Blackfyre
71 Calmaria e Tempestade
Notas iniciais
Calmaria e Tempestade
O meistre mal tinha deixado seu quarto quando Robb entrou fazendo barulho. Seus olhos se cruzaram e Shiera sorriu pra ele concordando com um aceno de cabeça. Ele não tinha formalmente feito uma pergunta, mas o questionamento estava em seus olhos. E ele entendeu a afirmativa dela.
Robb gritou de alegria e correu para pegá-la pela cintura e girá-la no ar. Shiera sorriu e gargalhou, achando estranho fazer isso. Há quanto tempo não gargalhava? No entanto o som logo morreu, pois girar no ar lhe deu vertigem. Suas mãos foram para a boca e Robb a colocou no chão, saindo de sua frente com agilidade. No entanto a vertigem passou e os dois riram do momento.
Robb a olhou com carinho e a abraçou com força. O abraçou de volta e sentiu a segurança do abraço dele. Era fácil esquecer-se da guerra, do Inverno e de seus dias sombrios sob regência de Roose Bolton. A barba de Robb arranhou sua testa e os dois se olharam com imensa alegria. A mão dele desceu em direção ao seu ventre e o acariciou com olhos sonhadores.
Da primeira vez que engravidara dele, não desejava. Demorou até acostumar-se com a ideia. Mas agora era diferente. Queria muito dar aquele filho a ele. Por mais que o futuro estivesse mergulhado em incertezas.
Robb a olhou com um olhar apaixonado e lhe deu um beijo. O beijou de volta e pensou no passado. Pensou em Winterfell, quando ele não passava de um garoto arrogante, metido e irritante, que ela tentava aturar. E fora com um beijo que ele a fizera ceder. Um beijo o transformara de garoto irritante que ela não desejava, em um rapaz atraente, cheio de sorrisos doces. Depois, quando Ned foi capturado, ela viu um líder. Ela viu o garoto virar um homem. E essa transformação a impressionou. Queria deixar de ser uma reles garota. Queria estar à altura dele.
Os dois cresceram juntos e tinham ajudado um ao outro a superar dificuldades. E por mais que o destino tivesse sido cruel com ambos, agora parecia oferecer uma chance de simples felicidade.
Robb suspirou e beijou seus lábios com paixão. Ele poderia ser um Rei do Inverno, já que era um Stark, mas tinha mãos quentes e um coração ardente. E ela mesma era feita de fogo. Fogo de dragão. E logo havia tanto calor que achou que iria inflamar-se.
A cama macia tocou suas costas e os beijos de Robb pareciam refrescar e esquentar seu corpo ao mesmo tempo. Suas mãos e as dele tiveram que lutar contra os cordões do espartilho. E depois com os cordões das roupas de couro cru que ele usava. O calor exigia nudez e o frio exigia que ficassem grudados um no outro.
As mãos dele percorreram seu corpo, como se fosse tudo uma novidade. Como se tudo fosse uma adorável descoberta. Fechou os olhos, apreciando as carícias, feliz por estar longe daquele doloroso passado. Pensou em Roose apenas em um mísero segundo, pois não havia como pensar nele estando mergulhada em prazer. Robb beijou seus seios com desejo e carinho. Com devoção e cuidado. O desconforto causado por traumas logo foi deixado de lado e a língua dele lhe roubou um sorriso. Seus pés esfregaram-se um no outro e suas mãos mergulharam nos cachos vermelhos, para afagá-lo na cabeça.
A boca dele foi descendo por seu corpo, enchendo-a de expectativa. Era como aquele dia em Harrenhal, no tapete. Quando se reencontrara com seu pai. Quando Robb quase a reivindicou no corredor mesmo. Robb lhe beijou a virilha, lhe afagando nas coxas e Shiera gemeu desesperada para que ele fosse logo ao ponto.
E quando ele foi, as paredes de Harrenhal derreteram sob sua imaginação. Se viu muito ao norte, na Muralha. Se lembrou de quando se entregara a Jon logo antes dele ser eleito Lorde Comandante.
—Pare! – Disse se sentando de uma vez. Robb parou no mesmo momento e a olhou confuso.
—O que? Não... não gostou? – Perguntou ele constrangido. Shiera engoliu em seco se odiando naquele momento. Por que sempre precisava se lembrar de Jon? Por que?
—Oh... na verdade estava maravilhoso... – Murmurou constrangida e nervosa consigo mesma – É só que... Ainda é difícil pra mim... depois de tudo o que aconteceu. – Mentiu descaradamente. Robb suspirou e se sentou ao seu lado. Ele beijou sua têmpora e a puxou para um abraço.
—O que quer fazer? – Perguntou ele. Shiera o olhou sem entender e ele lhe lançou um sorriso – Os homens vão descansar pelo resto do dia e Lorde Manderly vai preparar uma comitiva para irmos até Winterfell. Temos o dia inteiro apenas pra nós dois. Então... quer apenas ficar deitada na cama? Quer tentar de novo, mas de outra maneira? Quer pegar algum daqueles livros tediosos para ler pra mim até que eu caia no sono? – Brincou ele e Shiera lhe estapeou no peito.
—Meus livros não eram tediosos. – Ralhou ela.
