Blackfyre

7 Astúcia, Honra e Orgulho


Notas iniciais
Oieee! Estou super feliz! Conseguimos cinco comentários! =D Com seis comentários eu posto mais um. Caso não tivermos, o próximo capítulo sai na sexta que vem! Beeeijos! Titia ama vocês!

Astúcia, Honra e Orgulho

Valerion observou Sansa Stark caminhar com sua amiga Poole. Quando se joga o jogo dos tronos... ou você ganha, ou você morre...

Seu pai estava jogando. Sabia disso. Só esperava que ele fosse um bom jogador. Esperava ser um bom jogador, também. Estava vivendo pela primeira vez em Porto Real e estava aprendendo muito, sobre várias pessoas. Varys e Mindinho não eram peritos com uma espada. Tampouco sonhavam com o futuro, ou tinham famoso talento com o arco. Mas eles jogavam. E jogavam bem.

E esse talvez fosse seu talento. Jogar. Se contentaria em observar. Observar os negócios do pai, observar como ele lidava com a administração de Harrenhal. Lidar com os números, com a comida.

O Inverno está chegando. Ele disse que o inverno estava chegando... então é hora de preparar Harrenhal para estocar mais e mais comida.

Escrevia corvos para o castelão, com ordens. Seu pai lhe emprestara o selo. Assinaria como o Senhor de Harrenhal. A última conversa que tivera com o pai ainda o assustava. Sangue, fumaça, guerra e morte. Seu pai vira o Estranho chegar, com sua lanterna. Só esperava que ele não viesse atrás de dragões. Que fosse do veado e não do lobo que o Estranho vinha presentear com sua bênção.

Hora de ir até o porto.

Guardou seus pergaminhos com instruções e pegou as bolsas de moedas. Seu pai lhe deixara toda a responsabilidade e isso já não era mais segredo pra ninguém. Ele queria que as pessoas soubessem e comentassem que Aegon não herdaria Harrenhal. Sempre que perguntavam de seu irmão, seu pai ficava sombrio e esquivo. As pessoas comentavam que o Jovem Dragão Negro tinha se exilado em Essos. Valerion se perguntava que tipo de missão seu pai dera a seu irmão.

Mas ele não era estúpido. Tinha alguma ideia.

Seu irmão tinha ido pra Essos. Sabia disso. Também escutara que Daenerys e Viserys Targaryen estavam em Essos e que a jovem menina tinha se casado com um homem chamado Drogo, que tinha um imenso exército. Sabia disso, pois o Pequeno Conselho havia se reunido para tratar disso e ele escutara o pai e a Mão conversarem a respeito. Seu pai parecia cada dia mais próximo da Mão do Rei. Valerion entendia o porquê.

Ned Stark parecia ser um bom homem. Alguém honrado e sério. Alguém que realmente simbolizava a justiça. Olhava para ele e pensava na Fé dos Sete. Lembrava do Pai, da fé. A imagem da honra e justiça.

Por isso achava que ele não sobreviveria muito tempo ali. Não num lugar tão vil e perigoso.

Já tinha entendido que Mindinho, Varys e até a rainha tinham seus espiões e contatos. Por isso achou interessante fazer o mesmo. Mas era difícil comprar pessoas em Porto Real. Como poderia saber se estava comprando alguém “sem dono”?

Por isso era tão importante ir para o porto.

Conhecia os marinheiros do pai. Alguns trabalhavam para sua casa antes mesmo de os Blackfyre serem bem vindos novamente a Westeros. Era com essas pessoas que faria sua rede de informações. Pessoas que viviam no mar e que não trocariam isso por nada. Teria uma rede de informações sobre o que acontecia em Essos, com isso saberia mais dos Targaryen e quem sabe descobriria mais sobre o que o irmão estava fazendo. Imaginava que ele estava com os irmãos Targaryen, prometendo ajudá-los numa reconquista ao trono. Se desse certo, seu pai provavelmente receberia seu irmão de volta, como herdeiro legítimo de Harrenhal.

No entanto, ele não fazia ideia do que seria de Aegon caso a investida de Viserys falhasse. Também se perguntava outras coisas. Se seu pai queria que Aegon ajudasse os irmãos Targaryen... por que então tinha noivado Shiera com Robb Stark? Por que ele mesmo estava estreitando relações com a Mão do Rei? Os Stark foram uns dos que iniciaram a rebelião que usurpou o Trono de Ferro. Não seria perigoso se envolver com eles?

E mais! Por que seu pai insistira que ele continuara nesse jogo de flerte com Myrcela, quando a princesa não lhe interessava?

Seu pai tinha muitos esquemas na cabeça, mas ainda não confiava plenamente nele. Ele lhe dava pequenas tarefas, ajudando a treiná-lo. Se perguntava se Aegon sabia do plano inteiro e se perguntava se Aegon tinha concordado com alegria a cumprir tal plano. Aegon não era do tipo que se esforçava muito por algo que não quisesse. Seu pai uma vez quis noivá-lo com uma bonita garota da casa Tyrell, mas Aegon simplesmente entrou num barco e sumiu por meses. Só podia se perguntar se o irmão tinha mesmo fazer alguma jogada naquele jogo, ou se tinha apenas fugido. Talvez seu pai não estivesse fingindo sempre que perguntavam de seu irmão mais velho. Talvez ele não estivesse apenas encenando, enquanto o preparava para ser o senhor de Harrenhal.

Valerion soltou um suspiro, ainda perdido em pensamentos como aquele. Seguia pelas ruas da imensa cidade com seis guardas de confiança. Todos ex-imaculados, se é que se podia falar que isso existia. Seu pai podia dar moedas para eles e falar que eram livres, mas aqueles homens não sabiam o que era liberdade. O que achava até bom. Eram os últimos que imaginava poder serem comprados. Confiava plenamente em seus Imaculados.

Quando finalmente chegou no porto, viu os três dracares de sua família, que serviam de escolta para os nove navios mercantes. Um dracar para cada três navios. Pra eventualidade de surgirem piratas, ou, num momento de profundo azar, homens de ferro.

Céus, como odiava aqueles homens de ferro. Sua irmã gostara de Theon Greyjoy, mas Valerion não suportara o rapaz, assim como lhe dava asco ao pensar naquele lugar, com sua gente bárbara e sem princípios.

