Blackfyre
18 Meu Cavaleiro Mais Fiel
Notas iniciais

Meu Cavaleiro Mais Fiel
Seu braço ardia em brasa, enfaixado e apoiado em uma tipoia. Valerion mesmo cuidava do ferimento, como Hoster o ensinara, recusando a ajuda de Pycelle. Não confiava no homem e não deixaria que ele cuidasse de seu braço. O ferimento estava se recuperando lentamente e isso era um perigo. Tinha medo do que poderia vir a acontecer. De ser atacado durante a noite, por exemplo. Por isso sempre mantinha guardas a sua porta. Estava mais uma vez em uma reunião de conselho. Tinham recebido a notícia de que Tywin Lannister tomara Harrenhal e isso o preocupava, mas logo entendeu que seu pai simplesmente tinha estendido sua hospitalidade a ele.
Mas essa não era a única informação importante do dia.
Varys estava em pé junto ao braseiro, aquecendo suas delicadas mãos.
—Parece que Renly foi assassinado de forma muito terrível no meio de seu exército. Sua garganta foi aberta de orelha a orelha por uma lâmina que passou por aço e osso como se fossem queijo mole. – disse o eunuco.
—Assassinado pelas mãos de quem? – Cersei quis saber.
—Por acaso já pensou alguma vez que respostas demais são o mesmo que nenhuma resposta? Meus informantes nem sempre estão colocados em posições tão elevadas como se poderia desejar. Quando um rei morre, as fantasias germinam como cogumelos na escuridão. Um palafreneiro diz que Renly foi morto por um cavaleiro de sua própria Guarda Arco-Íris. Uma lavadeira afirma que Stannis se esgueirou até o coração do exército do irmão com sua espada mágica. Vários homens de armas creem que foi uma mulher quem cometeu o terrível ato, mas não conseguem concordar quanto a que mulher. Uma donzela que Renly tinha desprezado, afirma um. Uma seguidora de acampamentos trazida para agradá-lo na véspera da batalha, diz um segundo. O terceiro sugere que pode ter sido a Senhora Catelyn Stark.
A rainha não ficou contente.
—Precisa desperdiçar nosso tempo com todos os rumores que os tolos gostam de contar?
—Paga-me bem por esses rumores, minha graciosa rainha.
—Pagamos o senhor pela verdade, Lorde Varys. Lembre-se disso, caso contrário este pequeno conselho pode ficar ainda menor.
Varys soltou um risinho nervoso e Valerion suspirou, sentindo o braço latejar.
—A senhora e seu nobre irmão acabarão deixando Sua Graça sem conselho algum se continuarem assim.
—Atrevo-me a dizer que o reino pode sobreviver com alguns conselheiros a menos – interveio Mindinho com um sorriso.
—Meu muito querido Petyr – Varys rebateu. – Não está preocupado com a possibilidade de o seu nome ser o próximo na listinha da Mão?
—Antes do seu, Varys? Nunca sonharia com tal coisa.
—Talvez nos tornemos irmãos na Muralha, os dois juntos, você e eu – Varys voltou a soltar um risinho.
—Céus, calem a boca. – resmungou franzindo a testa – Eu mesmo vou diminuir o número deste conselho se as próximas palavras a sair da sua boca não forem algo de útil, eunuco – A dor minava seu humor e naquele momento estava prestes a castrar Varys novamente.
—Joff ficará tão desiludido. – riu Tyrion – Estava guardando um espigão tão agradável para a cabeça de Renly. Mas, seja quem for que cometeu o ato, temos de assumir que Stannis esteve por trás. O ganho é claramente dele – Valerion gostava daquela notícia; contara que os irmãos Baratheon se dizimariam numa batalha sangrenta. Mas preferiria assim, menos perdas.
—E a tropa de Renly? – perguntou Valerion dando um gole em seu vinho.
—A maior parte de sua infantaria permanece em Ponteamarga – Varys abandonou o braseiro para tomar seu lugar à mesa. – A maioria dos senhores que acompanharam o Lorde Renly até Ponta Tempestade passou para o lado de Stannis, com toda sua cavalaria.
—Liderados pelos Florent, aposto – disse Mindinho.
Varys dirigiu-lhe um sorriso afetado.
—Ganharia, senhor. Lorde Alester foi de fato o primeiro a dobrar o joelho. Muitos outros o seguiram.
—Isso é ruim. – resmungou Valerion pensando sobre os planos do pai.
—Muitos – Tyrion repetiu. – Mas não todos?
