Blackfyre
44 O Fantasma das Masmorras
Notas iniciais

O Fantasma das Masmorras
Robb abriu os olhos. Sentia o sangue escorrendo pelo alto de sua cabeça. Suas mãos estavam amarradas em suas costas. O tinham amordaçado e amarrado num poste qualquer. Sentia fome e sede e se perguntava se o plano deles era deixá-lo morrer de sede ou fome. Não imaginava que faltasse muito pra isso. Estava fraco e sua mente não pensava direito. Só conseguia pensar que precisava fugir. Precisava ajudar Shiera... mas nem sequer sabia quem era seu captor. Não via estandartes com eles e certamente não eram da Irmandade. Estava tão próximo de Winterfell... mas agora...
Cerrou seus olhos só por um momento e quando voltou a abri-los, notou que tinha caído no sono. Uma mulher qualquer lhe ofereceu um pouco de água e ele sorveu o máximo que conseguiu. Depois ela lhe deu alguns pedaços de pão duro e ele comeu agradecido. Antes que pudesse falar qualquer coisa, como perguntar o nome dela, pedir ajuda ou agradecer, ela o amordaçou de novo e saiu. O cansaço o fez adormecer e só acordou quando um meistre qualquer começou a limpar sua ferida da cabeça.
—Vou ter que tirar um bom pedaço de carne daqui, sinto muito. – murmurou o homem e Robb notou que ele não usava uma corrente de Meistre, apesar de se vestir como um e ter as marcas no pescoço, que denunciavam que em algum momento ele possuíra as correntes – Mas é que a ferida começou a necrosar...
—Quem é você?
O homem tinha gentis olhos castanhos e mãos delicadas ao mexer em seus ferimentos. Parecia já bastante velho, na casa dos sessenta ou setenta. E Robb não conseguia deixar de olhar para as marcas deixadas pelas correntes ao redor de seu pescoço.
—Já fui chamado de Meistre Qyburn, mas agora pode me chamar apenas de Qyburn como provavelmente já notou. Fui um meistre certa vez, mas não o sou mais. – respondeu ele limpando sua ferida – Aceita um pouco de rum? – perguntou ele lhe oferecendo uma garrafa de madeira – Quando eu começar a arrancar a carne podre, vai doer. – Robb engoliu em seco e concordou com um aceno de cabeça. Com muito cuidado o velho lhe ajudou a beber longos goles, que desceram queimando da garganta até o estômago – Você levou uma bela pancada na cabeça. – disse o homem pegando seus utensílios para começar a cuidar de seu ferimento.
—Eu... por que me prenderam? Eu... eu preciso...
—Acham que você é um batedor de Stannis. – explicou Qyburn com a voz muito suave e tranquila. Como se fosse um avô ajudando o neto a limpar os cabelos. Só que era um velho arrancando a carne podre do topo da cabeça de um homem feito – Roose Bolton contratou os Bravos Companheiros para capturar batedores e fazer reconhecimentos. Ele está convencido que Stannis vai atacar a qualquer momento. – explicou ele. Robb tentou forçar as cordas que prendiam seus pulsos, mas logo notou que estava muito bem preso – Logo Vargo Hoat vai decidir o que vai fazer com você. Provavelmente vai colocá-lo pra lutar com o urso... – Qyburn soltou um suspiro com uma ligeira reprovação – Me pergunto o motivo dele insistir que eu cuide dos ferimentos dos outros se ele vai jogá-los naquela vala com o urso. – resmungou ele. Robb sentiu o peito acelerar. Não tinha tempo para aquele tipo de coisa.
—Eu preciso ir até Winterfell. Não sou um homem de Stannis. Eu sou do Norte. – explicou olhando Qyburn, que concordou com um aceno de cabeça.
—Eu imaginei... pelo seu sotaque. Além disso, você estava andando sozinho no meio da floresta, indo em direção a Winterfell... Só poderia ser daqui mesmo. É um caçador? – perguntou Qyburn, muito gentilmente. Robb negou com um aceno de cabeça.
—Eu... eu sou dos canis. – respondeu fracamente – Ajudava a cuidar dos lobos dos Stark. Eles tinham seis lobos gigantes.
—Eu ouvi histórias sobre isso. – murmurou o velho, colocando um pedaço de madeira em sua boca, para que mordesse. Depois ele começou a arrancar a carne podre e Robb gritou de agonia – Ouvi que o rei e a rainha do Norte lutavam juntos no campo de batalha, ao lado de seus ferozes lobos gigantes. Alguns diziam que eles se transformavam em lobos e devoravam os corpos de seus inimigos. – Robb ainda estava rosnando de dor, mordendo o pedaço de madeira com força, então não se deu ao trabalho de responder a aquela bobagem – Tolices, é claro... apesar que parece que o Jovem Lobo realmente lutava com um lobo feroz. Isso deveria aterrorizar seus inimigos. – murmurou ele e quase que Robb não pode escutá-lo. Qyburn ainda levou alguns minutos limpando a ferida e quando terminou, Robb arfava suado e trêmulo – Pronto. Se limparmos todos os dias, não vai ter nenhum problema com isso. Não foi um corte tão profundo. Provavelmente o seu cabelo esconderá a cicatriz... – disse ele como se aquilo fosse importante. O velho se levantou e Robb o olhou, cansado e sem energias.
—Eu preciso voltar para Winterfell...
—Falarei com Vargo. – disse o Meistre – Estamos todos indo para lá. Essa noite Roose Bolton desposará a viúva do Jovem Lobo. – explicou Qyburn. Robb piscou, antônito, e olhou para o velho, em choque.
—O que?! – perguntou sem entender e Qyburn sorriu gentilmente.
—Já fazem dezessete dias que Vargo Hoat te fez prisioneiro. Mas não me admira que não tenha notado... não é do feitio de Vargo tratar seus prisioneiros com alguma humanidade. – ele balançou a cabeça como se reprovasse isso – Bem... poupe suas energias. Se tiver sorte, vai ir para as masmorras de Winterfell... e algum outro homem que não o bastardo de Bolton irá executar você. Dizem que ele esfola todos aqueles em que põe as mãos. Não aprecio os métodos deles... espero que tenha um futuro menos doloroso. Agora, se me permite... eu tenho que cuidar dos ferimentos de outro batedor que encontraram alguns dias atrás.
**
Estava em frente ao represeiro. Shiera usava um vestido cinza claro, com detalhes azuis. Seus ombros estavam enfeitados com belas peles de lobo. Seus cabelos estavam presos num penteado nortenho, negros como o ébano. Sua face estava rosada, seus lábios vermelhos e seus olhos brilhavam de maneira quase sobrenatural, refletindo a luz dos archotes daquela noite fria. Lorde Karstark quem a trazia, mas não parecia feliz por isso. Lady Mormont também não parecia nada contente. Mas ele não se importava. Shiera era linda e em breve seria completamente dele. Roose Bolton nunca se sentira tão satisfeito. Valera a pena esperar todos os dezessete dias.
