Blackfyre
66 Dragonstone
Notas iniciais
Dragonstone
Aegon segurou-se na corda, sentindo o mar balançar o navio. Vinte dias de viagem, desde que tinham saído de Pinkmaiden. Partiram para Noroeste, pegaram os navios que ele tinha conseguido, mais os dos Homens de Ferro. E agora eles estavam a caminho de Dragonstone. De lá iriam todos para Atalaialeste, para Muralha, em busca de uma Prova para Porto Real. Tinham acabado de passar pelos Degraus, no Braço de Dorne e estavam há poucos dias da capital. Estava muito bem no navio, assim como Valerion, mas alguns passageiros não se adaptaram bem ao balançar das ondas.
Shiera não mantinha nada no estômago e o marido dela estava confiante de que a tinha engravidado. Não poderia ter certeza, mas simplesmente esperava que não. Sabia que a irmã gostava de Jon... e... bem... reis estavam morrendo aos montes e muita gente morre depois da Muralha. Com um pouco de sorte, sua irmã poderia ficar viúva. Robb não tinha uma espada apropriada para aquela missão, por mais que insistisse em ir.
Mas sabia que seria julgado por ter tais pensamentos, então os manteve pra si. Valerion estava num canto, cantarolando canções com Hoster. Notou que o rapaz e Loras trocavam alguns olhares divertidos e se perguntou se o bastardo era mais devasso do que tinha imaginado. Não que fosse da sua conta, claro.
Robb estava ajudando Shiera a vomitar, segurando os cabelos dela, tentando não rir da situação, por mais que estivesse sendo caridoso. Thoros estava com seus colegas da já desfeita Irmandade sem Bandeiras, já que eles agora serviam o Norte... ou aos vivos, como eles diziam. Reconheceu entre eles Sandor Clegane, mas os dois preferiram não falar nada um com o outro. Valerion também preferia apenas manter a distância dele, já que os dois tiveram seus momentos ruins.
Jon estava ali perto, junto de Tormund. Melisandre se aproximava e ele a olhou com atenção. Ela parou ao seu lado, respirando o ar salgado, e sorriu.
—Tanta coisa está acontecendo nesse navio. – Riu Melisandre.
—Como estão Selyse e Shireen? – Perguntou preocupado.
—Estão com Sor Davos, no aposento delas. – Garantiu Melisandre – As duas seguem te odiando, Sor Davos também não é muito seu amigo... e elas estão magoadas por saberem que Valerion derrotou as defesas de Dragonstone, as tomando para Porto Real... acha que teremos problemas lá?
—Você vê o futuro e não eu. – Retrucou Aegon – Mas imagino que não. Temos a filha de Stannis e o Regente do Trono de Ferro. Não há motivos para problemas.
—Podem proclamar seu irmão como traidor do Trono de Ferro. – Sugeriu Melisandre. Aegon deu de ombros.
—Um problema a menos para ele. Anulam o casamento dele e ele corre pros braços de quem ele ama. Pelo menos um de nós conseguiria isso. – Lamentou pensando em Dorne. Mesmo os olhos violetas de Daenerys pareciam empalidecidos sob a lembrança de seu fantasma. Meses. Olhou para o céu, para ver Viserion voar e mergulhar um pouco mais a frente. Depois ele saiu da água, trazendo um enorme golfinho com ele.
—Seu coração também já possui uma dona. – Riu Melisandre e ele concordou – E mesmo assim seguirá com seus planos? – Perguntou ela e ele concordou também – Não acha que seria justo falar com seus irmãos sobre isso?
—Acha que qualquer um deles comenta comigo todos os seus planos? – Perguntou Aegon. Melisandre olhou para Valerion e depois para Shiera.
—Qual deles você acha que sobreviverá? – Perguntou ela. Aegon mirou cada um dos irmãos e suspirou.
—Valerion. – Respondeu ele e Melisandre o olhou surpresa – Ele tem pelo que lutar. Shiera sente que vai morrer e se conformou com isso.
—Quase como você. – Riu Melisandre e ele a olhou com o cenho fechado.
—Eu não me conformei com isso. E eu vou cortar ao meio qualquer um que tentar me matar. Eu posso até morrer, mas vou levar o máximo de inimigos comigo. E eu não irei me dar por vencido, não me entregarei. Eu sempre sonhei em proteger um rei que valesse a pena, como integrante de sua Guarda Real. Talvez não seja um rei que eu esperei tanto para proteger. Talvez seja uma rainha. Se Daenerys me aceitar de volta, serei seu Guarda Real, com toda certeza. – Garantiu ele – E eu preciso estar vivo para fazer isso.
—Será que você será o Dragão Negro a sobreviver? – Perguntou Melisandre. Aegon suspirou e segurou o cabo de sua espada.
—Se depender de mim, nenhum dragão irá morrer. – Garantiu.
A viagem seguiu sem maiores problemas. Enfrentaram uma tempestade quando passaram próximos a Storm’s End, mas nada que causasse grandes prejuízos. Um dos dracares se danificou, mas nada que o impedisse de chegar a Dragonstone. No quinto dia, estava vendo Viserion voar, quando notou muitos dracares. Dracares que aparentemente vieram de Essos. De Volantis. Seu estômago saltou e ele deu meia volta. Chamou Valerion e Robb e quando os dois vieram, haviam três dragões voando no céu, ao redor de uma grande ilha.
Dragonstone. Mas não eram os primeiros a chegar.
—Daenerys... – Murmurou, chocado – Ela finalmente veio.
—Isso é ruim. – Resmungou Robb.
—Isso é péssimo. – Lamentou Valerion – Você acha que pode convencê-la a não nos matar?
—Eu só posso tentar. – Garantiu Aegon – Você vem comigo. E Shiera. – Disse e Robb o olhou feio.
—Não. E se Daenerys a fizer prisioneira? – Perguntou Robb.
—Daenerys não é cruel. – Garantiu Aegon e Shiera apareceu quase correndo. Ela estava meio pálida, mas tinha feições determinadas.
—Eu não quero saber. Eu vou sair desse navio. – Disse ela e Robb acabou sorrindo.
—Você acha que não é melhor eu ir também? – Perguntou Robb.
—Seu pai meio que ajudou a matar o pai dela. – Disse Aegon – Eu passei meses falando que Eddard Stark era um cara legal, mas Daenerys não vai estar com o melhor dos humores para mim. – Garantiu Aegon – Ela provavelmente vai achar que eu roubei um dos dragões dela.
