Blackfyre

32 Casamento Púrpura


Notas iniciais
AAAAAAAAAAAAAAAAAH! Mais uma recomendação! Blackfyre já está com onze!!!!! Obrigada, Gabriel Souza Esse esperado capítulo é dedicado a você^^ Eu amei a recomendação!! Mesmo, mesmo! E obrigada também a todos os que comentaram!! =D

Casamento Púrpura

Finalmente chegara o dia do casamento de Joffrey. Vestiu suas melhores vestes e foi ao lado do pai para o Septo de Baelor. Dividiu uma liteira com seu pai e foram conversando sobre diversos assuntos. Passaram tanto tempo longe um do outro que assunto era o que menos faltava. Quando desceram em frente do Septo de Baelor, viu Tyrion chegar com Sansa.

Céus, ela é tão maravilhosamente linda... Os cabelos eram de um rico ruivo outonal, os olhos, de um profundo azul Tully. A mágoa tinha lhe dado um aspecto assombrado e vulnerável e isso a tornava ainda mais bela. Ficou tanto tempo a olhá-la que só voltou a si quando seu pai lhe beliscou na orelha.

—Pare com isso, Valerion. – ralhou ele e Valerion sentiu-se um garotinho mal criado. Entraram no Septo e se posicionaram para assistir ao casamento. Myrcella estava lá na frente, próxima a Tommen, ao lado de Joffrey. Ela acenou com um sorriso e ele acenou de volta, apesar de não sentir vontade alguma de fazer isso. Myrcela estava bonita, afinal era uma garota bonita, mas em nada se comparava com sua amada Lady Sansa.

Que se dane, a chamarei para uma dança durante o banquete.

A nova coroa que o Alto Septão usava era duas vezes mais alta do que aquela que a multidão tinha esmagado, uma glória de cristal e fio de ouro. A luz do arco-íris refulgia e cintilava a cada vez que o Alto Septão movia a cabeça, mas Valerion teve de perguntar a si mesmo como o homem conseguia suportar o peso.

Suspirou mirando o casal que estava prestes a se casar. Tinha de admitir que Joffrey e Margaery formavam um casal régio, ali em pé, lado a lado, entre as altas estátuas douradas do Pai e da Mãe. A noiva estava adorável, vestida de seda em tom marfim e renda de Myr, com as saias decoradas com padrões florais realçados com pérola-semente. Como viúva de Renly, podia ter usado as cores Baratheon, ouro e negro, mas chegou como uma Tyrell, num manto de donzela composto por uma centena de rosas de pano de ouro cosidas ao veludo verde. Mais uma vez lembrou-se de sua noite com a futura rainha de Westeros e uma parte de si, que tinha a voz muito parecida com a de Aegon, desejou repetir a loucura. Mas Valerion afastou esses pensamentos prontamente, espiando Sansa ali perto. Aquela era a única mulher com quem queria dividir seus lençóis. Voltou a mirar Margaery e perguntou se Joffrey seria capaz de notar a diferença, sobre ela ser ou não virgem. Imaginava que não.

O rei estava quase tão magnífico quanto a noiva, com o seu gibão de um rosa opaco, sob um manto de veludo de um profundo tom de carmesim, decorado com o seu veado e leão. A coroa assentava com facilidade em seus caracóis, ouro sobre ouro. Eu salvei aquela maldita coroa para ele.

Os sete votos foram feitos, as sete bênçãos invocadas e as sete promessas trocadas. Quando a canção nupcial foi cantada e o desafio passou sem resposta, chegou a hora da troca dos mantos. Se os deuses forem justos, Joff vai estragar tudo isso. Assegurou-se de não olhar para Sansa, para o caso de a amargura estar visível nos seus olhos. Lembrou do último casamento que presenciara ali, o dela, onde sentiu-se o mais miseráveis dos seres. Acabou desviando o olhar para ela de novo e Sansa o olhou no exato momento. Se fitaram por longos segundos e sentiu muita vontade de ir para junto dela. Mas sabia muito bem que não deveria, ainda mais com Myrcella presente. Voltou a mirar o casamento e imaginou que Sansa fizera o mesmo.

Mace Tyrell removeu ternamente o manto de donzela da filha, enquanto Joffrey recebia o manto de noiva, dobrado, das mãos do irmão Tommen e o sacudia com um floreado.O rei rapaz era tão alto quanto a sua noiva, apesar de ser mais jovem. Olhando-os assim, poderia pensar que tinham a mesma idade. Joffrey envolveu Margaery em carmesim e ouro e inclinou-se para lhe prender o manto em volta do pescoço. E foi com essa facilidade que ela passou da proteção do pai para a do marido. Mas quem a protegerá de Joffrey? Valerion deu um olhar de relance ao amigo Loras, que se encontrava junto dos outros membros da Guarda Real. É melhor que mantenha a espada bem afiada, Sor Loras.

—Com este beijo empenho o meu amor! – declarou Joffrey num tom retumbante. Quando Margaery ecoou as palavras, ele puxou-a para si e deu-lhe um longo e profundo beijo. Luzes arco-íris voltaram a dançar em volta da coroa do Alto Septão quando este declarou solenemente que Joffrey, das Casas Baratheon e Lannister, e Margaery, da Casa Tyrell, eram uma só carne, um só coração, uma só alma.

Será que ninguém acha estranho o tanto que repetem o quão Lannister Joffrey é? Isso não é arriscar? Ou é apenas rir e fazer pouco das acusações de Stannis?

—Temos uma nova rainha... – murmurou o senhor seu pai e Valerion apenas concordou com um aceno de cabeça.

Sor Loras e Sor Meryn seguiram à frente da procissão que partiu do septo, trajando suas armaduras de escamas brancas e mantos de neve. Depois vinha o príncipe Tommen e a princesa Myrcella, espalhando à frente do rei e da rainha pétalas de rosa que tiravam de cestos que carregavam com absoluta elegância. Após o casal real seguiam a Rainha Cersei e Lorde Tyrell, atrás destes a mãe da nova rainha de braço dado com Lorde Tywin. Depois vinha a Rainha dos Espinhos, cambaleando com uma mão apoiada no braço de Sor Kevan Lannister e a outra em sua bengala, trazendo os guardas gêmeos logo atrás, para o caso de cair. Depois vinha Sor Garlan Tyrell e a senhora sua esposa, e por fim Tyrion e Sansa.

Seu pai o segurou de leve, para que outras pessoas passassem e os deixassem a uma distância maior do último casal e isso o aborreceu de leve.

—O que teme, pai? Que eu tente sequestrar Sansa agora? – perguntou emburrado. Seu pai o olhou desconfiado, mas nada disse.

