Blackfyre
55 Lady Blackfyre
Notas iniciais

Capítulo 55
Lady Blackfyre
—Você não tinha o direito de fazer isso Myrcella! Em ceder a todos os pedidos dele sem nem mesmo me consultar primeiro! – rosnou seu tio avô. Myrcella estava terminando de vestir o vestido que Valerion trouxera e o estava achando simplesmente lindo. Não era exatamente um vestido comportado. As costas eram completamente nuas, com correntes de ouro as enfeitando. Era de um vermelho profundo, como sangue, com detalhes negros, em bordados que lembravam fumaça. A saia tinha belos dragões negros, enfeitados com fios de ouro e rubis. Haviam fios de ouro mole em vários lugares, de maneira elegante e rica. Seus ombros estavam nus e o fecho do vestido, ao redor de seu pescoço tinha a forma do dragão de três cabeças dos Blackfyre – Você acha que tem o homem nas mãos, mas se engana. É ele quem tem você! Você deveria ter deixado que eu cuidasse de tudo!
Seus cabelos estavam presos na parte de trás da cabeça, com os cachos caindo numa cascata de ouro sobre seus ombros. Uma aia lhe estava aplicando mais umas gotas de perfume no pescoço e Myrcella suspirou satisfeitíssima mirando seu reflexo no espelho.
—Vantagens de se ter um irmão caçula frouxo como rei, tio. Ele me deu o direito. – disse se sentindo muito bem – Poderia parar de chatice e falar que eu estou bonita?
—Está cada vez mais parecida com a sua mãe. E não é apenas na aparência. – ralhou ele e a porta se abriu. Jaime Lannister, com sua armadura branca, apareceu. Ele a olhou dos pés à cabeça e suspirou. Recebeu um sorriso gentil do tio, que entrou de vez no quarto e coçou o queixo.
—Terminou de brigar com ela, tio? – perguntou ele daquele jeitinho zombeteiro que ele tinha.
—E adianta? – perguntou Kevan – Eu não estou gostando nada disso. As coisas não deveriam tomar esse rumo. Os Blackfyre fragilizam nossa aliança com os Tyrell.
—Valerion quer matar os todos os pardais, principalmente o líder deles. Aparentemente ele está mais próximo de ajudar a rainha do que você, tio. – acusou Jaime sem mudar o tom – Agora que ele tem a sua irmã, talvez isso o faça se lembrar de como deveríamos tentar proteger uns aos outros, e não somente a quem nos convém. – devolveu seu verdadeiro pai e Myrcella preferiu o silêncio. Tio Kevan enrubesceu e bufou, saindo do quarto. Seu tio olhou para as aias, que entenderam o recado e se retiraram também. Ele se aproximou e lhe afagou no queixo, com um sorriso orgulhoso – Valerion estava prestes a declarar guerra, mas dobrou o joelho a você na primeira oportunidade.
—Ele me ama.
—Não tenho certeza disso. Tome cuidado, Myrcella. Ele pode tanto amar você, quanto estar tentando te usar. Seja esperta e não sofra nas mãos dele. Entendeu? – perguntou ele com um sorriso – Você é a mais esperta dos meus sobrinhos. Trate de continuar assim. – disse ele e Myrcella sorriu.
—Tenho certeza de que posso contar com o meu pai, caso Valerion quebre meu coração. – disse sorrindo marota para ele e Jaime a olhou surpreso. Ele desviou o olhar, como se buscasse ar e então a olhou de novo, constrangido.
—Sua... sua mãe te contou? – perguntou ele.
—Não... mas eu já sabia. Acho que sempre soube. – disse ela avançando um passo e o abraçando – Obrigada por me apoiar, pai. – murmurou e sentiu os braços fortes dele lhe envolverem os ombros – Você vai me levar para Valerion, ou será Tommen? – perguntou ela.
