Blackfyre
65 Entre Leões
Notas iniciais

Entre Leões
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Myrcella estivera furiosa e seu olhar causava arrepios em todos os que cruzavam seu caminho. Jaime engoliu em seco, ao lado dela, sentindo um calafrio. Ela tivera uma crise de nervos e foi preciso segurá-la para obrigá-la a beber uma mistura de leite de papoula, para acalmá-la. A cada dia que passava, mais olhava sua filha e via Aerys Targaryen. Todos pareciam sentir o mesmo medo, menos Cersei que tentava convencer a todos que era apenas a gravidez, além de culpar Valerion por ter abandonado a esposa.
Jaime não acreditava na fábula que os irmãos Blackfyre estavam contando, mas Valerion deixara suas forças em Porto Real, sob o comando de Tyrion. Não conseguia imaginar uma outra hipótese além dele realmente estar acreditando em mortos que andavam para matar os vivos. E isso também lhe causava calafrios. O que menos o preocupava naquele momento, era a luta que teria naquele dia, para inocentar Cersei. Teria que matar Lancel e isso não lhe parecia nem um pouco difícil. Ele estava mais velho e mais forte, deixando de ser um menino trêmulo e magricela, para se tornar um bom soldado. Mas ainda assim não seria páreo para ele.
Além do mais, ele teria uma espada de aço valiriano nas mãos. Um último presente de seu pai. A sacou da bainha, soltando um suspiro. Era a espada feita a partir de Gelo, que pertencera a Eddard Stark. Tywin tinha dado uma espada de duas mãos para ele e encomendado uma de uma mão e meia para Joffrey. A espada de Ned Stark era tão grande que foi capaz de prover material o suficiente para as duas lâminas.
Jaime mirou sua rainha, que finalmente dormia tranquilamente. Tyrion a olhava preocupado, assim como Cersei. A irmã, que não parecia estar tão preocupada com seu julgamento, estava de joelhos, com as mãos dadas a Myrcella. Tyrion estava de pé ao lado dela, olhando a sobrinha com preocupação. Jaime dividia a preocupação dele.
—Myrcella nunca foi assim. – Murmurou Tyrion.
—O que você sabe sobre gravidez? – Perguntou Cersei – Não há nada de errado com ela. É só essa guerra... é só esse lugar... Infestado de inimigos e traidores. É isso que a está afetando. – Cersei engoliu em seco a olhando com devoção e Jaime suspirou. Myrcella estava enlouquecendo. Todos sabiam disso. E quanto desse fato se devia ao incesto que a concebera? – Ela só precisa descansar. Ela precisa de alguém que cuide dela, pois em breve ela cuidará de outras vidas. – Sussurrou Cersei com carinho, afagando a barriga inchada da garota – Ela era jovem demais para isso.
—Ela quis isso. – Disse Tyrion.
—Mas ela não sabia o que estava fazendo! – Rosnou Cersei – Se uma criança quer brincar com uma espada, nós deixamos? Claro que não. O mesmo valia sobre esse casamento. Vocês deixaram que duas crianças decidissem isso. Ela não estava pronta. Não estava. – Cersei a afagou no rosto – E agora a julgam, a chamando de louca. Exigem que ela se porte com a maturidade de um adulto, quando pouco tempo atrás ela ainda brincava de bonecas e sonhava com canções e poemas. – Cersei suspirou e a porta se abriu. Tio Kevan entrou e olhou para eles.
—Está na hora. – Murmurou ele. Jaime se levantou e mirou sua irmã. Ela beijou o rosto da filha e se levantou também, adquirindo uma postura orgulhosa. Jaime se ajoelhou ao lado da cama da filha e a beijou na mão. Depois se levantou e seguiu Cersei. Tyrion veio logo atrás. Trant foi o único que o seguiu. Todos os outros membros da Guarda Real ficaram de vigia no quarto de Myrcella.
Loras e Valerion tinham ido naquela missão que ele julgava perda de tempo. Uma das bastardas do príncipe Oberyn fora com eles. Mas Arianne Martell e Nymeria Sand estavam lá para o espetáculo. Tyrion segurou sua capa, o olhando com preocupação.