Ouviu o povo comum em aclamações lá fora antes mesmo de chegar às portas. A multidão amava tanto Margaery que estava até disposta a voltar a amar Joffrey. A popularidade do rei aumentara depois da Batalha de Água Negra, mas ele não se tornara exatamente querido... mas isso aparentemente era águas passadas. Margaery pertencera a Renly, o belo e jovem príncipe que os amava tanto que tinha voltado da sepultura para salvá-los. E a prodigalidade de Jardim de Cima chegara com ela, fluindo do sul pela estrada de rosas. Os palermas não pareciam lembrar-se de que foi Mace Tyrell quem fechou a estrada de rosas para começar, e quem gerou a maldita fome.

Saíram para o ar puro de outono.

—Foi uma bela cerimônia. – murmurou seu pai. Apenas deu de ombros, sem se importar muito com isso – Imagino que Cersei vai querer que eu banque algo tão majestoso quanto para seu casamento com Myrcella.

—Vai mesmo me fazer casar com ela?

—Claro. – respondeu seu pai – E se você for esperto vai entender o quanto isso pode ser bom para nós.

—Eu sou esperto, pai, não pense que não sou. – resmungou – Mas não acho que seja algo imprescindível.

Seu pai apenas riu com algum deboche.

—Você logo vai entender tudo.

Ou então vou perder a paciência e começar a fazer as coisas do meu jeito.

—E Harrenhal está em condições de oferecer o que Cersei deseja para um casamento meu e de Myrcella?

—Podemos fazer ainda mais, não se engane. – riu seu pai. Valerion sorriu também. Bom saber.

Joffrey e Margaery estavam rodeados pela Guarda Real no topo dos degraus que davam para a grande praça de mármore. Sor Addam e seus homens de manto dourado mantinham a multidão afastada, enquanto a estátua do Rei Baelor, o Abençoado, os fitava com benevolência. Valerion não teve alternativa exceto juntar-se à fila, com os demais, para dar os parabéns ao casal. Beijou os dedos de Margaery e desejou-lhe todas as felicidades, lançando a ela um olhar travesso. Mas ela sequer corou. Ela sabe mentir e interpretar, essa Margaery... Havia outras pessoas atrás deles esperando sua vez, e não puderam demorar muito tempo.

A liteira tinha ficado ao sol, e dentro fazia muito calor. Quando entraram em movimento, ficaram em silêncio observando pela janela a paisagem que passava. Quando voltaram para a Fortaleza Vermelha, se reuniram com os outros membros da corte. Ouviu as gargalhadas sem fôlego de Margaery do outro lado do pátio enquanto Joffrey a tirava da sela. Um dia o rapaz será tão alto e forte quanto Jaime Lannister, pensou.

Bry o esperava ali, vestido num monte de vestes ricas e de seda, com o dragão de Harrenhal nas costas, parecendo muito orgulhoso de si mesmo. Sorriu para seu jovem escudeiro e ele veio rapidamente, sempre eficiente.

—Preparei o seu gibão novo. Está na sua cama. No quarto.

—Preciso trocar de roupa? – perguntou curioso e seu pai revirou os olhos.

—Claro que tem, Valerion. Não pretende ir pro banquete com a mesma roupa que foi para o Septo. – riu ele – Mandei fazer as roupas especialmente para você. Trate de usar sua espada, Sor. – riu seu pai se afastando.

Concordou e seguiu Bry para o quarto. O gibão que usaria era mesmo magnífico feito de tecido pesado e negro, bordado com fios de ouro, sob um manto de veludo de um profundo tom de vermelho, decorado com o seu dragão negro de três cabeças. Vestiu-se com a ajuda de Bry e logo estava pronto para o banquete.

—Bry, já podemos ir?

—O banquete será em uma hora. – explicou ele e Valerion aproveitou para ler um pouco e se distrair. Quando deu-se o tempo, estava para sair, quando bateram na porta. Bry foi ver quem era e logo escutou a voz de Sor Osmund.

—A princesa Myrcella Baratheon. – anunciou ele do outro lado da porta fechada. Valerion jogou a cabeça para trás, sem estar disposto, mas disfarçou, ficando de pé e indo até a porta. Sorriu para Myrcela, que estava muito bela num vestido dourado e negro, com o colar que ganhara de seu pai no pescoço.

—Minha senhora. – disse fazendo uma mesura.

—Imaginei que poderíamos ir juntos para o banquete.

—Nada me faria mais contente. – mentiu com a cara deslavada, oferecendo o braço a ela. Myrcella o abraçou ao redor do braço e os dois seguiram para o banquete.

Quando estavam já no salão comum, viu Sansa, que também tinha trocado de roupa e parecia mais bela do que nunca. Usava um vestido de cetim prateado debruado com veiro ([n.a — veiro é uma das duas peles usadas em brasões]), com mangas pendentes que quase tocavam o chão, forradas de suave feltro roxo. Seus cabelos estavam arrumados artisticamente em uma delicada rede de prata que reluzia com pedras preciosas de um tom escuro de púrpura. Valerion nunca a vira mais adorável, mas ostentava a mágoa naquelas longas mangas de cetim. Perdeu-se por um momento, olhando para ela, desejando mais do que nunca fazer como Rhaegar Targaryen fizera com Lyanna Stark. Sequestrá-la quando ninguém estivesse olhando, para fugir para outro lugar e dar vazão à paixão que sentia. Ficou tanto tempo disperso em seus pensamentos, admirando sua amada Lady Sansa, que por um momento esqueceu-se de Myrcella.

Soltou-a e deu um passo na direção da ruiva, mas então lembrou-se de onde estava, quem era e quem lhe acompanhava.

—Meu senhor? – perguntou Myrcella, parecendo preocupada e ele entendeu que ela não notara para o que estava olhando. Apoiou-se na parede fazendo-se de tonto e respirou fundo, piscando muito.

—Desculpe-me, Vossa Graça. – murmurou pressionando a ponte do nariz – Tive uma vertigem, mas já estou bem.

—Tem certeza? O que houve? – perguntou ela, o olhando com devotos olhos cheios de preocupação. Por um momento sentiu-se um monstrinho pelo desprezo que sentia por ela e tentou culpar Cersei por seu próprio modo de agir. Mas foi maduro o suficiente para aceitar que simplesmente tinha sido um cretino com Myrcella, que nunca fora menos do que doce e gentil com ele.

—Acho que fiquei muito tempo sem comer e acabei num momento de tontura. – disse se aprumando – Mas já passou. – adicionou e Myrcella o olhou com preocupação novamente – Está tudo bem, minha senhora. Só vamos logo para o banquete. Estou morrendo de fome.