—Certamente serei eu. Tommen estará ao lado do Alto Pardal, com a esposa. – explicou seu tio – Eu serei seu Guarda Real pela noite. – disse ele e Myrcella sorriu. Os dois se afastaram e Jaime lhe olhou nos olhos – Tome cuidado. Pode achar que somos todos apenas adultos chatos que não entendem o que você pensa e sente. Mas nós sabemos. Nós já tivemos a sua idade. Nós já estivemos em situações parecidas. Esteja sempre alerta e não deixe que ele use você. – Jaime sorriu a olhando nos olhos – Você é uma princesa e ele é apenas um Lorde. Ele quem deve ser seu instrumento. Nunca subestime seus inimigos e nem seus aliados. Olhe o que aconteceu com sua mãe. Ela imaginou que tinha o Alto Pardal na palma da mão. – murmurou ele com preocupação. Myrcella engoliu em seco e concordou com um aceno de cabeça.
—Você realmente acha que ele só está me usando? – perguntou Myrcella. Jaime soltou um suspiro e foi se olhar no espelho, para pentear os cabelos dourados.
—Eu acredito que sim, mas talvez seja apenas ciúmes por ver minha garotinha se casando com um rapazinho abusado. – Jaime a olhou de novo – Eu sou grato a ele. Ele salvou Tyrion. E o fato de Tyrion estar com ele e ele estar se casando com você me dá esperanças de que Tommen tenha um reinado longo. – disse ele se aproximando – Eu tenho esperanças, mas não vou me apoiar completamente nelas. E você deve fazer o mesmo. – ele lhe ofereceu o braço – E não pense que eu não terei uma conversinha com ele.
—Do tipo: magoe a princesa e eu enfiarei minha espada entre suas omoplatas? – perguntou abraçando o braço dele. Jaime sorriu satisfeito.
—Sim, algo desse tipo... eu tinha pensado em falar algo como: Já matei um dragão, posso matar outro. – ele deu uma risadinha e Myrcella o acompanhou – Pronta? É um longo caminho até o Septo.
—Ele já está lá? – perguntou ela, sentindo a barriga remexer de nervosismo.
—Já. Colocou um número absurdo de guardas lá dentro. Assim como os Tyrell e é claro, nós, os Lannister. Deve ter mais soldado no Septo do que membros da corte. – adicionou ele a guiando para fora do quarto. Myrcella foi andando ao lado do pai até uma carruagem, onde alguns guardas a ajudaram a entrar. Passaram pelo povo comum, que dava vivas e jogava flores em frente aos cavalos que guiavam a carruagem. Gritavam vivas e desejavam felicidades. Muitos tinham panos com as cores dos Blackfyre e ela sorriu sabendo que em breve seria uma – Ele é muito popular.
—Sim. Todos o amam. – suspirou ela.
—Ele trouxe um bocado de pão e distribuiu para as pessoas a caminho do castelo. Algumas pessoas disseram que ele jogou moedas de ouro e não pão. Mas eu duvido muito. – riu Jaime olhando pela janela – Ele sempre se preocupou em agradar as massas.
—Sim. – murmurou se lembrando dos dias em que ele passava no porto, distribuindo comida – Não acho que ele esteja errado.
—De maneira alguma. Quando ele foi preso no Septo de Baelor, a multidão encurralou o lugar exigindo que ele fosse solto. Tivemos rebeliões e brigas durante semanas. – murmurou seu tio – E quando ele fugiu, todo pobre pareceu feliz da vida. – disse ele e Myrcella respirou fundo.
Em alguns minutos chegaram em frente ao septo e Jaime desceu para ajudá-la a sair. Sor Arys Oakheart a esperava também, para acompanhá-la. Dois membros da Guarda Real a levariam para Valerion. A multidão esticava os braços tentando alcançá-la, mas os guardas Lannister e Blackfyre faziam um cinturão, impedindo. Acenou para o povo, que mandava beijos e jogava pétalas de rosas aos seus pés. Demorou mais do que o necessário para entrar no septo, tentando retribuir o carinho dos homens simples. Chegou até a afagar a bochecha de um bebê magrelo, para a alegria os pais dele. Mas então finalmente entrou no septo e notou que seu tio não tinha exagerado. Haviam muitos guardas armados no septo e ela notou que os pardais não se sentiam confortáveis com isso. Um dos corredores que levava para dentro estava mais fortemente protegido por pardais e ela se perguntou se as celas ficariam por ali.