—Eu sei que você se imagina o mais habilidoso do mundo. Mas não subestime Lancel. – Pediu Tyrion. Jaime deu um sorrisinho e Tyrion bufou – Gregor Clegane subestimou Valerion Blackfyre e morreu por isso. – Adicionou ele e Jaime perdeu o sorriso.
Aquela era uma incontestável verdade.
Cersei os olhou com preocupação e raiva, mas logo os dois alcançaram a comitiva. Cersei se aproximou e sussurrou sem olhá-lo.
—O que tanto fala com nosso irmãozinho? – Perguntou ela – Ele está tentando convencê-lo a não lutar por mim?
—Por que ele sequer se daria ao trabalho de tentar isso? – Perguntou com um sorriso e Cersei pareceu menos preocupada.
Ao chegarem ao local da luta, Jaime notou que não estava tão cheio quanto no dia em que o Dragão e a Montanha se enfrentaram. E notou também que o povo comum que se reunia para assistir o embate não tinha um campeão favorito. Não importa quem vai vencer, desde que haja sangue.
Seu tio avançou mais rápido, indo até o filho. Jaime tinha certeza de que ele tentaria convencê-lo a desistir daquela loucura, mas duvidava muito que Lancel iria ceder. Ele estava completamente cego pelos ideais da fé e era um peão fiel do Alto Pardal. Jaime suspirou, mirando o velho e precisou dar o braço a torcer. Valerion tinha toda a razão sobre o fato de que precisavam se livrar dele. Mas também precisavam ser cautelosos. Aquele homem era perigoso e o poder dele sobre as massas não deveria ser ignorado. Robert ganhou uma guerra e sobreviveu à Batalha dos Sinos por ser amado pelas massas. Isso o manteve protegido de Jon Connington tempo o suficiente para que Haegon Blackfyre derrubasse as forças do Grifo e o derrotasse. O amor das massas fez Valerion não ser eliminado quando muitos Lannister o queriam morto, como ele mesmo, Cersei e até mesmo seu pai, Tywin.
Os minutos passaram e Kevan saiu sem lhe desejar boa sorte. O velho não ficaria para assistir o próprio filho ser morto. Não o julgava. Jaime sabia que ele amava Lancel e que ele era seu único filho. Assim como Myrcella era sua única filha agora e ele cortaria a garganta de qualquer um que a colocasse em perigo. Mesmo que ela estivesse louca.
Tyrion lhe desejou boa sorte, assim como Cersei. O irmão foi anunciar o combate e ele se manteve concentrado. Não poderia vacilar. Era a vida de Cersei em jogo. A olhou de soslaio, enquanto o Alto Pardal explicava que aquele era um julgamento por combate, para definir se Cersei era ou não inocente das acusações que lhe davam. Sacou sua espada, depois que o velho implorou que os deuses protegessem quem falasse a verdade e Jaime, mais do que nunca, acreditou que os deuses não existiam, ou não se importavam.
Quando era mais novo, era devoto do Guerreiro. Mas isso foi antes de entrar para Guarda Real e sobreviver a Aerys. Um rei, coroado com a bênção dos deuses, não poderia fazer tudo o que Aerys fez. Foi dada a permissão para a batalha, então Jaime colocou seu elmo e avançou até Lancel e dançou com ele.
Um golpe, dois golpes, três. Lancel aparou a todos. Ele estava sério, lutando com uma armadura surrada e simples, mas com uma boa espada. Jaime suspirou, achando aquilo triste. Era mais sangue Lannister derramado. Seu primo atacou e ele precisou recuar, aparando todos os golpes com maestria. Um golpe, dois golpes, três golpes. Alguns passos de dança, para direita, avançar. Um. Dois. Três. Empurrar. Ele caiu e Jaime recuou. Não mataria o primo com ele deitado no chão. Lancel se levantou e se colocou em guarda de novo. Um, dois, três. Defendeu todos e contra-atacou. Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. Sete golpes para sete deuses e Lancel perdeu o equilíbrio por um segundo.
Mas em seguida ele avançou. Um rápido movimento de pés e Lancel passou reto, dando a chance de Jaime acertá-lo com força nas costas. A armadura cedeu à lâmina de aço valiriano e quando Jaime puxou a espada, ela havia provado sangue. Não cantou vitória. Apenas se preparou para um possível contra-ataque e Lancel veio, ignorando a dor. No entanto, estava mais lento.