Ramsay estava ao seu lado, num bonito gibão rosa e vermelho. As cores dos Bolton. Do outro lado estava Barbrey Dustin, irmã de sua primeira esposa. Ela contemplou Shiera Stark e deu uma risadinha, inclinando-se para ficar mais próxima.
—Eu tenho que dizer, Roose. Você sonha alto. – riu ela – Um homem da sua idade com uma menina como ela. Deveria ter pedido que legitimassem Ramsay e dado a garota para ele. – Ramsay lhe deu um olhar divertido e Roose negou com a cabeça.
—Ramsay terá apenas o que merecer. – respondeu num sussurro e seu bastardo desviou o olhar – E ele não merece essa mulher.
—E suponho que você sim. – riu Barbrey. Apenas a olhou com frieza, mas a distinta senhora Dustin não pareceu se intimidar. Ela riu novamente olhando com desdém para Shiera, que se aproximava lentamente – Me pergunto se lhe restou sangue o suficiente para fazer suas partes funcionarem adequadamente. Soube que se um homem não tem sangue o suficiente, não consegue funcionar lá embaixo. – provocou ela. Todos sabiam que ele gostava de fazer sangrias em si mesmo. Melhoravam sua saúde. Há muitos anos colocava sanguessugas nos pés e nos braços para que lhe tirassem o excesso de sangue que poderia lhe causar doenças. Nunca mais ficara doente depois que começara a fazer isso. No entanto, sua pele empalideceu e amoleceu um pouco, lhe deixando com uma aparecência um pouco mais jovem, porém, pálida demais.
Por isso não deu espaço para bobas provocações. Não era de agora que faziam esse tipo de brincadeira com ele. A diferença era que Lady Dustin o fazia em sua cara, e não pelas costas.
Quando Lady Shiera e Lorde Karstark chegaram embaixo do represeiro, Lady Dustin se adiantou e perguntou.
—Quem vem até os Antigos Deuses essa noite? – perguntou ela com sua voz firme e solene. Roose notou que Shiera parecia completamente infeliz ali, mas não se importou nem um pouco com isso. Aquilo era política e ela sabia no que estava se metendo quando aceitou seu convite e proposta de paz. Ela flertara com ele, na intenção de manipulá-lo, tempos atrás. Ela mostrara a ele algo que ele desejou. E ele sempre tomava aquilo que desejava.
—É Shiera, da Casa Stark, que vem para se casar. – respondeu Lorde Karstark. Ele falou firme, apesar de não ter alegria em sua voz – Uma mulher crescida, nobre de nascimento, tornada Stark pelo casamento com Robb Stark, agora falecido. Ela apresenta-se para pedir a bênção dos Deuses para casar-se novamente. Quem se apresenta para reivindicá-la?
Roose deu dois passos na direção de sua recente conquista. A mais bela mulher de toda Westeros.
—Roose, da Casa Bolton. Lorde de Winterfell e de Forte do Pavor. Protetor do Norte. Quem dá a mão dela?
—Richard Karstark. Juramentado a Winterfell e aos Stark. – respondeu Lorde Karstark – Senhor de Karhold.
—Senhora Shiera. Você aceita esse homem? – perguntou Lady Dustin. Roose a encarou com expectativa e ela falou sem hesitar, com a voz firme e decidida. Ela o olhava nos olhos com gélida indiferença.
—Eu aceito este homem. – disse ela dando um passo na direção dele. Roose sorriu satisfeito e tomou sua mão. Não haveria a troca de mantos por esse ser um costume da fé dos Sete. Tanto Shiera quanto Roose seguiam a fé dos Deuses Antigos, diferente de Robb Stark, que parecia cultuar as duas religiões.
—Roose Bolton. – chamou Lorde Karstark – Você aceita essa mulher?
—Eu aceito esta mulher. – respondeu Roose a olhando nos olhos e vendo que ela já não parecia ter tanto medo dele quanto antes. Ou ao menos agora sabia como disfarçar. Estava feito, ela era sua esposa. Os senhores e senhoras aplaudiram sem muito entusiasmo e Roose a guiou de volta para o Grande Salão, onde um banquete os aguardava.
O castelo estava muito cheio. Roose chamara o Norte, para jurar lealdade e confirmar os votos ao novo Protetor do Norte. Lorde Baelish convocara os Senhores do rio, já que era o Lorde do Tridente. As únicas casas aliadas ausentes eram os Tully e os Blackfyre, já que o Lorde do castelo de Harrenhal era refém em Porto Real e Lorde Edmure estava cativo nas Gêmeas. E ninguém achou sensato que fosse permitido a Valerion trazer seu exército para o Norte. Walder Frey estava ali, se empanturrando de torta, ao lado de Lorde Manderly, fazendo graça da sorte que o filho do Lorde de Porto Branco ter sobrevivido ao Casamento Vermelho e fugido. Mas Lorde Manderly estava até de bom humor sem parecer guardar rancor. Blackwood e Bracken estavam o mais longe possível um do outro, como sempre. Lady Mormont estava fazendo companhia a Lorde Karstark e os dois pareciam muito sombrios aquela noite. Ambos tinham um óbvio carinho pela rainha e não queriam vê-la se casar com um Bolton, mas a honra fez com que a seguissem assim mesmo. Lorde Whent estava ali, assim como Lorde Butterwell, os Charlton, os Deddings, Harlton, Mallister e Smallwood. E muitas outras casas das Terras Fluviais, antes leais aos Stark e agora abraçadas pela paz ao Trono de Ferro. Lorde Petyr estava ali para administrar os acordos e punições para essas casas, por conta de suas traições. A Coroa certamente iria pilhar os recursos de todos os senhores das terras fluviais.
Em contrapartida, Roose precisaria reconquistar o Norte, pois muitas casas tinham dado as costas para o acordo de paz. Pouquíssimas concordaram em se render. Apenas os Mormont, os Karstark e os Manderly. Dava graças aos deuses pelos Manderly, pois eram a Casa mais rica do Norte e Porto Branco era o único grande porto de toda a região a cima do Gargalo. Seria de extrema ajuda para trazer reforços Lannister para manter a paz do Rei.
Estava sentado no cadeirão do senhor, com Shiera ao seu lado. Ela estava séria e com expressão fechada, mas seguia muito bonita. Mais do que nunca ela parecia uma rainha. Seu rosto já não tinha mais nada de infantil. Ela era uma mulher feita. Era, provavelmente, o homem mais invejado do salão. Mas Roose não estava confiante de que ela não estava tramando alguma coisa. Havia ordenado que os homens revistassem o quarto, atrás de lâminas escondidas. Não duvidava de que ela tentasse executá-lo quando estivessem sozinhos. Era o tipo de plano que Shiera faria. Casar-se com ele e matá-lo na noite de núpcias, para reivindicar o castelo pra si. Mas ele não seria morto por ela.
O banquete seguiu sem grandes surpresas. Apenas uma confusão ou outra. Um soldado ou outro que ficara bêbado demais. Muito comum entre os Bravos Companheiros. Vargo Hoat tentara arrancar o pé de um soldado Frey qualquer e isso gerou alguma baderna, mas nada que não fosse rapidamente contornado.
