Blackfyre
62 A Ilha das Caras
Notas iniciais

A Ilha das Caras
—Eu preciso confessar que vocês do Sul conseguem construir coisas impressionantes. – Murmurou Tormund olhando para as torres de Harrenhal. Jon olhou para cima, para a torre mais alta, e concordou – Esse lugar parece que foi construído para gigantes e não para humanos.
—Eu tive essa mesma impressão quando vim aqui pela primeira vez. – Murmurou Jon atirando uma flecha e acertando o alvo. Estava praticando sua técnica com o arco, na tentativa de tirar certos olhos violetas de sua mente – Nenhum castelo em toda Westeros é tão grande quanto Harrenhal.
—E a sua rainha veio daqui? – Tormund suspirou – Ela não deve se contentar com pouco, então.
Jon bufou e acertou outra flecha no alvo. Depois baixou o arco e olhou para o chão.
—Eu vi a cicatriz na palma da mão dela. – Murmurou Jon. Tormund o olhou curioso – Mas não tive coragem de tirar a história a limpo. Tenho medo do que eu posso vir a fazer... Ele é meu irmão... – murmurou Jon sem conseguir aceitar aquela história sobre ser um Targaryen. Tormund suspirou e em seguida deu uma risadinha.
—Você passou tempo demais conosco, Jon. – riu Tormund e Jon o olhou – Você nunca mais dobrará o joelho, nunca mais aceitará ordens sem questionar. Você nunca mais irá ser contido pelas regras. Você vai seguir seu instinto. – Riu Tormund e Jon suspirou – Você vai querer ser livre. Você vai tomar o que puder, vai defender o que puder e vai amar sem se importar com regras ou decoro. – Tormund o olhou nos olhos – E logo vai ceder aos seus impulsos. Pegue a mulher, Snow.
—Achei que vocês só sequestrassem filhas e não esposas de outros homens. – Disse preparando o arco para atirar outra flecha.
—Ela só é mulher dele se ela quiser ser mulher dele. E pelo jeito que ela te olha... – Acertou o alvo novamente e mirou Tormund com as bochechas vermelhas – Ela não quer ser a mulher dele.
Jon engoliu em seco e mirou o alvo em que estivera atirando. Sete flechas muito bem atiradas. Suspirou e guardou o arco, para voltar para o lado de Tormund.
—Dizem que os bastardos são traiçoeiros, por serem fruto de um pecado, de uma traição, filhos da luxúria. – Murmurou Jon – Sou a prova disso. – Lamentou ele.
—Discordo. – Murmurou alguém atrás de si e Jon notou que era Hoster. Ele ainda estava abatido, mas parte de seu sorriso travesso ainda enfeitava seu rosto – Me desculpem, não pude deixar de ouvir. – Riu ele e Jon corou de leve – Eu sou um bastardo também. As pessoas me olham e me julgam por isso. O mesmo foi com a minha irmã. – Hoster se aproximou e pegou um arco e uma flecha – Minha irmã morreu tentando defender o filho de um homem que ela não gostava, por lealdade à Shiera. Eu arrisquei minha vida para ajudar Haegon Blackfyre, por lealdade a ele. E depois fiz o mesmo por Valerion e agora o faço por Shiera. Ninguém pode nos acusar de não sermos leais aos Blackfyre. – Hoster franziu o cenho – Se eu me lembro bem, não foi você quem traiu seu irmão para cortejar Shiera. Foi o contrário. Talisa me contou sobre o Torneio de Harrenhal. E eu vi quando você foi derrubado por Jaime Lannister. Você lutava com o favor de Shiera. E quando Lorde Haegon disse que iria para Winterfell, ela foi junto na intenção de ver você. Mas apesar disso seu irmão a cortejou, e ofendendo o pai dela, se casou sem a bênção dele. Ele a empurrou para uma guerra que não era dela.
—Todos nós sabemos que Shiera não teria feito nada disso se ela não quisesse fazer. – Murmurou Jon.
