Blackfyre
56 Howland Reed
Notas iniciais

Howland Reed
Robb finalmente deixou o Bosque Sagrado. Sentia um vazio dentro do peito que não era capaz de expressar em palavras. Entrou no castelo mirando suas pedras sólidas, desejando ser tão firme e forte quanto elas. Andou pelos corredores e a caminho do próprio quarto, cruzou com o irmão. Jon o olhou com os olhos tristes e Robb se perguntou o motivo.
—Robb. Como você está? – perguntou Jon. Robb suspirou e deu de ombros.
—Eu... eu não sei. – murmurou ele e os dois ouviram passos. Era Aegon. Robb soltou um muxoxo e o cunhado sorriu.
—E então? Foi rápido o suficiente ou ela te acertou alguma coisa? – perguntou ele e Robb olhou confuso para Jon.
—Ela não jogou nada em mim. – disse Jon, desconcertado – Ela foi para o próprio quarto. Não está muito bem. Ela precisa de um tempo. – murmurou ele e Robb se perguntou se os dois tinham ficado sozinhos. Sentiu o monstrinho ciumento que crescia em seu peito rosnar furioso, mas tentou manter as aparências.
—Bem, que seja. E então? Podemos ver Lyanna Stark agora? – perguntou ele e Jon deu uma risadinha.
—Lyanna? – perguntou Robb.
—Ele quer ver a estátua da nossa tia. – disse Jon e Robb suspirou – Vamos lá? Eu gostaria de visitar o pai, também. – murmurou ele. Robb concordou e os três se colocaram a andar – Aegon não acredita que Rhaegar sequestrou nossa tia. Ele acha que ela fugiu.
—Por que ela teria fugido? – perguntou Robb.
—Pelo mesmo motivo que meu pai não matou você em Harrenhal. Ela se apaixonou por Rhaegar, assim como Shiera se apaixonou por você. – disse Aegon – Rhaegar era impressionante e era um bom homem. Eu nunca acreditei que ele seria capaz de sequestrar uma mulher, para estuprá-la num lugar que nomeasse Torre da Alegria. – disse ele enquanto andavam em direção às criptas.
—Nunca iremos saber. – murmurou Jon – Nosso pai nunca falou a respeito disso para nós e ninguém que saiba o que aconteceu ali está vivo para contar a história. – disse ele.
—Na verdade, há. – disse Robb suspirando e Jon o olhou curioso.
**
Shiera escutou baterem na porta e Walda foi ver quem era. Lorde Rickard a olhou timidamente e sorriu entrando.
—Perdoe-me, minha senhora. Mas o rei foi visto indo para as criptas. Não queremos incomodá-lo. – murmurou ele e Shiera se levantou – Se não se importar, há um homem aqui que precisa conhecer. – murmurou ele.
Shiera se aproximou do Lorde nortenho e concordou com um aceno de cabeça. Ainda estava com roupas formais, então foi com ele. Walda a acompanhou, parecendo triste, como sempre.
—Quem seria esse homem?
—Já conheceu Howland Reed? – perguntou ele e ela simplesmente negou com a cabeça – Ele é o Lorde de Atalaia da Água Cinzenta, no gargalo. Um cranogmano. – disse ele e ela franziu o cenho.
—Acho que escutei Robb falar dele uma vez. Os filhos dele estavam aqui em Winterfell quando fugi de Roose Bolton. Os dois estavam com Brandon e eu perdi contato com eles. – explicou Shiera, acompanhando os passos rápidos de Lorde Karstark – Acha que ele veio me acusar por deixar os filhos dele morrerem? – perguntou antevendo alguma confusão. Lorde Karstark soltou um suspiro e a olhou.
—Sinceramente, eu não sei o motivo dele ter deixado Atalaia da Água Cinzenta. Mas pelo pouco que falei com ele, ele parece antes sombrio do que pesaroso. – disse o homem. Shiera concordou com um simples aceno de cabeça, sentindo-se curiosa.
