Blackfyre

68 Confiança


Notas iniciais
Desculpem pelo atraso, mas garanto que o capítulo vai valer a pena!!! Eu gostei muito, pelo menos ♥ Como vocês estão? hehehehe Olhem que lindo o banner ♥ Bem, não vou delongar aqui! #PartiuLer

Confiança

Tinha tido um pesadelo. Sonhava que vários homens tentavam matá-la. Eles vinham com espadas em chamas, gritando palavras incompreensíveis, mas ela os matava antes que chegassem. Usava um arco feito de gelo e suas flechas eram feitas de vento gélido e mortal. E quando atravessavam os homens, o fogo deles apagava, os corpos de carne apodreciam e caíam, e quando tocavam o chão, não passavam mais de sacos de ossos.

Então veio Jon. Ele era feito de fogo também, mas não queria atirar nele. No entanto, seu corpo não respondeu aos seus sentimentos e armou a flecha mortal. Jon correu com a espada em punho e Shiera chorou pérolas de gelo. Quando o acertou com sua flecha, ele não pareceu sentir, pois ele também era feito de gelo. Gelo e Fogo. E quando ele afundou a espada em seu coração, ele chorava implorando perdão. O beijou antes de acordar, assustada e tremendo de frio.

Robb estava dormindo ao seu lado, o peito nu e peludo subindo e descendo de acordo com sua pesada respiração. Robb sempre dormia nu, pois era mais fácil tomá-la quando acordava disposta a ser tomada, durante a madrugada. Ou, pelo menos, antes de voltarem para Winterfell para que Ned saísse de dentro de si, costumava ser. Agora Robb precisava pedir autorização e insistir e implorar e provocar, até quase deixá-la louca. Shiera era feita de fogo e desejo e negar os avanços de Robb era absolutamente difícil. Não era como antigamente, quando muitas vezes era ela a acordá-lo de madrugada, colocando seu membro viril na boca e beijando-o até deixá-lo pronto para o que desejava. Robb adorava quando ela fazia aquilo. Ele sempre achava que estava sonhando e logo via o sonho virar realidade. Mas aquela brincadeira, de ambos, morrera com Catelyn Stark. O casamento deles morrera com ela. E por mais que tentassem, nunca conseguiam trazê-lo de volta por completo.

Mirou Robb soltar um ronco baixo. Ele não costumava roncar, só quando bebia muito. Ele apenas tinha uma respiração pesada. O ficou mirando por um tempo, sentindo frio e se abraçando. O frio não passava. Normalmente, quando sonhava com os Caminhantes, acordava tremendo, gelada. Mas um abraço de Robb fazia o frio passar. Mas naquele momento não queria abraçá-lo.

Vestiu um robe por cima do vestido de dormir, depois jogou uma manta de pele de lobo nos ombros. Pegou uma vela e abriu a porta, para caminhar pelos corredores de Dragonstone. Vento Cinzento a olhou curioso, mas não a seguiu. Ele se manteve ao lado de Robb, no chão, enrolado em si mesmo.

Sentiu saudades de Lady, mas sabia que ela estava agora com sua verdadeira dona. Suspirou escutando seus passos ecoarem pelo corredor vazio. Andou por alguns minutos, ainda tremendo de frio. Parou em frente a uma janela e pousou a vela ali. Ficou olhando o mar, tristemente, tentando se enrolar melhor em sua manta. O mar a lembrava do tempo em Porto Real, quando poucas eram suas alegrias. Lembrava de chorar, mirando o porto, esperando que o pai ou uns dos irmãos aparecessem para tirá-la de lá. Lembrar-se daqueles dias tristes parecia aumentar o frio que sentia, por mais que promessas sobre conhecer as terras quentes da Campina serem familiares. Humfrey costumava prometer que a levaria para a Campina, onde ela poderia colher todas as lavandas que desejasse. Olhar para o mar de ressaca a fazia se lembrar do velho amigo, pois os olhos dele tinham a mesma cor. Se perguntava se ele teria morrido na guerra. A última vez que o vira fora no torneio de Harrenhal e tinha certeza de que ferira ao menos o ego naqueles dias. Foi quando sentiu algo gelado em sua nuca. Pulou de susto e se virou, para ver Fantasma. Ele a olhava atentamente.

Fantasma era, de longe, o mais silencioso de todos os lobos. Ele andava sem fazer barulho, não costumava rosnar ou latir. Mesmo se estivesse tenso ou disposto a atacar. O afagou na orelha e ele lhe lambeu o rosto, para então pressionar a cabeça contra seu peito, pedindo mais afagos. Sorriu, achando aquilo adorável, e voltou a fazer carícias no animal. Momentos depois Fantasma levantou a cabeça, alerta e se afastou, alegremente, para encontrar Jon no corredor. Jon o afagou na cabeça e sussurrou qualquer coisa para ele. Fantasma o lambeu no rosto e voltou aos pulos, ainda silenciosos, para pedir mais afagos para Shiera. Não se recusou a acariciá-lo, porque realmente amava aqueles lobos. Todos eles.

Jon se aproximou e a olhou curioso.

—O que faz acordada? – perguntou ele. Shiera suspirou, afundando os dedos nos pelos duros de Fantasma.

—Pesadelos. – Respondeu, engolindo em seco. Jon suspirou e a abraçou sem muito prévio aviso e o calor do abraço dele fez o frio ir embora e enrubesceu suas maçãs do rosto. O abraçou de volta e suspirou contra o peito dele.

—Está tudo bem. – Suspirou ele se afastando para olhá-la nos olhos – Quer conversar a respeito?

Realmente não queria, então negou com a cabeça. Jon concordou e suspirou.

—E você, o que faz acordado? – Perguntou ela. Jon respirou fundo e fez uma careta.

—Daenerys veio ter uma conversa comigo. – Murmurou ele. Shiera quis olhá-lo, mas não o fez. Seu coração ferveu de ciúmes e seu sonho lhe assombrou. Não o daquela noite, que a fizera acordar. Mas o que sonhara antes de Coração Alto. Onde via Daenerys e Jon juntos, embaixo dos cobertores, entre beijos apaixonados. Beijos aqueles que um dia pertenceram a si. Desviou o olhar, mirando a janela, lembrando de uma noite na Muralha. Quando ele a olhara nos olhos e dissera que a amava. Pedindo que ficasse, na Muralha, com ele. Que não voltasse para Winterfell, para se casar com Roose. Deveria tê-lo ouvido. Deveria ter ficado lá com ele. Entregado seus homens para Stannis e desejado boa sorte. Talvez Ned ainda estivesse vivo se tivesse feito isso – Não parece ter gostado do que escutou e eu nem disse o motivo de nossa conversa.

—E você parece bastante satisfeito pelo meu contragosto. – Devolveu. Jon sorriu e concordou lhe afagando a bochecha.