Um.
Dois.
Três.
Quatro golpes defendidos. O chutou com força e atacou com um corte de cima para baixo. Lancel defendeu, mas acabou dobrando o joelho, caindo no chão. Jaime tomou impulso e atacou de novo. Mais uma vez ele defendeu, mas a espada do rapaz partiu-se com o golpe. Jaime sentiu o sangue quente jorrar em seu rosto, quando sua espada atravessou boa parte do ombro do primo, descendo até metade do peito. Retirou a espada e se afastou, lembrando-se do Montanha. Ficou longe do alcance de Lancel, o observando morrer. E quando ele o fez, Cersei estava inocentada de todas as acusações.
Olhou para a irmã, orgulhoso de si mesmo e ela retribuiu o olhar, com um sorriso vitorioso. Jaime voltou o olhar para o Pardal, que mirava Lancel com um ar infeliz. Com se realmente se importasse com o garoto. Mas duvidava muito que ele se importava. Se o fizesse, não teria insistido num julgamento e teria poupado Cersei. Ela era uma Lannister e ele pagou para enfrentá-la.
E todos sabem que os Lannister pagam suas dívidas.
**
Robb mirou o rapaz a sua frente. Lorde Serrett estava num cavalo imponente, com um escudeiro segurando um brasão com um pavão macho em toda a sua glória. Mas Robb não dava atenção a ele. A surpresa maior era o jovem de cabelos numa cor ouro prateado e vívidos olhos violetas. Ao lado dele estava um rapaz com a armadura branca de Porto Real, além de uma mulher com cara de poucos amigos, que certamente viera de Dorne, por causa da cor da pele. Valerion Blackfyre era a última pessoa que ele imaginou encontrar em Silverhill.
Já estavam em terras do Oeste, pertencentes aos Lannister. Se o tempo continuasse colaborando, em três ou quatro dias estariam em Casterly Rock. Tinham a intenção de tomar o castelo, sem deixar que nenhum corvo saísse, na intenção de mandar avisos a quem quer que fosse. Mas o senhor do castelo, Lorde Serrett, veio propor uma negociação. Tinha imaginado que ele iria se render pacificamente. Mas no lugar disso, ele trouxe Valerion com ele.
Aegon e Shiera estavam tensos, olhando o irmão. Robb sentia muito por eles. Se Valerion não se rendesse, iria morrer. Ele não teria piedade.
—Robb Stark. Já faz muito tempo, não é? – Perguntou Valerion, jovialmente – Lembro-me que da última vez que nos vimos, você me deu uma surra nos treinos de espada..., mas me alegra lembrar que a surra foi ainda maior em Joffrey.
—Uma surra continua sendo uma surra. – Disse sem sorrir e Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Não poderia discordar. – Disse ele – O que o traz tão a Oeste? Pensei que quisesse ser Rei no Norte e não o Rei de tudo. – Riu Valerion – Ou será que você é um enviado do grande Jon Targaryen? Primeiro de seu nome, Rei dos Ândalos, Dos Primeiros Homens e Protetor dos Sete Reinos?
Não gostou daquela graça e fechou a cara, mas Valerion tinha o jeito desdenhoso de Aegon.
—Veio entregar o castelo e se entregar? Ou veio pessoalmente dizer que aceita os termos Nortenhos? – Perguntou Robb.
—Eu vim negociar.
—Não vejo motivos para negociar com um cachorro morto. – Disse Robb.
—Quem é o cachorro morto? É você o lobo rodeado por três dragões. Quatro se considerarmos o grandão. – Riu Valerion apontando para Viserion, que fumegava, olhando o rapaz com atenção – Ou será que Aegon vai agir como papai e vai dar as costas para mim sem nem mesmo me deixar falar? – Alfinetou ele e Aegon fez uma careta.
—Robb. Escute o que ele tem a dizer. – Disse Aegon, parecendo contrariado. Shiera o olhou com os olhos brilhantes e ele viu que não poderia negar uma conversa antes de qualquer coisa.
—Como quiser. Quais são os seus termos? – Perguntou Robb.