—Sim, mas quem passou por cima de quem? – Perguntou Hoster – Seu irmão se importou com os seus sentimentos?
—Eu sou apenas um bastardo, enquanto ele é Robb Stark, o filho mais velho de Eddard Stark. Ele tinha todo o direito de...
—Assim como você também tem. – Riu Hoster e Jon abriu a boca para contestar – Um casamento é até que a morte os separe. Shiera morreu e Theon a trouxe de volta. E Robb morreu em seguida, apesar de ter sido trago de volta também, pelo Senhor das Luz. – Hoster atirou a flecha, mas ela caiu no chão, toscamente, alguns centímetros a frente dele – Se quer saber minha opinião, Roose Bolton foi mais marido dela do que Robb Stark é agora. – Hoster pegou a flecha e suspirou – Eu não tenho nada contra o garoto Stark. Ele parece ser um cara legal, mas minha irmã me falou que ele foi um babaca. Se Aegon sonhar que ele machucou Shiera uma vez...
—Talisa te contou também? – Perguntou Tormund.
—Sim. – Murmurou Hoster. Jon engoliu em seco – Ele a estrangulou, em frente ao recém-nascido Ned. E disse que esperava que ela nunca tivesse paz. Que os fantasmas de Winterfell a assombrassem para sempre. Bem... – Hoster jogou a flecha para cima e a pegou de novo – Os fantasmas dos Bolton, da minha irmã, das damas dela, do pequeno Ned... eles nunca a deixarão em paz. Alguns a assombrarão em pesadelos, outros serão um sentimento de culpa que ela jamais vai deixar para trás. – Ele suspirou franzindo o cenho – Espero que Robb esteja satisfeito.
—Isso não pode ser verdade. – Murmurou Jon – Robb jamais faria algo assim, nem diria algo assim. – Murmurou Jon e Hoster deu de ombros.
—Foi o que Talisa me contou. – Disse Hoster – Ela não tinha motivos para mentir. Claro. Ele se arrependeu e depois ficou se lamentando... e eu acho que a Shiera o perdoou. Mas isso não desfaz o erro dele. – Hoster jogou a flecha na direção do arco, mas ela logo caiu no chão, toscamente. Ele bufou e largou o arco de lado. Jon engoliu em seco e mirou o castelo.
—Eu deveria ter batido mais nele, então... naquele dia da Muralha. – Murmurou zangado e Tormund gargalhou.
—Eu sabia que não estava dando tudo de si. – Disse ele.
—Robb parecia precisar daquela vitória mais do que eu. – Murmurou dando de ombros.
**
Shiera andava pelos corredores seguindo as fortes memórias de sua infância. Podia jurar que era capaz de escutar os fantasmas de sua risada, de muitos anos atrás, quando brincava com Valerion por aqueles caminhos. O castelo continha uma enorme nostalgia, tão grande quanto seus desnecessariamente desproporcionais salões.
Harrenhal era tão grande que poderia conter um exército de um milhão de pessoas. Tudo nele era exagerado e isso era uma das coisas das quais mais sentira falta. Por ter crescido ali, a maioria dos lugares a fazia se sentir presa e enclausurada. Mas era livre em Harrenhal. Conhecia cada quarto, cada torre, cada esconderijo. Ali conseguia se esconder de tudo e de todos sempre que quisesse. Ali conseguia manter-se longe dele, por mais que o que mais desejasse fosse encerrar toda e qualquer distância.
Sabia que era questão de tempo até ceder. Ela sabia e Jon também. Mas nenhum dos dois sabia como agir. Robb era seu esposo, mas ela simplesmente não o queria mais.
Se lembrava que certa vez, muitos anos atrás, ela, Talisa e Walda fugiram do castelo e foram aos arredores, para se divertir. Naquela ocasião conheceram Robb, Theon e Jon. Lembrava que puxara Jon para dançar e que ficara tão perto dele que, vez ou outra, seus narizes se tocaram, fazendo com que ele corasse.
