Blackfyre

24 O Dragão Negro Reinará?


Notas iniciais
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! Eu não acredito! Setembro, eu te amo! Mais uma recomendação!!! ♥ AMEI, AMEI, AMEI! Foi linda sua recomendação! Amei muito mesmo! Ai, gente. ♥ ♥ Vocês são só amor. Bem, como prometido, aqui vai mais um capítulo, esse mais tranquilo do que o último, juro hehehehe Beeeeijos! Obrigada, Setembro! O capítulo é dedicado a você! =D

O Dragão Negro Reinará?

Lorde Tywin Lannister lidava com alguma papelada, em silêncio. Tudo o que se ouvia era o riscar da pena no pergaminho. A Fortaleza Vermelha tinha adquirido um tom mais escuro, em sua opinião, desde que Tyrion saíra de lá para dar lugar ao pai. Antes sempre havia lenha na lareira, uma jarra de vinho com copos, prontos para serem usados. Sempre havia Bronn com seu humor negro e espinhoso, um menino Pod, que corava com suas piadinhas, havia Varys, com seus sussurros e segredinhos... e claro, havia Tyrion.

Mas agora era apenas Valerion e Lorde Tywin. Não se dera ao trabalho de sentar. Ficou caminhando pela sala, esperando que Lorde Tywin dissesse o motivo de ter sido chamado ali. Valerion estava suado e ofegante, pois estivera participando de um treino com Sor Garlan, o irmão mais velho de Loras e o segundo na linha de sucessão de Jardim de Cima. Nunca tinha duelado com um espadachim tão habilidoso, mas Garlan garantira que nunca tinha conseguido derrotar Aegon em combate, apesar de já terem lutado várias vezes.

Mas ele garantiu que eu levo jeito para espada, apesar de não ser tão bom com a lança...

Tinha derrotado Loras no torneio da Mão, mas o rapaz melhorara muito seu desempenho desde aquele torneio e nos treinos o derrubara todas as vezes, sempre o olhando com um sorrisinho irritante. Então achou melhor investir em sua habilidade com a espada. Agora que Porto Real estava cheia de jovens recém armados cavaleiros, havia um clima de rivalidade sob todos que incentivava esses treinos com mais contato, onde sempre alguém saía ferido.

Valerion suspirou movendo o ombro dolorido e finalmente deixou de escutar a pena de Tywin Lannister. Se virou para a Mão do Rei e viu que ele estava colocando o selo da Mão em um pergaminho. Perguntou-se se deveria esperar que ele escrevesse mais alguma carta, mas o homem o olhou com sua expressão séria.

Lembrava-se que quando o pai disse que iria levá-lo para Pedra do Dragão, tinha insistido para ser levado para Rochedo Casterly, para servir de pajem a Tywin Lannister, mas seu pai não o queria com os leões. Engraçado, pois entregara Shiera a Cersei, que certamente era a pior de todos os Lannister.

—Sente-se. – ordenou Lorde Tywin e Valerion obedeceu, prontamente – Soube que Tyrion permitiu que tivesse mais liberdade do que qualquer refém que já tenha ficado em Porto Real.

—Quase esqueci que era um. – concordou jovialmente – Mas em contra partida, Tyrion me deu bastante trabalho.

—Sim, soube o que fez com as lavouras. Temos muito trigo e acredito que, agora que a chance de um ataque a Porto Real seja muito improvável, você pode recomeçar a plantar novamente.

—Será um prazer, senhor Mão. – disse calmamente.

Lorde Tywin o olhou friamente, com seus olhos verdes e brilhantes.

—Eu escutei muitas pessoas falarem da sua inteligência. Eu mesmo pude observar um pouco. Sua ideia de assumir o lugar de Joffrey foi mesmo muito astuta, apesar de arriscada. Tanto pra você quanto para o rei.

—Ele concordou com o plano. – disse calmamente – Mas admito que fiquei muito aliviado quando vi suas tropas chegando. – adicionou com um sorriso divertido.

—Você se esforçou bastante para provar sua lealdade ao Trono de Ferro. Me pergunto o motivo de tanto esforço...

—Talvez não estivesse interessado em voltar a ser um reles refém.

—Você é um reles refém. – cortou Lorde Tywin e Valerion sorriu.

—Sou? – perguntou divertido – Bom saber. – Sentou-se de maneira mais aconchegante – Isso significa que poderei relaxar e aproveitar o cativeiro? Não preciso mais lidar com a preocupação de manter as massas alimentadas, nem com o comércio que fiz para manter a cidade. Nem mesmo preciso me preocupar com as lavouras. Apenas vou me divertir lutando e treinando com os outros de minha idade. Talvez devo ir me engraçar com alguma cozinheira, fazer uns bastardos... essas coisas. – riu descontraído – Ah, sim... e também devo parar de enviar cartas ao meu pai, falando como estou feliz e ocupado aqui. Meistre Pycelle adorava ler minhas cartas antes de enviá-las a Harrenhal. Assim como gostava de ler as que meu pai enviava para mim, antes de me entregá-las. Ele vai ficar desolado. – disse dando de ombros.

—Onde espera chegar com isso? – perguntou Lorde Tywin.

—A lugar algum. – disse Valerion – Estou apenas comentando que ficarei um tanto desocupado... com tempo demais para pensar em tantas coisas. – ele suspirou – Sabe, minha cabeça funciona muito e se eu não me ocupo com tarefas acabo criando planos mirabolantes para fugir do tédio. – explicou Valerion – Por exemplo, rotas de fuga do castelo, uma maneira de enviar corvos sem que Meistre Pycelle note... ou até mesmo posso me cansar daqui e resolver ir embora, como meu pai fez quando Aerys ordenou que matasse Aegon e entregasse Blackfyre. Meu pai sempre me contou boas histórias e eu sempre fui muito bom em ouvi-las. – Valerion suspirou e se levantou indo até um armário, onde Tyrion costumava guardar o vinho e encontrou uma garrafa que parecia vir da Árvore. Sorriu e pegou duas taças e as colocou sobre a mesa. Lorde Tywin não o repreendeu, então se permitiu ser ousado – E quando fico muito entediado, perco o interesse por escrever cartas. E isso poderia deixar meu pai preocupado, sabe? Aliás, eu deveria mesmo escrever para ele, sobre minha nova condição de refém. Acho que ele gostaria de saber... talvez ele resolva mandar notícias de Myrcella.

—Eu soube de seus encontros secretos com Sansa Stark. – sibilou Lorde Tywin.

—E eu soube que Cersei Lannister andou transando com Lancel Lannister. Nem por isso saí comentando isso por aí. – riu Valerion servindo o vinho pra si mesmo e para Lorde Tywin, que pareceu ficar mais zangado – Apesar que essa é uma fofoca até inocente se formos comparar com as coisas que dizem dela... como anda Jaime Lannister? – perguntou calmamente antes que a Mão do Rei explodisse – Fiquei sabendo que minha irmã o deixou escapar. E ainda matou Lady Catelyn, fez com que Winterfell e Riverrun se desentendessem... não é bom quando eu escrevo cartas para meus parentes? Seria uma pena parar agora.