Tentou avançar um passo, mas seu tio a segurou. Ela o olhou e notou que ele parecia muito tenso, assim como Sor Arys. Olhou para frente e entendeu o motivo. Valerion a esperava no altar, mas ele vestia armadura e tinha a espada no cinto. As histórias sobre o Casamento Vermelho pairaram em sua memória e ela não se sentiu segura com todos aqueles soldados Blackfyre a postos dentro do Septo.
—Por que ele está de armadura? – perguntou Jaime.
Myrcella engoliu em seco. Os olhos violetas dele vieram ao seu encontro. Ele estava sério e duro, com um olhar frio. Não havia felicidade alguma em seu rosto. Pairava no ar uma tensão esmagadora. Tommen estava cercado de soldados Lannister e de membros da Guarda Real. Margaery também parecia ligeiramente aflita. Engoliu em seco e se perguntou se deveria tentar fugir. Olhou mais uma vez para Valerion e as expressões dele não mudaram.
—Vamos. – disse simulando mais segurança do que realmente sentia. Seu tio a olhou preocupado e ela o puxou, para que recomeçassem a andar. O caminho até Valerion parecia assustadoramente longo. Por todo lado via soldados Blackfyre acompanharem seus passos. Havia desconforto e medo nos olhos de praticamente todo mundo. Os soldados todos tinham as mãos nos punhos das espadas, fossem Tyrell, fossem Lannister, fossem Blackfyre, fossem de outra casa menor. Subiu os degraus até o altar e Valerion a acompanhou com o olhar. Não havia felicidade nos olhos dele, mas não havia tristeza também. Ele parecia uma estátua, com um olhar vazio. Era como se ele estivesse pousando para uma pintura. Ou como se ele estivesse se casando com alguém que não conhecia. Como se não houvesse sentimento dentro de seu coração, nem por ela e nem por ninguém – Sor... – sussurrou. Ele estendeu a mão para Jaime, para que ele a entregasse e seu tio segurou a mão dele, puxando-o de leve.
—Faça alguma gracinha, e eu te mato. – sussurrou seu tio. Valerion finalmente esboçou sentir alguma coisa. Ele deu um sorriso desdenhoso e pegou sua mão.
—Veremos.
Seu tio levou a mão ao cabo da espada e muitos prenderam a respiração. Myrcella se colocou entre ambos e olhou de um para o outro.
—Estamos no septo! Comportem-se! – ralhou.
Valerion riu com escárnio para seu tio e se virou para o Alto Pardal, sem olhar para ela. Não gostou daquilo e os avisos de tantas pessoas ecoaram em sua mente. Todos aqueles que falavam que ele não gostava dela e que só a estava usando. Respirou fundo, agitada, e o olhou discretamente. Ele olhava furioso para o Alto Pardal, que celebrava a cerimônia. No momento certo, deu as costas para Valerion e ele envolveu seus ombros com um manto vermelho profundo, com bordados negros e fios de ouro. Depois se viraram um para o outro e ele falou em alto e bom tom.
—Com esse beijo, empenho o meu amor. – disse ele a puxando pela cintura com delicadeza. Mas havia algo de diferente, tanto em seu toque quanto em seu beijo. O beijou de volta, mas o momento logo acabou. Valerion entrelaçou os dedos com os seus e se virou para encarar a corte. Todos prenderam a respiração novamente, esperando o que aconteceria. Por um momento imaginou o agora esposo acenando para os guardas, dando sinal para que uma chacina começasse.
—Que os deuses e os homens sejam testemunhas de que Valerion, da Casa Blackfyre, e Myrcella, da Casa Baratheon agora são uma só carne, um só coração, uma só alma. – anunciou o Alto Pardal. Valerion seguiu sem olhá-la. Ele mirava o caminho que teriam que percorrer.