Deixando aqueles pensamentos de lado, procurou o capitão da frota que seguiria para Harrenhal. Encontrou o bastardo mais velho de lorde Whent e meio irmão de Talisa. Ele era o imediato do capitão Zagar, um dos soldados que foram para Valíria com seu pai, mas que não tiveram coragem de segui-lo até o final.

—Hoster Rivers. Seu tratante. – riu Valerion. Hoster o olhou e sorriu, enquanto mascava algumas ervas que deixavam sua saliva cor de rosa.

—Valerion. Bem que eu senti o cheiro de perfume. Achei que eram putas de Lys, mas é só você. – brincou ele. Os dois sorriram, apertando as mãos e Hoster o olhou com curiosidade. Assim como Talisa e Shiera tinham se tornado muito amigas, Valerion via em Hoster um de seus melhores amigos. Ele era alto e fino, com pernas firmes e braços fortes. Os olhos castanhos, os cabelos da mesma cor e um cavanhaque muito bem feito no queixo, assim como um bigode que formava dois ganchinhos. Sabia andar sobre a corda bamba e tinha um equilíbrio fantástico, sendo capaz de lutar muito bem na pior das tempestades, dentro de um barquinho de pesca. Mas ao contrário da irmã, não era bom com letras, apesar de entender bem de números e ler o suficiente para nunca ter problemas com as mercadorias – O que trás pra mim?

—Preciso que você e Zagar vão para Harrenhal, entregar algumas coisas para o castelão.

—O Velho Tartaruga? Será que ele ainda vai estar vivo quando chegarmos lá? – riu Hoster, cuspindo um pouco de saliva rosa no chão.

—Espero que sim. Ou teremos problemas. – riu Valerion. O Velho Tartaruga era Naerys Otherys, um velho muito escuro, de olhos escuros e cabelos prateados pela idade. Ele era um homem de Braavos e tinha sido a maior figura paterna que seu pai tivera depois que ficara órfão. Naerys cuidara de seu pai e lhe ensinara tudo o que sabia sobre pirataria e comércio – Aqui. Preciso que entregue esses pergaminhos e isso. – disse entregando a bolsa cheia de moedas. Hoster concordou e mirou a sacola, soltando um sorrisinho.

—Dragões. – riu Hoster – Alguma informação a mais, sor?

—Sim. Deve entregar esse pergaminho para Zagar e somente ele pode lê-lo. – riu Valerion entregando outro pergaminho. Hoster pegou o pergaminho e o guardou no bolso.

—E eu achando que éramos amigos.

—Me convide para o navio, me entregue uma cerveja bem escura e eu confiarei uma missão importante para você. – riu Valerion e Hoster sorriu animado.

—Ok. Entre. – Hoster o guiou para dentro do navio e o levou para a cabine de Zagar. Seus imaculados ficaram do lado de fora e Valerion escutou Hoster fechar a porta – Vamos aproveitar que o capitão está na Rua de Seda. – riu ele indo pegar uma cerveja. Rua de Seda era a rua de Porto Real onde ficavam a maioria dos bordéis – Uma cerveja escura para meu velho amigo Valerion. O que tem pra mim?

—Você frequenta Porto Real há muito mais tempo que eu, então provavelmente já ouviu falar nos passarinhos de Varys. – disse Valerion segurando o copo de cerveja enquanto Hoster o enchia.

—Claro. E os olhos extras de Mindinho também. Sempre que vou ao bordel, as putas dele me fazem perguntas sobre Harrenhal.

—É mesmo? – perguntou interessado – Que tipo de perguntas?

—Como Lorde Haegon pode ser tão rico, se ele tem mais ovos de dragão, se ele tem mais aço valiriano. Se ele pretende se casar de novo. Perguntam sobre os filhos dele e sobre como ele reconstruiu Harrenhal, se foi com magia ou não... essas coisas. – riu Hoster.

—E que respostas você dá? – perguntou brindando com o amigo e dando um belo gole.

—Que Haegon é rico porque é um bom administrador e sabe vender e comprar direito. – respondeu Hoster – Eu gosto de falar que uma das torres de Harrenhal está repleta de ovos de dragão e que a qualquer momento esses ovos podem se tornar dragões negros. – riu ele dando de ombros – Tem que ver os olhos das putas quando eu conto essa história. Uma vez eu contei que Lorde Haegon me prometeu um dragão, quando os ovos chocassem e uma puta me fez jurar que eu a levaria para voar nas costas do meu dragão. – Valerion se perguntou se aquele tipo de brincadeira era sábia. Harrenhal era uma excelente fortaleza, sem dúvidas... mas quanto mais tesouros fantásticos falassem que tinham, mais e mais os olhares cobiçosos iriam pensar que o risco poderia valer a pena – Eu contei que seu pai tem sim mais aço valiriano e que trouxe um homem de Volantis que sabia reforjar o aço.

—Você contou de Bubba?! – perguntou franzindo a testa.

—Qual o problema? Seu pai nunca me pediu segredo sobre isso.

Sim, mas preferiria que ninguém soubesse que nosso ferreiro tinha essa habilidade...

—Que seja. Continue.

—Deixe-me ver o que mais... eu disse que Lorde Haegon jamais se casaria de novo. Ele nunca esqueceu a falecida dele. Ele ainda ama a morta. – disse Hoster dando um gole em sua cerveja e Valerion suspirou – Não o culpo. Lady Blackfyre era uma mulher de verdade... – Hoster deu de ombros – Eu disse que você era um veado, viciado nas sedas macias de Myr e que sua irmã era uma louca, viciada em arcos.

—Eu me lembro que Shiera acertou sua perna uma vez, quando éramos crianças e ela estava praticando. – riu Valerion.

—Nada me tira da cabeça que aquela infeliz me acertou de propósito. – riu Hoster – E então, algum homem já descruzou as pernas dela?

—Espero que não...

—E ela continua apaixonada pelo bastardo do norte? – perguntou Hoster com interesse e Valerion sorriu.

—Por que? Com ciúmes?

—Sempre. – riu ele – Eu sempre quis descruzar as pernas dela e ver se ela é tão linda nua quanto vestida.

—Ela é minha irmã, você sabe, não é? – perguntou franzindo a testa.

—Como se nunca tivesse feito nada com a minha irmã. – riu Hoster e Valerion corou.

—É diferente. Vocês têm mães diferentes... quase não convivem. Shiera é minha irmã querida. – Hoster deu de ombros bebendo sua cerveja.