Embora o anoitecer ainda estivesse há uma hora de distância, a sala do trono já estava um esplendor de luz, com tochas ardendo em todas as arandelas. Os convidados alinhavam-se, em pé, ao longo das mesas, enquanto arautos gritavam nome e títulos dos senhores e senhoras que faziam sua entrada. Pajens com a libre real os escoltavam pelo largo corredor central. A galeria encontrava-se repleta de músicos; tambores, flautistas e rabequeiros, corda, sopro e percussão.

Valerion pegou no braço de Myrcella e fez a caminhada num passo pesado e constante. Sentia os olhos postos nele, espiando sua presença ao lado da princesa. Podia ouvir os sussurros falando sobre si e se perguntava se falavam sobre como ele era atencioso com a loira ou sobre seu comportamento para com a ruiva.

Que olhem. pensou enquanto rumava para a cadeira. Que me encarem e que murmurem até morrerem, não me esconderei por causa deles. Aquele que nunca sofreu por amor provavelmente sofre por nunca ter amado. A Rainha dos Espinhos seguiu logo atrás de Tyrion e Sansa, avançando com passinhos minúsculos.

Joffrey e Margaery entraram na sala do trono montados em cavalos brancos combinando. Pajens corriam à frente deles, espalhando pétalas de rosa sob os cascos. O rei e a rainha também tinham se trocado para o banquete. Joffrey usava calções com listras negras e carmesim e um gibão de pano de ouro com mangas de cetim negro e rebites de ônix. Margaery trocou o vestido recatado que tinha usado no septo por outro muito mais revelador, um traje de samito verde-claro com um corpete em renda miúda que lhe desnudava os ombros e a parte superior de seus pequenos seios. Soltos, os suaves cabelos castanhos caíam sobre seus ombros brancos e desciam pelas costas quase até a cintura. Na testa trazia uma esguia coroa de ouro. Seu sorriso era tímido e doce, Uma garota adorável, pensou Valerion, e um destino mais gentil do que o que o cretino do Joffrey merece.

[n.a – Samito: Tecido de seda, luxuoso e pesado, que muitas vezes incluía fios de ouro ou prata]

A Guarda Real escoltou-os até o estrado, até os lugares de honra à sombra do Trono de Ferro, envolto para a ocasião em longas flâmulas do dourado Baratheon, do carmesim Lannister e do verde Tyrell. Cersei abraçou Margaery e beijou suas bochechas. Lorde Tywin fez o mesmo, e o mesmo fizeram Lancei e Sor Kevan. Joffrey recebeu beijos de carinho do pai da noiva e de seus dois novos irmãos, Loras e Garlan. Ninguém pareceu muito ansioso por beijar Tyrion. Depois do rei e da rainha ocuparem seus lugares, o Alto Septão levantou-se para comandar uma prece. Pelo menos não é tão monótono quanto o último, pensou Valerion, ligeiramente entediado.

Tyrion e Sansa tinham sido postos em lugares distantes à direita do rei, ao lado de Sor Garlan Tyrell e de sua esposa, a Senhora Leonette. Havia uma dúzia de outros convivas sentados mais perto de Joffrey, o que um homem mais suscetível teria tomado como uma afronta, dado ter sido Mão do Rei não muito tempo antes. Lorde Haegon estava ao lado de Tywin Lannister e Valerion se encontrava entre Tommen e Myrcella. Os servos tiveram que improvisar uma cadeira a mais, pois a princesa fez questão que se sentasse ao lado dela. Por conta disso estava até bem longe de Sansa.

—Que as taças sejam enchidas! – proclamou Joffrey, depois que os deuses receberam o que lhes era devido. Seu copeiro despejou um jarro inteiro de escuro tinto da Árvore no cálice nupcial de ouro que Lorde Tyrell lhe dera naquela manhã. O rei teve de usar ambas as mãos para erguê-lo.

—À minha esposa, a rainha!

—Margaery! — gritou o salão em resposta. – Margaery! Margaery! A rainha! — Mil taças retiniram umas nas outras e o banquete nupcial teve o seu verdadeiro início. Valerion ainda se lembrava bem demais de sua última reunião no Pequeno Conselho, então foi bem devagar no vinho, preferindo degustar mais das centenas de pratos que eram servidos.

O primeiro prato era uma sopa cremosa de cogumelos e caracóis na manteiga, servida em tigelas douradas. Terminou depressa, pois estava bastante faminto. Um já era, faltam setenta e seis. Setenta e sete pratos, enquanto ainda há crianças passando fome nesta cidade, e homens capazes de matar por um rabanete. Poderiam amar bem menos os Tyrell se nos vissem agora.

Myrcella provou uma colherada de sopa e afastou a tigela.

—Não lhe agrada, senhora? — perguntou Valerion.

—Haverá tanta coisa, Sor. Tenho uma barriga pequena. – Remexeu nervosamente nos cabelos e olhou ao longo da mesa para onde Joffrey se encontrava com a sua rainha Tyrell.

—Tem toda razão. – disse calmamente.

Afastou os olhos, procurando uma distração, mas para onde quer que olhasse via mulheres; boas, lindas, felizes e belas mulheres que pertenciam a outros homens. Margaery, claro, sorria com doçura enquanto partilhava com Joffrey uma bebida vinda do cálice de sete lados. Sua mãe, a Senhora Alerie, grisalha e bonita, ainda orgulhosa ao lado de Mace Tyrell. As três jovens primas da rainha, vivas como passarinhos. A esposa myresa de Lorde Merryweather, com seus cabelos negros e seus grandes olhos, negros e provocantes. Ellaria Sand entre os dorneses (Cersei colocara-os numa mesa só para eles, logo abaixo do estrado, num lugar de grande honra, mas tão longe dos Tyrell quanto a largura do salão permitia), rindo de qualquer coisa que a Víbora Vermelha havia lhe dito.

E havia uma mulher, sentada quase na ponta da terceira mesa da esquerda... a esposa de um dos Fossoway, achava ele, e bem grávida do filho dele. Sua delicada beleza não era em nada diminuída pela barriga, e o prazer que obtinha da comida e dos divertimentos também não. Valerion observou-a enquanto o marido lhe oferecia pedacinhos de seu prato. Bebiam da mesma taça e beijavam-se com frequência e imprevisivelmente. Sempre que o faziam, a mão dele pousava com gentileza no estômago dela, num gesto terno e protetor.

Por um momento lembrou-se da irmã e perguntou-se se Robb a tratara assim quando ela esperava o herdeiro dele.

Sobressaltou-se ao sentir a mão de Myrcella sobre a sua e a olhou curioso. Ela lhe lançou um olhar apaixonado e suspirou entrelaçando seus dedos.