Desceram os degraus e rumaram até o Salão Principal de Winterfell. O homem que a esperava lá era muito magro e de estatura baixa. Ela mesma era mais alta que ele. Se aproximou o olhando curiosa e o homem ficou de joelhos, em profundo sinal de respeito.
—Vossa Graça. As histórias sobre sua beleza não estavam à altura de sua realidade. – murmurou ele. Shiera sorriu e fez um sinal com as mãos, querendo que ele se levantasse.
—Muito gentil. – murmurou – O que podemos fazer por você, Lorde Reed? – perguntou o olhando enquanto o homem se levantava – Soube que poucos Lordes tinham mais a confiança de meu sogro do que o senhor. – disse e o homem suspirou, parecendo pesaroso.
—Ned era um bom homem... o melhor que conheci. Uma verdadeira pena o que aconteceu com ele. Definitivamente merecia um destino melhor. – murmurou o senhor e Shiera concordou. Não passara muito tempo com Ned Stark, mas ele lhe marcara profundamente, assim mesmo. Ele era muito gentil, apesar de sério, além de parecer o tipo de homem honrado que se lia nos contos antigos e rebuscados, onde os heróis iriam perder a própria humanidade antes da dignidade – Por mais honrado que esteja em conhecê-la, Vossa Graça... já peço desculpas se soar desrespeitoso... – ele suspirou como que calculando as próximas palavras – Eu conheci a sua mãe, se parece muito com ela... – ele engoliu em seco e a encarou hesitante – Mas receio que ela não tivesse o melhor dos gênios... espero que nesse ponto seja mais parecida com seu pai, o também já falecido Lorde Haegon... – ele engoliu em seco novamente, torcendo as mãos – Pois o que eu tenho para falar é para com o jovem Robb... – ele a olhou como se esperasse uma boa bronca. Então sorriu para ele, para tranquilizá-lo.
—Robb está nas criptas. Foi prestar respeito aos mortos. – explicou ela e notou que ele pareceu ansioso ao escutar aquilo. Sorriu mais uma vez e se aproximou um passo – Me alegraria guiá-lo até lá. Aposto que gostaria de prestar seus sentimentos a ele, além de visitar Lorde Eddard.
Howland Reed a olhou com os olhos brilhantes e cheios de expectativa. Então sorriu um sorriso triste e concordou com um aceno de cabeça. Shiera segurou seu braço e os dois foram juntos até as criptas.
—Se me permite a pergunta, senhora... digo... Vossa Graça... – murmurou ele enquanto andavam para fora do castelo – Ainda não vi Meera e Jojen. – ele a olhou curioso – Onde eles estão?
Shiera suspirou e olhou para o pequeno homem.
—Receio que não lhe darei boas notícias, Lorde Reed... na fuga de Winterfell, eles desapareceram. E isso, aqui no Norte, normalmente não é coisa boa. – explicou ela e Reed suspirou, com um aceno de cabeça.
—Mas não significa que seja definitivo. Eles são espertos. Os dois. – murmurou ele. Shiera se lembrou de encontrar a carroça que levava os meninos, destruída e pilhada. Mas achou melhor não dizer nada. Logo o vento frio de Winterfell bateu em sua pele. Usava roupas mais sulistas, que deixavam os ombros à mostra. Howland Reed se abraçou, tentando arrumar algum calor e ela continuou guiando-o para a cripta – Não está com frio, senhora... Vossa Graça? – perguntou ele se corrigindo e ela sorriu.
—Não. – respondeu e ele sorriu timidamente.
—Então é como o seu pai. Ele também nunca sentia frio. – riu ele – Lembro que uma vez, durante a Rebelião de Robert, quando ele derrotou Lorde Tarly e suas forças, ele ficou tão bêbado que pulou no Tridente durante a noite e depois ficou andando seminu pelo acampamento. Todos nós estávamos morrendo de frio, mas ele não. E no dia seguinte, achamos que ele iria estar morto, mas ele estava como novo.
—Papai era como eu. Meus irmãos também. Nunca sentimos frio. – disse ela e Howland sorriu.