—Bem. Digamos que ninguém em Porto Real estava realmente interessado em acreditar em você. E levando em consideração que meus espiões avisaram que você pretendia atacar Casterly Rock e que depois pensava em atacar High Garden... – Robb sentiu o estômago saltar. Mais traidores?! Quem? Quem o estaria traindo dessa vez? Mirou Shiera e então Aegon. Não poderia ser Shiera. Será que fora Aegon? Ou até mesmo Jon? Não poderia confiar em ninguém? – Por favor, pare de tentar adivinhar quem são minhas fontes. Suas orelhas vão começar a sangrar a qualquer momento antes que consiga descobrir tal informação. O importante é que Porto Real já sabe de suas intenções e tanto Casterly Rock quanto High Garden estão mais do que protegidos. – Riu Valerion – Então... o que acha de dar uma volta, apenas eu e você?
—Quem me garante que não terá um arqueiro pronto para atirar no nosso rei? – Perguntou Jon Umber.
—Até onde eu fiquei sabendo, é preciso mais do que algumas flechas para matar esse daí. Vamos. Não seja medroso. – Riu Valerion. Robb bufou e concordou com um aceno de cabeça.
—Fiquem aí. Vento Cinzento, junto.
Valerion fez uma careta, tentando conter o próprio cavalo, mas não criou caso. Os dois se afastaram, caminhando num trote lento e calmo.
—Então. Eu sei que você não deve estar muito feliz comigo. – Riu Valerion. Robb apenas bufou – Quais são seus planos para Myrcella e para Jon Targaryen? – Perguntou ele – E para mim, é claro. Eu sempre me preocupo comigo mesmo. Já maltrataram esse meu couro mais do que eu imaginaria que um dia maltratariam.
Robb parou seu cavalo e desceu, sendo imitado por Valerion. Olhou para ele, ficando entre seu cavalo e o cunhado, se perguntando se o rapaz realmente estava interessado em uma trégua. Soltou um grande suspiro com muitas hipóteses circulando sua mente.
—Jon é o verdadeiro herdeiro do Trono de Ferro.
—Claro. – Riu Valerion – E o fato dele ser seu irmão, ou ao menos ter crescido como se fosse, não significa nada. – Riu Valerion.
—Está duvidando da minha palavra? – Perguntou Robb – Então pergunte à sua irmã. Ou ao seu irmão. – Ralhou e Valerion soltou um suspiro.
—Certo. Então você quer Jon no Trono de Ferro, mas se esqueceu de uma coisa. – Disse Valerion.
—O que?
—Os Targaryen perderam a Guerra. Jaime Lannister matou Aerys, os soldados de Tywin mataram os herdeiros de Rhaegar, que foi morto por Robert, com a ajuda de seu pai. Agora você vem me falar que depois de trabalharem para destronar a maior dinastia de Westeros, você aparece querendo colocar um suposto herdeiro dessa mesma dinastia no Trono... por motivos de Honra? – Valerion fez uma careta – Estou há tempo demais em Porto Real, Robb. Vai ter que fazer melhor do que isso.
—Jon é o herdeiro dos Targaryen e meu plano é casá-lo com Shireen, que é a verdadeira herdeira de Robert. Todos sabem que Myrcella é apenas Lannister, filha de um incesto entre Cersei e Jaime.
—Se eu bater o pé e me recusar a crer nisso... eu continuo a ser Rei, sabe? Eu me casei com a moça. – Riu Valerion – Por que eu deveria pegar minha leoa e ir com o rabo entre as pernas para Harrenhal... e Ah! – Ele o cortou antes mesmo que respondesse – Falar em honra não vale. Nós estamos em guerra, Robb Stark. Cresça. Pelo que eu entendi, você já morreu uma vez por usar honra como escudo. Seu pai morreu pelo mesmo motivo. Me diga quais são suas verdadeiras intenções com tudo isso. – Robb bufou, irritado com o rumo da conversa – Permita-me propor um plano melhor do que casar Jon com Shireen?
—Estou ouvindo. – Sibilou.