Jaime Lannister e Sor Arys Oakheart seguiram à frente da procissão que partiu do septo, trajando suas armaduras de escamas brancas, salpicadas de ouro, e mantos de neve. Depois Tommen e Myrcella, jogando pétalas de rosa, que tiravam de cestos simples, porém delicados. Lembrava que no casamento de Joffrey, fora ela e Tommen quem jogaram aquelas rosas para que o irmão mais velho e Margaery passassem. Valerion a guiou, seguindo Margaery e Tommen. O olhar dele era duro e constante, sempre para frente. Se sentiu desconfortável com a secura e frieza do esposo. Imaginara que aquele dia seria um dia feliz, cheio de trocas de olhares e sorrisos. Mas Valerion parecia completamente ausente de sentimento.
Depois deles, vieram os Tyrell, seu tio Kevan, e os Tarly.
Ouviu o povo comum em aclamações lá fora antes mesmo de chegar às portas. Assim que saíram do septo, Valerion olhou o povo comum e sorriu orgulhoso. Ele acenou para as pessoas, que gritavam bênçãos e jogavam mais flores. Ele se curvou de leve num agradecimento e o povo pareceu amá-lo ainda mais. O imitou, fazendo uma reverência e as pessoas lhe desejaram felicidades e bênçãos também. Seguiram caminhando pela noite fria, para a grande praça de mármore, em frente à estátua do rei Baelor, o Abençoado. Os homens Blackfyre e Lannister mantinham a multidão afastada, enquanto a corte fazia uma fila, encabeçada por Margaery e Tommen, para parabenizá-los. Myrcella tentou sorrir e ser amável com todos, mas Valerion foi muito mais caloroso com o povo comum do que com qualquer outra pessoa da corte. Metade da Guarda Real ficou fazendo a proteção do rei e da rainha, enquanto a outra metade ficou ao seu redor, para sua proteção.
Quando os cumprimentos terminaram, Bry trouxe dois belos cavalos, um negro e um avermelhado, para que os dois montassem. Valerion a ajudou a subir no vermelho, com todo o cuidado, mas ainda sentia que faltava calor nele. Depois ele subiu no próprio cavalo e ela só conseguiu pensar no quanto ele parecia um rei montado daquele jeito, de armadura e espada.
Foram todos para o grande salão do Trono, onde um banquete feito às pressas tinha sido preparado. Era quase tudo tão simples quanto fora no casamento de seu tio Tyrion ou no de Margaery e Tommen. Valerion desceu do cavalo e a ajudou a sair da cela, novamente com todo cuidado. Mas seus olhos eram evasivos e sem expressão. Ele a guiou até o lugar de honra, e puxou a cadeira para que se sentasse. O fez e ele se sentou ao seu lado. Normalmente teriam um tempo para trocarem de roupa, mas isso foi dispensado.
Depois da tradicional troca de cumprimentos, Valerion levantou a taça e gritou.
—Que as taças sejam enchidas com o doce vinho que Harrenhal teve a cordialidade de oferecer. – disse ele e as pessoas olharam para as próprias taças. Por um momento lembrou-se de Joffrey, sufocando de maneira horrível, em seu próprio casamento. Engoliu em seco, sentindo-se aflita e mirou o marido – À minha esposa, a princesa Myrcella! – disse ele antes de dar um belo gole em seu vinho. As pessoas da corte pegaram suas taças e beberam hesitantes. Myrcella pegou sua taça e Valerion segurou sua mão – Você não. – disse ele no tom mais suave que tinha usado durante todo o dia. Ele suspirou e olhou sua barriga. Suas feições suavizaram e ele voltou a olhar em seus olhos – É melhor evitar o vinho... se estiver mesmo grávida. – murmurou ele. Myrcella concordou e suspirou.
—Acha que inventei isso? – perguntou baixinho.