—Uma boa qualidade para uma Rainha do Norte. – disse ele – Ainda mais quando o inverno está pra chegar. – ele suspirou e a olhou – Você me lembra um pouco meu filho. O Jojen. Ele tem olhos como os seus.
—Como os meus? – perguntou duvidando disso – Pensava que os olhos dele eram verdes. – disse educadamente. Os olhos do cranogmano eram de um verde profundo, como musgo. E tinha escutado muitas histórias sobre a cor dos olhos deles serem assim por suas dietas serem baseadas em rãs e sapos.
—Não digo da cor. – explicou ele – Você tem olhos que podem ver através do tempo. – disse ele e Shiera piscou, surpresa – Consegue ver apenas o passado? Ou o futuro também?
Aquela pergunta a pegou desprevenida. Se soubesse que Jojen tinha aquele dom, teria passado um tempo com ele, para conversar.
—Sua família tem o sangue de Valíria? – perguntou surpresa
—Não. Dos filhos das florestas. – respondeu ele – Jojen era um vidente verde. – adicionou ele e Shiera o olhou curiosa.
—Terás que me contar tudo sobre isso depois, prometa-me. – pediu sorrindo e Howland concordou com um aceno de cabeça. Ele caçou o queixo fico e deu de ombros.
—Jojen seria melhor para falar essas coisas. Ou a mãe dele. Mas falarei tudo o que eu souber... apesar de confessar que é muito pouco. – ele olhou na direção do Bosque Sagrado – Sei que um em cada mil filhos da floresta tinha o poder de ver o futuro. Era o que chamavam de vidente verde. – disse ele – E um a cada mil videntes verdes eram wargs também. – adicionou ele e Shiera se lembrou de Jon falando sobre Robb ter morrido e ficado preso em Vento Cinzento. Em seguida se lembrou de seus sonhos, onde via os Stark se tornando um só com seus lobos. Parou no mesmo lugar e se recordou que Robb reclamara uma vez que sempre tinha o gosto de sangue na boca depois das batalhas. Seguiu mirando Lorde Reed, com a mente criando milhões de hipóteses – Ou seria o contrário? – Ele coçou a barba – De qualquer modo... quando um filho da floresta era um vidente verde e um warg... ele era muito importante e poderoso. – explicou o homem – Pois ele teria a oportunidade de se conectar com os deuses.
—Mas homens podem ser essas duas coisas? – perguntou Shiera, surpresa.
—Sim, mas por conta da mistura do sangue, em vez de ser um em mil, a probabilidade diminui de um para... para não sei... dez mil? Cem mil? O ponto é que é mais difícil ainda. Jojen era um vidente verde. Mas não era um warg. Assim como você. – ele a olhou – É uma vidente verde, mas não uma warg.
—Meus poderes nada têm de relacionado com os filhos das florestas. – discordou – Vem de Valíria. Meu pai conseguiu despertar esse dom depois de ir a Valíria. Mas ele dizia que o avô dele fazia sempre isso. Ele podia ver o futuro também, apesar de não gostar. O futuro deles era muito sangrento e violento.
—Mas veja bem... os Blackfyre descendem dos Targaryen. E os Targaryen estiveram aqui em Westeros. Quem garante que não esteja relacionado? E quem garante que a fonte de poder de Valíria não era a mesma fonte de poder dos Filhos das Florestas? – perguntou ele e Shiera não soube responder. Chegaram em frente à cripta e engoliu em seco – O que houve? Esse tipo de lugar a assusta?
—Não exatamente. – murmurou – É só que... eu sonho muito com essa cripta. – murmurou ela pegando uma tocha e iluminando o caminho por entre as paredes de pedra maciça – Sonho que estou seguindo uma melodia... uma melodia de harpa. – disse sonhadoramente – E que estou seguindo Jon Snow...
—Jon Snow? – perguntou ele – O bastardo de Ned? – perguntou ele e Shiera concordou.