—Você falou aquelas coisas para mim em Pinkmaiden... – Sussurrou ele – Sobre desistir de nós dois. Sobre passar o resto dos seus dias com Robb... E eu entendi. Robb é mesmo... bem... eu passei minha vida inteira querendo ser ele, sem nunca odiá-lo, pois é impossível odiar Robb. – Riu Jon, logo antes de suspirar – Mas confesso que me aquece o coração ver você com ciúmes. Sempre sou eu o afligido por esse sentimento. – Confessou ele e Shiera o olhou nos olhos.

—Não estou com ciúmes de Daenerys Targaryen. – Mentiu sentindo o rosto ferver. Nem parecia que estava tremendo de frio momentos atrás.

—E nem precisa ter. Meu coração segue sendo apenas seu. – Garantiu Jon e Shiera sentiu o coração acelerar mais do que nunca – Ela me contou sobre a conversa de vocês. Ela sabe sobre quem são meus verdadeiros supostos pais.

—Não são supostos, Jon. – Murmurou Shiera.

—Ela disse que por mais que o Trono fosse legitimamente meu, ela não queria cedê-lo pra mim, pois eu não tenho meios de conquistá-lo. Eu garanti que não faço a menor questão de ter aquele trono ou qualquer outro. Ela pode se sentar nele a vontade. – Jon suspirou – Então ela falou que por mais que fosse ela quem possui os meios para conquistar o Trono, ela não queria desrespeitar o direito do irmão mais velho dela, que todos dizem ser tão bom.

Shiera o olhou surpresa com a velocidade em que Daenerys tomara aquela decisão.

—Ela propôs... o quê? O que ela disse? – Perguntou Shiera.

—Ela propôs que nos casássemos. Mesmo que ela fosse supostamente minha tia. Daenerys justificou que é um costume Targaryen casar parentes e que já houve coisas assim. – Respondeu ele e Shiera desviou o olhar, dando as costas para Jon, para voltar a mirar a janela.

—E o que você disse? – perguntou ela. Jon tocou sua cabeça com a testa, aspirando o cheiro de seus cabelos.

—O mesmo que eu disse para você, quando colocou uma pedra sobre nossos planos pós guerra. – Murmurou Jon – Não existirá outra mulher para mim além de você e eu voltarei a vestir o negro antes de me casar com quem quer que seja.

Suspirou sem conseguir evitar e o calor que aquelas palavras lhe deram a fez arrepiar-se. Mas tentou manter-se no controle de si mesma e de suas emoções. Seguiu mirando a janela, tentando não denunciar todos os sentimentos que tinha explodindo dentro de si.

—Aposto que ela não gostou nada disso. – Murmurou Shiera.

—Ela me aconselhou a voltar mesmo para a Muralha, assim que possível, pois ela não iria aceitar a ameaça que eu poderia vir a me tornar. – Murmurou Jon pegando um de seus cachos, para brincar com ele. Shiera se virou para encará-lo e ele sorriu.

—Você recusou a coroa de novo?! – Disse surpresa. Jon deu de ombros.

—Eu não desejo poder. Eu não desejo coroa, tronos, castelos. Eu sempre quis ser um Stark e deixar de ser um bastardo. Então descobri que não sou um. Que sou um Targaryen. Mas esse nome nada significa pra mim. Desejei a vida inteira me livrar do nome Snow e agora que o consegui... – Jon deu de ombros novamente – Não vejo motivos para gritar isso ao mundo. Só me trará dor de cabeça... – Ele respirou fundo – Se eu soubesse disso há alguns anos, talvez tudo tivesse sido diferente. Eu jamais teria me retirado sem lutar por você antes. Mas me esconderam isso, mesmo que para me proteger. – Jon suspirou – Me tiraram uma excelente chance de correr atrás da minha felicidade. – Jon a olhou nos olhos, lhe afagando o rosto. O polegar dele acariciou seu lábio inferior e o desejo dos dois ardeu naquele momento. Olhou para Jon e ele a olhou de volta. Ele estava ofegante tanto quanto ela. Os olhos brilhavam olhando para ela. O calor era tão intenso, que soltou a manta de lobo, que escorregou para o chão. Os olhos de Jon seguiram a manta e então foram subindo pelo corpo dela. Lentamente, como um homem aprecia uma bebida. Aos poucos, deliciando cada pedaço do que via. Podia sentir os olhos dele despirem-na mentalmente. Podia quase imaginar as mãos dele a tocá-la de maneira ardente e apaixonada. Os olhos dele foram até seus lábios e pararam ali, imaginando o beijo apaixonado que os dois tanto desejavam trocar. Mas então os olhos dele foram para os seus. Olhos de tempestade contra olhos violetas. Sentiu-se longe dali. Sentiu-se em Harrenhal, naquela torre. Quando ele tentara tirar seu vestido, mas ela não o permitira. Céus, daria tudo o que tinha pela oportunidade de voltar a aquele momento. Para permitir que Jon se deixasse levar pelo calor da juventude. Os dois engoliram em seco, mirando-se com uma intensidade absurda. Seu coração batia tão rápido, de maneira tão violenta, que podia jurar que a qualquer momento ele quebraria seus ossos e pularia para os braços de Jon – Shiera. – Sussurrou ele se aproximando um passo. Ainda se miravam nos olhos, mas logo as duas esferas miraram os lábios macios um do outro. A mão dele acariciou seu rosto e o polegar passeou por seu lábio novamente. Segurou a mão dele e mordiscou aquele polegar abusado e Jon suspirou, estremecendo – Os Deuses são testemunhas do meu amor por você. Peça... peça qualquer coisa agora e eu farei. – Confidenciou ele – Sou seu, Shiera. Não me importa mais nada. – Murmurou ele.

Uma traição será por amor...

Mirou Jon nos olhos novamente.

—Qualquer coisa? – Perguntou ela e ele concordou – Se eu pedir que roube um barco para fugirmos, o faria? – Jon respirou fundo e concordou com um aceno de cabeça – Mesmo sabendo o quão vital você é para tudo isso? – Perguntou ela – Jogaria tudo para o ar, por alguns momentos de pura felicidade? – Perguntou ela. Jon engoliu em seco e suspirou.

—Por que preciso sempre abdicar da minha felicidade? – Perguntou ele – E que diferença um só homem poderá fazer?

—Me diga você. – Murmurou ela – Seria capaz de me roubar do seu irmão? De abandoná-lo? Abandonar sua família? Apenas por mim?

Ele a olhou com intensidade.

—Você não? – Perguntou ele.

—E todo o sangue que teríamos nas nossas mãos? – Perguntou ela – Saberia lidar com isso?

Jon engoliu em seco e baixou os olhos.

—Entendo. Você... Você não quer...

—Eu já te pedi isso mais de uma vez, Jon. Eu sou egoísta. Eu sou egocêntrica. Mas você não é. – Disse Shiera – Só está cego de amor. – Murmurou ela.

—Voltemos ao que tínhamos decidido. – Murmurou ele pegando suas mãos para beijá-las com carinho – Lutemos a guerra. É nossa responsabilidade. Mas então, depois... Depois vamos ficar juntos. Robb teve a chance dele, Shiera.

—Você também teve. – Alfinetou.

