Blackfyre
19 Espadas e Sangue
Notas iniciais
Espadas e Sangue
Valerion estava no porto. Uma grande mesa de carvalho estava a sua frente e ele estava cercado de guardas Blackfyre e Lannisters, além de uma parte da patrulha da cidade. Hoster ainda não tinha voltado do mar, mas muitos outros tinham. Já não tinha mais como vender artigos de luxo como antes. Ninguém daria um veado de prata que fosse pela manta mais bela vinda Myr. Mas muitos pagariam caro por um pedaço de pão fresco.
Havia muita comida em seus barcos. Era o que negociava agora. Comprara muitas ovelhas de Essos e as estava criando dentro do palácio, com o rebanho do castelo, conseguindo assim queijo e leite. Frutas secas ele trazia de Essos, além de algumas maduras, prontas para sujar o queixo de quem as mordesse com sumo. Carne, em sua maioria, era de peixes. Seus navios pescavam e vendiam tudo em um dia. Algumas pessoas pagavam com moedas de cobre, ou até mesmo com veados de prata. Outros trocavam comida por roupas finas, joias, pequenos tesouros de família. Mas alguns não tinham nada além de lágrimas. Essas eram as pessoas que ele mais gostava, pois trocava comida por informações úteis. Quanto mais útil a informação, mais comida valia. Mas se descobrisse que haviam mentido, seus homens iam na casa da pessoa e confiscavam tudo o que pudessem. Em uma semana, as pessoas lhe contavam as verdades mais cabeludas.
Mas o mais importante era a imagem que estava passando. De bom homem que tentava ajudar a população. Sempre que andava a cavalo pela cidade, as pessoas sorriam e lhe lançavam bênçãos. Outros lhe desejavam vida longa e saúde. Outros aplaudiam e vibravam. Todos o conheciam como o gentil Pequeno Dragão. Outros falavam que ele era Rhaegar reencarnado. Gostava daquilo. Alguns camponeses pediam que ele permitisse que trabalhassem em seus navios. Normalmente permitia, pois sua frota aumentava, mas seu pessoal não. Outros ficavam a sua disposição e ele os usava para espalhar ideias. E a principal agora era:
—A boa Mão do Rei espera que isso alimente sua família. – disse autorizando que Tytos Rivers, um de seus subordinados de Harrenhal, entregasse um punhado de pão, leite e queijo a um pai de família, tão magro, que podia-se enxergar perfeitamente o desenho de seu crânio sob a pele repuxada. Estava entregando apenas algumas migalhas, mas era mais do que a maioria das pessoas tinham acesso.
—Que os Sete o iluminem, Sor Valerion. – disse o homem, emocionado, pegando as coisas que Valerion lhe dava. Havia uma imensa fila, esperando pela oportunidade de comprar o que quer que fosse. Aquele homem, que se chamava Duncan, tinha pago com um punhal velho, mas de bom aço. Normalmente não seria o suficiente, mas ele parecia ter quatro meninas e um menino para alimentar e a lealdade dele seria valor o suficiente por aquela quantidade tão pequena de comida.
—Eu apenas sirvo a Mão do Rei, de bom grado, senhor. – disse Valerion, sorridente. O homem entregou um pedaço do pequeno pão para o filho, que chorava repuxando suas roupas esfarrapadas. O menino não devia ter mais de três anos.
—Que os Sete iluminem o Meio Homem, então. – disse Duncan se afastando com os filhos. O próximo da fila se aproximou. Uma mulher, com um bebê de colo.
—Bom dia, senhora. – disse Valerion a olhando com interesse.
—Por favor, senhor... – chorou a mulher – Não tenho comida e meu leite vai secar a qualquer momento. Meu filho vai morrer de fome. Meu marido foi assassinado há duas semanas. Eu não sei o que fazer. – disse ela com visível desespero.
—O que tem para pagar a comida? – perguntou calmamente. A mulher caiu em prantos.
—Meu senhor. Não tenho nada. Uns homens invadiram a minha casa, estou dormindo na rua. Só tenho a roupa de corpo, nada mais.
Valerion suspirou, fazendo-se de tocado por aquilo. No início foi difícil não ficar emocionado com aquela realidade tão diferente da que vivia, mas com o tempo aprendeu a não se envolver demais com os dramas dos pobres.
—Sabe como funciona, senhora. – disse ele com fingido pesar – Se eu ficar de caridade, apenas, não poderei manter meus homens e nem poderei manter o pouco sustento que faço aqui. Já não há comida para todos. Se não recolher o mínimo para manter meus navios, não teremos comida alguma.
—Por favor, meu senhor. Eu lhe imploro. Eu lhe suplico. Pela graça dos Sete, pela misericórdia da Mãe, pela justiça do Pai, me dê algo de comer, para que eu possa criar o meu filho. – chorou a mulher ninando o bebê, que nem mesmo chorava. Valerion franziu o cenho e se levantou, dando a volta em sua mesa. Foi até a mulher e estendeu a mão para o mirrado bebê. Magro demais para um bebê – Ele tem fome, meu senhor. Vai morrer. Meu leite está quase no fim... por favor, misericórdia.
Valerion suspirou e pegou o bebê no colo.
—É um menino ou menina? – perguntou procurando sinais de enfermidade na criança, mas o pequeno embrulhinho parecia apenas subnutrido.
—É um menino. Ele se chama Gael, senhor. – chorou a mulher. Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Você sabe cozinhar bem, minha senhora? – perguntou para ela.
—Sim, meu senhor. E costuro. Meu marido, quando vivo, fazia consertos em roupas. Eu o ajudava.
Valerion concordou e devolveu a criança.
—Posso te ajudar se tiver garantias de seu serviço. – disse a olhando com atenção. Era uma mulher magra, com os cabelos cor de palha, muito sujos e desgrenhados. Faltavam uns dentes em sua boca e os que sobraram estavam amarelos. Além disso tinha tantas sardas no rosto bronzeado, que sua pele ficara muito manchada. Era uma mulher muito feia, mas podia lhe ser útil assim mesmo.
—Eu juro, meu senhor. Farei o que me pedir. Eu juro. – disse ela com os olhos brilhando, cheios de esperanças.
—Tytos, precisamos de alguém que saiba costurar, para as velas, não precisamos? – perguntou Valerion.
—Senhor, dá azar colocar uma mulher nos navios. – resmungou Tytos.
—Mais azar ainda teremos se utilizarmos velas rasgadas. – discordou Valerion – Dê a ela leite de cabra, pão e mel. – adicionou – Depois leve-a para o navio e a coloque para remendar todos os furos de nossas velas. A Mão do Rei fica feliz em ajudar.
Tytos torceu o nariz e a mulher chorou de alívio, lhe despejando bênçãos, entre os soluços. Voltou a se sentar e olhou para o próximo da fila. Um garoto que não deveria ter mais de oito anos.
—Que os Sete guardem o senhor. – disse o menino. Valerion sorriu para o rapaz e o olhou com atenção – Eu quero comida. – adicionou ele lhe estendendo um papel – Para mim e para minha mãe, que está doente.
—Vejamos. – Valerion pegou o papel e leu seu conteúdo. Uma letra muito feia e tremida, de uma mão que não tivera muito treino na escrita. Haviam erros de caligrafia, mas era possível compreender bem a mensagem. A rainha descobrira sobre as idas de Tyrion para o bordel e instruíra a alguns homens que o seguissem, para descobrir com quem o anão estava se deitando. No papel havia até mesmo o nome dos soldados que iriam seguir Tyrion. Valerion sorriu para o garoto e piscou para ele – Você escreveu isso? – perguntou.
—Sim. – respondeu ele, com confiança.
—Deixe-me ver suas mãos. – pediu gentilmente e o garoto franziu o cenho, apesar de obedecer. Era um garoto de cabelos negros, olhos negros, com a pele queimada pelo sol. Suas roupas eram muito simples, mas ele não era magrelo como a maioria das crianças. Ele era magro, mas parecia mais ser uma característica própria do que algo adquirido pela fome – Curioso... não vejo penas... sempre achei que os passarinhos de Varys teriam penas. – riu Valerion e o garoto o olhou com indiferença, porém, notou que ele respirara fundo, como que tentando manter a calma – Peça que seu mestre te alimente. Volte para a gaiola, passarinho.