—Desculpe. É que aqui no Norte somos acostumados a fazer outras coisas, como andar a cavalo, caçar, nadar, lutar... ler é coisa de donzelas. Mas por você, eu juro que tento ficar acordado por pelo menos umas cinco páginas. – Brincou ele e Shiera o estapeou de novo. Robb segurou sua mão e lhe beijou os lábios novamente, a deitando na cama. A mão dele desceu pelo seu corpo e ela imaginou que ele iria voltar a lhe fazer aquelas carícias indecentes e deliciosas, mas ele apenas a afagou no ventre – Será sua responsabilidade criar o hábito de leitura no nosso filho.
—Ou filha. – Pontuou. Robb sorriu e concordou com um aceno de cabeça.
—Ou filha. Uma linda menininha... Linda como você. – Disse ele e Shiera suspirou. O puxou pela nuca, aproximando o rosto do dele.
—Robb...
—O que? – Perguntou ele.
—Não vá para Além da Muralha. – Pediu Shiera. Robb piscou, surpreso e se ergueu de leve, ainda deitado na cama.
—Por que?
—Apenas um pressentimento. – Murmurou encolhendo na cama. Robb sorriu e lhe beijou a testa.
—Não se preocupe, Shiera. Estarei cercado por bons homens. – Disse ele, mas aquele argumento não a acalmou. Olhou para Robb e o beijou nos lábios. Estava nua, mas ele ainda vestia suas calças e botas.
—Me abrace. – Pediu então e ele o fez. O abraçou, deixando o momento de paixão morrer. Robb pegou o cobertor e o jogou em cima de ambos, por mais que ela não estivesse com frio – O Meistre disse que meu útero está fraco. Eu devo evitar de fazer muito esforço. Não irei para a Muralha com vocês. Permanecerei em Winterfell. – Murmurou. Robb concordou – Talvez fosse melhor evitar de andar a cavalo, também. Já estou há quase quatro luas grávida.
—Mas... o seu sangue...
—Desceu por conta da fraqueza do útero. Tenho que tomar muito cuidado. – Murmurou ela.
—Vou avisar a Lorde Manderly para providenciar uma carruagem. – Disse Robb a aconchegando contra o peito. Shiera suspirou e se aconchegou sentindo-se sonolenta. Ficou recebendo afagos na cabeça, até cair no sono.
E em seu sono, sonhou que estava na Ilha das Faces, correndo por entre as árvores. Alguém a seguia. Reconheceu a risada de Robb e se escondeu sob o tronco nodoso de um represeiro. Ficou em silêncio esperando que Robb a encontrasse. Mas quando os passos ficaram próximos o suficiente, quem apareceu foi Jon. E olhar para ele lhe trouxe um imenso alívio. Ele sorriu para ela e ela sorriu de volta. Ele se aproximou e a beijou. Um relâmpago cortou o céu e ela não estava mais na floresta. Estava presa. Presa em uma torre. Andou até a janela e viu que estava muito distante do chão. Olhou para o Norte e viu o sangue transbordar pela Muralha, que acabou cedendo, deixando todo aquele sangue negro escorrer. Fechou os olhos e o viu. Lá, além da Muralha, guiando seu exército de Mortos. Os olhos azuis brilhantes.
Acordou se sentando de uma vez. Robb acordou do que parecera um cochilo e a olhou curioso.
—Pesadelos? – Perguntou ele coçando os olhos. Shiera engoliu em seco.
—Ele está vindo, Robb.
—Quem?
—O Rei da Noite. – Respondeu – Eu não sei como, mas ele vai vencer a Muralha. Ele está vindo. – Engoliu em seco olhando para ele. Robb se sentou e suspirou passando a mão pelo rosto.
—Durma, meu amor. – Murmurou ele – Apenas descanse. Foi só um pesadelo.
Era muito claro que nem ele acreditava no que estava dizendo. Mas Shiera se deitou novamente. Robb se levantou e foi até a lareira. Ele a alimentou e atiçou o fogo. Quando voltou a cair no sono, ele ainda estava lá, admirando as chamas.
**
Aegon estava de pé em frente ao Represeiro de White Harbor. Sabia que os Manderly eram a única grande família do Norte que seguia a Fé dos Sete. Muitos anos atrás, muito antes dos Targaryen virem para Westeros, os Manderly eram da Campina. Mas alguma confusão fez com que os Reis da Campina os expulsassem de lá. De alguma maneira os Manderly vieram parar no Norte e os Stark lhe ofereceram hospitalidade.
Por conta disso sempre imaginara que não encontraria um Represeiro ali. Sacou sua espada e se ajoelhou. Fechou os olhos, se lembrando da marcha até Qharth. Quando encontrara aquele Represeiro em Essos.
—Eu sou Aegon Blackfyre. – Murmurou. O vento soprou sobre seus cabelos – Eu peço aos deuses do Norte que protejam a minha irmã. – Murmurou de olhos fechados – Ela é devota a vocês. Peço que protejam meu irmão Valerion... Por mais que tenhamos nossas diferenças, eu o amo. – Murmurou para o vento, que sibilava, lambendo seus cabelos – Peço que protejam Daenerys e que a guiem para um reinado próspero e pacífico. – Aegon respirou fundo, levantando os olhos para o represeiro, que chorava seiva vermelha pelos olhos entalhados.
