Blackfyre
2 Harrenhal
Notas iniciais

Capítulo 1
HARRENHAL
Robb sentia as ancas doerem em cima do cavalo, mas repetia a si mesmo que tudo valeria a pena. Theon assoviava ao seu lado, uma música depravada que ele aprendera dias atrás. Jon estava em silêncio, observando o horizonte, com o semblante sério de sempre.
Ainda estava surpreso com sua mãe. Como ela realmente conseguira convencer seu pai a ir a aquele torneio e a levá-los com ele. É verdade que ele não concordou em levar Sansa, de modo algum, mas só o fato dele sair de Winterfell com eles para um evento daqueles era algo surpreendente.
Vinha com eles, uma pequena comitiva. Os três jovens, Robb, Jon e Theon, Lorde Stark, Jory Cassel, que era o capitão da guarda de Winterfell, mais alguns soldados. Desciam pela Estrada do Rei, sendo acompanhados de vários cavaleiros, soldados, camponeses e comerciantes. Algumas carruagens traziam idosos e donzelas, assim como crianças nobres. As pessoas comuns vinham a pé, em sua maioria, ou em carroças cheias de coisas que pretendiam vender em Harrenhal. Os estandartes de várias casas subiam a estrada, identificando os vários lordes. Cavaleiros errantes vinham também, com seus escudeiros e cavalos de passeio e de guerra. Alguns camponeses vinham apenas pelo espetáculo e havia uma grande agitação no ar.
Escutava aqui e ali as pessoas falarem de Lorde Blackfyre. Sobre como ele era um feiticeiro, que sacrificava crianças para manter a maldição de Haren, o Negro, longe de sua família. Outros falavam sobre como ele utilizara demônios de sombra para construir seu castelo e deixá-lo ainda mais imponente do que costumava ser em seus antigos tempos de glória. Alguns ainda comentavam sobre a viagem dele a Valíria, imaginando que ele resgatara o ovo de dragão de lá. Outros garantiam que ele roubara quando ainda era um pirata ou corsário, no mar de Volantes.
Algumas conversas rumavam para os prêmios fantásticos. Outras para como seria a tal filha dele.
—Não deve ser muito bonita, se ele está oferecendo prêmios tão fantásticos. – disse um cavaleiro errante.
—Pois você ficaria surpreso. – riu um Frey que vinha ali perto. Robb olhou, curioso – Eu já vi a senhorita Shiera várias vezes. Ela é uma beldade. O único problema dela é o gênio. Puxou a megera maluca da mãe. – riu o homem, cuspindo no chão. Ele era magro, com uma barba escura e um sorriso cruel – Foi tarde, aquela mulher.
—Walder! Não diga essas coisas de Lady Blackfyre. Lorde Haegon ficou de luto por muito tempo depois da morte dela. Inclusive, ele bem que poderia arrumar uma das nossas irmãs pra casar de novo. – riu o outro Frey, que tinha pouco queixo e orelhas de sobra. O tal Walder Frey deu uma gargalhada.
—Sim. Imagine só nossas irmãzinhas aquecendo a cama de Lorde Haegon. Gorda Walda seria excelente... se ela não o esmagasse primeiro.
—Céus, Walder. – ralhou o outro Frey. Robb não gostou daquelas piadas, mas Theon achou engraçado. – Olhe lá. Já dá pra ver o castelo. Logo depois da colina.
Robb virou o rosto e bateu os calcanhares no cavalo, para fazê-lo acelerar. Jon e Theon o seguiram e logo os três tiveram um deslumbre do castelo. Era realmente enorme, mesmo de tão longe. Podia ver muitas comitivas indo pra lá, com várias barracas, várias fogueiras e inúmeros estandartes. Um enorme acampamento, apesar de que o castelo parecia ser tão grande que seria capaz de guarnecer todas aquelas pessoas.
As enormes torres, que antigamente pareciam dedos retorcidos, agora eram retas, mas de cores diferentes do resto do castelo, por terem sido reconstruídas.
—Lorde Haegon não quis reconstruir as torres do tamanho que costumavam ser. – disse seu pai se aproximando com seu cavalo.
—Pra quê? Coisa demais para administrar. Ele derrubou e reconstruiu o alto das torres. – riu Walder Frey – Mas continua impressionante. Acha que está pequeno só porque estamos longe. Ainda é maior do que qualquer castelo do reino.
—Sem dúvidas. – riu seu pai, esporeando o cavalo.
Voltaram a seguir caminho, agora mais rápido, já que pareciam estar tão perto. Mas logo notou que era apenas uma impressão. Imaginara estar mais perto do castelo do que realmente estava, graças ao tamanho imponente da construção. Era muito, muito maior que Winterfell...
Depois de alguns minutos de meio trote, finalmente alcançaram os acampamentos. Primeiramente era o acampamento das pessoas comuns. Depois de comerciantes e em seguida viriam os cavaleiros errantes. Então os senhores de terras, os Lordes e os grandes nobres.
Seu convite era especial. Seu pai era o protetor do Norte e portanto seriam abrigados em um dos grandes quartos do castelo. Olhar para cima, para o alto das torres, lhe causava arrepios. A torre mais baixa de todas era metade do tamanho da torre mais alta de Winterfell e as outras quatro eram quase três vezes maiores que a mais baixa.
—Impressionante. – murmurou Theon, perdendo seu sorriso e olhando maravilhado para o castelo – E pensar que foi um homem de ferro quem construiu isso.
—Ao preço de muito sangue. – retrucou Jon – E o ódio de seus subordinados.
—Oh, cale-se, Snow. – resmungou Theon.
Robb suspirou, impressionado e olhou ao redor. Já estavam na área do castelo. O estábulo era absurdamente grande e haviam muitos escudeiros guardando os cavalos de seus senhores. Guiou seu corcel até uma aia e desmontou, achando engraçado o fato de estar surpreso com algo tão bobo como um estábulo. Depois de deixar os cavalos aos cuidados dos escudeiros e subordinados, seguiram para o castelo.
Seu pai seguia ao lado de Jory e os outros, mas ele não estava interessado em entrar no castelo. Queria caminhar pelo acampamento, olhar as pessoas e cavaleiros, mirar os estandartes e apostar com Jon e Theon quem iria sair vencedor do torneio de justas. O castelo, grande demais, lhe dava a impressão que cairia a qualquer momento e lhe trazia desconforto.
