Blackfyre
54 O Dragão Ousado
Notas iniciais

O Dragão Ousado
Quando finalmente chegou, não se aguentava mais em cima do cavalo. Escorregou para o chão e a égua foi voltando mansamente para os estábulos, o arrastando, já que sua mão ficara presa nas rédeas. Alguém deve tê-lo encontrado e o levado para Naerys, pois acordou com o velho limpando suas feridas.
—O que houve? Por que está aqui? – perguntou o velho Tartaruga – E quem te feriu desse jeito?
—Arya Stark. – murmurou cansado. Se sentou, sentindo o corpo doer.
—Pra quem tinha pavor a cicatrizes... você está com uma grande coleção, garoto. – riu Naerys e Valerion concordou com um aceno de cabeça – Lembro-me que uma vez, aquele garoto que era apaixonado por sua irmã... qual era o nome dele?
—Eis uma lista bem grande de nomes... – Resmungou Valerion.
—Aquele que pediu a mão dela a seu pai... Que machucou você logo antes do torneio que seu pai deu... Ah, não importa. – Riu o velho dando de ombros – Ele sempre mandava cartas para ela.
—Humfrey. Sim... – Disse se lembrando – Aegon jogava as cartas no fogo, porque não gostava dele. Mas ele era um bom amigo. – Murmurou sentindo o corpo doer.
—De qualquer modo... – O velho tartaruga o olhou curioso – Por que voltou sem suas tropas?
—Qual é a Guarnição de Harrenhal? – perguntou repentinamente. Naerys o olhou confuso.
—Três mil homens. – explicou ele – Que deixamos para proteger o castelo.
—Reduziremos o número para mil. – disse – Não. Levarei mil e quinhentos... – respirou fundo pressionando os olhos – Ela disse uma escolta pequena. – resmungou sentindo-se perdido – Levarei apenas mil homens.
—Para onde? – perguntou Naerys, sem entender.
—Porto Real. – murmurou infeliz – Estou voltando para Porto Real. – engoliu em seco – Mande os homens prepararem tudo. Eu vou levar um pouco de ouro, trigo e vinho comigo.
—Por que vai voltar para aquele lugar quando a senhorita Sansa teve tanto trabalho para resgatá-lo de lá? – perguntou Naerys. Valerion o olhou infeliz.
—Myrcella está grávida. – respondeu e Naerys arqueou as sobrancelhas.
—Que garantias tens disso? – questionou ele.
—Apenas a palavra dela num bilhete. – confessou.
—Você já foi mais esperto. – ralhou Naerys.
—Sim. Eu sei que é idiota. E foi por motivos como esse que Ned Stark morreu. – rosnou Valerion, infeliz – Mas se eles acham que vão usar Myrcella contra minha família, eles estão enganados. Eu vou deixar um testamento. – disse ele e Naerys o olhou sombrio – Aegon quem deve ficar com Harrenhal. O castelo sempre foi dele. – resmungou Valerion – Eu sou um fiasco e vou me resignar com isso. Meu pai queria que eu casasse com Myrcella, pois bem, eu casarei com Myrcella. Mas nem uma moeda de cobre dos cofres de Harrenhal irão para o Trono de Ferro.
—Para quê vai querer aquele ouro do qual falou antes, então? – perguntou Naerys. Valerion respirou fundo e o olhou com um plano na cabeça.
—Quando custaria encomendar a morte de um rei? – perguntou para o velho. Naerys respirou fundo ao escutar aquela pergunta.
—Depende... pra quem irá encomendar?
—A Casa do Preto e do Branco. – respondeu ele.
—Talvez eles cobrem uma pessoa para que se torne ninguém. – refletiu Naerys. Valerion engoliu em seco e concordou em silêncio – Talvez seja um preço que você não vai querer pagar.
—Quando Arya chegar, diga que eu ofereço a ela a chance de se tornar um homem sem rosto. Ela só precisa parar de tentar me seguir. – resmungou – Ela já tentou me matar duas vezes, mesmo com o braço quebrado.
—A menina Stark leva jeito para os assassinatos.
—Leva. – concordou Valerion.
—Mas provavelmente não será o suficiente. Haverá dívida de sangue, Valerion e você não vai querer pagar.
Pensaria nisso depois.
—Me prepare um banho e mande os homens lustrarem as armaduras. Partiremos para Porto Real na aurora.
—Sobre o testamento... permita-me convencê-lo a não deixar um veado de prata para Aegon... – murmurou Naerys, soltando um suspiro.
**
Myrcella estava tomando um chá com Margaery, sob a supervisão de uma septã. A rainha Margaery tivera permissão para deixar o septo, mas apenas se estivesse todo tempo acompanhada de uma septã. Sua mãe ainda estava presa, pois se recusara a confessar seus pecados. Loras seguia preso, mas o julgamento dele seria em breve.
Margaery tinha se transformado numa pessoa estranha, mas Myrcella tinha sérias dúvidas sobre o que se passava na cabeça dela. Duvidava muito de que ela realmente tinha se transformado naquilo que interpretava, mas na impossibilidade de conversar a sós com ela, fingia que estava tudo bem.
—Estou em tanta paz. – murmurou Margaery.