O menino baixou os olhos e se virou, enfadado. Sorriu e olhou para o próximo da fila. Uma menina loira, esfarrapada, com um olho muito inchado, indicando que levara um murro. Ela trazia pela mão um velho enrugado e feio, com os olhos brancos pela cegueira.
—Chegamos, vovô. – murmurou ela.
—Que os Sete te guardem, Pequeno Dragão. – disse o velho, com a voz tremida – Eu tenho aqui... – ele levou a mão para um colar que tinha no pescoço. Uma corrente de ferro, com um pingente de prata em forma de dragão – Algo que adquiri quando era jovem... Quando servi ao lado de Tywin Lannister e Aerys Targaryen. Um presente do príncipe, quando ainda era um homem bom e são. – adicionou ele, trêmulo. Valerion arqueou as sobrancelhas, curioso e o velho lhe entregou o belo colar de aço e prata. Os detalhes do dragão de três cabeças eram bonitos e bem feitos, mostrando que tinha sido confeccionado por mãos habilidosas. No lugar do olho, havia um buraco, que parecia um dia ter sido preenchido por alguma pedra preciosa, que, ou caíra com o tempo, ou fora arrancada por algum motivo qualquer. Valerion pegou o colar e sorriu interessado – Isso é o que eu tenho de mais valioso, consegui manter esse presente até mesmo quando Tywin Lannister saqueou Porto Real. Mas não vou poder levar isso comigo quando morrer e meus netos precisam de comida. É tudo o que temos...
—Por favor, senhor. – murmurou a menina e Valerion concordou.
—Dê três porções completas para ele, Tytos. – disse Valerion – E uma roupa quente para ele e para menina. Nada muito sofisticado, porém, confortável. – disse guardando o medalhão em sua bolsa particular. Aquilo ficaria para ele.
—Tudo isso? – perguntou Tytos enquanto o velho parecia aliviado e a menina, chocada.
—Apenas isso. – discordou ele – Quantos netos tem, senhor? – perguntou Valerion.
—Não sou nenhum senhor, meu senhor. – murmurou o homem com o rosto cansado – E tenho mais um rapaz, que está mendigando do outro lado da cidade...
—Ou roubando, mais provavelmente. – ralhou Tytos.
—Isso não nos diz respeito. Roubando ou mendigando, ele é problema da Patrulha da Cidade, dos Mantos Dourados. – riu Valerion – Sua neta é muito bonita. Quantos anos tem?
—Tenho sete. – respondeu ela.
—E quem machucou seu rosto? – perguntou amavelmente.
—Meu irmão. Ele estava bêbado. – respondeu ela – Foi um acidente, senhor. Não fez por mal. – adicionou ela e Valerion notou que ela tinha o olhar esquivo. Mentindo para acobertar o irmão.
—Entendo. – Valerion pegou um pergaminho, pena e tinta – Quantos anos tem seu irmão?
—Dezesseis, senhor. – respondeu a menina. – Por que?
—Precisamos de rapazes fortes para os navios. – disse ele escrevendo uma autorização para trabalhar nos navios – Ele receberá por isso... o suficiente para manter vocês longe dos punhos dele. – disse calmamente e os dois sorriram – Tytos, arrume alguém para levar esses dois para a casa. – pegou outra carta e escreveu que o portador dela teria direito a um refeição completa. Depois escreveu outra igual – Aqui. Levarão uma porção de comida. Quando acabar, venham aqui e mostrem isso para os guardas, que lhe entregarão as outras porções. Nesses dias de hoje não convém andar com coisas demais. Ainda mais uma menininha e um velho cego.
—Que os Sete o abençoem, senhor. – disse o velho e Valerion sorriu – Você e a Mão do Rei, que é tão generoso conosco nesses tempos difíceis. – adicionou ele – Dizem que ele é um tipo de demônio, por ser torto e anão, mas eu acho que ele é uma bênção, assim como o senhor.
—Eu e a Mão do Rei apenas queremos o melhor para a cidade. – garantiu Valerion. O velho fez uma mesura e saiu, guiado pela neta, deixando Valerion esperando o próximo. Notou alguma comoção ali perto, mas imaginou que era apenas alguma pequena confusão causada pela angústia e fome. Olhou para o homem que se aproximava, com dois meninos.
—Que os Sete iluminem seu caminho, meu senhor. – desejou o homem e Valerion sorriu calmamente.
—Como posso ajudá-lo?
O homem colocou um manto cinzento e imundo em cima da mesa e o desenrolou, mostrando algumas ferraduras, pregos, hastes de ferro e uma corrente.
—Fiquei sabendo que a Mão do Rei mandou que todos os ferreiros da cidade fizessem correntes. Eu tenho um pouco de ferro e quero trocar por comida. – explicou o homem. Valerion sorriu ao ver aquilo. Ferro era algo raro naqueles dias. Principalmente ferraduras. Pegou uma delas e viu que não estavam gastas. Provavelmente nunca nem mesmo tinham sido usadas. Sorriu com cumplicidade para o homem.
—Isso é roubado. – disse calmamente e o homem respirou fundo, com óbvio medo. Um dos filhos dele corou violentamente e baixou os olhos. Valerion deu uma risada e chamou o garoto com um aceno de mão – Se aproxime, Mãos-Leves. – o garoto obedeceu, apesar de não ter coragem de encará-lo – Não roube de novo, por mais difícil que as coisas estejam. Os homens de Manto Dourado não hesitarão em quebrar as suas duas mãos, ouviu? E sem as duas mãos, como poderá ajudar sua família a conseguir mais comida?
—A culpa é do rei que fica gastando tempo com coisas imbecis! – ralhou o irmão dele. O mais velho. Deveria ter seus nove ou dez anos. Valerion sorriu divertido, mas um guarda Lannister se aproximou com a espada desembainhada.
—Onde pensa que vai, sor? – perguntou Valerion.
—Ele insultou o rei. – ralhou o guarda Lannister.
—O rei Joffrey é um cretino, sem cérebro, comedor de bosta. – disse com um sorriso insolente – Vai me atacar com a sua espada? – perguntou Valerion e o rapaz mais velho riu, enquanto o pai e o menino mais novo o olharam horrorizados. Seus guardas levaram as mãos para a espada e o homem Lannister recuou.
—Não pode falar assim do rei.
—Eu falo assim e você não vai machucar esse menino. Sua missão é me proteger. – ralhou Valerion. Depois se virou para os dois meninos. Seu braço latejava de dor onde Joffrey lhe atingira com a seta – Mas não convém falar certas coisas em qualquer lugar. Seja esperto, rapaz. – riu Valerion e o garoto mais velho corou de leve – Você tem bons meninos e essa quantidade de ferro vai garantir quatro porções de comida. Pão, leite e mel. Vou acrescentar dois peixes também. – disse escrevendo a autorização num pergaminho – Você é um homem forte, assim como seus filhos. Estou precisando de homens fortes para ajudar na colheita que se aproxima. Teremos bastante trigo para colher.
—Seria uma honra poder ajudar. – disse o homem com felicidade – O senhor é um bom homem. Um presente dos deuses para nós. – disse ele e Valerion sorriu.
—Espere um momento. – disse olhando para o garoto mais velho – Qual o seu nome, rapaz?
—Bry, senhor. – respondeu ele.
—O que acharia de trabalhar pra mim, garoto? – perguntou com um sorriso divertido. O menino o olhou com olhos grandes como pires – Não na colheita, mas diretamente pra mim.
—Seria uma honra! – disse ele – Quando eu começo?
—Em breve. Venha com seu pai no dia da colheita e acertaremos os detalhes. – disse com um sorrisinho.
—Você é bom demais, senhor. – disse o pai dos garotos o olhando com profunda gratidão.