Porém, seria completamente descortês não entrar e cumprimentar Lorde Blackfyre primeiro. Por isso, os três jovens contiveram sua ansiedade de explorar o acampamento e seguiram para dentro do castelo. Passaram por um enorme lugar, onde muitos homens se exercitavam. Algumas mulheres treinavam arco e flecha, sendo que muitas delas eram apenas garotinhas, um pouco mais novas que Arya. Passaram por aquele salão e viram outros lordes passarem aqui e ali.
Foi quando entraram num salão tão grande que poderia caber todo um exército. As lareiras existiam aos montes e Robb, num momento de devaneio, começou a contá-las. Contabilizou vinte e seis lareiras e não tinha terminado de enumerá-las, quando um homem apareceu, seguido de outros.
Reconheceu imediatamente Lorde Blackfyre. Ele era diferente de qualquer outro homem que já tivesse visto. Muito loiro, com a barba bem feita ao redor do maxilar. Os olhos violetas, um sorriso animado, com os cabelos de ouro e prata caindo por seu rosto, quase na altura dos ombros, que eram largos e fortes. Ao lado dele, havia um rapaz, muito parecido, com os mesmos olhos violetas, cabelos da mesma cor, apesar de serem curtos. Pai e filho, lado a lado, tão parecidos um com o outro quanto era possível.
—Ned. – riu lorde Blackfyre abrindo os braços, como se viesse receber um grande amigo que não visse há séculos. Ele abraçou seu pai sem absolutamente nenhuma cerimônia, fazendo com que o nortenho risse acanhado e recebesse olhares invejosos de outros lordes que mendigavam a atenção do anfitrião – Céus, há quantos anos. Como está Lady Stark? Ela veio?
—Sempre deve haver um Stark em Winterfell. – respondeu seu pai, calmamente – Catelyn está tomando conta do castelo. Você chegou a conhecer meu filho Robb?
Robb avançou e estendeu a mão para o homem, que sorriu animado.
—Não. Não o conheci. Como vai, rapaz? – perguntou lorde Haegon, parecendo muito animado com tudo aquilo – Esse aqui é seu filho também? É a sua cara. – disse ele se referindo a Jon, que corou de leve.
—Sim. Esse é Jon. É meu filho também. – respondeu seu pai, simplesmente e Haegon, provavelmente sem saber que Jon era um bastardo, o cumprimentou com igual entusiasmo.
—Pois seja bem vindo, Jon. – riu ele – Eu devo dizer que... – ele suspirou – Deixa pra lá. Teremos tempo pra conversas mais tarde... Aegon. Onde estão os seus irmãos? – perguntou ele para o filho mais velho.
—Valerion estava treinando para as justas com o Humfrey Hightower. Shiera estava por aí. – disse Aegon desinteressadamente. Mas o pai o olhou astuto e revirou os olhos, enquanto o filho mantinha um olhar suspeitosamente inocente.
—Essa garota ainda vai deixar meus cabelos todos brancos.
—Poucos notariam a diferença, pai. – riu o jovem dragão negro – Por favor. Sintam-se em casa. Vou mandar uma camareira levá-los para seus aposentos. Mas vocês três deveriam ir passear pelo acampamento, enquanto o pai de vocês não os arrasta para formalidades enfadonhas.
Theon deu uma risadinha e Robb olhou o pai com um olhar suplicante. Ned Stark acenou positivamente, dando seu consentimento, e então os três jovens sentiram-se livres para sair dali.
Deixaram o castelo, olhando para todos ao redor. Passaram pelos cavaleiros e lordes que não caíram na graça de Lorde Blackfyre e estavam acampados do lado de fora. Depois chegaram nos cavaleiros errantes e nos comerciantes, onde tudo parecia muito mais agitado. Um grupo tocava uma música agitada e os camponeses dançavam, batendo palmas. As donzelas brincavam, descalças e alguns homens bêbados as chamavam para dançar.
Um homem passou vendendo churrasco de gato, outro vendendo cerveja. Uma mulher tentou vender um escudo que provavelmente tinha sido roubado, uma garotinha tentou roubar sua sacola de moedas e teria conseguido se Jon não a tivesse visto primeiro.
Compraram um pouco de carne de gato e um corno de cerveja cada um, apreciando a música, as donzelas, o barulho e a festa. Em Winterfell tinha uma imagem a manter. A do legítimo herdeiro. Tinha que ser reservado, sempre preocupado com sua reputação. Mas ali... ali ele se sentia apenas mais um e não via motivos que o proibisse de ficar bêbado, ou de se afogar nas pernas de alguma garota desinibida.
Seus olhos, já depois do terceiro corno de cerveja, avistaram um trio de garotas, que se divertia ali perto. Uma delas era alta e esguia, com os cabelos bem dourados, os olhos azuis, os seios pequenos, um nariz pontudo e um sorriso tímido. Mas as outras duas pareciam muito mais soltas e desinibidas. Uma tinha os cabelos castanhos, os olhos verdes, os seios fartos com as ancas bem proeminentes. O decote dela estava quase desamarrando e ela não parecia se dar conta disso enquanto bebia seu corno de cerveja. As duas usavam roupas e joias que denunciavam um nascimento elevado. Deveriam ser filhas de algum lorde que haviam despistado suas septãs.
Já a terceira usava um vestido muito simples. Os cabelos estavam desarrumados e adornavam seu rosto de maneira selvagem. Ela não usava joias, nem nada muito sofisticado, mas exalava uma nobreza invejável assim mesmo. Seus lábios eram bem avermelhados, seus olhos pareciam de um azul profundo e bem escuro e seus cabelos eram negros como um céu noturno sem lua e sem estrelas.
As três se divertiam e gargalhavam ali perto e logo notou que Theon as observava. Jon também as olhou, afinal as três eram bonitas e chamavam a atenção. Um homem bêbado tentou chamar a de cabelos negros para dançar, mas ela se recusou e as três gargalharam novamente. Robb imaginou que tanto ela, quanto a de cabelos castanhos deveriam ser damas de companhia da garota loira.
—O que estamos esperando? – perguntou Theon. Robb olhou para o meio irmão, que sorriu animado com a ideia de falar com as garotas, por mais tímido que fosse.
Os três avançaram até as garotas, que logo notaram suas presenças. A loira pegou um leque e o abanou em frente ao rosto, lhes escondendo o sorriso. A castanha deu uma risadinha um tanto escandalosa e a de cabelos negros olhou para eles como se tramasse alguma brincadeira.