—Eu não tive e você sabe. – Discordou ele – Eu só não sou o tipo de pessoa negligente, que deixa as responsabilidades de lado por conta de algum impulso pessoal. Eu voltei para o Norte na intenção de ser um homem melhor. Para que quando seu pai voltasse, ele me declarasse cavaleiro. Mas eu não queria Harrenhal. Eu queria você comigo, em Winterfell... – Ele suspirou – Mas Robb se apaixonou por você. Eu queria o melhor pra você. E como irmão bastardo dele, era minha responsabilidade não ficar no caminho. Mas agora é diferente. – Jon a olhou com intensidade e Shiera engoliu em seco – Quando tudo acabar, fique comigo.

—E Robb? – Perguntou Shiera, pensando no marido. No quanto ele ficaria devastado, quebrado, magoado. Lembrou de tudo o que ele fizera por ela. Fora ele, afinal, quem a salvara de Roose Bolton. Já se contava todo tipo de lenda sobre como Robb Stark voltara dos mortos para recuperar sua casa e sua amada esposa. O quão ingrata seria por abandoná-lo por outro homem, que nunca lutara por ela? Robb lutara. Ao seu lado.

Jon suspirou, baixando os olhos.

—Você o ama, não é? – perguntou ele se afastando de leve. O calor do ardor e desejo de ambos se dissipou de leve.

—Não tanto quanto amo você. – Confessou – Mas o que você realmente já fez por mim? – Perguntou e Jon corou olhando pra ela – Robb lutou por mim, Robb me salvou. Robb me deu um filho e chorou comigo quando ele nos foi roubado. Ele se desdobrou para recuperá-lo e sofreu com minha mágoa para me proteger de Roose Bolton. Robb desrespeitou as ordens do meu pai, para se casar comigo. Ele se esforçou para que eu o amasse. Ele abriu mão do próprio orgulho. Ele me conquistou, Jon. Mas e você? O que você fez por mim? – Perguntou Shiera e Jon desviou o olhar – Eu sempre fui apaixonada por você, muito antes até mesmo de conhecê-lo. Eu lutei por nós. Eu fui até Winterfell para vê-lo. Eu fiquei em Winterfell para poder ficar mais com você. Eu lhe entreguei a armadura em Harrenhal, eu te chamei pra dançar, eu te beijei naquele represeiro, eu te beijei em Harrenhal, eu te ofereci a chance de sair da Muralha e ser um Stark. Eu. – Engoliu em seco, magoada, com as lágrimas descendo por suas bochechas – Eu pedi para que fugisse comigo. Mais de uma vez. Sou sempre eu pedindo para que você viesse comigo, mas você nunca podia vir. E agora deseja que eu peça isso mais uma vez. – Shiera engoliu em seco e Jon a olhou com os olhos mais tristes que ela já tinha visto – Disseste para que eu pedisse qualquer coisa. – Murmurou engolindo em seco. Ele a olhou parecendo desolado, como se soubesse o que estava por vir – Me esqueça, Jon Snow. Eu ficarei com Robb, porque ele merece o meu amor. Ele merece minha devoção. – Respirou fundo, deixando o modo sulista de falar. Seu coração batia acelerado, como se implorasse para que ela calasse a boca. Como se implorasse para que ela reconsiderasse e simplesmente se permitisse ficar com Jon. Mas era uma Rainha. Era responsável por seu povo. E Jon precisava de Daenerys e ela dele, para que salvassem o mundo dos Caminhantes Brancos – Nesse momento, Jon, eu estou desistindo de você. Nesse momento eu... – Arfou sem ar, com o peito dolorido. Jon a olhou com os olhos cheios de água – Eu não posso amar você. Você não fez por merecer tudo o que eu me dispus a sacrificar por nós dois. Aqueles momentos maravilhosos que nós tivemos ficarão no passado. E eu sofrerei a sua ausência até o fim dos meus dias. Mas eu não vou mais mendigar suas migalhas. Eu mereço mais do que isso. E definitivamente, Robb merece mais do que isso. – Se abaixou para pegar a manta de pele de lobo e se enrolou nela – Me esqueça, Jon Snow, Jon Targaryen, Jon Stark... Só me esqueça. E eu me esforçarei para fazer o mesmo.

—Nunca esqueceremos um do outro. – Murmurou Jon e Shiera pegou a vela na janela, para se afastar dele – Juramos aos deuses e eles não permitirão que alguma vez esse juramento seja quebrado. – Apertou mais a pele de lobo e suspirou – Talvez em outra vida... Eu consiga você de volta. – Murmurou Jon e Shiera arfou com o rosto molhado e contorcido pelo choro – Eu amo você. – Murmurou Jon – Lamento que nunca tenha estado a sua altura. Lamento que nunca tenha sido aquilo que você desejava que eu fosse. – Jon a abraçou por trás e arfou também – Seja feliz com ele, então. É só o que eu desejo. Que você seja feliz. Não importa onde ou com quem. Você não merece mais sofrer. Eu queria ser o homem que a protegeria de todo o sofrimento, mas agora eu vejo que eu sempre fui a causa de boa parte dele. E por isso eu sinto muito. – Ele a beijou na têmpora e suspirou em seu ouvido. O escutou fungar e sentiu seu corpo tremer entre os braços dele – Mas saiba, Shiera... saiba que não importa o que passe. Nem quanto tempo passe. Meu coração é, sempre foi e sempre será seu. Desde aquele momento em que eu te vi naquela feira. Até quando passou-se um ano inteiro sem que eu ouvisse uma palavra que fosse sobre você. Mesmo na Muralha e além dela. Eu amo você e isso nunca irá mudar. – Ele a soltou tão de repente que Shiera sentiu que seu mundo havia ruído com a distância que Jon tomava. Se virou e o observou se afastar, com Fantasma a segui-lo.

Respirou fundo, perdida e incompleta. Mas decidida a não voltar atrás. Se virou para o quarto e caminhou pelos corredores novamente. Abriu a porta do quarto e deu de cara com Robb.

—Está tudo bem? – perguntou ele, preocupado – Estava chorando? O que houve? – Sentiu a mão dele em seu rosto a afagá-la numa carícia protetora. O abraçou, jogando a vela no chão, sem se importar de ser lançada no escuro. Soluçou no peito dele, sabendo que Robb deveria estar muito perdido naquele momento – Venha, Shiera. Venha... – Murmurou ele a puxando para dentro do quarto e fechando a porta – Alguém a machucou? Me conte o que houve. Se alguém tiver te machucado, juro que vou...

O calou com um beijo. Parte de si estava desgostosa com o que fazia, mas outra parte suspirou de alívio. Tinha encerrado, de uma vez por todas, sua relação com Jon. Da outra vez, não estava certa de que poderia manter aquilo. Mas agora estava mais do que decidida a isso. Robb a abraçou e a beijou de volta.

—Diga que me ama, Robb. – pediu com o coração sangrando.

Robb piscou, confuso, mas então sorriu. Ele a fez olhar para os olhos azuis dele.