—Não seria a única mentira que escreveu naquela carta. – disse ele com um tom cheio de acusação. Corou de leve e desviou o olhar – Boa jogada, Myrcella. Espero que goste de colher o que plantou. – disse ele se afastando de leve, para em seguida levantar a taça – Mais vinho!
Logo serviram a comida e ela sentiu-se enjoada. Usou o truque que Meistre Pycelle lhe ensinara, de comer em pequenas porções e mastigar lentamente e bastante. Valerion parecia simplesmente faminto, pois devorou tudo o que lhe era servido. Quando trouxeram um grande javali, ele pegou um bom pedaço e lhe ofereceu.
—Não, obrigada. Javali tem um gosto muito forte. – murmurou ansiosa e ele deu de ombros, colocando o pedaço em seu prato, para comer em seguida.
—Eu matei esse javali no caminho pra cá. – disse ele, parecendo ligeiramente bêbado – Mais vinho!
—Meu querido. Eres fraco para o vinho. Talvez fosse melhor...
—E não é dever de um homem ficar bêbado em seu próprio casamento? – perguntou ele se levantando – Mas se desejas que eu não beba, está bem. O que eu não faço pela minha adorável esposa? – não soube dizer se havia sarcasmo na voz dele. Valerion sorriu e lhe ofereceu a mão – Uma dança?
Engoliu em seco e concordou. Valerion a guiou até o meio do salão, onde dançaram por um bom tempo, até que Jaime pedisse que Valerion lhe permitisse dançar com ela. Ele concordou e foi até Margaery, para chamá-la para dançar.
Dançou com o tio e depois com Tommen. Depois com muitos outros membros da corte. Valerion ficou conversando com Margaery e pareceu finalmente sorrir de verdade quando Loras apareceu. Muito magro e parecendo ter passado por dias terríveis. Ele e Margaery foram correndo até o rapaz, que estava de volta em sua armadura da Guarda Real e passaram praticamente todo o banquete juntos.
Mais tarde alguém gritou que era hora de começar a cerimônia de núpcias e ela sentiu o rosto ferver. Ouviu o “PARA A CAMA” ser gritado por todo o salão e logo os lordes a colocaram sobre suas cabeças, para começar a despi-la. Viu que muitas senhoras começavam a arrancar a armadura de Valerion, enquanto soldados dele catavam cada peça que elas conseguiam retirar.
Logo estava nua, em cima dos lordes, sendo guiada para seu quarto. Estava constrangida e assustada, se perguntando o que iria acontecer em seu quarto. Seus ouvidos ouviam apenas parcialmente as brincadeiras que os lordes falavam. Quando deu por si, já estava na cama, esperando que Valerion fosse entregue. Ele chegou ainda bastante vestido, pois era difícil para as senhoras tirarem sua armadura. Ele as dispensou e fechou a porta, parecendo cansado. Depois ele a olhou, enquanto ainda escutavam os gritos vulgares e maliciosos dos convidados do outro lado da porta.
Valerion respirou fundo e mancou até a sua cama, parecendo muito bêbado e muito cansado. Ele começou a retirar a própria armadura, em silêncio e ela sentiu vontade de chorar.
—Até quando vai ficar assim? – perguntou nervosa. Valerion estava suando e a olhou com os olhos sem expressão. Ele continuou se despindo e quando ele tirou a camisa, gritou de susto – O que foi isso nas suas costas? – perguntou horrorizada. Pareciam que o tinham cortado várias e várias vezes, por todas suas costas. Alguns cortes pareciam cicatrizar bem, outros não. Um deles, inclusive, sangrava, meio aberto. Valerion respirou fundo e se deitou de barriga na cama. E quando ele fez isso, viu cortes mais recentes em sua barriga e nas costelas
—Dor... – murmurou ele num lamento – Céus, dói demais.
—Quem fez isso com você? – perguntou em choque – Eu vou chamar Pycelle.
—Não! Deixe aquela ratazana longe de mim. – resmungou ele tremendo de leve.
—O que aconteceu?