—Mas então. o que mais quer saber? Quer saber o que eu faço com as putas ou só o que eu falo pra elas? – perguntou Hoster.

—Eu preciso de alguém que me mantenha informado sobre tudo. – murmurou Valerion – Eu quero saber tudo quanto possível, assim como Varys e Mindinho. Se possível, quero saber até mais.

—Impossível. – riu Hoster – Algumas vezes acho que Varys tem olhos nas paredes de Porto Real.

—Eu quero o mesmo. – riu Valerion – O porto recebe notícias do mundo inteiro. Eu quero que comece a prestar atenção em todos os murmurinhos e rumores. E quero que peça aos menos estúpidos que façam o mesmo. E então você vai me dizer o que escutar.

Hoster o olhou curioso.

—Eu escuto muitas coisas. Coisas que nem sequer parecem ter lógica. Você ficaria surpreso com a tremenda perda de tempo que seria escutar lendas de pescadores.

—Me impressione.

—Dizem que o Corsário voltou dos mortos e que dobrou o joelho pra um dragãozinho esquelético, em Pentos. – riu Hoster – O que é interessante, já que seu pai está aqui. – adicionou Hoster.

—O Corsário? – repetiu. Só pode ser Aegon... Aegon está mesmo com Viserys...— Bem, Aegon atravessou o mar e foi para Essos...

Hoster o olhou e sorriu.

—Seu irmão está traindo o Trono de Ferro? Estou sentindo uma sexta Rebelião Blackfyre? – riu ele.

—Dificilmente, se meu irmão dobrou o joelho. – riu Valerion – Mais alguma coisa estranha por ai?

—O mar de Valíria está cada vez mais nervoso. – respondeu Hoster – Os supersticiosos acreditam que isso significa péssimo agouro. – adicionou ele. Valerion não duvidava. Seu pai e sua irmã estavam cheios de premonições – E eu fiquei sabendo que as sacerdotisas do Templo de Volantis...

—Qual templo?

—O do Senhor da Luz. – respondeu Hoster – Elas dizem que o Azor Ahai está pra ressurgir.

—O que é Azor Ahai? – perguntou Valerion, confuso.

—Um herói, pelo o que eu entendi... alguém enviado pelo deus sangrento deles... para salvar o mundo das sombras, ou qualquer coisa assim. Besteiras e mais besteiras. – riu Hoster – Você não está prestando atenção no que eu digo. É só histórias de pescadores. Ontem eu escutei um cara falando que conheceu uma mulher que tinha dois pênis. Ai eu perguntei como ela poderia ter dois, se era uma mulher. E ele respondeu que ela tinha seios e parecia uma mulher, ou que ao menos era mais bonita do que todas as filhas dele... é esse tipo de conversa que eu tenho escutado. Besteiras.

Valerion sorriu para seu amigo e negou com a cabeça.

—Besteiras para quem não consegue tirar proveito delas. – disse tranquilamente – Quero saber de tudo, Hoster. O que você acha bobo e o que não. E você vai escrever para mim e...

—Vamos, Valerion. Eu não sei escrever. Eu sei ler e muito mal. – resmungou Hoster, corando de leve.

—Se sabe ler, sabe escrever.

—Eu sei ler o nome de especiarias, de tecidos, de moedas... essas coisas. Eu não sei escrever lendas e bobagens.

—Então vai aprender, Hoster. – riu Valerion e Hoster fechou a cara – Ou isso, ou vou ter que depender apenas de Zagar.

Hoster bufou irritado e revirou os olhos.

—Não me culpe se não entender a minha letra, sor.

**

Aquilo tudo parecia se encaminhar para um terrível desastre.

Aegon suspirou mirando Viserys. Ele pareceu decepcionante quando o vira pela primeira vez, mas agora parecia ainda mais. Aquele estúpido deveria ter ficado com o Magister.

E eu deveria ter chegado mais cedo.

Bufou bebendo sua garrafa de rum, mirando Daenerys caminhar pelo khalasar, exibindo sua tímida barriga, levemente inchada pelo início da gravidez. Eu deveria tê-la desposado. Eu deveria tê-la roubado de Viserys e esperado em Volantis. Mas tudo deu errado.

Uma enorme tempestade o fez perder tempo e três navios a caminho de Essos. E então teve que enfrentar piratas... o que foi até sorte, pois recuperou dois navios e conseguiu mais um de bônus. Mas tinha perdido tempo e quando chegou em Pentos, Daenerys já estava prometida a Khal Drogo. E ele não seria estúpido a ponto de roubar o grande Khal. Seu pai tinha negócios em Pentos, Volantis, Meeren e Astapor. Até em Yunkai. Poderia ser um enorme prejuízo...

Então ele pegou o título emprestado de Corsário e começou a seguir o Khalasar, jurando fidelidade ao príncipe mendigo. Cuspiu no chão de desgosto. Viserys era tão louco quanto o pai. Ele nunca se sentaria no Trono de Ferro... e se por algum milagre um dia viesse a se sentar, ele não duraria muito tempo.

A irmã dele também não parecia ser muito esperta. Era apenas uma bela tolinha. Uma linda e encantadora tolinha. Tão pequena e delicada que parecia que quebraria ao menor toque. Nenhum dos dois pareciam pertencer à grande família Targaryen, da qual ele crescera ouvindo histórias. Nenhum deles parecia, nem um pouco, com Rhaegar. O Rhaegar das histórias que escutava por todos os cantos. O príncipe querido de Westeros... o mais promissor em gerações de príncipes.

Mas agora eu jurei minha espada a esse... garoto... se Rhaegar era um dragão, Viserys não passa de uma cobra.

Seu pai tinha enchido sua cabeça com histórias de presságios. No que eu estava pensando? Eu sou mesmo muito estúpido de ter entrado nesse jogo. Eu sou um guerreiro, não um jogador.

Sem falar que não acreditava em magia. Sempre achou idiota essa mania de seu pai e sua irmã dizerem que sonhavam com o futuro. Isso não existia mais. A magia do mundo morrera com os dragões, essa era verdade.

Mas meu pai viu os dragões voltarem. Viu os dragões saírem de uma enorme pira, no colo de uma mulher, bebendo leite de seus seios. Dragões bebendo leite?! Como eu pude acreditar nisso?