—Sim. Eu o sigo pelas criptas. Sempre o chamando, mas ele nunca para. E quando me aproximo do túmulo de Lyanna Stark, Jon nunca está lá. Sempre há o caixão com o corpo dela, que é a fonte da música... e quando eu vou abrir o caixão... – ela engoliu em seco – Eu morro, ou acordo. – disse dando de ombros – Então eu prefiro não vir aqui até ter as respostas que eu preciso.
—Oh, minha senhora... – murmurou Howland coçando a cabeça – Creio que o momento chegou então. Eu tenho as respostas que procura. – murmurou ele a olhando com os olhos cautelosos – Mas eu não sei se o que irá acontecer depois que a verdade vier.
**
Talisa brincava com Ned, mordiscando seus dedinhos gorduchos. Theon estava ao seu lado a observando distraidamente. Suspirou observando os longos e cacheados cabelos castanhos dela e vê-la brincando com Ned o encheu de sentimentos estranhos. Estava apaixonado por aquela devassa. Ela era alguém que o compreendia e o completava. Alguém sem pudor, de personalidade forte. Ela poderia ser muito bem uma nativa das Ilhas de Ferro. O verde dos olhos dela até mesmo parecia um mar de ressaca.
—Ned precisa de um amigo de idade próxima para brincar. – murmurou Talisa – Shiera não vai ter mais filhos... pelo menos não tão cedo. – murmurou ela olhando para Theon – Ela está completamente desequilibrada.
—É verdade. Bolton a quebrou. – murmurou Theon – Me pergunto quando Robb irá matá-lo. – Theon engoliu em seco – Ele está tão furioso que se permitiu ser cruel com o homem... mas eu não o julgo... – Theon suspirou e se sentou mais confortavelmente na cama. Estavam no quarto de Ned, cuidando e brincando com ele, esperando o momento em que Shiera viria alimentá-lo, para pô-lo para dormir – Se ele tivesse feito com você o que fez com ela, eu teria feito o mesmo ou pior.
Talisa concordou com um aceno de cabeça e abraçou o pequeno Ned.
—Mas seria bom se ela superasse logo isso. Ned precisa de um irmãozinho para brincar de justar e bater espadas. – disse ela e Theon suspirou.
—Não precisa ser relacionado por sangue para se ter um irmão. – disse Theon e ele notou que Talisa o olhava curiosa – Robb é um irmão pra mim e nós nos conhecemos quando eu já não era mais uma criança. – explicou ele e ela sorriu.
—Bem... nesse caso, acho que um primo seria suficiente. – riu Talisa e Theon a olhou curioso – Ou prima, não sei. – ela suspirou, mirando Ned. Ela parecia levemente distraída, mas ele notou alguma tensão que ela parecia tentar esconder – Virá em alguns meses, se der tudo certo.
—Está grávida? – perguntou em choque e ela o olhou com um sorriso vacilante, como se tivesse sido pega fazendo algo errado – Tem certeza disso? – perguntou ele e ela concordou.
—Meu sangue não desce há três luas. – murmurou ela e Theon passou a mão pelo rosto.
—Hum... – ele engoliu em seco – Estivemos tanto tempo próximos ao mar... deveria ter me contado. Um homem de ferro só se casa no mar, para que o Deus Afogado seja testemunha.
—Casar? – perguntou ela sorrindo – E por um acaso casaria comigo? – perguntou ela com um sorriso divertido – E quantas esposas de sal o senhor teria? – perguntou arqueando as sobrancelhas.
—Poucas, ou você arrumaria seus maridos de sal, também. Eu a conheço. – disse apertando a bochecha dela. Talisa gargalhou e se aproximou de leve.
—Acho que a monogamia é superestimada. – brincou ela e a porta se abriu. Um soldado entrou, com elmo e tudo.
—Desculpe interromper. Mas Lady Shiera gostaria da presença de Theon Greyjoy no Bosque Sagrado o quanto antes. Ela parecia um tanto aflita. – disse ele. Theon suspirou e se levantou, preparando-se para sair, mas sentiu a mão de Talisa segurar a sua. A olhou e ela o olhou de volta.