—Nas costas foram o Alto Pardal e seus pardais. – resmungou Valerion – Nas costelas e na barriga foram Arya Stark... quando eu disse que estava voltando por você. Ela não gostou muito. – lamentou Valerion.
—Você se machucou lutando contra uma garota? – perguntou confusa. Ele concordou com um aceno de cabeça.
—Você ficaria surpresa com a habilidade dela. – murmurou Valerion. Ficaram em silêncio por alguns momentos e então ele a olhou, ainda deitado – Estás mesmo grávida? – perguntou ele – Disseste que estava em perigo, que eles iriam prender-te. Eu estava ferido, rasgado... mas vim para cá desesperadamente rápido. Eu voltei pra esse inferno por você. Achei que eles poderiam estar tentando te machucar. Todos falaram para que eu não viesse... mas você estava bem. Tommen é aliado do Alto Pardal. Você mentiu pra mim. – murmurou ele, magoado – Eu poderia ter morrido no caminho pra cá. – ele se sentou parecendo realmente magoado.
—Eu não menti sobre isso. – garantiu segurando a mão dele e a colocando sobre seu ventre. Valerion olhou para sua barriga e suspirou – Estou mesmo grávida. E eu acho que será um garoto.
—Não tens como saber. – disse ele alisando seu ventre e voltando aos poucos a ser o homem que ela conhecia. Foi quando se tocou que talvez o humor dele fosse simplesmente por conta de sua mentira e por conta da dor nos ferimentos.
—Valerion... – ela engoliu em seco e o olhou – Eu não fui a única a mentir. Me garantiste que não ajudaste Sansa Stark a fugir...
—Pensas que eu seria tolo de confessar algo assim? – perguntou Valerion se levantando com uma careta – Eu a amava. – murmurou ele – Eu ainda a amo. – confessou ele e ela sentiu uma pontada no coração – Mas você ganhou, Myrcella. Agora finalmente tens o título de Lady Blackfyre. – ele sorriu com mágoa – Mentiste pra mim, foste engenhosa... me falaram que eu não deveria ter voltado. Sansa implorou para que eu não voltasse. Até teu tio disse que eu deveria esperar e pensar sobre teu bilhete com mais calma. Mas eu só conseguia pensar no perigo que tu poderias estar passando. Eu fugi dos meus próprios homens. Eu desisti de finalmente reencontrar meus irmãos, de estar junto da minha família. Eu desisti da mulher que eu amo. Por você. E quando chego aqui vejo que não passou de uma mentira.
—Valerion... eu... – queria explicar que estava com medo, que não queria perdê-lo, que todos contavam com ela para manter o apoio de Harrenhal.
—Eu sou um homem de palavra, eu cumpro meus votos. Enquanto Tommen me reconhecer como Lorde de Harrenhal, eu apoiarei o Trono de Ferro contra minha própria família. Enfiarei uma faca no meu coração e farei o que é certo. O que é esperado que eu faça. – ele a olhou com muita mágoa no olhar – Só não espere que um dia eu te ame, Myrcella. Porque agora, mais do que nunca, isso não vai acontecer. – ele a olhou no fundo dos olhos e ela sentiu um aperto no peito – Se tivesse apenas falado que estava grávida e que desejava meu retorno, eu teria voltado assim mesmo, porque sou homem o suficiente para arcar com as consequências dos meus atos. Admito a minha responsabilidade sobre tua gravidez, mesmo que tivesse me garantido que estava tomando os cuidados necessários para evitar uma gravidez. Eu teria demorado um pouco para voltar, é certo. Eu teria me resolvido melhor. Não teria feito a loucura que fiz. Eu teria explicado a situação para meus irmãos, tentado fazer um acordo com eles. Mas agora meus irmãos são meus inimigos. Agora a mulher que eu amo é minha inimiga. Agora eu estou sozinho nesse inferno de cidade, novamente. Eu traí minha família por você. – ele engoliu em seco – Parabéns. – ele se curvou com os braços abertos e um olhar infeliz – Você ganhou o jogo dos tronos. Espero que esteja pronta pra isso.
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