—Um dia seremos nós dois, Sor. Hei de dar herdeiros fortes para a casa Blackfyre. – prometeu ela e ele duvidou muito disso. Não iria se casar com ela. Não a amava e não a queria dessa maneira. Nenhum dos dois seria feliz num casamento assim... apesar que muitos casamentos aconteciam entre pessoas que nem mesmo se conheciam, mas vinham a se apaixonar com o tempo.

Suspirou e sorriu para Myrcella, debruçando-se sobre ela, para lhe beijar o rosto.

—Estou certo que sim, minha senhora. – sussurrou no ouvido dela. Myrcella corou violentamente e ele desviou o olhar, esperando a próxima refeição.

O segundo prato foi uma fôrma feita de massa de torta e cheia de carne de porco, pinhões e ovos. Myrcella não comeu mais do que uma de duas garfadas, enquanto os arautos anunciavam o primeiro dos sete cantores e Valerion devorava um bom pedaço da deliciosa culinária paga com dinheiro Tyrell.

Hamish, o Harpista, de barba grisalha, anunciou que iria tocar "pros ouvidos de deuses e homens uma canção nunca antes ouvida em todos os Sete Reinos". Chamou-a de "A cavalgada de Lorde Renly".

Os dedos do homem moveram-se pelas cordas da harpa vertical, enchendo a sala do trono com um som doce.

—Do seu trono de ossos o Senhor da Morte olhou o lorde assassinado. — começou Hamish, e prosseguiu contando o modo como Renly, arrependendo-se de sua tentativa de usurpar a coroa do sobrinho, tinha desafiado o próprio Senhor da Morte e regressado à terra dos vivos para defender o reino contra o irmão.

A Rainha Margaery lacrimejou no fim, quando a sombra do bravo Lorde Renly voou até Jardim de Cima para olhar uma última vez o rosto de seu verdadeiro amor. Loras Tyrell, no caso, mas obviamente não colocariam isso em uma canção...

O Harpista também lhes ofereceu várias canções mais familiares, “Uma rosa de ouro” era para os Tyrell, sem dúvida, assim como “As chuvas de Castamere” se destinava a lisonjear o Lorde Tywin. “Donzela, mãe e velha” deliciou o Alto Septão, e “A senhora minha esposa” agradou a todas as mocinhas com romance no coração, e, sem dúvida, a alguns dos rapazinhos também. Quando ele cantou “Senhora de Olhos Violetas e o Jovem Lobo”, Valerion ficou boquiaberto. Era a música que tinha feito para Shiera.

—Em honra aos Blackfyre. – disse o homem se curvando para seu pai, que ficou de pé e aplaudiu. Os Lannister, no entanto, não pareceram nada felizes. Valerion mirou Sansa e notou que ela tinha se emocionado e isso o deixou cheio de vontade de consolá-la. Mas manteve-se sentado em seu lugar, de mãos dadas com Myrcella. Os pratos continuavam sendo servidos e ele comeu de tudo um pouco: bolinhos fritos de milho doce e pão de aveia quente com pedaços de tâmara; maçã e laranja e costela de um javali selvagem.

Daí em diante, os pratos e diversões sucederam-se uns aos outros numa profusão desconcertante, boiando numa enchente de vinho e cerveja. Hamish deixou-os, e o seu lugar foi ocupado por um urso razoavelmente pequeno e idoso, que dançou desajeitadamente ao som de flautas e tambores, enquanto os convidados da boda comiam truta com uma crosta de purê de amêndoas. Depois vieram bobos, outros cantores, malabaristas, um cantor Tyrosh... Mas ele estava mais interessado em provar das garças assadas e empadões de queijo e cebolas; caranguejos cozidos com ardentes especiarias orientais, tabuleiros cheios de nacos de carneiro guisado em leite de amêndoa com cenouras, passas e cebolas, e tortas de peixe recém saídas dos fornos, servidas tão quentes que queimavam os dedos.

—Estava com fome mesmo, Sor. – riu Myrcella e Valerion concordou lambendo os dedos.

—E a senhora está com fome de menos. Coma. – disse colocando um pedaço de carneiro na boca dela.

Myrcela aceitou receber o pedaço e aproveitou para chupar a ponta de seus dedos enquanto fazia isso. Sentiu um arrepio lhe subir a espinha ao mesmo tempo que seu membro viril pareceu acordar de leve. Sorriu sem jeito, respirando fundo e voltou a olhar para frente, ouvindo a risadinha travessa de sua noiva. O cantor Tyrosh estava cantando qualquer coisa, mas ele só conseguia pensar nos lábios de Myrcella sugando outro lugar. Discretamente mirou Lady Sansa e sua mente dispersou tais pensamentos, sendo então tomada pela noite em que entrara pela janela do quarto dela, onde passaram toda a noite trocando juras de amor e beijos apaixonados.

Quatro mestres piromantes conjuraram feras de chamas vivas para se atacarem umas às outras com garras ardentes enquanto os criados carregavam para o salão tigelas de caldo de carne com vinho fervido adoçado com mel e salpicado de amêndoas descascadas e pedaços de capão. Então veio um grupo de flautistas ambulantes, cães amestrados e engolidores de espadas, com ervilhas na manteiga, nozes fatiadas e lascas de cisne escaldado num molho de açafrão e pêssegos. Seis cantores cantaram a Canção de Água Negra, enaltecendo a habilidade de batalha e liderança de Joffrey, elevando-o como herói e Valerion ficou de pé e aplaudiu animadamente, mais alto do que qualquer um, fazendo o sorriso presunçoso do rei rapaz morrer.

Já era noite cerrada do lado de fora das grandes janelas, e a banda de seis cantores continuava a cantar. Sua canção tinha setenta e sete versos, embora parecesse ter mil. Um para cada conviva presente no salão. Quando os cantores finalmente fizeram as suas vênias, alguns dos convidados estavam suficientemente bêbados para começar a apresentar seus próprios divertimentos involuntários. O Grande Meistre Pycelle adormeceu, enquanto dançarinos das Ilhas do Verão giravam e rodopiavam com vestimentas feitas de penas brilhantes e seda esfumaçada. Medalhões de alce recheados com queijo mofado maduro estavam sendo servidos quando um dos cavaleiros de Lorde Rowan apunhalou um dornês. Os homens de manto dourado arrastaram ambos para fora da sala, um para apodrecer numa cela e o outro para ser cosido pelo Meistre Ballabar. Valerion brincava com o bolo de carne de porco cozido em leite e temperado com canela, cravo, açúcar e leite de amêndoa, quando o Rei Joffrey se levantou subitamente.