—É claro que eu te amo, meu amor. Você é tudo pra mim. – Murmurou ele. Shiera engoliu em seco, sem sentir o calor que Jon a fazia sentir, sempre que falava aquilo. Mas iria se conformar com isso. Jon era feito de gelo e fogo, Robb era apenas gelo... gelo e água, dos Tully. E água era o elemento da mudança, da adaptação. Ele iria conseguir cuidar dela, mesmo que demorasse um pouco. O olhou nos olhos e suspirou – Está tudo bem?

—Não. Mas vai ficar. Me beije, esposo. – Pediu fechando os olhos e Robb obedeceu prontamente a tocando com todo o carinho possível. Como se ela fosse de vidro e pudesse se quebrar a qualquer momento. Sentia-se assim, na verdade. Prestes a se despedaçar inteira. Robb a levou para a cama e a beijou apaixonadamente. Dormiram abraçados e no dia seguinte notou que seu sangue já tinha ido embora. Ele durara apenas dois dias...

—Você está bem? – Perguntou o esposo enquanto se vestia. Shiera concordou com um aceno de cabeça, antes de olhar para ele – Mesmo?

Ele se virou e voltou para a cama.

—Estou me sentindo cansada. – Murmurou encolhida embaixo dos cobertores – Se importa de pedir para que tragam o desjejum pra mim?

—De modo algum. – Murmurou Robb. Ele suspirou a afagando nos cabelos e lhe beijou a testa – Eu mesmo trarei seu desjejum. Depois irei para ajudar os homens a minerarem o vidro de dragão. – Shiera apenas concordou com um aceno de cabeça. Seu corpo estava fraco. Provavelmente porque seu coração estava demasiado ferido.

Mas vai passar... vai passar...

**

—Então Sor Barristan está vivo. – Murmurou Aegon e Sor Jorah concordou com um aceno de cabeça – Eis uma boa notícia.

Fazia um dia chuvoso. A tempestade batia forte contra as janelas e vez ou outra os clarões acertavam o mar, lá longe, causando um terrível estrondo que parecia fazer até as paredes tremerem. A mesa com o mapa de Westeros estava entre eles, enquanto eles discutiam os próximos passos. Jon estava liderando a mineração e não estava presente, assim como Shiera, que não estava se sentindo muito bem, preferindo ficar deitada e não participar de nada. Pareciam aqueles dias terríveis de quando tinham deixado Winterfell pela última vez.

Logo depois de Ned ter morrido.

Robb desviou sua atenção sobre a missão que um tal Sor Barristan estava fazendo em Porto Real. Sua memória voltou até o filho. Ned era muito sorridente. Lembrava de flagrar Sheira e ele tomando banho, enquanto ela arrancava milhares de gargalhadas dele. Gostaria de não ter tido tanto medo de pegá-lo no colo. Queria ter aproveitado mais o tempo com o filho. De ter dito a ele o quanto o amava, por mais que ele fosse pequeno demais para entender isso...

Lembrava de ver Shiera amamentá-lo com um sorriso amoroso no rosto. Um sorriso completamente pleno. Queria vê-la sorrir assim novamente. Shiera tinha o mais belo sorriso do mundo e o modo como ela suspirava com aquele sorriso e um semblante de paz era tudo o que ele mais desejava ter de novo.

Mas o sangue lunar dela descera novamente.

Lady Mormont o alertara sobre isso. Depois de se tirar uma criança, algumas vezes, algumas mulheres, ficavam com o ventre fraco e ter filhos se tornava uma complicação. Mas jamais obrigaria Shiera a ter um filho de Roose Bolton, mesmo que isso pudesse implicar em deixá-la infértil. Lady Mormont explicara os riscos e Shiera os abraçou, assim como ele. Os filhos de Sansa levariam Winterfell e o Norte um dia, caso ele falhasse em engravidar Shiera novamente.

Suspirou, distraído, pensando na noite anterior. Acordara sem encontrar a esposa ao seu lado. Preocupado, estava para ir procurá-la, quando ela retornou, completamente abalada com alguma coisa. E só conseguia imaginar que era algo relacionado a Jon. Mas não pensaria naquilo. Confiava em Shiera mais do que confiava em Jon. Sabia que ela não iria traí-lo.

Levantou o olhar para a mesa, mirando Winterfell no mapa. Sentia saudades de casa, por mais que o lugar tivesse sido o anfitrião de péssimos momentos. Suspirou, se perguntando se algum dia voltaria a ser feliz como outrora por lá. Quando ele e Jon eram apenas meninotes, antes mesmo de Theon vir para eles. Quando eram dois meninos a treinar juntos, a jantarem juntos, a brincarem juntos. Faziam tudo na companhia um do outro e levou muito tempo para que sua mãe o convencesse que Jon não era seu igual. Que ele não era seu irmão. Que ele era um bastardo. Lembrava de falar para a mãe que se ela o conhecesse melhor, iria gostar dele. Mas ela o alertara que ele um dia desejaria tudo o que era dele. E que talvez, algum dia, tentasse roubar o que era seu de direito.

Nunca tinha acreditado muito nisso. Tinha pensado até mesmo em legitimá-lo como seu irmão. Para se caso algo ruim acontecesse, caso morresse sem deixar herdeiros... Ainda teria Jon. Winterfell ainda pertenceria a um Nortenho. Mas Jon agora não era seu irmão. Ele era um Targaryen. E ele amava sua Shiera. Ele a desejava. Ele a olhava sonhadoramente todo o tempo, provavelmente imaginando como poderia ter sido.

Algumas vezes se sentia ultrajado. Outras, envergonhado. Roubara Shiera de Jon. Se ele tivesse batido o pé e se negado a casar-se com ela, Shiera nunca lhe teria sido prometida. Talvez Jon nunca tivesse ido para a Muralha. Talvez eles estivessem juntos. Mas pensar naquela possibilidade era assustador. Pensar numa vida sem sua amada esposa... por mais que ela já não o amasse tanto assim..., mas sentia, aos poucos, bem aos poucos, o amor dela voltava. Talvez um dia, se vivessem o suficiente, voltariam a ser como eram. Intensos, ardentes, cheios de carinho, amor e cumplicidade.

Lembrava que certa vez, quando estavam se preparando para a Batalha dos Murmúrios, estavam ao redor de uma mesa, analisando os mapas. Acabou trocando um olhar com ela e ela notou. O jeito como ela começou a olhá-lo e a sorrir fez com que cada pedaço de si acendesse. Podia ver as intenções dela naqueles olhos maravilhosos. Começou a suar frio e desejar que aquela reunião terminasse logo. Mas era algo importante que estava sendo discutido ali e precisavam que ele tomasse alguma decisão. Mas era só olhar para ela que ele se perguntava o que estava fazendo naquela tenda, com todos aqueles Lordes, quando desejava a todo momento simplesmente estar com ela e somente com ela. Foi Shiera quem deu a palavra final e ele simplesmente concordou com ela, desejando que ela tivesse decidido algo bom, pois já não havia sangue o suficiente em seu cérebro para que ele fosse capaz de raciocinar. Ela o tinha com apenas um olhar.