—Sua irmã foi responsável pela fuga de Jaime? – perguntou Tywin e Valerion sorriu se sentando e brindando com o homem. É claro que não, seu imbecil. Shiera deve ter ficado furiosa, já que matou Catelyn.

—Eu sugeri que ela fizesse isso, agora que o Rei do Norte confiava plenamente nela. – explicou ele naquela mentira que tinha ensaiado mentalmente durante um bom tempo – Que instigasse Lady Catelyn a libertar o homem, de maneira discreta. Ela liberou os guardas, os deixou comemorar o dia do nascimento de seu filho... e então permitiu que Catelyn fizesse um acordo com seu filho. A vida dele pela de Sansa e Arya... obviamente eu achei sensato não falar que Cersei deixou Arya escapar. – deu um gole em seu vinho e ficou satisfeito por Lorde Tywin o acompanhar – Então minha doce irmã matou a única testemunha de sua traição... claro, agora ela não está na melhor das condições. Tem muita gente zangada com ela, principalmente o marido... – ele suspirou – Espero que possam trazê-la de volta para Harrenhal sã e salva... mas... isso não será mais função minha, afinal... – deu outro gole em seu vinho – Serei apenas um reles refém daqui pra frente... não vejo motivos para seguir orquestrando meus planos para manter a cabeça de Joffrey no pescoço. – suspirou com um sorriso cínico e Lorde Tywin o olhou atentamente.

—É algo realmente raro encontrar alguém a altura de sua reputação. – riu a Mão do Rei e Valerion sorriu.

—Ouvir isso do senhor é realmente um grande elogio. – disse honestamente.

—Mas devo dizer que foi tolice sua envolver-se com a garota Stark.

—Eu tenho uma queda por ruivas. – disse dando de ombros e bebendo mais um gole de seu vinho. Lorde Tywin o olhou com aqueles olhos verdes cheios de intenções ocultas.

—Você está prometido a Myrcella.

—E Joffrey estava prometido a Sansa. – disse calmamente – Arranjos de casamento são feitos e desfeitos. Ele vai casar com Margaery, não vai?

—E suponho que você queria Sansa Stark como sua esposa.

—Não. Não. Sansa é apenas uma distração. – riu Valerion – Ela confia em mim e em minhas palavras doces. É divertido. – disse cruelmente, apesar de ser uma deslavada mentira. Mas ele era um bom mentiroso – Eu jamais trocaria uma princesa por uma filha e irmã de traidores. Não achei meu nome no lixo. – adicionou – Mesmo com todos os rumores sobre a legitimação de Myrcella... eu irei para a cova jurando que Cersei sempre foi a mais devota das esposas.

Tywin o olhou novamente e pegou a jarra de vinho para encher as duas taças novamente. Valerion não se importou. Tyrion e Cersei o ensinaram a beber bastante durante seus períodos de regência.

—Diga-me, Sor Valerion, já que é um rapaz tão esperto. – Lorde Mão se levantou, andando pelo aposento e o rapaz o acompanhou com os olhos – Os nortenhos fizeram os homens de ferro recuarem e venceram todas as batalhas que travaram até agora, mesmo estando em grande desvantagem numérica. Mas mesmo assim é absolutamente improvável que eles vençam a aliança entre Jardim de Cima e Rochedo Casterly.

—Absolutamente improvável, mas não impossível. – disse tentando prever o que aquele homem iria perguntar e o que iria querer ouvir em resposta.

—E qual é a maior esperança de Robb Stark de derrotar seus inimigos restantes? – perguntou Tywin Lannister.

—Fazer as pazes com Riverrun e conseguir aliar-se a Harrenhal. – disse sem delongas – Harrenhal é o castelo mais poderoso do reino, está localizado numa área estratégica do reino e é regido por um dos homens mais ricos de Westeros. Mesmo o poderio de Jardim de Cima e Rochedo Casterly poderia ser prejudicado se meu pai resolvesse ajudar. Ele tem muitos navios e amigos ricos em Volantis. Sem falar que ele é amigo dos Martell, ao passo que a casa Lannister está em crise com Dorne há anos. Uma investida do sul e do norte contra Porto Real, mesmo com um exército grande, pode ser o fim da cidade. No exato momento em que fecharem novamente as estradas, impossibilitando que Jardim de Cima continue enviando comida, é questão de tempo até que a cidade entre em colapso. Porto Real não consegue se manter sozinha, ainda mais com um exército tão grande aqui.

Tywin Lannister o observou de pé, parecendo ligeiramente surpreso.

—Seu pai deve se orgulhar bastante de você. É um bom espadachim, um cavaleiro competente e com uma mente afiada.

—O senhor me honra com tantos elogios. – disse dando mais um gole em sua taça – Se me permite um conselho, Lorde Tywin... por favor, passe mais tempo com o Joffrey. Ele precisa que alguém lhe ensine as coisas. Com todo respeito, Vossa Graça é um grande animal idiota. – disse sem rodeios e Tywin suspirou, desgostoso.

—A mãe o mimou demais, é verdade. – resmungou ele – Sor Valerion, eu permitirei que continue a serviço do reino. – disse o homem o olhando com firmeza – Continuarei de olho em você, mas não o botarei numa cela, desde que mantenha distância de Sansa Stark.

—Não farei promessas, senhor. – disse insolente – Prometo não desvirginá-la. Mas um pouco de cortejo não poderei evitar. Não enquanto não me casar. E espero que não esteja proibido de frequentar a Rua das Sedas... eu sou jovem e tenho minhas necessidades. Ou posso acabar perdendo o controle aqui dentro do castelo.

—Como quiser. Mas não irá mais escrever suas cartas com Pycelle, mas comigo. – decretou ele – E quero que continue provando sua lealdade ao Trono de Ferro. Ainda não confio plenamente em você. Algumas vezes olho para você e vejo Aerys.

—Isso me ofende, Sor. – ralhou fechando a cara – Não sou nada como o Rei Louco.

—Ele costumava ser um jovem mulherengo, espirituoso, que se julgava mais esperto que todos e não respeitava ninguém. – discordou Tywin – E quando jovem, ele era bem fácil de se olhar. Muitas donzelas suspiravam por ele, então sim, digo que parece bastante com ele.

Valerion baixou os olhos e pousou o copo de vinho pela metade em cima da mesa.

—O senhor Mão já terminou?

—Sim, pode ir.

Levantou-se contrariado e ofendido, retirando-se do aposento. Como ele ousara a compará-lo com aquele homem louco e cruel? Não tinha nada a ver com ele. Desceu os degraus, bufando de raiva e resolveu passear pelo jardim, para acalmar-se.

Fazia uma manhã quente e ele ainda usava armadura. Precisava arrumar um escudeiro, agora que era um cavaleiro. Procuraria por um na Baixada das Pulgas. Algum órfão, morto de fome, que lhe deveria a vida para todo o sempre. Sentou-se num banco, cercado por bonitas flores de lavanda para retirar a armadura. Uma brisa fresca acertou sua testa e ele viu a futura rainha com suas damas de companhia. As acompanhou com os olhos, discretamente, mas logo voltou sua atenção para sua própria armadura.

