Blackfyre

77 O Caminho de Gorne


Notas iniciais
NÃO DESISTAM DE MIM!!!! Perdão pela demora! Eu estou tendo que fazer tanta coisa, estou envolvida em altos projetos, além disso tô tentando (desesperadamente) passar num concurso. A vida tá corrida, meus queridos leitores e leitoras! Mas aqui está, um capítulo imenso pra compensar meu desaparecimento. Espero que gostem! É isso aí! #PartiuLer

O Caminho de Gorne

Quando Edd mandou abrir o portão, um vento gélido soprou com tanta força que Aegon achou que era o Norte os mandando embora. Gendry praguejou e se abraçou mirando Jon, que liderou a marcha. Aegon se colocou logo atrás dele e todos começaram a marchar para o norte, para um lugar entre Lago Profundo e Forte Noite, dois castelos na parte central da Muralha, que ficavam mais a Oeste. Mas, por mais que ficasse entre os dois castelos, precisariam achar a entrada da caverna ao norte e o único portão que dava para o lado Norte da Muralha era em Castle Black.

Aegon suspirou, marchando atrás de Jon e logo se viu seguido por Humfrey, que parecia já estar arrependido por estar ali. Valerion vinha calado, ao lado de Hoster, que praguejava furioso consigo mesmo por ter decidido aparecer de última hora.

Depois de alguns minutos de caminhada difícil em meio à neve que caía pesadamente, a nevasca deu trégua e o céu se abriu. Melisandre tinha ficado na Muralha, onde dizia que seus poderes eram mais poderosos.

“Olharei por vocês, meus senhores. E pedirei a proteção do Senhor da Luz. ”

Aegon jurou a si mesmo que se o Senhor da Luz ajudasse a concluir aquela missão sem que tivessem perdas, ele se converteria. E falou isso olhando o fogo da lareira.

Jon, Tormund e Robb lideravam a marcha, sendo seguidos por Aegon e Thoros. Em seguida vinha Humfrey e Gendry e, fechando a fila, vinham Hoster e Valerion.

Mesmo a nevasca dando uma trégua, o caminho era difícil de seguir. A neve passava do joelho e abrir caminho era cansativo. Thoros e Aegon iam conversando sobre coisas supérfluas, para se distraírem da dificuldade do percurso. Mas depois de um tempo, durante uma ladeira que precisavam subir, ambos concordaram em calar a boca para poupar o fôlego.

E Aegon aproveitou o silêncio para pensar em Robb Stark. Ele estivera muito convencido de que Shiera estava na Muralha, apesar de ninguém tê-la visto. Ele foi perguntar até para os sentinelas no portão e quando todo mundo garantiu que a Rainha do Norte não aparecera, ele ficara sombrio. Aegon se perguntava o motivo que levara o jovem Stark a estar tão convencido da presença de Shiera em Castle Black.

Depois de horas de caminhada, decidiram parar para descansar por uns instantes. Robb Stark parecia muito cansado, apesar de não ter aberto a boca para reclamar. Humfrey estava tremendo tanto que podia escutar seus dentes rangendo. Gendry não parecia muito melhor do que ele. Apesar do frio, o céu estava azulado e o sol brilhava fracamente. Mas por conta do vento gélido de inverno, parecia que apenas a luz os alcançava, enquanto o calor se perdia no caminho.

Não que ele estivesse com frio. Era capaz de sentir o vento gelado beijar-lhe o rosto e lhe lamber os cabelos, mas o frio não o incomodava. Não sabia se isso significava que não congelaria caso não se protegesse, então, como todo mundo ali, estava envolto em peles e casacos. Valerion caminhou, para olhar a vista e Aegon aproveitou para ficar de pé ao seu lado. Só conseguia ver gelo. Gelo por todos os lados, e apenas um punhado de pedras negras despontavam em um lugar ou outro.

—Shiera iria gostar de ver isso. – Murmurou Valerion e Aegon concordou com um aceno de cabeça. Ficaram em silêncio, admirando a paisagem. Daenerys provavelmente iria gostar de ver tudo isso também. Quando a ameaça dos Caminhantes for vencida, vou sugerir que ela voe de dragão até aqui, para ver tudo isso.

—Valerion. – Murmurou e o irmão o olhou preguiçosamente – Podemos conversar agora?

—Não. – Disse ele simplesmente, se virando. Mas Aegon segurou seu braço, com firmeza.

—Eu amo Arianne desde anos atrás. Eu me vi obrigado a esquecê-la por conta de uma profecia e porque ela me foi proibida. Mas agora eu tive a oportunidade de estar com ela novamente. Eu não me importo com o modo como ela precisou agir, se é que ela fez algo contra sua esposa. Mas escute. Somos irmão. É a guerra. – Disse ele e Valerion desviou o olhar – Vai odiar todos os Lordes do Norte pelo que aconteceu com a nossa irmã?

—O que aconteceu com nossa irmã? – Perguntou Valerion.

—Bolton. – Disse firmemente – Não faz ideia do sofrimento que ela passou. Não viu como ele a deixou. De como ele a machucou.

—Shiera sabia no que estava se metendo quando concordou em se casar com ele. – Disse Valerion – Não estou dizendo que ela não sofreu ou que ela tem culpa nisso. Mas que ela sabia os termos e os aceitou.

—E Myrcella sabia que era um alvo dos muitos inimigos da família Lannister. – Disse Aegon. Valerion bufou e Aegon não deixou que ele se soltasse, mesmo depois de mais uma tentativa – Valerion. Foi Oberyn. Arianne não teve nada a ver com o que aconteceu com Myrcella. – Disse aquela mentira. Torceu para ser convincente o suficiente – Ela não tem culpa dos crimes do tio, assim como Myrcella não tem culpa pelo que Cersei fez e faz. – Largou o braço do irmão, que parecia incomodado com a conversa – Eu sou seu irmão e eu amo você. Não quero que fiquemos assim. Já vivemos anos separados por conta dos esquemas do nosso pai.

—Você vai querer Harrenhal? – Perguntou Valerion e Aegon piscou, surpreso com o rumo que ele dera à conversa.

—Arianne é princesa de Dorne. Eu irei pra Sunspear e meus filhos herdarão o nome de minha esposa. – Disse apesar de que talvez aquilo não acontecesse. Daenerys sugerira que talvez ela fosse pedir que ele reivindicasse Harrenhal. Que o meu destino não me faça trilhar por esses caminhos.

—E se Daenerys exigir isso de você?

—Pode, por favor, ater-se ao ponto que discutimos? Fazer as pazes?

—Não. – Disse seu irmão caçula com determinação – Enquanto não olhar em meus olhos e falar que tem absoluta certeza de que Arianne não sabia o que o tio dela estava fazendo com a minha esposa.

—Você nem ao menos gosta de Myrcella. – Resmungou Aegon – Fugiu de lá assim que teve oportunidade.

—Eu fiz o que precisava fazer. E não tem um dia em que eu não pense em Myrcella. – Disse ele, mas seus olhos estavam evasivos. Evasivos com culpa.

—Pensar nela não significa que a ama. – Disse simplesmente – Eu vi como mirava Sansa Stark. É com ela que você gostaria de estar. Se Myrcella tivesse morrido, era uma corrente a menos em seus pulsos. – disse honestamente e Valerion rosnou, se afastando. A verdade pode doer, irmão. Mas cedo ou tarde terá de aceitá-la.

Sentou-se ao lado de Robb Stark, que parecia estar simplesmente fraco. Jon e Tormund olhavam para ele e Thoros lhe tocou a testa.

—Está perdendo seu cerne, Norte. – Murmurou ele – O Senhor da Luz falou contigo? – Perguntou ele e Robb Stark negou com a cabeça.

—Estou bem. – Murmurou ele, simplesmente.

—Ma-ma-mal-maldito frio. – Resmungou Humfrey esfregando as mãos uma na outra – É normal fazer frio assim? Ou são os mortos? Li que eles tra-tra-trazem o f-f-frio. – Tremeu o rapaz e Gendry se encolheu esfregando as mãos também.

—Acredite, quando eles aparecem, é pior. – Garantiu Tormund e Aegon mirou os dois garotos do Sul. Harrenhal sempre fora quente e não era acostumado com o frio. Mas tinha sangue de dragão.

—Co-co-como eles s-s-são? – Perguntou Humfrey se abraçando e Aegon resolveu sentar ao lado dele.

—Pode encostar em mim. – Disse calmamente e o rapaz não criou alarde disso. Valerion se sentou um pouco mais distante e Hoster fingiu que ele tinha feito o mesmo convite.

—Diferentes de qualquer coisa que já tenha visto antes. – Murmurou Jon, adquirindo um semblante sombrio – Quando eu ainda era Lorde Comandante da Muralha, ouvi que os selvagens estavam se reunindo em Hardhome. Aos milhares. Não poderia deixá-los lá. Seria dar, de bandeja, mais soldados para o Rei da Noite. Então reuni todas as galés da Muralha e uma pequena guarnição e fomos até Hardhome, tentar convencer os selvagens a virem conosco. Alguns poucos concordaram, mas a maioria decidiu ficar. – Murmurou Jon.

—Jon já tinha recrutado uma boa quantidade de pessoas, exigindo um preço em sangue. Mas não se contentou e quis mais. – Riu Tormund.

—Preço em sangue? – Perguntou Gendry, esfregando as mãos nos braços.

—Reféns. – Supôs Valerion.

—Sim. Cem garotos, entre seis e dezesseis anos. – Murmurou Jon – Para garantir que os Selvagens não se rebelariam. Coloquei as crianças em segurança em terras da Dádiva, ao sul da Muralha. E os selvagens para guarnecer os castelos abandonados. – Murmurou Jon e Aegon concordou – Depois fomos até Hardhome tentar salvar mais pessoas. E quando estávamos colocando os que depositaram sua confiança em nós nos barcos... Os mortos chegaram. – Murmurou ele com um semblante sombrio.

—Foi uma grande luta. Muitos homens e mulheres fortes morreram ali. Infelizmente não conseguimos salvar a todos. – Lamentou Tormund, finalmente perdendo o ar bem-humorado.