—Tommen veio falar comigo. – disse sem paciência para o jeitinho mosca morta que ela tinha adquirido – Ele reclamou que desde que o velho te soltou, você não se deitou mais com o rei.
Margaery suspirou e concordou com um aceno de cabeça.
—Eu não sinto mais...
—Não importa se sentes ou não tesão pelo bunda mole do Tommen. Você se casou com ele. Não é pecado e é sua obrigação dar um herdeiro ao Trono de Ferro. Ainda mais com todo esse clima com o Norte. Você escutou os rumores?
—Escutei que Robb Stark está vivo. – murmurou Margaery – Mas não sei como seria possível. Disseram que ele foi atingindo por várias flechas no peito... e depois enforcado. – ela suspirou – Eu não entendo como ele pode ter sobrevivido e ainda ter participado da batalha para tomar Winterfell de volta.
—Os Nortenhos são difíceis de matar. – murmurou Myrcella e elas escutaram passos. Se viraram e notaram que era tio Kevan. Ele se aproximava, com um semblante preocupado, acompanhado de Randyll Tarly. Princesa e rainha olharam para Kevan Lannister e seu acompanhante com alguma curiosidade
—Uma mensagem de Stevron Frey. – disse o velho leão para Myrcella – Estão cercados por um exército Blackfyre e Martell. Valerion tomou Riverrun e agora sitia as Gêmeas. – murmurou ele e Myrcella sentiu um calafrio – Valerion não parece que irá retornar a Porto Real. – disse seu tio e Myrcella acariciou o ventre, que ainda não tinha começado a inchar.
—Ele vai vir. – disse convicta.
—Ele marcha na direção oposta. – disse seu tio – Myrcella. Precisamos fazer algo a respeito de tua gravidez.
—Não faremos nada a respeito dela! – rosnou decidida – Nós vamos esperar.
—Não há mais tempo. Se esperarmos mais, tua saúde pode ficar comprometida. – insistiu o tio. Mas Myrcella o ignorou, se levantando.
—Eu receio que me cansei dessas conversas. Me retirarei até meu quarto. – disse suavemente. Os dez imaculados de Valerion, que antes estiveram presos, faziam sua guarda. Eles não tinham lealdade por Sansa Stark e sempre a viram como a noiva de Valerion. Então sempre a seguiam por todo lado, mantendo os pardais longe. Muitos deles passeavam pelo castelo. Tommen os aceitara, assim como Margaery. Sentia os olhares daqueles homens maltrapilhos a mirar seu ventre, esperando um sinal de sua gravidez. Respirou fundo, sem saber o que esperar. Valerion iria vir? Ela tinha contado uma ou duas mentiras... mas ele viria, certo? Talvez ele só quisesse se vingar dos Frey antes de vir. Myrcella bufou olhando pela janela. Nunca mais tinha deixado o castelo e nem se atreveria. Temia a Fé Militante. E seu estúpido irmão caçula os tinha colocado para dentro do castelo. E Margaery parecia ter ficado com o cérebro derretido também, desde que se tornara prisioneira deles – Só posso contar comigo mesma? – perguntou sentindo-se só. Afagou a própria barriga, insegura, mas em seguida respirou fundo. Depois caminhou até seus aposentos. Entrou e seus guardas ficaram do lado de fora. Sentou-se em sua cama, sem saber o que esperar. Fechou os olhos e tentou dormir um pouco, só acordou com um bater em sua porta. Era o cavaleiro da guarda real que mais gostava, Sor Arys Oakheart. Ele entrou timidamente, quando ela pediu que ele entrasse – Sor Arys, em que posso ajudá-lo? – perguntou suavemente o olhando curiosa. Sor Arys lhe lançou um sorriso gentil antes de responder.
—Achei que gostaria de saber que ele voltou. – disse ele com os olhos brilhando de alegria. Sor Arys gostava muito de Valerion, apesar de tudo o que tinha acontecido.
—Valerion? Ele voltou? – perguntou pulando da cama e Sor Arys sorriu concordando com um aceno de cabeça. Myrcella respirou fundo e quase correu até a porta, mas logo se interrompeu – Sor Arys. Chame as aias. Preciso me arrumar absolutamente rápido. – disse ela. Sor Arys concordou com um sorriso e saiu, fechando a porta. Myrcella se despiu e ficou esperando as aias, enquanto escolhia um vestido apropriado. Decidiu por um vermelho carmesim, com um ousado decote, mas escolheu todas suas joias negras. Ônix e diamantes negros, além do colar de ouro com o dragão Blackfyre. Suas aias chegaram e a ajudaram a se limpar e perfumar. Se vestiu e teve os cabelos penteados. Depois, com toda a pressa do mundo, se dirigiu até a Sala do Trono. Estava uma confusão. Seu tio estava lá, dando ordens aos homens Lannister e ao Comandante da Patrulha da cidade. Os Tyrell estavam ali também, mas ela reconheceu apenas poucos guardas. Estava uma confusão ali e os ânimos estavam agitados. Procurou Tommen com os olhos e o encontrou muito agitado sentado no Trono. O Alto Pardal estava ao lado dele e Margaery estava do outro lado, em roupas simples e comportadas. Do outro lado de Tommen estava seu tio Jaime. Os outros membros da Guarda Real estavam aos pés dos degraus do Trono de Ferro, com as mãos descansando sobre os cabos de suas espadas. A corte estava agitada e Myrcella procurou alguém que pudesse lhe explicar qualquer coisa. Encontrou Elinor, melhor amiga de Margaery, e caminhou apressadamente até ela – Elinor. Está acontecendo alguma coisa? – perguntou baixinho, se aproximando.