Shiera logo pediu um pouco de vinho, mas ele não permitiu que ela bebesse. A queria completamente sóbria para a noite de núpcias, mas como ela não perguntou o motivo da proibição, ele não se deu ao trabalho de explicar. Quase no fim do banquete, o líder da companhia mercenária veio se aproximando, com um sorrisinho bêbado. Sua comprida barba trançada sacudindo junto com seu balançar ao andar.
—Roose Bolton! Protetor do Norte. – riu ele olhando para Shiera com um olhar cheio de luxúria. Shiera o olhou com algum nojo e desviou o olhar – Dá pra entender o motivo de ter traído o garoto Stark. Que potranca. – riu Hoat e Shiera pareceu mais enojada ainda, por mais que não dissesse nada.
—O que quer, Hoat? – perguntou Roose.
—Trouxe alguns prisioneiros que capturamos na floresta nos últimos dias. – riu ele – Talvez queira dar uma olhada. Provavelmente são batedores.
—Não os interrogou antes de trazê-los pra cá? – perguntou com frieza e Vargo sorriu abrindo os braços.
—Eu não queria me atrasar para a festa. – riu ele e Shiera soltou um muxoxo.
—Stannis pode nos atacar a qualquer momento e você preocupado em chegar cedo e beber tudo o que conseguisse alcançar? – perguntou ela com desprezo e Hoat sorriu para ela, antes de arrotar.
—Tenho certeza de que não precisa ficar preocupada, alteza. – riu ele com deboche – Está frio pra caralho lá fora, enquanto estamos alimentados, bêbados e quentinhos aqui. Alguns em ótima companhia. – adicionou ele se curvando para ela e Roose cogitou esfaquiá-lo – Stannis vai ficar com o cu congelado antes de conseguir conquistar Winterfell, não se preocupe. – adicionou ele recuando e se afastando – Falarei pro seu bastardo cuidar dos prisioneiros, Roose. – riu ele enfiando a faca numa linguiça que Lorde Blackwood estava prestes a pegar – Se não se importa, isso parece estar uma delícia. – riu Hoat mordendo a linguiça e se afastando.
—Me dê a cabeça dele como presente de casamento. – resmungou Shiera, parecendo enfezada.
—Não me parece uma ideia ruim... mas por enquanto precisamos dele. – disse Roose – Enquanto não sabemos da localização de Stannis, pelo menos. – suspirou Roose. Depois olhou a esposa e bufou – Pode me dizer onde ele está? Com seus sonhos proféticos?
—Depois que me afoguei no rio, nunca mais tive meus sonhos. – respondeu ela sem encará-lo. Ela parecia antes com raiva do que infeliz. Cada vez mais interessante.
Quando chegou o fim da festa, Roose declarou que não teria a cerimônia de núpcias, onde despiam a noiva. Não havia motivo, já que ela não era mais virgem. Foram guiados pelos Lordes até o quarto e quando chegaram lá, Roose fechou a porta ficando a sós com Shiera. Ela parecia desgostosa, mas não demonstrava medo. Roose sentou-se na cama e averiguou o colchão, as cobertas e os travesseiros, mas não haviam lâminas. A única lâmina próxima parecia ser a sua espada. Então olhou para Shiera e sacou a espada a colocando sobre as coxas, depois de se sentar na cama.
—Tire a roupa. – exigiu. Shiera obedeceu, sem parecer se envergonhar. Uma mulher como ela não tem do que sentir vergonha, imagino. Ela despiu peça por peça, até ficar completamente nua.
—Sua vez. – respondeu ela de pé, há poucos metros dele. Jogou a espada no canto do quarto e se despiu também. Depois apontou para a cama.
—Deite-se. – exigiu e Shiera negou com a cabeça.
—Sente-se. – Devolveu ela.
—Não é você quem dá as ordens, Shiera. Você é minha esposa e agirá como tal. – disse calmamente. Não se importaria de usar a força com ela. Shiera era pequena e magra e não daria trabalho para ser subjulgada. Mas ela não se moveu como ele imaginou que ela faria.
—Sou sua esposa, não uma serva. Seremos parceiros e regeremos o Norte juntos. – disse ela com determinação. Roose se levantou e andou até ela, para acariciá-la no rosto.
—Uma esposa e não uma serva? – perguntou ele com gentileza – O que acha que é uma esposa? – perguntou a afagando no queixo – Winterfell é meu castelo. Forte do Pavor é meu também, assim como o Norte e todos os lordes que vivem nele, assim como cada camponês, caçador, cavalariço, ferreiro, porco, ovelha, cavalo. Tudo é meu e isso inclui você. – explicou ele a olhando nos olhos. Shiera estremeceu enquanto ele descia as mãos para os ombros alvos dela – Você me pertence e como tal... – a fez se virar e a jogou com violência na cama. Antes que ela pudesse se virar, subiu em cima dela e a puxou pelos cabelos, a fazendo soltar um gemido de dor – Sou eu que decido como usá-la, quando usá-la e onde usá-la. Se não obedecer... – ele a fez olhar para um escudo Bolton que havia pendurado na parede, com o homem esfolado rosa num fundo azul – Aquilo é o que acontece. – respirou no cangote dela enquanto a apertava no quadril com a mão livre. Shiera respirava rápido e tinha os olhos fechados. Ela tremia de leve e ele gostou daquilo. Ela sentia medo. E um pouco de medo não faria mal a ela. A ensinaria a abaixar a cabeça e a obedecer – Não vou esfolar um lugar muito grande, não no início. – prometeu ele – Será um dedo do pé, pois quero que continue bela. E eu lhe garanto que se for esfolada nunca mais irá querer se rebelar. Na nossa família nós dizemos: um homem nu esconde alguns segredos, mas um homem esfolado, nenhum... – respirou mais uma vez o perfume natural dela, apreciando o cheiro de lavanda e grosélia que ela tinha. Shiera ficou imóvel, apesar de ainda tremer. Suspirou e colocou os dedos na fenda dela. A acariciou um pouco para que ficasse húmido o suficiente e então guiou seu membro para dentro dela. Shiera ficou tensa e ele notou que ela apertou as cobertas feitas de pele de lobo. Não conseguia ver o rosto dela, mas imaginava que ela deveria estar infeliz – Eu confesso que esperei que lutaria mais. – disse a estocando com força. Shiera bufou e nada disse, mas depois de uma estocada forte de sua parte ela gemeu de dor.
—Eu ainda vou ver você morto. – rosnou ela o olhando com ferocidade. A esbofeteou na orelha com tanta força que ela desmontou na cama, parecendo quase desmaiada, mas isso não o fez parar. Tinha uma obrigação de marido para cumprir. A colocou de frente, por mais zonza que ela estivesse e se meteu entre as pernas dela. Shiera não disse mais nada. Ficou mirando o teto, quieta como uma morta, como todas suas esposas fizeram antes dela.