—Foi quando descobri sobre o aço valiriano. Sempre que alguém lutava contra um Caminhante, quando suas armas se chocavam, a arma de ferro, bronze ou aço se partia. Mas Longclaw aparou o golpe e eu pude lutar contra a criatura, que pareceu surpresa. E quando eu a transpassei, ela se despedaçou em milhares pedaços de gelo. – Murmurou Jon – Mas perdemos boa parte do vidro de dragão que tínhamos encontrado ao norte da Muralha.

—Não importa. A garota de cabelos de prata nos deu mais. Podemos derrotá-los. – Disse Tormund e Aegon suspirou.

—Temos espadas de aço valiriano de menos. – Murmurou Valerion.

—Creio que não muito mais que du-du-duzentos e trin-trinta em toda Wes-Westeros. – Concordou Humfrey e Aegon sentiu o rapaz se aconchegar mais, buscando calor. Aegon suspirou tocou o cabo de Blackfyre, engolindo em seco.

—Sua espada é de aço valiriano? – Perguntou Robb para Valerion, que concordou – Foi essa espada que seu pai ofereceu no torneio de Harrenhal, não foi?

—Não. – Murmurou Aegon – Essa espada está com Daenerys.

—Sua família tinha três espadas de aço valiriano? – Perguntou Gendry – Muitas grandes famílias não têm nem mesmo uma!

—Blackfyre foi passada de geração em geração. – Murmurou Valerion – Dragonblood e Silverfang foram feitas com o que meu pai conseguiu recuperar de Valíria, quando foi pra lá.

—Ele foi realmente pra lá? – Perguntou Jon.

—Sim. Achou um ovo de dragão lá, inclusive. Mas ele odiava aquele ovo. – Murmurou Aegon – Não gostava nem quando eu brincava com ele. Não se importava com os outros dois, mas aquele em específico... O pai tinha rancor dele.

Ficaram alguns minutos ali e logo Jon se levantou. Humfrey e Robb já estavam sonolentos, quando despertaram por conta do rapaz.

—Já foi tempo de descansar. Precisamos seguir em frente.

E só pararam ao anoitecer. O avançar era lento e trabalhoso, cansativo. E quando acenderam uma fogueira, Aegon e Jon foram os primeiros a se oferecer para o primeiro turno de vigília.

Estava cansado, mas não dormiria. Estava acostumado com aquele tipo de coisa. Foram meses andando no Khalasar de Drogo, anos precisando ficar acordado quando só queria dormir, pois sua vida poderia depender disso. E por mais que tivesse bebido muito na noite anterior, já tinha tido noites muito mais agitadas. Então ficou com Snow a patrulhar, mirando todos os lados, olhando tudo com muita desconfiança.

Ele não é um Snow. Mas um Targaryen, por mais que não pareça nada com um.

Escutaram um lobo em algum lugar muito longe e as corujas cantavam de leve em cima das árvores e isso lhe transmitia uma segurança que não poderia exprimir. Sentia que quando os Outros viessem, trazendo a morte com eles, tudo cairia num tenebroso silêncio.

Afinal, o que a morte teria a dizer?

Jon parou ao seu lado e os dois suspiraram, em uníssono. Aegon sentiu que o rapaz queria falar sobre algo difícil, então o mirou, tentando dizer que escutaria o que quer que fosse.

—Ainda é apaixonado por Daenerys? – Perguntou Jon.

—Não. – Respondeu Aegon – O fogo de uma paixão não pode contra o ardor de um amor antigo. – Murmurou dando de ombros – Meu coração já pertencia Arianne desde quando eu era mais novo do que você é agora.

—Mas conseguiu se apaixonar por outra mulher a ponto de dar as costas para a família. – Murmurou Jon, mas sentiu que não havia censura no tom dele – E por Arianne, ignorou o sofrimento do seu irmão.

—Vivi por meus irmãos durante muito tempo. – Murmurou Aegon – Nenhum deles faz ideia de quão difícil nosso pai era. Ele nos via como peças. Peças num tabuleiro de um jogo que só ele sabia as regras. Mamãe não o deixava agir assim, mas quando ela morreu, ele sumiu e me deixou um castelo para administrar. E deixou meus irmãos nas mãos de senhores que ele não gostava ou confiava. Ele nunca gostou dos Baratheon ou dos Lannister. Mas o fez, em prol desse jogo. Shiera aprendeu as malícias da corte. Valerion aprendeu também. Eu deveria ter aprendido a administrar um castelo. Mas só me preocupei em treinar minha espada. – Aegon franziu o cenho – E quanto a Daenerys. Eu sou um cavaleiro. Eu proferi meus votos a Robert. Mas ele era um porco. Daenerys ganhou meu respeito, coisa que nenhum outro fez. Não gosto de como Stannis queimava homens para conseguir agradar R’hllor. Não gosto de como os Lannister fazem suas coisas. Ouvi que Cersei explodiu o Septo de Baelor, e nem preciso falar de como Tywin articulou o Casamento Vermelho. – Mirou ligeiramente Robb, que dormia próximo ao fogo – Nunca gostei de Balon. Aquele homem mereceu a morte que teve. E, sinceramente, não gosto de Robb. Não sei explicar o porquê. Não sei se foi o modo como ele casou com minha irmã. Não sei se foi porque eu acabo o culpando pelo que Bolton fez com Shiera. Não sei se simplesmente tenho ciúmes. Mas Daenerys. Daenerys era apenas uma coitada levada pela maré, que tomou as rédeas de seu destino e criou um caminho para trilhar. E o fez com honra, sem nunca ter estudado adequadamente sobre isso. Ela é uma boa pessoa. Uma boa rainha. De bom coração. Nobre de sangue e de alma. Ela é o que eu acredito que Westeros precisa. – Murmurou Aegon – Eu amo a minha rainha e morrerei por ela. – Disse simplesmente – E ficarei honrado se morrer cumprindo meu dever. – Adicionou e Jon sorriu.

—Bem. Acho que ela está melhor do que eu, então. – Murmurou o rapaz – Eu não faço a menor ideia de como liderar um povo.

—Não? Mas não foi isso o que andou fazendo durante muito tempo? – Perguntou Aegon e Jon o olhou confuso – Você fez nortenhos e selvagens fazerem as pazes. Você colocou os selvagens na Muralha e reviveu a Patrulha da Noite. Resolveu o problema de comida, de dinheiro, de pessoal... Em poucos meses você fez mais pelo Reino do que eu fiz por Harrenhal em toda a minha vida. – Jon corou de leve.

—Quando você fala parece que foi muita coisa, mas..., mas eu só usei a situação... eu tive sorte. – Tentou explicar-se Jon e Aegon sorriu.

—Oras. Você venceu dificuldades que outros homens em situações melhores não teriam feito, Jon. Você é um Targaryen. Você é filho de Rhaegar Targaryen. – Aegon suspirou e o mirou – Você deveria reconsiderar a proposta de Daenerys e se casar com ela.

Jon engoliu em seco e mirou Robb.

—Não. Não sei se... – Ele engoliu em seco de novo – Não daria certo.

—Ainda ama a minha irmã. – Murmurou Aegon e Jon concordou com um aceno de cabeça – É uma pena. – Murmurou e Jon o mirou, confuso, novamente – Eu teria muito orgulho de jurar minha espada a você. Você seria um bom rei, Jon. Melhor do que eu jamais sonharia ser. E Daenerys poderia usufruir muito da sua ajuda. Pense nisso. Além disso... Onde está sua coroa? Você não tinha decidido aceitar quem você é?

—Não tenho interesse em lutar contra Daenerys pelo Trono de Ferro. Aceito quem sou, mas não tenho como defender minha posição. Que fique tudo com ela. – Disse Jon, dando de ombros.

—O Norte te seguiria, a Campina também, de acordo com Humfrey, além de Harrenhal. Valerion é Harrenhal e não eu. – Disse Aegon – Você tem bons homens a sua disposição, Jon. – Disse Aegon – Deveria pensar nisso e dizer a Daenerys que reconsiderou. Se fizesse isso, o Norte concordaria em se ajoelhar novamente. Afinal, você é meio Stark. Você e Daenerys teriam um reino unido. Apenas os Lannister iriam se opor e não totalmente, já que aposto que Tyrion se contentaria em ser Lorde de Casterly Rock. Ele, Shiera e Valerion sempre se deram bem. Os únicos prejudicados seriam Cersei e Jaime Lannister, que não cultivaram o amor de ninguém. Myrcella se mudaria com Valerion para Harrenhal e os dois ficariam bem por lá.

Jon pareceu pensar nisso por um momento. O deixou pensando sobre aquilo e ele o olhou parecendo desconfortável.

—Você não se acha um Lorde competente. Tanto é que aceitou deixar Harrenhal com seu irmão. – Disse Jon e Aegon concordou – Se Daenerys exigisse que você se casasse com ela. Mesmo com você amando Arianne. Se ela quisesse que você fosse o rei dos Sete Reinos. Você aceitaria, mesmo sabendo que não é a melhor pessoa para isso? – Perguntou ele e Aegon suspirou – Desistiria do amor e da chance de estar com Arianne, simplesmente porque sua rainha quer que você seja o rei? Conseguiria deixar tudo pra trás?

—Não. Eu não conseguiria deixar tudo pra trás apenas por honra. – Concordou Aegon – Eu desisti de Arianne uma vez única e exclusivamente porque tinha medo de uma profecia. Mas você já deixou tudo pra trás uma vez. Pelo seu dever. Para não ficar no caminho de Robb. Para não correr o risco de matar Shiera. Você saiu da vida dela uma vez, indo para a Muralha. E foi uma escolha honrada.

—E foi doloroso o suficiente. – Resmungou Jon.

—Bem. Se quer mesmo casar com Shiera... – Aegon mirou Robb e suspirou – Dê um fim nele.

Então deu dois tapinhas nos ombros de Jon e voltou a vigiar os colegas.

**

Estavam há dois dias de distância da Muralha. Mesmo se olhasse fixamente para o Sul, não veria mais do que uma fina linha azulada no horizonte.

—Pelos deuses. Diga-me que é mais quente aí dentro. – Lamentou Humfrey. Estava mesmo muito frio. Agradeceu mentalmente pelo sangue de dragão que tinha e mirou Jon estudar a caverna.

—Bem mais quente. Não venta aqui dentro. – Disse ele descendo a rocha irregular com cuidado.