—Como assim? Ela não te emprestou ele? – Perguntou Valerion. Aegon fez uma careta.
—Digamos que ele me seguiu e eu não fui lá devolvê-lo... – Murmurou e Valerion engoliu em seco.
—Vamos todos morrer. – Lamentou ele.
—Ninguém vai morrer. – Ralhou Jon, se aproximando – Daenerys tem três dragões, ela está em posse de Dragonstone e nós precisamos minerar o lugar. Ela tem um exército, pelo que eu estou vendo. – Ele se apoiou na borda do navio – Ela tem a intenção de recuperar o Trono de Ferro. Eu vou explicar para ela que ela estará tentando governar um cemitério a menos que decida nos ajudar.
—Bem... você é sobrinho dela. – Murmurou Robb – Talvez ela te escute.
—Ou talvez ela te mate, porque você está no caminho dela, na conquista do Trono. Sua reivindicação é melhor que a dela. – Argumentou Valerion.
—Ela pode ficar com o Trono. Eu não o quero. – Disse Jon – Quem virá comigo? – Perguntou ele.
—Eu. – Murmurou Aegon – Ela me conhece, afinal de contas. E eu prometi que viria pelos meus irmãos, então seria interessante que eles viessem também. – Disse calmamente.
—Se Valerion vai, eu também vou. – Declarou Sor Loras, parecendo irredutível – Já perdi um bom rei, confiando-o a outros. Não cometerei esse erro novamente.
—Eu vou também. Eu sou o Rei do Norte e Winterfell é nossa principal base contra o exército dos Mortos. – Disse Robb, determinado.
—Então está decidido. Vamos. – Murmurou Aegon.
—Permita-me ir também. – Pediu Melisandre, se aproximando e ficando ao lado de Shiera – Vamos? – Shiera pareceu ficar meio sem jeito, ao lado de Melisandre, mas não disse nada.
Aegon deixou Hoster responsável pelo navio e logo estava o pequeno grupo em um bote, para irem até o litoral da ilha. Alguns guardas vieram com eles, claro. Tormund estava sempre com Jon, Melisandre estava ao seu lado, Valerion ia com Loras e Robb e Shiera andavam de braços dados. Reconheceu Verme Cinzento com uma tropa de Imaculados e sorriu para ele, mas o rapaz não sorriu de volta.
—Aegon, Cavaleiro de Prata. – disse ele e Aegon sorriu.
—Andou praticando o idioma comum. Está muito bom. – Disse com um sorriso amigável. Estava péssimo, mas ainda assim estava melhor do que costumava ser – Não imaginei que estariam aqui. – Disse ele – Permita-me apresentar meus irmãos. Esse é Valerion e essa é Shiera. – Disse mostrando os dois. Shiera fez uma mesura respeitosa e Valerion balançou a cabeça.
—Nós viemos em paz. – Disse o irmão e Aegon engoliu em seco.
—Poderia avisar Daenerys que estou de volta? – Perguntou ele. Verme Cinzento os olhou com frieza e acenou com a cabeça, exigindo que eles o seguissem.
Entraram em Dragonstone e ficaram esperando até serem chamados. Verme Cinzento veio com suas feições fechadas e Aegon sentiu um frio lhe subir a espinha.
—Daenerys irá receber vocês. – Disse Verme Cinzento e o grupo avançou. Houve um respirar fundo coletivo e Valerion se aproximou para sussurrar em seu ouvido.
—Numa escala de um a dez... o quanto estamos fodidos? – Perguntou ele.
—Onze... – Resmungou – Vezes três dragões, cem mil Dothraki, dez mil Imaculados e sabe-se lá quantos escravos libertos. – Resmungou e Valerion fez uma careta.
—Esse é um número bem grande. – Murmurou ele e Aegon concordou – Quantas vezes foi pra cama com ela e quantas vezes foi realmente bom? Isso pode ajudar. – Sussurrou ele.
—Como você sabe que eu...? – Começou, mas Valerion sorriu.
—Eu te conheço só desde que eu nasci. – Riu ele e Aegon bufou.
—Bem... mantenha o bico fechado sobre isso. – Sibilou e Valerion sorriu, voltando para fila. Marcharam para uma imensa porta, que foi aberta por dois Dothraki’s. Marcharam para o salão de conferências e Aegon viu sua amada Daenerys mais uma vez.
Ela usava as cores de sua casa e mais do que nunca parecia uma rainha dos Sete Reinos. Vou morrer por uma mulher, ela disse... mas por qual? Minha rainha, minha irmã ou... Balançou a cabeça afastando fantasmas do passado. Daenerys o olhou parecendo furiosa e ele soube que estava completamente enrascado. Foi quando notou que Sor Barristan não estava lá, apenas Sor Jorah. Se perguntou o motivo, mas não conseguiu pensar em outra hipótese. O velho estava morto... Mas pelo menos Daario também não estava presente. Missandei respirou fundo.
—Vocês estão na presença de Daenerys Nascida na Tormenta, da Casa Targaryen, herdeira legítima do Trono de Ferro, Rainha dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Protetora dos Sete Reinos, Mãe de Dragões, Khaleesi do Grande Mar de Grama, a Não Queimada e Destruidora de Correntes. – Narrou ela e Tormund deu uma tossidinha, disfarçando uma risada. Que ótimo, os títulos não param de aumentar. Não viu motivos para se apresentar, mas Loras avançou um passo e colocou a mão sobre o ombro de Valerion.
—Você está na presença de Valerion, O Jovem Dragão Negro, Primeiro de seu nome, da Casa Blackfyre, atual Regente do Trono de Ferro. Rei dos Ândalos e dos Primeiros Homens, Protetor dos Sete Reinos, Destruidor de Montanhas, Senhor do mais poderoso castelo de Westeros, Harrenhal. – Disse ele e Valerion sorriu com arrogância.
Robb deu um passo à frente com Shiera ao seu lado.
—Eu sou Robb Stark, filho de Eddard Stark, senhor de Winterfell, Rei do Norte e dos Primeiros Homens. Essa é minha esposa e rainha, Shiera Blackfyre, filha de Lorde Haegon Blackfyre. – Disse Robb.
—Eu sou Melisandre, de Asshai. Uma sacerdotisa de R’hllor. Sou conselheira de Aegon, o atual contratante da Companhia Dourada.