**
Rickard Karstark entrou furioso no grande salão de Winterfell. Ele fora prestar uma visita à Lady Shiera, para ver se ela estava bem e viu o rosto da garota. A lateral da face estava com um feio hematoma, que denuncirara algum golpe violento. Além disso a pobre menina não parecia capaz de sorrir ou falar mais do que algumas poucas palavras. Ela estava completamente infeliz e tinha sido agredida. E por mais que não pudesse acusar Roose Bolton de estupro, afinal ele era o marido da pobre menina, era exatamente isso o que tinha acontecido na noite anterior.
E fui eu o homem a entregá-la a Roose, em frente aos deuses. Nunca deveríamos ter concordado com esse plano. Ela não vai ter um dia sequer de paz enquanto Stannis não chegar com os pequenos senhores do Norte e o que restou do nosso pequeno exército. Atacar por dentro e por fora ao mesmo tempo pareceu uma excelente ideia quando foi proposta, mas agora... o preço que pagamos para colocar parte de nossas forças aqui dentro me parece alto demais.
—Roose! – rosnou sem se importar em mostrar decoro. Lorde Petyr estava conversando com Lorde Roose e Lorde Bracken, para calcular o preço da traição do lorde sulista, mas todos se calaram e olharam para o senhor de Karhold – Roose, seu maldito! Como ousa?! – rosnou ele.
—Como ouso o que? – perguntou Roose com seu típico e irritante tom baixo, quase sussurrado. O homem o olhava com tamanha frieza que não ficaria surpreso se descobrisse que os olhos dele eram feitos de gelo.
—Você bateu nela, Roose! – rosnou Karstark – Você a esbofeteou, no rosto. A menina está com um hematoma na cara do tamanho da minha mão. Como ousa?! – rosnou indignado. Sua esposa já havia morrido há anos e eles não haviam se casado por amor. Alys era uma preciosidade do norte, muito bonita e jovial, assim como a filha de ambos, que herdara o nome da mãe. Mas ele e a esposa tinham seus desentendimentos e brigas, porém, nunca, em momento algum, jamais cogitara levantar a mão contra ela. Mesmo que Alys já lhe tivesse dado um tapa bem dado na cara quando ele foi flertar com uma camareira depois de muita bebida em Karhold. Rickard jamais levantara a mão para bater na filha, tampouco, apesar de Harry já ter levado uma boa surra quando ainda era um molecote. Para o senhor de Karhold, um lorde machucar uma mulher, principalmente sua esposa, era um ato de extrema repulsa – Uma garota, ela é apenas uma garotinha e você bateu nela antes de enfiar essa sanguessuga que você chama de pau dentro dela! Como teve a audácia de fazer isso?!
Roose nem piscou. Ele o olhava com um jeito levemente entediado. Lorde Bracken olhou para Roose com repulsa e se levantou.
—Você bateu na garota?! Na primeira noite de casamento? – perguntou o lorde sulista, também obviamente indignado. Lorde Bracken fora amigo pessoal de Lorde Haegon e suas filhas cresceram com Shiera. Ele vira a menina nascer, crescer e se tornar uma mulher e provavelmente saber que o homem com quem ela se casara na intenção de fazer paz a espancara na noite de núpcias deveria ser algo repugnante – Como se atreve?
—Shiera é minha esposa e o modo como eu lido com ela não é da conta de nenhum de vocês. – disse Roose sem parecer se importar com nada.
—Shiera Stark é minha rainha, Bolton. – cuspiu Rickard.
—Shiera Stark não é rainha de ninguém. A única rainha de Westeros é Cersei Lannister. – disse Roose – Shiera agora é uma Bolton e ela me pertence. Então retire-se, Lorde Karstark e lembre-se a quem você deve sua lealdade. – adicionou Roose e Rickard sentiu a mão coçar para sacar sua espada. Trocou um olhar breve com Lorde Bracken, que parecia tão indignado que provavelmente o seguiria caso fizesse isso. Mas respirou fundo e mirou Roose com puro desgosto.
Eu espero que ela te enterre um dia, Bolton... ou melhor, coloque sua cabeça numa estaca e o deixe apodrecer. Um homem com você não merece um enterro. Merece ser deixado aos corvos.
Mas não poderia dizer aquilo. Não poderia arriscar ser preso... engoliu o orgulho e o carinho que sentia pela menina e respirou fundo.
—Não a machuque de novo, Bolton. Ela é uma boa menina. – disse num tom contido. Se virou para sair e escutou a voz de Petyr Baelish.
—Então... devemos voltar com as...
—Pro inferno com isso. – rosnou Lorde Bracken – Negocie com Blackwood. Eu vou ver como está a Shiera. Eu vi aquela garota aprender a andar, a falar, a dançar e atirar. Eu a vi cavalgar para batalha para lutar ao lado de Robb. Eu vi aquela menina virar uma rainha e fazer mil sacrifícios por uma terra que não era dela. – rosnou Jonos Bracken – Pro inferno vocês dois, eu vou ver Shiera.
—Você vai ficar aqui. – rosnou Bolton.
—E quem vai me obrigar? Você? – perguntou Bracken – Eu devo lealdade aos Tully.
—Na verdade, você deve lealdade à Casa Baelish, já que me foi dada Riverun e o título de Lorde do Tridente. – riu Petyr como se a confusão de Jonos o divertisse.
—Enfie no seu cú esses títulos dados a você por um bastardo Lannister. – rosnou Jonos se virando. Rickard tinha parado para ouvir e quando notou o olhar furioso de Lorde Bracken se perguntou a repercussão que aquilo daria. Deveria ter sido mais contido – Quão feio está? – perguntou ele quando se aproximou.
—Metade do rosto dela está roxo. – respondeu Rickard enquanto os dois se afastavam rapidamente do salão.
—Se Robb não tivesse morrido nas Gêmeas... – sussurrou Lorde Bracken parecendo carregar um imenso peso nas costas. Os dois saíram do salão, por mais que Rickard estivesse com as orelhas atentas. Apostaria os dedos da mão direita que não deixariam a rebeldia de Lorde Bracken passar batido.
—Não deveria ter dito aquelas coisas, homem. Precisa manter a calma. – disse sabendo que não era ninguém para censurar alguém por perder a calma.
Jonos Bracken parou e o olhou parecendo cansado. Jonos tinha um porte de guerreiro, apesar de não ser tão alto. Os ombros e braços eram relativamente magros, mas fortes o suficiente para segurarem uma espada e brandi-la com maestria. Seus olhos e cabelos eram castanhos e ele vestia uma túnica de lã marrom com o garanhão vermelho de sua casa bordado no peito. E por mais que fosse mais jovem que Rickard, havia algo em seu olhar que fazia com que parecesse muito mais velho.
—Haegon morreu. – disse ele parecendo mais pesado e mais infeliz.
—Eu sei. – respondeu Rickard.