Mas nem sempre era ela quem tinha o controle da situação. Certa vez a provocara tanto, tanto, que ela implorou para que ele a tomasse. Prometera que o permitiria fazer o que quisesse. Ela o agarrava e mordia, implorando por seu corpo, implorando para que a reivindicasse. E quando ele o fez, ela jurou que era dele e somente dele.

Mas aquele fogo todo tinha sumido. Talvez porque ambos tinham morrido alguma vez. Aquela parte tão viva deles não poderia manter-se intacta. Mas se perguntava se seria possível restaurá-la. Lembrou-se de certa vez, depois de deixarem Winterfell, quando a flagrara no banho. Ela tinha vindo mansa e desejosa, pedindo por mais e quase não lhe deixando tempo para respirar. Ficara tão arranhado, que o suor nas costas, no dia seguinte, lhe causava desconforto. Mas fora aquela vez e então acabou.

Ainda conseguia ouvir as palavras de Jon Umber a assombrá-lo.

—Parece que o Norte não está muito interessado nesse embate. – Escutou Aegon falar e isso o despertou de seu torpor. Piscou, surpreso, notando que todos o encaravam, com alguma expectativa – Desculpe, Lorde Stark, o estamos aborrecendo com nossa conversa? Deveríamos deixá-lo a sós com seus pensamentos? – Debochou ele e Robb desejou que Aegon pulasse penhasco abaixo, para se afogar no mar bravio.

—Perdoem-me... Me distraí... – Murmurou constrangido e Daenerys o olhou fixamente – Poderiam repetir?

—Eu estava perguntando se você já viu com seus próprios olhos, esse exército dos mortos. – Sibilou Daenerys, que estava de pé, na ponta da mesa, uma prancha de madeira maciça, com mais de quinze metros de comprimento, esculpida no formato de Westeros e pintada para mostrar todas as florestas, rios, cidades e castelos dos Sete Reinos. Robb piscou surpreso por ter perdido a mudança de assunto.

—Eu os vi no fogo. – Respondeu Robb.

—Visões em chamas. – Suspirou Daenerys, sem se convencer – Você também não me oferece nada mais do que visões em chamas. – Resmungou ela ou para Aegon ou para Melisandre, que estavam lado a lado, como sempre.

—Não sou eu quem oferece, mas o Senhor da Luz. – Devolveu Melisandre e Daenerys bufou parecendo meramente impaciente.

—Mas Jon disse ter visto. – Anunciou Aegon – Falam que ele chegou a matar um deles. Quando era Lorde Comandante da Muralha, ele foi até Hardhome para resgatar os Selvagens que tinham lá. E durante o resgate, os Outros apareceram, um enorme exército com incontáveis mortos, regidos pelos Caminhantes. Jon Snow lutou contra um deles e o matou. Tormund disse isso.

—Um selvagem. – Desdenhou Jorah – Meu pai lidou com eles por metade da vida. Garanto-lhe, Khaleesi, que os Selvagens não são conhecidos por sua honra ou por contar verdades. São traiçoeiros, vis, que não respeitam nada nem ninguém. – Garantiu o homem e Robb suspirou. Crescera ouvindo exatamente o mesmo.

—Confesso que é uma história difícil de se acreditar. – Murmurou Valerion – Taxaram-me de louco em Porto Real, quando pedi que o Arquimeistre mandasse uma carta à Cidadela, para que enviassem tudo o que pudessem sobre os Caminhantes Brancos. Myrcella garantiu que só acreditaria vendo. – Murmurou ele.

Fez-se um silêncio pesado e cheio de receio. Todos se entreolharam esperando que alguém rompesse a ausência de som, mas ninguém parecia inclinado a tal feito. Robb engoliu em seco, pensando em sua visão. Já não lembrava muito bem dela. Apenas que via três dragões voando para a Muralha e que um morreria por lá. Seu olhar passou de Daenerys para Aegon e depois para Valerion. Jon é um dragão também, em pele de lobo..., mas ainda um dragão.

Uma parte dele se perguntou se seria capaz de ficar feliz caso o irmão morresse. Talvez sentisse alívio... E essa dúvida o feriu no coração. Jon era seu irmão, não importava o que Reed dissesse.

Mas começava a se perguntar se choraria caso o visse morto. Estava surpreso com os próprios pensamentos.

—Bem, se precisam ver para crer, eu irei até lá buscar essas criaturas para vocês. – Disse Aegon e todos olharam para ele. Robb sabia que se fosse ter alguém a sugerir aquilo, seria o irmão mais velho de Shiera.

—Você irá se sua rainha disser que você deve ir. – Rosnou Jorah e Aegon o olhou preguiçosamente.

—Por favor, Sor Jorah... Não o provoque. – Pediu Daenerys e Jorah Mormont bufou olhando Aegon com algo que parecia ressentimento – Aegon, acha que será produtivo fazer uma viagem dessas?

—Se provarmos que esse perigo é real, nem mesmo Porto Real vai querer insistir em uma Guerra. Todos nós poderemos concordar com um acordo de trégua, para nos unirmos contra uma ameaça maior. – Disse ele e Robb concordou.

—O Norte concorda em fazer trégua contra o perigo além da Muralha, com ou sem provas. – Disse ele – Jon é meu irmão e eu confio nele e em seu testemunho. – Desejou que aquelas palavras parecessem verdadeiras, por mais mentirosas que fossem. Acreditava que Jon não estava mentindo sobre aquilo. Mas isso não significava que confiava nele. Não mais. Não depois da última noite.

—Então é isso. – Declarou Aegon – Quem irá comigo, para além da Muralha?

—Eu. – Disse Valerion Blackfyre ficando de pé – Algumas coisas precisamos ver com nossos próprios olhos. Quero ver nossa real situação. Loras irá comigo, evidentemente, já que é um membro da minha Guarda Real. E Obara Sand. Ela está animada com a perspectiva de ir tão ao Norte.

Robb achava que a Dornesa se arrependeria dessa animação no exato momento em que o Norte soprasse seus ventos gelados em seu rosto.

—Eu irei. Eu também quero ver essas criaturas com meus próprios olhos. – Disse Robb – Jon também irá ir, imagino. – Disse com um suspiro – Espero que Tormund também. Ninguém conhece as terras além da Muralha melhor que os selvagens.

—E você, Jorah? – Perguntou Aegon – Creio que quanto mais nortenhos, melhor. Vocês conhecem o frio e o inverno nortenho melhor que ninguém. – Jorah olhou para o Blackfyre e certamente notou o tom desafiador e quase desdenhoso de Aegon – A menos, é claro, que a idade finalmente o tenha abraçado. Você parece quase tão velho quanto o meu avô...

Robb duvidava que aquilo fosse verdade e suspeitava que Aegon só queria fazer algum tipo de provocação. Só não conseguiu enxergar o motivo. Mas preferiu não opinar sobre aquilo. Jorah Mormont suspirou e concordou com um aceno de cabeça.