—Pelos... Sete... – Humfrey parecia prestes a ter um ataque de nervos e um vento soprou furioso, vindo do Norte, fazendo até com que Valerion sentisse um calafrio. Arrumou o capuz das vestes, feita de pele de raposa, e mirou Hoster. O amigo tocava a ponta do nariz parecendo preocupado.

—Acho que estou congelando. – Lamentou ele fazendo caretas – Meu nariz doía muito e agora não estou sentindo a ponta.

—Não está congelando, garoto. Não se preocupe. – Garantiu Tormund apertando o nariz de Hoster, que deu um grito – Cale-se, homem. Ou quer atrair os mortos diretamente para nós?

—Seu selvagem filho da...

—Como podemos saber se essa é a caverna certa? – cortou Robb, descendo logo atrás de Jon. Estavam andando há três dias. A comida só duraria mais cinco.

—O mapa não aponta para outras entradas ao redor. – Murmurou Humfrey.

—Eu conheço parte dessas cavernas. – Disse Tormund – Nós, diversas vezes, usávamos esse lugar como abrigo, antes de tentar escalar a Muralha. Não tem outro buraco não chão, garanto.

Aquilo era o suficiente pra ele. Pulou para dentro da caverna e acendeu a tocha que segurava a colocando próxima o suficiente da que Jon lhe estendia.

—Já estive numa caverna parecida com essa aqui, muito tempo atrás. Ygritte falou que se fizéssemos silêncio poderíamos ouvir as crianças de Gendel. – Murmurou Jon e Valerion o olhou curioso.

—Quem? – Perguntou sem ter entendido. Mas Jon apenas balançou a cabeça, sem querer entrar em detalhes. Humfrey pulou para dentro e também começou a preparar uma tocha. Hoster escorregou e quase torceu o tornozelo, mas logo se colocou de pé. O último a entrar foi Aegon e quando ele fez, todos estavam muito preparados para avançar.

Valerion, Jon e Humfrey levavam tochas. Robb, Thoros, Aegon, Hoster, Tormund e Gendry iam atentos, prontos para lutar se necessário. Humfrey tomou a dianteira, com um pergaminho em mãos. Não era velho como os outros, mas recente, pode notar. Humfrey mirava as paredes, com olhos atentos e, depois de um labirinto de túneis, Valerion teve certeza de que não saberia voltar sem um mapa. Mirou o irmão, que não parecia preocupado com isso. Provavelmente nem teria se atentado a esse detalhe. Humfrey é o mais importante de nós. Se ele morrer, nós morremos.

Estudou seus colegas. Jon, Tormund e Robb pareciam preocupados, mirando tudo com atenção. Mas Hoster e Gendry pareciam meramente concentrados. Thoros parecia mais bem-humorado do que qualquer outra coisa e começou a cantarolar sem abrir a boca e Aegon logo começou a assoviar, acompanhando-o. O som dos dois parecia ecoar pelas cavernas e isso pareceu perturbar Humfrey.

—Façam silêncio. – Resmungou ele, muito sério e Valerion notou que ele tinha crescido e amadurecido desde a última vez que o vira. Humfrey nunca era sério. Mas talvez fosse porque nunca o vira numa situação de risco de morte. Não era todo mundo que conseguia manter o bom humor assim. Ele bufou e parou olhando para o teto e parede, para então sorrir satisfeito. Ele aproximou-se da parede e iluminou-a, mostrando pinturas estranhas e antigas – Olhem. Os escritos do Meister falaram desses desenhos.

—Foram feitos pelos filhos de Gendel. – Lamentou Tormund – Não deveríamos estar aqui, deveríamos voltar.

—E tudo teria sido em vão. – Riu Humfrey.

—Já vi esses desenhos antes. – Disse Jon se aproximando.

—Eu também. – Murmurou Thoros. Valerion a espiou. Eram várias linhas, que se se originavam de um mesmo ponto central, se afastando em linhas semicirculares. Como um cata-vento de criança – Um rapaz na Patrulha, que sobreviveu ao Punho dos Primeiros Homens desenhou isso. Os Caminhantes deixaram os corpos dispostos dessa maneira.

Jon piscou, como que se lembrando disso.

—Sim. Lembro que encontrei o lugar com Mance algum tempo atrás. Havia pedaços dos patrulheiros nesse formato, mas... – Jon se aproximou mais e tocou o desenho – Eu vi algo assim em Dragonstone, enquanto minerava o vidro de dragão. Desenhos feitos pelos filhos da floresta.

—O que fortalece a minha hipótese de que os Filhos de Gendel são Filhos da Floresta. – Disse Humfrey.

—O Fantasma de Coração Alto falou que as irmãs dela viviam depois da Muralha. – Murmurou Hoster, de cenho franzido.

—Sim, é verdade! – Murmurou Gendry, parecendo animado – Vamos continuar?

—Os filhos de Gendel comem carne, de acordo com as histórias. – Disse Tormund, engolindo em seco.

Humfrey bufou e mirou Jon.

—O que quer fazer? Voltar? Desistir do que quer que esteja guardado aqui, para simplesmente tentar pegar um dos mortos? – Perguntou Humfrey.

—Não acho que vá ser simples isso de pegar um dos mortos. – Riu Thoros.

—A história do Último Herói... – Murmurou Robb, indo para o lado de Jon – Conta que o herói, que derrotou os outros, foi até os Filhos da Floresta e pediu ajuda para eles.

—E todo mundo morreu, menos o herói. – Resmungou Hoster.

—Não tinham espadas de aço valiriano com eles. – Disse Aegon com firmeza, dando uma palmadinha em Blackfyre – Vamos, Hightower, guie o caminho.

E não havia espaço para contestação na voz de Aegon. Falou como um verdadeiro senhor. Pensou Valerion, engolindo em seco. Não importa o que nosso morto pai disse. Se Aegon reivindicar Harrenhal, não poderei contestá-lo. Como poderia? Questionou-se em silêncio. Humfrey voltou a liderar, mostrando o caminho e Valerion engoliu em seco, tentando decorar por onde vinham. Tormund pegou um pedaço de pedra e começou a marcar a parede, tentando dar alguma chance de conseguirem voltar.

Os caminhos pareciam não ter fim e em vários momentos tiveram que descer escalando grandes pedaços de pedra. Havia raízes de represeiro por todos os lados e eles foram usados para auxiliar descidas e subidas. Só conseguia pensar que, caso precisassem fugir, estariam em grandes apuros. Humfrey sempre parecia procurar por símbolos, e sempre parecia animado e aliviado quando os encontrava. Era o que garantia que não haviam se perdido.

Andaram por horas a fio. Suas pernas estavam cansadas e seu estômago pedia comida, quando resolveram acampar. Miraram quantas tochas ainda tinham, além de óleo e madeira.

—Seria bom fazer uma fogueira. Estou congelando – Lamentou Gendry.

—Só temos nossas tochas e as raízes dos represeiros. Estão cheios de seiva e não servirão para fazer uma fogueira. – Murmurou Aegon, dando tapinhas numa raiz particularmente grande. Mas Thoros se aproximou com um machado e sorriu.

—Quer apostar? – Perguntou ele cortando algumas raízes.

Valerion sentiu um arrepio ao ver aquilo e notou que Tormund não gostou nada. Entendia o porquê. Ele era um estrangeiro, cortando a árvore dos deuses antigos, num lugar cercado pela magia do Norte. Mas se calou, abraçando-se. Respirou fundo e quando liberou o ar, ele formou uma densa neblina branca a sua frente. Estava frio.

Muito frio. Se abraçou novamente, passando as mãos pelos braços, sentindo-se febril e mirou Aegon. Ele tinha os braços cruzados, também. Todos pareciam sentir frio. Thoros montou a fogueira e então fez uma prece. Em seguida, cortou a própria mão, de leve e o sangue dele caiu na lenha, fazendo uma fumaça se desprender. Em seguida, uma faísca surgiu e o fogo começou a queimar as raízes. Mágica. Bem ali. Diante de seus olhos.

E então o frio se foi. Rápido como surgira. Mirou Aegon, preocupado, e ele captou seu olhar. Aegon não se sentou, colocando a mão na parede e parecendo concentrado, como se quisesse escutar. Lamentou que os lobos tivessem ficado em Winterfell, mas sabia que os animais não conseguiriam escalar os obstáculos. Ficou espreitando, ansioso, temendo que algo ruim pudesse acontecer.

Gendry abriu suas provisões e começou a dividir a comida de maneira modesta e igual para todos. Sentia falta de boa comida, mas não poderia reclamar. Mordeu o pedaço de carne seca e salgada, que parecia tão dura quanto uma casca de árvore. Se perguntou se Loras estaria bem, no castelo de Lorde Umber. E depois se perguntou se Sansa estaria pensando nele. Se rezava por ele a seus deuses antigos. E então se lembrou, com alguma culpa, de Myrcella.

Ela estaria viva? Ela teria tido o bebê. Seu herdeiro estaria vivo? Ou seriam verdade aqueles rumores sobre ela ter dado à luz a um monstro meio dragão, meio humano? Engoliu em seco e soltou um muxoxo, tentando engolir o pedaço de carne que mastigava. Mirou o irmão, que ainda parecia concentrado em escutar. Hoster e Gendry eram os únicos que falavam. Os outros estavam em silêncio, tremendo, preocupados. Mesmo Humfrey, que estivera confiante momentos atrás.

Um vento frio soprou e ameaçou as chamas da fogueira. Aegon sacou a espada e todos o imitaram. Humfrey pegou uma das tochas, assim como Hoster. Olhavam para os caminhos, fazendo silêncio, tentando ouvir. Mas tudo o que escutavam era o som do vento. Uma sensação agourenta o tomou e precisou respirar fundo.

Mas o ar estava frio. Frio de um jeito que não poderia exprimir. Frio como se tivesse lâminas o cortando por dentro. Sentiu um medo primitivo e suas pernas tremeram de leve.

—Nunca devíamos ter vindo aqui. – Lamentou Tormund. O vento soprou de novo e a fogueira se apagou. E aquilo foi desolador. Sentiu como se parte do próprio calor tivesse desaparecido. Estremeceu e quando expirou, aquela neblina branca mais uma vez flutuou em frente ao seu rosto.