Por um momento ele imaginou aquilo em Harrenhal. Imaginou-se desposando Daenerys Targaryen, apesar de na época nunca tê-la visto. E imaginou que seu casamento com ela iria fazer com que seus ovos de dragão eclodissem. Mas agora via que era pura besteira e se achava muito tolo por ter se deixado levar pela imaginação. Continuaria seguindo os Targaryen por um tempo, mas se concluísse que não daria em nada, voltaria para Westeros... ou então passaria a vida como um Corsário, no mar de Essos, pois se o rumor de que estaria ali chegasse aos ouvidos do rei... ele nunca mais poderia voltar para casa...

A menos que eu apresente a minha lâmina a Viserys. O mundo não sentiria falta dele.

Cavalgou preguiçosamente, bebendo de seu rum. Jorah Mormont cavalgava ao seu lado. Mais um imprevisto que tivera. Não queria ser reconhecido, mas sabia que Jorah desconfiava dele. O modo como o homem o olhava, cheio de desconfianças, não deixava dúvidas. Ele não permitia que ficasse perto da Khaleesi sozinho e isso lhe era irritante. Não tinha a menor intenção de machucar a garota, apesar de ter alguma curiosidade para com ela.

Mas não arrumaria confusão com o nortenho.

Estava divertido acompanhar o Khalasar de Drogo. Era divertido participar das batalhas, apesar de ser um pouco desonrado. Não lutavam contra guerreiros, mas contra gente comum e em número muito pequeno, sempre juntando escravos.

As mulheres Dothraki não o deixavam em paz também. Elas o achavam atraente e não tinham o pudor de Westeros as impedindo de virem até ele. E nenhuma delas queria ter um filho seu por ele não ser um Dothraki, mas ele não recusava o sexo. Sexo a qualquer hora e em qualquer lugar, porque aquele povo não achava necessário se esconder para fazer aquilo.

Claro, ele preferiria ser mais reservado. Mas nem sempre ele conseguia evitar. Se elas estavam tão dispostas a tirar sua roupa, era complicado dizer não.

—Está um dia quente. – murmurou Jorah.

—Sim. – concordou lhe estendendo a garrafa de rum – E é meu último rum.

Jorah o olhou desconfiado, mas pegou a garrafa provando. Ele fez uma careta, mas em seguida bebeu outro gole, antes de lhe devolver a garrafa.

—Sua tinta azul acabou, Aegon? – perguntou ele e Aegon sorriu – Seus cabelos estão começando a desbotar.

—Sabia que era eu? – perguntou, apesar de já ser muito óbvio. Deu outro gole em sua garrafa e suspirou.

—Desde o início. Eu me pergunto o que faz aqui. – riu Jorah.

—Eu estou aqui para servir os Targaryen. O mesmo que você prometeu, não é? – perguntou sentindo o balançar de seu cavalo.

—Sim. – respondeu Jorah – Mas eu não tenho pra onde voltar. Você sim...

—Pra onde voltar. – suspirou Aegon – Eu não tenho pra onde voltar, Sor. Eu estou por conta própria. – suspirou e deu outro gole de seu rum e suspirou – Abandonei a alcunha de Aegon Blackfyre. Agora eu sou simplesmente mais um soldado... – ele deu um sorriso – Um soldado, muito, muito rico.

—Seu pai sabe que você está aqui? – perguntou o velho urso.

—Provavelmente. E deve estar se revirando em desgosto. – riu Aegon – Eu briguei com ele e fui embora, roubei seus navios, seus homens, comprei escravos e vim pra cá.

—Por que? – perguntou Jorah.

—Porque o Usurpador é um porco e eu me recuso a dobrar o joelho pra ele ou para os ratinhos que ele fez a rainha leoa parir. – riu Aegon e Jorah o olhou levemente surpreso – Eu odeio aquele gordo bêbado.

—Não foi ele quem te consagrou cavaleiro? – perguntou Jorah, com seu típico semblante fechado.

—Qual o problema? Rhaegar consagrou Gregor Clegane cavaleiro. Pouco depois ele pegou os filhos do príncipe e os matou, para depois estuprar a princesa Elia. Isso não significa nada. – riu mirando Daenerys, que passeava com suas criadas, enquanto muitos lhe ofereciam mercadorias.

—Bonita, não é?

—Minha irmã é mais. – respondeu simplesmente.

—E os Blackfyre tem alguns costumes Targaryen? – perguntou Mormont.

—Não pretendo casar com minha irmã, se é o que você pergunta... nem nunca pretendi. – riu Aegon – Desse costume nós não compartilhamos. – adicionou – Mas sim, ela é bonita. Só é uma criança estúpida... mas certamente fácil de se olhar. Principalmente agora que engravidou. Ela era magra demais. – murmurou distraidamente, enquanto um homem tentava vender vinho para ela – O que vai acontecer hoje? – perguntou para Jorah fazendo uma careta de nojo – Outro ritual macabro envolvendo coração de dragão? Quando vamos embora dominar Westeros?

—Sem mais rituais. Agora só temos que esperar os presságios da guerra serem bons... e isso pode levar algum tempo... anos.

—Esse povo é nojento e estúpido.

—Não deixe que escutem você falando isso.

Ao cair da noite, ainda em Vaes Dothrak, Aegon se viu no meio de uma festa. Seu rum havia acabado, então bebia uma cerveja ao lado de Jorah. Sua relação com ele era engraçada. Nenhum dos dois confiava no outro, mas estavam normalmente juntos, se separando apenas para ir ao porto. Jorah ia receber suas cartas em um lugar e Aegon em outro. Algumas vezes aproveitava para transar com uma puta e ouvir os rumores dos marinheiros e se manter informado do que acontecia em Westeros. Queria sempre saber se já era pública sua localização. Não iria estranhar caso o rei mandasse um assassino para tentar lhe matar e impedir que voltasse para Westeros. Ele, como filho mais velho de Lorde Haegon, seria um perigo para a coroa, já que estava onde estava e tinha dobrado o joelho para Viserys.

Maldita ideia de dobrar o joelho praquele idiota.

Naquela noite estava ao lado da Khaleesi e de Jorah. Vez ou outra notava um olhar curioso dela para seu rosto. Se perguntava se ela apenas o estava achando bonito ou se estava se perguntando quais suas intenções. Se perguntava se ela sabia sua verdadeira identidade.