Ela já tinha recebido beijos antes. Humfrey Hightower fora apaixonado por ela por anos. Muitos Frey tentaram também, mas nenhum deles conseguiu lhe roubar um sorriso que fosse. Humfrey fora seu primeiro romance e ele lhe deu alguns beijos até que ela colocou os olhos em Jon pela primeira vez.
Humfrey, naquele torneio de Harrenhal, prometera ganhar as justas para proclamá-la Rainha do Amor e da Beleza e pedi-la em casamento. Ele começara bem, derrotando Lorde Wayn, mas perdeu, justas depois, para Filip Fossoway. E depois disso, ficou tão claro seu interesse por Jon, que Humfrey ficou magoado. Soube meses depois que apesar de tudo ele fizera uma proposta a seu pai por sua mão, mas aparentemente havia recebido uma recusa. Aquilo a surpreendeu. A casa Hightower era tão rica quanto a casa Blackfyre e os Lannister, talvez até mais. Uma aliança entre as duas famílias poderia ter feito a aliança Lannister-Baratheon parecer simplesmente nada. Mas seu pai recusara Humfrey. Desde aquele torneio, nunca mais o vira.
Se perguntava se ele teria lutado pelos Tyrell, seus suseranos. Ele era um bom espadachim e um excelente lanceiro.
Estava escondida em uma das torres, cortando uma maçã qualquer, com uma faca relativamente cega. Se eu tivesse me casado com Humfrey, nunca teria tido problemas com os Stark ou com os Bolton. Provavelmente estaria esbanjando riqueza em Torralta. Não teria perdido um filho. Não teria sido estuprada. Não estaria sofrendo por amor a Jon Snow. Suspirou, sentindo-se muito pequena e olhou pela janela. Dois meses inteiros tinham se passado desde que seu pequeno Ned fora morto. Ela e Robb tentaram conceber outro herdeiro, mas seu sangue lunar desceu. O que fora um alívio, pois Robb não tentou reivindicá-la por conta disso. Já tinham se passado três dias desde que o sangue parara de descer, mas ainda fingia que ele estava ali, para evitar a cama do esposo.
Mas sabia que em breve não poderia mais fugir.
Não era ruim ir para cama com Robb. Mas já não era tão bom. Robb era dedicado e sempre tentava agradá-la. Fazê-la chegar às estrelas..., mas como ela já não se entusiasmava com o momento, chegar às estrelas era difícil e demorado, quando o que ela mais queria era que fosse rápido. Então acabava fingindo estar satisfeita, para não deixar Robb constrangido.
Mas aquilo a estava fazendo mal. Sentia que era um barril de fogo vivo prestes a explodir.
Escutou passos e seguiu descascando sua maçã. Se perguntava quando Aegon e Valerion chegariam. Desejava poder revê-los o quanto antes. Harrenhal não era completa sem eles.
Os passos se aproximaram mais e logo ela viu um vestido vermelho ao seu lado. Bufou, sabendo que não conseguia se esconder de Melissandre. Ela a via nas chamas e sempre vinha com o mesmo pedido. Ela queria ver os ovos de dragão. Curiosamente o Senhor das Luz não mostrava isso para ela.
Melissandre se sentou ao seu lado e suspirou. Não queria mostrar os ovos para ela antes do retorno dos irmãos, mas parecia que Melissandre não tinha tempo para perder. Até que não a julgava por isso. O Inverno atrasava tudo e eles sabiam o que a estação iria trazer. Melissandre sorriu e a olhou com divertimento e Shiera comeu um pedaço de casca, se perguntando quantos meses o Outono iria durar.
—Gostas mais da casca do que da parte branca? – Perguntou ela e Shiera concordou com um aceno de cabeça – Eu também. Gosto de fazer chá com a casca. Apesar do melhor ser a textura e não o sabor. Quando fazemos o chá, perde-se. Mas dizem ser bom para a pele.
—Tens uma pele admirável. – Murmurou. Não era mentira. Melissandre tinha uma pele jovem e macia que daria inveja a qualquer donzela.