—Sabe que esses deuses são falsos, não sabe? – Perguntou Melisandre atrás de si. Aegon se levantou, olhando para a árvore.
—Não acho. Eles olharam por mim antes...
—O Senhor da Luz olhou por você. Já que possui uma tarefa a desempenhar. – Discordou a Sacerdotisa Vermelha, ao seu lado. Aegon guardou sua espada e Blackfyre soltou o rugido das lâminas ao ser embainhada.
—Melisandre.
—O que?
—Se eu morrer, me queime. Não me traga de volta. Não deixe que me tragam de volta. – Disse engolindo em seco.
—Não sou eu quem tem o poder de fazer isso. Mas o Senhor da Luz. Ele faz. Eu sou apenas...
—Uma ferramenta, eu sei. Mas de qualquer modo. Se eu morrer... que eu continue assim. Transforme meu corpo em cinzas e as jogue no mar. – Pediu Aegon dando as costas para a árvore e se afastando.
Estava quase de volta ao castelo quando Arianne o encontrou.
—Aegon. – Murmurou ela. Sorriu ao vê-la. Ela estava empacotada em peles de foca branca. O clima gelado não combinava com ela – Está tudo bem? Seu rosto parece tão consternado.
Engoliu em seco.
—Mesmo eu fico nervoso com o aproximar do Inverno. Sabe o que nos aguarda. – Murmurou ele a afagando no queixo – Ficará em Winterfell, não é?
—Ficarei. Vou esperar seu retorno lá. – Garantiu ela. Aegon sorriu e a beijou nos lábios – E quando você voltar, estarei ansiosamente esperando por nosso casamento. – Adicionou ela. Aegon piscou e sorriu.
—Melisandre. – Chamou e a Feiticeira Escarlate se aproximou – Você pode realizar casamentos, não pode?
—Pensei que você fosse um membro da Guarda Real. – Brincou ela com um sorriso de lado. Aegon segurou a própria capa branca e a arrancou, a jogando no chão.
—Fui dispensado do serviço, na realidade. – Gracejou. Melisandre olhou dele para Arianne e sorriu.
—Vai se casar aqui ou em Winterfell?
—Aqui, num navio, se possível. – Disse ele e Arianne o olhou, surpresa – Se minha noiva aceitar, é claro.
—Não. Eu prefiro em Winterfell. – Disse ela com firmeza e decidida e Aegon sorriu sem ter intenção de insistir em contrariá-la.
**
Loras e Valerion brandiam espadas. Era apenas mais um treino, mas algo no olhar de Loras o assustou. O rapaz pulou sobre si e os dois caíram no chão. Teve a impressão de escutar um zunido e no momento seguinte Loras estava de pé.
—O que foi isso, Loras? – Perguntou. Foi quando olhou para o lado e viu uma adaga fincada numa árvore. Olhou para o lado oposto e viu Obara avançar, brandindo uma lança.
Quase não houve tempo de se defender. A lança veio veloz e quase transpassou seu braço. Mas uma vez mais Loras o salvou, contendo a lâmina da lança com a lâmina de sua espada. Ele avançou contra Obara, mas ela era boa e tinha um alcance melhor. Com a madeira da lança aplacou a investida e chutou Loras no chão, que estando com muito peso pela placa de aço, não conseguiu se sustentar. Ela se virou então para Valerion que conseguiu se defender da lança, mas ela girou a arma e pressionou para baixo. Sentiu o peso da força dela manter sua espada quase no chão. Ela pisou em sua lâmina e iria acertá-lo com a lança, mas Loras a segurou por trás. Valerion a atacou, mas ela usou Loras como contra peso, para pular e chutá-lo com força. Depois curvou o corpo para frente, jogando Loras por cima de suas costas. Logo ouviu o som metálico do companheiro ao cair no chão. Ela voltou a atacá-lo com a lança, mas Valerion se defendeu como pode.
Tentou ganhar espaço, para se organizar, mas ela não permitiu que se afastasse. Se defendeu de alguns golpes e tentou atacá-la, mas ela estava usando apenas roupas leves, de couro e a velocidade dela o superava e muito. Ela era uma verdadeira guerreira e provavelmente o teria derrotado, mas era uma luta injusta de dois contra um. Depois de alguns cortes e muita raiva, a lança dela se quebrou e Valerion e Loras a sobrepujaram.
—Eu já fui muito bonzinho poupando você quando minha vontade era matar todo e qualquer Dornês em que eu colocasse minhas mãos. – Rosnou ele. Obara cuspiu em seu rosto e Valerion precisou respirar fundo.
—Poupe-me de suas benevolências. Cersei prendeu meu pai usando suas forças. E até agora você não fez nada para contornar isso. Nós lutamos por você.
—Vocês tentaram envenenar minha esposa. – Rosnou Valerion – Com ela grávida. Se Cersei colocou sua família numa cela, eu realmente espero que ela não tire. E pode ter certeza de que eu não vou mover um músculo que seja pra mudar essa situação.