—Eu e a Mão do Rei só desejamos o bem para a nossa cidade e esperamos que isso mantenha sua família alimentada. – disse erguendo o pergaminho para o homem. A família se afastou e Valerion estava para chamar o próximo quando uma carruagem se aproximou, com uma enorme escolta de soldados Lannisters. Por um momento achou que era Tyrion, mas era Myrcella. Ficou de pé imediatamente e seus homens impediram que um casal se aproximasse. A mulher segurou a enorme barriga inchada pela gestação parecendo terrivelmente cansada. Valerion suspirou e pegou a própria cadeira, levando-a até a mulher – Sente-se aqui. Eu volto num instante.
—Vossa Graça, eu não ousaria... – começou mulher, se atrapalhando com os títulos. Valerion sorriu para ela de maneira gentil.
—Eu não sou da família real, então não sou Vossa Graça, senhora. Me chame apenas de senhor ou de Valerion mesmo. E por favor, sente-se. Já ficou de pé o suficiente. Eu já volto... – disse se afastando para ir até a princesa. A multidão lhe lançou olhares de surpresa e admiração, enquanto alguns gritavam seu nome. Sorriu, acenando para eles e correu até Myrcella, que o esperava com um sorriso gentil – Vossa Graça? O que te traz a esse porto imundo? – perguntou curioso, com o mesmo sorriso gentil de antes.
Myrcella olhou para a multidão e sorriu timidamente.
—Você é muito amado, Sor Valerion. – disse ela – E é tão galante e cortês. – suspirou ela. Valerion sorriu e fez uma mesura, em agradecimento aos elogios – Desculpe atrapalhar você.
—Você jamais me atrapalharia. – mentiu para ela, com o mesmo sorriso.
—Eu só queria te ver. Parece que quase não nos vemos. – ela suspirou e colocou a mão sobre seu braço, o que estava enfaixado e apoiado numa tipoia – Joffrey fez algo horrível. Quando minha mãe me contou, eu chorei – confidenciou ela.
—Se Joffrey tivesse um décimo de sua doçura, princesa, ele seria uma pessoa muito melhor. – disse calmamente e Myrcella concordou.
—Joffrey é um pesadelo. – concordou ela – Poderia me levar para um de seus barcos? Gostaria tanto de conhecê-los. – suspirou ela. Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Certo. Espere só um minuto, ok? – perguntou ele se afastando – Deixa eu colocar alguém ali para... – mas não terminou e correu até Tytos – Tytos, você continua fazendo isso no meu lugar um instante. Peça a aqueles que têm segredos ou favores para oferecer, que passem a vez para quem puder pagar com algo mais palpável. Quando eu terminar de lidar com a princesa, eu os atenderei.
—Sim, senhor. – respondeu Tytos.
Depois voltou quase correndo até Myrcella, que sorriu achando graça.
—Vamos, princesa, por favor. Me acompanhe. – disse ele. Myrcella abraçou seu braço e os dois andaram até o navio mais elegante que tinha. Havia um dragão de três cabeças talhado na proa do navio, pintado de negro. O navio era feito de uma madeira mais escura e suas velas eram vermelhas como sangue – Esse é meu navio favorito. O conseguimos numa viagem até Braavos. Fomos atacados, mas conseguimos vencer os piratas e confiscamos o navio deles. Vê o dragão? – perguntou ele e Myrcella concordou com um sorriso doce – Era uma hidra, mas eu mandei talharem novamente para parecer três cabeças de dragão.
—Foi feito um trabalho maravilhoso, senhor. – disse ela e Valerion sorriu – Me diga, Valerion. Por que está gastando tanto esforço para manter os pobres alimentados? – perguntou ela.
—Porque existe duzentos pobres para cada um de nós da corte e patrulhas de mantos dourados, minha senhora. – riu Valerion – Não queremos que as pessoas se revoltem e causem mais problemas. Ninguém pode conter uma multidão faminta. – explicou ele e Myrcella suspirou.
—Você é tão inteligente e tão bondoso. – disse ela sonhadoramente. Valerion sorriu para ela.
—E Vossa Graça é muito gentil. – disse galante. Myrcella suspirou, colocando os cabelos atrás da orelha.
—Meu avô enviou-nos uma carta... eu serei enviada a Harrenhal. – disse ela e Valerion a olhou com curiosidade – E você será enviado de volta, também.
—Como? – perguntou chocado – Mas... mas eu sou um membro do Conselho. – disse franzindo a testa e Myrcella o olhou sem jeito.
—Parece que seu pai quer que você volte. – disse ela e Valerion seguiu de cenho fechado – Mas isso poderá ser bom. Ficaremos juntos em Harrenhal... e um dia eu serei sua esposa. Nosso compromisso foi firmado. – sorriu ela parecendo animada e Valerion sorriu como se nada no mundo o fizesse mais feliz – Sou oficialmente sua prometida. Vamos nos casar assim que eu tiver idade para isso!
—Isso é ótimo. – disse, mas então suspirou – Mas eu não vou voltar a Harrenhal agora. – adicionou e Myrcella o olhou confusa – Eu preciso ajudar seu tio. Sem falar que a colheita está próxima. Tenho muitas coisas para resolver. – segurou as mãos dela, notando alguma decepção em seu lindo rosto infantil – Mas eu juro que assim que a guerra acabar e tudo estiver em ordem, irei para Harrenhal. E quando tivermos idade, casaremos.
—Você gosta mais Sansa do que de mim, não é? – perguntou Myrcella tristemente e Valerion precisou de muito esforço para não permitir que seu rosto o traísse.
—Tenho pena da pobre menina. Apenas isso. – disse ele.
—Se colocou entre ela e Joffrey. Lutou contra os membros da Guarda Real, para defendê-la. Desafiou Joffrey por ela! – disse Myrcella. Valerion sorriu para a garota.
—Que tipo de homem eu seria se concordasse com aquilo que seu irmão ordenou? – perguntou ele – Que tipo de marido acha que eu seria se batesse palmas para o que Joffrey queria fazer com a própria noiva? – perguntou docemente, mas a menina baixou os olhos, parecendo levemente decepcionada. Valerion suspirou sabendo que deveria manter-se nas boas graças da princesa, então segurou o queixo dela com delicadeza e a fez olhar para ele. Sorriu o mais galantemente que era capaz e suspirou – Minha amada princesa. Não pense que não a tenho em alta estima. Meus sentimentos são sinceros e meu coração é apenas seu. Minha mente só tem espaço para seus olhos verdes e seus cabelos lambidos pelo sol. Não há donzela, além de Vossa Graça, que me roube o sono. Mas eu tenho um dever com o reino. – suspirou e se aproximou levemente, gostando de vê-la suspirar, com as maçãs do rosto ficando muito coradas – Deixe-me explicar. Meu pai não tem saúde para ocupar esse cargo, no Pequeno Conselho. Não quero que ele deixe a segurança de Harrenhal, pois está doente, entende? Mas devo tomar muito cuidado com essa informação, pois não podem saber da fragilidade de sua saúde. Nem mesmo a rainha, entende? Pode guardar esse meu segredo, minha princesa? – Myrcella parecia prestes a explodir e nem mesmo foi capaz de falar, devido a sua proximidade, seu rosto estava audaciosamente próximo do dela. Porém, ela concordou com um aceno de cabeça – Lhe sou muito grato, confio plenamente que não trairá minha confiança, minha princesa.
—Não contarei a ninguém, eu juro. – murmurou ela com a voz sussurrada. Valerion sorriu e suspirou, finalmente dando um beijo nos lábios virgens de Myrcella. Ela ficou tensa e em seguida pareceu derreter, mas antes que ela pudesse tentar aprofundar o momento, ele se afastou.
—Perdoe-me, princesa. – disse fingindo-se de constrangido – Isso não foi educado. Mas é que quando olho para você, o juízo parece fugir de mim.
—Não há o que perdoar, Valerion. Estamos prometidos. – disse ela, vermelha como os cabelos de Sansa, com um olhar devotado e um sorriso sonhador – Eu fico muito feliz de saber que tem sentimentos por mim também... – disse ela timidamente. Valerion sorriu e desviou o olhar.
