pediu que a velha governanta lhe desse um banho e Meistre Luwin cuidou de suas feridas.

Finalmente sua mãe conseguiu descansar e dormir. Por um momento ficou preocupado que ela não acordasse mais. Shiera continuou sua vigília com Bran, no lugar de sua mãe, apesar de não virar a noite e não pular refeições.

Ele preferiu não visitá-la nesse meio tempo. Tinha que administrar Winterfell e precisava aprender a fazer isso o mais rápido possível.

Notas finais
O que acharam? Comentem, ok? Beeijos da Tia ^~