Retirou as ombreiras, a placa de peito e os protetores do braço, colocando as peças metálicas rubras em cima do banco. Depois levantou-se e moveu os ombros, para alongá-los.

—Bom dia, Sor Valerion. – escutou uma voz doce. Virou-se e notou que era Lady Margaery.

—Vossa Graça. – disse se colocando de joelhos e a menina sorriu.

—Não há motivos para isso. Me chame de Margaery. – pediu ela com um sorriso gentil. Um adorável sorriso gentil. Precisou lutar contra si mesmo para não olhar para o decote dela. Pensou em Sansa e colocou-se de pé.

—Sempre há motivos para um cavaleiro agir com cortesia, Vossa Graça.

—Margaery. – riu a futura rainha, lhe dando um sorriso – Diga-me, Sor... poderia me acompanhar num passeio? – perguntou ela e Valerion mirou a própria armadura.

—Minha senhora. Acabei de sair do treino. Estou suado e cansado. Não estou a altura de um passeio com a senhora.

—Suado e cansado é mais bonito e galante do que praticamente todos os jovens de Jardim de Cima. – riu ela abraçando seu braço e o puxando. Mirou novamente sua armadura e a garota sorriu – Elinor, leve a armadura de Sor Valerion para os aposentos dele. E tome todo o cuidado ao fazer isso. – ordenou dela e as damas de companhia pegaram cada uma um pedaço de sua armadura – Pronto, não há com que ficar preocupado, Sor.

—Perdoe-me se a aborreci.

—Não aborreceu. – riu ela guiando o passeio – Escutei muitas histórias sobre você.

—Engraçado. Normalmente é sobre meu irmão que contam histórias. – riu com um sorriso galante.

—Você também já formou toda uma reputação. – garantiu ela – Eu gosto de frequentar o orfanato, ajudar as crianças... estava acostumada a fazer esse tipo de coisa em Jardim de Cima e simplesmente não consigo parar só porque vim para a capital.

—As crianças devem adorá-la.

—Elas o adoram também. – garantiu ela – Todos falam sobre como você alimentou os pobres, sozinho, antes de Stannis atacar. E todos falam como salvou Lady Sansa dos estupradores. O mesmo vale para Lady Lolys. – disse ela e Valerion suspirou se lembrando daquele dia – Mas o que mais falam é de como você ama a sua princesa. Dizem que chorou quando ela partiu. É verdade?

De onde as pessoas tiram isso?

—Acha que é verdade? – perguntou a olhando com um sorrisinho e um olhar oblíquo.

—Acharia muito romântico se for. Não é sempre que vemos um homem chorar por amor.

Resolveu mudar de assunto.

—Eu preciso pedir desculpas para você, minha senhora. – disse cabisbaixo e Margaery o olhou confusa – Sobre o comportamento de meu irmão Aegon, quando nossos pais começaram a falar de um noivado. Meu irmão foi um completo imbecil, tanto é que papai o expulsou do castelo, o deserdou e retirou dele o direito de herança. – disse calmamente. Margaery suspirou e sorriu.

—Fiquei muito surpresa com a reação dele, inclusive um pouco triste. – garantiu ela – Mas a recusa dele me trouxe aqui. Serei rainha um dia.

—Uma grande e amada rainha, tenho certeza. – disse calmamente e Margaery sorriu.

—Me amaria, Sor?

—Como um soldado leal ama sua boa rainha. – respondeu sem ter certeza do que ela queria dizer com aquilo. Margaery sorriu abraçada ao seu braço, sem parecer se incomodar com seu suor.

—Ouvi mais sobre você, além de sua caridade. Soube que é um grande comerciante. Com excelentes olhos para negócios.

—Aprendi com meu pai. Ele é muito bom com números. – disse simplesmente.

—Mas a melhor das histórias, eu ouvi de Loras. – adicionou ela e ele franziu a testa curioso. A olhou sem acreditar que Loras poderia ter vazado alguma informação sobre a Batalha de Água Negra, que era como estavam chamando a investida de Stannis contra Porto Real. Tywin Lannister decretara que aquele era um segredo que deveria ser guardado com todo o esmero – Sobre como você lutou bem na defesa de Porto Real.

—Apenas lutei com alguns mercenários, para proteger a rainha Cersei e o príncipe Tommen. Não foi nada demais. – disse calmamente, relembrando o calor da batalha, os gritos, os sons das espadas batendo-se umas contra as outras, o relinchar dos cavalos, os gritos de guerra e o crepitar do fogovivo, que ardera durante toda a batalha.

—Não foi o que Loras me contou. De acordo com ele havia outro guerreiro disfarçado. – explicou Margaery e Valerion teve certeza de que ela sabia a verdade sobre a participação de Joffrey na batalha.

—Não sei o que Loras te contou, Vossa Graça...

—Margaery. – riu ela, o cortando.

—Mas eu não faço ideia do que dizes. – adicionou e Margaery sorriu ainda andando abraçada ao seu braço.

—É raro vermos um homem tão leal ao seu rei... e ainda mais raro é abdicar de sua própria glória para enaltecer outro. – disse ela e Valerion desviou o olhar – Não se preocupe, Sor. Seu segredo está a salvo comigo. Nem mesmo meu amado rei Joffrey saberá sobre ele. – adicionou ela. Valerion sorriu divertido.

—Que assim seja. Joffrey não iria gostar que lhe tirasse a oportunidade de se exibir.

—O rei adora comentar sobre a batalha. – riu Margaery e ele notou que ela o levava para uma tenda, enfeitada com várias rosas de várias cores. Sabia que a senhora Olenna passava as tardes ali, com as parentes, como a nora, as netas e algumas sobrinhas – Gostaria de ouvir algumas histórias de verdade. – adicionou ela com um sorriso doce e Valerion riu nervosamente.

—Não há nada para se contar, Vossa Graça...

—Margaery. – cortou ela e ele concordou com um aceno de cabeça.

—A guerra não é bonita como cantam as canções. – adicionou ele e Margaery sorriu, concordando.

—Certamente não é. – adicionou ela – Mas há algo de emocionante, ou os homens se cansariam dela e não declarariam guerra por qualquer motivo. Um homem não clamaria por uma coroa e independência com tanta facilidade... não acha?

—Onde existe luz, também haverá trevas. Onde existe amor, também haverá ódio. Em busca pela paz, sempre haverá guerra. – disse dando de ombros – Bom ou ruim, emocionante ou não, nós homens sempre lutaremos uns contra os outros. – ele a olhou nos olhos castanhos – Mas isso não significa que eu deva ficar falando sobre gritos, pedidos de clemência, ferro cortando carne, gargantas cortadas, apunhaladas nas costelas... Não se preocupe que Joffrey lhe contará muitas dessas histórias. Não precisa ouvir de mim.

—E que histórias contaria para mim? – perguntou ela o olhando com um sorriso oblíquo e Valerion se perguntou se ela o estava tentando seduzir – Soube que é muito habilidoso com a língua.