—Vamos embora. – Sussurrou Hoster, engolindo em seco e Valerion se sentiu tentado a concordar. Mirou Jon, mas ele não olhou de volta. Ele e Aegon estavam lado a lado, ambos mirando uma das passagens com atenção. Algo grande se aproximava, se arrastando. Valerion não conseguiu evitar de recuar um passo e sentiu que não tinha sido o único. Humfrey parecia tão tentado a fugir dali quanto ele.

—Você sabe voltar, Humfrey? – Perguntou Valerion. Humfrey deu dois tapinhas em sua bolsa cheia de pergaminhos.

—Está tudo aqui, apesar de não ter certeza de qualquer outra pessoa além de mim seria capaz de entender minhas anotações. – Resmungou ele – Então não me deixem morrer. – E o sorriso que ele deu era trêmulo e nervoso. Nada da travessura comum aos sorrisos dele.

—Não pretendemos deixar algum de vocês morrer. – Disse Aegon se preparando para a luta. Hoster jogou sua tocha para frente, para iluminar o que quer que estivesse chegando. Em seguida ele puxou a espada também.

Ouviram um rosnado familiar e Valerion engoliu em seco.

Era enorme. Os pelos eram em tons de cinza, com os olhos azul brilhantes. Haviam ferimentos expostos e grotescos pelo corpo do lobo gigante, com algumas tripas arrastando pelo chão. Mas ele rosnava assim mesmo, ele andava assim mesmo. Ele estava morto, mas estava ali, se aproximando. Sentiu um medo irracional tomar seu corpo e coração. Mirou seus companheiros e viu que todos eles pareciam assustados. Falta de medo não é o que faz de um homem corajoso. Mas como ele age quando está com medo. Disse seu pai, certa vez. Respirou fundo, sendo obrigado a aceitar tudo o que Jon Snow tinha dito. Os mortos estavam andando por aí. E se aquele lobo estava lá, só poderia significar que haviam outros mortos. Que haviam Caminhantes Brancos.

—Verão. – Murmurou Robb e Valerion o mirou – É Verão, não é, Jon?

—Eu acho que sim. – Murmurou Jon e Valerion piscou olhando para o lobo. Então se lembrou que o irmão de Robb, o que tinha caído da torre... Ele tinha perdido o lobo durante a viagem além da Muralha. Não sabia se era daquele lobo que eles falavam, mas imaginou que só poderia ser.

Outra sombra, ainda maior que o lobo se projetava logo atrás da criatura. Conseguia ver os olhos brilhantes e azuis, num tom sobrenatural, mas pouco mais que isso era possível de se fazer notar. Mas era, sem dúvidas, uma figura muito grande.

Um longo momento cheio de suspense se estendeu até que o lobo avançasse. Aegon desviou do bote e enfiou Blackfyre nas costelas dele. Jon esquivou-se das mãos gigantes da segunda criatura e Valerion teve certeza de que já tinha visto aquele homem antes, muito tempo atrás. Mas preferiu ajudar Aegon com o lobo gigante, já que Jon tinha Robb e Tormund para ajudá-lo com o gigantesco homem que o atacava. O lobo mordeu Thoros no braço e Aegon fincou a espada com tanta força no pescoço dele que a cabeça se separou do corpo. Logo a outra figura caiu e estavam respirando fundo, chocados com tudo aquilo.

—Descanse em paz. Hodor. – Murmurou Robb.

—Precisamos queimar os corpos. Ou voltarão a se levantar. – Murmurou Tormund, sombrio.

—Sem a cabeça? – Riu Aegon, parecendo achar graça, limpando a lâmina no pelo do lobo.

—Sim. – Simplificou Jon.

Usaram parte do óleo e logo os dois corpos queimavam. O cheiro de podridão era horrível e Valerion quis sair logo dali. Os outros concordaram com sua ideia.

Logo estavam andando novamente pela caverna. As horas voltaram a passar e Humfrey se interrompeu. Estavam todos tremendo de frio, mesmo Valerion e Aegon, apesar de parecerem melhores que o resto dos companheiros. Humfrey se abaixou e iluminou algo no chão. Valerion se aproximou dele e notou que era uma capa de uma criança.

—O que é isso? – Perguntou Aegon.

—Pelas anotações, deveríamos ir para aquele túnel. – Disse ele se levantando e mirando o túnel que descia, completamente enroscado por raízes de represeiro – Mas eu conheço esse símbolo. Esse brasão... – Murmurou ele o erguendo para Robb Stark. Valerion reconheceu um lagarto leão bordado no couro, mas não conseguiu se lembrar de que Casa aquele símbolo pertencia.

—Reed. – Murmurou Robb e Jon segurou a capa também.

—Hodor e Verão estavam aqui. Bran deve ter estado aqui com os filhos de Lorde Reed. – Murmurou ele e Humfrey bufou.

—Como eles podem ter chegado até aqui? Uma mulher, um garoto com as pernas quebradas e... Um lobo gigante. Mesmo para um homem tão grande como aquele que nós queimamos, seria impossível levar um garoto do porte de Brandon Stark por esses caminhos. – Disse Humfrey mirando seu pergaminho – A menos que...

—O que? – Perguntou Aegon, impaciente.

—A menos que tenha outra rota. Outra saída. Uma que o Meister não mapeou, pois acabou atacado antes. – Humfrey mirou Robb e Jon – O que Brandon falou para vocês sobre a viagem dele? Quando eu o interroguei, ele apenas disse que conseguiu o poder de ver o passado, o presente e o futuro. Mas Lady Stark me proibiu de falar com ele, pois não confiava em mim. Se houver uma rota mais segura para seguirmos, caso seja necessária alguma pressa... Pode ser a diferença entre viver ou morrer.

—Ei. Olhem isso aqui. – Disse Hoster. Valerion se virou e andou até onde ele estava. Piscou em choque ao ver o que ele queria mostrar. Era um mar de esqueletos. Muitos mais do que jamais poderia contar, de vários tamanhos, robustos, compridos delgados e pequenos. Tormund se abaixou e pegou um deles, estudando o osso.

—Esse crânio foi raspado, por uma lâmina. – Disse ele e Valerion pegou um crânio qualquer.

—Esse também. – Ele estudou mais alguns crânios e constatou que alguém tinha raspado a carne daqueles ossos. E não fora com dentes, presas, garras. Mas com lâminas.

—Os filhos de Gendel. Eu disse que eles comiam carne. – Lamentou Tormund – Vamos voltar antes que acabemos profundos demais.

—Fique à vontade para voltar. Eu já vim até aqui. – Murmurou Humfrey – E estamos muito perto, agora. – Garantiu ele. Robb suspirou e farejou o ar, indo até onde Hoster estava.

—Há uma saída, por aqui. – Disse ele e Valerion respirou fundo.

—Como sabe?

—Posso sentir o ar fresco. Uma brisa. – Explicou Robb.

—Pode ser nossa saída estratégica. – Murmurou Thoros. Tinham queimado a carne do braço dele, onde o lobo o tinha mordido. Pelo tamanho da criatura, ele tinha sorte de não ter tido o braço arrancado na hora. E como Humfrey viera preparado, ele amassara algumas folhas que tinha trago em sua bolsa cheias de pergaminhos. Com alguma sorte, não irá infeccionar. Disse ele. Aparentemente ele tinha conseguido um elo de cura na Cidadela. Um rapaz muito inteligente, sem dúvidas.

—Querem averiguar esse caminho primeiro? – Perguntou Humfrey, mas ele olhava Jon, como se a última palavra fosse dele.

—Fiquem aí. – Disse Aegon – Eu vou verificar.

—Vou com você. – Disse Jon e Valerion respirou fundo.

—E eu. Me dê sua tocha, Hoster.

—Deveríamos mesmo nos separar? – Perguntou Hoster. Valerion mirou Aegon e suspirou.

—Thoros está lento por conta do ferimento. Não podemos deixá-lo só. E iremos mais rápido num grupo de três pessoas. Qualquer coisa, gritem. – Disse Aegon e Jon concordou com um aceno de cabeça – Não deixem esse bêbado cretino morrer. – Disse Aegon com firmeza.

—Vocês três possuem lâminas de aço valiriano. Pelo menos um de vocês deveria ficar. – Murmurou Humfrey e Valerion mirou Jon e Aegon.

—Temos uma espada de aço valiriano. – Murmurou Robb e todos olharam para ele. Ele brandiu uma espada e Valerion a reconheceu – Tywin Lannister dividiu a espada ancestral da Casa Stark em duas. Uma ele deu a Joffrey e outra a Jaime Lannister. Valerion trouxe a espada que um dia pertenceu ao bastardo que arrancou a cabeça do meu pai. Lamento da Viúva foi como ela foi batizada. Mas pra mim, continua e continuará sendo Gelo. E eu vou arrancar a espada do Regicida para trazer a outra parte de Gelo pra casa também. – Murmurou Robb. Jon soltou um suspiro e Robb guardou a espada.

—Ficarão bem? – Perguntou Jon. Robb apenas concordou com a cabeça – Então vamos.

Seguiram o caminho de ossos, com Valerion prestando muita atenção por onde iam, mas o caminho era bastante simples. Uma trilha só, sem bifurcações, mas com bastante obstáculos. Muitas raízes e muitos lugares para subir, mas bem mais fácil do que o caminho que usaram para chegar até ali. Os lobos gigantes de Jon e Robb poderiam fazer esse caminho tranquilamente. Pensou.

Por fim chegaram num local mais espaçoso, onde haviam lanças e pequenos pacotinhos envoltos em folhas. Ali já não havia mais ossos. O chão era poeirento e Aegon se ajoelhou para verificar. Iluminou para ele e notou que muita gente passara por ali.

—Pegadas. Pegadas de adultos... – Ele deu um passo ajoelhado mesmo – E de crianças... E... E um trenó, eu acho. – Murmurou ele, parecendo confuso. Então ele notou uma mancha no chão. Viu o irmão mais velho tentar afastar a poeira e então se abaixar ainda mais, para cheirar o chão – Houve luta aqui. Eu acho que isso é sangue. – Explicou ele andando desengonçado, por estar rastreando o chão. Valerion ficou impressionado por ele conseguir distinguir tudo aquilo, apenas de olhar para rastros na poeira. Ele foi seguindo trilhas e chegou até uma saída – Entraram por aqui. – Disse ele.

—Quem? – Perguntou Jon.