—Como não ter? – perguntou ele – Quando Shiera voltou para casa, só sabia falar de você. E quando a conheci, te mostraste ainda mais adorável do que todas as palavras de minha irmã. – Valerion suspirou e segurou a mão pequena e delicada da menina. A levou para os lábios e a beijou com doçura – Não duvide de meus sentimentos, princesa.
—Você me ama? – perguntou ela esperançosa e Valerion desejou que ela não o tivesse feito. Não queria mentir, falando aquilo, mas não tinha opção.
—Com todo meu ser. – disse de maneira convincente. Sempre fora um bom mentiroso. Conseguia mentir até mesmo para o pai, que era muito perspicaz com esse tipo de coisa. Myrcella o olhou apaixonadamente e fechou os olhos, fazendo beicinho, desejando ser beijada novamente. Engoliu em seco e deu de ombros, sabendo que seria problemático não beijá-la. Deu um pouco mais de fogo ao ato, mas logo se conteve – Por favor, Princesa... – sussurrou virando o rosto para a multidão, que olhava com curiosidade – Se continuar com isso irei desejar lhe mostrar a cabine do capitão... e creio que sua mãe não vai gostar nada disso. – disse de maneira travessa e Myrcella corou. Ela sorriu sem jeito, segurando sua mão e colocando a mais uma vez uma mecha de cabelo atrás da orelha.
—Prometes que tentará passar mais tempo comigo antes que eu seja enviada para Harrenhal? – perguntou ela. Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—É claro, minha donzela. – disse a olhando com doçura – Agora volte para o castelo. O navio sujo e o porto imundo não são lugares para você. – disse a afagando no rosto. Myrcella concordou e fez uma mesura, que ele retribuiu. A acompanhou até a liteira e se despediu dela. Depois voltou a seus afazeres.
Quando já estava para anoitecer, voltou para o castelo, sentindo as costas e as nádegas doerem, assim como as juntas da mão. Sentia-se bem fatigado e não suportava mais o cheiro de peixe. Assim que entrou em quarto, encontrou uma das aias da rainha. A olhou curioso e a aia disse.
—A rainha regente o convidou para o jantar. Então tome banho, se arrume apropriadamente e vá o mais rápido possível para o quarto dela.
Suspirou, concordando com um aceno de cabeça e, antes que a aia saísse, começou a se despir. Se sentou na cama para tirar os sapatos, quando notou que a mulher o olhava, mas ela pareceu ficar muito sem jeito e saiu fechando a porta, apressadamente. Valerion deu um sorrisinho e continuou a se despir. Havia uma banheira com água quente atrás do biombo do quarto. Se lavou o melhor que podia e escolheu suas roupas mais elegantes. Depois pegou o pequeno frasco de perfume e pingou algumas gotas nos pulsos e atrás da orelha.
Depois de vestir as elegantes vestimentas vermelhas, com o dragão negro belamente bordado no peitoral, seguiu desconfiado até o quarto de Cersei. Bateu algumas vezes, mesmo que os guardas já tivessem lhe dado a autorização para entrar, e esperou até uma aia abrir a porta. Cersei jantava com Sansa, Myrcella e Tommen. Se curvou de maneira respeitosa e sorriu.
—Uma boa noite. – disse esperando que Cersei o convidasse para sentar.
—Uma boa noite para você, Valerion. – riu Cersei parecendo exultante. Se perguntou em que tipo de problema estava – Por favor. Sente-se e sirva-se. Myrcella me contou que ficou o dia inteiro no porto, alimentando os pobres.
—Alguém precisa fazer isso. – riu indo se sentar ao lado de Myrcella, praticamente ignorando Sansa. Ela o olhou com falso desgosto e daquela vez ele quase acreditou nela – Não queremos um levante dentro dos nossos próprios muros.
—Valerion é tão amável. – disse Myrcella, lhe lançando um sorriso gentil – E é muito amado por todos.
—Por que ele ajuda todo mundo, não é? – perguntou Tommen – E eu soube que é muito corajoso. – ele o olhou com grandes olhos brilhantes, cheios de curiosidade – Todos estão falando sobre como lutou com Sir Meryn e com o Cão para proteger Lady Sansa.
—Um ato perigoso e estúpido. – ralhou Cersei, o olhando – Desafiar o próprio rei em frente de toda a corte. – adicionou ela. Valerion sorriu e levantou o copo para uma aia, que o encheu de vinho.
—Tive medo de tudo sair do controle, como aconteceu com Lorde Stark. Sansa é a chave para o Norte, Vossa Graça. – explicou Valerion – Sem falar que nosso rei, por mais que seja um rei, deve aprender a ter limites. – adicionou ele, dando um gole em seu vinho – Mas admito que estava de cabeça quente pelo modo como fui tratado em frente da corte, também. – ele respirou fundo e olhou para Sansa, que tinha uma feição de submissa infelicidade – O rei voltou a implicar com você, Lady Sansa?
—Meu amado rei Joffrey nunca foi menos do que justo. Ele nunca implica comigo. – disse ela com determinação e ele gostou de como ela estava aprendendo a falar de maneira mais convincente, por mais que todos soubessem que ela mentia – É tudo culpa do meu irmão traidor, que deixou Vossa Graça muito irritado.
—Claro. – riu Valerion, como se achasse graça. Bebeu um gole de vinho e uma aia lhe entregou seu prato. O faisão era menor do que costumava ser disponibilizado para o castelo, as verduras não estavam tão bonitas e até mesmo o vinho não era dos mais caros da adega da Árvore. Se o nível da comida que chegava aos pratos da rainha e sua família estava caindo, não saberia dizer como estaria a população se ele não estivesse se empenhando em alimentá-la. Apesar de saber que não conseguia ajudar nem mesmo um décimo da população de Porto Real. Os mais bem sucedidos compravam trigo a preço de aço e ele lucrava com isso. Mas os mais pobres ganhavam pouco mais de migalhas, já que não podiam pagar o preço. Mesmo assim estava feliz de saber que sua popularidade com as massas nunca fora tão grande – A que devo o convite, Vossa Graça? – perguntou tranquilamente. Cersei suspirou, como se estivesse muito feliz, mas ele imaginou que era apenas fingimento. O que deixava claro que ela queria que ele soubesse que não estava nada feliz.
—Meu pai mandou uma carta. – disse ela e ele olhou para Myrcella com cumplicidade. A menina corou e sorriu gentilmente, baixando os olhos para o próprio prato – Aconselhando que Myrcella fosse enviada a Harrenhal, para fazer as pazes com o seu pai.
—Myrcella me falou. – disse simplesmente – Pelo que ela disse, eu também devo retornar ao castelo. – ele continuou e ele viu um brilho raivoso nos olhos da rainha, apesar do sorriso falsamente gentil dela – Mas não tenho a menor intenção de voltar pra Harrenhal, Vossa Graça. – adicionou pegando a pequena coxa do faisão – Meu pai pode muito bem manter suas tropas no Gargalo, mantendo-se fiel ou não ao Trono de Ferro. Não me importa. Minha missão é em Porto Real e aqui ficarei. – ele suspirou e sorriu para Myrcella – Mas garanto que a princesa será muito bem tratada e muito bem mimada em Harrenhal. E estará muito segura também. – adicionou ele – E assim que ela tiver idade, quando a guerra acabar, meu pai não irá se opor que ela volte a Porto Real para nos casarmos. Podemos viver juntos na corte, não me importarei de deixar Harrenhal nas mãos do meu pai e depois deixar um castelão cuidando do castelo. – explicou ele olhando calmamente para a rainha, que parecia levemente surpresa – É como eu disse antes. Eu sou leal ao Trono de Ferro, independentemente da posição da minha família. E sou o herdeiro do castelo, já que meu pai exilou Aegon. Duvido muito que ele volte para exigir o castelo. Imagino, no entanto, que lhe agrade a ideia de tentar entrar para a Guarda Real. – adicionou ele com um sorrisinho – Não há melhor espadachim que meu irmão em todos os Sete Reinos.