—Não todos – concordou o eunuco. – Nem Loras Tyrell, nem Randyll Tarly, nem Mathis Rowan. E a própria Ponta Tempestade não se rendeu. Sor Cortnay Penrose detém o castelo em nome de Renly, e não quer acreditar que seu suserano está morto. Exige ver os restos mortais antes de abrir os portões, mas parece que o cadáver de Renly desapareceu inexplicavelmente. O mais provável é que tenha sido levado. Um quinto dos cavaleiros de Renly preferiu partir com Sor Loras a dobrar o joelho perante Stannis. Dizem que o Cavaleiro das Flores enlouqueceu quando viu o corpo do rei, e matou três dos guardas de Renly em sua ira, entre eles Emmon Cuy e Robar Royce.
—Sor Loras está provavelmente a caminho de Ponteamarga – disse Valerion e Varys prosseguiu.
—A irmã, a rainha de Renly, encontra-se lá, bem como muitos soldados que de repente se viram sem rei. Que lado escolherão agora? Uma questão delicada. Muitos servem aos senhores que permaneceram em Ponta Tempestade, e esses senhores pertencem agora a Stannis.
Valerion inclinou-se para a frente:
—Há aqui uma oportunidade, parece-me. Se conquistarmos Loras Tyrell para nossa causa, Lorde Mace Tyrell e seus vassalos poderão se juntar a nós também. Podem ter jurado espadas a Stannis por ora, mas não é possível que gostem do homem, caso contrário teriam sido seus desde o início. – disse Valerion – Eu conheci Stannis. Não é o tipo de senhor que inspire o amor de seus subordinados.
—Será o amor deles por nós maior? – Cersei quis saber.
—Dificilmente – Tyrion respondeu. – Era claro que amavam Renly, mas Renly está morto. Talvez possamos lhes dar bons e suficientes motivos para preferir Joffrey a Stannis… se jogarmos depressa.
—Que tipo de motivos pretende lhes dar?
—Motivos de ouro – sugeriu Mindinho de imediato.
Varys soltou um tsc.
—Querido Petyr, certamente não está sugerindo que aqueles poderosos senhores e nobres cavaleiros podem ser comprados como galinhas no mercado?
—Tem ido aos nossos mercados nos últimos tempos, Lorde Varys? – perguntou Mindinho. – Atrevo-me a dizer que descobriria que é mais fácil comprar um senhor do que uma galinha. Os senhores cacarejam com mais orgulho do que as galinhas, naturalmente, e levam a mal se lhes oferecer moedas como a um mercador, mas raramente mostram aversão a receber presentes… honrarias, terras, castelos…
—Subornos podem trazer até nós alguns dos senhores menores – Valerion interveio –, mas nunca Jardim de Cima.
—É verdade – Mindinho admitiu. – O Cavaleiro das Flores é a chave disso. Mace Tyrell tem dois filhos mais velhos, mas Loras sempre foi seu preferido. Conquiste-o, e Jardim de Cima será seu.
Sim, Valerion concordou em pensamento.
—Parece-me que devíamos aprender uma lição com o falecido Lorde Renly. Podemos conquistar a aliança dos Tyrell como ele fez. Com um casamento. – disse Tyrion.
Varys foi o primeiro a compreender:
—Está pensando em casar Rei Joffrey com Margaery Tyrell.
—Estou. – disse Tyrion, lhe olhando com um sorriso divertido. Valerion tentou fazer-se de confuso, mas duvidou que pudesse enganar o amigo anão.
Com isso ficaria livre para cortejar minha doce Sansa...
—Joffrey está prometido a Sansa Stark – Cersei objetou.
—Contratos de casamento podem ser quebrados. Que vantagem há em casar o rei com a filha de um traidor morto?
Mindinho se interpôs:
—Pode fazer Sua Graça notar que os Tyrell são muito mais ricos do que os Stark, e que dizem que Margaery é adorável… E, além disso, pronta para se deitar.
—Sim – Tyrion concordou. – Joff deverá gostar bastante disso.
—Meu filho é novo demais para se interessar por essas coisas.
—Um garoto, ainda mais o primogênito, nunca é novo demais para se interessar por essas coisas. – rebateu Valerion com um sorrisinho.
—Devo concordar com Valerion. – riu Tyrion – Tem treze anos, Cersei. A mesma idade que eu tinha quando me casei.
—Envergonhou-nos todos com esse lamentável episódio. Joffrey é feito de material de melhor qualidade.
—Aos treze anos eu já estava roubando algumas virgindades, senhora... – riu Valerion – Aegon já tinha até um bastardo em Volantis. Homens são nojentos. – disse com um sorrisinho.