—Lady Margaery. – disse interrompendo o passo e a olhando curioso – Quem poderia ter-lhe dito isso?

—Meu pai. Ele falou que sua retórica no Pequeno Conselho é impressionante para alguém tão novo. E meu pai não se impressiona facilmente, Sor.

É claro que era disso que ela estava falando... ela não estaria se referindo às minhas outras habilidades com a língua.

—Ah... fico feliz que seu pai aprove. – disse voltando a andar em direção à tenda. Se perguntava se estava para conhecer a famosa Rainha dos Espinhos.

—Habilidoso com a espada, com carinho pelo povo simples, que sabe falar tão bem a ponto de impressionar dois dos três maiores Lordes dos Sete Reinos... além de ser o herdeiro do terceiro... herdeiro do maior castelo de Westeros... e ainda com sangue Valiriano... Creio que nem Rhaegar poderia se gabar de tanto... – a olhou curioso e ela sorriu – Já disseram que você parece aqueles príncipes Targaryen, que estão enfeitando os quadros nos corredores?

—Não seriam os quadros que enfeitam?

—Seriam? – perguntou ela e Valerion sorriu.

—Lady Margaery. O que você está fazendo? – perguntou cansando-se daquele jogo.

—Passeando, por que? – perguntou ela e ele sorriu a olhando com atenção.

—Você sabe jogar. Pra onde está me conduzindo? – ela sorriu e largou seu braço, lhe lançando um sorriso cheio de segundas intenções. Engoliu em seco e a seguiu quando ela voltou a andar. Entraram na tenda verde clara, enfeitada de bordados de fios de ouro, que desenhavam padrões de rosas e folhas. Haviam algumas mulheres lá, primas de Lady Margaery, além da mãe da pequena futura rainha e a senhora Olenna, que era uma coisinha mirrada com os olhos astutos de uma raposa – Boa tarde, senhoras. Perdoem-me por aparecer de repente. Acho que aqui nos despedimos, Vossa Graça.

—Margaery. – corrigiu a garota o puxando pelo braço e o guiando para uma cadeira – Sente-se. Quero que conheça a minha avó. – pediu Margaery. Sentou-se e todas as outras mulheres se levantaram e deixaram a tenda imediatamente. Lady Olenna nem mesmo estalara os dedos. A olhou se perguntando o que ela queria com ele.

—Então você é o rapaz que todas as minhas netas ficam falando sobre. – disse ela com um sorrisinho divertido. Margaery pegou uma uva e a colocou na boca de maneira provocante e Valerion piscou distraído, olhando para ela. Pensou em Sansa e sorriu voltando a encarar Lady Olenna enquanto a “donzela” se sentava com um sorrisinho no rosto.

—Não sei. Talvez devesse perguntar a elas. – respondeu ele e Olenna deu uma risadinha.

—Essa é sua melhor resposta? – perguntou ela e ele corou de leve.

—Desculpe? Havia alguma melhor? Me esclareça.

—Ah... um pouco do sarcasmo Blackfyre. Agora sim. – riu ela e ele abriu a boca sem saber o que ela quis dizer com aquilo.

—Desculpe... como assim? – perguntou franzindo a testa e Lady Olenna sorriu pegando um pouco de vinho e servindo para si mesma.

—Não é nada. Só quis deixar você assim, com cara de bobo. – riu ela e ele ficou sem palavras – Como foi a conversa com Lorde Tywin? Quem apertou o saco do outro com um grampo?

—Não houve nada do gênero, senhora. – riu surpreso com o linguajar dela – Foi uma conversa amigável e cordial.

—Imagino que foi você quem torceu as bolas do leão. Caso contrário estaria em uma cela... ou talvez prestes a perder seus títulos... Oh, deve ter sido algo bonito de se ver... Lorde Tywin ter que engolir a arrogância por conta de um menino.

—Não...

—Não precisa lamber as bolas dele, garoto. Eu sei que você é esperto e Tywin sabe que você é esperto. Apenas o Norte não se rendeu nessa guerra. Stannis não se rendeu, mas logo ele morre. Ele não tem pra onde fugir. – riu ela e Valerion a olhou sem saber o que esperar de tudo aquilo – Todos nós sabemos que o lado que Harrenhal realmente decidir apoiar vai ter vantagem sobre o outro. Sua irmã fez um grande favor a Tywin... resta a nós saber se você vai fazer também.

—Com todo o respeito, vovó, eu acho que ele já está fazendo muitos favores a Lorde Tywin.

—Ah, sim. Eu soube que fingiu ser Joffrey na Batalha da Água Negra e que lutou muito bem. Inspirou os homens, evitou motins e desertores... – riu lady Olenna e Valerion seguiu calado – Mas isso me faz pensar... que tipo de rei Joffrey vai ser se não consegue nem mesmo proteger a bosta de um muro... eu vou ser honesta, garoto... não estou nem um pouco animada com a ideia de Joffrey ser o rei de Westeros, nem de ver minha netinha casada com ele. – disse Olenna antes de dar um gole em seu vinho.

—Não diga isso, vovó. O que Sor Valerion vai pensar de nós?

—Vai pensar que temos bom senso! – devolveu a velha e Valerion arqueou as sobrancelhas – Você odeia Joffrey. Aquela cena sobre a linda amizade de vocês não me desceu a garganta. – adicionou ela e ele manteve o rosto firme e sem expressão – Você sabe que aquele macaquinho filho de um incesto...

—Vovó!

—... não será um bom rei. Será Aerys tudo de novo e Tywin vai deixar o reino a mercê dele para não sujar a sangrenta reputação da droga de sua família. – disse e Valerion sorriu achando graça.

—Continue. – disse prestando atenção – Precisa esclarecer as coisas pra mim, pois... eu estou começando achar que a senhora deseja o nosso rei morto.

—Todos nós desejamos. Eu quero um homem de verdade no Trono de Ferro e um homem de verdade com a minha neta.

—E acha que Tommen seria um homem de verdade?

—Acha mesmo que eu iria ter trago você aqui pra trocar um macaco incestuoso louco pra por um macaco incestuoso mosca morta no lugar? Pensei que era mais esperto que isso. – riu lady Olenna e Valerion suspirou.

—Então me elucide, senhora, pois até agora o que eu entendi foi que queres que eu traia Lorde Tywin... e pra quê eu faria isso?

—Porque eu quero te dar algo que Lorde Tywin não pode. – respondeu ela. Valerion sorriu achando graça.

—E o que seria isso? – perguntou ele realmente curioso – O que a senhora pode me dar que Tywin não possa? Até onde eu sei ele é o homem mais rico e poderoso de Westeros.

—Mas eu te ofereço algo que ele jamais ofereceria. – adicionou ela e Valerion a olhou com atenção – Eu lhe daria o Trono de Ferro.

E ele não conseguiu manter a surpresa afastada de suas feições.

**

Sonhou com sua irmã afogando-se num rio de gelo e acordou assustado e com frio. Respirou fundo e girou na cama, procurando pelo corpo quente de Doreah, mas logo notou que a cama estava vazia.