—Eu e Tytos Blackwood nunca nos demos bem, mas nós dois fomos convidados para a festa em Harrenhal quando Shiera e Valerion nasceram. Quando eu vi a menina... – ele engoliu em seco – Eu juro que... – ele respirou fundo – Eu nunca tinha visto um bebezinho tão adorável... e eu já tinha tido duas filhas... Eu vi Shiera crescer. Eu me ofereci para criá-la quando a mãe dela morreu. Eu disse a Haegon que passar um tempo com outras garotas da idade dela seria bom. Mas ele a levou para Porto Real. E quando ela voltou eu vi que ela era todos os sorrisos do meu amigo, tão parecida com a mãe dela... com o mesmo espírito guerreiro... a mesma energia... o mesmo sorriso doce. E quando ela se casou e quando eu jurei lealdade a ela... eu senti que eu tinha nascido para aquilo. – explicou Lorde Bracken – Ela era a minha rainha... eu tinha esse carinho e essa devoção por ela desde o primeiro minuto que eu a vi... – Jonos engoliu em seco e por um momento Rickard se perguntou se ele iria desmoronar – Quando ela executou Lady Catelyn, eu estava pronto para denfendê-la. Eu ia defendê-la, como você fez. Mas Blackwood falou primeiro. Ele a defendeu primeiro... e então... – ele baixou os olhos envergonhado – Eu... eu deixei o ódio falar. E eu não a defendi. Eu a ataquei. E ela me olhou tão profundamente magoada. Eu a traí. Eu traí minha rainha e então ela tentou se matar. E então eu fui para guerra sem implorar pelo perdão dela. E agora ela está aqui, presa aqui... tendo que se humilhar... porque eu deixei o marido dela morrer nas Gêmeas. – lamentou Lorde Bracken – Eu estou aqui jurando lealdade aos homens que orquestraram a morte de Robb Stark, enquanto ela sofre. Então se eles vierem me levar para me punir, para arrancarem a minha cabeça, eu não ligo. Apenas diga a ela... que eu sinto muito e que eu serei um lorde fiel.
—Diga isso você mesmo. – disse Lorde Karstark – Tenho certeza que ela...
—Eu não teria coragem de olhá-la nos olhos... depois de tudo isso... – lamentou Jonos e Rickard suspirou.
—Honra, lealdade e coragem são as maiores virtudes que homens devem ter em tempos como esse.
**
Robb escutou mais um homem gritar. Nunca imaginou que um dia estaria morrendo de fome nas masmorras de Winterfell e a ironia daquilo quase fez com que gargalhasse. Os deuses me punem pelo que fiz com Shiera. Pensou consigo mesmo. O homem que estava sendo torturado gritou mais um pouco enquanto Ramsay Snow o esfolava. Se perguntava se seria o próximo. Não seria o primeiro Stark a ser esfolado por um Bolton. A história dizia que os antepassados Bolton, quando se rebeleram contra os Stark, usavam capas feitas das peles dos senhores de Winterfell.
A Velha Ama um dia lhe contara que os Bolton abraçaram o símbolo do homem esfolado como uma troça aos Stark, que na época eram wargs. Como eles trocavam de pele com lobos, os Bolton tiravam suas peles, como uma brincadeira de mal gosto. Mas acabaram pegando o gosto por esfolar e passaram a fazer isso com todos seus inimigos.
Há muito tempo atrás, Robb Star tinha escutado Shiera Stark falar que não não gostara do modo como Roose Bolton a olhara no dia de sua noite de núpcias. Esse mesmo Robb Stark a puxara para seu colo falando que não gostara do modo como todos a olhavam, pois apenas ele poderia contemplá-la... mas agora ela estava casada com Bolton. Achava que ele estava morto e encurralada, sem aliados, numa guerra que ele causara... e agora estava casada com Bolton, enquanto ele apodrecia nas masmorras do próprio castelo.
Robb Stark, o Jovem Lobo, O Rei do Norte.
Aquilo tudo lhe pareceu uma grande piada. Encolheu-se, com muito frio, os pés descalços esfregando um no outro. Os braços magros envolvendo seu corpo magro e ferido, numa vã tentativa de aquecer-se. Se perguntou como estaria Ned. Ele teria morrido? Nunca mais ouvira uma palavra sequer sobre o filho. E Shiera? Roose a estaria tratando bem? Algum dia ela aprenderia a amá-lo, como ela aprendera a amar Robb Stark? Sabia que ela não o amara no início, mas gostava de pensar que no final, o sentimento que sentiam era igual. Robb Stark a amou até o último suspiro de vida. Pensou consigo mesmo. Lembrava-se que a cada flechada que levara nas Gêmeas, só conseguia pensar em como não podia morrer. Pois tinha que voltar para casa, para Shiera. Tinha que pedir perdão e dizer que a perdoava. Dizer que a amava. Mas a cada flecha, a vida se esvaia de seu corpo e ele se desesperava ao pensar que não poderia vê-la uma última vez. Receber um último sorriso. Era desesperador lembrar que sua última lembrança dela era de quando ela estava desmaiada, fria, pálida, imóvel... com as mãos feridas e o pescoço roxo... roxo porque ele a machucara. Quase morta porque ele a deixara tão infeliz que ela preferiu morrer a continuar ao lado dele. E quando passaram a corda da forca ao redor de seu pescoço, teve certeza que aquilo era um castigo completamente cabível para o que tinha feito.
Porém, depois de ficar mergulhado no nada, na inexistência, uma força superior o trouxe de volta. Era ridículo o fato de ter esquecido de si mesmo. De tudo. Talvez tenha sido a culpa. Talvez estivesse com tanta vergonha de si mesmo, que sua mente achou por melhor esquecer. Então ficou vagando perdido pelos vivos, com aqueles homens adoradores do fogo... até que finalmente se lembrara das coisas. Finalmente voltara pra casa. Mas não do jeito que imaginou.
O que eu estava pensando, afinal? Que me deixariam entrar e que eu a colocaria no meu cavalo e fugiríamos? Ou que eu poderia chegar e todos iriam me reconhecer, lutar ao meu lado, para derrotarmos os Bolton?
Robb soprou um pouco de ar quente nas próprias mãos, antes de esfregá-las, e suspirou. Os gritos pararam e passos vieram em sua direção, encolheu-se mais um pouco, tremendo de frio.
—O que temos aqui? – perguntou Ramsay Snow abrindo a porta de ferro e se aproximando de sua cela. Robb não o olhou. Aquela voz lhe era ligeiramente familiar, mas não conseguia lembrar de onde a conhecia. Sabia que era a voz do homem que liderava as torturas, mas nada mais conseguia tirar da memória para ajudá-lo a recordar – Você parece que já teve dias melhores. – riu Ramsay Snow. Nunca tinha visto o rosto dele, então o olhou de rabo de olho. Sentiu um frio na espinha e o reconheceu. Ele era o servo de Roose, chamado Fedor. Roose dissera que mandara prender o filho por seus crimes. Mas era mentira. O cretino esteve em Winterfell todo esse tempo... desviou o olhar, pois sabia que Ramsay poderia reconhecê-lo. Estava com a barba desgrenhada e pintada por diversos fios brancos. Assim como os cabelos, que caíam embaraçados, vermelhos tigrados de branco, quase na altura dos ombros. Estava mais magro, metido em roupas de mendigo. Não usava mais as cores dos Stark, nem as peles, nem nada que remetesse ao título que antes carregara. Se julgava bastante bem disfarçado, mas não iria vacilar. Ramsay era um bastardo, assim como Jon fora... e Jon sabia ler as pessoas de uma maneira surpreendente. Ele leu Shiera no mesmo instante em que a viu. Quando ela se passava por camponesa no torneio de Harrenhal. Se Ramsay notasse quem ele era, seu destino seria muito mais funesto – Você tem nome? – perguntou Ramsay com um sorriso doentio ao lhe olhar. Robb deu de ombros.