—Você também. – Ela sorriu lhe tocando o rosto com os dedos quentes – Es tocada pelo fogo. Você e seus irmãos receberam o dom do Senhor da Luz. – Disse ela – Muitos sacerdotes recebem a bênção do calor apenas depois de muitos anos de dedicação e fé. Mesmo Thoros, que é capaz de ressuscitar os mortos, não é tocado pelo fogo..., mas vocês... vocês nem mesmo são devotos..., no entanto. – Ela a olhou com um sorriso gentil e Shiera deu de ombros. Melissandre olhou para o alto – Deve ser difícil ser uma rainha. Selyse me usava como confidente várias vezes... a ajudava a encontrar paz.
—Tenho minhas damas de companhia para fazer confidências. – Disse dispensando Melissandre e mordendo mais um pedaço de casca. Melissandre olhou ao redor, com diversão e depois a mirou novamente, dando a entender que ela estava sozinha e sem damas.
—Esse castelo é repleto de magia. Você consegue sentir? – Perguntou ela. Shiera a olhou sem dar muita importância e Melissandre se levantou, tocando a parede – Posso sentir o momento em que Balerion soprou seu hálito de fogo, queimando a todos aqui dentro. Purificando um senhor cruel e sua descendência... não existe morte mais purificadora do que aquela pelo fogo. – Disse Melissandre. Shiera se levantou e tocou a parede, largando a maçã descascada – Feche os olhos. – Sussurrou Melissandre – Sinta. Escute os sons... pode ouvir os gritos? – Fechou os olhos e respirou fundo – Você tem o dom da visão, assim como eu. Use-o. Permita que ele a guie...
Tentou, mas nada sentiu.
—Não consigo controlar. – Disse se afastando – Minhas visões apenas vêm algumas vezes quando estou dormindo... se eu pudesse controlar... talvez... talvez Ned ainda estivesse vivo. – Murmurou com pesar e Melissandre suspirou.
—Eu entendo a sua dor. – Disse ela e Shiera a olhou descrente – Quando eu era uma jovem escrava, com meus onze ou doze anos... meu mestre me achou atraente e me violou. Dia após dia. – disse ela como quem conta algo bobo que passou há algum tempo – Eu não podia chorar, porque ele não gostava de choros. Eu devia ficar quieta, imóvel. E assim era sempre. – Melissandre olhou para o alto teto e suspirou com uma serenidade que não deveria estar em quem contava algo daquele tipo – Então meu sangue lunar não veio e eu soube o que significava. Meu mestre não se importou e continuou me possuindo até quando minha barriga já estava muito grande. E quando meu pequeno filho nasceu, ele o vendeu a outro senhor. Eu mal o carreguei nos braços. – Contou ela – E foi assim com o segundo e o terceiro filho, até que quando eu completei meus dezesseis anos, ele me vendeu para o Templo de R’hllor, pois eu já não era mais interessante aos olhos dele, por não ter mais a inocência de uma criança. – Contou ela e Shiera engoliu em seco, horrorizada – No Templo, no início, não foi fácil. Eu já era seguidora de R’hllor. A maioria dos escravos eram. Mas começar sempre era difícil e árduo. Mas com devoção e dedicação, eu cheguei aqui. – Explicou ela a olhando – Eu já me apaixonei e tive que fazer escolhas difíceis, então eu sou boa para aconselhar. Eu sou boa para ouvir. E sou boa para ensinar. – Ela segurou sua mão e a puxou até uma tocha, ficando atrás de si. Melissandre era mais alta, portanto se curvou de leve, para sussurrar em seu ouvido – Olhe as chamas. Olhe-as fixamente. Deixe que o brilho delas harmonize com as batidas de seu coração. Sinta os batimentos do fogo, pois ele é vivo como você. Ele é energia pura. Magia. Ele é o sangue do único Deus R’hllor. E ele deseja falar-lhe. Você só precisa escutar. – Shiera sentiu calafrios com a mulher a lhe sussurrar ao pé do ouvido. As mãos dela estavam em seus ombros, mas desceram para seus braços, numa carícia quase maliciosa. Seguiu