—Meu tio também é muito forte e talentoso. – disse Tommen – Quem é melhor, mamãe? – perguntou o pequeno príncipe e a rainha suspirou.
—Seu tio, claro. Certamente Valerion concorda. – adicionou ela. Mas Valerion sorriu.
—Você aposta no seu irmão. Eu aposto no meu. – adicionou ele e Myrcella suspirou – Lembro que Sor Jaime perdeu nas justas para meu irmão.
—Nas justas, não na espada. – devolveu Cersei.
—Não teve oportunidade. Imagino que não terá, já que será subordinado de Sor Jaime. – disse mordendo um bom pedaço da coxa do faisão.
—Isso se ele tiver a chance de entrar para a Guarda Real. – disse Cersei – Ela encontra-se com todos os lugares ocupados. – adicionou ela.
—Bem. Estamos em guerra. Stannis pode nos atacar a qualquer momento. Novas vagas podem surgir a qualquer momento. – disse tranquilamente e Cersei não gostou de ouvir aquilo.
—Acha que Lorde Stannis conseguiria tanto? – perguntou Sansa com os olhos esbugalhados e ele notou que ela tinha esperança de ser resgatada pelo homem – Você viveu sob a tutela dele, não viveu? Por alguns anos?
—Sim. – respondeu Valerion – Stannis é um homem... difícil. – disse medindo as palavras.
—É um traidor. – ralhou Myrcella – Tentando usurpar o trono de Joffrey.
—Sim, deveras vergonhoso. Nunca esperei uma atitude dessas de Stannis. Ele sempre foi um homem tão correto. – disse Valerion dando outra mordida no faisão. Cersei respirou fundo, não gostando do rumo da conversa e ele sorriu por dentro, por deixá-la desconfortável na frente dos filhos – Não sei o que passa na cabeça dele. – disse casualmente, depois de engolir – Imagino que a Sacerdotisa Vermelha que o vem aconselhando o esteja manipulando de alguma maneira.
—Stannis sendo manipulado por uma mulher... achei que uma mulher teria mais sorte com um cavalo. – debochou ela, levemente embriagada. Tommen franziu o cenho, sem entender, mas Myrcella corou.
—Imagino que seja mais a religião do que o charme dela. – sugeriu, calmamente – O fanatismo é muito perigoso, sabe?
Cersei concordou com um aceno de cabeça.
—Acha que estamos em condições de nos defender de um ataque de Stannis? – perguntou Myrcella. Ele realmente achava difícil. Cersei e Tyrion estavam fazendo um excelente trabalho para melhorar as defesas da cidade, mas os números de Stannis eram absolutamente maiores que os deles. Mas, apesar disso, sorriu confiante para Myrcella e disse gentilmente.
—Sem dúvidas, minha princesa.
—E quando seu braço vai melhorar? – perguntou Tommen – Você vai lutar para nos defender, não vai, Sor Valerion? – perguntou o menino príncipe.
—Claro que ele vai. – riu Cersei com um sorriso divertidamente cruel – Sor Valerion é um rapaz muito corajoso, que deseja se tornar um cavaleiro. Claro que ele vai para a guerra, nos proteger. – riu ela e Valerion sorriu para o menino.
—Não se preocupe. Meu braço já vai estar melhor quando Stannis chegar. – garantiu ele.
—Falando em Stannis, certamente sabe que ele tem uma grande frota. – disse Cersei e Valerion concordou – Sinto dizer que seus navios deverão ser confiscados. Para ajudar na batalha. Porto Real precisa de todos os barcos possíveis. – ele engoliu em seco. Céus, como odiava aquela mulher.
—Devo interromper meus serviços então? Para com a população? – perguntou ele.
—Eles devem saber que o rei precisa estar preparado para Stannis.
—Certamente eles ficarão sabendo dos motivos para tal. Todos devem fazer alguns sacrifícios. – disse de maneira cortês, mesmo que sua vontade fosse de estrangulá-la. Não queria seus navios numa batalha. Não mesmo. Mas não havia como dizer não.
De resto, o jantar foi tranquilo. Myrcella estava interessada em saber se aquela guerra acabaria logo, deixando claro que ela esperava se casar o quanto antes. Ela estava muito apaixonada, obviamente. Desejava não ter que seguir com aquele flerte, ainda mais com a presença de Sansa, mas não havia o que ser feito. Quando o jantar acabou, Valerion se despediu da família real e acompanhou Sansa até o corredor, sendo seguido pelos vigias dela.
—Foi um jantar agradável. – disse calmamente. Sansa concordou com um aceno de cabeça – Tenha uma boa noite, Lady Sansa.
—Você ama a princesa? – perguntou ela com severidade. Valerion sorriu, enxergando ciúmes ali e isso aqueceu seu peito de maneira que daria inveja ao melhor dos vinhos. Suspirou olhando para ela concordou.
—Sou leal à minha princesa Myrcella, meu único e verdadeiro amor. – disse imitando as palavras que ela sempre repetia sobre Joffrey. Ela entendeu e controlou o rosto, mas notou um discreto sorriso no canto de sua boca. Por um momento esqueceu-se de tudo e sorriu para ela, mas logo escutou o som metálico das roupas dos guardas – Nos vemos na corte, minha senhora. – disse fazendo uma mesura, para então se virar. O coração batendo acelerado em seu peito. Céus, estava completamente de quatro por ela.
As semanas se passaram e ele, por mais que desejasse apenas passar mais tempo com Sansa, seguiu a ignorando, para passar mais tempo com a princesa. Caminharam pelos jardins, observados de longe pelos guardas, trocaram histórias, sorrisos e olhares. Até a beijou algumas vezes, afinal, ela era uma bonita menina e estavam prometidos. Talvez um dia o destino colocasse a loira em sua cama, no lugar da ruiva. Um dia, talvez, Myrcella quem lhe daria filhos. Portanto era sempre gentil.
Mas logo chegou o dia em que a princesa partiria para Harrenhal. Antes que ela subisse no navio, ficou de joelho e jurou devoção e fidelidade a ela, desejando que ela tivesse uma boa viagem. Quando se levantou, os dois trocaram um olhar tão carinhoso que a absoluta maioria certamente pensou que ambos estavam completamente apaixonados um pelo outro.
Ela era corajosa, Myrcella. Não eram todas as donzelas que conseguiam manter a calma num momento como aquele, o de despedir-se da família, para viver em um outro lugar, prometida a alguém que nem mesmo estaria lá. Ainda mais nesses tempos de guerra.
Era certo que o sorriso da garota estava um tanto trêmulo quando os irmãos se despediram dela no convés do Mar Ligeiro, mas ela conhecia as palavras adequadas, e as proferiu com coragem e dignidade. Quando chegou a hora de se separarem, foi Príncipe Tommen quem chorou, e Myrcella quem o confortou.
Valerion observou as despedidas de cima do elevado convés do Martelo do Rei Robert, uma grande galé de guerra de quatrocentos remos. O Martelo de Rob, como os remadores o chamavam, constituiria a força principal da escolta de Myrcella. Estrela Leonina, Vento Ousado e Senhora Lyanna também viajariam com ela. Valerion tinha insistido em que levassem o Três Cabeças junto, com Hoster como capitão e Tyrion não se opôs tanto.
Tyrion sentia-se mais do que um pouco incomodado ao destacar uma parte tão grande da sua já inadequada frota, amputada que estava de todos os navios que tinham partido com Lorde Stannis para Pedra do Dragão e nunca tinham voltado, mas Cersei não queria ouvir falar de nada menos.
Talvez tivesse razão. Se a garota fosse capturada antes de alcançar Harrenhal, a aliança com Harrenhal ficaria em frangalhos. Até agora, seu pai não tinha feito nada além de chamar os vassalos e receber dois exércitos rivais em seus salões.
—Conhece as suas ordens, capitão. – disse Tyrion depois de limpar a garganta. Valerion o olhou de relance, mas voltou seu olhar para a princesa.