Obara girou o corpo, lhe aplicando uma rasteira. Foi tão rápido que não teve nem tempo de reagir e tentar cair de maneira mais confortável. Sua cabeça bateu com força no chão e agradeceu por toda a neve do Norte. Loras tentou correr atrás da dornesa, mas ela usava roupas leves enquanto ele usava armadura.
Se levantou com o orgulho ferido e Loras voltou até ele.
—Manter você vivo é cansativo, sabia? – Perguntou ele. Valerion jogou a espada de treino no chão e bufou. Cruzou os braços e olhou para o sul.
—Acha que eu deveria voltar para Porto Real? – Perguntou inseguro, pensando em Myrcella.
—Você escutou Lorde Manderly. Você é considerado um traidor do trono. Se você voltar de mãos vazias, matam você. – Explicou Loras – Precisamos voltar com um dos mortos de que Snow tanto fala.
Valerion engoliu em seco e chutou um monte de neve.
—Mas nada impede que eu escreva uma carta. Quero saber do meu filho. – Murmurou preocupado – Só escuto rumores horríveis, sobre como Oberyn envenenou minha esposa, ou sobre como ela deu à luz a uma criatura dragão. Que o bebê possuía escamas, asas retorcidas e tudo o mais.
—Sempre falaram essas bobagens sobre Targaryen. – Resmungou Loras – Agora é a vez de os Blackfyre terem sua dose de mitos.
Valerion suspirou e continuou mirando o sul.
—Poderia escrever para sua avó, para que ela passe uma mensagem minha para Myrcella?
—Não tenho o selo da minha família, Valerion. – Suspirou Loras e Valerion rosnou de raiva – Mas pode escrever com o seu próprio selo e depois culpar Cersei por não entregar suas cartas. Myrcella faz tudo por você.
—Não posso contar com a devoção dela toda vez, Loras. – Resmungou Valerion.
—Principalmente porque agora estamos indo para Winterfell e você vai se encontrar com Lady Sansa? – Perguntou Loras com um sorrisinho sacana e Valerion sentiu o estômago cheio de borboletas. Lady Sansa... Respirou fundo, sem saber no que pensar ou no que fazer. Chutou sua espada de treino e saiu marchando furioso consigo mesmo para dentro do castelo. Mas Loras o seguiu, como sempre fazia.
**
Jon entrou em White Harbor, sentindo-se atormentado. A puta ainda se oferecera a ele em troca de uma reles refeição quente, afinal “não poderia cobrar muito por um rosto tão bonito”.
Mas ele não estava interessado na companhia dela. Andou a esmo pelo castelo e cruzou com Valerion, mas o rapaz não o notou. Ele passou furioso, sendo seguido do rapaz Tyrell. Continuou andando e notou Aegon com Arianne. Os dois trocavam sorrisos e sussurros, se beijando por entre pilares brancos de mármore. Não aguentou aquilo e se afastou sentindo-se muito só.
Andou seguindo o vento e achou algo que talvez lhe trouxesse alguma paz. Um Represeiro. Um Bosque Sagrado. Se ajoelhou olhando a árvore, que parecia sangrar. Assim como seu coração.
—Por favor. – Murmurou olhando-a desolado – Por favor... Me digam o que fazer. Me ajudem. – Murmurou perdido – Eu amo a esposa de meu irmão, eu tenho uma batalha impossível pela frente, eu não sei o que fazer. Me dizem que eu sou o Príncipe que foi Prometido, mas... mas eu não sei de nada... – Engoliu em seco, mirando o Represeiro – Ygritte tinha razão. Eu realmente...
—Falando sozinho? – Perguntou uma voz. Jon engoliu em seco e se virou. Era Robb. Se levantou se perguntando o que ele tinha escutado. É claro que escutou tudo.
—Estava falando com os Deuses. – Resmungou Jon. Robb sorriu e se aproximou, ficando ao seu lado. O irmão, ou melhor, primo, sorriu sereno e fechou os olhos, respirando fundo.
—Eles responderam? – Perguntou ele. Jon negou com a cabeça, mas então se deu conta que Robb tinha os olhos fechados. Limpou a garganta e mirou a árvore, completamente sem jeito.
—Não.
—Você se lembra... quando éramos pequenos... – Robb abriu os olhos e sorriu – Estávamos aprendendo a nadar e eu disse que conseguia ir até o fundo do poço de Winterfell... você disse que eu não deveria tentar, mas eu tentei e quase me afoguei. Minha mãe quase me arrancou o couro.
—Lady Catelyn se preocupava muito com os filhos dela.
—Ela me perguntou: Quem vai cuidar da suas irmãs e de Winterfell se você se matasse dessa maneira estúpida? – Disse ele imitando a própria mãe, mas fora uma imitação pobre – Eu respondi: Jon irá. – Continuou ele e Jon olhou para ele, surpreso.
—Duvido que ela tenha gostado de ouvir isso.