—Ninguém aqui quer ouvir sobre essas coisas. – ralhou a rainha.
—Só queria provar um ponto. – riu Valerion, dando de ombros, mas isso o fez rosnar de dor.
—Não acha sensato deixar que Pycelle olhe seu braço, rapaz? – perguntou Varys.
—Agradeço que te preocupes comigo, Lorde Varys, mas eu estou bem. – disse calmamente.
—Sem dúvida Cersei conhece seu filho melhor do que qualquer um de nós. – Tyrion disse, retomando o assunto – Mas, seja como for, há muitos argumentos a favor de um casamento com os Tyrell. Pode ser a única maneira de Joffrey viver tempo suficiente para chegar à noite de núpcias.
Mindinho concordou:
—A garota Stark não traz a Joffrey nada a não ser o corpo, por mais agradável que possa ser. Margaery Tyrell traz cinquenta mil espadas e todo o poderio de Jardim de Cima.
—É verdade – Varys apoiou sua mão macia na manga da rainha. – Tem um coração de mãe, e sei que Sua Graça ama sua queridinha. Mas os reis precisam aprender a pôr as necessidades do reino à frente de seus desejos. Afirmo que essa proposta tem de ser feita.
A rainha afastou-se do toque do eunuco.
—Não falariam assim se fossem mulheres. Digam o que quiserem, senhores, mas Joffrey é demasiado orgulhoso para se contentar com as sobras de Renly. Ele nunca consentirá.
—Ele já colocou os olhos sobre a mocinha Tyrell? – perguntou Valerion – E de todo modo... se o que se diz por aí é verdade... talvez Renly nem tenha chegado a saborear sua esposa. Talvez Joffrey a tenha intacta, ainda.
Tyrion encolheu os ombros:
—Quando o rei chegar à idade adulta, dentro de três anos, pode dar ou retirar seu consentimento ao que bem entender. Até lá, você é sua regente e eu, a sua Mão, e ele se casará com quem quer que lhe dissermos para casar. Seja uma sobra ou não.
A aljava de Cersei estava vazia.
—Façam então sua proposta. Mas que os deuses os salvem se Joffrey não gostar dessa moça.
—Estou tão contente por concordarmos – Tyrion fez-se de feliz. – E agora, qual de nós irá a Ponteamarga? Temos de chegar com a proposta a Sor Loras antes que seu sangue arrefeça.
—Pretende mandar um membro do conselho? – perguntou Valerion, sem desejar deixar Porto Real. Estava quase em tempo da colheita e queria estar presente quando chegasse a hora.
—Não tenho grande esperança de que o Cavaleiro das Flores lide com Bronn ou Shagga, não é? Os Tyrell são orgulhosos.
A rainha não perdeu tempo para tentar virar a situação em seu proveito.
—Sor Jacelyn Bywater é de nascimento nobre. Envie-o. – disse ela querendo se livrar de um dos homens de confiança de Tyrion, um dos homens mais importantes da Patrulha da Cidade.
Tyrion balançou a cabeça:
—Precisamos de alguém que possa fazer algo mais do que repetir nossas palavras e trazer de volta uma resposta. Nosso enviado deve falar pelo rei e pelo conselho, e acertar o assunto rapidamente.
—A Mão fala com a voz do rei – a luz das velas brilhava verde como fogovivo nos olhos de Cersei. – Se o enviarmos, Tyrion, seria como se Joffrey fosse em pessoa. E quem poderia ser mais adequado? Brande palavras com tanta habilidade como Jaime brande a espada.
—Não acho sensato que a Mão do Rei saia da cidade. – disse Valerion – E nem mesmo a rainha. – adicionou olhando para Tyrion, que já estava abrindo a boca – Estamos em guerra e qualquer um dos dois seriam alvos tentadores demais... Eu acho que não há ninguém melhor que Lorde Baelish. – disse calmamente, massageando ao redor da ferida, sentindo a musculatura dolorida.
—Vossa Graça, senhor Mão – Mindinho entrou na conversa. – Acredito que Sor Valerion tenha razão. O rei precisa de ambos aqui. Deixem-me ir.
—Você? – perguntou Tyrion.
—Pertenço ao conselho do rei, mas não sou de seu sangue, portanto, seria um refém ruim. Conheci Sor Loras razoavelmente bem quando esteve aqui na corte, e não lhe dei motivo para não se simpatizar comigo. Mace Tyrell não tem inimizade por mim, que eu saiba, e gabo-me de possuir certa habilidade para negociação.