—Daenerys! – escutou uma voz do outro lado do salão. Ele e Jorah se viraram ao mesmo tempo. Sua mão foi para onde sua espada costumava ficar, mas então se lembrou que, por não poder usar lâminas ali, e por saber o quão cabeça quente era, resolvera não andar armado – Cadê a minha irmã? – finalmente encontrou o dono da voz. Era Viserys, que parecia muito bêbado. Revirou os olhos, dando um belo gole em sua cerveja.

—Por favor, parem ele. – pediu Daenerys. Não sabia se ela tinha pedido para si ou para Jorah, mas simplesmente concordou. Se levantou, e entregou seu corno de cerveja para a aia, e começou a se aproximar de Viserys, com Jorah ao seu lado.

Tinha noção que devia estar mais bêbado do que o Targaryen e se perguntou se teria forças para não dar um soco bem servido naquele idiota.

—Onde ela está? – perguntou Viserys com um sorriso louco no rosto. Notou que Khal Drogo olhava com atenção – Cadê? Eu vim pro banquete. O banquete da vadia!

Aegon fechou a cara ao escutar aquilo. Lhe era extremamente absurdo o modo como Viserys tratava a irmã. Shiera era anos mais nova que ele, mas ele nunca sequer cogitara machucá-la. O mesmo com Valerion. Já tinha dado uns tapas no irmão, mas era mais brincadeira do que qualquer coisa. Agora com sua doce irmãzinha... isso nunca. Mas Viserys xingava a irmã e ameaçava machucá-la sempre que possível e boa parte de sua antipatia para com ele se devia a isso.

—Venha, Vossa Graça. – disse Aegon pegando Viserys pelo braço – Eu vou levá-lo ao banquete.

Mas Viserys o empurrou e vociferou, perdendo o sorriso e ficando menos louco e mais irritado. Mas Aegon só queria dar um belo soco naquele rosto magricela.

—Tira suas mãos de mim. Ninguém encosta no dragão. – rosnou ele e Aegon sorriu.

Eu sou um dragão tanto quanto você, seu imbecil... não... eu sou MUITO mais dragão do que você.

—Khal rhae mhar. – murmurou um dos homens de Drogo. Já tinha aprendido o suficiente da língua para saber que aquilo significava algo como “líder descalço”, ou algo do gênero. Sabia que estavam fazendo piada dele e achou merecido.

Viserys olhou para Drogo e Aegon suspirou prevendo um desastre. Não para si, mas para ele... ou talvez para si... sem Viserys, não poderia voltar pra casa. Não se não matasse o rapaz.

—Khal Drogo! – gritou Viserys – Eu vim pro banquete. – ele se aproximou do Khal, cambaleando de bêbado e Aegon ficou ao seu lado, mirando a espada que a lagartixa levava na cintura.

—Nevakhi vekha ha maan. – respondeu Khal Drogo. Olhou para Jorah, que parecia preocupado. Não tinha entendido aquela e aparentemente nem Viserys, pois ele se virou para Jorah também.

—Khal Drogo disse que há um lugar pra você. – explicou Jorah. Ele soltou um suspiro e apontou para fora da cabana – Lá fora. – Aegon tentou pegar a espada, mas então se lembrou novamente que estava sem ela. Viserys iria fazer merda. Estava sentindo aquilo.

O rapaz negou com a cabeça e respirou fundo, apontando para fora.

—Lá não é lugar de um rei.

Khal Drogo sorriu e disse com um pesado sotaque.

—Você não é um rei.

E então Viserys fez a coisa mais estúpida de sua miserável vida. Ele sacou a espada e a apontou para ele e Jorah.

—Fiquem longe de mim.

—Viserys, por favor. – disse Daenerys se levantando. Uma tensão pairou sobre todos e Aegon sentia-se cada vez mais perdido. Se eu não matá-lo, eu não volto pra casa... vou ser considerado um traidor... mas eu não tenho espada. E se tivesse, eu não poderia derramar sangue aqui.

Viserys se virou e mirou a irmã, ainda com a espada no pescoço de Jorah.

—Aí está ela. – ele então apontou a espada para Daenerys e foi se aproximando dela.

Ele é louco. Ele vai matar a irmã?

Por um momento se lembrou de Shiera e decidiu que não deixaria que ele tocasse na pequena Khaleesi. Não pensou em Drogo ou na situação. Só pensou em sua irmã.

—Abaixe a espada. Vão matar todos nós. – sibilou Jorah. Aegon se aproximou um passo, mas Viserys se virou e a espada passou a dois dedos de seu nariz.

—Não podem nos matar. – ele girou de novo e quase cortou Daenerys. Aegon bufou com o descaso que ele tinha com a irmã, cada vez mais tentado a estrangulá-lo – Não podem derramar sangue na cidade sagrada. – Uma das aias de Daenerys soltou um gritinho de medo e a khaleesi a empurrou para trás de si. Aegon se aproximou mais e mais de Viserys – Mas eu posso. – disse ele colocando a espada na barriga da irmã. Todos fizeram silêncio, encarando o rapaz. Uma das aias de Daenerys traduzia o que ele falava. Aegon se perguntava se conseguiria afastá-lo da Khaleesi sem permitir que ele a machucasse – Eu quero o combinado. Quero a coroa que me foi prometida. – fez-se silêncio por um momento. Só havia um pequeno sussurrar da intérprete que traduzia para o grande Khal – Ele te comprou, mas nunca pagou por você. – Viserys olhou para Drogo e depois para a irmã – Diga que eu quero o combinado, ou te levo de volta. – Viserys soltou um suspiro – Ele pode ficar com o bebê. Eu corto ele fora e o deixo aqui. – Aegon olhou furioso para aquele homem capaz de matar o próprio sobrinho e a irmã apenas para se impor.

—Toque na Khaleesi e você não sai vivo daqui, Viserys. – aconselhou Aegon se colocando ao lado dele – Abaixe a espada e volte para Pentos. Eu te levo lá. – disse calmamente, jurando a si mesmo que mataria aquela cobrinha que se achava um dragão, assim que deixassem Vaes Dothrak.

—Cale a boca, piratinha. – rosnou Viserys e Aegon suspirou.

—Seu funeral, Vossa Graça. – murmurou. Olhou para Daenerys, que olhava o irmão com profunda decepção.

—Anha vazhak maan, rek me zala. – bradou Drogo e Aegon não fez ideia do que aquilo significava – Anha vazhak maan firikhnharen hoshora... ma mahrazhi aqovi affin mori atihi mae!