—A rainha precisa de alguém de confiança para ser seus olhos, lá, além da Muralha. – Devolveu ele e o sorriso debochado de Aegon morreu no mesmo instante.

**

O Castelo estava numa tremenda ansiedade. Cersei se sentia exausta e desejava uma boa dose de vinho, mas se recusou a sair de perto de Myrcella. Sua pobre garotinha parecia assustada, absolutamente assustada. Ela se contorcia com as dores que sentia e seus olhos lunáticos reviravam e dançavam nas órbitas, enquanto ela balbuciava qualquer coisa.

Cersei sabia a verdade, apesar de se recusar a aceitá-la. Todos sabiam a verdade. A pobre menina tinha perdido a sanidade. Ela não falava nada que fizesse sentido, via fantasmas todo o tempo, principalmente o de Daena Blackfyre. Myrcella garantia que a mulher a estava visitando, falando que ela daria a luz a um dragão. Não uma criança Blackfyre, mas um dragão de verdade. Então sua linda garotinha chorava e se contorcia, dizendo que sentia as garras de tal besta arranhá-la por dentro, desejando sair.

Cersei sabia o que era a dor do parto. Sem dúvidas, Joffrey fora o mais doloroso de todos. Ele levara um dia e meio para nascer e o parto de Myrcella não parecia que levaria menos tempo que isso.

—Tão jovem, jovem demais... – Lamentou Cersei mirando sua pequena criança, sua única filha, sua última filha. Lhe tinham tirado seus dois meninos, mas os deuses não seriam cruéis a ponto de lhe tirarem Myrcella também. Quando Joffrey nasceu Cersei tinha vinte anos, quase cinco anos a mais que Myrcella... Como aquele maldito dragãozinho negro tivera a coragem de engravidar Myrcella? Ela era apenas uma criança..., mas uma menina. E o mundo era difícil demais para as meninas – Respire, meu amor, respire. – Sussurrou para sua garota, que chorava de dor, apertando as cobertas, com a testa suada e os cabelos desgrenhados. Os lábios secos e cortados, com olheiras roxas sobre os olhos. Ela não dormia direito desde que Valerion fora embora, aquele maldito traidor – Logo a dor passará. Logo seu bebê virá ao mundo. Um orgulhoso leão...

—Dragão! – rosnou Myrcella e Cersei pensou ver um pouco de lucidez nos olhos dela – Ele será um dragão. Um dragão Blackfyre. Um menino. Eu sei que será um menino.

—Talvez dois. – Murmurou Cersei. Pycelle já tinha dito que Myrcella não esperava um, mas dois bebês. Cersei apertou a mão dela e Myrcella respirou fundo – Dois dragões, meu amor. Dois herdeiros para o trono...

Myrcella respirou fundo novamente e fechou os olhos, encolhendo de dor, com uma careta. Cersei respirou fundo e segurou a pálida mão da filha, tentando passar a ela algum conforto. Myrcella prendeu a respiração e chorou de dor. As dores das mulheres. Ela arfou e fez uma careta, movendo as pernas e se contorcendo. Cersei pegou um pano e o passou pela testa da filha, secando seu suor, com todo o carinho que tinha dentro de si. Myrcella pareceu relaxar quando a contração terminou e a olhou parecendo cansada.

—Mamãe... – Sussurrou ela e Cersei sorriu para sua amada filha – Valerion já voltou? – O ódio por aquele rapaz a inflamou e Cersei negou com a cabeça, tentando manter o sorriso no rosto, querendo confortar sua pequena leoa – Ele vai voltar para ver o bebê nascer?

Cersei respirou fundo e negou com a cabeça.

—Robert nunca viu nenhum de vocês nascer. O assustava demais. Ele sempre ia caçar e trazia algo para me presentear. Um veado branco, um javali, um leão das planícies... E eu o presenteava com seus herdeiros. – Disse Cersei, apesar de Myrcella saber que Robert não era o pai dela – Valerion voltará com a cabeça dos nossos inimigos e você o presenteará com dois lindos herdeiros. – Prometeu Cersei jurando a si mesma que se Valerion não fizesse isso, seria a cabeça dele que seria arrancada.

Myrcella tentou se sentar, segurando a enorme barriga. Ela respirou fundo e a olhou com os olhos marejados.

—Estou com fome. Queria tanto comer... – Murmurou ela. Cersei estava para pedir alguma coisa a alguma serva, quando Myrcella continuou – Arianne me trouxe uns bolinhos ontem, mas não os consegui comer todos. Poderias pegar um para mim? Estão na estante. – Murmurou Myrcella. Cersei se virou e viu uma cesta com alguns bolinhos. Levantou-se, andando até eles e os mirou ainda pensando no parto da filha – Os de laranja são meus favoritos, apesar de os de limão também serem muito bons. – Cersei mirou os bolinhos e sentiu algo em seu peito. Uma preocupação inexplicável. Ficou encarando aquela cesta de guloseimas por alguns instantes, tentando entender o que seu instinto dizia – Mamãe, me dê os bolinhos. – Pediu Myrcella, mas Cersei ficou observando aquele quitute com desconfiança. Eram de Dorne. Dorne era famosa por seus esquemas. Arianne era amiga e prima de Nymeria, uma Serpente de Areia... Filha de Oberin Martell, conhecido por seus venenos... – Mamãe! Ande logo! – Cersei continuou ali, mirando a comida, mas o grito de Myrcella a trouxe de volta – MAMÃE! PELOS SETE INFERNOS!

Cersei se virou e viu a filha encará-la com alguma ira. Era normal se irritar durante as dores do parto. Nenhum humor resistia às contrações. Mesmo Myrcella, com toda a sua doçura, jamais seria capaz de tal feito. Mas havia algo em seu olhar. Algo que lembrou a si mesma, quando ficara sem seu vinho favorito, nos dias em que a cidade estava sitiada. Sabia que estava bebendo demais e quando não bebia, seu humor era arruinado e sua mente era tomada pela ira. E seus olhos ficavam como os de Myrcella.

—Meu amor... – Começou, com o coração cheio de desconfianças.

—Cale a boca e me dê um maldito bolinho! – Gritou Myrcella, pegando um enfeite qualquer ao lado da cama e o jogando nela, no entanto, Cersei foi rápida o suficiente para esquivar. Myrcella chorou de raiva e frustração. Cersei, a essa altura, estava mais do que convencida de que Myrcella não comeria da gastronomia dornesa.

—Escute, meu amor. Pode ser ruim para o bebê. – Disse com doçura, indo para a mesa e pegando um pouco de água. Encheu um copo e o ofereceu para a filha, que a olhava com os olhos injetados de raiva – O melhor é sentir alguma fome no parto, ou pode ser ruim para as crianças. Tome. Beba água, meu amor.

—Sempre como desses bolinhos, nada de ruim nunca aconteceu! – Disse Myrcella segurando o copo, parecendo furiosa. Cersei segurou as mãos dela e a olhou com um sorriso.