—Todos façam silêncio! – gritou ele e Valerion e Myrcella miraram o jovem rei – Saiam do salão! – gritou ele e as pessoas começaram a fazer um murmurinho – Abram espaço! – disse ele parecendo ligeiramente bêbado. Ele observava as pessoas abrirem espaço, balançando de leve devido à embriagues – Houve muita diversão aqui hoje. – disse ele – Um casamento real não é diversão. Um casamento real é história! – Cersei o olhava com absoluto orgulho enquanto Lorde Tywin parecia ligeiramente curioso. Seu pai também o mirava com atenção, mas parecendo receoso – Chegou a hora de todos nós contemplarmos nossa história. – ele fez uma pausa dramática – Mi lordes... miladies...

Os homens de manto dourado abriam as grandes portas no fundo do salão. Do local em que se encontrava sentado só conseguia ver o topo de duas lanças listradas quando dois homens a cavalo entraram lado a lado. Uma onda de gargalhadas seguiu-os pelo corredor central, na direção do rei. Devem vir montados em pôneis, concluiu... até surgirem à sua vista.

Os cavaleiros eram um par de anões. Um montava um feio cão cinzento, de pernas longas e maxilas pesadas, o outro montava uma imensa porca malhada. Armaduras de madeira pintada chocalhavam e estalavam enquanto os pequenos cavaleiros eram sacudidos para cima e para baixo em suas celas. Os escudos eram maiores do que eles e lutavam intrepidamente com as lanças enquanto avançavam, balançando de um lado para o outro e trazendo à tona rajadas de humor. Um cavaleiro vinha todo de dourado, com um veado negro pintado no escudo; o outro usava cinza e branco e trazia como símbolo um lobo. As montarias vinham albardadas da mesma forma.

Myrcella deu risadinhas histéricas, mas Valerion não viu graça naquilo. Achava ofensivo principalmente para Sansa e Tyrion. Tyrion por serem anões... Sansa por ver uma representação ridícula de seu irmão mais velho.

Joffrey estava vermelho e sem fôlego. Tommen gritava, aos saltos na cadeira, Cersei soltava risinhos polidos, e até Lorde Tywin parecia moderadamente estar se divertindo. Para seu horror, até seu pai estava gargalhando. De todos os que estavam sentados à mesa elevada, só Tyrion e Sansa Stark não sorriam. Os olhos da garota Stark encontravam-se longe, como se nem sequer tivesse visto os ridículos cavaleiros saltitando em sua direção.

Quando os anões frearam as montarias sob o estrado para saudar o rei, o cavaleiro do lobo deixou o escudo cair. Ao inclinar-se para apanhá-lo, o cavaleiro do veado perdeu o controle de sua pesada lança e atingiu-o nas costas. O cavaleiro do lobo caiu da porca, e sua lança tombou e deu uma traulitada na cabeça do adversário. Ambos acabaram no chão, numa grande confusão. Quando se ergueram, ambos tentaram montar o cão. Seguiram-se muitos gritos e empurrões. Por fim, reconquistaram as selas, só que um montado no corcel do outro, segurando o escudo errado e virados para trás.

Levou algum tempo para ajeitarem as coisas, mas por fim esporearam as montarias, dirigiram-se às extremidades opostas do salão e viraram-se para a justa. Enquanto os senhores e as senhoras soltavam gargalhadas e risinhos, os pequenos homens colidiram com estrondo e tinido, e a lança do cavaleiro do lobo atingiu o elmo do cavaleiro do veado, fazendo sua cabeça saltar. Esta rodopiou pelo ar, espalhando sangue, e foi aterrissar no colo de Lorde Gyles. O anão sem cabeça começou a cambalear ao redor das mesas, agitando os braços. Cães ladraram, mulheres gritaram, e o Rapaz Lua deu um grande espetáculo, oscilando de um lado para o outro sobre suas pernas de pau, até que Lorde Gyles tirou um melão vermelho pingando de dentro do elmo despedaçado, no mesmo momento em que o cavaleiro do veado tirou a cabeça para fora da armadura, e outra tempestade de risos sacudiu o salão. Os cavaleiros esperaram que terminasse, rodearam-se um ao outro trocando coloridos insultos e estavam prestes a se separar para outra justa quando o cão atirou seu cavaleiro ao chão e montou a porca. O enorme animal guinchou de aflição, enquanto os convidados da boda guinchavam de riso, redobrado quando o cavaleiro do veado saltou para cima do cavaleiro do lobo, despiu seus calções de madeira e começou a se sacudir freneticamente de encontro às partes baixas do outro.

—Rendo-me, rendo-me – gritou o anão de baixo. – Bom Sor, guarde a espada!

—Guardaria, guardaria, se parasse de mexer a bainha! – respondeu o anão de cima, para divertimento geral.

Vinho jorrava de ambas as narinas de Joffrey. Arfando, pôs-se em pé com dificuldade, quase derrubando seu grande cálice de duas mãos.

Grotesco. Pensou enojado daquilo.

Os anões se levantaram e agradeceram os aplausos e as gargalhadas. Mas Valerion preferiu ficar sentado sem sorrir. Myrcella o olhou curiosa e se censurou de sorrir também, provavelmente para agradá-lo.

—Muito bem. Muito bem. – riu Joffrey ficando de pé e pegando uma bolsa de veludo carmesim – Eis aqui a bolsa do campeão. – disse ele sacudindo a pequena bolsa, mas então ele respirou fundo e sorriu daquele jeito que significava problemas – Mas você ainda não é o vencedor, não é? – perguntou Joffrey e as pessoas o olharam com curiosidade – Um verdadeiro campeão derrota todos os desafiadores. – continuou Joffrey e as pessoas seguiram olhando sem entender – Certamente ainda existem desafiadores de meu reino. – ele fez uma pausa e então olhou para Tyrion – Tio... que tal você? Há mais fantasias.

Ouviu-se algumas risadas entre os nobres, mas a mesa principal ficou em silêncio. Tyrion sorriu como se aquilo não o afetasse e Valerion admirou seu sangue frio. No lugar de Tyrion, não sabia o que seria capaz de fazer... o anão se levantou e falou em alto e bom tom.

—Um combate me bastou, Vossa Graça. – disse ele com falso bom humor – Eu devo manter o que me restou do rosto e do corpo. Eu acho que você deveria lutar. – sugeriu ele – Mostrar a todos o seu talento com a espada e sua coragem, como demonstrou na Batalha da Água Negra. Tenho certeza que o jovem Sor Valerion adoraria ser seu oponente. Creio que ele estaria a altura. Use sua nova espada valiriana e mostre a todos como um verdadeiro rei luta. – sugeriu Tyrion, deixando Joffrey contrariado. Tyrion voltou a se sentar e pegou seu cálice para dar um gole, mas Joffrey se levantou e andou até ele, para então derramar o conteúdo de seu copo sobre a cabeça do tio. Todos fizeram absoluto silêncio, chocados com os modos de Joffrey. Valerion bufou, furioso, mas Myrcella segurou sua mão, num pedido silencioso de que não reagisse. Cersei era a única que parecia estar se divertindo com a cena e isso só fez com que a desprezasse ainda mais. Tyrion lambeu os lábios molhados pelo vinho e sorriu – Bom vintage. Uma pena ter caído.