Aegon mirou Daenerys, ainda ao lado de Viserys. Não tinha entendido, mas não parecia bom para o rapaz.

—O que ele disse? – perguntou Viserys.

—Ele disse que sim. – respondeu Daenerys e Aegon mirou os Dothraki, que se levantavam. Eles vão matar esse idiota. E eu nunca mais vou poder voltar pra casa... fechou os olhos tristemente – Você terá uma coroa de ouro. – continuou ela – Os homens temerão quando a verem. – Viserys olhou para Drogo, que o olhou de volta com desgosto no olhar.

Viserys sorriu parecendo inocentemente aliviado e feliz e por um momento Aegon quase teve pena da estupidez dele.

—É tudo o que eu queria. – riu o rapaz olhando de Drogo para Daenerys. Então ele o olhou também – O que me foi prometido. – explicou ele e Aegon sorriu com desdém.

—Cuidado com o que deseja, garoto. – murmurou apesar de ter a mesma idade que ele.

Aegon colocou a mão no ombro de Viserys e o puxou gentilmente para trás. Drogo se levantou e foi até a esposa, para olhá-la nos olhos enquanto acariciava sua barriga.

A única coisa impressionante em Daenerys, além de sua beleza, é claro, era como ela tinha conseguido curvar um homem como Khal Drogo, que parecia realmente gostar dela.

—Qora mae. – disse ele olhando para a esposa. Sabia que isso significava “segure”, ou qualquer coisa assim. Aproveitou que Viserys tinha baixado a guarda e o segurou pelos braços, o forçando a soltar a espada.

—O que? – rosnou ele se esperneando, mas Viserys era um garoto magricela perto dele – Me solte, seu traidor! Seu maldito Blackfyre! – Aegon engoliu em seco e o segurou com mais força, se perguntando se todos já tinham se dado conta de sua identidade, mas ao notar o olhar de Daenerys, percebeu que ela não sabia ainda – Sua família sempre acaba traindo a minha, não é? Me solte!

—Cale a boca. – rosnou o chutando na perna e o obrigando a se ajoelhar – Você causou isso a si mesmo.

—Cale a boca! Vocês não podem encostar em mim. Eu sou o dragão!

—Eu sou um dragão. – riu Aegon o segurando pelo cabelo – Você é nada.

—Você disse que iria me ajudar a conseguir minha coroa. – lamentou Viserys – Eu quero a minha coroa!

Outro Dothraki o ajudou a segurar Viserys. Cada um em um braço, enquanto ele estava de joelhos.

—Ammeni haz jolin! – ordenou Khal Drogo. Não fazia ideia do que ele estava dizendo, mas ele viu as mulheres esvaziarem um caldeirão, que antes estava cheio de comida. Khal Drogo começou a tirar suas pulseiras, cintos e anéis de ouro e a jogá-los no caldeirão, enquanto Jorah ia até Daenerys, que mirava aquilo com um olhar distante.

—Desvie o olhar, Khaleesi. – pediu ele.

—Não. – respondeu ela. E Aegon a achou corajosa por isso.

Todos ficaram esperando o ouro derreter e Viserys finalmente começou a entender o que lhe esperava.

—Não... Dany! Diga a eles... – começou ele com pânico na voz – Faça-os... faça-os parar! – pediu ele. Aegon respirou fundo, segurando seu rei com firmeza. Serei um Blackfyre regicida. O primeiro da minha família a finalmente conseguir matar o rei Targaryen de direito. Drogo pegou o caldeirão e começou a se aproximar – Você não pode! – lamentou Viserys, esperneando – Por favor... – ele olhou para o Khal, que estava parado na frente dele e então para a irmã, chorando de medo – Dany, por favor! – implorou ele, mas a garota manteve sua máscara de gelo, mirando o irmão. Ela é realmente bonita, essa Daenerys. Mais ou menos do que minha irmã? Eu não sei dizer...

—Uma coroa para um rei. – rosnou Drogo.

Aegon respirou fundo e prendeu a respiração. Drogo virou o caldeirão e jogou o ouro derretido e fervente na cabeça de Viserys, que gritou alucinadamente de dor. O ouro grudou em sua cabeça e fumaça se desprendeu dele. O Khal se ajoelhou para olhar o rapaz e Aegon o soltou ao mesmo tempo que o outro dothraki. Viserys continuou de joelhos por dois segundos, tempo o suficiente para que Drogo se levantasse e se afastasse. Viserys caiu pesadamente no chão e Aegon constatou que nenhuma gota de sangue havia sido derramada ali.

—Khaleesi. – escutou Jorah murmurar. Ela ainda olhava o irmão com a mesma expressão.

—Ele não era um dragão. – murmurou ela – Um dragão não morre com fogo. – murmurou ela e Aegon sorriu.

—Diga isso para todos aqueles de Valíria, Vossa Graça. – riu ele e Daenerys o olhou. Sentiu uma vertigem engraçada quando ela fez isso.

—Você é Aegon Blackfyre? – ouvi-la falar seu nome lhe causou outra vertigem. A mesma vertigem que sentira ao montar um cavalo sozinho pela primeira vez. A mesma vertigem que sentira ao ganhar sua primeira batalha. A mesma vertigem que sentira ao beijar uma mulher pela primeira vez. Era a primeira vez que o chamavam por seu verdadeiro nome. Aegon Blackfyre...

—Sim. – respondeu se aproximando dela e se colocando de joelhos – Aegon Blackfyre, ao seu serviço, Vossa Graça. Sei que minha palavra não parece valer nada agora, mas... eu sou um cavaleiro e jurei que sempre protegeria aqueles que merecem. Eu jamais apoiaria um rei que mata e ameaça mulheres e crianças. – explicou – Espero um dia poder provar minha lealdade.

E se não puder... viverei o resto da vida em Volantis, para aprender a não jogar tudo pro alto apenas por conta de um rostinho bonito.

**

—Robb! Robb! – escutou uma doce voz a lhe chamar, mas parecia muito distante. Sentiu dedos delicados em seus cabelos, a lhe fazer uma maravilhosa carícia. Suspirou em meio ao sono e sorriu – Robb... você dormiu de novo. – riu aquela voz.

Robb suspirou e então levantou a cabeça preguiçosamente. Shiera o olhava com um sorrisinho travesso.

—Milady... – murmurou constrangido, notando que ela ria de si – Desculpe... – murmurou piscando e se endireitando.