—Boa viagem. – desejou.
—Tome cuidado. – pediu ela se aproximando e o olhando nos olhos. Ela desejava um beijo, sabia disso. Olhou discretamente para Cersei, que acenou positivamente com a cabeça. Suspirou e beijou delicadamente a princesa, que em seguida suspirou, apaixonada. Quando se afastaram, ele deixou o bote que a levaria para o navio e seguiu para onde a rainha estava.
—Quase acredito em seus sentimentos, Valerion. – debochou ela.
—Vou me casar com ela. Não custa ser gentil e tentar fazer com que ela se sinta bem. – devolveu.
—Se vocês chegarem a se casar, eu garantirei que esse seja seu objetivo de vida. – sibilou a rainha, olhando a filha se afastar no barco. Tyrion logo se aproximou, cabisbaixo.
Cersei o ignorou, preferindo derramar sorrisos sobre o primo. Observou-a encantando Lancel com olhos tão verdes como o cordão de esmeraldas que rodeava sua esguia garganta branca, e deu um pequeno suspiro. Pelo que ficara sabendo, Cersei era mesmo uma mulher de família. Se perguntava se Tyrion teria sua chance entre as coxas dela, também..
Trombetas tocaram fanfarras quando o Estrela Leonina e o Senhora Lyanna se afastaram da costa, deslocando-se para jusante, a fim de abrir caminho ao Mar Ligeiro e ao Três Cabeças. Ouviram-se algumas aclamações vindas da multidão que se apertava nas margens, tão tênues e esfarrapadas como as nuvens que corriam no céu. Myrcella sorriu e acenou do convés. Atrás dela encontrava-se Arys Oakheart, com o manto branco ondulando ao vento. O capitão ordenou que as amarras fossem soltas, e os remos empurraram o Mar Ligeiro para a vigorosa correnteza da Torrente da Água Negra, onde suas velas desabrocharam ao vento… simples velas brancas, conforme Tyrion insistira, e não panos do carmim Lannister. O Príncipe Tommen soluçou.
—Você mia como um bebê de peito. – silvou-lhe o irmão. – Príncipes não devem chorar.
—Lembro-me de certo dia, à beira do Tridente... – debochou Valerion e Joffrey o olhou furiosamente.
—Cale a boca ou enfiarei outra seta em você. – rosnou ele e Valerion sorriu desdenhoso.
—Tenha certeza de me ter lutando contra dois de sua guarda primeiro. Vai que eu te alcanço antes que consiga levantar a besta? – devolveu.
—O Príncipe Aemon, Cavaleiro do Dragão, chorou no dia em que a Princesa Naerys se casou com o irmão Aegon – Sansa Stark interveio –, e os gêmeos Sor Arryk e Sor Erryk morreram com lágrimas no rosto depois de cada um deles ter dado ao outro um ferimento mortal.
—Cale-se, senão ordeno que Sor Meryn dê a você um ferimento mortal – Joffrey disse à sua prometida, fazendo Valerion sentir vontade de chutá-lo nos bagos. Olhou de relance para a rainha, mas Cersei estava absorta por alguma coisa que Sor Balon Swann lhe dizia. Será ela realmente tão cega para não ver o que ele é? Perguntou a si mesmo.
No rio, o Vento Ousado desarmou os remos e deslizou corrente abaixo na esteira do Mar Ligeiro. Por fim, foi a vez do Martelo do Rei Robert, o poderio da frota real… ou pelo menos da porção que não tinha fugido com Stannis para Pedra do Dragão no ano anterior. Tyrion escolhera os navios com cuidado, evitando todos aqueles cujos capitães pudessem ser de lealdade duvidosa, de acordo com Varys… Mas, como o próprio Varys era de lealdade duvidosa, restava certo grau de apreensão.
A pequena frota estava bem adiante na baía quando Cersei indicou que era hora de partir. Bronn trouxe o cavalo de Tyrion e o ajudou a montar. Aquela tarefa era de Podrick Payne, mas o tinham deixado na Fortaleza Vermelha. O magro mercenário tinha uma presença mais tranquilizadora do que o rapaz. Valerion subiu em sua égua, a mesma que usara para justar com Clegane no torneio da Mão.
As estreitas ruas eram defendidas por homens da Patrulha da Cidade, mantendo a multidão afastada com os cabos das lanças. Sor Jacelyn Bywater seguia à frente, encabeçando uma cunha de lanceiros a cavalo com cota de malha preta e manto dourado. Atrás dele vinham Sor Aron Santagar e Sor Balon Swann, transportando os estandartes do rei, o leão dos Lannister e o veado coroado dos Baratheon.
Rei Joffrey seguia-os num alto palafrém cinza, com uma coroa dourada pousada em seus caracóis dourados. Sansa Stark montava uma égua alazã a seu lado, sem olhar nem para a esquerda nem para a direita, com o espesso cabelo ruivo fluindo até os ombros em uma rede de selenitas. Ela era linda demais. Até mesmo a Donzela sentiria inveja de sua beleza. Suspirou a admirando.
Dois dos membros da Guarda Real flanqueavam o casal, Cão de Caça à direita do rei e Sor Mandon Moore à esquerda da menina Stark. A seguir vinha Tommen, fungando, com Sor Preston Greenfield em sua armadura e manto brancos, e depois Cersei, acompanhada por Sor Lancel e protegida por Meryn Trant e Boros Blount. Tyrion ficou ao lado da irmã. Atrás deles seguia Valerion e Bronn, seguidos pelo Alto Septão em sua liteira, e uma longa comitiva de outros cortesãos: Sor Horas Redwyne, Senhora Tanda e a filha, Jalabhar Xho, Lorde Gyles Rosby e os outros. Uma dupla coluna de guardas fechava a retaguarda.
Os barbados e sujos fitavam os cavaleiros com um ressentimento embotado, do outro lado da linha de lanças. Não gosto disso nem um pouquinho, Valerion pensou. Bronn tinha um grupo de vinte mercenários espalhados pela multidão com ordens de acabar com qualquer problema antes de ele começar. Talvez Cersei tivesse colocado seus Kettleblack de forma semelhante. De algum modo, Valerion achava que isso não ajudaria muito. Se o fogo estivesse quente demais, era difícil impedir que a sobremesa se queimasse atirando um punhado de passas para dentro da panela.
Atravessaram a Praça dos Peixeiros e avançaram ao longo da Via Lamacenta antes de virar para o estreito e curvo Gancho e dar início à subida da Colina de Aegon. Algumas vozes começaram a gritar “Joffrey! Viva, viva! ” enquanto o jovem rei passava, mas a cada homem que gritava, uma centena mantinha-se em silêncio. Os Lannister deslocavam-se através de um mar de homens esfarrapados e mulheres esfomeadas, enfrentando uma maré de olhos carrancudos. Bem à sua frente, Cersei ria de alguma coisa que Lancel tinha dito, embora Valerion suspeitasse de que sua alegria era fingida. Não podia estar alheia à agitação que os rodeava, mas a rainha sempre acreditava em dar um espetáculo de bravura.
Com metade da viagem percorrida, uma mulher em prantos forçou a passagem por entre dois guardas e correu para a rua, à frente do rei e de seus companheiros, segurando o cadáver do bebê morto acima da cabeça. Estava azul e inchado, grotesco, mas o verdadeiro horror eram os olhos da mãe. Joffrey olhou-a por um momento como se quisesse atropelá-la, mas Sansa Stark debruçou-se e lhe disse qualquer coisa. O rei atrapalhou-se com a bolsa e atirou à mulher um veado de prata. A moeda quicou na criança e afastou-se rolando, passando por baixo das pernas dos homens de manto dourado, para o meio da multidão, onde uma dúzia de homens começou a lutar por ela. A mulher nem sequer piscou. Seus braços muito magros tremiam com o peso morto do filho.
—Deixe-a, Vossa Graça – Cersei gritou ao filho –, ela está para lá da nossa ajuda, coitada.