—Quer mesmo se casar comigo? – perguntou ela. Ele concordou – Então casemos. Agora. – disse ela – E nosso filho será um Greyjoy e não um Snow. Vamos para o Bosque, Shiera será testemunha. Ela é uma rainha, será o suficiente. – riu Talisa.
—A Rainha deseja falar a sós com Lorde Theon. – insistiu o soldado e Theon deu de ombros.
—Shiera não tem segredos com Talisa. Está tudo bem, soldado. – disse ele dando de ombros. O soldado suspirou e entrou no quarto, seguido de mais dois homens, que fecharam a porta.
—Eu tentei fazer do jeito fácil. – resmungou ele tirando a espada, fazendo com que Theon e Talisa recuassem um passo. Levantou o braço, para protegê-la e puxá-la para trás de si, ao mesmo tempo que puxava a própria espada – Mas algumas pessoas gostam do jeito difícil.
**
Aegon mirava a estátua de Lyanna, de braços cruzados. Robb e Jon estavam de joelhos em frente ao túmulo de Lorde Eddard. Ela era bonita... mas não era motivo para se declarar uma guerra... o amor faz loucuras mesmo. Bufou querendo ir embora, mas não apressaria os dois. Sabia que não teria a chance de fazer o mesmo, pois provavelmente Valerion teria jogado o corpo do pai no mar, que era como ele queria que fizessem quando ele morresse. Se não morresse em batalha, Aegon desejava o mesmo enterro. O enterro dos homens do mar. Se eu fosse um Homem de Ferro, talvez o Deus Afogado me recebesse em seu salão subaquático, onde sereias me acolheriam. Riu de si mesmo por pensar numa besteira dessas. Aquele era o Deus que menos fazia sentido, em sua opinião.
Suspirou e voltou a mirar Lyanna. Depois olhou a estátua de Ned. Eles eram bem parecidos. Depois mirou Robb e Jon. Jon se parecia muito mais com o pai do que o irmão. Isso deveria matar a Senhora Catelyn de raiva.
Por fim, Robb se levantou e veio para perto. Ele lançou um olhar para Lyanna e suspirou. Ficaram num constrangedor silêncio, pois ambos sabiam que não se gostavam e que a recíproca valia. Apenas tentavam conviver por amor a Shiera. Um minuto depois Jon se levantou e caminhou até eles.
—E então? O que achou? – perguntou o rapaz e Aegon deu de ombros.
—Ela era bonita. – disse simplesmente e sua mente percorreu os Sete Reinos, até Essos, até Meereen – Mas não tanto assim. – disse simplesmente – Robb. – Aegon se virou para encará-lo e Robb o olhou curioso – Nós precisamos conversar.
—O que? – perguntou o cunhado, mas ouviram passos. Os três se viraram e viram uma luz brilhar na curva do corredor. Ficaram em silêncio e logo ele viu Shiera acompanhada de um homem muito baixo. Aegon deu um passo à frente, mas não o reconheceu – Shiera? – perguntou Robb e ela se aproximou com os olhos dançando por entre os três a sua frente.
—Robb... esse é Howland Reed. Ele precisa muito falar com você. – disse ela com os olhos evasivos – E até onde eu entendi, a sós.
—Você é Aegon Blackfyre. – disse Howland e Aegon concordou – Você parece muito com o seu pai. – disse ele e Aegon concordou com um aceno de cabeça – Mas parece que é mais alto que ele... pelo menos até onde eu me lembro.
—Acho que qualquer um parece ser alto demais pra você. – riu Aegon com arrogância e sua irmã o olhou como se exigisse que ele se comportasse. O mesmo olhar que sua mãe lhe daria se tivesse feito piada de alguém, na verdade. Deu uma risadinha, cruzando os braços e Robb se adiantou.
—Lorde Howland, meu pai sempre falou muito bem do senhor. Ele o tinha em alta estima. – disse Robb apertando as mãos do homem, com cordialidade. Shiera andou até a estátua de Lyanna e a ficou admirando. Aegon a acompanhou e notou que ela parecia olhar para a estátua como se estivesse tentando se lembrar de algo.