—Deveria mesmo. Veria que eu sou muito bom em falar. – Riu Valerion – Você odeia os Lannister, certo? – Perguntou ele e Robb o olhou enfadado – Mas, veja bem. Você odiava Joffrey. Joffrey foi o cara que matou seu pai. Mas Joffrey está morto... e foi uma morte horrível. – Garantiu Valerion e Robb se sentiu cruelmente satisfeito por isso – E então temos Tommen, que se matou, ou foi assassinado, ninguém sabe ao certo. – Disse Valerion dando de ombros.
—Jaime Lannister empurrou meu irmão da janela quando ele o flagrou com a irmã. Eu o quero morto. – Rosnou Robb.
—Nenhuma objeção de minha parte. – Disse ele dando de ombros – Apesar que eu vou fingir sentir muito. – Resmungou ele – Eu sou casado com a filha ou sobrinha dele... depende da versão de quem conta a história... – Valerion bufou – E temos a pior de todas, Cersei Lannister. – Valerion passou o braço ao redor de seus ombros, cutucando seu peito e Robb o achou um pouco invasivo – E é essa que você quer matar. Cersei fez Joffrey ser o monstro que ele foi. Ela infernizou a vida da sua irmã e ela quem envenenou Myrcella para que ela nunca aceite um termo para redesenhar fronteiras. Cersei é a pedra no seu sapato. Não é Myrcella, não é Tyrion. Tyrion foi o cara quem tentou convencer o Conselho a abrir mão do Norte... mas ele não acredita na história dos Caminhantes... sejamos sinceros... eu sou o único que está tentando acreditar nisso.
Robb suspirou, relaxando um pouco, encolhendo os ombros.
—Confesso que é uma história difícil de engolir. – Resmungou – Mas quando você morre e é ressuscitado por magia... acreditar nessas coisas fica mais fácil.
—Bem... como eu acho que seria muito complicado matar o Conselho inteiro e ressuscitá-lo... talvez nós devêssemos levar uma prova para eles... assim... eles talvez concordassem em uma trégua estratégica. – Riu Valerion.
—Trégua? – Perguntou Robb.
—Sim... precisamos unir forças. Se a situação é tão ruim quanto Aegon me explicou, e eu acredito que seja... bem... – Ele suspirou – Se ficarmos perdendo tempo lutando entre nós, vamos todos morrer. Então eu sugiro que a gente faça uma reunião em Porto Real. Você, Jon, que eu sugiro manter como Jon Snow, por enquanto... – Valerion deu um sorrisinho – Aegon, eu e Myrcella. Mostraremos ao Conselho um desses homens mortos vivos e então proporemos uma trégua e uma união de forças para derrotar o inimigo comum. Isso talvez leve alguns meses... – Disse Valerion – E até lá, Myrcella vai ter dado à luz e a sanidade voltará a ela, com a bênção dos deuses. – Resmungou Valerion – A gravidez não fez bem aos miolos dela. Acho que se vivermos o suficiente para vencer... será mais fácil convencê-la a deixar o Norte livre. – Explicou Valerion.
Robb bufou pensando a respeito. Uma trégua seria bastante interessante. E teriam ainda menos baixas do que se tentassem tomar Casterly Rock e High Garden.
—Posso concordar com isso. – Murmurou Robb – Se me contar quem foi sua fonte sobre meus planos. – Adicionou ele.
—Tenho sua palavra, Stark? – Perguntou Valerion – Vai buscar uma das criaturas para mim? – Perguntou ele com um sorrisinho, enquanto estendia a mão para ele. Robb sorriu e apertou a mão dele.
—Do que está falando? Você vai vir comigo, para buscá-la. – Devolveu ele – E então? Quem é a fonte?
—Naerys falou que vocês estavam indo para Oeste. Eu apenas supus que vocês atacariam Casterly Rock e High Garden. Era o plano que eu traçaria. – Riu ele, travesso e soltando a sua mão.
—Mas, você disse...
—Eu menti. – Disse ele, simplesmente – Não éramos aliados ainda, não fique muito magoado. Mas estamos em trégua agora, certo? Inclusive... – Valerion o socou com força na boca do estômago e Robb perdeu o ar, caindo de joelhos – Isso é por ter sequestrado a minha irmã, quando eu quase fico louco na tentativa de proteger a sua. – Ralhou ele e Robb sentiu falta de Haegon, ele era muito mais amigável – Mas, hey! Fiquei feliz de saber que vocês se deram bem. E sinto muito pelo que aconteceu ao seu garoto. Espero que tenham muitos outros. Vamos. Lorde Serrett preparou uma boa refeição para você e seus principais Lordes. Daqui voltaremos a marchar para o Norte, certo? – Perguntou ele o ajudando a se levantar. Robb sorriu e o socou com força no queixo.