A mãe ouviu. De algum modo a voz da rainha abriu caminho através da inteligência devastada da mulher. Seu rosto descuidado contorceu-se com repugnância.
—Puta! — ela guinchou. – Puta do Regicida! Fode-irmãos! — seu filho morto caiu de seus braços como uma saca de farinha quando apontou para Cersei. – Fode-irmãos, fode-irmãos, fode-irmãos.
Valerion não chegou a ver quem atirou o esterco. Só ouviu o arquejo de Sansa e a praga berrada por Joffrey, e, quando virou a cabeça, o rei limpava sujeira marrom do rosto. Havia mais no seu cabelo dourado e salpicos pelas pernas de Sansa. Numa outra situação, teria rido até ficar sem ar, mas aquilo o assustou.
—Quem atirou isso? – Joffrey gritou. Levou os dedos ao cabelo, fez uma cara furiosa e atirou ao chão mais um punhado de bosta. – Quero o homem que atirou isso! – gritou. – Cem dragões de ouro para o homem que o denunciar.
—Ele estava ali em cima! – gritou alguém da multidão. O rei obrigou o cavalo a descrever um círculo a fim de inspecionar os telhados e as varandas abertas acima deles. Na multidão havia pessoas apontando, empurrando, amaldiçoando-se umas às outras e ao rei.
—Por favor, Vossa Graça, deixe-o ir – Sansa suplicou.
O rei não prestou atenção.
—Tragam o homem que atirou aquela imundície! – Joffrey ordenou. – Há de lambê-la de cima de mim, caso contrário corto sua cabeça. Cão, traga-o aqui!
Obediente, Sandor Clegane saltou da sela, mas não havia maneira de passar através daquela muralha de carne, muito menos de subir ao telhado. Aqueles que estavam mais próximos começaram a se contorcer e a empurrar para se afastar, enquanto outros faziam pressão para a frente, queriam ver. Valerion sentiu o cheiro do desastre.
—Vamos embora. – disse muito sério.
—Clegane, deixe-o, o homem já fugiu há muito tempo. – disse Tyrion.
—Eu quero esse homem! – Joffrey apontou para o telhado. – Ele estava ali em cima! Cão, abra caminho com a espada através deles e traga-me…
Um tumulto de som afogou suas últimas palavras, um trovão rolante de raiva, medo e ódio que os submergiu por todos os lados. “Bastardo!”, alguém gritou para Joffrey, “monstro bastardo.”
Outras vozes lançavam nomes como “Puta” e “Fode-irmãos” à rainha, enquanto Tyrion era crivado com gritos de “Aborto” e “Meio-Homem”. Misturados com os insultos, ouviu alguns gritos por “Justiça” e “Robb, Rei Robb, o Jovem Lobo”, por “Stannis!” e até por “Renly!”. No entanto, algumas pessoas começaram a gritar “Blackfyre”, “Rei Valerion”, entre outras coisas do gênero, fazendo com que o rapaz fizesse uma careta. De ambos os lados da rua, a multidão encapelou-se contra os cabos das lanças enquanto os homens de mantos dourados lutavam para manter a fileira. Pedras, bosta e coisas piores zumbiam por cima das cabeças. “Dê-nos comida!”, guinchou uma mulher. “Pão!”, trovejou um homem atrás dela. “Queremos pão, bastardo!” Num instante, mil vozes juntaram-se ao cântico. Rei Joffrey, Rei Valerion, Rei Robb e Rei Stannis foram esquecidos, e o Rei Pão governou sozinho. “Pão!”, gritaram. “Pão, pão!”
Tyrion esporeou o cavalo para o lado da irmã, gritando:
—De volta ao castelo. Agora.
Cersei fez um aceno brusco, e Sor Lancel desembainhou a espada, Valerion fez o mesmo, nervoso, mas seu braço doeu horrivelmente com o esforço. À frente da coluna, Jacelyn Bywater rugia ordens. Seus homens a cavalo baixaram as lanças e avançaram em cunha. O rei fazia o palafrém rodopiar em círculos ansiosos enquanto mãos atravessavam a fileira de mantos dourados, tentando agarrá-lo. Uma conseguiu pegar sua perna, mas só por um instante. A espada de Sor Mandon desceu, separando a mão do pulso.
—Cavalga! — Tyrion gritou ao sobrinho, dando uma forte palmada na garupa do cavalo. O animal empinou-se, relinchando, e mergulhou à frente, obrigando a multidão a dispersar. Valerion tentou se aproximar de Sansa, para ajudá-la a voltar para o castelo, mas as pessoas cercaram seu cavalo.
—Por favor, se afastem, não quero machucar ninguém. – disse ansioso. Mas as pessoas estavam enlouquecidos pela fome. Olhou mais uma vez para Sansa, que gritava de medo. Foi quando mãos masculinas a derrubaram do cavalo. Valerion já escutara Aegon falar sobre batalhas. Sobre como a ira e o calor do momento faziam qualquer dor desaparecer e se tornar algo bobo. Nunca tinha acreditado muito naquilo. Seu maior medo ao se meter em batalhas, era se machucar. Mas ao ver aqueles homes tirarem sua amada donzela de cima de seu cavalo, para arrastarem-na para um beco, ele esqueceu de todo o resto. Esqueceu o rei, a Mão, a rainha, a guarda real, os planos. Esqueceu até mesmo seu pudor, seu código de moral. Tudo. Sua espada cortou ar, mãos, cabeças, peitos e tudo o mais que viu pela frente. Pulou do cavalo e abriu caminho, tentando alcançar o beco. Sentiu alguém lhe acertar com pedras e paus. Sentiu o sangue escorrer por sua cabeça. Mas não havia dor. Não havia como parar. Rosnou furioso abrindo caminho com sua espada e quando alcançou o beco vazio, correu através dele, procurando por Sansa. Escutou risadas e gritos de socorro. A voz dela. De Sansa. Sua Sansa. Rosnou ainda mais furioso e correu. Quando a avistou, sentiu-se ainda mais irado. Eram cinco homens. Cinco. Um segurava seu braço esquerdo, outro o direito. Mais dois seguravam suas pernas, forçando a garota a mantê-las abertas. E o quinto estava no meio dos joelhos de Sansa, prestes a estuprá-la. Sentiu tanto ódio que nem mesmo pensou. Cortou fora a cabeça do homem que estava tirando os calções, perfurou o peito do que segurava as pernas dela e antes que o outro homem pudesse atacar, rasgou a barriga dele, fazendo com que as tripas caíssem para fora. O homem olhou para seus órgãos e gritou de desespero, antes de cair no chão. Os dois que seguravam as mãos de Sansa levantaram as mãos, se rendendo, mas Valerion não lhes daria clemência ou misericórdia. Avançou, brandindo a espada e os dois plebeus, desarmados, nada puderam fazer além de morrer. O cheiro era horrível. Tudo fedia a sangue, fezes e sujeira. Olhou para Sansa, que chorava assustada, os cabelos desarrumados, o vestido rasgado, mostrando seu espartilho e boa parte das coxas. Engoliu em seco e se acalmou ao receber o olhar assustado dela. A ajudou a levantar e notou que tinham batido em seu rosto, pois havia um corte em sua bochecha – Você está bem, Lady Sansa? – perguntou ofegante e cansado, começando a sentir o corpo doer, principalmente o braço. Sansa concordou com um aceno de cabeça, parecendo prestes a desmoronar – Por um momento... – mergulhou a mão nos cabelos cor de fogo dela e a puxou para si, para confortá-la. Sentiu a garota soluçar e abraçá-lo assustada, trêmula.
—Eu... eu achei que ninguém viria. Eu tive tanto medo. – choramingou ela.
—Eu nunca deixaria de vir por você, minha senhora. – disse a olhando nos olhos. Sorriu mais calmo, por tê-la sã e salva em seus braços. Tão pequena, frágil e delicada. Suspirou e a beijou, aliviado, na testa. Sentiu o corpo dela tremer novamente e os dois se olharam. Não aguentava mais esconder aquele sentimento – Perdoe-me, Sansa...
—Pelo que, sor?