—Luta-se entre Porto Real e Ponteamarga – Valerion disse cautelosamente. – E pode ter absoluta certeza de que Lorde Stannis enviará seus próprios pastores a fim de reunir os cordeiros transviados do irmão.
—Nunca me assustei com pastores. São as ovelhas que me perturbam. Mesmo assim, suponho que uma escolta talvez seja necessária.
—Posso dispensar uma centena de mantos dourados – Tyrion concordou.
—Quinhentos.
—Trezentos.
—E mais quarenta… Vinte cavaleiros com a mesma quantidade de escudeiros. Se chegar sem comitiva de cavaleiros, os Tyrell vão me julgar pouco importante.
—Lorde Baelish não mente, senhor. – disse Valerion e Tyrion suspirou vencido.
—De acordo. – resmungou ele – Incluirei no grupo Babeiro e Horror, e vou mandá-los depois ao senhor seu pai. Um gesto de boa vontade. Precisamos de Paxter Redwyne, ele é o mais velho amigo de Mace Tyrell, e um grande poder por si só.
—E um traidor – rebateu a rainha, contrariada. – A Árvore teria se declarado por Renly como todos os outros se esse Redwyne não soubesse perfeitamente que seus filhos sofreriam por isso.
—Renly está morto, Vossa Graça – ressaltou Mindinho. – E nem Stannis nem Lorde Paxter terão esquecido como as galés Redwyne fecharam o mar durante o cerco a Ponta Tempestade. Devolva seus gêmeos, e talvez possamos ganhar a amizade dos Redwyne.
Cersei não ficou convencida:
—Os Outros podem ficar com a sua amizade, só quero as espadas e velas. Agarrar-nos bem a esses gêmeos é a melhor forma de termos certeza de que as obteremos.
Tyrion tinha resposta para aquilo:
—Então enviemos Sor Hobber para a Árvore, e fiquemos com Sor Horas aqui. Lorde Paxter deverá ser suficientemente inteligente para desvendar o significado que isso tem, creio eu.
A sugestão foi aceita sem protestos, mas Mindinho não tinha terminado:
—Vamos precisar de cavalos. Rápidos e fortes. A luta tornará difícil a troca de montarias. Um amplo fornecimento de ouro também será necessário, para aqueles presentes de que falamos antes.
—Leve tanto quanto necessário. De qualquer forma, se a cidade cair, Stannis vai roubar tudo. – resmungou Cersei.
—Vou querer a minha incumbência por escrito. Um documento que não deixe qualquer dúvida a Mace Tyrell quanto à minha autoridade, dando-me plenos poderes para negociar com ele aquilo que diz respeito a esse casamento e a quaisquer outras disposições que possam ser necessárias, e para dar garantias seguras em nome do rei. Deverá ser assinado por Joffrey e por todos os membros deste conselho, e deverá levar todos os nossos selos.
Tyrion moveu-se desconfortavelmente na cadeira:
—De acordo. É tudo? Lembro-lhe de que a estrada daqui a Ponteamarga é longa.
—Estarei cavalgando por ela antes do romper da aurora – Mindinho levantou-se – Confio que, no meu retorno, o rei tratará de me recompensar adequadamente pelos valentes esforços despendidos em prol de sua causa?
Varys soltou um risinho.
—Joffrey é um soberano tão cheio de gratidão que estou certo de que não terá do que reclamar, meu bom e bravo senhor.
A rainha era mais direta.
—O que quer, Petyr?
Mindinho olhou de relance para Tyrion com um sorriso astuto.
—Terei de pensar sobre o assunto durante algum tempo. Não tenho dúvidas de que pensarei em algo – esboçou uma reverência petulante e retirou-se de uma forma tão casual como se estivesse se dirigindo a um de seus bordéis.
Valerion olhou de relance pela janela. O nevoeiro era tão denso que sequer conseguia ver a muralha exterior do outro lado do pátio. Algumas luzes tênues brilhavam, indistintas, através de todo aquele cinza. Um dia desagradável para viajar, pensou. Não invejava Petyr Baelish.
—É melhor que tratemos de providenciar esses documentos. Lorde Varys, mande buscar pergaminho e penas. E alguém terá de acordar Joffrey. – disse Tyrion.
Ainda estava cinzento e escuro quando a reunião finalmente chegou ao fim. Varys debandou sozinho, com os chinelos moles apressando-se pelo chão afora. Os Lannister demoraram-se um momento junto à porta.
—Como anda sua corrente, irmão? – perguntou a rainha, enquanto Sor Preston prendia aos seus ombros um manto de pano de prata forrado de penas.