—Isso é por ter partido o coração de Sansa. Estamos quites. – Ralhou Robb olhando Valerion piscar, zonzo, se segurando no cavalo, para não cair.
—Justo... alguém precisava fazer isso. – Resmungou ele – Acho que esse é o início de uma boa amizade. – Riu Valerion – Eu e Loras vivíamos trocando golpes também. – Adicionou ele e Robb se perguntou se ele estava falando sério ou se estava zombando dele.
—Bem... eu espero me dar melhor com você do que com Aegon.
—Sim, ele comentou que te acha um... – Ele tossiu limpando a garganta – Ele não gosta muito de você. – Resumiu ele puxando a rédea do cavalo. Robb fez o mesmo e os dois começaram a caminhar de volta para o exército.
—A recíproca é verdadeira.
—Aegon é difícil. Eu sou mais fácil. – Resmungou Valerion – Se vale de alguma coisa, eu sempre torci por você e Shiera. – Disse ele e Robb o olhou curioso – Se meu pai disse que ela deveria casar com você, ele provavelmente tinha razão. Sem falar que Jon... bem... ele é um cara legal e tudo o mais... mas ele é um bastardo... mas quem sou eu pra falar qualquer coisa? Minha esposa, dizem as más línguas, também é... – Ele deu de ombros e Robb acabou rindo dele. Valerion riu também – Shiera te deixa doido algumas vezes, com vontade de estrangulá-la, ou sei lá... sufocá-la com o travesseiro enquanto ela dorme?
—Bem... ela matou minha mãe. – Murmurou Robb e Valerion fez uma careta.
—Ok, ok... Eu tenho que aturar minha esposa até o fim dos meus dias... ou dos dela. Céus, espero muito morrer de maneira heroica além da Muralha. – Lamentou ele e Robb acabou rindo de verdade, pois Valerion soou tristemente honesto naquele comentário – Eu falo sério. Praticamente fugi de novo de Porto Real. Se eu voltar vivo, ela vai me matar. Mas fazer o que? Eu causei isso a mim mesmo, certo?
—Você provavelmente está merecendo tudo isso. – Brincou e Valerion suspirou.
—Como está a sua irmã? Ela parece muito magoada ou furiosa comigo? – Perguntou ele sem encará-lo.
—Ela parecia preocupada com você. Mas... sinceramente ela deve entender. Você foi honrado com a Myrcella. Ou pelo menos teve honra o suficiente para restaurar a honra dela...
Valerion deu de ombros.
—Eu amo a sua irmã. – Murmurou o jovem dragão, engolindo em seco – Se eu pudesse voltar atrás e fazer diferente, eu faria. – Disse ele e Robb suspirou sentindo simpatia pelo rapaz. Ele provavelmente tinha razão. Talvez fosse o início de uma boa amizade. Mas só talvez.
**
Silverhill era um castelo agradável. Era pequeno, verdade, mas todos castelos sempre pareciam pequenos. Shiera olhava pela janela de um corredor qualquer, admirando o dia cinzento que fazia. Combina com meu humor. Tocou o ventre com infelicidade perguntando se Robb já a teria engravidado novamente. Ele a reivindicava todas as noites com paixão e carinho. Algumas vezes gostava muito, outras nem tanto. Mas depois, quando ele dormia, chorava baixinho, pensando em Jon. Tinha acabado de voltar do Septo depois de ter rezado para a Donzela. Por favor, me permita esquecê-lo. Me permita amar apenas Robb. Por favor, por favor...
Mas sabia que os Sete não poderiam quebrar um juramento que ela fizera para os antigos deuses. Jurara em Winterfell. Jurara na Ilha das Faces. Jurei que meu coração seria sempre dele. Agora sofrerei até o fim dos meus dias. Marcharemos para o Norte, para a Muralha... respirou fundo, sentindo medo.
—Nunca darei outro herdeiro para o Norte. – Murmurou sozinha soprando na janela, para deixá-la embaçada.