Shiera suspirou e fechou o grosso livro que estivera lendo para ele.

—Vejo que não se interessa pelas aventuras de Daemon II Targaryen, tampouco. – riu ela com travessura.

—Acho que não nasci para a literatura, milady. Sinto muito. – murmurou ele. Shiera concordou com um aceno de cabeça. Estavam na biblioteca de Winterfell, tentando fazer algo que os aproximasse, mas ele simplesmente não gostava das histórias e achava enfadonho.

—Acho que é hora de desistir disso. – Riu ela se levantando e Robb suspirou antes de segui-la.

—Desculpe. – murmurou já caminhando ao lado dela – Talvez a gente devesse apenas... caminhar... ou então cavalgar. A senhorita gosta de cavalgar? – perguntou ele.

—Sim.

—Então por que não fazemos isso? – perguntou Robb.

—Me levaria para caçar? – perguntou ela. Robb a olhou com atenção. Shiera usava um de seus vestidos que deixavam os ombros aparecerem. Ainda não se conformava com o fato de que ela simplesmente não sentia frio, mas gostava daquelas roupas. Sua noiva era muito bonita e ele adorava admirá-la – Robb, está me encarando de novo. – riu ela.

—Como não encarar, milady? – riu ele – Mas eu peço desculpas. – murmurou constrangido. Shiera o conseguia deixar constrangido com apenas um olhar. Precisava se lembrar que ela não era uma qualquer, era filha de um lorde poderoso e sua futura noiva. Shiera sorriu e ficou o encarando como se esperasse que ele dissesse alguma coisa – O que?

—Você não me respondeu. – riu ela – Me levaria para uma caçada?

—Uma caçada? Não é lugar de uma... – mas se interrompeu. Ele a olhou com atenção e então lhe sorriu – Uma caçada, você diz? – perguntou ele.

—Sim. Podemos caçar eu, você e Vento Cinzento. Só nós três. – concordou ela.

—Seríamos muito poucos para uma caçada, Milady. – respondeu ele – Talvez devêssemos chamar...

—Quero algo apenas nosso, Robb. – insistiu ela. Robb soltou um suspiro, achando-a difícil.

—Então vamos apenas caminhar e conversar.

—Para que se a minha voz lhe dá sono, sor? – perguntou ela perdendo a paciência com ele e apressando os passos. Corou de leve e revirou os olhos.

—Não posso fazer nada se algumas vezes você fala por demasiado, milady. – devolveu acidamente, mas ela não se virou para encará-lo. Seguiu para o lado oposto desejando ficar mais alguns dias sem falar com ela. Ela era simplesmente impossível algumas vezes.

Geniosa demais, essa era a palavra. E se não fosse do jeito dela, ela não ficava feliz e passava a ignorá-lo o resto do dia.

Assim que se uniu a Theon, ele notou de imediato o que tinha acontecido.

—Seu casamento vai ser um pesadelo se não domar sua noivinha. – riu ele.

—É mais fácil treinar um lobo gigante do que um dragão. – resmungou olhando ao redor. Vento Cinzento comia um osso de qualquer coisa, ali perto, pois não queria levá-lo para a biblioteca. Meistre Luwin tinha insistido nisso – Ela é linda, algumas vezes tenho a impressão que posso ficar com ela durante horas... mas então, simplesmente ela decide que minha companhia a aborrece.

—O que houve dessa vez?

—O de sempre. – resmungou.

—Você dormiu de novo. – riu Theon.

—Como não dormir? É muito tedioso. – resmungou cruzando os braços – Queria ver se você ficaria acordado.

—Claro que ficaria. Você só está se concentrando na coisa errada. – riu Theon.

—Como assim? – perguntou Robb.

—Oras. Está concentrado na voz dela, quando deveria estar concentrado no que te mantém acordado. – riu ele desenhando no ar a silhueta sensual de Shiera. Robb suspirou e revirou os olhos.

—Não posso fazer isso... ela sempre repara quando eu faço isso. – resmungou cruzando os braços de novo – Eu queria que isso funcionasse... eu gosto dela.

—Você quer descruzar as pernas dela. É bem diferente. – riu Theon – Mas tudo bem... gostar começa depois, com o tempo. Não acha mesmo que seu pai casou com a sua mãe porque eles eram apaixonados, acha?

—Meus pais nem mesmo se conheciam. – riu Robb – Eu sei, eu sei... mas eu sei que se eu não fizer com que ela goste de mim, ela vai embora e...

—E você não vai conseguir descruzar as pernas dela.

—Theon... o ponto não é descruzar ou não as pernas dela.

—O ponto, Robb, é justamente esse. Ou você está apaixonado por ela? – perguntou ele. Robb ponderou a respeito.

—Algumas vezes eu acho que estou. Outras eu desejo quebrar aquele pescocinho. – resmungou.

Theon o olhou com atenção e revirou os olhos.

—Oh... você está apaixonado.

—Não foi o que eu disse? – perguntou franzindo a testa.

—Você disse, mas eu imaginei que era só uma paixonite. Mas agora eu acho que você está realmente apaixonado. Estará completamente de quatro pra ela em breve.

—Não seja idiota. Isso não vai acontecer. – riu Robb e Theon o olhou daquele jeitinho irritante, que significava que sabia mais do que ele. Theon era quatro anos mais velho, então quando eram crianças, ele o olhava daquele jeito quase sempre. E desde aquela época já achava completamente irritante – Pare. Não vai acontecer.

—Já está acontecendo. – riu ele.

—Não está!

—Não? Então por que ficou tanto tempo tentando fazer funcionar esse negócio da biblioteca? Há quanto tempo estão nessa brincadeira que você não gosta, apenas para agradá-la? Um mês?

—Um pouco mais... mas não vamos todos os dias para lá. Apenas uma vez a cada sete. Eu tenho meus afazeres como senhor de Winterfell.

—Sim. Se masturbar a noite pensando na sua noiva é um deles. – riu Theon e Robb o socou no braço.

Aquela noite Shiera não foi jantar com eles. Ela preferiu comer com Bran. Não se importou, pois ela fazia aquilo com mais frequência do que ele gostaria de qualquer maneira.

Mas nos dias seguintes ela seguiu lhe dando um tratamento frio e silencioso. Mas ele não achava que tinha feito algo errado, então lhe devolveu o mesmo tratamento. Se perguntava se ela tinha sido tão difícil com Jon.