—Valerion voltou a Porto Real. Está numa comitiva de mil homens. – explicou ela, parecendo receosa – E Lady Olenna mandou mais da metade das forças Tyrell se unirem a ele nos portões, para mostrar apoio. A Casa Tyrell não vai dar as costas aos Blackfyre. – disse ela e Myrcella sorriu vitoriosa.
Os minutos passaram lentamente, parecendo se arrastar. Todo mundo parecia quase explodir de expectativa. Logo seu tio Kevan a encontrou e pediu que o acompanhasse para os lugares de honra, próximos ao Trono. Obedeceu prontamente, pois isso lhe daria a chance de estar bem em frente a Valerion, quando ele entrasse no salão.
Mais minutos passaram e então ela escutou o som de passos. A corte pareceu prender a respiração, ao ouvir os milhares de passos metálicos marchando em direção ao Salão do Trono de Ferro. As imensas portas foram abertas e ela o viu. Usava um elmo com asas de dragão. Sua armadura era rubra e brilhante, com um dragão negro pintado em alto relevo no peitoral. Os olhos do dragão eram diamantes negros cintilantes que pareciam refletir toda a luz do ambiente. O cavalo dele também estava com uma armadura rubra com detalhes vermelhos, como se ele marchasse para a guerra e não para uma reunião solene. Um garoto de cabelos arrepiado segurava o estandarte da Casa Blackfyre e ela quase não reconheceu Bry. Ele estava mais magro e com o cabelo bagunçado e sem corte, mas parecia orgulhoso de estar ali novamente.
Valerion guiou o cavalo até o máximo que lhe seria permitido. Depois ele desceu e tirou o elmo. Seu rosto estava magro, também. Havia um corte ainda não completamente cicatrizado em sua maçã do rosto. Além disso, seu olhar era furioso e ele fuzilava o Alto Pardal com seus olhos violetas. Myrcella sorriu para ele, imaginando que quando ele notasse seu sorriso, suas feições relaxariam, mas ele não lhe lançou um olhar. Seus olhos eram todos para o Alto Pardal e ela podia notar o ódio e rancor que eles continham.
—Valerion Blackfyre. – começou o Alto Pardal – Você veio aqui para...
—Eu vim aqui para falar com o Rei Tommen. E não com você. – devolveu ele com a voz cortante e Margaery se adiantou.
—Valerion. Este é o novo Alto Septão da Fé. – explicou ela, com a voz gentil e apaziguadora – A Fé e o Trono andam juntos...
—Esse homem sequestra a sua esposa e seu cunhado. – disse Valerion olhando para Tommen – Ele me sequestrou e torturou também. Ele mantém sua mãe presa, enfrentando sabe-se lá quais provações, além de ameaçar a vida de sua irmã. E você retribui chamando a Fé para governar ao seu lado. Deixando esse lunático falar ao lado do Trono de Ferro? – perguntou Valerion, completamente indignado – Nunca pensei que um dia sentiria saudades de Joffrey, mas esse dia chegou. – rosnou ele e o castelo encheu-se de murmúrios – O que houve, Tommen? Perdeu as bolas? – perguntou ele e Tommen corou, encolhido – Recebi a notícia que Vossa Graça retirou meu título de Lorde de Harrenhal. Eu vim aqui para falar que não concordo com isso. Eu quero um pedido formal de desculpas, ou eu vou fechar as estradas para a cidade, vou fechar as rotas marítimas e vou deixar Porto Real se devorar. Eu nunca falei tão sério em toda minha vida. Tudo o que vocês Lannister fizeram a mim em todo esse tempo em que eu trabalhei para vocês, dando as costas para minha própria família, foi ofender-me. E eu não permitirei mais isso. Ou o Trono de Ferro começa e me tratar com o respeito que eu mereço, ou eu retirarei meu apoio a vocês. Eu vou voltar para as Gêmeas e eu vou me unir aos meus irmãos, no Norte.
—Você me acusa de coisas sérias, Valerion. – disse o Alto Pardal dando um passo à frente.
—Lorde Valerion pra você, velho. – rosnou ele e Myrcella prendeu a respiração. Ele estava com raiva demais para pensar com cautela.
—Eu não vejo motivos para nos prendermos a vaidades tolas como...
—Eu não me importo com o que você vê ou com o que deixa de ver. Esse é meu título e você vai se dirigir a mim por ele, ou não haverá conversa. E não se engane, velho. Um dia será você o acorrentado com homens a açoitá-lo pelas costas. Não esqueci o que fizeste comigo. – Valerion olhou ao redor, para a corte – Esse homem me torturou até que eu falasse aquilo o que ele queria ouvir. Se acham que ele representa o interesse dos deuses, estão enganados. – Valerion o olhou furioso – É apenas um radical em busca de poder, que está manipulando o rei. Em breve todos nós estaremos a mercê de suas loucuras. – Valerion mirou furioso o Alto Pardal – Eu não vou permitir que essa loucura continue.