—Eu tinha Eddard Stark em grande estima também. Lembro de quando o conheci... foi sua tia Lyanna quem nos apresentou. – murmurou Howland. Aegon deu de ombros.
—Nosso pai nunca falava dela. – murmurou Jon ficando ao lado de Shiera. Aegon deu um sorrisinho ao notar as bochechas coradas da irmã e escutar Robb bufar.
—Mas ele a amava. – garantiu Howland.
—Como os conheceu, Lorde Reed? – perguntou Shiera – Os Stark?
—Num torneio em Harrenhal.
—O mesmo modo que nós, então. – riu Aegon empurrando Jon, de leve – Esse aqui roubou o coração da minha irmã naquele torneio. Mas não teve bolas o suficiente para lidar com isso. Então o irmão dele fez isso por ele. – riu Aegon sabendo que estava sendo irritante. Mas ele iria cutucar Jon até que ele parasse de ser um imbecil e corresse atrás de Shiera. Os dois se gostavam e uma coisa boba como um casamento que não dava certo não iria ficar no caminho da felicidade de sua irmã.
—Aegon, comporte-se. – ralhou ela. Howland deu um sorriso e olhou para a estátua – Por favor, conte-nos, Lorde Howland.
—Você era amigo dos Stark, então a conheceu. – interrompeu Aegon avançando até Howland. Ele era tão pequeno que mal alcançava seu peito – Não é?
—Eu conheci Lyanna Stark. Era uma moça adorável.
—E você a conheceu no Torneio em que Rhaegar a nomeou rainha da beleza, não foi? – perguntou Aegon, com a impressão que conhecia aquele homem, e Howland concordou – Eu conheci Rhaegar um ano antes desse torneio. – disse olhando para a estátua de Lyanna – Ele e meu pai conversaram numa taberna sobre muitas coisas. – disse ele – Inclusive sobre profecias. Rhaegar era muito chegado nelas. Então meu pai se propôs a levá-lo até uma bruxa que fazia profecias em troca de doces canções. O Fantasma de Coração Alto. – explicou ele e sentiu os olhos postos sobre si.
—Sim, eu me lembro desse dia. Você era apenas um garotinho. – murmurou Howland e Aegon sentiu sua irmã tocar seu braço. Então era mesmo o mesmo homem de tantos anos atrás
—Como assim? – perguntou ela.
—Papai e eu viajamos várias vezes para Westeros, depois que Aerys não nos quis aceitar. Meu pai queria derrubar Aerys do Trono, mas ele não queria causar a rebelião. Viajávamos como se fôssemos bardos e ele tocava em vários castelos, sempre disfarçado. E quando os senhores lhe ofereciam a oportunidade de uma bebida e algumas palavras, ele falava o quanto o Rei Louco estava realmente louco... e como Rhaegar deveria logo herdar o trono. – disse Aerys – Ele tinha um plano. Sem causar guerra, apenas pressionando o Conselho a interditar Aerys, os Lordes exigiriam que Rhaegar herdasse o Trono e então o príncipe nos aceitaria em Westeros. Rhaegar gostava do plano também, mas ele insistiu que deveríamos ver o Fantasma de Coração Alto antes de qualquer coisa. – explicou ele, se relembrando de coisas que há muito tempo estiveram guardadas dentro de si. Se lembrou de quando Daenerys perguntou se ele tinha fantasmas como os de Jorah... quando ele dissera que sempre matava uma pequena paixão antes que se tornasse amor. E o motivo era justamente aquele Fantasma de Coração Alto.
—Juramos nunca falar sobre aquilo. – murmurou Howland – Mas acho que há verdades que precisam ser ditas. Principalmente agora. Robert Baratheon morreu. O Trono está enfraquecido. – ele suspirou – Você lembra daquele Torneio, garoto? Creio que era apenas um meninote.