—Durante a gravidez é uma coisa, mas durante o parto, as mulheres devem fazer jejum. – Disse Cersei e Myrcella bufou – Eu perdi um bebê antes de Joffrey porque desrespeitei essa regra. Já falei dele pra você. Seu irmão de cabelos pretos. – Disse Cersei. Fora o único bebê de Robert que ela tivera, mas ele não sobreviveu ao parto. Lembrava de falar sobre ele com Catelyn Stark, quando o filho dela estava inconsciente na cama, depois de Jaime jogá-lo da janela. Não era mais fácil agora falar sobre ele...

Aquelas palavras pareceram causar algum efeito em Myrcella. Ela respirou fundo e bebeu um pouco da água. Cersei a acariciou nos cabelos e a porta se abriu. Jaime as olhou com preocupação e suspirou antes de falar.

—Meistre Pycelle está aqui para ver a situação da Rainha. – Disse ele e Cersei concordou com um aceno de cabeça. Seu irmão abriu passagem e o velho entrou lentamente no quarto. Myrcella voltou a se deitar e Cersei tirou o copo da mão dela, o repousando na cabeceira da cama.

—Com suas licenças, Vossa Graça... Vossa Graça. – Cumprimentou ele indo para o lugar reservado a ele, em frente às pernas de Myrcella. Pycelle respirou fundo e Myrcella fechou os olhos, envergonhada por ter aquele homem velho a observando de maneira tão exposta. Cersei segurou a mão dela e Pycelle colocou a mão na fenda de sua filha. Myrcella fez uma cara de desgosto e Cersei observou o velho retirar a mão dali pouco depois – Está quase na hora, mas podemos esperar um pouco mais. – Murmurou ele – Falarei para prepararem tudo para o parto, Vossa Graça. Mas adianto que tudo parece estar indo muito bem.

—Jaime, fique aqui com Myrcella. – Pediu Cersei ficando de pé e indo até a cesta de doces. Jaime a olhou confuso, parecendo ligeiramente intimidado e Myrcella começou a se contorcer de dor, pois uma nova contração deveria estar começando.

—O que quer que eu faça? – Perguntou ele parecendo assustado. Cersei revirou os olhos. Ele seria capaz de enfrentar um exército sozinho, sem sentir um calafrio que fosse. Mas o parto o fazia parecer mais um gato assustado do que um leão. Talvez porque essa seja uma guerra apenas das mulheres. Homens entendem de espadas e nós de gerar vida.

—Segure a mão dela e a conforte. – Disse ríspida e Jaime suspirou, com os ombros caídos, como ele costumava ficar quando fazia alguma bobagem e era colocado de castigo pelo pai, quando ainda era apenas um garoto. E ele ainda não é isso? Um garoto muito alto?— Meistre Pycelle. Eu preciso falar contigo sobre uma cesta. – Disse saindo do quarto com ódio a apertar seu coração tão forte quanto suas mãos apertavam aquela maldita cesta cheia de bolinhos.

**

Quando Robb se viu no corredor do quarto, algumas mulheres deixavam o quarto de Shiera. Achou aquilo ligeiramente curioso e quando estava para entrar, uma mão quente segurou a sua. Se virou para encontrar os olhos vermelhos de Melisandre de Asshai. Imediatamente se lembrou de uma conversa com Shiera, onde a esposa dizia que a mulher vermelha queria compartilhar de sua cama. Aquele pensamento o deixou constrangido no rosto, mas a parte abaixo de sua cintura não respondeu da mesma maneira.

Melisandre era tão alta quanto ele, com um rosto em forma de coração, a pele branca e sem manchas, os olhos vermelhos, os seios fartos e os cabelos de um profundo tom acobreado. Ela era uma bela mulher, muito misteriosa. Normalmente estava sempre com Aegon, mas agora ela estava completamente só. Recebeu um sorriso da sacerdotisa e ela colocou sua mão entre as duas dela.

—Como se sente, Vossa Graça? Estava distraído na reunião. Teu pensamento voava longínquo. – Murmurou ela e Robb puxou a mão de uma vez.

—Estou muito bem. – Respondeu apressado e estava para ir para o quarto, quando a mulher voltou a falar.

—Tua rainha necessita de tua atenção. – Murmurou Melisandre e Robb a olhou curioso – Dê a ela todo o tempo que lhe resta. – Melisandre se aproximou um passo e o rubi que ela tinha no colar de ouro brilhou reluzente – Ela já sofreu por demais. – Garantiu a ruiva e Robb engoliu em seco, sentindo-se pressionado pela presença dela – Boas novas chegarão a você, quando embarcarmos em White Harbor. Quando deixarmos a cidade, rumo à Muralha, venha falar comigo. Irei acompanhá-los até o castelo de Atalaia Leste, mas não partirei em direção às Terras Selvagens. Meu poder é mais fraco por lá. – E dizendo isso, ela simplesmente se virou e foi embora.

Robb piscou, ligeiramente confuso. Não sabia do que se tratava tudo aquilo. Se virou para a porta, tentando entender do que raios Melisandre poderia estar falando, e a abriu.

Shiera estava na janela, mirando o mar. Ela passava muito tempo fazendo isso. Fechou a porta e suspirou olhando para a esposa, que se virou para encará-lo. Shiera sorria de maneira serena, com as bochechas coradas. Robb a olhou curioso, feliz por receber aquele sorriso, mas sua surpresa maior foi quando ela atravessou o quarto para lhe beijar os lábios. A beijou de volta, pego de surpresa e absolutamente contente com aquele gesto de carinho. Normalmente era sempre ele quem tomava a iniciativa das coisas.

Shiera o puxou, suspirando em seus braços e Robb a puxou de volta, perdendo-se em seus beijos. E aquele gesto de carinho levou tanto tempo que ele ficou até sem ar. A olhou querendo saber o motivo daquilo, mas Shiera apenas sorriu, parecendo feliz, novamente.

—O que... – começou, mas ela negou com a cabeça, colocando um dedo sobre seus lábios. Calou-se, de imediato e Shiera o acariciou no rosto com a mesma mão que o fizera se calar. Os olhos violetas dela o olharam com intensidade e ela suspirou novamente.

—Como foi a reunião? – Perguntou ela. Mas aquele era o último assunto que ele queria discutir.

—Existe uma possibilidade de trégua com Daenerys e Porto Real, para unirmos forças contra os Outros. – Respondeu, ainda curioso com o jeito dela. Shiera sorriu parecendo muito feliz e ele se lembrou da garota alegre que ela costumava ser. Antes dos Bolton, antes do Casamento Vermelho. Teve medo de se mover rápido demais e aquilo tudo não passar de uma miragem.

—Mas que ótima notícia, meu amor. – Disse ela segurando suas mãos. Robb a olhou com atenção e sentiu um frio lhe subir a espinha.

—Tem alguma boa notícia para mim? – Perguntou ele e Shiera sorriu animada. Céus, havia tanto tempo que não via um sorriso daqueles.