olhando o fogo, tentando ver algo, mas só via as labaredas a dançar – Aegon viu os segredos do fogo uma vez. Há magia nele, mas não se compara a você. Eu nunca tinha visto tanto poder em um corpo tão pequeno... – Melissandre se aproximou mais e Shiera sentiu os seios dela em suas costas à medida que os lábios dela lhe faziam cócegas na orelha enquanto ela sussurrava – Tão delicado... – ela entrelaçou os dedos com os seus e Shiera sentiu algo estranho. Algo que normalmente sentia ao receber os olhares de Jon – Olhe o fogo... – sussurrou ela e Shiera achou aquele sussurro simplesmente indecente. Respirou fundo, sentindo-se com calor, apesar que a tocha não tinha relação nenhuma com aquilo – Veja... – sussurrou Melissandre e as mãos dela foram para seu corpete. Ainda mirava o fogo e algo pareceu surgir ali. As mãos de Melissandre lhe puxaram o cordão do corpete e ela viu a Muralha. Ela viu os irmãos, Robb, Jon, Hoster, e mais alguns outros homens que ela não reconheceu. Eles iam para depois da Muralha, enquanto ela ficava para trás – Deixe que R’hllor a guie... – sussurrou Melissandre e Shiera sentiu o corpete afrouxar, escorregando de leve por seu corpo. Mas não se importou. Estava presa naquela visão. Viu os homens andarem por entre a neve. Os viu lutando contra os mortos e viu Jon matar um Caminhante com sua espada. E quando ele fez isso, todos os mortos caíram no chão, com a magia a os abandonar – Permita... – sussurrou Melissandre fazendo seu vestido escorregar para o chão. Sentiu as mãos da feiticeira em seus seios, numa carícia gentil. Soltou um gemido, confusa e a visão no fogo mudou. Ela viu Robb e Melissandre. A feiticeira o beijava e a sombra dele desaparecia, encobrindo a mulher aos poucos. Sentiu os dedos dela descerem por seu ventre e a voz que escutou em seu ouvido não foi dela.
“Eu preciso da sombra dele. ”
Se arrepiou por completo e a tocha se apagou. Melissandre a empurrou contra a parede e a virou para olhá-la nos olhos. O rubi escarlate dela brilhava reluzente, como se produzisse luz dentro dele.
—O que foi isso? – Perguntou chocada e Melissandre sorriu.
—Ele falou com você. – Riu ela lhe afagando o queixo.
—O que está fazendo?! – Perguntou Shiera, completamente confusa.
—Devolvendo algo que perdeste. – Disse Melissandre antes de lhe roubar um beijo. Primeiro quis empurrá-la, mas o calor que sentiu foi tão intenso que seu corpo simplesmente travou. Sentiu a mão de Melissandre tocar sua intimidade numa carícia habilidosa e quando ela se afastou, só conseguiu olhá-la, em choque. Ainda estava contra a parede. Seu corpo estava duro. A mão de Melissandre ainda a acariciava naquele local e Shiera fechou os olhos finalmente vendo estrelas. Seu corpo todo ferveu e amoleceu em seguida, escorregando lentamente para o chão. Respirou fundo, completamente confusa e Melissandre sorriu – Eu sou uma Mestre das Sombras e preciso da energia dele. A energia de um rei. – Disse ela – Mas para isso, preciso partilhar da cama de vocês. – Riu Melissandre se abaixando, para lhe entregar o vestido. Shiera engoliu em seco novamente – Com isso teremos poder para eliminar mais um inimigo. – Ela segurou seu rosto e lhe deu um beijo carinhoso nos lábios – Você seria uma excelente sacerdotisa de R’hllor. – Adicionou ela antes de se levantar e sair.
Shiera se vestiu, com as mãos e pernas trêmulas. Ainda sentia o calor do orgasmo intenso, que chegara a doer de leve. Seu corpo estava em chamas. Sua mente estava confusa. Ela era devota dos Deuses Antigos, mas Melissandre tinha mostrado que seu poder era real. Conseguira ter uma visão. Uma visão consciente. Acordada... e se aprendesse a controlar aquilo? Engoliu em seco e prendeu o corpete, com a cabeça funcionando à mil.