—Ela odiou. Falou que você era um bastardo e não tinha direito a nada. Eu disse que você era meu irmão. Então ela falou que um dia você tentaria roubar tudo o que era meu. Tentaria ser maior do que eu. Por isso eu nunca deveria confiar em você. E no dia seguinte brincávamos de espadas e você disse que era Lorde Stark de Winterfell e eu falei que você jamais seria Lorde Stark, pois você era um bastardo. E eu notei o quanto doeu em você ouvir aquilo... justo de mim. Eu nunca tinha te olhado daquela maneira. Você confiava em mim, mas no fim das contas, eu agi como todos os outros. – Robb abriu os olhos e mirou os próprios sapatos e Jon desviou o olhar dele – Quando estávamos em Harrenhal, eu quis beijar a garota mais bonita do trio, mas ela quis você. Então eu me apaixonei por aquela garota, mas ela só queria você. E quando todos me deram como morto, ela correu para você. Eu me tornei senhor de Winterfell, você virou o Lorde Comandante da Muralha. Eu me tornei o Rei do Norte e você se descobriu o herdeiro de Rhaegar Targaryen. Eu era melhor treinado e era melhor nas espadas, mas aquele dia você me derrotou, na frente de todos...
—Eu me rendi. Você ganhou...
—Você me acertou primeiro, eu só continuei lutando. Se fosse uma luta de verdade, eu teria morrido. – Discordou Robb. Ele engoliu em seco e mirou Jon – Eu tinha medo de você, Jon. – Murmurou ele e Jon piscou surpreso – Sempre tinha muita expectativa sobre mim, eu era o herdeiro... Mas você quem sempre agradava nosso pai. E você não tinha nenhuma obrigação para isso. Era simplesmente natural. O que eu precisava me esforçar, você simplesmente sabia fazer. – Robb suspirou e se aproximou um passo – Não importa o que digam, você é meu irmão. Podemos morrer daqui pra frente e eu não acho que teremos outra chance de viver de novo caso isso aconteça. Não quero morrer zangado com você, Jon. – Disse Robb. Jon piscou, surpreso – Você a ama, eu também a amo. Caso eu morra, cuide dela. Caso eu sobreviva... Por favor... não me tire a minha felicidade.
Jon desviou o olhar e concordou com um aceno de cabeça.
—Ela está grávida, não é? – Perguntou e Robb concordou com um aceno de cabeça e um sorriso feliz – Felicidades. Vocês merecem isso.
—Obrigado. – Disse Robb, voltando-se para o Represeiro – Jon... – Olhou para Robb – Não precisa se casar com quem quer que seja. Volte para a Muralha, ou fique onde desejar, Winterfell, Além da Muralha, Dragonstone, Porto Real... não me importa. Não vou decidir seu futuro, isso não cabe a mim. – Murmurou ele e Jon o olhou surpreso – Apesar de ser uma excelente ideia você se casar com Shireen... Ou até mesmo com Daenerys.
—Ela é minha tia. – Disse fazendo uma careta.
—Não seria a primeira vez entre os Targaryen... – Riu Robb.
—Eu não sou um Targaryen. Sou um Snow. – Resmungou.
—Pare de negar quem você é. – Ralhou Robb – Nosso pai sempre nos ensinou, a nós dois, a importância de sermos responsáveis. Não pode se esconder atrás dessa mentira. Não mais, Jon. – Robb o olhou nos olhos e Jon engoliu em seco – Você é um Targaryen e pode ser o que esse reino precisa. Você não se coloca acima dos outros. Você se sacrificaria pelo bem do Reino. Você seria um bom rei. Um rei para quem eu alegremente dobraria o joelho. Um rei que Aegon alegremente juraria sua espada. Um rei que alegremente Valerion aconselharia. Um rei de direito. O rei que Westeros precisa. – Robb colocou a mão sobre seu ombro – O verdadeiro Príncipe que foi Prometido. Pense nisso.
Robb lhe deu três tapinhas no ombro e se afastou. Jon se virou para o Represeiro e suspirou.
É isso o que vocês querem? Vocês trouxeram Robb aqui para que ele me dissesse tudo isso?
Fantasma se sentou ao seu lado e Jon o afagou na orelha.
Não gosto disso, mas se for o meu dever, irei cumpri-lo... Mas primeiro, vou lutar pelos vivos. Uma coroa está longe de ser minha prioridade...
**
Hunfy era absolutamente suspeito. Todos pareciam gostar dele, mas ela não conseguia confiar. Talvez fosse algum trauma do passado. Joffrey, Cersei, Valerion, Mindinho... foram decepções atrás de decepções.
Bufou irritadiça. Recebera um corvo de White Harbor com a notícia de que Robb estava voltando para Winterfell e que ela deveria preparar a fortaleza para receber muitas pessoas e muitos suprimentos. Agradecia pelos suprimentos, mas pelas pessoas? Que pessoas seriam essas?
Bateram em sua porta e ela dobrou a mensagem de Robb.
—Entre. – Disse e a porta se abriu. Meera Reed apareceu, parecendo abatida. Sansa a olhou com curiosidade e a garota fez uma reverência – O que posso fazer por você? – perguntou gentilmente. Devia muito a aquela garota. Ela quem trouxera Bran de volta. O irmão da garota tinha ficado para trás, provavelmente morrido. Meera não entrara em detalhes e ela não os pedira.
—Eu vim me despedir. – Murmurou ela. Sansa suspirou e concordou com um aceno de cabeça – Eu preciso ir pra casa... preciso me encontrar com o meu pai e...