Jon nunca falara sobre Shiera, apesar de suspirar muito quando falavam sobre ela. Seu irmão foi profundamente apaixonado por ela e Shiera também gostara de Jon como nunca gostara dele...

E isso lhe enciumava.

Sete dias passaram e ele caminhou para a biblioteca, mas Shiera não estava lá. Foi até o quarto de Bran, mas Bran dormia pesadamente, sem que Verão estivesse ali com ele. Apenas a Velha Ama, que bordava com seus dedos nodosos.

—Onde está Lady Shiera? – perguntou Robb franzindo o cenho.

—Eu não sei. – respondeu a mulher, mirando Bran – Ela saiu assim que o pequeno caiu no sono, há muitos minutos atrás.

Andou pelo castelo, perguntando por ela, mas como não a achou, foi procurá-la no Bosque Sagrado. Mas ela tampouco estava lá. Se sentou num tronco, soltando um suspiro. Olhou para o rosto no represeiro e fez uma prece aos deuses antigos, para que o inverno demorasse para chegar.

O inverno está chegando...

Ele acreditava tanto nos deuses antigos quanto nos novos, mas agora que estava sendo o Stark de Winterfell, sentia que deveria dar mais atenção aos Deuses do norte.

Se levantou e voltou a procurar por Lady Shiera. Finalmente a encontrou atirando algumas flechas. A admirou por algum tempo, notando o quanto ela era boa naquilo. Muito melhor do que com os bordados. Ela só não é pior que Arya com uma agulha.

Depois de acertar algumas flechas em cheio, ela guardou o arco e tirou as luvas de arquearia. Foi quando se virou e o viu. Sorriu para ela, mas ela simplesmente o ignorou e começou a caminhar em direção ao castelo. A seguiu de perto e antes que ela entrasse no castelo, estava ao lado dela.

—Como foi o seu dia, minha senhora? – perguntou, mas ela seguiu caminhando em silêncio, segurando a saia do vestido para que não arrastasse no chão. Dessa vez ela usava um vestido nortenho e ele achou que ela ficava melhor nos outros. Os vestidos do norte a deixavam ainda mais séria – Lady Shiera? – perguntou novamente, mas ela não se importou nem mesmo de olhá-lo com desprezo. Robb soltou um suspiro, sem desistir – Por favor, minha senhora. Poderia falar comigo?

—Falar... – riu ela com desdém, enquanto subiam os degraus que levavam para dentro do castelo – Mas, meu senhor... o silêncio é a marca de meu sexo. – disse ela sem encará-lo.

—Mas eu a ouviria, mesmo que isso me custasse as orelhas. – disse a olhando com profunda atenção. Shiera não interrompeu o passo, nem mesmo o olhou, mas ela sorriu.

—Isso é bom, não quero uma vida silenciosa.

—Eu te aborreci. Por favor, minha senhora. Me diga o que posso fazer para compensar. – pediu a olhando com atenção. Lady Shiera sorriu novamente e o olhou travessa.

—Se importaria se eu fosse feia? – perguntou ela.

—Sim. – respondeu de imediato, mas ela o olhou descrente – Não. – confessou, mas talvez não fosse verdade – Na verdade, sim. Você é minha prometida e eu honraria meu compromisso de tratá-la bem, independentemente da sua aparência. – respondeu achando que tinha acertado daquela vez. Shiera voltou a andar, sem olhá-lo novamente e ele perguntou onde poderia ter errado.

—Então é isso. Eu sou apenas um dever para você? Um dever bonito, mas tedioso. – disse ela enquanto andavam lado a lado pelos corredores do castelo.

—O mais belo dever que o norte poderia me oferecer, mas certamente nem um pouco tedioso, milady. – riu Robb – Algumas vezes difícil e genioso... mas certamente não tedioso. – Ele a segurou pela mão e a afagou ali – Um dever que eu tenho gosto de tentar cumprir. – disse a olhando nos olhos violetas – Me diga o que eu posso fazer para ganhar sua aprovação, minha senhora.

Shiera o olhou brevemente e suspirou.

—Me dê um bom motivo, Sor. – riu ela parando e o olhando nos olhos. Robb piscou, surpreso pela resposta dela. Ela queria um motivo. Era o dever deles. A missão e o dever que eles tinham não pesava tanto para ela quanto para ele? Para ela o coração pesava mais? Ela queria que ele mostrasse menos compromisso e mais impulsividade? A olhou no fundo daqueles olhos violetas e decidiu fazer a coisa mais impulsiva de todas. A puxou pela cintura e lhe roubou um beijo. O corredor nem ao menos estava vazio. Alguns criados passavam por ali, mas fingiram ter outros afazeres em outro lugar. A princípio a garota ficou em choque e apenas ele a beijou. Apenas lábios tocando-se, nada mais do que isso. Mas logo não foi o suficiente. Céus, sonhava com aqueles lábios desde Harrenhal. Por isso os provou de leve, suspirando deliciado com a maciez deles. Shiera engoliu em seco e moveu a boca de maneira que fosse possível provar seus lábios também, num beijo tímido e um tanto trêmulo. A puxou mais para si e aprofundou de leve aquele momento a beijando de verdade, lhe sugando o lábio de leve, desejando prová-la por completo. Suas mãos fazendo uma carícia tímida, comportada, na cintura feminina, por mais sedentas que estivessem. Shiera suspirou e o afastou de leve, com o rosto completamente corado, o peito subindo e descendo, fora de compasso – Com sua licença, sor... – murmurou ela, timidamente.

—Te vejo no jantar? – perguntou se perguntando se tinha sido idiota e estragado tudo. Shiera se virou e sorriu timidamente.

—Sim. No jantar. – disse ela.

E daquele dia em diante, Shiera nunca mais pareceu uma garota difícil, apesar de não lhe dar sinais de que permitiria outros beijos. Mas os olhares eram gentis e os sorrisos eram constantes... e ele só conseguia sonhar com a próxima vez que a beijaria de novo.

Theon tinha toda razão. Ele em breve estaria completamente de quatro por ela, mas não se importava nem um pouco.

Notas finais
Aee, Robb se arrumou com a Shiera, Valerion começando a mover suas peças e Aegon finalmente aparecendo de verdade. (ele vai aparecer mais daqui pra frente) Espero que tenham gostado! =D Beijos! Comentem, por favor! ♥