Joffrey bufou, embriagado.

—Não caiu.

—Meu amor. – chamou Margaery – Volte pra mim, por favor. É hora do brinde de meu pai.

Os anões começaram a se retirar e Joffrey foi voltando para seu lugar, mas no meio do caminho ele parou.

—Como brindarei sem vinho? – ele andou mais alguns passos e deu um sorrisinho – Tio, você será o meu copeiro, já que se acovardou de lutar.

Tyrion parecia completamente distante dali.

—É uma grande honra. – disse ele, simplesmente.

—Minha intenção não é honrá-lo. – sibilou Joffrey, parecendo frustrado pela calma de Tyrion.

—Céus, sua mãe precisava ter dado umas surras nesse moleque. – sussurrou para Myrcella, que baixou o rosto, constrangida. Cersei ainda sorria, parecendo apreciar o que acontecia, mas Lorde Tywin parecia que estava sendo obrigado a engolir um porco espinho. Lady Olenna marchava em direção à Sansa, num passo trêmulo e Valerion notou que ela passou a mão pela jarra de vinho. Franziu o cenho, mas não deu atenção.

—Alaric de Eysen – disse a Senhora Olenna Tyrell, apoiando-se na bengala e sem prestar mais atenção no anão encharcado de vinho do que a neta havia prestado, – Tenho tanta esperança de que ele toque "As chuvas de Castamere" para nós. Já se passou uma hora, esqueci-me da melodia.

—Sirva-me vinho, tio! – insistiu Joffrey e Tyrion soltou um suspiro se levantando. Ele pegou a jarra e quando foi segurar a taça de Joffrey, o garoto a jogou no chão – Dobre-se e pegue o meu cálice. – Tyrion fez o que lhe foi pedido, mas ao estender a mão para a alça, Joffrey chutou o cálice por entre suas pernas. – Pegue-o! Será que é tão desastrado quanto feio? – Tyrio bufou e colocou a jarra em cima da mesa. O anão teve de se enfiar debaixo da mesa para achar o tal cálice e ele notou que agora era Pycelle quem sorria achando graça – Ótimo, agora encha-o com vinho. – Tyrion pegou novamente o jarro e encheu a taça até três quartos. – Não, de joelhos, anão. – Ajoelhando, Tyrion ergueu a pesada taça, e Valerion tentou se levantar, mas Myrcella o segurou o olhando com súplica. Joffrey pegou o cálice nupcial com uma só mão, bebeu longamente e apoiou-o na mesa. – Agora pode se levantar, tio.

Tyrion teve de se agarrar a uma cadeira para se firmar ao levantar. Sor Garlan estendeu-lhe uma mão. Joffrey riu, e Cersei também.

Depois foram outros. Não viu quem, mas ouviu-os. Seus olhos estavam injetados de raiva para Joffrey.

—Vossa Graça – a voz de Lorde Tywin estava impecavelmente correta. – A torta está chegando. Sua espada é necessária.

—A torta? – Joffrey pegou na mão de sua rainha com uma mão e a taça com a outra – Venha, senhora, é a torta.

Os convidados ficaram em pé, gritando, aplaudindo e batendo as taças de vinho umas nas outras enquanto a grande torta avançava lentamente ao longo da extensão do salão, empurrada por meia dúzia de radiantes cozinheiros. Tinha dois metros de largura, uma crosta e um tom dourado de marrom, e ouviam-se guinchos e batidas vindos lá de dentro.

O Rei Joffrey e sua rainha dirigiram-se à torta, colocada diante do estrado. O rei entregou a taça de vinho para a rainha, mas quando puxou a espada, Margaery apoiou uma mão em seu braço para detê-lo.

—A Lamento da Viúva não se destina a cortar tortas.

—É verdade. – Joffrey ergueu a voz. – Sor Valerion. – escutou Myrcella arfar – Entregue-me sua espada. – riu ele se virando.

Valerion olhou para o pai, que pareceu ficar sombrio, sem gostar nada daquela afronta. Myrcella segurou sua manga e sussurrou.

—Por favor, não perca a cabeça. – implorou ela.

Engoliu em seco e se levantou, descendo os degraus e ficando em frente a Joffrey. Ele o olhava com cruel satisfação e Valerion retribuiu com o olhar injetado de raiva.

—Por que me olha assim? Temos que ser amigos. Em breve seremos irmãos. – debochou Joffrey e Valerion sentiu o lábio repuxar de raiva – Claro, minha irmã não é a mulher que você queria. Quantas vezes olhou a esposa do meu tio, hoje? – perguntou ele com divertimento e Valerion aproximou-se um passo.

—Cale a boca, Joffrey. – rosnou baixinho.

—Ou o que? – perguntou ele.

—Ou serei um marido tão bom quanto você foi noivo de Sansa. – ameaçou e Joffrey riu com descaso.

—Acha que eu me importo? – perguntou ele, baixinho, apenas entre os dois – Ou melhor, espero mesmo que faça isso. Desejo isso. Assim terei uma desculpa para arrancar essa sua cabeça do seu pescoço.

—Você? Ou vai mandar alguém no lugar? Nós dois sabemos que só sabe machucar garotinhas. – disse num sibilo furioso – Ou talvez vá mandar seu tio maneta resolver isso. Pelo menos ele é corajoso, ao contrário de você.

—Não, meu tio maneta eu vou enviar pro norte, com um exército. E vou mandar que todo o batalhão Lannister compartilhe a sua irmã. – ameaçou Joffrey e Valerion sentiu a ira tomá-lo por completo e sua mão foi até o cabo de sua espada – Com calma agora. – riu Joffrey se afastando com um sorriso satisfeito – Vamos, Sor. Todos esperam para provar a torta! – disse ele mais alto, para que os outros pudessem ouvir.

—Use sua própria espada, Joffrey. – disse em desafio.

Joffrey bufou, contrariado.

—Deixe passar, Joffrey. – pediu Myrcella descendo os degraus, segurando a barra do vestido.

—Não se meta, Myrcella! – rosnou Joffrey – Sor Meryn, Sor Osmund, Sor Balon. Tirem a espada de Valerion Blackfyre.

Valerion retirou a espada, mas não planejava entregá-la.

—Tywin, mande seu neto se comportar. – escutou seu pai rosnar.