—Seu pai está vindo para Winterfell. – Disse Sansa e Meera a olhou surpresa – Robb nos enviou uma mensagem. Devem chegar em uma semana ou duas. Devemos nos preparar para receber o rei do norte e seus Lordes. Em breve precisaremos convocar os lordes de novo. Muitos não gostarão disso. – Salientou ficando de pé.
Escutaram o som de madeira a tilintar e as duas se viraram para receber Bran. Ele as olhou com aquele olhar distante que tinha adquirido.
—Espero não estar atrapalhando. – murmurou ele. Bran vinha sentado numa cadeira com rodas, uma engenhoca criada por aquele Hunfy. Com isso o garoto podia andar por aí, empurrando as rodas ou sendo levado por alguém, sem que fosse no colo, como uma criança. Afinal, Bran tinha crescido e a infância tinha deixado boa parte de seu rosto.
—Não, não está. Eu devo me retirar. – Disse Meera parecendo afetada com a presença dele. Sansa olhou para os dois, desconfiada – Se não for pedir muito, ficarei até o retorno de meu pai...
—Sempre será bem vinda a Winterfell. Pode ficar todo o tempo que desejar. – Disse Sansa. Meera fez uma reverência rápida para ela e outra para Bran, para então sair às pressas. Sansa mirou seu irmão mais novo e Bran foi girando as rodas de madeira, para adentrar ainda mais o quarto.
—O Rei da Noite se aproxima mais... Mas agora Robb e Jon conseguiram uma arma contra ele. – Murmurou Bran. Sansa concordou com um aceno de cabeça, sentindo-se desconfortável com as novas habilidades de seu irmão. Ele tinha perdido um pouco de tato também, como se tivesse se afastado da própria humanidade – E há mais uma coisa, sobre Jon... Algo que talvez fosse melhor você ser a pessoa a ajudá-lo a aceitar.
—Do que está falando?
—Sobre os pais de Jon. – Murmurou Bran e Sansa franziu a testa. Os pais de Jon? Ele não queria dizer sobre a mãe de Jon? Falar daquele jeito parecia até que ele estava se negando a ser filho de Lorde Eddard Stark e Sansa achou aquilo um tanto ofensivo. No entanto, antes que pudesse falar o que quer que fosse, bateram na porta. Se virou e antes que desse autorização para que entrassem, Hunfy abriu a porta.
—Lady Sansa, espero não estar... – Começou ele com aquele sorriso bonito que ela estava começando a detestar.
—Incomodando? Sim, está. Não se abre uma porta sem receber autorização para isso primeiro. – Ralhou e Hunfy fez uma mesura num pedido de desculpas, mas quando ele levantou o rosto para ela, havia travessura ali. Será que ele leva alguma coisa a sério?— O que você quer, Hunfy?
—Chegou um corvo, da Muralha. – Disse ele levantando a mão, com um pergaminho selado – Na atual situação, julguei sábio não perder tempo em trazer a mensagem. – Sansa marchou zangada até ele, por ele ter um ponto.
Arrancou o papel da mão dele com um pouco de rudeza, mas isso não o irritou. Apenas pareceu diverti-lo. E isso a irritou mais ainda. Leu o papel e notou que era uma mensagem de Castle Black, falando que os Outros tinham sido avistados em vários castelos ao redor da Muralha, como se os mortos procurassem um ponto fraco. A Muralha pedia reforços às pressas.
Sansa respirou fundo e foi até sua mesa para pegar tinta e pincel. Um corvo provavelmente chegaria tarde demais a White Harbor, não teria como avisar Robb. Então enviaria um corvo para cada castelo do Norte e mais um para Castle Black, garantindo que os reforços viriam em breve, pois o Rei do Norte já estava em solo Nortenho e voltando para casa. Era hora de os Lordes começarem a se preparar para deixar o calor de suas lareiras novamente.
—Espere só um momento, Bran. Preciso lidar com isso primeiro. – Disse Sansa começando a escrever as mensagens para os Lordes.
—Está bem... temos tempo. Estarei no Bosque Sagrado. – Murmurou seu irmão. Sansa concordou e continuou a escrever. A porta se fechou e ela notou que Hunfy ainda estava ali.
—O que quer? – Perguntou impaciente.
—Por que te irrito tanto, milady? – Perguntou ele e Sansa não se deu ao trabalho de responder – Parece que toda vez que sorrio para ti, causo quase um rompimento de alguma veia de tua têmpora. – Ele tocou um lugar específico de sua testa e Sansa o olhou zangada. Ele sorriu daquele jeito impertinente novamente e algo nele lembrou de leve Valerion. Um Valerion em Porto Real, quando flertavam sem parar um com o outro, e se encontravam às escondidas no Bosque Sagrado para trocarem beijos. Por um segundo imaginou-se trocando beijos com aquele rapaz, mas mesmo em sua imaginação a ideia parecia ridícula. Além disso, não confiava nele.
—Sua dileta rainha Shiera está vindo para Winterfell. – Disse desviando o olhar do dele. Mas não foi rápida o suficiente para notar o sorriso dele vacilar. Por isso voltou a encará-lo – Ela deve chegar em uma semana, duas no mais tardar. – Adicionou e Hunfy respirou fundo desviando o olhar e ficando sério. Ele mirou a janela e Sansa notou que as mãos dele pareciam nervosas, remexendo-se.