Ela era, de longe, a mais bonita das três, por mais que aparentasse ser de pior nascimento, o que era uma pena. Aquela ali era bonita o suficiente a ponto de fazê-lo repensar a ideia de ser prometido a alguém.
—Olá, senhoritas. – disse galante, fazendo uma mesura com a cabeça. As três deram risadinhas, dando os braços uma para a outra, denunciando um grande grau de intimidade. As três baixaram-se numa mesura e voltaram a dar risadinhas animadas – Espero que aqueles brutos não as tenham incomodado.
—Acho que poderemos sobreviver. – riu a castanha, o olhando nos olhos sem demonstrar o menor sinal de embaraço – Vieram competir nas justas ou apenas assistir?
—Nós viemos participar. – mentiu Theon. Nenhum deles planejava participar das justas, já que não era do agrado de seu pai. Ele não os proibira, afinal eram homens feitos, mas Robb não tinha a menor intenção de contrariar o senhor seu pai – E vocês? Vieram participar das justas ou apenas assistir? – perguntou ele num tom de total descontração. As duas morenas riram, mas a loira o olhou parecendo achá-lo bobo – Espero que torçam por nós.
—Ah, certamente. – riu a castanha – Posso saber o nome dos nossos campeões?
—Eu sou Theon Greyjoy. Herdeiro de Balon Greyjoy, senhor das Ilhas de Ferro. – gabou-se Theon – Esse é Robb Stark, filho de Eddard Stark, Lorde de Winterfell e protetor do Norte. – disse Theon colocando uma mão em seu ombro – E esse é Jon Snow. O bastardo.
—Oh, cale a boca. – ralhou Robb, enquanto Jon revirava os olhos.
—Você é um bastardo? Eu também sou. – riu a de cabelos negros andando em direção a Jon – Alguma coisa em comum nós temos. – adicionou ela num óbvio flerte, fazendo seu meio irmão corar. Suspirou olhando para as duas outras garotas. Se pudesse escolher uma delas para se divertir, seria a castanha. A loira parecia muito séria.
—Desculpe, senhorita... mas você está mentindo. – riu Jon e Robb o olhou curioso.
—Estou? Por que diz isso? – perguntou ela.
—Porque você não é uma bastarda. Você é de alto nascimento. Filha de algum lorde. – disse Jon com confiança na voz.
—Não sou. – insistiu a garota, fechando a cara para Jon e cruzando os braços – Se quer saber o quão bastarda eu sou, eu vou contar, sor Jon. – riu ela se aproximando dele um passo – Minha mãe era uma puta...
—Lyssandra! – ralhou a loira, parecendo chocada, mas a de cabelos negros balançou a mão, como que exigindo que ela se calasse, arrancando risadinhas da castanha.
—Minha mãe era uma puta, que seguia o acampamento dos soldados durante a Rebelião de Robert. – disse a garota com um sorriso quase divino – E ela era tão linda que todos os soldados queriam que ela os confortasse em suas tendas, tão bela que até mesmo o príncipe Rhaegar, na noite anterior à batalha que teria com Robert, desejou ter com ela uma noite. E quando a guerra acabou, mamãe veio para cá, para trabalhar num bar, com uma bolsa cheia de moedas e um bucho. Eu nem ao mesmo sei quem é meu pai, mas até onde eu sei, eu posso ser uma princesa Targaryen perdida. – disse ela com divertimento, colocando as costas das mãos na testa, num falso drama. A castanha riu ainda mais e a loira a olhou com censura.
—Eu acredito piamente em sua história. – riu Theon – Uma garota tão atrevida quanto você só poderia ser filha de uma prostituta mesmo. – brincou ele. Theon tinha essa mania de fazer piada de tudo, acabando por ser rude muitas vezes, mas a garota não pareceu se importar, ao contrário da amiga loira dela.
—Está mentindo. – insistiu Jon com um sorriso confiante.
—E por que diz isso? – perguntou ela parecendo se aborrecer.
—Você anda, fala e respira como se fosse dona do mundo. Nenhum bastardo faz isso. – disse Jon e ela revirou os olhos.
—Deve ser o sangue Targaryen que pulsa em mim. – brincou ela num tom de zombaria. A castanha sorriu e a loira parecia quase em pânico.
—Deveríamos ir embora. – disse ela.
—Não seja chata. Vamos nos divertir. – riu a de cabelos negros, olhando ao redor com enorme entusiasmo. Foi quando Robb notou que Jon tinha razão. Ela era mais arrogante e mandona, do tipo que estava acostumada a dar ordens. E algo nela lembrou ligeiramente Arya – Vamos ver os pugilistas.
—Eu acho que devemos ir embora. – insistiu a loira.
—E eu acho que você se preocupa demais. – riu a castanha – Temos três lindos rapazes aqui, desejando nos conhecer melhor e você quer ir embora.
—Você sabe muito bem o porquê. – sibilou a loira. Mas a castanha já não a olhava mais.
—Bem, você conheceu Lyssandra Rivers. Eu sou Genna Blackwood e essa aqui é Rhaella Velaryon.
—E o que duas mocinhas bem nascidas fazem com uma bastarda? – perguntou Theon – Filha de uma prostituta?
—Elas estão aprendendo a viver. – respondeu Lyssandra com um sorriso maroto – E então, qual de vocês vai querer lutar com o favor da nossa doce Rhaella? – perguntou a morena abraçando a amiga.
—Velaryon é uma casa nobre e antiga, acho que Robb deve ficar com ela. – riu Theon e Robb o olhou semicerrando os olhos – E será um prazer receber o favor da senhorita Blackwood. E Jon pegará o seu favor.
—Um bastardo lutando nas justas? – perguntou ela cruzando os braços.
—Ele é um verdadeiro campeão do norte. – riu Theon e Jon revirou os olhos novamente.
—Você é muito sério, Jon Snow. – resmungou a garota de cabelos negros. Ela olhou enfada para ele e uma música agitada e animada começou a tocar. Muitos camponeses dançavam animadamente, levados pela bebidas. Cavaleiros errantes e mercenários entraram na dança e Lyssandra sorriu como se tivesse tido a melhor de todas as ideias do mundo – Dance comigo Lorde Snow.
—Eu não sei... – começou Jon, mas a garota o puxou decidida e ele simplesmente foi. Theon e Robb gargalharam, enquanto Jon olhava desesperado para eles, num pedido mudo de ajuda. Mas Lyssandra o fez olhar para ela e cruzou seu braço com o dele, o guiando.