Se vestiu e desceu os degraus. Saiu da torre em que estivera e escondida e foi até os aposentos mais utilizados, no andar de baixo. O castelo estava até relativamente cheio, mas mesmo com todos ali, não houve como ocupar nem mesmo duas torres inteiras das cinco. Correu para o próprio quarto e encontrou Robb ali, a conversar com Jon Umber, Maege Mormont e Rickard Karstark. Corou de leve e respirou fundo, ao ser encarada pelos Lordes e pelo marido.
—Senhores. Me permitiriam ficar a sós com o senhor meu esposo por uns minutos. Preciso falar com ele sobre algo que me aconteceu. – Disse quase aflita.
—Alguém lhe fez mal, senhora? – Perguntou Lorde Karstark e ela negou com a cabeça, abrindo a porta.
—Por favor. Preciso falar com Robb. – Disse apressada e os lordes se entreolharam. Todos eles fizeram uma mesura e saíram, um a um, e quando ficou sozinha com o marido, fechou a porta e a trancou.
—Minha senhora. O que houve? – Perguntou Robb, com preocupação. Shiera engoliu em seco, sem saber como abordar o assunto. Robb a olhou preocupado e foi até ela, para segurar suas mãos – Conte-me, minha senhora. O que lhe atormenta?
—Melissandre. – Respondeu ela, sentindo as maçãs do rosto ferverem – Acho que Melissandre me enfeitiçou. – Respondeu e Robb a olhou confuso.
—O que? – Perguntou ele.
—Ela me tocou de maneira inapropriada e falou que quer compartilhar de nossa cama. – Disse Shiera se soltando dele, para então andar até a cama e se sentar – Quando ela me tocou eu... fui tomada por um desejo estranho e anormal. – Disse confusa e Robb se sentou com um sorriso divertido no rosto.
—E você simplesmente concordou? – Perguntou ele e Shiera corou de novo – Bem... se você gostou, eu não vejo problemas. – Disse ele e Shiera piscou.
—Eu não fui clara. Ela quer compartilhar de nossa cama, para poder fazer um ritual bizarro e roubar a tua sombra! – Disse ela e Robb respirou fundo – Não quero aquela mulher perto de você e muito menos da nossa cama. – Disse autoritária e Robb concordou.
—Você disse que ela te tocou de maneira inapropriada? – Perguntou ele com um sorrisinho e Shiera corou de vergonha.
—Sim!
—O que ela fez exatamente? – Perguntou ele com uma curiosidade cheia de malícia. Corou novamente.
—Ela me... me tocou nos seios e então... – corou ainda mais e Robb deu uma risada.
—Não sabia que te interessava este tipo de aventura.
—Não me interessa! – Gritou envergonhada e Robb sorriu de novo, como se duvidasse. O xingou furiosa e saiu, completamente enrubescida.
Caminhou pelo castelo e resolveu que precisava atirar algumas flechas. Foi para o lado de fora, onde os arqueiros praticavam e atirou um pouco. Normalmente sua mira era impecável, mas estava com a mente agitada demais. Chegou até a errar completamente o alvo e escutou uma risadinha atrás de si. Virou-se para ver Jon e Tormund, que pareciam estar assistindo seu pobre treinamento.
—Já te vi atirar flechas melhores. – Provocou Jon e ela achou que sua cabeça explodiria. Desviou o olhar dele e o sentiu se aproximar, enquanto preparava outra flecha no arco – Deve prender a respiração antes de soltar a flecha. – Disse ele a ajudando a puxar a corda. Com uma mão ele ajeitou sua postura e com a outra, a mira – Não pense muito. – Sussurrou ele atrás de si e ela puxou o ar – Solte lentamente... – aconselhou ele – Depois prenda a respiração e solte a corda. – Nada daquilo era novo para ela. Era uma arqueira competente, mas usou os conselhos dele como se fossem novidade. Soltou o ar lentamente, prendeu a respiração e soltou a corda. A flecha cortou o ar e acertou o alvo em cheio. Jon se afastou um pouco a olhando com carinho e Shiera suspirou, desviando o olhar do dele.