—Não sei, mas eram muitos. Pés de adultos. – Ele continuou seguindo o rastro, ignorando a saída e Valerion seguiu o irmão. A luz da lua entrava por buracos no teto. Não estavam longe da superfície. Chegaram até algumas raízes, que pareciam abraçar um corpo cadavérico. Uma delas até mesmo lhe atravessara o olho. Os cabelos eram brancos e eles estava visivelmente morto, cortado ao meio, com o coração arrancado – Isso não me parece bom.

—A trilha termina aqui? – Perguntou Jon. Aegon voltou a estudar o chão e continuou andando, até que encontraram um pequeno braço, que certamente pertencera a uma criança, mas as pequenas mãos possuíam apenas três dedos, mais um polegar. O resto do corpo estava espalhado ali e aqui, mas Valerion prestou mais atenção aos pedaços. Eles estavam recobertos de folhas. Folhas secas. Aegon não tocou no cadáver, mas parecia analisar aquilo – Valerion, ilumine aqui.

Obedeceu e foi até onde Jon estava. Havia uma cabeça ali. E não era realmente humana. As cores, o tamanho, o formato do cabelo. Os olhos tinham sido comidos, mas podia-se notar que as órbitas no crânio eram muito maiores do que deveriam ser num homem. As orelhas eram grandes demais, também, perdendo-se nos fios de cabelos que mais pareciam raízes e cipós.

—O que é isso? – Perguntou Aegon.

—Seria um dos Filhos das Florestas? – Sugeriu Valerion. Jon suspirou e levantou a tocha, seguindo o caminho. O seguiu, junto com Aegon. Chegaram num corredor que dava a outra saída da caverna.

—Algo foi arrastado por aqui, até a neve. – Murmurou Aegon.

—Bran foi arrastado. – Simplificou Jon, voltando a mirar a saída, que tinha algo rusticamente parecido com uma porta – Hodor provavelmente ficou para trás, para salvá-lo. Segurando a porta.

—Temos uma saída. – Murmurou Valerion – Estamos há menos de uma hora dos outros. – Calculou e Aegon continuou olhando para a cabeça decapitada.

—Foram os Filhos de Gendel quem mataram essa Criança? – Perguntou Aegon. Jon tinha voltado até o grande represeiro, cujas raízes se contorciam e se entrelaçavam, ocupando um enorme espaço naquele salão enorme. Os feixes de luz que entravam pelos buracos no teto davam um ar sinistro e fúnebre ao local. Foi até ele e iluminou o cadáver.

—Isso já foi um homem. – Calculou Jon. Valerion concordou. Jon se aproximou mais e tocou as vestes dele. Engoliu em seco e se aproximou também, tentando descobrir algo a respeito daquilo – Esse homem foi um Patrulheiro da Muralha. – Disse Jon.

—Como sabe? – Perguntou Aegon.

—Ele veste o negro.

Valerion sentiu outro arrepio e respirou fundo. Estava frio novamente e Aegon notou. Se viraram, escutando passos. Passos lentos que lembravam vidro se quebrando. E então ouviram o som de madeira se partindo. Alguma coisa passou muito rápido por seu rosto e quase não lhe deu tempo para desviar. Quando o fez, achou que tinha visto a raiz do represeiro atacar Jon. Foi quando entendeu que não era o represeiro, mas o homem preso nele. O único olho que ele tinha era azul fantasmagórico, como o olho do homem e do lobo que tinham enfrentado. Ele tinha a cabeça presa nas raízes, que lhe tinham atravessado um olho, mas os braços vieram firmes ao redor de Jon, numa tentativa de enforcá-lo. A criatura tentou fincar as unhas no pescoço de Jon, mas o Nortenho o tentava impedir. Aegon tentou ajudar Jon, mas a criatura, por mais cadavérica e magra que fosse, era muito mais forte do que aparentava.

Aproximou a tocha dele e a criatura finalmente soltou Jon e os três se afastaram dela. Os passos se aproximaram ainda mais e os três voltaram a mirar o local de onde o som de passos vinha. Jon e Aegon sacaram suas espadas e Valerion fez o mesmo. Respirou fundo, sentindo um frio terrível. Rezou em silêncio para seus deuses e viu as sombras vindo pelo local onde Jon calculava que Bran tinha fugido. Os mortos vinham se arrastando. Eram uns dez. Engoliu em seco, surpreso por eles não o assustarem. Não pareciam em nada mais perigosos que a criatura que os liderava. Parecia algo feito de gelo e crueldade. De certa forma, lembrava os rostos desenhados nos represeiros. Haviam sulcos que lembravam o relevo da madeira. E o fato de serem de um azul quase branco, fazia com que se parecessem mais ainda.

Mas os represeiros choravam seiva vermelha. Os olhos eram vermelhos. Mas não aquele. Aquele tinha os mesmos olhos azuis dos mortos. Um azul brilhante e sobrenatural. Ele usava uma armadura que parecia gelo negro. Havia algum cabelo branco nele, assim como uma leve barba, da mesma cor. Os mortos rosnavam e gemiam, silvavam. Mas aquela coisa, que tinha uma lança... Aquela coisa era silenciosa. Ou ao menos não fazia som algum.

Seu primeiro instinto foi correr. Queria correr. Queria voltar para Winterfell. Queria ver Sansa de novo. Queria beijá-la e garantir que seria dela. Queria poder segurar seu filho no colo, queria ao menos saber se ainda tinha um filho ou se a morte o havia levado.

Mas sentia que a morte os cercava naquele lugar. Nem mesmo o Montanha parecia tão assustador. Lutara contra aquele homem e depois lutara em Riverrun e em Dragonstone. Lutara em Porto Real. Não era um novato. Mas naquele momento se sentia uma criança com um graveto. Mirou Jon, mas ele parecia simplesmente concentrado. Focado no que deveria enfrentar. Aegon estava do mesmo jeito. Eles são guerreiros. Mas eu não. Eu sou outra coisa. Eu não deveria estar aqui. Não sou um herói. Meu irmão é. Engoliu em seco e apertou o punho de Dragonblood. Seu pai sonhara com aquelas coisas por anos. Ele temia sequer falar a respeito. E ele era uma das pessoas mais corajosas que conhecera.

Falta de medo não é o que faz de um homem corajoso. Mas como ele age quando está com medo.

Tremia.

Respirou fundo.

O ar cortava como facas.

Expirou.

Aquela neblina branca lhe pareceu agourenta. Sentia frio. Nunca sentia frio. Mas agora parecia que estava prestes a congelar. Como se seu sangue de dragão não fosse forte o suficiente. Não ali. Não tão ao norte.

Seu coração batia acelerado.

Os mortos começaram a se mover. Mas não a criatura. Ela apenas olhava.

Os mortos vieram.

Jon e Aegon se prepararam, flexionando os joelhos, apertando os punhos das espadas.

Valerion engoliu em seco. Suas juntas doíam. Sete infernos. Que frio.

A criatura atrás deles gritou. Aegon gritou também, avançando. Jon o seguiu. Viu os dois começarem a abrir caminho. Mirou sua tocha e então a criatura atrás de si. A enfiou nas raízes e a madeira seca começou a alimentar o fogo.

Guerreiro, fortaleça minha espada e minhas mãos. Orou segurando Dragonblood com as duas mãos. Um morto estendeu os braços para alcançá-lo. O aço valiriano cortou o ar.

Estava frio.

Tremia.

Mas logo se viu possuído pelo instinto e pelo espírito de batalha.

O aço cortou o ar, cortou carne, cortou ossos. E depois cortou mais coisas. Não pensou, apenas agiu. Era o fervor da batalha. Os mortos avançavam, mas tanto ele quanto os companheiros os enfrentavam. E os três miravam a criatura que os observava. O Caminhante Branco.

Quando derrotaram os mortos, o encararam, mas mais mortos apareceram. Engoliu em seco, estava frio. Mas não tanto. Tinha incendiado as raízes. A criatura presa no represeiro já não se movia. Estava claro naquele momento. Estava claro o quanto estavam em menor quantidade. Eram muitos mortos. Recuaram alguns passos. Cercados. A morte vinha a passos lentos.

Frio.

Tremor.

Flexionar os joelhos.

Erguer a espada.

São Sete Deuses, papai. Ouviu-se dizer, anos atrás, enquanto seu pai lhe treinava com a espada.

Há apenas um deus, Valerion. E quando ele se dirigir a você, o que deve dizer?

—Hoje não. – Murmurou.

—Hoje não. – Concordou Aegon ao seu lado.

Jon ficou em silêncio, mas nada disse.

Meu pai viu o dragão negro e o dragão vermelho juntarem forças para enfrentar a morte. Você estava certo, meu pai. Mais uma vez.

E então lutou.

**

Thoros deu mais um gole em seu cantil e fez uma careta logo depois. Humfrey estava preparando mais um pouco daquela pasta com ervas, provavelmente para arrumar na ferida de Thoros.

—Isso vai doer pra cacete. – Garantiu o sulista e Thoros concordou dando mais um grande gole em seu cantil – Seria melhor se tivéssemos um pouco de neve aqui. – Lamentou ele.

—Estão demorando. – Murmurou Gendry, chutando uma pedra contra a parede, parecendo impaciente. Robb bufou, concordando, e mirou, mais uma vez, o caminho que Jon, Aegon e Valerion tinham tomado. Tormund amolava seu machado, parecendo ansioso. Hoster mirava o túnel que Humfrey queria descer.

—Deveríamos averiguar de uma vez o que tem lá embaixo. – Resmungou ele – Estamos perdendo tempo. Já estamos há mais de um dia aqui embaixo, com certeza. A comida e o fogo não vão durar para sempre. – Ele olhou para Robb – Não quero acabar como os filhos de Gendel.

—Eu ainda não entendi. Se o caminho é de Gorne, por que que os filhos são de Gengel? – Perguntou Gendry. Robb não conhecia a história. Só sabia que Gendel e Gorne eram dois Reis-Pra-Lá-Da-Muralha, que tinham conseguido atravessar para o sul. E ambos foram mortos, com seus homens, numa emboscada feita pelo Rei do Norte e pela Patrulha da Noite.