Mas aquela dança deles era diferente de tudo que tivesse no norte. As pessoas batiam palmas e dançavam aos saltos, girando no mesmo olhar e movendo os pés muito rápido. Jon tentou acompanhar, mas era muito difícil e ele não tinha muita coordenação praquilo. Lyssandra, no entanto, dançava na frente dele, daquele jeito animado, movendo um braço acima dos cabelos e girando a saia, num movimento que algumas vezes expunha suas coxas grossas.
—Eu adoro esse lugar. – riu Theon. Rhaella olhava horrorizada para Lyssandra, que puxara Jon para muito perto, colocando a mão dele em sua cintura. Então os dois começaram a girar como loucos, imitando alguns casais. Juntos demais para uma dança da corte e Robb se perguntou se ela não era mesmo uma bastarda – Olha lá o safado do Jon. Já está todo cheio de sorrisos. – riu Theon batendo palmas no ritmo da música.
—Como ele não ficaria? – riu Genna – Dança comigo, Lorde Stark.
—Com prazer. – riu Robb feliz por deixar Theon com a lady de gelo. Sem muito pudor, colocou a mão na cintura garota e a outra deixou dobrada nas costas. Os dois sorriram e começaram a dançar como as pessoas simples, se deixando levar pelo ritmo animado e o som das palmas. Aos saltos e giros. Logo Theon também estava dançando, tentando imitar um complicado movimento de pés de uma outra garota, enquanto Rhaella apenas batia palmas assistindo a farra das amigas.
Já estava ficando tonto por conta da bebida e da dança, então assim que teve oportunidade, agradeceu pelo momento e chamou Genna para uma conversa em um lugar menos barulhento. Ela o olhou como se desejasse muito aquilo (e outras coisas mais), mas negou.
—Eu preciso ficar de olho nas minhas amigas. Lyssandra já bebeu muito e ela não tem esse costume.
Jon encerrou a dança também, apesar de estar rindo, muito feliz. Lyssandra gargalhava apoiando-se nele e o puxou para onde Rhaella estava. Genna piscou para Robb e foi para junto das amigas e ele não viu alternativa a não ser segui-la.
—Ok, agora que já estão sujas, suadas e descabeladas, podemos voltar para o castelo? – ralhou Rhaella com um sorriso divertido.
—Sim, lady Blackfyre. Seu pai estava procurando por você. – disse Jon com um sorriso divertido.
As três garotas pareceram tensas e olharam para Jon ao mesmo tempo.
—Lady Blackfyre? – perguntou Lyssandra – Essa é boa. Mas eu prefiro Daena Targaryen. – zombou ela.
—Seus olhos parecem azuis num primeiro momento, mas depois de dançar com você, notei que são violetas, como o do seu irmão e do seu pai. – disse Jon e Robb olhou para a garota, notando que os olhos dela realmente eram violetas.
—Eu não sou lady Blackfyre, Lorde Snow. – riu ela. Rhaella a olhou de cenho franzido e Genna pegou mais um corno de cerveja, como se não quisesse opinar naquilo.
—Eu acredito que seja. – devolveu Jon com um sorriso divertido. Lyssandra... ou talvez Shiera... olhou zangada para ele e colocou as mãos nos quadris.
—Se eu fosse Shiera Blackfyre, eu estaria realmente zangada com você, por estragar minha brincadeira.
—Você perdeu, Shiera. – riu Rhaella – Você prometeu que se alguém te reconhecesse nós iríamos embora. E dessa vez não foi nenhum dos meus irmãos!
—Oh, Walda! – ralhou Shiera Blackfyre. Ela bufou irritada e as amigas dela deram risadinhas – Como queiram! Espero que esteja satisfeito, Lorde Snow! – ralhou ela para Jon, que sorriu sem jeito – Você me deve uma, ouviu? – ralhou ela cutucando o peito de Jon, que a olhou constrangido.
—Não precisam ir embora... – murmurou Jon e Robb concordou.
—Manteremos seu segredo, lady Blackfyre. – riu Robb – E você não se chama Rhaella? – perguntou ele para a loira.
—Sou Walda Frey, em homenagem ao meu avô. – resmungou ela cruzando os braços – Como se nenhum dos meus tios tivessem pensado nisso antes... – adicionou ela revirando os olhos.
—E você? – perguntou Robb para a castanha.
—Talisa Rivers. Sou bastarda de Lorde Whent, mas Lorde Blackfyre viu que Shiera me amava e me convidou para viver no castelo com ela. – Talisa olhou para Shiera que deu um sorrisinho – O que seria de você sem mim?
—Eu só teria um monte de Freys.
—Eu sei, um pesadelo. – riu Walda e Robb mirou a filha do Lorde Blackfyre. Ela era realmente muito bonita, mas ela parecia irritante e arrogante demais para seu gosto – Mas é melhor voltarmos. – insistiu a loira.
—Espero que esteja satisfeito, Jon Snow. – ralhou Shiera e Jon baixou os olhos, constrangido – E não se esqueça que está me devendo. Quando eu tiver a oportunidade, vou cobrar de você!
Theon deu uma risadinha e as três começaram a se afastar.
—Ei, não querem uma escolta? – perguntou Theon. As três se entreolharam e Talisa concordou.
—Claro. Vocês podem vir suspirar por nossa estonteante beleza. Principalmente você, Stark. – adicionou ela lhe lançando uma piscadela. Robb deu um sorrisinho e os três escoltaram as garotas até o castelo.
**
A noite estava fresca, na opinião de Tyrion. Ele levantou o olhar para o enorme castelo de Harrenhal e sorriu ao pensar que muitos homens deveriam se sentir anões ao entrarem ali. Bebia um bom vinho, observando a festa que acontecia do lado de fora.
Alguns titereiros faziam um pequeno espetáculo ali, sobre Haren, o Negro, e várias pessoas assistiam, encantadas. Mas ele achou que já era hora de voltar. Tinha saído apenas para mijar e se demorara demais do lado de fora. O caminho de volta para o salão das Cem Lareiras, que na verdade eram menos de quarenta, era mais longo do que ele gostaria.
Voltou bamboleando de volta para o castelo, com dois guardas Lannisters fazendo sua escolta. As pessoas o olhavam de rabo de olho, mas ele era acostumado com os olhares e já tinha aprendido a ignorar. Ficaria mais um pouco na festa e então pediria para que seus homens lhe arrumassem uma garota bonita para lhe fazer companhia durante a noite.