—Huum... agora eu vejo. – Riu Tormund – Era dessa daí que Ygritte tinha raiva. – Riu ele mordendo um pedaço de pão. Shiera e Jon olharam para ele e Tormund sorriu com a boca ainda um pouco cheia – Ela falava que se tivesse chance mataria você..., mas se tivesse a sorte, mataria ela, também. Porque seu pensamento estava sempre na garotinha sulista. – Tormund deu outra mordida em seu pão e Jon o olhou parecendo desejar que ele calasse a boca – Eu fiquei confuso. Como é que um homem iria querer pensar numa menina besta e sonsa aqui do Sul, quando tinha uma mulher selvagem oferecendo seu corpo e seu cabelo tocado pelo fogo? Só agora eu vejo... essa daí pode ter nascido no sul... mas tem sangue selvagem. – Riu ele e Jon suspirou – Você ficou tempo demais com a gente, Jon. Nunca mais se ajoelhará... e em breve tomará para si o que você se julgar merecedor. Mesmo que pertença a outra pessoa. – Ele a olhou com intensidade e Shiera entendeu que ele falava dela. Jon a olhou com desejo e negou com a cabeça.
—Ainda tenho a minha honra. – Disse ele e Tormund riu.
—Honra? Essa honra sulista serve apenas para que senhorzinhos bem-nascidos não tenham suas esposinhas roubadas por homens de verdade. Heh. – Ele terminou de colocar o pedaço de pão na boca e gargalhou. Shiera respirou fundo e Jon a olhou com cuidado.
—Não parece estar bem.
—É porque não estou. Acho que vou cavalgar um pouco. – Respondeu e Jon a olhou com atenção. Shiera voltou para o próprio quarto e tirou o vestido. Robb já não estava mais ali, mas não se importava com onde ele poderia estar. Provavelmente estaria discutindo um ataque a Casterly Rock. Era o próximo passo caso Porto Real não aceitasse a proposta de paz. Colocou suas roupas de montar, notando que estavam ligeiramente apertadas. Não se importou e as vestiu assim mesmo. Depois prendeu os cabelos para trás e saiu do quarto, para ir até os estábulos. Encontrou Jon Snow lá, com dois cavalos selados. O olhou, surpresa e ele sorriu para ela – O que veio fazer aqui? – Perguntou e ele lhe entregou as rédeas de um dos cavalos.
—Com uma mira daquelas, talvez fosse sensato não cavalgar sozinha.
—Minha mira é excelente. – Retrucou ligeiramente irritada, mas Jon sorriu e montou o próprio cavalo. Montou o seu também e ele fez um aceno com a cabeça, indicando que queria que ela liderasse. Bateu os calcanhares em seu cavalo e logo estavam trotando para fora do castelo.
Foi maravilhoso cavalgar por aquela região de novo. Era algo que costumava fazer com os pais e os irmãos desde quando era muito jovem. Cavalgar não era exatamente uma especialidade, como era com Aegon, mas ela era melhor que Valerion em cima de um cavalo. Então trotou e galopou até alcançar a Estrada do Rei. Jon parou ao seu lado e ela sorriu, fazendo o cavalo dar meia volta, para tomar outra direção.
Cavalgaram até o grande Lago do Olho de Deus, onde ficava a Ilha dos Rostos e Shiera saiu do cavalo. Jon a imitou. Normalmente ali teriam vários camponeses trabalhando na colheita, mas com a neve que tinha caído, não havia motivos para isso. No entanto, ainda tinha um pequeno barco, que servia para levar até a Ilha. Shiera andou até ele e entrou, com Jon vindo logo atrás.
—Onde estamos indo?
—Ver os deuses. – Respondeu ela e Jon concordou com um aceno de cabeça.