Sentou-se sentindo o balançar do barco, muito de leve, como uma mãe que nina um filho para botá-lo para dormir. Coçou os olhos, afastando a areias do sono deles e depois coçou a barba que já cobria seu queixo e maxilar, contornando seus lábios. Os cabelos estavam bem compridos, também. Precisava de uma boa lâmina afiada para cortar a barba e deixá-la arrumada. Não gostava de parecer desleixado. Levantou-se e esticou-se, mesmo que ainda parecesse noite. Colocou um par de calças e uma blusa folgada e simples, do tipo que costumava usar quando seguia o Khalasar de Khal Drogo e o da Khaleesi. Depois atou o cinto de Blackfyre na cintura e marchou para o lado de fora de seu quarto, que dividia com Jorah. Mas o velho tinha um sono pesado e não acordava com ele e Doreah se não fizessem muito barulho.

Subiu as escadas, notando que caía uma leve garoa lá fora, mesmo que o vento fosse tão pouco que quase não fazia ondas. Era o mar mais perigoso para se navegar, principalmente a noite. Por isso o capitão provavelmente tinha baixado a âncora para esperar por ventos mais fortes. Foi até o convés e mirou o mar negro embaixo da embarcação. Depois olhou para o céu nublado sem conseguir distinguir uma estrela que fosse. Estava preocupado com Shiera. Nunca se deixara preocupar com sonhos, mas aquele o deixara cismado. Praticamente tudo o deixava cismado desde quando os dragões nasceram. Suspirou sentindo o ar quente da noite, desejando voltar pra casa logo. Queria ver o pai e os irmãos. Queria saber mais sobre aquela guerra. Queria pegar os homens e liderá-los até o encontro da irmã, para depois marcharem até Porto Real para libertar Valerion. Depois mataria todo e qualquer Lannister ou Baratheon que conseguisse por as mãos.

A garoa parou de cair e logo uma brisa tímida começou a soprar, mas não o suficiente para denunciar pedras e recifes. Ainda não era sensato seguir viagem. Caminhou pelo convés e logo encontrou Sor Barristan Selmy. O velho olhava para o nada, parecendo preocupado e com o pensamento distante. Escorou-se no barco, olhando para a água, com o cenho franzido e um sentimento de saudade que não cabia em si. Queria sua casa. Queria voltar. Precisava voltar... mas jurara seguir Daenerys até o inferno e ela decidira ir para bem perto. Estavam indo para Astapor, para comprar Imaculados. Uma grande ideia de Jorah. Barristan foi contra reconquistar Westeros pelas lanças de escravos, mas era fazer isso ou esperar sabe-se lá quanto tempo, até os Dragões crescerem.

E, principalmente, Daenerys precisava aprender mais sobre guerra. Ela não vira uma guerra de verdade, apenas reles massacres que os Dothraki causavam. Mas a verdadeira guerra... isso não.

E se ela fosse querer ser uma verdadeira rainha Targaryen, a ponto de reforjar Westeros com fogo e sangue, ela precisava experimentar aquilo.

E céus, como ele sentia falta daquilo. De uma batalha de verdade, dos tambores de guerra, das marchas, dos acampamentos, dos gritos, do calor... ele nascera para lutar. Para cortar corpos com sua espada. Ele nascera para conquistar e guerrear... jamais seria capaz de manter... ele não era um rei. Nunca fora bom nas coisas que um rei deveria ser bom. Seria um monarca tão ruim quanto Robert. E isso ele não desejava para si.

Mirou Sor Barristan Selmy, que o ignorou, ainda mergulhado em suas próprias aflições. Suspirou e resolveu quebrar o silêncio.

—Foi difícil, vestir o branco? – perguntou olhando novamente para as águas. Selmy soltou um suspiro.

—Sinceramente... não. – respondeu ele – Difícil foi manter o branco, branco. – concordou com um aceno de cabeça – Você pretende vestir o manto da Guarda Real?

—Algumas vezes penso que sim, n’outras... – suspirou novamente, olhando para frente – É muita coisa para se abrir mão.

—Harrenhal é mesmo...

—Não falo do castelo. – cortou firmemente – Eu não quero o castelo. Disse isso para meu pai antes de partir... – murmurou ele – Abri mão da herança. Deixei minha parte para meus irmãos. Metade para Shiera, metade para Valerion... eu nunca nasci para reger Harrenhal. Eu nunca nasci pra ser um senhor. Eu sou apenas a minha espada... então o manto branco parece tentador muitas vezes... mas já pensei em servir na Muralha, também.

—Devo dizer que a Guarda Real me parece mais agradável... apesar de ter seus pontos ruins. – murmurou Selmy – Do que tem medo de abrir mão? – perguntou ele e Aegon deu um meio sorriso, um tanto triste demais para ser um sorriso seu. Ele era o homem dos sorrisos fáceis, normalmente bêbados e vadios. Mas agora ele passava boa parte do tempo preocupado demais para sorrir daquele jeito. Atormentado demais para sorrir daquele jeito.

—Já amou alguém? – perguntou cabisbaixo e Selmy deu um sorriso, parecendo compreender.

—Sim, eu já amei alguém... – disse ele parecendo nostálgico.

—E ela era bonita? – perguntou curioso, olhando o velho – Foi antes ou depois de seu manto?

—Foi depois... bem depois. – murmurou Barristan – Mas não me atrevo a nomear fantasmas. – adicionou ele.

—Ela soube? – perguntou Aegon e Barristan negou com a cabeça – Se arrepende disso?

—Todas as noites. – confessou ele – Se eu tivesse... sido um pouco melhor... tantas coisas poderiam ter ocorrido de forma diferente agora... nunca teria servido a um Usurpador... talvez Rhaegar ainda estivesse vivo...

—Rhaegar... ele era impressionante. – murmurou.

—Lembra-se dele? – perguntou Barristan e Aegon concordou com um aceno de cabeça.

—Eu era muito pequeno, mas ele me marcou. Marcou profundamente. – murmurou lembrando-se do rapaz – Eu estava no porto com meu pai, nos preparando para ver o rei Aerys... foi quando passamos numa rua pobre... a Baixada das Pulgas e... e eu o vi. Ele estava tocando uma harpa para as pessoas, rodeado apenas de três guardas. Você, o Grifo e um homem que não cheguei a aprender o nome. Nunca ouvi nada tão triste e bonito... solene. – Aegon suspirou lembrando daquele dia – Quando minha mãe adoeceu, eu sonhava com aquela música dele... eu era tão pequeno, mas nunca esqueci a melodia. Até a ensinei aos meus irmãos. Shiera aprendeu a tocar de tanto que eu cantarolava. Valerion prometeu escrever uma letra para a música, mas nunca o fez. Nossa mãe adoeceu mais e a energia para aquilo acabou. – suspirou novamente – Você se lembra, daquele dia?

—Lembro. – murmurou Barristan – Rhaegar reconheceu seu pai. Os dois se abraçaram, como velhos amigos. Eu nem mesmo sabia que eles se conheciam.