—Norte. – disse ele. Ramsay franziu o cenho – Eu me chamo Norte. – disse Robb, sem olhá-lo. Mirava os próprios pés, encolhidos na tentativa de conseguir algum calor.
—Que nome diferente, não? – riu Ramsay com sarcasmo. Robb deu de ombros novamente – Muito bem, Norte. Você é um batedor do rei Stannis? – perguntou Ramsay e Robb negou com a cabeça.
—Eu sou um nortenho. – respondeu olhando para o chão – Eu nasci aqui em Winterfell. Estava voltando para o castelo quando Hoat me prendeu.
—Vocês ouviram, rapazes... esse aqui é apenas um mal-entendido. – riu Ramsay e Robb não reagiu. Duvidava que Ramsay o libertaria – Eu devo avisar meu pai que um dos nossos prisioneiros é um nortenho de Winterfell. Alguém merece ser punido, não é? – os ajudantes do bastardo deram risadinhas – Você quer que eu avise o senhor meu pai? – perguntou Ramsay e Robb suspirou.
—De que importa o que eu quero, senhor? – perguntou Robb humildemente – Não significa nada. – adicionou e Ramsay reu uma risada alta.
—Eu gostei desse. – Disse ele pegando uma faca e batendo irritantemente nas grades da cela – Ele sabe escolher as palavras. – Ramsay se afastou e guardou a faca – É como eu disse antes, rapazes. Quanto mais tempo eles ficam na cela, ouvindo os gritos dos anteriores, mais espertos eles ficam. Eu quero ver o quão esperto esse pode ficar. – riu Ramsay e Robb seguiu olhando para os próprios pés – Afinal, não quero matar um conterrâneo inocente. E eu quero lembrar de onde é que eu conheço o seu rosto. – riu ele e Robb respirou fundo antes de dar de ombros – Olhe pra mim, Norte. – tinha aprendido que desobedecer Ramsay era sempre pior do que ser obediente, apesar de que cega obediência não era garantia de segurança – De onde eu conheço você?
—Daqui de Wintefell. – respondeu Robb dando de ombros – Eu lembro de você, sempre seguindo as damas de honra de Lady Shiera, quando ela ainda era uma Stark. Quando chamavam você de Fedor. – arriscou, olhando para Ramsay. O bastardo sorriu dando de ombros, meio que perdendo o interesse.
—Bem. Sabe como são os homens. – riu Ramsay – Não podemos ver um bom traseiro que já ficamos todos ouriçados. – riu ele e Robb desviou o olhar novamente – Eu ainda vou me meter nas saias daquela Shiera.
—Seu pai não vai gostar disso. – disse um dos companheiros de Ramsay.
—Ele não vai ficar sabendo. – riu Ramsay – Ele não tem mais saúde para lidar com uma mulher daquelas.
—Shiera Blackfyre? – perguntou Vargo Hoat, se aproximando, enquanto Robb engolia em seco – Eu escutei que Lorde Rickard Karstark e Jonos Bracken tiveram uma puta briga com o seu pai por conta dela.
—O que houve? – perguntou Ramsay interessado. Vargo Hoat estava descascando uma maçã verde e entrou em seu campo de visão.
—Parece que seu pai deu uma bela duma surra nela, antes ou depois de fodê-la a noite inteira depois do casamento. – riu Vargo e Robb sentiu o coração bater acelerado. Uma ira inflamou em seu peito e ele quase se levantou. Virou o rosto para Vargo e tentou controlar a respiração, pois estava quase bufando – Eu escutei que metade do rosto dela está parecendo um cacho de uvas. – adicionou ele dando uma mordida na maçã – Encerrou por hoje, Ramsay? Vamos tomar alguma coisa que nos deixe bêbados.
Ramsay deu uma risada e deu de ombros.
—Claro.
—Vamos, vamos lá sentir inveja do seu pai, já que daqui a pouco ele vai enfiar o pau dele naquela bocetinha jovem. Aposto que deve ser mais doce que a mais doces das maçãs. – riu Vargo de boca cheia e Ramsay riu.
—Quanto a isso eu não sei. – disse ele se afastando e Robb se arrastou para ficar mais próximo da cela e continuar escutando – Eu só sei que eu tenho vontade de quebrar todos os dentes dela. Odeio o sorrisinho dela.
—Sorriso? Quem se importa com o sorriso. Aquela bunda que anda me roubando o sono. Eu enfiaria meu pau ali tantas vezes que...
E não pode escutar o resto, pois a porta das masmorras se fechou quando eles saíram.
Robb se jogou contra a cela, furioso, tentando arrombá-la, mesmo que soubesse que era inútil. Sentindo-se completamente impotente, escorregou novamente para o chão, tentando pensar em alguma maneira de ajudar Shiera. Foi quando a porta voltou a se abrir e o carcereiro entrou para entregar um pouco de sopa estragada para os prisioneiros. Robb o olhou esperançoso. O nome dele era Walter. Um garoto de seus dezesseis anos. Robb quem o tinha designado para o papel de carcereiro, pois o último deixara Jaime Lannister fugir. Observou o rapaz colocar a tigela próximo a sua cela e quando ele ficou muito próximo, Robb esticou o braço.
—Walter... – sussurrou. O garoto o olhou como se o próprio Estranho o tivesse chamado, mas durou apenas uns dois segundos, pois o rapaz parecia já disposto a ir embora – Por favor. Sei que meu rosto não lhe deve estar sendo familiar, mas feche os olhos e escute minha voz.
—Você é um fantasma, não é? – perguntou o rapaz – Eu vi a sua estátua na cripta. Lady Shiera a encomendou... ainda não está pronta, mas eu vi o rosto... Não sei porque está assombrando as Masmorras deveria assombrar o quarto do Senhor, ou as próprias criptas, onde seus ossos estão. – lamentou ele e Robb sorriu pois o menino já o reconhecera.
—Me deixe sair daqui para que eu possa assombrar os lugares certos, ou só me restará assombrar você. – disse com um sorrisinho e Walter deu um pulo. Ele olhou para os lados e engoliu em seco.
—Se Ramsay souber que eu soltei um dos prisioneiros, serei eu o próximo a ocupar essa cela. – disse o rapaz – E eu não vou fazer isso por um morto, um fantasma. – adicionou ele quase saindo.
—Então chame Shiera aqui. Por favor. – disse Robb – Eu preciso muito falar com Shiera.
Walter o olhou engolindo em seco.
—Ninguém mais tem autorização para entrar no quarto de Shiera Bolton. Ela está presa lá, só os de maior confiança dos Bolton entram lá, pois os últimos lordes que entraram ficaram zangados porque Lorde Roose bateu nela. – explicou o rapaz e Robb suspirou.