—Gendel. – Corrigiu Tormund – Foi Gorne quem fez os caminhos. Ele e Gendel eram reis do passado. Juntaram seus povos e passaram por debaixo da Muralha. Mas quando saíram do outro lado, o rei lobo os esperava. Gorne matou o rei de Winterfell, mas foi morto pelo filho do lobo. Os Corvos chegaram e cercaram o povo livre, mas Gendel abriu caminho e guiou seu povo de volta para as cavernas. Só que ele não conhecia o caminho bem como Gorne. – Tormund suspirou e parou de amolar a lâmina de seu machado. Humfrey começou a aplicar a pasta de ervas no braço de Thoros, que gemeu de dor – Eles se perderam nesses túneis. A comida acabou, assim como as tochas. Eles ficaram no escuro, tateando as paredes, presos pra sempre aqui. Dizem que se fizer silêncio, ainda pode escutar os filhos deles a chorar pelos túneis.

E então ele fez uma pausa dramática. Todos pareceram tentar escutar algo e Robb teve a impressão de escutar mesmo alguma coisa. Algo como sussurros. Mas pareceu ser o único. Se levantou e foi até Hoster, que estava na boca do túnel que descia. Ele segurava uma tocha e parecia tentar o ver o que tinha lá embaixo. Era uma descida de pelo menos cinco metros. Havia apenas a parede lisa e bastante íngreme, com alguns relevos na pedra e nenhuma raiz. Teriam dificuldades de descer aquilo, principalmente com Thoros com o braço ferido.

—Ilumine pra mim. – Pediu Robb. Os sussurros vinham dali.

—Você também está escutando? – Perguntou Hoster e todo mundo pareceu ficar alerta.

—Sim. – Murmurou. Gendry veio quase correndo até eles. Humfrey começou a enrolar uns panos no braço de Thoros, mas parecia ligeiramente afoito.

—É o som de água? – Perguntou Gendry.

—Parece, mas não tenho certeza. – Murmurou Hoster. Ele entregou a tocha para Tormund e então começou a escalar a rocha com agilidade – Jogue a tocha. – Pediu ele e Tormund a deixou cair no chão. Ela quase apagou, mas Hoster não deixou acontecer. Ele avançou de leve e logo sumiu da vista deles. Tudo o que viam era a luz alaranjada se afastar.

—Hoster! – Ralhou Robb, achando que aquilo era má ideia.

—Vocês precisam ver isso. Não é nada bom. – Lamentou ele. Robb fez uma troca de olhares e mirou Thoros. Ele já estava de pé, com o braço enfaixado.

—Sem a menor condição. Não vou conseguir descer isso. – Disse ele.

—Então fique aí. Qualquer coisa, grite e tente ganhar tempo. – Sugeriu Robb. Thoros concordou – Se Jon e os outros voltarem, diga que nós avançamos.

—Está bem. – Murmurou Thoros.

Robb viu Hoster voltar com a tocha e isso o ajudou a escalar a parede, mas levou muito mais tempo que o rapaz. Bran, antes de ser empurrado pelo Regicida, subiria e desceria isso aqui num piscar de olhos. Gendry demorou um pouco para descer e caiu os últimos metros, mas não o suficiente para se machucar. Humfrey demorou algum tempo também, parecendo ligeiramente desconcertado com a altura. Tormund não teve problemas. Hoster os guiou até um ponto, cheio de pedaços de corpos. Corpos pequenos, cobertos por folhas secas. Pequenos demais para pertencerem a selvagens ou patrulheiros. As mãos possuíam três dedos mais um polegar.

—O que são essas coisas? – perguntou Gendry e Humfrey se abaixou para observar.

—Eu acho que são os Filhos. – Murmurou ele, sombrio – Não esperava por isso. – Eles avançaram mais um pouco e então Humfrey parou novamente. Havia um amontoado de pedaços de corpos queimados ali. A parede estava pintada de fuligem e Humfrey pareceu querer estudá-la. Ele passou o dedo por ela e então continuou andando, ignorando os corpos. Mas Robb os estudou por alguns segundos. Aqueles eram cadáveres adultos. Podia notar pelo tamanho dos ossos e das carcaças. Chegaram num lugar bastante íngreme. O som sussurrado de fato parecia com água. Desceram com cuidado e viram que mais a frente, algo brilhava – Acho... Acho que estamos chegando. – Murmurou Humfrey.

Robb sacou sua espada da bainha e Humfrey o olhou feio.

—O que?

—Guarde isso a menos que seja absolutamente necessário. Não sabemos o que aconteceu aqui e não queremos ofender ninguém. – Garantiu ele. Robb concordou e guardou a espada.

Continuaram descendo e chegaram num lugar com archotes. Ou ao menos pareciam archotes. Criaturas de olhos amarelos e brilhantes como gatos olhavam para eles. Havia um córrego ali e as paredes estavam cheias de vidro de dragão. E alguns desses vidros tinham chamas.

—Os Filhos da Floresta. – Sussurrou Robb. Humfrey concordou e suspirou, apontando para o meio do córrego.

—Ali. Lembram do desenho que lhes mostrei?

—É o lugar que eu sonhei. – Murmurou Robb – Mas não há espada nenhuma aqui. Ela deveria estar ali. – Disse Robb, apontando para uma pedra.

—Faz quanto tempo desde que sonhou com isso? – Perguntou Humfrey.

—Quase um ano. Foi antes de recuperar Winterfell... E pouco tempo depois também, durante uns dias. – Respondeu – Mas me marcou. Causou uma grande impressão.

As criaturas que os observavam, se é que eram mesmo os filhos, começaram a conversar. Não entendia a língua deles. Era o Idioma Verdadeiro, que há muito se perdera. Era uma língua cantada e melodiosa.

—Sabe o que eles estão dizendo? – Perguntou Hoster.

—Claro que não. – Riu Humfrey – Não há registro do Idioma Verdadeiro. Ele se perdeu há muito. Quase não temos registro da Língua dos Primeiros Homens, o que dirá disso. Isso é mais antigo ainda.

Humfrey tentou dar mais um passo, mas os Filhos soltaram um chiado. Robb olhou para o chão e viu que tinha uma pequena barreira, não muito mais alta do que um filhote de gato, feita com gravetos. Mas não duvidou, nem por um segundo que fosse, de que haveria algo mágico ali. Robb se adiantou, se perguntando se eles seriam mais abertos a conversas com um descendente dos Primeiros Homens. Os Filhos vieram se aproximando, com lanças nas mãos.

—Eu me chamo Robb Stark! – Disse com firmeza – Eu descendo dos Primeiros Homens. Viemos aqui buscando pelos Filhos da Floresta, na intenção de reviver uma antiga aliança entre nossos antepassados. Para derrotar os Outros. Os Caminhantes Brancos. – Explicou. As criaturas trocaram olhares. Eram muitas. Umas trinta. Elas se aproximaram, lentamente, falando de maneira agressiva. Elas pegaram arcos e Robb recuou um passo, mas uma delas tomou a dianteira e o olhou, em choque. Ela se aproximou, estudando seu rosto. Se abaixou, ficando de joelhos e ela atravessou a pequena barreira de gravetos. Ela tocou seu rosto, como que o reconhecendo, para em seguida falar algo num tom desesperado para os outros. Viu os arcos serem abaixados e recebeu um olhar cheio de lamento da pequena criatura – Nos ajude.

—Brandon. Ele está bem? – Perguntou ela no Idioma Comum. Robb piscou, surpreso.

—Brandon?

—Brandon Stark. O que tinha as costas quebradas. – Ela engoliu em seco – Ele conseguiu voltar para casa?

Robb piscou, surpreso.

—Brandon é meu irmão mais novo e sim. Ele está seguro, em Winterfell.

—Do outro lado da Muralha? – Perguntou ela. Robb concordou. A jovem Filha da Floresta pareceu apenas ligeiramente aliviada – Escute, Robb Stark. Esse lugar é sagrado. É o último lar do meu povo. Não posso permitir que entre. – Disse ela – Mas seus amigos. Nós vimos pela árvore. Nós vimos no fogo do vidro. Nós vimos. Eles precisam de ajuda.

—Meus amigos?

—Aqueles com sangue mágico. Aqueles. – Ela engoliu em seco – Três deles. Com armas mágicas que podem quebrar a magia dos Caminhantes. – Explicou ela. Robb tentou se levantar, mas ela o segurou – Escute. O Rei da Noite. Ele não pode ser morto, nem com nossas armas e nem com as suas. Antes disso. – Ela o tocou no peito e Robb piscou – Precisa tirar dele. O coração de Obsidiana. O Coração de Vidro de Dragão. – Explicou ela. Viu os olhos dourados e enormes encherem-se de água – Perdoe-nos. Avise nosso povo irmão, que vive ao sul. Diga que pedimos perdão. Diga a eles que pedimos perdão. Eles os ajudarão mais do que nós. Já fizemos o que podíamos fazer. Agora vá!

Robb se levantou e estava para sair, quando Humfrey se adiantou.

—A espada. Havia uma espada aqui, não havia? – Perguntou ele.

—Sim. Mas Folha a levou.

—Levou pra onde? Quem é Folha? – Perguntou Humfrey, aborrecido.

—Folha era quem cuidava do Corvo de Três Olhos. Ela levou a espada para que o menino Bran a levasse para o Sul da Muralha. Para que o herói dos humanos a empunhasse.

—Bran chegou com uma espada?! – Perguntou Humfrey.

—Eu não sei! – Resmungou Robb – E não importa. Precisamos ajudar Jon!

—Urhg! – Humfrey rosnou e logo estavam todos correndo. Ajudaram uns aos outros a escalar a parede, deixando Hoster por último, por ele ser o melhor escalador. Depois ajudaram Thoros a se levantar e correram pelo caminho que Jon e os outros tinham seguido. Era um caminho difícil, cheio de buracos e obstáculos. Tiveram que diminuir o passo, para não correrem o risco de quebrar uma perna.

Robb sentia o coração bater acelerado. Pensou em Jon e desejou que ele estivesse vivo. Não importava o que dissessem, ou qual era a verdade sobre o nascimento dele. Jon era seu irmão.

E estava tudo tão... Frio.

**

Shiera estava sentada em seu cadeirão de Rainha, recebendo os Lordes do Norte. Robb os tinha deixado ir para casa, para verem suas famílias, com a promessa de que voltariam. Tinham uma guerra para marchar e em breve o Norte voltaria a marchar contra o Sul, para Porto Real. Harrenhal os abrigaria no meio do caminho e então, unindo seus exércitos ao de Daenerys, com parte das forças de Harrenhal já em Porto Real, tentariam uma trégua, para lutarem contra o inimigo em comum. A morte.