Depois de uma boa caminhada se viu de volta ao salão principal, que por mais cheio que estivesse, parecia parcialmente vazio por seu exagerado tamanho. Sabia que durante o inverno Haegon permitira que muitos camponeses acampassem ali e nem mesmo assim conseguira lotar o salão. Só podia imaginar o pesadelo que deveria ser morar ali. Num castelo que sempre parecia vazio demais.
Deu mais um gole em seu vinho e mirou Haegon sentado à mesa principal, com um delicioso banquete a sua frente. Seus dois filhos estavam sentados, cada um de um lado. Aegon, o mais velho, estava do lado direito. O jovem Dragão Negro. Ele era muito parecido com o pai, mais do que deveria ser permitido a um filho ser. Valerion era mais baixo e mais magro que o irmão mais velho. Os cabelos eram mais ondulados e um pouco mais amarelados do que platinados. Mas os olhos eram exatamente os mesmos, com longos cílios platinados, adornando a íris violeta.
Mas as diferenças ainda existiam em nuances mais discretas.
Todos sabiam que Aegon era um guerreiro e ele transbordava isso. Ele tinha o ar desafiador e arrogante que a mãe dele tivera, antes de morrer, cinco anos atrás. Seus sorrisos eram sarcásticos, seus olhares eram penetrantes e afiados. Seus gestos eram firmes e confiantes e muito dele lhe lembrava seu irmão Jaime. Aquele jeito que parecia pensar que nada daria errado em sua vida. Aquela mania de não aparentar ter medo de coisa alguma. Sabia que ele tinha herdado o gosto do pai para a vida no mar e ele mesmo tinha ficado muitos anos trabalhando no comércio com as Cidades Livres. Por conta disso ele falava relativamente bem vários idiomas de Essos.
Mas Valerion não era assim. Ele era mais gentil e carismático, como Haegon era. Seus movimentos eram mais harmoniosos que os do irmão e ele tinha sorrisos mais gentis, que deixavam as donzelas com os joelhos trêmulos. Se lembrava que ele fora a Porto Real no ano anterior, para o torneio em homenagem à Myrcella. Sua sobrinha passara o evento todo suspirando por ele e o garoto soubera tratá-la com tanta cortesia e amabilidade que até Cersei gostou dele. Porém, como ele ainda era escudeiro do irmão, não pode participar do torneio e as habilidades na justa e na espada ainda lhe eram desconhecidas. Porém, imaginava que ele não devia ser talentoso como o irmão. Nunca vira Aegon segurar um livro que fosse, enquanto sempre via os dois gêmeos conversando sobre os livros que liam.
Todos diziam que Aegon parecia Aegon, o Conquistador e Tyrion pensava que Valerion era como Rhaegar fora. Só se perguntava se algum dia ele sequestraria alguma donzela por mero capricho, como o falecido príncipe tinha feito.
Sim, ele conhecia os dois pequenos dragões, os últimos em Westeros, mas ele gostava mais da pequena Shiera. Ela morara na corte durante três anos, logo depois que a mãe dela falecera. Haegon ficara tão destruído com a morte da esposa, que mandou os dois filhos para longe, deixando que Aegon administrasse Harrenhal. Ninguém sabia o que Haegon fizera nesse meio tempo. Alguns diziam que ele voltara para Valíria, mas ele achava aquela ideia no mínimo idiota.
Shiera e Myrcela ficaram amigas, já que a menina acabou morando lá, enquanto Valerion foi enviado para Pedra do Dragão, para ficar com Stannis. Provavelmente os três anos mais chatos da vida dele.
Tyrion desviou o olhar da mesa e deu mais um gole em seu vinho, andando até onde seis Imaculados faziam guarda. De acordo com Haegon, eles não eram mais Imaculados, pois ele os libertara antes de pisar em Westeros, mas Tyrion não acreditava que houvesse como reverter aquele processo. Os seis homens estavam de pé, com as lanças rentes a seus corpos fortes, os rostos sérios e duros. Tão quietos quanto estátuas. Eles guardavam os dois prêmios do torneio de justas.
O ovo de dragão, que era azul marinho com pequenos detalhes em pérola, do tamanho de um cálice. Suspirou apaixonadamente por aquele prêmio. Sabia que não passava de uma pedra fossilizada, mas sua imaginação fértil e descontrolada logo começou a desenhar uma imagem de si mesmo, montado em um deslumbrante dragão de mesma cor. Seu pequeno sonho de infância...
Ao lado do ovo estava a espada. Para ele, ela não parecia tão impressionante. Não se fosse comparada com o ovo ao seu lado. Mas mesmo ele, que não tinha absolutamente nenhum olho para aquele tipo de coisa, podia ver que era uma obra prima. Sua lâmina era rajada, mostrando que o ferro havia sido trabalhado de maneira diferente. O punho tinha bonitas pedras preciosas.
Uma espada grande demais para alguém como eu.
Sim, ela era bonita, mas em nada se comparava ao ovo de dragão. Acabou se distraindo, perdido em devaneios e com o bom senso entorpecido pelo vinho, e se aproximou mais do que deveria, fazendo os guardas lhe apontarem as lanças.
—Calma, rapazes. – riu levantando os braços em sinal de rendição – Só queria olhar mais de perto.
—Ninguém pode chegar mais perto. – disse o Imaculado, com um péssimo idioma comum. O sotaque dele era extremamente carregado, o que fez Tyrion dar uma risadinha.
—Acha que um anão poderia oferecer perigo? – perguntou ameaçando dar mais um passo, mas o rapaz brandiu a lança perigosamente perto de seu nariz.
—Pulguento. – ralhou uma voz feminina e Tyrion se virou. Shiera Blackfyre se aproximava, com um sorriso contente no rosto – Não ouse machucar Sor Tyrion. Ele é meu melhor amigo. – riu ela lhe oferecendo uma piscadela. Tyrion sorriu para a garota e soltou um suspiro ao encará-la.
Ela usava um vestido negro, cravejado de rubis. Em seu pescoço havia um colar cheio de diamantes negros e vermelhos, que reluziam de maneira belíssima. Os cabelos compridos estavam soltos e caíam muito além de sua cintura. Os olhos violetas pareciam mais duas joias, brilhando em seu bonito rosto. Ela tinha uma boca carnuda, naturalmente avermelhada, que parecia um convite indiscreto para um beijo avassalador. A cintura fina, com os quadris largos e o busto perfeitamente proporcional ao seu corpo era um desenho perfeito do delírio mais profundo do desejo masculino.