—Quais Lordes? – perguntou franzindo o cenho.
**
Aegon suspirou enquanto se sentava confortavelmente no cadeirão de senhor de Pyke. Viserion silvou ao seu lado, muito maior do que costumava ser quando deixaram Meereen. O Dragão parecia agitado por conta da batalha e Aegon sentia-se do mesmo modo. Ainda olhava a carta de sua irmã, sem saber muito bem o que fazer. Viserion silvou de novo, incomodado por estar dentro do castelo, apertado. Aegon suspirou e olhou para o dragão, com impaciência.
—Eu estou ocupado agora, se quer voar e caçar baleias, faça isso. – ralhou com o dragão, que silvou novamente, antes de sair serpenteando e quase atropelando todo mundo que estava pela frente. Aegon fechou o cenho e observou que estava em maior número em relação às tropas dos homens de ferro. Pyke estava completamente dominada – Muito bem, Theon Greyjoy. Eu lhe sou grato por tudo o que você fez em relação à minha irmã. – disse Aegon. Theon, o tio e a irmã estavam lado a lado a sua frente, cercado por tropas da Companhia Dourada – Você foi um homem leal à minha irmã e poderá continuar sendo, desde que dobre o joelho para a verdadeira rainha de Westeros. Daenerys Targaryen.
Theon olhou ao redor e mirou a irmã. Os dois trocaram um olhar duro um com o outro, mas Aegon não gostou daquela troca de olhar.
—Como pode dar as costas para sua própria irmã em nome de uma mulher que nem nasceu aqui em Westeros? – perguntou Talisa, que segurava o pequeno Ned nos braços. O lobo gigante estava com ela e ele deixava os homens da Companhia Dourada receosos. Mas a bastarda de Lorde Whent garantira que ele não atacaria ninguém desde que não fizessem mal ao pequeno Eddard. Aegon não tinha dúvidas de que aquele garoto era seu sobrinho. Os olhos dele mostravam isso. Eram os olhos dos Blackfyre – A menos que você esteja esperando se casar com ela e virar rei. É esse o plano, Aegon? – perguntou Talisa e Aegon sorriu divertido.
—Um plano digno de Valerion, não acha? – perguntou ele – Olhe pra mim e diga se eu tenho cara de alguém que faz planos. Eu sou um membro da guarda real. Eu não pretendo me casar. – adicionou e Talisa revirou os olhos.
—Então vai trair sua irmã por uma mulher que você nem vai descruzar as pernas. Você tem os miolos estragados, Aegon. – ralhou ela e a Companhia o olhou com expectativas. Mas Aegon estava mais do que acostumado com Talisa Rivers, ou melhor, Talisa Whent... não que pra ele fizesse alguma diferença. Acabou caindo na gargalhada e deu de ombros.
—Daenerys prometeu que minha irmã estaria a salvo, desde que dobrasse o joelho. – disse Aegon – Eu vou conversar com Shiera e tenho certeza de que ela vai concordar com os termos.
—Não vai. – discordou Theon e Aegon o olhou duvidando disso.
—Eu conheço minha irmã desde que ela nasceu. Ela e meu irmão são tudo pra mim. Eu os ajudava, protegia e acobertava em tudo. Eu vi minha irmã crescer, eu a vi armar planinhos mirabolantes para conseguir o que quer que fosse e eu a ajudava em seus esquemas. Quem é você para falar que sabe mais do que eu sobre ela? – perguntou Aegon.
—O homem que arriscou tudo e perdeu quase tudo para estar ao lado dela quando ela realmente precisou nos últimos anos. – respondeu Talisa e Aegon sentiu um frio lhe subir a espinha, enquanto seu sorriso se dissipava – Onde você estava quando seu pai a obrigou a noivar com Robb? Ou quando ela casou com ele, e marchou para o Sul, envolvida em uma guerra? Onde você estava quando ela foi negociar com os Frey? Ou quando ela pegou um cavalo, um arco e partiu para uma batalha? Onde você estava no casamento dela? Quando não havia um parente sequer para segurar a mão dela e falar que ficaria tudo bem? Onde você estava quando o filho dela nasceu e ela teve que ser responsabilizada por todos os erros que os Stark cometeram em vida? Ou quando ela foi traída pelos Bolton e teve que fugir para a Muralha? Onde você estava quando seu pai deu as costas para ela? Ou quando ela enfrentou os cem mil selvagens de Mance Ryder? Ou quando Mindinho veio enrolar uma corda no pescoço dela, trazendo os ossos de Robb Stark e falando que ela deveria casar com Roose Bolton se quisesse ver o filho dela crescer? Onde você estava, Aegon, quando a sua família precisou de você? – perguntou Talisa, tão furiosa, que nem parecia consigo mesma. E naquele momento, Aegon se sentiu apenas um garotinho – Eu digo onde você estava. Estava em Essos, fazendo o que você sempre faz quando sua família precisa de você. Você estava fugindo, se escondendo, usando um motivo idiota como desculpa. E agora acha que vai consertar tudo, porque essa mulher aí te deu um dragão e prometeu que todo mundo que fizer as pazes com ela estará a salvo. Esqueceu quem é o pai dela? Esqueceu o que ele tentou fazer com você? Você se esqueceu de quem você é, Aegon? – ela se aproximou dele, com os olhos verdes, faiscantes e furiosos – Você deveria ser o Grande Aegon Blackfyre. Lorde de Harrenhal, primeiro de seu nome. Mas você é apenas um covarde que nunca está presente quando sua família realmente precisa de você. Quando sua mãe morreu, você fugiu, quando Valerion e Shiera foram prometidos a pessoas que eles não queriam, você fugiu e agora a sua irmã está sendo obrigada a se casar com o homem que traiu o pai do filho dela, um homem mesquinho, velho e nojento... e você está aí, perdendo tempo, pedindo pro homem que sempre esteve ao lado dela nesses últimos tempos da sua ausência a traia quando ela realmente precisa de toda a ajuda possível. Afinal, Harrenhal não vai fazer nada por ela.
—Meu pai nunca viraria as costas para Shiera... – murmurou Aegon, sentindo-se completamente acuado com todas aquelas acusações.
—Seu pai está morto, Aegon. – rosnou Talisa – E ele abandonou Shiera, assim como abandonou você. Ele declarou que Valerion é o legítimo herdeiro dele e se matou ao matar Lorde Tywin, ou pelo menos é o que se diz por aí.
Aegon não reparou quando ficara de pé. Mas era como estava. De pé e em choque.
—Meu pai... meu pai morreu? – perguntou em choque.
—Sim. E seu irmão é refém dos Lannister, em Porto Real, sua irmã é prisioneira dos Bolton, em Winterfell, o exército dos mortos está vindo para Westeros, nesse momento e a Muralha não tem homens para defender os Sete Reinos. – Talisa respirou fundo – Mas o importante é que todos nós nos curvemos à maravilhosa filha do Rei-Louco, que nem se prestou ao trabalho de vir aqui conquistar a porra dos Sete Reinos.