—Você está numa posição delicada, Valerion Blackfyre. Até onde eu sei, você veio aqui para jurar lealdade ao rei Tommen e se explicar pelo que fez nas terras Fluviais. – disse o Alto Pardal.
Valerion deu um passo adiante e os membros da guarda real sacaram as espadas, todos ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado. Valerion sorriu, desafiador, mas seus olhos ainda brilhavam com fúria.
—Quantos soldados você tem, velho? – perguntou Valerion. O Alto Pardal engoliu em seco e seu primo Lancel se adiantou. Ele estava bem diferente do que se lembrava. Muito forte, com os cabelos curtos, e uma ferida em forma da estrela de sete pontas da fé na testa.
—Somos inúmeros. – respondeu Lancel. Valerion riu com escárnio.
—Quantos soldados? – perguntou Valerion – E não falo da aliança com os Lannister e os Tyrell. Eu falo apenas da Fé. Quantos?
—Somo mais de cinco mil soldados. – respondeu ele e Valerion sorriu de novo, parecendo satisfeito, negando com a cabeça.
—Pois eu o chamo de mentiroso. – riu ele e Lancel esbugalhou os olhos, ofendido – Eu tenho uma pergunta a todos vocês. – riu Valerion olhando a corte ao seu redor. Myrcella já estava suando frio, querendo que ele calasse a boca e dobrasse o joelho a Tommen – Quantos dos seus soldados antes da guerra eram fazendeiros? Quantos eram sapateiros, artesãos, ferreiros, padeiros? Quantos deles eram alfaiates, ou criadores de animais? Os exércitos de vocês são formados por esse tipo de gente. Pequenos senhores, treinadores de cães, criadores de porcos, fazendeiros, pescadores, artesãos, músicos, taberneiros, vendedores. Todos obrigados a responderem a convocação de seus senhores para fingirem serem soldados. – Valerion sorriu de novo – Alguns deles aprenderam a lutar. Afinal há quanto tempo estamos em guerra? – ele olhou para o Pardal – Mas outros nem tanto... outros não tiveram a chance. Outros não tem armaduras e nem boas espadas, porque não sabem afiá-las. Lutam com bastões cheios de pregos, ou armas de metal ruim e malcuidado. Agora eu pergunto... vocês sabem quem são os fazendeiros, criadores de porcos, pescadores, ferreiros, músicos e taberneiros de Harrenhal? – perguntou Valerion e os homens dele bateram no peito em uníssono, sacando espadas e lanças. Algumas mulheres gritaram e outras se abraçaram com medo. Os homens da Guarda Real avançaram um passo e os lanceiros de Valerion avançaram cinco, com as lanças em horizontal, prontas para atacarem. Myrcella observou seus Imaculados ficarem em posição de combate, colocando as lanças nas costas de Lancel, de tio Kevan e tio Jaime. Abriu a boca em choque e mirou Valerion – São Imaculados, são mercenários da Companhia Dourada, dos Corvos Tormentosos e Volantinos. Então eu vou repetir a pergunta, velho. Quantos soltados você acha que tem? – perguntou Valerion e Myrcella engoliu em seco – E quantos acham que vão sobreviver pra defenderem o seu orgulho?
—Quantos dos seus morrerão pra defender o seu? – devolveu o Pardal.
—Bem... – Valerion sacou a espada e Myrcella teve certeza de que veriam o sangue – Eu luto por eles tanto quanto eles lutam por mim. A Fé dos Sete é a menos seguida em Harrenhal e homens como o senhor nunca são tolerantes com outras religiões. – o Pardal olhou para Valerion, parecendo surpreso. A tensão era gigantesca. Vários Pardais jogaram suas armas no chão, em sinal de rendição. Eles eram maioria lá fora, não lá dentro. Seria um massacre e Myrcella não via como o Alto Pardal poderia sair vivo dali. Valerion tinha mais homens, mais bem armados, mais bem treinados. Os homens Tyrell tiraram as espadas da bainha também e Myrcella notou que Lady Olenna sorria – Mas eu não quero derramar sangue se não for necessário. Eu aprecio negociações antes de violência, ao contrário do senhor. Então lhe darei exemplo de uma boa criação e boa educação. Solte Loras Tyrell agora. – disse Valerion para o Pardal – E retire todas as tolas acusações infundadas contra ele e contra Margaery. – Ele então olhou para Tommen – E você peça desculpas pelas ofensas dirigidas a mim e me devolva o que me tirou. – disse Valerion e Tommen mirou tio Kevan – E o senhor, Sor Kevan Lannister. – adicionou Valerion, pegando o velho leão de surpresa – Eu recomendo que faça bons conselhos, pois sua irmã Genna é minha prisioneira e eu estou muito zangado com a sua família. – rosnou ele – Em troca, Harrenhal promete não matar todos vocês de fome. Eu mandarei meus homens voltarem a abrir as rotas da cidade. A maior parte das minhas forças estão há um dia de marcha de Porto Real. Deixei pouco mais que mil homens nas Gêmeas. Se eu não estiver de volta em dois dias, minhas forças cairão sobre a cidade, junto com as do meu irmão Aegon. E seus muros não são altos o suficiente para impedirem um dragão. E você sabe do que eu estou falando, Sor Kevan. Eu o aconselho a não pagar pra ver. – rosnou Valerion. Os homens ainda estavam em posição, parecendo apenas esperar um reles sinal, para caírem uns sobre os outros. O Blackfyre mirou Tommen, que se levantou, parecendo acuado.