Daenerys agora estava rindo como se achasse graça e olhou para Jon. Ele olhou para Tormund que piscou, confuso.
—Esse é Jon Snow, o Bastardo. Eu sou Tormund. – Ele olhou ao redor, como se estivesse pensando em mais alguma coisa, mas aparentemente não conseguiu pensar de nada e deu de ombros fazendo Valerion rir da situação – Uma vez eu fodi uma ursa, se servir de algo...
Um silêncio constrangedor e cheio de tensão pairou entre eles.
—Eu suponho que vieram aqui jurar lealdade e dobrar o joelho... e você, Sor Aegon, pedir perdão pelos seus crimes. – Disse Daenerys e Aegon se aproximou um passo.
—Crimes? Que crimes? – Perguntou se fazendo de desentendido – Eu pedi sua permissão e recebi sua bênção para ir salvar meus irmãos. E aqui estão eles, salvos. – Disse apontando para Shiera e Valerion – Valerion era refém em Porto Real, Shiera era refém em Winterfell. Eu matei Stannis Baratheon, que queria fazer mal a ela e era seu inimigo declarado. Agora estou de volta, com mais homens, e boas chances de novas alianças. Não entendo como poderia me acusar de algum crime. – Disse a olhando nos olhos e Daenerys pareceu suavizar um pouco.
—Você roubou um dragão. – Sibilou Sor Jorah e Aegon revirou os olhos.
—Ele me seguiu. Eu o mandei embora. Mas ele não me escutou. Ele só escuta você. Mas ele está de volta, voando com Drogon e com Rhaegal. – Defendeu-se usando sua maior cara de pau. Daenerys sorriu achando graça e suspirou.
—Entendo. E a Companhia Dourada estará trabalhando para mim? – Perguntou ela e Aegon sentiu o olhar perfurante de Shiera – E seus irmãos? Eles vieram dobrar o joelho? – Perguntou ela. Valerion avançou um passo e fez uma mesura, comportada.
—Eu sou o atual Regente do Trono de Ferro. – Disse ele e Daenerys o olhou com superioridade – Me permite perguntar há quanto tempo está aqui? Estou viajando há dias num navio. Não tenho tido notícias do Reino. – Disse ele.
—Estou há quase um mês aqui. Por que? – Perguntou ela.
—Entendo. Quase um mês, com dois dragões, dez mil Imaculados, cem mil Dothrakis e um não sei quantos ex escravos, libertos, que trouxeste de Essos. Estou certo? – Perguntou ele e Daenerys olhou Aegon por um momento.
—Sim. Está. – Respondeu ela arqueando as sobrancelhas.
—E por que ainda não tomou Porto Real. Stannis, com muito menos homens, quase a conquistou tempos atrás. – Pontuou Valerion e Aegon se perguntou onde ele queria chegar com aquilo. Daenerys engoliu em seco e Jorah a olhou com um ar de “eu te avisei” – Só posso calcular que não atacou porque não quis assassinar as milhares de pessoas inocentes que estão em Porto Real... o que te faz uma pessoa muito melhor do que Joffrey e Cersei. Talvez até melhor que Myrcella, e eu. – Disse Valerion – Eu teria cortado as fontes de comida, para deixar a população definhar de fome, até enfraquecer a cidade ao máximo, para conquistá-la mais facilmente. Mas você está esperando...? – Ele a olhou como que esperasse respostas.
—Não sou obrigada a compartilhar meus planos com o inimigo. A menos tenha vindo se render e dobrar o joelho.
—Não viemos dobrar o joelho. – Disse Robb – Viemos...
—Eu sei que fizeram uma longa viagem, sor. – Cortou Daenerys – Mas eu sou a legítima...
—Vossa Graça. – Cortou Shiera com um sibilo e Aegon baixou os olhos sabendo que a irmã poderia causar problemas – Robb é o Rei do Norte. Ele não é um reles Sor. – Disse ela e Daenerys respirou fundo, parecendo irritar-se.
—Eu não tive uma educação formal, sinto muito. – Disse a loira se levantando e ficando de pé, encarando Shiera com frieza. Sua irmã encarava Daenerys da mesma maneira – Mas poderia jurar que li que o último Rei do Norte foi Torrhen Stark, que dobrou o joelho para o meu antecessor, Aegon Targaryen. Em troca da vida dele e da vida dos Nortenhos, Torrhen Stark jurou lealdade à Casa Targaryen perpetuamente. Ou estou enganada?
—Não está. Torrehen dobrou o joelho há muitos e muitos anos. Mas insisto em dizer que nesse momento você pode ser muitas coisas, mas definitivamente não é uma rainha. Não aqui em Westeros. – Disse Shiera e Valerion olhou tão chocado quanto Aegon para ela – Os Targaryen perderam a guerra para a aliança entre Arryn, Stark e Baratheon. Mas admito que você tem grandes chances de reconquistar o Trono que foi do seu pai. E nisso eu lhe desejo a maior das fortunas. Mas enquanto não o faz... – Shiera adiantou-se um passo, de maneira petulante, ignorando os Imaculados e Dothrakis que pareciam prestes a sacar suas armas – Robb ainda é Rei do Norte, por mérito dele. Se faz questão de exibir tantos títulos, respeite os dos outros. Você ainda não conquistou coisa alguma.
Daenerys a olhou parecendo realmente zangada e Aegon sentiu vontade de colocar a irmã de castigo.
—Um juramento é um juramento. – Insistiu Daenerys – Torrhen jurou lealdade perpetuamente... E perpetuidade significa... – Ela fez uma pausa descendo um degrau – O que significa perpetuidade, Sor Jorah?
—Eternidade. – Respondeu Jorah e Shiera sorriu como se achasse fofo.
—Eternidade. – Repetiu Daenerys, descendo mais um degrau, se aproximando de Shiera – Então presumo, milady, que estejam aqui para dobrar o joelho.
—Não. – Insistiu Shiera, de cabeça erguida. O sorriso de Daenerys desapareceu e Aegon respirou fundo.
—Não? – Perguntou ela dando mais um passo adiante e se aproximando mais de Shiera. Elas tinham a mesma altura... – É uma pena. Veio até aqui para ser infiel à Casa Targaryen?
—Ser infiel? – Perguntou Robb se aproximando e ficando ao lado de Shiera – O seu pai queimou o meu avô e o meu tio, vivos. – Acusou ele – Teria queimado os Sete...