—Finalmente. – Disse ele de um jeito estranho, como se estivesse tentando se recompor – Logo estarás livre de mim, milady.
—Mal posso esperar. – Resmungou o olhando analiticamente. Hunfy suspirou e voltou ao seu comportamento normal, com aquele sorriso galante e bonachão.
—Aposto que morrerá de saudades. – Disse se curvando sobre a mesa, como se fossem bons amigos.
—Não seja um tolo sonhador. Tudo o que eu mais quero é me ver livre de você.
—Por que? – perguntou ele dando a volta na mesa e indo para trás de si. Sentiu os dedos dele em seus cabelos, tirando-os do caminho. Sentiu a respiração dele em seu cangote e seu corpo travou de leve – Está difícil parecer frígida quando na verdade... Teu corpo esquenta com a minha proximidade?
—Continue com as gracinhas e eu terei um excelente motivo para te colocar nas masmorras. – Rosnou dando um tapa na mão dele e se levantando. Andou até a porta e a abriu, indicando o caminho por onde gostaria que ele trilhasse.
—Se você me quisesse em uma cela, eu já estaria em uma cela. – Disse ele se apoiando na mesa com despreocupação.
—Nós não prendemos as pessoas simplesmente porque queremos aqui em Winterfell. – Rosnou ela. Hunfy sorriu deleitado.
—Que sorte a minha, não é mesmo? – Perguntou ele se aproximando – Eu sei o porquê de te causar tanta irritação. – Disse divertido e Sansa revirou os olhos.
—Porque é irritante, simplesmente?
—Não... não é isso. – Ele andou pelo quarto até uma cesta de frutas, cheia de maçãs. Ele pegou seis delas e começou a jogá-las para o alto, num malabarismo que daria inveja a um grupo itinerante – Eram seis crianças Stark. Mas um era um bastardo. – Ele jogou uma maçã de volta na cesta, sem deixar as outras cinco caírem – Robb, o herdeiro, Sansa, a princesinha, Arya, a geniosa, Bran, o aventureiro e Rickon, o bebê. Robb virou rei, Arya aprendeu a lutar, Bran... – Ele deixou uma maçã cair e ela não soube se foi um acidente ou uma piada maldosa – Bem, Bran teve seus dias ruins, enquanto Rickon sofreu na Muralha. Mas seus irmãos que sobreviveram tiveram lá seus méritos. Mas você? Você aprendeu a jogar o jogo da corte. Você sabe elogiar quando precisa, sabe adular quando precisa, sabe mentir quando precisa e sabe ser gentil ou dura, quando necessário. – Ele devolveu as maçãs para a cesta, ficando apenas com uma – Mas cometeu erros, confiou em quem não deveria. E agora tenta ler as pessoas, para não ser passada para trás de novo... mas eu não sou fácil de ler, não é? – Hunfy cheirou a maçã de tal maneira que parecia desejá-la mais do que qualquer coisa. E o modo que ele fez isso a deixou com calor. O rapaz a olhou de canto de olho e sorriu aquele maldito sorriso, com os lábios tocando a maçã. A maçã que representava Sansa Stark – Você está irritada porque eu sou melhor que você na sua especialidade.
—Saia daqui! – Disse zangada.
—Já sei como podemos começar a resolver nossas diferenças. – Riu ele se aproximando e Sansa o achou atraente e intimidador. Mas não se permitiria cair no charme dele – Eu direi meu sobrenome. Você é esperta o suficiente para saber que eu sou bem nascido. Mas não tão esperta a ponto de finalmente ter descoberto quem eu sou. Na verdade, estava bastante claro. – Ele brincou jogando a maçã de uma mão para a outra agilmente – Sou o oitavo filho de uma família de oito irmãos. Sendo tão caçula, precisei aprender a ser melhor do que a maioria, para chamar atenção. – Disse ele de um jeito sussurrado, como se estivesse contando um segredo obsceno. Sansa engoliu em seco e ele se aproximou um passo, jogando a maçã para cima e fazendo malabarismos com ela. Sansa sabia o que ele queria dizer com aquilo. Que assim como brincava com aquela maçã, brincava com ela também – Minha irmã mais velha já é uma senhora. Minha irmã mais nova é bastante influente em Essos. E ela foi casada com um Nortenho. – Riu ele se aproximando mais e empurrando de leve a porta com o pé. Sansa olhou para a porta com o canto de olho e a viu ficar apenas ligeiramente aberta – Alguma pista?
—Pensei que simplesmente me diria, não que faria jogos comigo. – Disse esgueirando-se para longe dele. Mas a mão forte dele a puxou de volta e a fez se virar. Ficou muito mais perto dele do que algum dia teria sonhado em ficar.