—Você não pode... – começou ele e os soldados de Valerion avançaram mais um passo. Suas lanças há poucos centímetros da Guarda Real. Tommen engoliu em seco, tremendo de medo e recuou. Em seguida ele soltou um grito, puxando a mão, que sangrava. O Trono o havia cortado. Ele olhou ao redor, acuado e Myrcella se levantou, indo até ele – O que eu faço? – sussurrou seu irmão caçula, em completo pânico, e ela mirou sua mão com cuidado.
—Meistre Pycelle, o senhor pode dar uma olhada nisso? – pediu ela, com firmeza. O Meistre veio se arrastando até eles – Me permite resolver isso? – perguntou para o irmão, que concordou com um aceno de cabeça – Então me apoie. – disse num sussurro para ele. Desceu os degraus do Trono de Ferro e foi até a Guarda Real – Guardem as espadas. – disse autoritariamente. Os homens a olharam confusos – Não pedirei uma segunda vez. – disse zangada – Vocês também! Guardem as armas! Isso vale para você, Valerion. E vocês aí. Recuem. – disse olhando para os homens que tinham rendido seus tios e Lancel. Os homens de Valerion olharam para ele e ele guardou a espada. Os homens dele o imitaram, assim como os soldados da Guarda Real. Valerion finalmente a olhou nos olhos e então ficou de joelhos, baixando a cabeça. Os homens dele o imitaram e Myrcella corou, surpresa. Os homens Tyrell não se ajoelharam e ela notou que Olenna não parecia mais tão satisfeita. Myrcella mirou Valerion e respirou fundo – Valerion da Casa Blackfyre, eu, princesa Myrcella, falando em nome do meu irmão, Tommen Baratheon, primeiro de seu nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens, Senhor dos Sete Reinos e Protetor do Território, peço formais desculpas por tudo o que passou. – disse e Valerion levantou o olhar para ela, parecendo mais calmo – Eu lhe concedo novamente o título de Lorde de Harrenhal, além de conceder-lhe o título de Senhor do Tridente.
—Myrcella! – ralhou tio Kevan.
—Certo, Tommen? – perguntou Myrcella para o irmão, que concordou com um trêmulo aceno de cabeça enquanto Meistre Pycelle enfaixava sua mão.
—Muito bem. Mas isso se, e somente se, jurar lealdade ao Trono de Ferro e apoiar Tommen. – disse pensando como a irmã do rei e não como Myrcella. Valerion sorriu para ela e suspirou.
—Juro minha espada a você e somente a você, princesa. Minha espada e meu coração são seus, assim como meu amor. Voltei por ti e não por Tommen. – respondeu Valerion ficando de pé e Myrcella sentiu-se tonta e corada, quente – Case comigo, agora. – pediu ele – Se ele é um Alto Septão, que venha aqui e nos case. Agora, em frente a todos. E que não restem mais dúvidas a ninguém em todo reino sobre meus sentimentos por ti. Case comigo. – pediu ele e Myrcella abriu a boca em choque.
—Isso é... – começou Jaime Lannister.
—Se meu irmão permitir. – cortou Myrcella. Ela e Valerion olharam para Tommen, que parecia constrangido por voltar a ser o dono das atenções.
—Bem... se isso encerrar os conflitos. – balbuciou ele – Ai! – lamentou o menino rei quando Pycelle tentava dar um nó nas faixas em sua mão – Hum... então voltas a ser Lorde de Harrenhal. E agora és senhor do Tridente. E como fica sua posição no Conselho? Desejas ser novamente Mestre das Leis?
—Receio não ser o momento para voltar ao Conselho, Vossa Graça. – disse Valerion, com vigor na voz – Depois de me casar com sua irmã e ter a consumação desse casamento, marcharei contra o Norte e convencerei a minha irmã a aceitar a paz. – disse Valerion. Tommen sorriu feliz e Myrcella não achou que fosse simples assim.
—E como pretendes fazer isso? – perguntou para ele num sussurro. Ele a olhou divertido e não respondeu.
—Tragam o ouro. – disse ele e os soldados Blackfyre abriram caminho. Duas carruagens entraram no salão, sendo puxadas por homens e não por cavalos. Abriram-nas e o brilho das barras de ouro pareceram iluminar o salão – Que minha lealdade não seja mais questionada. – ele a olhou – Minha senhora, me disseste uma vez que queria um casamento simples e que desejava que eu pagasse uma parte da dívida do Trono com o dinheiro que eu estava disposto a gastar em nosso casamento. Quero desposá-la ainda hoje, amanhã marcho para o Norte, se tiver a autorização do Rei Tommen. – disse Valerion.