—Meu pai era um homem mau. – Resumiu Daenerys e Robb pareceu desarmado por aquele comentário dela – Aegon me contou o que ele fez à sua família, Robb Stark, e à sua, Shiera Blackfyre. Em nome da Casa Targaryen, peço perdão pelos crimes dele contra a família de vocês. E peço que não julgue a filha pelos pecados do pai, assim como não julgo vocês dois pelos crimes que suas famílias cometeram contra a minha, principalmente a sua. – Devolveu ela olhando para Shiera, bem nos olhos – Nossas casas foram aliadas durante séculos, Robb Stark, e foram os melhores séculos que os Sete Reinos tiveram. Séculos de paz e prosperidade com um Targaryen no Trono de Ferro e...
—Se faz muito claro que realmente não teve uma instrução formal. – Cortou Shiera e Aegon avançou a puxando pelo cotovelo.
—Modos. – Ameaçou e ela puxou o braço o olhando com frieza e voltando a mirar Daenerys.
—Digo isso porque falou uma grande bobagem. – Insistiu Shiera e Daenerys a olhou ofendida – Melhores séculos que os Sete Reinos tiveram? Com Maegor, cuja alcunha era: O Cruel? Ou talvez quando Rhaenyra e Aegon lutaram um contra o outro, na Dança dos Dragões, matando milhares em sua luta por poder? Ou talvez tenha sido com Baelor, que incentivava seus Lordes a prenderem suas filhas virgens em torres, para mantê-las virgens, em troca de diminuir os impostos? Ou talvez Aegon IV, o Indigno. Me pergunto como conseguiu essa alcunha. Não foi brincando de dar poder a quem o bajulasse mais? Não foi questionando a legitimidade do próprio filho, apenas porque ele tentou convencê-lo a não fazer uma bobagem contra Dorne? Talvez tenha sido aquele jovem rei Targaryen, que atacou Dorne e sacrificou milhares de soldados, apenas para perder Dorne poucos anos depois... E nem preciso falar do seu pai, quem você mesmo admitiu que era um homem mal. São desses séculos que você se refere como os melhores séculos dos Sete Reinos? – Perguntou Shiera e Daenerys bufou, furiosa.
—Vejo que de nada adianta falar com uma Blackfyre. O sangue dos rebeldes está em você, é como todos aqueles odiosos que tentaram roubar a coroa da minha família.
—Não quero roubar nada teu. – Devolveu Shiera – Porque a única coisa que inquestionavelmente é tua, é esse castelo. E por mim, você pode passar o resto dos seus dias aqui. – Continuou ela – Ou você pode deixar esse discurso de dobrar o joelho de lado e escutar o que temos a dizer a você. – Pontuou ela e Aegon suspirou.
Daenerys bufou novamente e olhou para Robb.
—Sou a última Targaryen, Robb Stark. – Disse ela olhando o Nortenho – Honre o juramento de seu ancestral. Dobre o joelho e seja designado Protetor do Norte. Juntos, salvaremos este país daqueles que querem destruí-lo.
—Oh... Só um momento. – Riu Valerion – Quem está tentando destruir o país? O Trono de Ferro? Porque eu passei os últimos meses de regência resolvendo diversos problemas, como falta de comida, dívidas com o Banco de Ferro, problemas com fronteiras e pedidos de perdão. Foi você quem apareceu com forças estrangeiras e três dragões gigantes que cospem fogo, desejando que todos se curvem à sua vontade. E você nem sabe com quem está lidando, fazendo isso. Até onde eu sei, você pode ser tão louca quanto seu pai foi. Nós não conhecemos você. – Disse ele – Não é justo você vir nos acusar do que quer que seja. Não foi você quem passou por cima dos costumes de toda uma nação por convicções suas? Certas ou erradas, não importa. Você impôs sua vontade... Não seria isso uma maneira de destruir um país?
—Está falando que eu sou uma pessoa má? – Riu Daenerys com algum desdém e Jon Snow se adiantou.
—Ninguém disse isso. – Bradou ele – E você pode não ser nada como seu pai e definitivamente não tem culpa dos crimes dele. Assim como não respondemos pelos juramentos de nossos ancestrais.
—E o que vocês vieram fazer aqui? Além de se rebelar, é claro? – Perguntou ela, parecendo furiosa. Achou que Shiera voltaria a falar, mas foi Jon Snow quem o fez.
—Viemos aqui porque precisamos da tua ajuda e você da nossa. – Respondeu ele. Daenerys deu um sorrisinho debochado.
—Eu preciso da ajuda de vocês? Por acaso não viu os navios? Não viu os três dragões voando quando chegou? Não viu os Dothraki, que juraram matar por mim?
—Seria difícil não ver. – Murmurou Jon.
—E ainda acha que sou eu quem precisa de ajuda?
—Sim, tenho total certeza disso. – Disse Jon com convicção. – Porque agora, você, eu, Cersei e todo mundo somos apenas crianças jogando e gritando que as regras não são justas.
Daenerys bufou e olhou para Aegon, que se sentiu intimidado.
—Você gosta desse homem? – Perguntou ela.
—Eu gosto. É um bom garoto. – Respondeu simplesmente.
—Mas ele se recusa a me chamar de rainha, a dobrar o joelho e ainda me chama de criança.
—Ele está chamando todos nós de crianças. – Pontuou Valerion.
—Mas não está vendo ninguém resmungar por conta disso. – Alfinetou Shiera. Daenerys a olhou com antipatia e Aegon desejou que a irmã ficasse calada.
—Todos vão morrer antes do fim do inverno se não derrotarmos o inimigo no Norte. – Explicou Jon.
—Até onde eu sei, vocês são o inimigo no Norte. – Sibilou Daenerys.
—Já entendemos que não está a par da situação. – resmungou Shiera, baixinho.
—Não somos seus inimigos. – Explicou Jon – Os mortos são o inimigo.
Um silêncio constrangedor pairou no ar. Era sempre constrangedor falar sobre aquilo pela primeira vez. Pelo menos assim pensava. Daenerys olhou confusa para eles e Aegon tentou passar a impressão de determinação sobre o tema.
—Os mortos? – Ela olhou para Sor Jorah e depois para Aegon – É uma metáfora?
—O Exército dos Mortos está vindo. – Insistiu Jon e Aegon achou que soou mais ridículo do que da outra vez.