—Shiera... quando recebi o convite de seu pai, achei que ele estava exagerando... – disse Tyrion recebendo um sorriso gentil da garota – Mas agora vejo que ele não estava.
—Obrigada. – respondeu ela se aproximando e olhando para o ovo de dragão – Lindo, não é?
—Como seu pai conseguiu isso? – perguntou curioso.
—Não ouviu as histórias? – perguntou ela com aquele sorrisinho maroto – Sobre como ele sacrificou minha mãe num ritual, levando seu corpo para a antiga Valíria e trazendo de volta vários ovos de dragão? – ela deu uma risadinha e se aproximou ainda mais, mas os guardas não fizeram menção de impedi-la ou de afastá-la. Shiera então esticou os braços e pegou o ovo em suas mãos. Depois ela se virou e lhe entregou – Olhe. São quentes... como se nem o tempo fosse capaz de apagar o fogo mágico que havia dentro deles.
Tyrion segurou o ovo, surpreso com o peso e com a temperatura. De fato o ovo estava quente como uma pedra que ficara muito tempo debaixo do sol. Os padrões dos detalhes em pérola no fundo azul marinho eram extremamente bonitos, mais bonitos que qualquer tapeçaria de Myr que ele já tivesse colocado os olhos. Agora que o tinha em mãos, notou que era bem maior que sua taça de vinho, que agora jazia no chão.
—Impressionante. – disse apaixonado pela relíquia.
—Sor Jaime vai vir? – perguntou Shiera pegando o ovo de volta e o colocando em seu devido lugar – Ele poderia ganhar o torneio e dar o ovo para você e ficar com a espada de aço valiriano. Sei que a casa Lannister perdeu a sua espada há muitos anos atrás, não é?
—Sim. Mas não acho que Jaime me daria o ovo. Ele provavelmente entregaria a Cersei. – disse suspirando pela pedra escamosa.
—Nunca se sabe. – Shiera soltou um suspiro – Eu lhe daria o ovo se ganhasse o torneio, mas papai não me deixou participar das justas. No máximo poderei me exibir com meu arco. – disse ela parecendo zangada com aquilo.
—Bem... ele precisa dar uma chance para que outros possam conquistar o ovo. Quem teria coragem de tentar te acertar uma lança? – perguntou Tyrion e Shiera deu um lindo sorriso.
—Mas Sor Jaime vai vir? – ela perguntou novamente – Não imagino outro cavaleiro que possa derrubar Aegon além dele. – ela disse calmamente, sem um pingo de malícia ou arrogância.
—Eu não tenho certeza. Robert queria vir, mas ele não estava bem das tripas. Num momento de crise ele proibiu qualquer um de vir. Mas ele pode ter mudado de ideia, sabe como nosso rei é. – Shiera concordou, soltando um suspiro sonhador e olhando para os prêmios – Mas eu não seria tão confiante de que apenas Jaime seria capaz de derrotar seu irmão. Já viu os irmãos Clegane?
Shiera fez uma careta e concordou com um aceno de cabeça.
—Sor Tyrion! – chamou uma voz. Os dois se viraram e viram Lorde Haegon se aproximar, parecendo muito bêbado – Um brinde à donzela mais linda dos Sete Reinos! – disse ele levantando a taça.
—Certamente. – riu Tyrion se abaixando para pegar sua taça – Que ela continue deixando muitas donzelas com inveja por muitos e muitos anos ainda. – os dois brindaram e beberam todo o vinho que ainda tinha nas taças.
—E que arranje um bom marido. Um esperto, não um desses idiotas que sobram por aí. – riu Haegon. Shiera revirou os olhos com um sorrisinho – Sor Jaime vai vir, Tyrion? Ou você será o único representante Lannister nas justas? – Tyrion deu uma risada seca da piadinha – Desculpe, desculpe. E seu pai? Ele vai vir? Há anos não vejo Lorde Tywin.
—Bem, se a intenção dele for estragar a minha diversão, como eu bem sei que é... provavelmente ele virá, junto com meu tio Kevan e meu primo Lancel. – respondeu Tyrion – Dizem que Lancel é muito bonito.
—Beleza passa. – disse Haegon e Shiera acenou para as amigas que chegavam.
—Com sua licença. – murmurou ela.
—Pode ir. – riu Haegon e Shiera foi andando até as amigas – Como as crianças crescem rápido.
—Shiera está muito bonita. Os olhares são todos pra ela. – disse Tyrion mirando três jovens rapazes que acompanhavam a donzela com o olhar – Além de ser fácil para os olhos, ela é uma boa garota. O homem que desposá-la será um bastardo sortudo. – Tyrion olhou para o Lorde do castelo, que encarava o ovo de dragão – Alguns dizem que você oferecerá a mão de sua filha ao vencedor do torneio, se ele concordar que ela é a mais bela de todas.
—Algumas pessoas falam asneiras demais. – riu Haegon – A verdade, Sor Tyrion, é que eu gostaria e muito que minha filha se apaixonasse por um desses cavaleiros errantes e que esse cavaleiro fosse capaz de chegar ao fim da disputa. Então eu ofereceria a mão dela e os dois viveriam aqui, onde eu poderia ficar de olho neles. Esse castelo é grande demais. – resmungou o homem, franzindo o cenho – Eu deveria ter pedido as terras dos Tyrell. Jardim de Cima. As terras são férteis, o clima é ótimo e meu maior problema seriam os homens de ferro. – ele soltou um muxoxo – Mas eu aprendi que não devo ignorar meus sonhos. E nos meus sonhos eu era o Lorde de Harrenhal.
—Sonhos? – perguntou Tyrion.
—O sangue valiriano ainda corre em minhas veias. – disse o homem, parecendo balançar de leve, graças ao vinho – Eu sei quando vai chover. Eu sei quando teremos secas e eu sei dizer quando o inverno vai chegar. Eu sonho com isso. E quando eu sonho, acontece. E Shiera tem o mesmo dom. Aegon debocha, pois acha que não passa de superstição... esse garoto, apesar de ser tão igual a mim... é tão diferente... Ele não é um sonhador. Ele é um maldito de um cabeça dura e algumas vezes eu penso em mandá-lo para Essos, para Volantis... para mantê-lo a salvo da própria cobiça.
—Do que está falando? – perguntou Tyrion olhando para Aegon, que parecia tão régio quanto Cersei.