—Mande seu filho obedecer o rei. – retrucou Tywin.

—O que acha de lutarmos agora, Joffrey? Como Tyrion sugeriu. Pegue sua espada de aço valiriano e vamos dançar. – disse furioso e Joffrey riu, sacando a própria espada. Está bêbado demais para pensar.

—Joffrey, não faça isso! – pediu Cersei, mas Joffrey investiu contra Valerion. O jovem dragão apenas desviou com um bom movimento de pés e Joffrey tropeçou, caindo no chão. Ninguém riu. Guardou sua espada e começou a marchar para fora do Salão e Joffrey gritou seu nome.

—Volte e lute, covarde! – gritou ele se levantando. Valerion voltou a sacar a espada, mas Joffrey não avançou. Ele começou a tossir. O observou, se perguntando se ele viria novamente, mas Joffrey seguiu tossindo. Ele estendeu a mão para o cálice nas mãos de Margaery e bebeu mais do vinho, pois tinha engasgado, provavelmente com a própria saliva. Joffrey se curvou, continuando a engasgar-se e Valerion o fitou preocupado. Myrcella foi para junto do irmão, enquanto o rei rapaz seguia tossindo sem parar.

—Ele está sufocando! – arquejou a rainha Margaery. Lady Olenna se levantou de seu lugar.

—Ajudem o pobre rapaz! – guinchou ela, com uma voz que era dez vezes maior que ela – Palermas! Vão ficar todos aí de boca aberta? Ajudem o seu rei.

Começou uma confusão onde todos se apavoraram, tentando ajudar Joffrey. Sansa aproveitou a confusão e veio até ele, mas não parou para esperá-lo, apenas saiu da sala do trono. Valerion sorriu e fez o mesmo. Ninguém pareceu notá-los, pois muitas pessoas fugiram assustadas e quando estavam do lado de fora do salão, quase na saída da Fortaleza Vermelha, Valerion tirou a capa e a colocou do avesso, jogando-a sobre a cabeça da ruiva.

—Pra onde nós vamos? – perguntou ela – Tem algo preparado? Você disse que fugiríamos no dia do casamento de Joffrey. – murmurou ela. Valerion sorriu culpado, pois tinha esquecido completamente disso, apesar de que estava mesmo tudo preparado. Sou um homem de palavra e eu jurei a mim mesmo que não casaria com Myrcella.

—Sim, mas precisamos trocar de roupa primeiro... ou seremos facilmente reconhecidos.

—Está bem – perguntou ela e Valerion a guiou para fora do castelo – Vamos para o Bosque Sagrado. Eu escondi mudas de roupa lá, para nossa fuga.

Correram para o Bosque e Sansa começou a desamarrar os cordões de seu vestido. Valerion também retirou o gibão colorido, ficando apenas com uma simples blusa negra por baixo.

Deu as costas para sua senhora, enquanto vestia a própria capa pelo avesso, para que não fosse reconhecido. Esperou alguns minutos até que ela estivesse pronta, com uma roupa relativamente simples, algo que ela provavelmente deveria ter roubado de alguém. Como Shae não a delatara a Tyrion, não saberia dizer de quem.

Quando ficaram prontos, esconderam as roupas chamativas no buraco de um carvalho, deram as mãos e saíram do Bosque. Os sinos tocavam do outro lado da cidade, com um número cada vez maior se juntando aos demais. Joffrey está morto... pensou com o estômago se contorcendo. E agora Margaery está viúva uma segunda vez... que os deuses sejam bons e ela não tenha engravidado de mim. Será difícil para ela explicar como poderia ter engravidado antes da noite de núpcias acontecer...

Mantiveram as cabeças baixas e permaneceram nas sombras, andando de mãos dadas. Ao descerem a escada em espiral, escutaram passos e Valerion a empurrou contra a parede e a beijou de uma vez, para disfarçar. As pessoas passaram sem notá-los e ele voltou a puxá-la em passos apressados. Precisavam sair do castelo. Continuaram a descer a escada em espiral e atravessaram um pequeno pátio rodeado de altas paredes. Valerion abriu com um empurrão uma porta pesada e acendeu um círio.

Encontravam-se dentro de uma longa galeria. Ao longo das paredes havia armaduras vazias, escuras e empoeiradas, com os elmos coroados com fileiras de escamas que desciam por suas costas. Enquanto passavam rapidamente por elas, a luz do círio fazia com que as sombras de cada escama se estendessem e torcessem. Os cavaleiros ocos estão se transformando em dragões, só pode ser um sinal de boa sorte, pensou.

Mais uma escada levou-os a uma porta de carvalho reforçada com ferro.

—Estamos quase lá. – murmurou para Sansa, levantou a tranca e abriu a porta. Sentiu uma brisa fria no rosto, graças ao vento noturno, segurou a mão de sua senhora e a puxou novamente. Passaram através de três metros e meio de muralha e então viram-se fora do castelo, no topo da falésia. Embaixo ficava o rio, em cima, o céu, e um era tão negro quanto o outro.

—Temos de descer – disse Valerion – Lá embaixo encontraremos um caminho seguro até um dos meus navios, que não ancorou. – Não saberão que você fugiu graças a mim.

—Eu vou cair. – disse Sansa, parecendo assustada.

—Não, não cairá. Já passei por aqui antes, com Hoster. Há uma espécie de escada, uma escada secreta, entalhada na pedra. Veja, pode tateá-la, minha senhora. – Ajoelhou-se com ela e fez Sansa debruçar-se sobre a borda da falésia, apalpando com os dedos até encontrar o apoio de mão cortado na face do penhasco. – É quase tão bom quanto degraus de uma escada de mão.

Mesmo assim, a descida era muito longa.

—Não consigo. – disse ela e ele suspirou.

—Precisa, ou será melhor voltarmos para o Bosque Sagrado, vestirmos nossas roupas e fingirmos que nunca pensamos em fugir...

—Não há outro caminho?

—O caminho é este. Não será muito difícil para uma mulher jovem e forte como você. Você é uma Stark de Winterfell, eu sei que consegue, Sansa. Agarre-se bem e nunca olhe para baixo, e chegará lá embaixo num instante. – Os olhos dela brilhavam.

—Vá na frente, Sor. – pediu ela insegura e Valerion concordou, sentindo uma lufada de vento muito forte.

—Como quiser, senhora. – Deu-lhe um beijo úmido e passou as pernas pela borda do precipício, esperneando até encontrar um apoio para os pés. – Deixe-me descer um pouco, e siga-me depois. Vai vir? Precisa jurar.

—Vou. – prometeu ela.

As muralhas do castelo elevavam-se, grandes, por cima de si, e por um momento se perguntou se Sansa teria coragem para aquela descida... mas ou ela vinha, ou ficaria para trás.