—Nem eu. E eu nunca perguntei a meu pai sobre. Falar de Rhaegar é difícil para ele. Sempre se culpou pela morte dele... por ter lutado ao lado de Robert... mas meu pai queria muito um lugar em Westeros...

—Rhaegar pretendia dar-lhes terras, assim que assumisse o Trono. – murmurou Sor Barristan e Aegon concordou.

—Eu sei. Mas meu pai não quis esperar. Ele teve um deslumbre do futuro e soube que precisava zarpar para Westeros e lutar ao lado do falcão, do lobo e do veado. Ele não estava errado.

—Tudo poderia ter sido bem diferente, se seu pai tivesse apoiado Rhaegar. – lamentou Barristan.

—Concordo... mas a guerra começou e Rhaegar não nos mandou uma carta, não nos propôs nada. Apenas se escondeu em Dorne... nunca entendi o motivo dele ter feito isso. – resmungou franzindo a testa – Ele foi um dos que causaram a guerra... ele deveria estar com seus homens desde o início. Mas ele só participou de uma batalha e morreu. – resmungou Aegon e Barristan concordou – Mas quem sou eu para julgá-lo, não é mesmo?

—Como assim? – perguntou Barristan.

—Eu estou aqui, não estou? – perguntou ele olhando para o céu nublado. A lua brilhava escondida por uma nuvem que começava a se dispersar – Meus irmãos estão presos numa guerra. Dois reféns. Meu pai está morrendo no castelo, sem ajudar nem a um e nem a outro... e eu estou aqui. O filho mais velho, o guerreiro... eu deveria voltar para junto deles, liderar as forças e ajudar minha família, mas eu estou aqui nesse barco.

—Está aqui pela rainha legítima.

—Não sigo honra, Sor. – murmurou Aegon – Sigo Daenerys, é verdade, mas os motivos, sinceramente, não são nada honrados... e algumas vezes eu penso que estou... estou apenas torturando a mim mesmo. – Selmy suspirou e o olhou com algo que pareceu pena e isso o irritou mais do que poderia admitir.

—Oh, garoto... – murmurou o velho – Você e Jorah... estão ambos no mesmo barco.

—Literalmente. – resmungou Aegon – Mas eu sei que não tenho direito... não posso...

—Você é um dragão. Por que não poderia? – perguntou Barristan – Seu pai é tão poderoso quanto Mace Tyrell. Com uma frota quase tão grande quanto a de Balon Greyjoy, com o castelo mais impenetrável dos Sete Reinos. Por que não pode?

—Porque não ousaria dar isso a ela em troca de um casamento. Eu teria feito isso antes. Era o que eu iria fazer, antes. Mas eu não a conhecia, antes... eu não a amava, antes. – resmungou – E agora não posso chantageá-la. Não posso fugir dela e nem ficar com ela. É uma tormenta sem fim. Sem fim. – rosnou socando a madeira e Selmy suspirou.

—Nada é mais estúpido que um homem apaixonado. – riu Selmy – Mas você tem honra, Sor.

—Pro inferno com a honra. – resmungou zangado, se endireitando – Nunca pensei que me faltaria coragem para algo, mas é só mirar aqueles olhos... que me sinto um completo imbecil... estou de joelhos para ela em um segundo. Isso nunca me ocorreu. Mataria por ela, viveria por ela, morreria por ela... e seguiria mergulhado em tormenta e culpa... porque não posso tê-la e nem deixá-la... o dragão negro serve. – murmurou repetindo aquelas palavras que seu pai repetira tantas e tantas vezes – Apenas serve. Não sirvo pra ser um rei, sou apenas minha espada. Nada mais do que aço. Sou menos até mesmo que o selvagem do Drogo. Sou menos e pequeno e... insignificante. Sou o filho mais velho de Lorde Blackfyre, mas ela me faz um reles moleque com um simples olhar. Me faz um cão manso com um simples sorriso. Eu amo Daenerys Targaryen... mas ela é minha rainha... tão tentadoramente perto... e ao mesmo tempo, tão longe. – disse baixando o olhar – Deve estar me achando patético...

—Um pouco. – riu Barristan – Mas não o julgo. Eu entendo. – adicionou ele – Mas se acha que não está a altura da rainha, então melhore, Aegon. – aconselhou o velho e Aegon o olhou – Seja mais do que uma simples espada.

—Meu pai passou a vida tentando fazer isso comigo... acho que eu não nasci pra ser mais do que isso.

—Se simplesmente aceitar seu destino, então não há mesmo o que ser feito. – decretou o velho – Mas eu me pergunto se antes você já desejou ser mais do que uma simples espada. Pense nisso com esmero.

Olhou para Barristan e suspirou.

—Posso tentar. – murmurou sem confiança – Mas não tenho fé nisso. Não tenho fé em nada. – murmurou perdido em conflitos.

—Eu duvido disso. – murmurou Barristan se virando e indo até a ponta do convés. Entendeu que o velho queria ficar sozinho e respeitou o desejo dele. Virou-se para voltar até seu quarto e respirou o ar da noite. O delicioso cheiro da maresia. O cheiro do mar... amava o cheiro do mar. Olhou novamente para onde a lua se escondia e sentiu uma lufada tímida de vento lamber seus cabelos de cor de ouro prateado.

Sorriu para o nada, sentindo-se confortado pelo mar.

Depois voltou a seguir para seu quarto. Porém, assim que desceu as escadas, seguiu para o quarto da Khaleesi. Não iria abrir a porta, só queria senti-la por perto. Mas assim que se aproximou o suficiente, notou que a porta já estava aberta. Achou estranho, pois não era sensato deixar portas abertas. Não num navio... aproximou-se com os ouvidos atentos e escutou um som engasgado, como se alguém estivesse sendo estrangulado, seguido por um silvar de Drogon. Entrou no quarto de uma vez e flagrou Doreah, de joelhos em cima de Daenerys, que tentava se livrar das mãos dela, em seu pescoço. Drogon estava preso em sua jaula, mas rosnava e silvava, tentando sair.

—O que raios? – perguntou chocado e Doreah o olhou assustada – O que pensa que está fazendo?!

—Aegon... – murmurou ela soltando Daenerys, que aproveitou a oportunidade para socá-la no nariz.

—Aegon, mate-a! – gritou a rainha e Aegon sacou a espada, sombriamente.

—Não. Não, espere... – murmurou Doreah, recuando – Eu só queria libertá-lo. Ela estava em nosso caminho. – choramingou ela já com as costas na parede – Por favor. Eu amo você. – implorou ela com os olhos vazando. Ele não ligou. Frio como o inverno de Westeros, enfiou a espada na barriga dela. Doreah soltou um gemido engasgado e fez uma bolha de sangue em sua boca. Ela o olhou com os olhos repletos de dor e frustração e quando ele retirou a espada, ela escorregou para o chão – Por... favor... – chorou ela, mas ele lhe cortou a cabeça em seguida. Largou a espada no chão e virou-se para sua rainha, que tossia de leve, segurando o próprio pescoço.

—Dany... digo... Khaleesi... – murmurou se aproximando e ajoelhando-se para ver o pescoço delicado dela – O que aconteceu?