—Estou dizendo que, apesar de todos falarem de Aegon, eu sei que Valerion é muito mais parecido comigo... aqui – ele colocou a mão na cabeça – e aqui... – disse ele cutucando o peito esquerdo – Eu vejo isso melhor do que as outras pessoas, mas não sou o único. Walder Frey já me disse isso também... mas deixa isso pra lá. – riu ele – Espero que aprecie a festa, Tyrion. E fique longe do ovo de dragão. Você não seria o primeiro anão a roubar um desses de um lorde rico. – riu Haegon, fazendo Tyrion sorrir.
**
Jon abriu os olhos e viu um par de olhos verdes encará-lo, com um sorriso divertido. Uma chuva de cachos castanhos caía em seu rosto enquanto a garota levava o dedo indicador aos lábios, pedindo silêncio. Olhou para os lados do enorme quarto e viu que Robb e seu pai dormiam em suas respectivas camas. Depois olhou novamente para Talisa Rivers, que o puxava pelo braço, para que levantasse.
Negou com a cabeça, constrangido, se perguntando o que ela queria com ele, mas a garota insistia em puxá-lo. Ela acabou revirando os olhos e o puxou com mais força, movendo os lábios sem produzir som, exigindo que ele se apressasse.
Olhou novamente para o irmão, sem saber o que fazer naquela situação. Será que ela queria levá-lo para um quarto vazio, para...
Não. Não era possível...
Apesar de que...
Não. Não e não. Não faria isso. Não arriscaria a reputação da garota, por mais que ela fosse uma bastarda. Ele não tinha o direito de desonrá-la. Mas ela simplesmente continuou a puxá-lo. Com medo de que Robb ou seu pai acordassem, ele se levantou e a seguiu, sentindo o chão frio sob seus pés descalços. Ela o levou para fora e fechou a porta sem fazer barulho. No chão havia uma capa, que ela jogou em suas costas e cobriu seu rosto com um capuz.
—O que está fazendo?!
—Lyssandra quer falar com você. Disse que você está devendo a ela. – riu Talisa o puxando apressadamente pela mão.
Jon sentiu um solavanco na barriga ao escutar tais palavras. Não conseguira ser discreto naquela noite. Harrenhal, como Theon irritantemente repetira toda noite, de fato estava repleto de lindas donzelas. Todas muito bonitas, nobres, elegantes. Mas nenhuma delas se comparava a Shiera Blackfyre. A tinha achado muito bonita quando a vira da primeira vez, mas naquele baile ela estava com uma beleza intimidadora e só de pensar que dançara com ela, com as mãos em sua delicada cintura, sentia o corpo esquentar e o rosto corar.
—E o que ela quer de mim? Ela está zangada? – perguntou Jon sem saber como reagir. Já bastava uma mulher bem nascida o desprezando... não queria que uma garota mimada tivesse intrigas com ele.
—Oh, ela está louca da vida. – riu Talisa e Jon não soube o que ela queria dizer com aquilo.
Os dois seguiram para fora do castelo, para o acampamento. Ainda rolava muita festa ali, apesar do horário e Jon desconfiava que a festa não cessaria antes do fim do torneio. Os lordes tinham sim se retirado para descansar, mas os comerciantes e o povo comum ainda festejava, bebia e cantava. Talisa levou Jon para uma tenda, relativamente afastada. Uma tenda relativamente simples, mas bastante espaçosa. Ela puxou o tecido da entrada e acenou com a cabeça, para que ele entrasse.
Engolindo em seco, o rapaz obedeceu e entrou na pequena tenda, que não era maior do que a tenda em que dormira na vinda para Harrenhal. Shiera Blackfyre estava lá dentro, deitada numa cama de palha, usando um vestido simples e uma capa de viagem. Ela estava lendo um livro grosso, mas quando ele entrou, ela o fechou e sorriu travessa. Sentiu cada fio de cabelo se arrepiar ao ver o sorriso dela.
—Lorde Snow. – riu ela se aproximando.
—Por que me chama assim? – perguntou ele franzindo o cenho. Não gostava daquele apelido.
—Porque eu sonhei com você. – riu ela se aproximando ainda mais e Jon piscou confuso.
—Essa noite?
—Não. Muitas noites atrás, antes mesmo de te conhecer... eu já tinha te visto em sonhos. – sussurrou ela ficando muito próxima. Mais próxima do que a etiqueta permitia que um rapaz ficasse de uma donzela. Shiera sorriu para ele – Eu vi chamarem você de Lorde Snow. Eu te vi numa grande batalha, liderando um grande exército. Você parecia diferente nos meus sonhos. Menos tímido, menos assustado... mas com fúria no olhar e determinação em todo o seu ser. Passei anos me perguntando se eu veria esse jovem dos meus sonhos e então você apareceu. Não é engraçado, Lorde Snow?
—Não me chame de Lorde Snow. – pediu desviando o olhar.
—Stark seria melhor? – perguntou ela com um sorriso travesso.
—Não sou um Stark.
—É filho de Lord Eddard Stark...
—Mas não sou filho de Lady Stark, o que faz de mim um bastardo. – resmungou se afastando dela. A garota deu uma risadinha.
—Sim... você ainda é Jon Snow, mas um dia será Jon Stark, o lobo branco de Winterfell... eu vi nos sonhos... e quando eu vejo, acontece. – sussurrou ela. Não acreditou naquilo e imaginou que ela apenas estava brincando com ele. Shiera sorriu se aproximando de novo – Tempos difíceis estão vindo, Jon Snow. O inverno está chegando... e com ele, destruição, sangue e morte. – sussurrou ela e Jon sentiu um arrepio agourento ao escutar aquilo – Eu tenho pesadelos tão terríveis que algumas vezes não consigo dormir. – murmurou ela – Eu sonho com eles. Pálidos, com armaduras brilhantes e os olhos azuis... trazendo morte e frio... – ela se abraçou de leve – Algumas vezes eu acordo tremendo e gelada, não importando o número de peles que uso para dormir. O Inverno está chegando. – ela repetiu o lema dos Stark e mais do que nunca pareceu uma profecia assustadora. Jon conhecia o inverno e não sentia falta alguma dele – Mas eu vi você, Jon Snow, nos meus sonhos... e quando eu te vi, o frio se tornou um aconchegante calor. A escuridão se desfez e até mesmo a morte pareceu algo distante. Eu não sei o que vai acontecer, mas eu sei que você vai ter um papel importante nisso.