—Nesse nosso mundo, milady... Todos somos jogadores. Odeie o Jogo e não o Jogador. Não fiz as regras. – ele se aproximou um passo e ela se afastou na mesma medida. Estavam próximos demais. Foram naquela dança até que ela sentiu a mesa em suas ancas – Sou fabulosamente rico, mas tenho três irmãos mais velhos. Em tempos de paz seria muito lógico que eu tentasse arrumar uma noiva muito rica, mesmo que não fosse da nobreza... ou que eu fosse para a Cidadela. – Ele juntou as mãos como se rezasse, mas a maçã ainda estava entre elas e Sansa se sentia desconfortável com a proximidade dele. Hunfy colocou as mãos na mesa, se aproximando mais, quase se curvando sobre ela. O nariz dela quase tocava o queixo dele de tão próximo – Minha família tem relações muito... íntimas – e falando isso ele a pressionou com os quadris de um jeito que apenas Valerion fizera em toda sua vida – com a Cidadela.
—Hightower. Você é um Hightower! – Disse empurrando-o e saindo dos braços dele – Vassalos dos Tyrell, a-aliados d-dos Lannister. – Disse com o coração a mil e o rosto a pegar fogo. Hunfy deu uma mordida na maçã e Sansa sentiu-se quase tonta.
—Humfrey Hightower, seu criado. – Disse numa mesura profunda e absolutamente debochada – Estou aqui para negociar termos com a Rainha do Norte. – Disse ele se levantando – Levando em consideração que Aegon tem toda a marinha das Ilhas de Ferro sob controle, além de uma imensa frota vinda de Volantis... bem... Oldtown fica muito vulnerável ao mar. – Ele se aproximou mais um passo – Pronto, amigos? – Perguntou ele, debochado e Sansa rosnou o empurrando novamente – Soube que você teve um pequeno romance com Valerion. Costumávamos ser bons amigos, sabia? – Perguntou ele e Sansa corou novamente – Eu ensinei todos os truques que ele sabe. – Riu ele e Sansa o olhou ainda com o coração acelerado.
—Entendo. Isso explica algumas coisas. – Disse Sansa respirando fundo e tentando se recompor. Humfrey deu outra mordida em sua maçã e se aproximou novamente, fazendo com que seu corpo novamente pegasse fogo.
—Por exemplo? – Perguntou ele depois de engolir o pedaço da maçã.
—O fato de ser próximo dos Blackfyre explica o motivo de ser apaixonado por Shiera até hoje. É por isso que fica afetado quando o assunto é ela. – Disse Sansa e Humfrey sorriu como se divertisse.
—Você acha?
—Estou bastante convencida. – Disse empinando o nariz e Humfrey recuou um passo.
—Que olho. – Riu ele andando pelo quarto – Winterfell é um castelo impressionante, mas não se compara a Hightower. Triste saber que o sábio Lorde Haegon escolheu o Norte para entregar sua filha, quando a Campina poderia oferecer absolutamente mais.
—As desvantagens de ser o quarto filho. – Disse atenta a ele e ele concordou.
—Talvez. – Ele suspirou e a olhou divertido – Ela ainda cheira a Lavanda e Groselha? – Perguntou e Sansa piscou surpresa – Quando a mãe dela morreu, Lorde Haegon ficou perdido em tristeza. Incapaz de cuidar dos próprios filhos. Então ele deixou Shiera em Porto Real. Ela tinha menos de dez anos. Eu tinha doze. Era escudeiro de Willas Tyrell. Ela era uma coisinha magricela e tristonha. – Riu Humfrey e os olhos dele adquiriram um ar sonhador – Eu fiquei com pena quando soube que a mãe dela tinha morrido e que o pai dela a deixara ali, só. Então eu fiz uma coroa de flores pra ela. De lavanda. Viramos melhores amigos. Fazíamos muitas coisas juntos e logo não queríamos ficar separados, de maneira alguma. – Ele a olhou com malícia e Sansa corou de novo – Eu pedi a mão dela em casamento quando fui armado cavaleiro. No Torneio de Harrenhal. Mas acho que Lorde Haegon ficou zangado comigo, porque durante um treinamento eu machuquei Valerion e ele não pôde justar. – Humfrey deu de ombros – Pode imaginar como tudo estaria diferente se ele tivesse dito sim? Os Bolton provavelmente ainda estariam aqui, comandando Winterfell... e sabe-se lá em que inferno você estaria... Acho que me deve agradecimentos, milady. – Brincou ele e Sansa engoliu em seco.
—Não tenho tempo para suposições. Se não fosse por...
—Valerion jamais lhe daria abrigo se isso fosse colocar a irmã dele em perigo. – Disse Humfrey mordendo mais uma vez a maçã – Vofê esfaria em... – Ele engoliu a olhando com aquele sorriso charmoso – Porto Real, nas mãos de Cersei. Ou talvez estivesse aqui. Talvez fosse você a mulher a ter se casado com Bolton. – Sansa respirou fundo sem nem mesmo querer imaginar um destino desses – Então, Lady Sansa, será que agora posso desfrutar de um sorriso?
—Estou tentada a te apresentar à Muralha, Hightower. Saia daqui agora mesmo. – Disse ainda sem confiar no rapaz. Seu instinto gritava que ele era perigoso. Mas se ele era mesmo amigo de Shiera, teria proteção dela, além da do Meistre. Não podia se livrar dele. Não ainda...
Humfrey Hightower sorriu e mordeu um último pedaço da maçã, deixando-a metade comida em cima da mesa. Depois, com uma mesura, se retirou finalmente.
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