—Eu tinha já meus cinco anos. Lembro de algumas poucas coisas. – murmurou Aegon coçando o queixo – Lembro de Harrenhal... como eu fiquei deslumbrado com o lugar. Nunca tinha visto um castelo tão imenso. Era maior que os Septos de R’hllor, em Volantis. Muito maior que a casa do meu avô. Maior ainda que a própria Fortaleza Vermelha. Lembro dos cavaleiros, do cheiro, das justas. Lembro de ver Rhaegar lutando e de como eu queria ser igual a ele... e sim, eu lembro de Coração Alto. Eu, meu pai, Rhaegar, Richard Lonmouth, Jon Connington e Arthur Dayne fomos até o local que diziam ser assombrado por um fantasma. Meu pai já tinha ido lá diversas vezes. Ele dizia que se não fosse aquele lugar, ele nunca teria ido até Valíria. E quando estávamos chegando, ele segurou Rhaegar com firmeza e murmurou... – ele franziu a testa, tentando se lembrar – Não lembro a exatidão das palavras, mas basicamente foi algo como “Cuidado com o que escuta. O que escutar aqui pode ser tanto salvação quanto perdição. Tanto felicidade quanto profunda decepção. Dependendo do que escutar, você pode se salvar ou se destruir”. – Aegon deu de ombros. Era algo mais ou menos assim – Em outras palavras, acho que ele quis dizer para que Rhaegar não se deixasse impressionar demais... mas bem... aquilo foi simplesmente impossível.
—Eu imagino que sim. – murmurou Howland – Do que mais se lembra?
Aegon respirou fundo, forçando a memória.
—Lembro que você já estava lá quando chegamos... mas era apenas um jovem rapaz, que não fazia ideia de quem éramos. Richard perguntou a Rhaegar se deveria matá-lo, mas o príncipe não queria sangue derramado ali. E quando o Fantasma apareceu... eu me decepcionei, porque na verdade não passava de uma anã com os olhos incomuns. – Aegon deu de ombros – Então ela olhou pra mim e me amaldiçoou.
—O que? – perguntou Shiera, em choque.
—Ela não amaldiçoou você. Ela viu seu futuro. – riu Howland.
—O que ela disse?
—Nada de demais, na verdade. – deu de ombros – Mas me assustou horrores. Eu só tinha cinco anos. – Aegon coçou o queixo – Ela disse que eu iria me apaixonar e lutar por uma mulher que me seria proibida. Sacrificaria tudo por ela e um dia morreria por ela, para conseguir seu amor.
—Por isso nunca quis se casar? Por isso quer vestir o Branco? – riu Shiera – Porque uma velha anã da montanha falou que morreria de amor? – ela deu uma risadinha e Aegon suspirou.
—Depois de um tempo eu parei de acreditar nisso... mas agora já não sei mais. – ele deu de ombros – Mas não tenho medo da morte. Só não quero morrer por algo tão idiota como por uma mulher. – ele deu de ombros novamente – De qualquer forma, eu saí correndo de lá e Jon Connington me pegou pelo cangote e ficou longe, cuidando de mim, enquanto eu lamentava o meu futuro. – Jon e Robb deram risadinhas, fazendo pouco daquilo, mas Aegon sorriu para eles – Calem a boca. Vocês dois morreriam por ela. Por que riem de mim? – perguntou apontando para a irmã e Robb e Jon coraram, pigarreando – Se há uma coisa que faz com que homens se ajoelhem e façam o que quer que seja, é ter o coração nas mãos de uma mulher. – Aegon mirou Howland e sorriu – O que houve depois disso?
Howland suspirou e mirou o rosto de Lyanna.
—Nada de bom. Garanto-lhe. Nada de bom. Depois disso veio o motivo pelo qual Haegon e Rhaegar se separaram, o motivo que causou toda uma guerra... e o motivo que reuniu todos vocês aqui hoje. Ou melhor. – ele baixou o rosto e suspirou – Todos nós. Aqui é o momento onde as profecias começam a convergir... e mais sangue terá que ser derramado antes que tudo fique bem. Me pergunto... qual de nós sobreviverá para ver o verão...
E Aegon não gostou nada daquilo.
Fale com o autor