—Elo a elo, vai crescendo. Deveríamos agradecer aos deuses por Sor Cortnay Penrose ser tão teimoso como é. Stannis nunca marchará para o norte deixando Ponta Tempestade sem ter sua retaguarda tomada. – Valerion não prestava muita atenção. Tinha sobrado ali, enquanto cutucava a carne ao redor da ferida em seu braço, achando a dor irritante e ao mesmo tempo prazerosa.
—Tyrion, sei que nem sempre concordamos quanto aos planos de ação, mas parece que me enganei a seu respeito. Não é um tolo tão grande como imaginava. Na verdade, percebo agora que tem sido uma grande ajuda. Por isso agradeço-lhe. Tem de me perdoar se falei de forma desagradável com você no passado. – Valerion piscou, se perguntando se escutara mesmo aquilo.
—Ah, tenho? – Tyrion dirigiu um encolher de ombros, e um sorriso à irmã. – Querida irmã, você não disse nada que precise de perdão.
—Refere-se a hoje?
Ambos riram… e Cersei inclinou-se e plantou um beijo rápido e suave na testa do irmão. Espantado demais para falar, Valerion só conseguiu vê-la sair da sala a passos largos, com Sor Preston ao seu lado.
—Perdi o juízo, ou minha irmã acabou de me dar um beijo? – Tyrion perguntou a ele depois de ela sair.
—Acho que estou alucinando... Foi bom?
—Foi… inesperado – Cersei andava se comportando estranhamente nos últimos tempos. Valerion achava esse fato muito perturbador. – Estou tentando me lembrar da última vez que me beijou.
—A mulher reparou finalmente nos seus encantos. – riu o rapaz.
—Não – Tyrion discordou. – Não, a mulher está tramando alguma. É melhor descobrir o que, Valerion. Sabe que detesto surpresas. – ele suspirou – Como está seu braço?
—Melhorando.
—Espero que esteja perfeito antes que Stannis chegue.
Fez uma careta.
—É... eu também.
**
Já estavam em Qarth há duas semanas. Durante o dia vigiava Daenerys, como sempre, mantendo os curiosos há uma distância segura, mas durante a noite ia curtir a cidade. Conheceu o porto, os bordeis, as tavernas... ganhou ouro ganhando lutas de pugilismo. Com esse ouro comprou algumas roupas para si, além de pagar um mensageiro que voltaria para Westeros em menos de um mês. Escreveu para o pai, falando tudo de importante que acontecera.
Pela manhã, bem cedo, treinava os poucos Dothrakis que já estavam em idade para lutar. O povo de Dany já estava forte o suficiente, o que permitiu o treinamento.
Quando Dany se arrumou para implorar ajuda dos Treze de Qarth, achou que saltaria em cima dela. Ela usava um vestido qarteno, que deixava um seio se fora. Um lindo e perfeito seio... naquela noite possuiu Doreah com tanta vontade que os gritos dela acordaram as outras aias da rainha.
Aquilo o irritava, certamente. Não queria Doreah, queria a rainha, mas ela estava completamente fora de seu alcance.
**
Suas roupas ficavam apertadas a cada dia que passava. Já não era mais possível usar o espartilho por baixo do vestido, já que machucava sua barriga. A gravidez agora era óbvia a quem quer que a olhasse. A cada dia que passava, sentia medo do momento em que Robb pediria que voltasse para casa. A cada dia achava que ele juntava forças para isso. Mas nunca era o suficiente. Via os olhares de seu marido para seu ventre inchado, cheios de medo, orgulho, carinho e preocupação. Sabia que não poderia esperar para sempre...
Porém, quase um mês depois de tomarem Lannisporto, o mar lhes trouxe uma surpresa. Theon Greyjoy. Ele tinha o rosto ferido, um corte na testa. Seu sorriso estava mais fraco do que se lembrava.
—Eu sinto muito, Robb. – murmurou ele, cabisbaixo – Eu fiz de tudo para convencer meu pai... mas ele não vai se unir a nós... – Theon suspirou – Pelo contrário. Ele vai nos atacar. Precisamos voltar a Winterfell...
—Você voltou, Theon. – disse Shiera com um sorriso feliz, pousando a mão em seu ventre – Eu fico muito feliz.
—Você tinha razão. – murmurou Theon, cabisbaixo – Tudo o que você me disse... tudo...
Shiera suspirou e o beijou na testa.
—Fico feliz que tenha nos escolhido. – disse feliz.
—Robb é meu rei e você é minha rainha. – Theon jurou.
E daquele dia em diante, Theon Greyjoy se tornou seu cavaleiro mais leal.
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