Ela o olhou nos olhos e ele não pode deixar de pensar no quanto os olhos dela eram bonitos, em como o nariz parecia tão perfeitamente desenhado no rosto dela e em como os lábios dela pareciam convidá-lo para algo mais. Não deveria estar pensando naquilo, não enquanto ela falava coisas tão estranhas, mas simplesmente não pode evitar.
—Por que me chamou aqui?
Ela sorriu novamente, se aproximando ainda mais e puxando a capa que usava sobre os ombros.
—Você me deve. – riu ela.
—E como exatamente quer que eu pague?
—Você estragou minha diversão. Portanto vai ter que guardar um segredo meu e outro do meu irmão. – riu ela. Jon piscou, confuso, sem entender o que ela queria dizer com aquilo – Você não pode participar das justas, por ser um bastardo. Mas você sabe? Você é bom com uma lança?
—Eu já treinei bastante em Winterfell... por que?
—Porque meu irmão tinha um lindo plano... que foi por água a baixo hoje. Ele pretendia participar escondido das justas, sob a alcunha de um cavaleiro misterioso... ele tinha até preparado uma armadura especial... surpreender a todos e ser proclamado cavaleiro durante o maior torneio do nosso tempo... mas, infelizmente, Humfrey o machucou durante um treino. Ele está com o braço dolorido demais para segurar uma lança. Meu pai até arrumou um Frey para ser o escudeiro do meu irmão mais velho no torneio. – ela suspirou – Mas seria uma pena uma brincadeira tão divertida dessas não poder acontecer. – Jon sentiu outro solavanco na barriga, sem acreditar no que escutava. Será que ela estava sugerindo o que ele achava que ela estava sugerindo?! – O que me diz, Lorde Snow? Você gostaria de participar secretamente do torneio? Eu e meu irmão Valerion podemos providenciar sua inscrição.
Jon olhou completamente em choque para a jovem a sua frente.
—Isso é algum tipo de brincadeira? – perguntou surpreso.
—Não, Lorde Snow. – riu ela. A jovem parecia prestes a dizer mais alguma coisa quando outra pessoa entrou na tenda. Jon se virou, sentindo calafrios, com medo que fosse alguém que entendesse tudo errado, mas era o irmão de Shiera, Valerion. O rapaz sorriu para ele, se aproximando e o rodeando.
—Sim, sim. Temos o mesmo porte. A armadura vai caber como uma meia num pé. – riu ele.
—Eu disse que iria. – concordou Shiera.
—Qual o seu nome? – perguntou o rapaz com um sorriso gentil – Não precisa ficar nervoso. Pense nisso como uma oportunidade para honra e glória.
—Ele acha que estamos tramando uma armadilha. – riu Shiera.
—Bem, se ele não for bom, podemos dizer que sim. Ele só vai apanhar lá. – riu Valerion – Qual o seu nome?
—Jon... Jon Snow.
—O bastardo de Ned Stark? – perguntou Valerion – Um nortenho, como eu imaginei. Bem... vocês do norte costumam dizer que lutam por cinco sulistas, não é? Vamos ver se é verdade. – Valerion saiu da tenda, com um entusiasmo sem tamanho e logo voltou com três pessoas, que traziam um enorme baú – Ah, Jon Snow... vou te apresentar a minha garota. – riu ele.
Os criados abriram o baú e Jon viu uma armadura bonita, alva, brilhante e de aparência magnífica.
—Vamos ver se cabe. – riu Shiera colocando as mãos sob sua camisa, para despi-lo, sem o menor pudor.
—Irmã! – ralhou Valerion.
—Oh, vamos. Não temos muito tempo! – riu ela e Jon corou de vergonha. Shiera o ajudou a colocar uma camisa de algodão e lhe deu um sorriso travesso enquanto isso. Depois colocaram um estofo, feito de couro, por cima da camisa e depois uma cota de malha. Nunca tinha usado aquele tipo de vestimenta e por isso se sentia muito pesado, mas os irmãos Blackfyre não tinham terminado. Valerion e Shiera começaram a vesti-lo com as placas de aço branco, que formavam a armadura. Quando estava completamente vestido, os dois irmãos o encararam com sorrisos bem parecidos. Jon, no entanto, não conseguia se convencer que tudo aquilo não passava de um sonho maluco – Pronto, Lorde Snow. Você parece mais Lorde do que qualquer um desses bufões que vieram disputar esse torneio.
—Eu preciso concordar. – riu Valerion – O que me diz, Jon? Você concorda em entrar no meu lugar? Eu vou assistir as justas disfarçado na multidão, para que todos pensem que você sou eu. Então não me envergonhe. – riu Valerion – Você só precisa vir aqui antes do torneio começar, para se preparar e então vou te dar o segundo melhor corcel do castelo, já que meu irmão vai cavalgar o Tempestade.
—Vocês são loucos. – riu Jon. Valerion deu uma risadinha.
—Não duvide disso nem por um segundo, Jon. – riu ele – Mas e então. Você está dentro?
—Ele está dentro. – decidiu Shiera – Ele me prometeu esse favor.
—Certo. – riu Valerion e Jon olhou surpreso para Shiera, sabendo que nunca havia feito promessa alguma. Os criados tiraram sua armadura e logo estava tudo guardado no baú, como se nunca tivesse passado de um louco devaneio – Até amanhã, Lorde Snow... e Shiera...
—O que? – perguntou a garota com um sorriso travesso.
—Comporte-se. – riu ele saindo da tenda. Shiera deu mais um de seus sorrisinhos e mirou Jon.
—Espero que não esteja intimidado demais. – riu ela.
—Eu ainda acho que vocês são todos loucos. – disse ainda em choque com tudo aquilo. Tinha a impressão de que acordaria a qualquer segundo.
—Bem. Talvez. – riu ela – E então, Lorde Snow... você gostaria de ir para o acampamento e continuar aquela dança? Ou talvez prefira voltar para o sossego de seus aposentos?
—Eu provavelmente vou acordar e achar que eu imaginei tudo isso. – disse honestamente. Shiera olhou para ele com seus olhos violetas e sorriu divertida. Depois, tirou seus brincos e os colocou dentro do bolso de sua calça.
—Para que não te esqueças de mim. – sussurrou ela ao pé de seu ouvido, antes de sair correndo para fora da tenda. Respirou fundo, com o coração acelerado e um sorriso bobo no rosto, sentindo os brincos de ouro da garota espetarem sua coxa de leve.
—Jon Stark, o lobo branco de Winterfell... – sussurrou se lembrando daquela parte do discurso dela...
Gostava da sonoridade daquilo...
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