Aegon engoliu em seco, lembrando-se das terríveis ameaças que seu pai previra e nas quais ele não costumava acreditar. Não até Daenerys entrar numa pira com três pedras e sair com três dragões, sem um ferimento sequer. Tinha esquecido das profecias dele, mas a realidade lhe dera um grande tapa na cara... ou talvez fosse apenas Talisa falando as verdades que ninguém queria ouvir, como sempre fora. Aegon engoliu em seco e mirou Theon Greyjoy, como se precisasse de alguma confirmação. O rapaz acenou positivamente com a cabeça e o Blackfyre suspirou.
Seus homens da Companhia Dourada o olhavam com expectativa novamente. Eles estavam ansiosos pela próxima batalha. Aegon engoliu em seco e segurou sua espada de aço valiriano. Blackfyre. Por um momento desejou montar em Viserion e voar até Braavos, para ir até a Casa do Preto e do Branco. Seu pai era devoto do Deus de Muitas Faces. Mas Talisa estava certa e ele já tinha se atrasado o suficiente.
—Daenerys Targaryen é a única rainha de Westeros, mas ela está muito ocupada perdendo tempo em Meereen... – disse pausadamente – Ela pretende extinguir a Casa Lannister.... acho que vou começar o trabalho por ela. – disse sombriamente – Mas primeiro vamos matar alguns Bolton.
**
—O que você quer dizer com isso?! – Rosnou Lorde Rickard para o guarda – Eu sou o senhor de Karhold, homem de confiança de Lady Shiera. Eu vou entrar sim! – rosnou ele, mas o guarda Bolton negou com a cabeça.
—Lorde Roose proibiu que a senhora saísse de seu quarto e que recebesse visitas. – respondeu o guarda e Rickard bufou. Lady Mormont cruzou os braços.
—E nem mesmo eu? Uma senhora de idade. A garota provavelmente...
—Ninguém. – insistiu o guarda, cortando a Lady Ursa. Rickard e Maege trocaram um olhar preocupado.
—Quem nos garante que ela ao menos está viva? – perguntou Rickard – Isso é um absurdo. Eu vou falar com Bolton agora mesmo.
Os humores no castelo estavam mais do que exaltados. Tinha gente demais em Winterfell e tanto Roose quanto Petyr queriam manter os homens ali, tanto para terminar de firmar as alianças, reféns e punições, quanto para garantir a segurança quando Stannis aparecesse. Um batedor voltara e garantira que Stannis estava com um enorme exército. Ele tinha tomado Fosso Cailin e Bosque Profundo até onde ficara sabendo. O cretino deve estar chegando, finalmente.
Rickard e Maege foram ter com Roose, mas o homem se recusou a recebê-los. Ameaçou levar seus homens embora, assim como Maege, mas então Ramsay, o bastardo, que fora quem lhes passara o recado de que o pai não iria recebê-los, disse.
—E quem ficará aqui para prezar pelo bem-estar da senhora Bolton?
Odiava aquele Bastardo.
Quando a luta de verdade começasse, iria atrás dele primeiro. Rickard e Maege voltaram para junto de Tytos Blackwood, que ainda restava revoltado com a notícia de que Lady Shiera estava apanhando. Ele os olhou com expectativa, mas pareceu ler a decepção em seus olhares.
—O que houve? – perguntou ele.
—Bolton proibiu que Shiera recebesse visitas. – respondeu Maege.
Tytos bufou, socando a mesa e se levantou.
—Eu não acho que a menina mentiu pra mim. – disse o sulista. Blackwood quem viera procurar Rickard naquela manhã. Ele informou que a filha de uma cozinheira veio servir para ele um pouco de vinho quente com mel, antes que ele fosse dormir. Mas a menina parecia estar assustada e depois que ele insistiu ela confessou que escutara a voz de Shiera pedindo para que alguém parasse de fazer alguma coisa, parecendo em prantos. Provavelmente era Bolton a machucando novamente – Nós precisamos fazer alguma coisa. – disse Blackwood.
—Estão todos comentando. Dos canis, até às cozinhas. Dos empregados aos lordes, Sul ao Norte. Bolton está machucando a esposa de Robb Stark. – disse Maege cruzando os braços – Os Frey podem não ligar, mas...
—Falam do Bastardo também. – garantiu Blackwood – De como ele tortura os homens nas masmorras. Os escutam gritar muitos cômodos de distância.
—Eu escutei uma senhorinha comentar com uma menina, hoje mais cedo... acho que era a Ama que cuidava dos meninos Stark. – disse Maege – Que os Bolton vão ter o que merecem eventualmente. “O Norte se lembra”. – Maege suspirou – Espero que lembre mesmo, quando for o tempo.
—O que Shiera fará se engravidar de Bolton? – perguntou Blackwood e todos o olharam – Ela é bem jovem e fértil. – adicionou ele – Deveríamos ter conseguido mais bexigas com sangue. – lamentou ele.
—Pegamos todas as que conseguimos. – disse Rickard com um tom baixo, olhando para os lados – Fizemos o possível para dar tempo a Stannis. Temos que esperar agora. – adicionou ele num sussurro quase inaldível. Todos suspiraram e Maege bufou.
—Precisamos fazer algo pela garota. Não podemos deixá-la aos caprichos de Roose. – disse a distinta senhora.
Lorde Blackwood estava para dizer alguma coisa, mas passos apressados fizeram com que escolhessem a cautela. Os três se calaram e se viraram para ver um garoto qualquer, muito sardendo e de cabelos cor de palha, se aproximar, olhando por cima do ombro todo o tempo. Pretendiam esperar que ele passasse para então voltarem a conversar, mas ele parou diante deles.
—Hum... Lorde Karstark? – perguntou o rapaz. Rickard o olhou com as sobrancelhas arqueadas – Hum... você... digo... meu Lorde... – ele o olhou vacilante, sem saber se tinha usado a expressão correta. Rickard fez um aceno positivo com a cabeça, o encorajando a continuar – Eu... eu trabalho nas... nas masmorras. – disse ele – Robb Stark me designou a trabalhar lá... digo... não exatamente ele. Talvez tenha sido o Meistre... ou o Meistre quem me foi dar a notícia... – ele começou a torcer a barra da própria camisa, parecendo nervoso – Tem um fantasma nas masmorras. – disse ele trêmulo e Rickard Karstark revirou os olhos – Ele pediu... ele... hum... – o garoto olhou para os lados, parecendo receoso, principalmente com Lorde Blackwood.
—Está entre amigos, meu caro amigo Nortenho. – disse Lady Maege, com mais doçura do que ele jamais vira ela usar – Diga.
—O Fantasma... eu vi o fantasma do... do rei. – explicou ele e Rickard piscou, chocado.
—O que você disse? – perguntou piscando muito.
—Eu soube que... que ele morreu... no sul. Ele levou um monte de flechas e foi enforcado. Então... então só pode ser... – ele engoliu em seco – Um fantasma. – concluiu o menino num sussurro que quase não saiu. Ele os olhou apreensivo – Eu juro. Não estou mentindo.
Mas Lorde Rickard Karstark, senhor de Karhold, não acreditou nele.
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