Depois desenhou uma cruz no vidro e a soprou. Suspirou e escutou passos. Virou o rosto e o viu. Ele pareceu surpreso em vê-la, mas não interrompeu o passo. Ele veio andando até ela parecendo sem jeito e tímido. Estava tão parecido com a época em que o conhecera em Harrenhal, que poderia até achar graça dele. Jon suspirou profundamente e lhe estendeu a mão. Olhou para ele e viu um par de brincos que ela não via há anos. Eles estavam dentro de um lenço com o brasão Blackfyre.
—Quer... hum... quer de volta? – Perguntou ele. Havia tanta dor nos olhos dele, que teve vontade de abraçá-lo e acalentá-lo. Pegou os brincos e suspirou.
—Ainda acha que foi tudo um sonho? – Perguntou mirando os brincos. Ouro cravejado com ametistas, formando uma flor. Jon baixou o rosto, completamente infeliz.
—Tal qual um sonho, terminou, não é? – Perguntou ele. Shiera colocou os brincos nas orelhas e pegou o lenço. O beijou com carinho e o amarrou no punho de Garralonga – Não vai ficar com ele?
—Não. Fique... para dar sorte. – Murmurou ela. Shiera o olhou nos olhos e tentou sorrir, mas não conseguiu.
—Você sabe como vai morrer? – Questionou Jon, a afagando no rosto. Shiera sentiu um calafrio – Você sonhou com isso? – Perguntou ele.
—Não. – Murmurou ela – Sonhei comigo fria, morta, com os olhos azuis, tentando alcançar você. Então você enfia sua espada em meu coração... e tudo tem fim. – Murmurou em resposta e Jon lhe afagou o rosto de novo.
—Não. Jamais deixaria que você voltasse como um deles. – Disse ele – Eu queimaria seu corpo... se você morresse, o que definitivamente não vai acontecer. Eu não vou deixar. – Prometeu ele e Shiera sorriu.
—Não acho que esteja nas suas mãos.
—Eu sou o Príncipe Prometido. Não sou? Eu vou manter você segura. – Garantiu ele e Shiera sorriu segurando suas mãos. O olhou nos olhos, desejando se entregar a ele. Escutava a si mesma implorando a ele para que fugissem. Ele ainda aceitaria se ela pedisse?
—Eu sonhei com você. – Murmurou Shiera – Eu vi você depois da Muralha. – Disse – Você lutava contra aqueles monstros. Não fique longe de Fantasma.
—Não vou. Da última vez ignorei esse conselho e... bem... morri. – Resmungou ele de um jeito tão desgostoso que os dois acabaram rindo disso.
—Deveria parar de não escutar meus conselhos. – Ralhou ela. Jon concordou.
—Aceite um meu. – Pediu ele e Shiera concordou com um aceno de cabeça – Volte a usar vestidos ou deixará os homens loucos com essas calças justas. Robb vai acabar cortando algumas cabeças.
Shiera corou e os dois deram risada novamente. Nem se lembrava qual fora a última vez que rira de coisas bobas assim.
—Sinto muito. Acho que peguei gosto pelos olhares dos homens. – Disse travessa e Jon respirou fundo a olhando dos pés à cabeça com um olhar completamente indiscreto. Corou completamente e quando ele deu um passo à frente, achou que o coração escaparia pela boca. Mas ele riu dela, como se fosse apenas uma brincadeira e recuou novamente. Sua pose acabara e Jon a olhava vitorioso. O empurrou de leve e os dois riram de novo, constrangidos. Ele baixou o olhar, mas depois a olhou de soslaio com aquele sorriso tímido que ela amava – O que posso fazer por você, Jon?
Jon sorriu e lhe afagou no queixo.
—Eu não vou desistir de você. – Garantiu ele. Shiera corou de leve e Jon segurou um de seus cachos – Vamos nos dividir em grupos. Valerion pontuou que antes de irmos para além da Muralha, deveríamos ir para Dragonstone, para pegar mais vidro de dragão. – Explicou ele e Shiera concordou – Apenas aqueles que têm uma espada de aço valiriano deveriam ir para a incursão depois da Muralha.
—Robb não vai? – Perguntou, surpresa.