—O Exército dos Mortos? – Ela olhou para Aegon, exigindo explicações – O que está havendo aqui?
—Não me admira que nunca tenha ouvido falar neles, Khaleesi. – Murmurou Aegon – É uma lenda de Westeros.
—Não é uma lenda. – Ralhou Jon, enfadado – Você não me conhece bem, mas acha que sou mentiroso ou louco? – Perguntou Jon o encarando e Aegon negou com a cabeça.
—Não acho que você seja nada disso.
—O Exército dos Mortos é real. Os Caminhantes Brancos são reais. O Rei da Noite é real. – Jon fez uma pausa, engolindo em seco e então encarou Daenerys – Eu os vi. – Todos ficaram em silêncio e Aegon sentiu um arrepio lhe subir a espinha – Se atravessarem a Muralha e ficarmos discutindo, estaremos mortos. – Garantiu Jon.
Daenerys bufou, olhando ao redor. Depois olhou diretamente para Jon, mas ele não encolheu com o olhar dela. Com um olhar daqueles, provavelmente estaria de joelhos, mas Jon se manteve firme. Provavelmente, apenas Shiera o colocaria de joelhos com um reles olhar...
—Nasci em Dragonstone. – Murmurou Daenerys com os olhos em Jon Snow – Não que eu me lembre. Fugimos antes que os assassinos de Robert nos encontrassem. Robert era o melhor amigo do seu pai, não era? – Perguntou ela para Robb.
—Ser melhor amigo de meu pai não fez com que meu pai não ligasse pro que aconteceu com os filhos de Elia e Rhaegar. – Devolveu Robb – E até onde eu sei, Haegon tentou salvar você e Viserys, não matá-los.
—Engraçado você dizer isso, pois eu cresci fugindo. Me chamavam de princesa mendiga. – Disse Daenerys – Agora não importa, é claro. Passei a vida em terras estrangeiras. Muitos homens tentaram me matar, nem me lembro de todos os nomes. Fui vendida como uma égua reprodutora, fui acorrentada e traída, estuprada e violada. – Ela olhava de Robb para Jon – Sabem o que me manteve viva durante todos esses anos no exílio? A fé. Não em algum deus, não em mitos e lendas. Em mim mesma. Em Daenerys Targaryen. – E então ela olhou para Shiera – Mas não imagino que uma garota filha de um Lorde rico, criada num glorioso castelo, possa sequer imaginar o que é passar por isso.
Shiera respirou fundo com os olhos muito abertos e indignados, enquanto Robb fazia uma careta.
—Pois pense de novo! – Rosnou Shiera se aproximando dela. As duas se olhavam com fúria e Aegon se perguntou se em algum momento teria que separá-las, quando começassem a puxar os cabelos uma da outra – Eu também fui dada pelo meu próprio pai para um homem que eu não queria. E quando os lordes do Norte coroaram Robb como rei deles, eu abracei a responsabilidade. Quando achei que ele estava morto, fugi para a Muralha, sem casa, sem aliados, apenas com um filho de peito. Lutei contra selvagens, me machuquei, sofri. Fui enganada e feita de idiota. Precisei me entregar a um homem que eu odiava, que me violou, me bateu e me humilhou. Vi minhas amigas serem estupradas por vários homens, sendo que uma delas tinha apenas dez anos. Eu lutei guerras de verdade. Eu matei homens com as minhas próprias mãos. E ser a Rainha do Norte custou quase minha sanidade. Homens que queriam me magoar sequestraram meu filho, meu pequeno Ned. Eles o mataram e o devoraram... não necessariamente nessa ordem. Eu perdi tudo o que eu tinha de mais querido. Não venha com esse papo de que eu sou uma donzela que não sabe o que acontece. Quantas guerras você lutou, Nascida da Tormenta? Quantas vezes pegou em espadas e lutou ao lado daqueles que juraram matar por você? Hein?! – Rosnou Shiera. Daenerys a olhou, surpresa e recuou um passo – Foi o que eu pensei. Não julgue os outros sem saber a história deles.
Daenerys respirou fundo, parecendo ligeiramente tocada por aquilo. Shiera fungou, baixando o rosto, com os olhos brilhantes, cheios de água. Jon e Robb olhavam para ela com o mesmo olhar preocupado, mas foi Robb quem a abraçou.
—Daenerys Targaryen. – Chamou Jon. Dany o olhou, parecendo tocada pelo discurso de Shiera – Não estou mentindo. O exército dos mortos está vindo. Valerion e Robb não são aliados um do outro, mas concordaram em uma trégua, pelo bem de todos. Nós precisamos nos unir para derrotar o verdadeiro inimigo. E para isso, precisamos da obsidiana que tem aqui. Essas pedras tem a propriedade de matar os Caminhantes Brancos. – Disse ele.
—Por que eu daria isso a você? – Perguntou Daenerys.
—Você sabia da existência do vidro de dragão, também conhecido como obsidiana, nessa ilha? – Perguntou Valerion e Daenerys bufou, cruzando os braços.
—Não.
—Então o que estaria perdendo? – Perguntou Valerion – Escute. – Valerion se aproximou dela e tirou a coroa que usava – Eu sei que você quer o Trono de Ferro. Eu sei que você acredita que ele é um direito seu.
—Ele é um direito meu.
—E é nisso que você acredita. – Insistiu Valerion – Mas no momento o Trono é meu. – Ele bufou – Na verdade, da minha esposa..., mas sou eu quem está cuidando de tudo. E... sinceramente? Não é lá grande coisa. Eu voltaria para Harrenhal e curtiria minha vida ali, sem grandes problemas. Mas sabe... – Valerion respirou fundo – Quando se é dono de algo, você é responsável por esse algo. Por enquanto os Sete Reinos, – ele olhou para Shiera e Robb – em teoria, são meus. Então é meu dever protegê-los. Robb aceitou minha trégua. Você invadiu um castelo que eu mesmo conquistei há pouco tempo atrás. Mas eu não vou criar caso com isso. Esse castelo era da sua família, sempre foi da sua família, fique com ele. Vamos deixar para resolver políticas depois. Por enquanto, vamos proteger os vivos. – Ele estendeu a mão para ela – Vamos nos ajudar a lutar contra o verdadeiro inimigo. Eles são reais, Vossa Graça. – Disse Valerion respeitosamente, enquanto Daenerys o fitava sem apertar a mão dele, de volta – Myrcella pode achar ruim o tanto que for, mas se nos ajudar, eu farei o possível para tirar os Lannister do poder. Dorne a apoiará, certamente. Eles apoiaram antes, devem apoiar agora. Quanto ao Norte... – Ele olhou para Robb e Shiera – Robb Stark é um bom homem. Se você for metade de tudo aquilo que Aegon disse de você, o Norte irá segui-la com orgulho. – Garantiu ele – E dê um desconto para minha irmã. Ela é um pouco difícil, mas passou por maus momentos... e por favor, aperte minha mão... está ficando constrangedor ficar com ela assim... – Riu ele e Daenerys deu um sorriso torto.