Nem todos os lordes nortenhos tinham chegado. O Norte era por demais extenso. Mas os poucos lordes que ali estavam pareciam querer compensar em barulho e confusão. Se lembrava de sua primeira reunião com os lordes nortenhos, antes mesmo de se casar. Quando segurava a mão de Robb por debaixo da mesa. Ficara aterrorizada e viu que Robb não parecia muito melhor. Então seguravam a mão um do outro, guardando o segredo sobre terem medo. E os lordes passaram a respeitar aquelas duas crianças, principalmente Robb, claro. Mas Shiera já lograra o respeito da maior parte dos lordes. Apenas Lorde Jon Umber ainda a olhava com desconfiança. Mas os demais, principalmente Lorde Karstark, a viam como sua legítima rainha.

Imaginou que Daenerys ficaria assustada com a brutalidade dos nortenhos, mas ela parecia muito à vontade. Ela viveu com o s Dothraki, afinal. A cabeça quente dos nortenhos certamente não se compara com a barbaridade do povo dos Senhores de Cavalos.

Daenerys se sentava a sua esquerda e Sansa a sua direita. Fez questão. Daenerys precisava de um lugar de honra, mas sua mão direita não poderia ser outra além da filha de Lorde Eddard Stark. Irmã de Robb. As lareiras do grande salão de Winterfell estavam crepitando e alguns assados iam sendo servidos. Preferiria poupar os recursos para o inverno, mas não poderiam parecer fracos para Daenerys, Robb ainda não tinha decidido se iria ou não dobrar o joelho e ela precisava mostrar que eram fortes.

Há muito um Rei do Inverno dobrou o joelho para Aegon, o Conquistador, quando soube como os dragões queimaram um exército de mais de mil homens. Daenerys veio sem exército, mas trouxe três dragões. É mais do que o suficiente para matar a todos nós. Preciso ter papas na língua, mas não posso parecer fraca. Respirou fundo, vendo Lorde Kastark rir de Lorde Jon Umber, que tinha perdido numa competição de quem bebia mais rápido. Lorde Umber se engasgara e tossia copiosamente. Quando por fim terminou, socou a mesa com tanta força que não se espantaria caso a partisse em dois.

—Como está a gravidez? – Perguntou Daenerys. Shiera piscou, surpresa e a olhou. Depois tocou instintivamente a barriga.

—Nosso Meister garantiu que vai bem. – Disse dando de ombros – Apesar de não confiar muito em Meisters.

—Por que não? – Perguntou Daenerys. Shiera se lembrou do enterro da mãe e engoliu em seco. Seu pai nunca confiara em Meisters.

—Fui ensinada a não confiar. – Disse simplesmente – Mas acabei com dois Meisters no meu castelo. Meister Emyr e um senhor chamado Qyburn, que foi expulso da Cidadela. Ainda não sei o que fazer com ele, mas não me parece justo mandar um senhor de idade ir procurar o que fazer. Então os manterei, por enquanto.

—Por que ele foi expulso?

—Por conduzir estudos não muito ortodoxos. – Disse Sansa e Daenerys concordou com um aceno. Os Lordes Nortenhos começaram a cantar a música da Donzela e do Urso e Shiera começou a aplaudir no ritmo da música – O que achou do Norte, Vossa Graça?

—Interessante. Vivo. Desconfiado. – Respondeu ela e Shiera não poderia concordar mais.

—Quando vim aqui pela primeira vez, e meu pai falou que me tinha prometido a Robb, eu quis fugir no mesmo instante. – Riu Shiera. Sentiu os olhares de Sansa e Daenerys, questionando o que tinha dito – Mas hoje, me sinto realmente em casa, aqui. Só que Harrenhal é muito diferente.

—Concordo. Mas gostei de Harrenhal. – Murmurou Sansa e Shiera riu para a menina.

—Talvez troquemos de castelos. Você irá para lá, enquanto eu permaneço aqui.

—Por que ela iria para Harrenhal? – Perguntou Daenerys – Aegon é casado com Arianne e Valerion com Myrcella.

—Valerion não vai ficar casado com ela por muito tempo. – Disse Shiera – Alguém vai acabar matando aquela bastarda. Sem falar que juraram a ele que ela era a filha legítima de Robert Baratheon. Nesses termos o casamento pode ser anulado, já que ela é uma bastarda de Cersei e Jaime Lannister. – Daenerys desviou o olhar para Howland Reed, que estava sentado ao lado da filha – Me diga, Daenerys. O que pensa de Jon?

Daenerys suspirou e mirou Vento Cinzento, que vinha pedir afagos na orelha. O afagou e então ele olhou para um bom pedaço de javali, que ainda repousava em seu prato. Ele a olhou com olhinhos pidões e Shiera acabou sorrindo. Algumas vezes não parece mais que um filhote de cachorro. Quem o olha agora nem imaginaria como é um lobo sanguinário em batalha.

—O que haveria para achar?

—Oras, ele é seu sobrinho. – Riu Shiera e Sansa a olhou surpresa. Mas a essa altura já sabia que Daenerys estava ciente do nascimento de Jon. Ela até o tinha pedido em casamento, apesar de ter recebido uma recusa. E isso lhe afagou o coração.

—Um pouco difícil de se provar isso. – Disse Daenerys.

—Na verdade... Temos o testemunho de um homem e a harpa de Rhaegar Targaryen. – Disse Sansa.

—E um documento da Cidadela legalizando o casamento de Lyanna Stark e Rhaegar. – Disse Shiera.

—Devo me sentir ameaçada? – Perguntou Daenerys e Shiera acabou até rindo, ao negar.

—Jon não quer ser rei. Ele, definitivamente, não quer o Trono de Ferro. – Disse Shiera.

—A única coisa que ele quer, é proteger os Sete Reinos da ameaça dos Caminhantes Brancos. – Disse Sansa – Ele é quem tem a maior reivindicação ao Trono, mas é o que menos tem interesse naquela cadeira. – Adicionou ela. Shiera concordou.

—Acho que ele não faz a menor ideia do que pretende fazer, caso nossa campanha contra os Outros termine em vitória. – Murmurou Shiera.

—Por que ele não quer o Trono? – Perguntou Daenerys.

—Jon é um homem simples e honrado. Ele quer cumprir com o que ele imagina ser o dever dele. Uma coroa para Jon não significa nada. Mas ele se vê como o escudo do reino. E é isso que ele será. Quando tudo acabar, provavelmente ele deve ficar confortável em se tornar um comandante, ou um lorde de algum forte entre a Muralha e Winterfell, pagando impostos para a Muralha. – Disse Sansa – Talvez ele crie uma própria casa. Não vejo Jon chamando a si mesmo de Jon Targaryen.

—Deveria. Pelo bem da casa Targaryen. – Murmurou Shiera – Se ele não o fizer, será o fim da casa.

—A menos que Daenerys tenha um filho, mesmo que bastardo, e o legalize, o nomeando Targaryen. Um rei Stark fez isso. Ele só tinha uma filha, que acabou engravidando de um homem sem muita estima. Ele nomeou o filho dela herdeiro da Casa Stark. – Explicou Sansa. Shiera deu de ombros e mirou Daenerys, que parecia infeliz.

—O que houve? – Perguntou. Ela não respondeu. Achou melhor não insistir e acabou por suspirar – Sansa, entretenha os convidados se necessário. Eu preciso resolver uns assuntos. – Disse Shiera.

Sansa concordou e Shiera se levantou. Theon a acompanhou, junto de Nym. Theon ainda era seu escudo juramentado, por mais que agora fosse mais um cargo simbólico. Ele não era mais capaz de lutar, apesar de estar conseguindo, aos poucos, usar o arco. Shiera caminhou até o quarto e pediu que os dois esperassem do lado de fora. Shiera caminhou até um baú que trouxera de Harrenhal, com alguns pertences pessoais, como vestidos, óleos perfumados, joias e...

Aquilo que viera buscar. Mirou os ovos de dragão que seu pai tinha conseguido recuperar. Tinha trago dois, deixando os outros dois em Harrenhal. O primeiro era o que o pai tinha oferecido como prêmio do Torneio de Harrenhal. Azul, com detalhes perolados. O segundo era negro, com detalhes em púrpura, descendo em espiral por todo o ovo. Achava aqueles dois muito bonitos. Os outros dois que possuíam eram mais simples. Um todo branco, com uma única listra dourada, enquanto o outro era simplesmente cor de cobre, com detalhes negros.

Shiera pegou os dois ovos, os colocou num saco de pano, e se levantou. Depois se perguntou se deveria pedir a permissão de Daenerys para o que planejava fazer. Mas não quis perder tempo. Talvez ela visse aquilo como uma ameaça e exigisse que entregasse os ovos. Talvez ela proibisse seu plano. E, sinceramente, não fazia a menor ideia se funcionaria.

Era apenas um sonho que tinha tido. Não que seus sonhos fossem apenas sonhos, na verdade. Mas não poderia deixar de tentar. Toda noite, antes de dormir, desde que descobrira sua gravidez, cantarolava para os dois ovos, com eles no colo. Apenas Robb sabia desse seu segredo e pretendia que continuasse assim.

Se levantou e saiu do seu quarto, sem dizer palavra, mas Nym e Theon a seguiram assim mesmo.

De todos os três filhos de Lorde Haegon, o que mais se afeiçoara aos ovos fora Aegon. Shiera e Valerion gostavam mais dos livros com gravuras e histórias. Para eles, aqueles ovos não passavam de pedras coloridas. Mas Aegon tinha certeza de que havia mágica neles, quando ele ainda era jovem e acreditava nessas coisas. Mas Shiera sempre os vira como eles pareciam ser. Pedras.

Até sonhar com eles, depois de regressar da Ilha das Faces com Jon. Sonhou com Robb e Jon a voar em dois dragões. Dragões das cores daqueles ovos. Só podia imaginar que Robb e Jon iriam reger o Sul e o Norte. E se isso significasse que teria que matar Daenerys em algum momento, o faria. Em algum momento Jon iria reivindicar o Trono. Era aquilo que seu sonho queria dizer.

Saiu do castelo e então rumou até os portões de Winterfell. Os soldados abriram passagem para ela, parecendo confusos, mas não a seguira,. Apenas Nym e Theon. E podia sentir a confusão deles.