Sansa não se atreveu a olhar para baixo, ele notou, mas não ficou a olhando todo o tempo. Manteve os olhos postos na face da falésia, assegurando-se de cada passo antes de estender os pés para o seguinte. A pedra era áspera e fria. As vezes sentia os dedos deslizando, e os apoios para as mãos não eram espaçados de uma forma tão regular como teria preferido.

Os sinos não queriam parar de tocar.

Quando chegou no chão, ficou esperando Sansa e a segurou pela cintura, ajudando-a a ir para o chão. Os dois se olharam com carinho e ele suspirou a afagando no rosto.

—Me perdoe pelos últimos dias, mas tive que manter a distância. – murmurou sentindo-se ligeiramente culpado por Myrcella e por Margaery. Um dia contaria sobre Myrcella, mas Margaery guardaria para si.

—Não há motivos para se desculpar... desde que me leve pra casa. – murmurou ela o olhando nos olhos.

—Te levarei para Harrenhal. – disse ele – Tomarei Winterfell dos Bolton, me reunirei com a minha irmã e dizimarei os Lannister das Terras do Fluviais... e os Frey também não vão escapar da minha força. Mas para isso preciso que confie em mim. Confia? – perguntou ele. Sansa concordou com um aceno de cabeça e ele a beijou apaixonadamente por alguns segundos – Então vamos. – disse com o coração na mão. – Por aqui, agora... silêncio, silêncio, silêncio. – Permaneceram perto das sombras que se estendiam, negras e espessas, sob os penhascos. Felizmente não tiveram de ir longe. Cinquenta metros a jusante, um homem estava sentado num pequeno esquife, meio escondido pelos restos de uma grande galé que tinha dado à costa ali e queimado. Valerion marchou até ele, bufando. – Zagar. – chamou num murmuro. O velho capitão o olhou nervoso e suspirou.

—Para o barco, não podemos perder tempo. – Estava sentado, curvado sobre os remos, um homem velho, alto e de membros esguios, com longos cabelos brancos, um grande nariz adunco e os olhos escondidos por um capuz.

—Certo. – se virou para Lady Sansa e retirou um pergaminho com seu selo. Colocou nas mãos dela e a beijou novamente. Ela o beijou de volta, hesitante e o olhou confusa – Entregue isso para Naerys Otherys, o castelão de Harrenhal. – disse para ela e ela compreendeu o que estava para acontecer.

—Não! Você não vem comigo? – perguntou ela aflita e ele sorriu triste.

—Prometeu que confiaria em mim. – disse carinhosamente – Eu vou depois. Juro. Se fugirmos ao mesmo tempo, matarão meu pai e meus homens podem deserdar. Entende? – perguntou ele e ela pareceu ainda mais aflita.

—Não me deixe sozinha, por favor! – pediu ela e Valerion sorriu.

—Entre, mocinha, e depressa – resmungou Zagar – Temos de nos pôr a caminho.

—Não. Não. Não... você deveria vir comigo. – disse Sansa quase aos prantos e ele a beijou de novo, para acalmá-la.

—Sansa, eu amo você. – murmurou baixinho – E eu quero te manter a salvo. Eu quero lutar pela sua família e eu quero os Lannister todos mortos. – Bem... talvez não Tyrion... e nem Myrcella...— Você precisa confiar em mim. Eu preciso voltar para junto do meu pai, por favor, entenda. – pediu ele e ela o puxou para mais um beijo. A beijou de volta sabendo que Porto Real perderia um pouco de cor e que Harrenhal nunca iria chamá-lo de volta com tanta insistência quanto agora.

—Parem com isso, vocês dois! – ralhou Zagar.

Separou-se dela, sentindo sua capa tremeluzir e suspirou.

—Se eu morrer...

—Não! Não diga isso! Não diga isso! – disse ela com a voz chorosa.

—Se eu morrer, quero que fique escondida e a salvo em Harrenhal. Naerys saberá o que fazer com você, está bem? – ela concordou com a face úmida pelo choro. Sorriu para ela e a beijou mais uma vez, antes de se afastar de vez. A ajudou a subir no bote e a observou se afastar, sumindo na neblina. O vento forte soprou novamente e ele sentiu que parte de si mesmo estava voltando para casa, para Harrenhal. E naquele momento era tudo o que importava.

Voltou a subir os degraus, para voltar para o castelo. Foi para o Bosque Sagrado e voltou a se vestir, depois saiu de lá e se escondeu no Septo de Baelor, ainda com a capa ao contrário, rezando para os deuses e pedindo que Sansa fizesse uma viagem segura até Harrenhal.

Lá escutava as pessoas a comentar sobre o que tinha acontecido. Uma coisa era certa, falavam que Joffrey tinha morrido. Os sinos que não paravam de tocar eram testemunhas disso. Mas o que pareceu mais interessante eram os rumores sobre os culpados.

A maioria das pessoas culpavam Tyrion e Sansa pelo assassinato. Tyrion já estava preso e todos procuravam pela garota Stark. Mas não vão encontrá-la. Não mais. Pensou com um sorriso satisfeito no rosto. Foi esperto o suficiente pra você, pai?

Notas finais
Ele morreu, ela fugiu, culparam o Tyrion e, aparentemente por enquanto, o Valerion está safo. Querem uma prévia do capítulo de sexta feira? =3 "-Você é a esposa de Robb, eu sou um homem juramentado a Patrulha da Noite... Não há chances para nós dois... não mais. – murmurou ele com um sorriso gentil, mas havia tristeza também. Tristeza, mas também amor. Shiera sabia que Jon a tinha amado, em algum momento. Talvez ainda em Harrenhal. Talvez sob o luar e aquele Represeiro em Winterfell... mas agora sabia que mesmo ali, depois de tudo, naquela biblioteca, ele ainda a amava, por mais improvável e sem sentido que fosse. Sabia pelo amor que ele lhe dirigia por seus olhos... e isso a fez ter consciência de seus próprios sentimentos. Jamais esquecera Jon Snow. Mesmo depois de Robb, mesmo depois de seu filho Ned. Jon estava sempre ali em seus pensamentos, assim como estava muito presente em seu coração. Porém, entendia as palavras dele. Nenhum dos dois teria coragem para permitir algo. Por mais que seus lábios desejassem os dele, não tomaria uma atitude, muito menos ele... e aquilo era um tanto triste... – Entende, não entende? – perguntou ele a olhando nos lábios e então nos olhos. Como se a tentação que a afligira, o tentasse também." Será que vai rolar alguma coisa? Ou os dois vão agir como dois conformados? xD Espero vocês nos comentários e até sexta! o/ Beijos, titia ama vocês