Ela respirou várias vezes antes de conseguir falar. A voz saiu rouca e fraca, como se ela tivesse gastado toda a voz no grito anterior.

—Ela se deitou comigo e... começamos a conversar e... – ela respirou fundo e engoliu saliva, fazendo uma careta – E então ela tentou... me... me... – a puxou para si e enfiou os dedos em seus cabelos que estavam um pouco menores que os dele. A colocou contra o peito e respirou aliviado.

—Eu sinto muito, Khaleesi. – murmurou aliviado por ter decidido passar ali.

—Por que ela tentou me matar? – perguntou Daenerys confusa e ele a olhou nos olhos. Olhos lacrimejados pela dor. Lindos olhos... lindo nariz, linda boca... lindo rosto... tudo era imensuravelmente lindo nela. Muito mais bela que Shiera. Muito mais...— Por que?

—Porque... – engoliu em seco – Por ciúmes. – murmurou sentindo o rosto queimar.

—De nós? – perguntou ela e então o afastou com as mãos, parecendo chocada – Oh... primeiro Jorah... agora você?

—Que dizes? – perguntou constrangido e ela se levantou, parecendo ainda mais.

—Oh, Aegon... isso... isso não pode ser... céus... como não notei... oh... – ela cobriu a própria boca e o olhou parecendo em choque – Você é a terceira cabeça? – perguntou ela, parecendo ainda mais chocada. Negou com um aceno de cabeça.

—Eu conheço o meu lugar, Khaleesi. Eu não sou um rei. Eu não sou digno de tua companhia. Eu sou apenas sua espada. Não sou uma cabeça, sou apenas o fogo, que deves usar para derrotar teus inimigos. Sou seu fiel e leal Aegon Blackfyre. Não te preocupes. Nada mudou. – colocou-se de joelhos, humildemente – Peço perdão por tudo isso... vou chamar alguém para limpar a bagunça... onde estão as outras aias? Deveria ficar com elas, Vossa Graça. – murmurou tristemente e Dany se abraçou, como se sentisse frio.

—Sinto muito, Sor Aegon... eu... eu não posso me comprometer dessa maneira... eu... meu útero... não posso gerar filhos e... oh... é tão complicado... – disse ela e Aegon se levantou.

—Não há nada de complicado. – disse ele com um sorriso gentil – Não te preocupes, Dany... está tudo bem.

Estava para deixar o quarto, quando a voz dela o fez virar-se.

—Aegon.

—Sim, minha Khaleesi. – murmurou a olhando com constrangimento. Ainda estava assustado. Ainda estava aéreo sem compreender o que tinha acabado de acontecer.

—Você me ama? – perguntou ela – E não pergunto se me amas como uma rainha. Me ama como mulher? – perguntou ela. Engoliu em seco – Por isso Doreah...

—Eu sinto muito. –murmurou baixando os olhos – Vou chamar suas outras aias. – se virou novamente e deixou a cabine. Marchou até o quarto das aias e as mandou até o quarto de Daenerys. Depois avisou um marujo qualquer sobre o que tinha acontecido. Voltou com alguns homens para o quarto e notou que sua espada não estava mais ali. Soltou um muxoxo e vistoriou enquanto os homens limpavam o quarto, retirando o corpo de Doreah de lá. Provavelmente a jogariam no mar. Quando o quarto já estava limpo, voltou para o quartinho das aias, que estavam de pé, ao lado de fora da porta.

—A Khaleesi quer vê-lo. – disse Irri. Concordou com um aceno de cabeça.

—Minha espada. Onde está?

—Com a Khaleesi. – respondeu a aia. Concordou com outro aceno de cabeça e entrou. Daenerys estava sentada numa cadeira, com sua espada em seu colo. Ela a tinha limpado, ou talvez as aias o tivessem feito. Ela mirava a lâmina de aço valiriano com atenção, como se ali tivesse todas as questões importantes das quais precisasse saber.

—Vossa Graça. – murmurou sombriamente.

—Sor Jorah me beijou há duas noites atrás. – disse a pequena rainha e Aegon respirou fundo, cerrando o punho, sentindo ciúmes. Mas nada disse. Apenas engoliu em seco e a observou. A garota parecia completamente sem jeito por ter dito aquilo – Ele nunca devia ter me beijado. Ousou demais, e eu deixei. Não pode nunca voltar a acontecer. – a pequena rainha fez uma expressão sombria com a boca e sacudiu a cabeça, e a sineta em sua curta trança tilintou suavemente.

—Sor Jorah é um homem leal, mas acredito que tem um nascimento baixo demais para Vossa Graça. E a Ilha dos Ursos não tem muito o que oferecer, além de poucos homens, apesar de muito valorosos. – disse francamente.

—E Harrenhal? – perguntou Daenerys. Aegon se colocou de joelhos, respirando fundo e sentindo o estômago revirar.

—Harrenhal já é seu, minha rainha. – murmurou Aegon – Temos muitos recursos e bastante homens. Meu pai é um homem sábio, meus irmãos são espertos e astutos. Seremos leais.

—Um casamento pode vir a ser bom para mim. – disse Daenerys – Poderia dar-me um conselho sobre isso? – perguntou ela e Aegon se perguntou se a rainha o estava punindo.

—Meu irmão saberia aconselhar melhor sobre isso. Ele sempre foi mais envolvido com políticas, minha senhora... hum... Khaleesi. – respondeu – Mas as grandes famílias de Westeros são os Lannister, os Stark, os Baratheon, os Arryn, os Martell, os Tyrell, os Tully e os Greyjoy. Imagino que não haverá aliança com os Lannister ou com os Baratheon. O herdeiro Arryn é um garotinho doente. Mas os Martell, os Tyrell, os Tully e os Greyjoy têm herdeiros a ponto de se casar. E minha irmã está casada com um Stark...

—Por que não diz que os Blackfyre são uma grande família de Westeros, Sor? Menospreza o próprio nome? – perguntou ela.

Aegon a olhou humildemente.

—Não me acho digno, Vossa Graça... e seria por demais doloroso ver-te com meu irmão. Lhe imploro que não cogites casar-se com ele.

Daenerys se levantou segurando Blackfyre com firmeza. Apoiando a ponta da espada no chão, a garota inclinou a espada para ele.

—Tome sua espada, Sor Aegon. Agradeço por seus bons conselhos e lhe garanto que não desejo causar-lhe dor. – jurou ela – Por favor, levante-se e peça-me o que desejares. Minha vida está em débito com você por mais uma vez.

Levantou-se e pegou sua espada, devolvendo-a ao cinto. Suspirou e mirou Daenerys novamente. Só havia uma coisa que desejava naquele momento.

—Perdoaria minha ousadia se ultrapassar o limite de sua generosidade? – perguntou engolindo em seco.

—Até se me ofendesse estaria perdoado. – prometeu a garota.