—Ainda é cedo. Quero falar com um Meistre primeiro. No entanto, não tem Meistres em Dragonstone. – Respondeu ela o olhando com os olhos cheios de esperança. Robb sentiu o coração bater mais rápido e quis levar as mãos à barriga dela, mas ela não permitiu.

—Mas o seu sangue de lua...

—Não devemos falar sobre isso. – Pediu ela, como se estivesse pedindo segredo sobre uma prenda – Vamos esperar para não criar falsas expectativas, está bem? – Perguntou Shiera e Robb encheu-se de animação. Não havia como não ter expectativas. Shiera parecia um passarinho prestes a levantar vôo. Suas mãos foram até a cintura dela, para puxar a esposa para si. Shiera deu uma risadinha e se permitiu levar, passando os braços ao redor do pescoço dele. Era como se todo aquele tempo de luto, ressentimento e mágoa tivessem desaparecido. Sorriram felizes um para o outro e se beijaram cheios de entusiasmo. Seus sorrisos ocuparam o quarto e Robb acabou levantando a esposa pela cintura, para girá-la, arrancando gargalhadas dela – Pare! Pode ser um alarme falso. Não fique tão confiante. – Pediu ela sem parecer convincente. Mas Robb estava mais do que convencido.

Shiera em breve lhe daria um herdeiro. E dessa vez ele estaria ao lado dela para vê-lo nascer.

**

Myrcella mordeu o pano que seu pai lhe entregara, para suportar a dor. Ele a olhava como se estivesse morrendo, ou qualquer coisa assim. Talvez estivesse. Aquela dor não poderia ser normal. Era absoluta. Chorou, desesperada e gritou, apertando a barriga. Desejando que seus filhos nascessem logo. Quando a contração parou, sentiu tanto alívio que pareceu perder os sentidos. Ainda tinha noção que seu pai estava sentado a sua direita, parecendo completamente em pânico. Mas logo notou que havia alguém a sua esquerda também. Primeiro achou que era Valerion, pelos cabelos platinados e olhos violetas. Mas logo notou que os cabelos eram mais compridos. E o dragão no brasão dele era vermelho e não negro.

O olhou, curiosa, e escutou a voz de seu pai chamá-la, de longe.

—Quem é você? – Perguntou curiosa, mas cansada. Seria outro fantasma? Os via aos montes, ultimamente. O homem a olhou e suspirou. Depois colocou a mão sobre sua armadura amassada. Houvera um dragão de três cabeças cheio de rubis ali, mas o rubi estava rachado e apenas alguns fragmentos restavam. Imediatamente soube quem ele era – O que você quer? – Perguntou com medo. Ele sorriu e suspirou.

—Robert me tirou a vida e eu não pude nem mesmo me despedir daqueles que amei. Não vi meu filho nascer... Hoje eu vim buscar a última filha dele... Apesar de que você não é exatamente isso.— Murmurou ele e Myrcella sentiu medo, muito medo. Outra pontada de dor a atormentou e ela gritou de desespero – Estarei aqui quando você morrer.

Aquilo a assustou por demais e ela chorou de medo. Queria ver seu bebê nascer. Queria vê-lo crescer. Não queria morrer ali.

Alguém a chamou, mas estava muito longe e a dor era demais.

—Quer vê-lo?— perguntou o fantasma de Rhaegar e ela concordou com um aceno de cabeça.

—Me deixe vê-lo, por favor. Ele precisará de mim... – Lamentou ela e Rhaegar negou com a cabeça. Ele se curvou sobre ela e suspirou.

—Desde pequeno eu tinha visões. Eu sonhava com o futuro. Eu sempre soube o que eu precisaria fazer. Como eu precisaria morrer. Morrer, perder aqueles que eu amava. Eu sabia que seria a causa da destruição de toda a minha família. Eu sempre soube. Mas eu fiz o que precisava fazer. Tudo aquilo que eu fiz, era o que eu precisava fazer... Eu era o Príncipe que Foi Prometido, no fim das contas. E a arma para destruir o mal foi forjada. Na água do Tridente, ao cair do leão e por fim... Com a morte daquela que amei. Quer ver seu bebê? Daqui anos?

—Deixe-me ficar com ele. Não me leve, por favor. Ele precisará de mim... – Chorou Myrcella. A chamaram novamente, mas ela olhava o fantasma. Rhaegar se aproximou mais um pouco e encostou a mão em sua testa.

A dor a deixou. Estava em Harrenhal. Escutava o som das risadas. Risadas infantis.

—Cat! Não corra assim! – Ralhou uma voz que fez seu sangue ferver. Se virou para ver Shiera e Sansa, andando lado a lado. Sansa quem falara – Cat!

—Deixe-as brincar. – Riu Shiera – Crianças devem brincar.

Myrcella se virou e viu quatro crianças. Todas pareciam ter mais ou menos a mesma idade, com exceção de uma, que era visivelmente mais nova. Um garoto ruivo de olhos violetas. Uma menina castanha com os mesmos olhos e uma menina de cabelos platinados e os olhos de um púrpura muito brilhante. A menor também tinha os cabelos platinados e os olhos violetas, mas num tom muito mais escuro. Quatro crianças muito bonitas e alegres, correndo pelo enorme jardim de Harrenhal. Mas Myrcella não viu nenhum de seus filhos ali.

—Não vou conseguir tê-los? – Perguntou assustada. Se virou para Rhaegar e o empurrou – ONDE ESTÁ O MEU BEBÊ?!

Rhaegar a olhou com frieza e ela se contorceu de dor. Uma dor ainda mais forte e violenta. Gritou de volta a sua cama, desesperada e ensandecida. Cravou suas unhas na própria barriga, tentando empurrar o que tinha dentro de si para fora, mas mãos fortes seguraram seus pulsos.

—Acalme-se, Myrcella! – Pediu seu pai. Jaime Lannister.

—TIRE-A DE DENTRO DE MIM! – Gritou perdida em dor e em desilusão.

Notas finais
AAAAAAAAAAH! MYRCELLA VAI MORRER? O BEBÊ DELA VAI MORRER? JON VAI MATAR A SHIERA? SHIERA ESTÁ GRÁVIDA???? AHSUAHSUAHSAUS Altas tretas! Vamos para a prévia?? "-Bem, então terá que perguntar para Nymeria, o que ela colocava nos bolinhos. – Andou até Cersei, que não se moveu um passo que fosse. Tirou com delicadeza o doce da mão dela e então deu uma boa mordida, a olhando com divertimento – Laranja. Delicioso. – Riu ele dando outra mordida e Cersei sorriu ainda parecendo zangada. Oberyn voltou para perto de Elaria, tomando o cuidado de ficar mais próximo de sua lança – Se quer me acusar de algo, Cersei. Faça de uma vez. – Disse Oberyn dando outra grande mordida no bolinho e o jogando de volta para ela. Cersei respirou fundo e ele jurava poder ver uma veia pulsando na têmpora dela." HOHOHOHOHOHO Capítulo com a maior parte em Porto Real (se não foi 100%) Hhihihihi Beijos, comentem! Titia ama vocês ♥