Tommen concordou com um aceno de cabeça e Valerion se curvou para ela e para o rei. Myrcella o observou se retirar e os homens dele o seguiram, incluindo os dez imaculados que costumavam segui-la por aí. Todos eles saíram e Bry se aproximou trazendo um pacote nas mãos.
—Vossa Graça. Lorde Valerion trouxe esse vestido de Harrenhal. Pertenceu à senhora mãe dele. Ele deseja que use isso hoje. – disse Bry, lhe entregando o pacote – Eu preciso ir! – adicionou ele largando o vestido em suas mãos, para em seguida pegar o cavalo de Valerion pelas rédeas e sair correndo na direção do Blackfyre. Myrcella engoliu em seco e mirou o irmão, que parecia aliviado. Margaery estava séria, estudando tudo aquilo. O Alto Pardal parecia contrariado e Lancel, furioso. Olhou para tio Jaime e notou que ele não parecia nada feliz. Nem seu tio Kevan, que parecia antes preocupado do que zangado.
Mas para ela parecia tudo perfeito. Seu plano dera certo e ela tinha conseguido realizar tudo o que desejara.
**
Estavam em Winterfell. Apenas passariam a noite lá, para em seguida marchar para o Sul, para as Gêmeas. Era onde encontrariam Valerion e as irmãs de Robb. Shiera estava sentada embaixo do represeiro, afagando o pelo macio de Lady. Os lobos gigantes tinham sido encontrados no caminho para Winterfell e ela ficara muito feliz por isso. Lady estava com a cabeça apoiada em suas pernas, enquanto Shiera mirava o lago. Fechou os olhos, apreciando o silêncio e escutou o som de passos. Olhou para trás, sempre muito alerta a esse tipo de situação. Sentia-se constantemente em perigo, sempre em contínuo estresse, desde que casara com Bolton.
Engoliu em seco se lembrando dele. Ele havia ainda estava vivo nas masmorras. Matara Petyr Baelish e lhe devorara a dentadas. Então retiraram o corpo de Mindinho de lá e deixaram Bolton preso, para morrer de fome. Ele, aparentemente, já tinha perdido a sanidade e ela achava que tinha sido bem feito para ele.
Mas quem vinha era apenas Robb. Ele lhe dirigiu um sorriso gentil e olhou para as folhas vermelhas do represeiro. Finalmente tinha parado de nevar e fazia um dia relativamente quente. O Bosque estava mais morno ainda, por conta do lago de água quente. Ficaram os dois em silêncio, mas o silêncio era diferente. Não era aquele silêncio constrangedor e cheio de incertezas que sempre pairava entre eles quando ficavam sozinhos. Era um silêncio calmo e cheio de paz.
—Não queria sair daqui. – confessou Robb. Shiera respirou fundo, entendendo o sentimento. Se não fosse por Valerion, ela também não iria querer sair. Não do Bosque, pelo menos. Robb se aproximou e se sentou ao seu lado. Vento Cinzento pulou em cima de Lady e a mordiscou querendo brincar. Lady rolou para o lado e logo os dois lobos estavam fazendo bagunça, correndo de um lado para o outro, como se não passassem de dois filhotes de cachorro. Robb sorriu divertido e Shiera fez o mesmo – Seu sorriso é tão bonito, minha senhora. – murmurou ele e Shiera desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. Sentiu a mão de Robb em um de seus cachos. O esposo aproximou o rosto para sentir seu cheiro e ela sentiu-se incomodada com a proximidade dele. Não era só com Robb. Era com qualquer um e isso incluía Jon. Achou que seria diferente com ele, mas não fora – Queria muito poder compartilhar de sua cama hoje. – murmurou Robb e ela engoliu em seco. Mirou a árvore coração e sentiu um calafrio lhe subir a espinha.
—Está bem. – disse apesar de não estar. Era casada com ele, mas só de pensar na desastrada meia última vez que tiveram a enchia de preguiça. No entanto sorriu para ele, tentando fingir que não tinha problema algum. Robb a olhou com cuidado e suspirou.
—O que devo fazer para... quebrar essa parede de gelo que surgiu entre nós? – perguntou ele e Shiera desviou o olhar.
—Não sei o que queres dizer com isso. – respondeu ela.
—Sabe sim. – retrucou Robb e Shiera respirou fundo – Eu sei, você sabe, seu irmão sabe, Theon sabe. Todos que nos conhecem sabem. – disse ele e Shiera baixou o olhar.
—Talvez não haja o que ser feito. Talvez precisemos nos resignar com isso.
—Com isso o que? – perguntou ele e ela não respondeu – Shiera, olhe pra mim. – pediu ele e ela obedeceu – Você ainda me ama? – perguntou Robb. Shiera o olhou nos olhos e ficou em silêncio – Responda, minha senhora... por favor... – murmurou ele tocando seu rosto com uma mão e encostando a testa na sua – Eu te ouviria mesmo que custasse minhas orelhas. – murmurou ele e Shiera se lembrou de outras vezes que ele dissera aquilo. Nas outras vezes estivera zangada com ele, mas com esse comentário bobinho acabava relevando o que quer que fosse. Robb a olhou nos olhos, com um carinho gigantesco e ela se sentiu mal por não sentir a mesma coisa que antes. Lembrou de Roose perguntando se ela sentia falta de ser uma Stark, mandando fingir que era uma, a colocando numa posição humilhante para estuprá-la. Seu corpo tremeu e ela desviou o olhar, sentindo-se frágil. Sempre se imaginou uma mulher forte. Sabia lutar, sabia atirar, tinha uma astúcia afiada e pensamento rápido. Mas nada disso a impedira de ser dobrada por Roose. Quando apanhou dele pela primeira vez, se sentiu tão assustada e envergonhada que não conseguiu fazer nada além de chorar, desejando que tudo acabasse logo – Minha senhora?