—Ele vai. Todos os que tem uma espada de aço Valiriano e Robb. Porque ele não aceita ficar para trás. Aegon deixou claro que você ficará muito bonita num vestido negro, no velório dele. Valerion o mandou calar a boca e, surpreendentemente, ele se calou. – Murmurou Jon e Shiera sorriu.
—E o tal Loras?
—Ele vai também. O que era para ser apenas time de aço valiriano acabou virando: praticamente todo mundo.
—Eu estou incluída no time? Eu tenho um arco com lâminas de aço de dragão. – Sugeriu. Jon negou com a cabeça.
—Todos concordaram que você ficaria ou em Winterfell, ou que iria para Dragonstone, com alguns Lordes do Norte lhe fazendo escolta, além de Melisandre, Obara e Gendry. Eu, Tormund, Valerion, Loras, Thoros, Robb e Aegon vamos para depois da Muralha. – Respondeu ele. Shiera bufou.
—E eu devo ir minerar Dragonstone? – Perguntou fazendo uma careta descontente. Jon sorriu apertando o bico que tinha feito e lhe beijou a ponta do nariz. Os dois se olharam intensamente e Jon fechou os olhos tomando a iniciativa. Seu coração bateu forte e ela o segurou – Não. – Disse, mas não havia firmeza em sua voz. No entanto Jon, completamente vermelho, recuou. Os dois engoliram em seco e acabaram rindo, constrangidos.
—Desculpe. Eu provavelmente deveria tentar ficar afastado...
—Provavelmente. – Concordou. Se olharam profundamente e Shiera notou que havia uma porta logo ali. Jon seguiu seu olhar e prendeu a respiração.
**
Robb viu Shiera entrar no quarto com um semblante bastante sério. Estava tomando um cálice de vinho e ofereceu um a ela, mas ela negou.
—Provavelmente deveria evitar esse tipo de bebida. – Murmurou ela e ele concordou.
—Acredita que está grávida? – Perguntou com um sorriso animado. Shiera negou com a cabeça, fazendo careta.
—Estou com cólicas. – Resmungou ela – Sempre as sinto logo antes de meu sangue lunar descer. – Robb suspirou e concordou com um aceno de cabeça – Será que Bolton estragou até isso em mim? – Perguntou ela, sombria e Robb largou o cálice em cima da cômoda, para abraçá-la.
—Não há nada quebrado em você. – Garantiu com suas mãos indo direto para os cordões do espartilho dela. Shiera não se moveu e ele os desamarrou. Foi despindo a esposa aos pouquinhos, lhe dando beijos carinhosos nos ombros e no pescoço. Shiera suspirou e se virou para olhá-lo.
—Hoje não. – Ela disse, simplesmente. Piscou, surpreso com a recusa dela. A observou se sentar e retirar as botas – Jon me contou que você quer que eu vá para Dragonstone.
—Jon contou? – Perguntou fechando a cara, cheio de ciúmes.
—Sim. – Respondeu ela – Por que não vem comigo? – Perguntou ela. Robb suspirou e se sentou ao lado da esposa – Por que quer arriscar o pescoço do outro lado da Muralha? – Perguntou ela – Já estamos todos aqui, por que não vamos todos para Dragonstone? Eu acho arriscado ir só.
—Chamará menos atenção. – Murmurou Robb.
—Estarei próxima demais de Cersei. – Murmurou Shiera. Ela respirou fundo – Eu sonhei com Dragonstone. Deveríamos ir todos para lá. – Murmurou ela. Robb sentiu um calafrio e concordou com um aceno de cabeça.
—Isso muda tudo. – Disse honestamente. Nunca mais iria duvidar do dom de Shiera, de ver o futuro – O que nos esperará em Dragonstone? – Perguntou ele. Shiera engoliu em seco e respirou fundo.
—As armas que precisamos para derrotar nossos inimigos. – Respondeu ela.
—Aegon e Valerion querem ir logo para a Muralha, para um tal de Caminho de Gorne. – Resmungou Robb. Shiera concordou com um aceno de cabeça – Convença-os a ir conosco. Eles são seus irmãos. Eles vão te ouvir.
Shiera concordou e o beliscou carinhosamente na bochecha.
—Farei meu melhor.
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