Ela o olhava com aqueles brilhantes olhos azuis. Linda demais para resistir. Desejou beijá-la de verdade pela primeira vez, mas recuou. Estavam num péssimo lugar para isso. E ainda podia ter algum passarinho de Varys para escutá-los ou vê-los. Engoliu em seco e se afastou.
—Não é nada. – murmurou lamentando por aquilo – Devo levá-la de volta.
—Não. – choramingou ela – Por favor. Vamos fugir! – disse ela o olhando com os olhos cheios de lágrimas – Vamos para o porto. Pegamos um navio e fugimos. Por favor. – chorou ela. Suspirou tentado a concordar. A levá-la para um navio e ir embora. A amá-la na cabine do capitão. A casar-se com ela assim que aportasse em Harrenhal. A se unir à guerra de Robb. A lutar contra Joffrey. Mas havia um plano. Algo maior que ele. Suspirou retirando a própria capa e a enrolou ao redor dos delicados ombros nus dela – Por favor, Valerion. Me leve com você. Me tire daqui. Me... – e então ela se calou repentinamente. Pensou rápido e disse.
—Não podemos fazer isso, senhora. Eu sinto muito, mas preciso levar você para o castelo. – disse sentindo a presença de alguém.
—Sábias palavras, lagartinho. – escutou a voz rouca de Cão de Caça. Se virou e o encarou cansado – Você se machucou. – ele riu olhando ao redor, para os homens mortos – Mesmo o nobre Valerion Blackfyre é capaz de matar camponeses desarmados. Deveriam escrever uma canção sobre isso.
—Deveriam escrever uma canção sobre essa sua cara feia. – retrucou se virando para Sansa – Vamos, minha senhora. Eu a levarei de volta. – disse para Sansa, que baixou os olhos como um dócil cão repreendido. Se aproximou dela e se abaixou para passar um braço por debaixo de seus joelhos, enquanto o outro rodeava suas costas. Rosnou de dor, mas a pegou no colo assim mesmo. Não deixaria que Cão de Caça tocasse sua donzela.
—Não quer que eu a leve? – perguntou Cão, o olhando com graça, como se ele não passasse de uma piada. Aquele tipo de olhar era novo para ele e portanto não gostou nenhum pouco.
—Não precisa. Apenas abra caminho. – disse determinado. O Cão riu mais uma vez e se virou. Sentiu Sansa envolver seu pescoço e deitar a cabeça em seu ombro, infeliz por mais uma vez estar sendo levada para o castelo. Mas não havia o que ser feito. Jamais venceria Cão de Caça, ainda mais estando ferido. Chegar ao castelo se mostrou uma árdua tarefa. As ruas ainda estavam apinhadas de gente. Encontrou partes de seu cavalo no chão. A população faminta tinha matado sua égua e arrancado seus membros para se banquetearem. Mas conseguiram encontrar a égua de Sansa, que estava sob o cuidado de alguns guardas. Montou com a menina e seguiu Cão de Caça. Sansa estava com os braços ao redor de sua cintura. Ainda sentia o corpo dela tremer pelo susto. Não a culpava. Suas mãos tremiam pelo momento também.
Tinha matado naquela tarde. Não apenas um. Mas muitas pessoas. Não apenas gente inescrupulosa, homens dispostos a estuprarem sua amada. Mas gente inocente que só queria comida. Suas roupas estavam manchadas de sangue, assim como seu rosto, suas mãos e sua espada. Engoliu em seco, sentindo-se estranho. Nunca tinha matado antes. Fora tão fácil... tão fácil cortar aquelas pessoas. Fácil como cortar um bife. Respirou fundo tentando não pensar muito naquilo.
Quando voltaram para o palácio, desceu primeiro do cavalo e ajudou Sansa em seguida.
—Lady Stark. Está ferida? – perguntou Tyrion olhando para ela. Sansa apenas mirava o chão, infeliz e trêmula, se escondendo sob sua capa – Bom trabalho, Valerion. – disse ele.
—Eles... – Sansa engoliu em seco – Eles estavam atirando coisas... pedras e sujeira... ovos... tentei lhes dizer que não tinha pão para lhes dar. Então me levaram para um beco e... – o lábio tremeu e Valerion suspirou.
—Eu cheguei a tempo. – disse depressa fazendo a expressão de Tyrion suavizar – Mas Sansa se machucou. Está sangrando... alguém deveria cuidar de seus ferimentos.
—Bom trabalho, Valerion. – repetiu Tyrion e Valerion fez um aceno positivo com a cabeça.
—Senhor Blackfyre! – disse a Senhora Tanda, dama de companhia da Rainha. Ela parecia doente de preocupação e ele notou que a filha dela não estava ali – A minha filha... o senhor a viu?
—Sinto muito, senhora Tanda. – murmurou delicadamente – Eu não a encontrei.
—Mas... alguém... – a mulher tremia de nervoso e Valerion se lembrou daqueles cinco homens e do que tinham tentado fazer com Sansa. Engoliu em seco e olhou para a mulher.
—Eu vou procurar a sua filha. – disse firmemente.
—Valerion, você está ferido! – disse Sansa o olhando horrorizada. Concordou pressionando o braço onde Joffrey lhe acertara uma seta – As pessoas estão enlouquecidas.
—Infelizmente eu não vou chegar cedo o suficiente para a filha da senhora... como eu fiz pra você. – disse calmamente e Sansa pareceu prestes a chorar.
—Vá então. – debochou Joffrey – Mas os guardas do castelo ficam no castelo. – adicionou ele e Valerion sorriu cruelmente.
—Sim, peça ajuda a eles para limpar toda a merda da sua cara. – riu se virando e sacando novamente a espada.
—Eu ainda mando matarem você por ficar me desrespeitando. Eu sou o REI! – gritou Joffrey e Valerion se virou.
—Sabe, Joffrey... – respirou fundo e olhou para a rainha. Ela o olhava com atenção. Um olhar ameaçador e ele resolveu medir suas palavras – Um dia você vai entender que as pessoas não precisam lamber suas bolas para servi-lo bem. Um dia você vai aprender a valorizar as pessoas que te servem bem, no lugar daquelas que ficam te paparicando, desejando favores. – se virou e saiu do castelo novamente, sentindo o corpo doer. – Bastardo maldito.
Chamou seus poucos homens e começou a procurar pela filha da senhora Tanda. A encontrou aos gritos atrás de uma tanoaria. Ela chorava copiosamente, pedindo clemência, enquanto a seguravam com vigor para estuprá-la. Tinham uns oito homens ali, que pareciam esperar pela sua vez e aquilo o enojou completamente. Lollys já era uma mulher na casa dos trinta anos, mas nunca havia casado e pelo que sabia, era donzela.
Bem... era...
Ele e seus homens sacaram as espadas e executaram todos que estavam ali, mas o estrago já havia sido feito e Lollys chorava tanto que foi difícil levá-la de volta ao castelo. Quando a devolveu para a mãe, ambas se abraçaram em prantos e ele se sentiu tão cansado que só poderia desejar sua cama.
Tomou um banho para livrar-se do cheiro de sangue. Depois chamou um Meistre para curar de suas feridas. Não confiava em Meistres, mas Hoster não estava ali para ajudá-lo. E daquela vez havia muito o que suturar. Meistre Frenken cuidou de suas feridas, sob seu olhar desconfiado. O velho deu uma risadinha e suspirou.
—Você parece muito com o seu pai. Ele também não gosta de nós. – disse ele e Valerion optou pelo silêncio – Foi um ato de grande gentileza ir atrás da senhora Lollys. – adicionou o homem enquanto passava unguento em um corte especialmente doloroso em suas costas – Ela já havia sido estuprada por uma dúzia de homens, mas teriam sido muitos mais se não fosse por você. Talvez ela nem teria voltado para casa.
—Eu pensei em dar a misericórdia de uma faca na garganta. Mas não cabia a mim decidir o que era misericórdia. – disse fracamente – Eu tenho uma irmã... eu espero que Robb Stark a esteja tratando com muito respeito.
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