—Eu prefiro falar com Aegon por um momento, antes de concordar com qualquer coisa. – Disse ela e Valerion baixou a mão. Aegon engoliu em seco. Tinha sido um belo discurso, até chegou a achar que Daenerys iria aceitar – Mas suas palavras não serão ignoradas. Obrigado por tudo o que disse. – Daenerys olhou para Shiera – Sinto se a ofendi. Acho que não começamos bem. Aegon sempre falou de você, inclusive sobre seu gênio forte.
—Ele falou muito de você, também. Inclusive de seu gênio forte. – Devolveu Shiera e Daenerys sorriu.
—Talvez ele goste de estar rodeado de pessoas assim. – Disse ela – Preparem aposentos para eles. – Disse ela para os Dothrakis – Serão meus convidados. Devem ser bem tratados, mas não devem deixar a Ilha.
—Somos seus prisioneiros? – Perguntou Jon. Daenerys sorriu.
—Ainda não. – Respondeu ela – Aegon, venha comigo.
**
Shiera estava deitada na cama. Tinha enrolado um pano nas coxas para conter seu sangue lunar. Robb sorria deitado ao seu lado.
—Entendi o motivo do estresse. Mulheres sempre ficam irritadas logo antes do sangue vir. – Riu ele e Shiera soltou um resmungo – Acha que ela vai nos ajudar? – Perguntou ele – Você a viu em seus sonhos?
Engoliu em seco e concordou com um aceno de cabeça.
—Ela vai nos ajudar. Daenerys é uma boa pessoa. – Murmurou se sentando, pressionando o ventre. Estava cheia de cólicas – Ela merece o Trono de Ferro. – Murmurou e Robb deitou o queixo em seu ombro.
—Nossos lordes não se convencerão facilmente. – Murmurou ele e Shiera suspirou.
—Mas seguirão você. Só não ouse se dobrar a ela sem que antes ela faça por onde. – Ralhou Shiera e Robb concordou com um aceno de cabeça. Ele a abraçou e a beijou na têmpora. – Ela tem que conquistar nossa lealdade.
—Está bem. – Riu ele antes de deitar – Eu confesso que senti falta de dormir numa cama que não balança. – Adicionou ele esticando os braços. Shiera sorriu e concordou.
—Estou cogitando seriamente nunca mais sair dessa Ilha. Não quero entrar em um navio nem tão cedo.
—Então acho melhor tentar melhorar seu relacionamento com Daenerys. Você foi bastante grossa com ela. – Riu Robb – Cheguei a pensar que iriam cair no tapa. Você a quebraria ao meio. – Riu ele e Shiera deu uma risadinha – Meu amor. – Chamou Robb e Shiera o encarou – Queria te perguntar uma coisa. – Murmurou ele e ela o encarou com curiosidade – O que foi fazer com Jon, quando saíram a cavalo de Harrenhal? – Perguntou ele. Shiera corou de leve e virou o rosto.
—Eu precisava me distrair. Estava muito nervosa. – Resmungou sem querer falar sobre aquilo. Sobre o beijo e a promessa que tinha feito a Jon, e que agora se via obrigada a quebrar.
—E não poderia ser comigo, o passeio? – Perguntou ele e ela o olhou fechando a cara.
—Não, estava brava com você. Eu fui contar o que Melisandre fez comigo, sobre a proposta dela... e você fez pouco caso. – Ralhou ela. Robb se sentou e suspirou.
—Entendi. – Murmurou ele tocando a testa em sua têmpora – Me perdoe, está bem? – Perguntou ele e Shiera suspirou, concordando com a cabeça.
**
—Ela é muito bonita. – Disse Valerion, passeando pelos degraus da ilha onde passara bastante tempo de sua infância. Se tornara um homem ali, em Dragonstone. Jon deu de ombros. Shiera é mais. Mais bonita, mais sensata, mais feroz e mais quente. E, além disso tudo, é esposa do meu irmão..., mas isso não evitou que eu tentasse beijá-la – Espero que Aegon a convença a nos ajudar. Vai mesmo ajudar a tirar os Lannister do poder? – Perguntou curioso. Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Eu já sonhei em sentar no Trono de Ferro. Em ser o rei dos Sete Reinos, com todos os títulos possíveis. – Ele suspirou – Mas me parece que aquele Trono é apenas uma enorme dor de cabeça. – Resmungou ele – Não te culpo por não querer reivindicá-lo.
Jon concordou com um aceno de cabeça e os dois miraram os três dragões. Estavam todos no chão, farejando um ao outro, como se tivessem sentido saudades. Fantasma desceu os degraus e foi andando com cautela até eles e Jon achou que aquilo seria perigoso.
—Fantasma, junto! – Gritou e Fantasma voltou. Mas os dragões ouviram seu grito e viraram o rosto para eles. Valerion recuou um passo, parecendo muito tentado a sair correndo.