Se levantou, sentindo o coração acelerar.
—Eu sinto muito, mas preciso ficar sozinha. – disse nervosa, sem olhar para ele. Se afastou quase correndo, tentando não chorar. Não queria se lembrar daquelas coisas, mas não conseguia. Xingou mentalmente e passou por Jon e Aegon, que conversavam.
—Shiera? O que houve? – perguntou Aegon.
—QUERO FICAR SÓ! – gritou correndo para o castelo.
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—QUERO FICAR SÓ! – gritou ela, correndo para o castelo.
Jon olhou para Aegon, que mirava a irmã, preocupado. Em seguida o Blackfyre suspirou e balançou a cabeça, zangado.
—Ela não está bem. Shiera nunca foi de chorar. – disse ele e Jon suspirou.
—Ela passou por coisas difíceis. – murmurou Jon.
—Eu sei. Eu vi o rosto dela quando cheguei aqui. – murmurou Aegon. Jon concordou com um aceno de cabeça e o rapaz cruzou os braços – Bem... vamos? Eu quero ver o rosto da beldade que roubou o coração de Rhaegar Targaryen.
—Não quer ir atrás da sua irmã? – perguntou Jon, preocupado.
—Quando Shiera diz que quer ficar só, nós devemos deixá-la só... ou corremos o risco de sermos acertados na cabeça com algo pesado. A mira dela é muito boa. – resmungou Aegon e Jon riu, sem se sentir completamente convencido.
—Se importa se eu for atrás dela? – perguntou com insistente preocupação – Algumas vezes, só algumas, achamos que queremos ficar sozinhos, quando o que queremos é justamente o contrário. – Aegon revirou os olhos com impaciência e deu de ombros.
—O enterro é seu. – disse ele – Mas esteja preparado para abaixar e se esconder atrás de algo. – aconselhou ele e Jon concordou. Deu meia volta, indo em direção ao castelo. Seguiu os olhares confusos e os murmúrios dos servos. Fez duas ou três perguntas e logo achou Shiera. Ela estava num quarto qualquer soluçando numa cama.
Jon entrou e fechou a porta, a olhando com preocupação. Andou até ela e se sentou no colchão ao seu lado. Tirou as luvas e a afagou nos cabelos. Shiera encolheu ao sentir seu toque e o olhou em prantos. Ele suspirou e a puxou com toda delicadeza do mundo. Ela se deixou puxar e deitou a cabeça em seu peito.
—Eu deveria ter tido outro plano! – chorou ela, tremendo e soluçando, enquanto ele a abraçava – Jon, foi tão horrível. Você me avisou, mas eu achei que aguentaria... mas eu não aguentei. Acho que estou enlouquecendo! – lamentou ela e ele sentiu mais ódio ainda de Roose Bolton – Se eu tivesse ficado na Muralha, Rickon estaria vivo, os Patrulheiros não teriam se amotinado e Roose nunca teria encostado em mim.
—Você não sabe disso. – murmurou Jon – Você provavelmente teria sido morta também, numa emboscada. Eles mandariam nossas cabeças para ele. – disse a afagando nos cabelos.
—Pois eu preferiria ter morrido. – chorou ela e Jon a beijou na testa. Um beijo lento e cheio de carinho. A puxou mais para perto, para confortá-la e quando terminou aquele afago, ela o olhou nos olhos – Eu não sei o que fazer. – murmurou ela.
—Você precisa... se dar um tempo. – disse Jon e ela engoliu em seco.
—Eu o estou machucando, Jon. Eu não quero machucar Robb, mas é o que eu estou fazendo. Toda vez que Roose vinha reivindicar seus direitos como esposo, eu pensava em Robb... era como eu conseguia passar por aquilo. – ela engoliu em seco – Ele era minha fortaleza... – Shiera escondeu o rosto com as mãos – Mas agora... agora sempre que ele se aproxima, sempre que ele me olha, sempre que ele me toca... eu penso em Roose. Eu penso naqueles dias malditos. Ficar perto de Robb me faz mal. O que eu devo fazer? – ela o olhou com os olhos vermelhos – Ele é meu marido, mas não suporto mais a presença dele. E quando ele está longe, meu pensamento vai sempre até... até você... até aqueles dias na Muralha. – ela o afastou e secou as bochechas – Oh, eu sou uma mulher terrível.
Jon engoliu em seco sem saber o que poderia fazer. Queria ajudá-la a se sentir melhor, mas sabia que jamais seria objetivo com ela, afinal, nunca fora. Mas ela o olhou esperando que ele propusesse uma solução. Engoliu em seco e a afagou no rosto.