—Shiera, o que está fazendo e pra onde está indo? – Perguntou Theon. Escutou um latido e logo olhou para trás. Eram Vento Cinzento e Fantasma. Eles a rodearam, curiosos, mas Fantasma logo correu na direção que ela planejava ir. Onde estavam os dragões – Shiera?

Seguiu Fantasma, com Nym e Theon, cada um, trazendo uma tocha. Era noite já e a lua cheia iluminava o céu de maneira encantadora. Engoliu em seco e viu os três dragões encararam Fantasma. O negro era, sem dúvidas, o maior dos três. O menor era o branco, mas a diferença dele para o verde e cobre era muito pouca.

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Preciso lembrar os nomes deles. Drogon, Viserion, Rhaegal.

Quando chegaram relativamente perto, Shiera parou.

—Theon, Nym. Não se aproximem mais.

—Essa é uma ideia idiota. – Disse Nym com seu jeito ríspido.

—Vamos sair daqui. – Pediu Theon.

Mas Shiera estava decidida. Fantasma farejava Rhaegal, que estava deitado. A neve ao redor dos Dragões tinha derretido e a terra negra estava à mostra embaixo deles. Avançou deixando seus escudos juramentados para trás e andou até os dragões. Drogon soltou um silvo, um rosnado, intimidador. Shiera engoliu em seco e respirou fundo, os analisando. Drogon se levantara, estufando o peito, numa postura que dizia com todas as letras que não queria que ela se aproximasse. Rhaegal a olhava com curiosidade, sem parecer se importar. Viserion se levantou e se aproximou devagar, como querendo saber o que ela queria.

Não demostrou medo, porque a verdade, é que não estava assustada. Mirou Viserion, que era o dragão que já conhecia de verdade. O afagara algumas vezes, inclusive. Ele se aproximou e sentiu que ele a farejava. Vento Cinzento se colocou numa postura defensiva e rosnou, mas Shiera o tocou na cabeça, o afagando.

—Está tudo bem, Vento Cinzento. – Disse e o lobo deu um passo à frente, como se não quisesse que Viserion se aproximasse. Mas dragões não sentem medo e Viserion simplesmente contornou Vento Cinzento com seu pescoço serpentiliano. Shiera descobriu os ovos e permitiu que o dragão branco os cheirasse. Ao fazer isso, Rhaegal se levantou. Ele também se aproximou e Fantasma veio trotando até ela também. Sentiu-se entre os dois dragões e viu que Drogon parecia irritado, movendo a cauda sem parar, como um chicote, mas os outros dois dragões pareciam curiosos com ela. Querendo ver o que ela tinha nos braços. Se abaixou, colocando os ovos no chão. Então deu um passo para trás. Rhaegal e Viserion farejaram os dois ovos e soltaram baforadas de fogo. Mas não de maneira agressiva. Mas foi quente o suficiente para que precisasse recuar ainda mais. Eles empurraram os ovos com o nariz, de leve, soprando fogo neles, de tempo em tempo. Shiera se perguntou se era assim que dragões chocavam seus ovos. Com fogo. Engoliu em seco e ficou apenas a observar. Mas logo não foi o suficiente. Respirou fundo, querendo ganhar a confiança dos dragões. Se aproximou mais um passo e esticou a mão para Rhaegal. Ele a olhou com os olhos alaranjados e virou a cabeça para ela. Mesmo que fosse menor que Drogon, ele continuava sendo enorme. Engoliu em seco e se aproximou mais um passo. Ele rosnou de leve e Vento Cinzento rosnou de volta – Meu nome é Shiera. Meu sangue descende da nobre e antiga Valíria. Sou Shiera Blackfyre e descendo dos Targaryen. – Disse com firmeza – Eu tenho sangue de dragão, também. – Adicionou. Rhaegal fez fumaça quente sair de suas narinas e Viserion silvou para ele. Espero que esteja intercedendo por mim.— Se aproximou um último passo e tocou as escamas de Rhaegal. Ele a olhava com atenção e a empurrou de leve, fechando os olhos. Ele se deitou e Shiera o afagou achando que aquele era, de longe, o momento mais mágico de toda sua vida. Sorriu para Viserion, que silvou de novo, baforando nos ovos de dragão. Notou que os panos que utilizara para esconder os ovos tinham virado menos que cinzas, mas não se importou. Ficou a afagar a crista de Rhaegal, tentando se conectar com ele. Viserion se aproximou, rodeando o irmão. Ele olhou para Theon e Nym, soltando um rugido furioso, fazendo com que os dois recuassem, assustados. Depois ele continuou andando em círculos, ao redor dela. Shiera olhou para Drogon, que ainda estudava a cena. Viserion silvou para ele e o dragão negro rosnou, se aproximando lentamente – Drogon. – Desse calmamente e Rhaegal virou a cabeça para encarar o irmão. Drogon andou até os ovos e Shiera respirou fundo. Ele baforou também e então abriu as asas, para alçar voo – Acho que ele não gosta muito de mim. – Drogon rugiu lá de cima e Viserion abriu as asas para voar também. Rhaegal pareceu bufar e voltou a deitar a cabeça, enroscando-se de leve em Shiera. Estava cercada pelo corpo e pescoço dele. Os ovos bem ao seu lado – Obrigada, Rhaegal. Foi uma honra conhecê-lo. – Disse humildemente. Rhaegal balançou as cristas e Shiera o afagou mais um pouco. Drogon rosnou lá de cima e Rhaegal silvou de volta, parecendo preguiçoso. Mas ele se levantou, se afastou, abriu as asas e voou. Shiera sorriu para ele e se voltou para os ovos. Se abaixou e os tocou de leve. Estavam fervendo – Theon! Venha aqui. Preciso da sua capa! – Disse Shiera. Theon veio, parecendo assustado.

—Você é louca, sabia disso? – Ralhou ele tirando a capa e a entregando a Shiera. Com o pano, cobriu os ovos e os enrolou – Pra que tudo isso, afinal? – Perguntou ele.

—Apenas um palpite soprado em um sonho. – Respondeu, tentando não se queimar com o calor que se desprendia dos ovos – Vamos.

—Acha que essas coisas vão eclodir? – Perguntou Nym e ela não parecia muito animada com a ideia.

—Não custa sonhar. – Disse Shiera, contente – Vamos. Vamos voltar para o castelo. Preciso guardar esses ovos.

Caminharam a passos apressados e Shiera suspirou assim que chegaram ao castelo. Estava quase a correr quando adentrou os largos e aconchegantes corredores de Winterfell. Theon e Nym a acompanhavam, ambos mirando a capa que ela levava com apreensão. Mas, uma vez dentro do castelo, Shiera precisou diminuir o ritmo. Como pesam... Cada um era como uma pedra maciça. Mas não quis que ninguém mais os carregasse. Apenas os colocou de maneira mais confortável nos braços e voltou a seguir para seu quarto. Os colocou sobre a cama e pediu que Theon e Nym se retirassem.

—Pretende outra loucura esta noite? – Ralhou Nym.

—Não. Avise Sansa que me recolhi para dormir. – Riu Shiera e Nym concordou, se retirando. Theon a olhou apreensivo, mas se retirou, fechando a porta. Shiera se deitou e suspirou retirando a capa de Theon de cima dos ovos. Os tocou, notando que ainda estavam muito quentes. Os puxou para perto de si, para que tocassem sua barriga – Como chamarei você? – Perguntou para o bebê que trazia no ventre. Já estava grávida há mais de cinco luas. Apenas mais duas, três, ou até mesmo, quatro luas e teria mais uma vez um herdeiro nos braços para oferecer a Robb. Fechou os olhos sentindo o calor dos ovos de dragão enroscar-se em seu corpo. Respirou fundo e sonhou com Winterfell. E a relva brilhava verde, tocada pelo calor de verão. Ouviu risadas e madeiras a chocarem-se um contra a outra.

“Eu sou o Cavaleiro Dragão, Aemon Targaryen!” gritou uma voz. O outro garoto gritou.

“Então seu serei Sor Barristan Selmy, o Ousado!”

O som da madeira batendo ecoava pelo ar. Shiera levantou o olhar para o Norte e procurou por Robb. Virou o rosto deixando os dois meninos brincando, quando sentiu alguém tocar seu braço. Escutou um uivo longo, se virou e viu um represeiro. Piscou, sem entender e escutou uma voz cheia de urgência. Abriu os olhos e se virou para Bran. Ele vinha com Sansa e com Daenerys.

—Shiera. Robb e Jon. Eles estão em perigo. – Disse ele e Shiera se sentou.

—O que?

**

Notas finais
Próximo capítulo está tenso! PRÉVIAS! "-Ah, não. – Resmungou Aegon, se levantando. Jon se levantou também e o vento uivou novamente, de um jeito que foi capaz de apagar o fogo das raízes, deixando apenas algumas brasas. O frio se enroscou nele como se fossem cabelos molhados." "Ao ser tocada pelo fogo do vidro de dragão, as chamas a tomaram e os outros dois mortos, que já tinham recebido muitos cortes, recuaram, assustados – Bom mesmo. – Riu Aegon e o morto correu por onde viera. Centenas de mortos abriram caminho, formando um corredor, até que ele desacelerou e caiu, ainda pegando fogo. Jon engoliu em seco, Valerion colocou o morto no ombro. Os mortos miravam a criatura que ardia. Depois olharam para eles." "-Eu vou segurá-los o máximo que der quando chegarem aqui. – Prometeu ele – Eu não estou em condição de correr. – Disse ele. Jon engoliu em seco – Vão. Corram." "-Nossas provisões estão no fim, também. – Murmurou Tormund – Apesar que somos menos bocas agora." "-Eu sou Shiera Blackfyre. Sou filha de Lorde Haegon, o último Corsário a navegar a Valíria. – Disse sem desviar o olhar do dragão – Eu morri afogada, mas voltei graças a ajuda do Deus Afogado e de Theon. Eu fui subjugada pelo traidor, que fez causa conjunta com os Lannister, Roose Bolton. Mas eu o derrotei no final. Eu sou a Rainha do Norte. Eu tenho sangue de dragão. E eu vou montar você para salvar meus irmãos. – Disse determinada." Bem, é isso! Divirtam-se! Vejo vocês nos comentários! Titia ama vocês ^^