—Você precisava gritar, não precisava? – Ralhou ele e Jon engoliu em seco. Tinha se acostumado com Viserion, que se aproximava, andando como um morcego. O dragão negro com tons de vermelho abriu as asas. Aegon não mentira quando falara que Viserion era o menor dos três. Ele era mesmo. O negro era muito maior que os outros dois e quando bateu as asas, seu imenso corpo deixou o chão e ele voou para o mar. Mas Viserion veio se aproximando, sendo seguido do verde – Ok, eles estão vindo para cá. – Lamentou Valerion. Jon concordou, olhando maravilhado para as criaturas. Viserion os alcançou primeiro, indo farejar os cabelos de Valerion. O rapaz parecia ligeiramente assustado com as criaturas e encolheu de leve, por conta do dragão que ele ainda não conhecia. Ele tocou o focinho de Viserion e Viserion o empurrou com a cabeça, o derrubando no chão – Vai com calma, colega. – Ralhou Valerion e Viserion urrou barulhentamente. Jon mirou o dragão verde que se aproximava. Suas escamas eram escuras, da cor de musgo, seus espinhos e chifres eram de um cobre brilhante e suas asas tinham cores em tons de laranja, bem vivos. Se aproximou um passo do dragão, que o farejou, desconfiado. Esticou a mão para tocá-lo no focinho e quando o fez, a fera se aproximou para investigá-lo. O dragão o farejou com curiosidade e Viserion urrou de novo. O Verde fez um som mais contido e baixo, indo investigar Valerion, que ficava de pé. Jon e o Valerion se viram rodeados de enormes cabeças, do tamanho de carruagens, a lhes farejar com curiosidade – Eles não vão tentar nos comer, vão? – Perguntou ele e Jon mirou os olhos de cobre do dragão a sua frente.
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-Quando pretendia voltar para Meereen? – Perguntou Daenerys de pé, de costas para ele, olhando pela janela do salão. Os três dragões estavam reunidos lá embaixo, soltando ruídos baixos e estranhos, como se conversassem.
—Não pretendia. – Respondeu e ela o olhou magoada – Minha irmã falou que você me encontraria aqui e não o contrário. Shiera sabia que você estava retornando. Então eu esperei por você.
—Tem ideia do que eu passei? – Perguntou ela, parecendo magoada e Aegon cerrou o cenho.
—Imagino que maus momentos, se Sor Barristan estiver, como eu imagino, morto. – Respondeu – Mas eu estava fazendo o que você me liberou para fazer.
—Me roubou um dragão.
—Eu não roubei. Viserion me seguiu. Ele nunca me obedece... bem... quando eu mando ele cuspir fogo, ele cospe. O garoto gosta de fazer isso. – Aegon respirou fundo – Falei com meus irmãos, que acabaram se casando com os monarcas atuais... Valerion não mentiu para você sobre aquela proposta.
—O que são os caminhantes brancos? – Perguntou Daenerys se virando e se aproximando – Você tem certeza sobre isso? Já viu algum? – Perguntou ela e Aegon negou com a cabeça.
—Mas Jon viu, assim como alguns selvagens e alguns homens da Patrulha da Noite. – Aegon suspirou – E eu confio neles. Sem falar do Fantasma... – Murmurou Aegon e Daenerys a olhou com interesse.
—Ande comigo, Sor Aegon. Eu quero que me conte tudo. – Disse Daenerys. Concordou com um aceno de cabeça e foi caminhando com ela.
Contou sobre o Casamento Vermelho e como Robb foi trago de volta à vida. Contou sobre a irmã e como ela fugira para a Muralha para encontrar-se com Jon e se reorganizar.
—Fale-me sobre a Muralha e a tal Patrulha da Noite. Meu irmão nunca falou muito sobre isso para mim. – Pediu Daenerys e Aegon não viu problema.
—A criação da Patrulha da Noite tem tudo a ver com o nosso problema de agora. – Murmurou Aegon – Há milhares de anos atrás, antes dos Ândalos virem para Westeros, os Filhos da Floresta quem viviam lá. Resumindo muito, e eu posso estar enganado... os Primeiros Homens vieram pro continente e começaram a lutar contra esse povo que já existia aqui. Mas os Filhos da Floresta conheciam magia e eles fizeram alguma coisa... – Aegon franziu o cenho – Eu posso estar enganado, mas pelo que eu entendi, eles fizeram os Caminhantes Brancos. – Aegon suspirou – E se arrependeram, porque a coisa aparentemente saiu do controle. Veio um grande inverno, maior que qualquer outro e a noite durou muito tempo. E as pessoas começaram a morrer... e pra piorar os Caminhantes vieram. Pelo o que eu entendi, eram dois Caminhantes. E eles podiam ressuscitar os mortos, para lutarem por eles. Eles fizeram um exército e começaram a matar tudo o que encontravam – Aegon suspirou enquanto saíam do castelo, para caminhar pelas escadas que levariam à praia. – Então teve um cara que foi atrás dos Filhos da Floresta e eles fizeram um pacto para se ajudarem. Houve uma grande batalha, onde o herói matou uma das criaturas e isso reduziu o exército pela metade. Então o outro fugiu para o Norte e os Primeiros Homens e os Filhos da Floresta resolveram construir uma linha de defesa para o caso de o Caminhante Branco voltar. Então eles construíram a Muralha, que é um lugar impressionante. – Murmurou se lembrando da construção – E fundaram a Patrulha da Noite, que seriam os homens que ficariam responsáveis por vigiá-la. – explicou ele e Daenerys concordou – Valerion teve problemas em fazer o Conselho de Porto Real acreditar nos Caminhantes estarem voltando. Então ele quer ir para o Norte para ver com os próprios olhos e avaliar a situação. – Explicou Aegon. Respirou fundo e interrompeu a caminhada – Dany. – ela o olhou curiosa – Sei que talvez ainda esteja magoada comigo e que minha opinião sobre certos assuntos já não lhe seja de relevância, mas... eu sempre imaginei que você conquistaria o Trono de Ferro e que meu pai seria a sua Mão do Rei. Mas ele infelizmente morreu. – Daenerys o olhou surpresa e com alguma solidariedade – Infelizmente foi antes que eu voltasse... eu não pude nem me despedir...
—Oh, eu sinto muito, Aegon. – murmurou ela – Ele, por todas as histórias que me contou, parecia ser um grande homem. Muito sábio.
—Ele era. – concordou e a olhou determinado – Pegue Valerion para ser sua Mão do Rei, quando conquistar o Trono.
—Valerion? Por que? – perguntou ela.
—Quando eu fui a Porto Real, eu pude ver a real situação do reino. O caos em que Westeros está mergulhada. – explicou ele – Mas Valerion, por mais que não tenha sido oficialmente, como regente, colocou a guerra de lado e começou a cuidar do povo, dos lordes, de tudo. Ele reorganizou a capital de forma muito eficiente. – disse olhando para Daenerys – Ariane me contou que todos estavam muito satisfeitos com ele. Ele se mostrou um excelente regente. Seria um bom rei, mas ele me confessou que não quer mais se sentar no Trono de Ferro. – explicou Aegon se lembrando da princesa dornesa com alguma saudade – Mas ele seria uma boa Mão. Tenho certeza disso.