Aegon deu um passo a frente e notou que a rainha tinha as bochechas vermelhas. A olhou nos olhos, encantado com eles. Passeou pelo caminho que descia pelo nariz dela, mirando rapidamente as maçãs coradas de seu lindo rosto. Depois descansou o olhar naquela boca que há tanto lhe tirava o sono. Aproximou-se mais um passo e sua mão a segurou na cintura. Ela não o empurrou. Desejava uma noite que fosse. Mesmo que apenas uma. Sentiu a rainha aproximar-se e ficar na ponta dos pés. Viserion e Rhaegal mexeram as asas, como se estivessem enciumados. Sentiu as mãos de Daenerys em suas costelas e seu hálito quente lhe tocou o rosto.

Mas antes que pudesse matar o desejo, a porta se abriu com rapidez. Sor Jorah e Barristan entraram com feições preocupadas e Aegon recuou dissimulando, apesar de ser bastante óbvio o que estivera para acontecer.

—Perdoe-nos, Khaleesi. – murmurou Jorah lançando a Aegon um olhar ressentido e sombrio. Não permitiu que seus olhos cruzassem com os dele – Mas ouvimos que foi atacada.

—Sim, mas Sor Aegon me protegeu. Eu já estou bem. – disse ela.

—Se não está precisando de nossa ajuda... – disse Barristan dando um sorriso tímido e recuando, mas Sor Jorah se adiantou.

—Deveria dormir, Khaleesi. – cortou o nortenho – Amanhã mesmo chegaremos a Astapor, o capitão nos assegurou. Teremos negociações importantes para fazer.

Fez-se um constrangido silêncio por alguns segundos, até que Daenerys andasse até a cama.

—Chamem Irri e Jhiqui. – disse ela – Não desejo dormir sozinha.

Aegon concordou e saiu depressa da cabine, ligeiramente irritado. As aias da rainha voltaram para dentro e quando estavam os três indo para o convés, Sor Jorah o segurou no braço.

—E proclama-se um dragão. – rosnou ele.

—Mormont, acalme-se. – pediu Barristan.

—Não. Proclama-se um dragão, quando é na verdade uma cobra, esgueirando-se em sombras. – rosnou ele, furioso.

—Solte-me antes que se machuque, Mormont. – rosnou Aegon

—Parem! – rosnou Barristan avançando um passo, levando a mão à espada, para retirar parte da arma da bainha – Agora. Recuem.

Obedeceram olhando um para o outro com fria fúria.

—Cale a boca, Jorah. Tem idade pra ser avô dela. – provocou zangado por ter sido interrompido – E me chama de cobra? Ousa? Você que beijou a rainha, sem ter um nascimento digno, terras ou honra para isso? Não passa de um exilado, deserdado que não trouxe nada mais do que vexame para a própria família. – rosnou apontando o dedo para o velho urso, que rosnou avançando de leve. Barristan se colocou entre eles, novamente.

—Parem!

—Não ouse vir com lições para cima de mim, vendedor de escravos. – rosnou antes de se virar e subir os degraus, para passar o resto da noite acordado e mirando o mar.

No dia seguinte todos pareciam especialmente zangados. Jorah, Aegon, Daenerys e até Barristan. Todos estavam contrariados em algum ponto. Dany resolveu comprar os Imaculados, oferecendo Drogon em troca. Barristan e Jorah tentaram convencê-la a não fazer aquilo e Aegon os puxou com força.

—Não atrapalhem a rainha. – rosnou zangado.

Daenerys comprou todos os Imaculados, mais aqueles que estavam para terminar seu treinamento. Eram mais de oito mil soldados. Os melhores soldados do mundo. Pela grande transação, ela pediu que o dono dos Imaculados lhe desse a intérprete de presente. Uma garota bonita, escura, com os cabelos selvagens, mas que falava muito bem o idioma comum, o valiriano e provavelmente mais outros idiomas. Daenerys guiou a marcha para longe do comerciante e se virou para Barristan e Jorah.

—Khaleesi, um dragão vale mais que um exército. – disse Sor Jorah, como quem repreende uma criança. Aegon estava zangado demais para prestar atenção nos sábios conselhos dos dois velhos. No momento só queria contrariar Jorah – Aegon Targaryen provou isso.

—Vocês são meus conselheiros e eu os valorizo. – rosnou ela sem absolutamente humor algum. Jorah e Barristan a olharam surpresos e Aegon permaneceu em silêncio – Mas se me questionarem diante de estranhos de novo, terão que aconselhar outra pessoa, pois pedirei a Sor Aegon que os mantenha longe de mim. – sibilou ela e Aegon controlou o rosto, para continuar sério – Estamos entendidos? – os dois concordaram com um tímido aceno de cabeça e ela saiu marchando ao lado da nova escrava – Você tem um nome? – perguntou Daenerys.

—Missandei, Majestade. – respondeu a menina. Aegon lançou um olhar de desprezo a Jorah e voltou a seguir a rainha.

—Você tem família? Um pai ou uma mãe a quem voltaria se tivesse escolha? – perguntou a rainha e a garota a olhou surpresa.

—Não, Vossa Graça. Nenhum familiar vivo.

Deixou que as mulheres se afastassem um pouco e sorriu para Barristan.

—Nossa rainha está crescendo. – riu ele. Barristan concordou.

—Sim... – ele suspirou.

—Só espero que ela realmente saiba o que está fazendo. – murmurou Sor Jorah. Aegon concordou com um aceno de cabeça.

Dias depois Daenerys saqueou a cidade com os Imaculados que comprara, matando os mestres. Ela se provou uma garota bem esperta...

**

Notas finais
Gente, que loucura! E aí? Valerion vai aceitar a proposta? O que vocês acham? Beeem, vamos para as prévias! =D "-Como nós faremos isso? – perguntou Tyrion. —Casando Sansa Stark antes. – disse Lorde Tywin. Valerion sentiu borboletas na barriga e Tyrion sorriu. —Bem... tenho certeza que ela ficará satisfeita com Valerion. Ele é o tipo de cavaleiro que as donzelas gostam de ouvir canções sobre. – disse Tyrion e Valerion franziu o cenho, duvidando muito de que ele era o noivo que Lorde Tywin tinha em mente. —Eu estou prometido à princesa. – murmurou e então olhou para o amigo. Cersei deu um sorriso ainda maior e todos olharam o anão, que pareceu entender o que estava sendo proposto. Ele olhou para cada um dos presentes e então mirou o pai. —Não fala sério. – disse ele e Valerion imaginou sua doce e amada Sansa, indo se casar com seu bom amigo Tyrion." É, Valerion, parece que a casa caiu pra você, não é mesmo? xD "-Sor Aegon. – a olhou achando-a simplesmente deslumbrante naquele vestido leve e branco, com um cinto de cobre, incrustado de belas pedras de ônix e fios dourados. —Sim, Vossa Graça. —Quando tivermos mais tempo, depois de libertarmos os escravos... não precisa ser tão cuidadoso. Seja mais impulsivo e impaciente. – corou de leve, coçando a barba – E talvez seja melhor se arrumar de maneira mais confortável nas calças antes de deixar a tenda. – corou ainda mais e sorriu puxando suas partes eretas para cima, e jogando a blusa por cima, para que nada ficasse à vista – Melhor assim." Aegon e Dany, começando a flertar, finalmente! xD