—Vocês estão trocando os pés pelas mãos. Querem resolver isso rapidamente e de uma vez. A Muralha não foi construída num dia. Winterfell não foi construída em um mês. Harrenhal não foi construído em um ano. Vocês precisam ser pacientes e esperar. – disse Jon. Shiera o olhou aflita e em seguida desviou o olhar – Esperem o tempo que vocês precisam. Robb vai ter que respeitar isso, assim como você.
Shiera respirou fundo e fungou. Depois o olhou e sorriu um sorriso terno e cheio de carinho. Mesmo que seu rosto estivesse inchado e vermelho, ela era a mais maravilhosa das visões. Sorriu também, olhando para ela, se lembrando dos dias na Muralha, do dia em que fizeram juras no Bosque Sagrado, e dos dias em Harrenhal. Lembrou de dançar com ela e de admirar aqueles olhos violetas com assombro. Seus olhos desceram dos olhos dela para a boca. Uma boca avermelhada, carnuda. Seu coração acelerou e seu corpo se arrepiou. Shiera segurou sua mão e suspirou. A boca dela era tentadora. Tentadora demais. Sentiu a outra mão dela vir para seu pescoço e escorregar para seu peito, numa carícia gentil. Ela encolheu de leve, parecendo enfrentar algum tipo de luta interna. Os dois se encararam de novo, com a respiração pesada de quem está tentando se segurar. A viu morder o lábio e afastá-lo, virando o rosto e o momento foi apenas parcialmente quebrado. Sentia vontade de puxá-la para si e repetir o que tinha feito com ela na Muralha. Queria dar a ela todo o carinho e amor que guardava dentro de si e que sabia que ela merecia.
Mas se conteve.
Ficaram sentados um ao lado do outro, mirando o chão, num silêncio cheio de significados.
—Robb quer que eu fique longe de você. Talvez ele tenha razão. Eu deveria fazer isso. – murmurou Jon – Ele é meu irmão.
—Você é honrado demais para traí-lo. Se quer se afastar é para não se magoar e não por ele. – murmurou Shiera, se abraçando.
—Eu colocaria tudo de lado, por você. – murmurou Jon e Shiera o olhou surpresa. Ele sorriu timidamente – Me pergunto se meu pai se sentiu assim, com a minha mãe. Ele também era um homem honrado, mas traiu a senhora Catelyn.
—É completamente diferente. – disse Shiera e Jon a olhou – Ele traiu uma mulher que ele viu uma vez. Ele não sentia nada por ela. Você sente por seu irmão. Vocês cresceram juntos. – murmurou ela e Jon sorriu um sorriso cheio de culpa.
—Faz meu crime ser ainda maior. – murmurou ele. Shiera o olhou surpresa.
—O que seria capaz de fazer? – perguntou ela.
—Agora, nada. – disse Jon sem ter muita certeza disso – Mas e se vencermos a guerra contra os mortos? E se sobrevivermos? Eu não sei. Raios, Shiera, eu não sei. – ele a olhou – Eu amo você. – disse ele – Por mais errado que seja.
—Eu amo você. – murmurou ela de volta – Por mais errado que seja. – confessou ela ficando de pé e indo até a porta. Ela se virou e o encarou – O que você quer fazer?
Engoliu em seco e se levantou, indo até ela. Ficando perto demais dela. Ela encolheu e tremeu de leve, mas em seguida pareceu relaxar. Sentiu os olhos dela sobre os seus e achou que estava próximo ao próprio limite. Se curvou, aproximando os lábios dos dela. Shiera levantou o rosto, permitindo, fechando os olhos num sinal de entrega. Ele só precisava reivindicá-la. Só precisava selar o acordo. Apenas um beijo e seria tarde demais para olhar para trás. Seria trair Robb, ser egoísta e correr atrás da própria felicidade. Seu corpo avançou mais um pouco, tocando o dela, prensando o dela contra a porta de madeira. Shiera enlaçou seu pescoço e Jon sentiu suas mãos enlaçarem a cintura dela.
Seu coração batia acelerado. O perfume dela se enroscava em seu corpo, afastando pensamentos sensatos. O corpo dela chamava o seu, suas memórias exigiam que ele se entregasse e repetisse o que tinham feito na Muralha, no quarto dela. Seus lábios encostaram, mas não se moveram. Os dois, ao mesmo tempo desistiram do momento e se afastaram.
—Não... não devemos. – murmurou infeliz.
—Não é justo com Robb. – murmurou Shiera. Jon concordou – Farei o que sugeriu, Jon... vou me dar um tempo. Talvez... talvez tudo volte ao normal, depois de esperar um pouco. Talvez enterrar Roose Bolton seja o que eu preciso fazer para superar tudo isso.
Concordou com um aceno de cabeça. Abriu a porta e deu passagem para ela. Shiera saiu do quarto e ele saiu logo em seguida. Andaram lado a lado, até o quarto da Rainha. Se despediram em silêncio e ela se recolheu aos próprios aposentos. Ficou mirando a porta imaginando como teria sido se não tivessem desistido. Provavelmente estaria sendo o traidor desonrado mais feliz dos Sete Reinos.
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