—Como poderia tê-lo como minha mão, se ele é casado com um dos meus inimigos? A esposa dele é filha de Robert Baratheon, o Usurpador, com Cersei Lannister, filha de Tywin Lannister. Como poderia colocá-lo numa posição tão alta? – perguntou ela.
—Valerion é inteligente e bom. – respondeu Aegon – Quando estávamos no salão, você pediu que os Nortenhos e meus irmãos não a julgassem pelos crimes do seu pai. Não seria justo que você fizesse o mesmo? – perguntou Aegon e Daenerys suspirou, retomando a caminhada. Voltou a segui-la, descendo os degraus longos, feitos de pedra, desgastados pela maresia.
—Eu poderia, se eles dobrassem o joelho. Coisa que nenhum deles, principalmente a sua irmã, parecem dispostos a fazer. – pontuou ela e Aegon respirou fundo novamente.
—Sabe. Quando eu te vi pela primeira vez, não vi uma rainha e nem mesmo uma princesa. Vi uma menina bonita, assustada e pobre coitada. Mesmo depois que seu irmão morreu, por mais que eu tivesse te jurado a minha espada, eu não a via como uma rainha. Eu ainda só enxergava a menina. – explicou ele – Mas depois, tudo mudou. Depois você cresceu, cresceu aos meus olhos e aos de todos. E agora que eu estou te vendo depois de todos esses meses, eu digo que você cresceu ainda mais. – explicou Aegon – Meus irmãos tiveram um breve momento contigo. Uma grande troca de farpas entre uma monarca que quer conquistar e monarcas que correm o risco de serem conquistados. – Aegon a olhou com atenção e os dois interromperam os passos nas escadarias, escutando o vento silvar e bater nas pedras desgastadas – Obviamente eles não iriam simplesmente sorrir e abraçar você. Precisa cativá-los. Eles não são pobres precisando ser resgatados de tiranos. Eles são lordes. Eles são reis e rainhas. E, principalmente, – Aegon segurou as duas mãos dela, olhando-a nos olhos – o trono não é a maior preocupação deles. É o povo. É a vida. Para eles, não importa o poder, mas a responsabilidade a que lhes foi confiada. Eles realmente acreditam nos mortos. Nos Caminhantes Brancos. – explicou Aegon e Daenerys suspirou. Ela se afastou, tirando as mãos das suas e voltou a descer as escadas.
—Realmente acredita nessas criaturas? – Perguntou ela.
—Por que duvidaria. Eu te vi entrar naquela pira com três pedaços de pedra, para então sair, sem nenhuma ferida, e com três dragões. – Suspirou Aegon – Jon diz que os viu. Diz que lutou contra eles. – Aegon pulou dois degraus, para alcançá-la – Ele era da Patrulha da Noite. Patrulha essa que luta contra os selvagens há não sei quantos mil anos. Mais de oito mil, pelo que eu me lembro. – Adicionou – Oito mil anos de luta entre os Patrulheiros e os selvagens que vivem do outro lado. Um povo duro e forte, acostumado a viver numa terra difícil. E Jon os convenceu a segui-lo, mesmo sendo um Patrulheiro. Ele juntou a Patrulha e os Selvagens, pois o povo além da Muralha e os Patrulheiros viram os Caminhantes Brancos. Oito mil anos de ódio e luta não são colocados de lado por pouca coisa, Vossa Graça. – Explicou ele. Daenerys suspirou e se interrompeu novamente.
—Quem é esse Jon Snow? De onde ele vem? – Perguntou Daenerys. Ela o olhou com curiosidade e Aegon suspirou.
—Ele é... o Bastardo de Winterfell. – Disse se lembrando da história de Howland Reed.
—Winterfell é o castelo dos Stark, não é? – Perguntou ela. Aegon concordou com um aceno de cabeça – Então ele é o irmão bastardo de Robb. – Calculou ela. Aegon respirou fundo se perguntando se colocaria a vida de Jon em perigo se contasse a verdade sobre ele. Olhou para a praia e viu Viserion e Rhaegal cercando Jon e Valerion. Sentiu o estômago dar um salto e Daenerys acompanhou o seu olhar – Viserion! Rhaegal! – Gritou ela, segurando a saia do vestido e descendo mais rapidamente os degraus. Aegon se apressou e a segurou pelo ombro – O que...?
—Olhe. – Disse surpreso. Daenerys o imitou. Viserion estava de olhos fechados, enquanto Valerion o afagava no pescoço. Rhaegal mirava Jon Snow nos olhos com tanta profundidade que parecia ler sua alma. Jon tirou a luva, para tocá-lo no focinho, e Rhaegal, por mais arisco que sempre tivesse sido, simplesmente permitiu. Depois de alguns momentos, ele recuou e abriu as asas, para voar. Viserion o olhou curioso e logo o imitou. Valerion gargalhou ao lado de Jon e os dois garotos ficaram a admirar os dragões que voavam no céu – Realmente pode achar que aqueles dois lhe fariam algum mal? Até os dragões gostam deles. – Riu Aegon e Daenerys ficou a observar os dois rapazes – Quer saber mais sobre Jon Snow? – Perguntou Aegon e ela concordou – Então tente falar com a minha irmã. Só vocês duas. Ela vai te contar tudo o que você precisa saber sobre ele. – Garantiu Aegon. Daenerys concordou com um aceno de cabeça, olhando ainda, bem profundamente, para os dois garotos que ainda riam na praia – Só me prometa que... – Ele engoliu em seco e Dany o olhou curiosa – Escute TUDO. Por favor. – Pediu ele e ela o olhou confusa.
—Há algo importante sobre Jon Snow, não há? Ele é perigoso? – Perguntou Dany – Eu sempre escutei coisas ruins sobre bastardos. – Murmurou ela. Aegon respirou fundo.
—Vossa Graça. Saberá que tipo de ajuda ou perigo Jon pode oferecer, depois de conversar com a minha irmã. Eu só peço... que não se precipite. Por favor. Tanto por Jon, quanto por Shiera. – Murmurou ele e Daenerys o olhou ainda mais curiosa – Eu posso avisar Robb que ele pode começar a minerar as cavernas? Vamos nos aliar ao Norte, não vamos? – Perguntou ele e Daenerys olhou mais uma vez para Jon Snow, que agora subia os degraus ao lado de Valerion.
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