Foi trabalhoso chegar até a ilha, pois o lago estava ligeiramente congelado. Algumas partes estavam sem gelo, mas em outras eles precisaram bater os remos na superfície para poderem avançar. Levaram muitos minutos até finalmente voltarem a pisar em terra firme e quando finalmente chegaram na Ilha das Caras, ou Ilha dos Rostos, Shiera sentiu o mundo pesar em sua cabeça.
—Uau. – Murmurou Jon olhando ao redor.
—Eu só vim aqui duas vezes em toda a minha vida... bem... essa é a terceira. – Disse Shiera e Jon a observou cuidadosamente. Ela olhou ao redor, respirando o perfume antigo daquela Ilha, cheia de magia e mistério – Quando eu tinha cinco anos, meu pai me trouxe aqui. Ele me contou que certa vez, durante a Dança dos Dragões, um jovem rapaz acusado de ser um bastardo vira casacas... – ela o olhou – Porque ele era mesmo um bastardo legitimado... veio aqui em busca de conselhos. Ele se chamava Addam Velaryon. – Shiera tocou em um dos rostos e fechou os olhos – Meu pai me disse que muito antes de Aegon I começar a conquista... Antes de Valíria explodir, antes mesmo da Patrulha da Noite... – Shiera respirou fundo – Os primeiros homens e os filhos da floresta se reuniram aqui para selar a paz entre si. Foi quando a Ordem dos Homens Verdes nasceu. Eles foram responsabilizados por manter essa ilha segura. – Explicou ela e Jon se aproximou olhando ao redor – E assim eles fizeram, resistindo até mesmo aos Ândalos.
—Os filhos da floresta foram indispensáveis para derrotar os Caminhantes Brancos na última vez que eles vieram. – Murmurou ele e Shiera concordou.
—Dizem que Addam veio aqui e pediu conselhos para eles. Ele, apesar de ter sido acusado de ser um traidor vira casacas, deu a vida pela rainha e por Porto Real. Ele morreu defendendo aqueles que o acusavam. Seu irmão o enterrou em Devimarca, a sede da casa Velaryon. Em sua lápide, escreveu apenas a palavra “LEAL”. – Contou ela e Jon concordou com um aceno de cabeça.
—Uma triste história, porém, bela. – Murmurou ele e Shiera concordou.
—Meu pai me contou a história, com muito mais detalhes, enquanto me trazia para cá. Eu fiquei me perguntando se iríamos encontrar a Ordem dos Homens Verdes..., mas não havia ninguém aqui. – Suspirou ela e Jon se aproximou mais um passo. Shiera ficou de pé e o olhou nos olhos, vendo desejo ali. Entendia completamente, pois seu corpo estava cheio do mesmo – Ele me mostrou os Represeiros e disse que eu deveria ficar aqui uma noite inteira, completamente só. Ele acendeu uma fogueira e me deu uma garrafa com água e uma caixa com comida. Depois disso ele se foi e eu fiquei aqui.
—Não me parece responsável. – Murmurou Jon, parecendo chocado.
—Naquela noite eu sonhei com mil coisas estranhas. – Riu ela – Eu sonhei que era um corvo, que voava para o Norte, para depois da Muralha. Depois sonhei com outras coisas, coisas que não me lembro mais. Mas lembro de sonhar com um garoto, numa cidade de neve. Ele e outro garoto brincavam de espadas. – Riu Shiera e Jon a olhou com curiosidade – Era manhã, me lembro disso. – Shiera se sentou numa raiz mais alta do represeiro e sorriu com nostalgia – Eles usavam casacos de couro almofadado e espadas de madeira. Um garotinho de cabelos encaracolados e negros, contra outro tão ruivo quanto... bem... muito ruivo. – Ela sorriu e Jon deu outro passo em sua direção – O garoto de cabelos negros gritou “Eu sou o Príncipe Aemon, o Cavaleiro Dragão! ” E o outro respondeu “Bem, eu sou Florian, o Bobo. ” – Ela o olhou e Jon empalideceu – E então o sol cruzou o céu vezes demais para serem contadas e os garotos estavam um pouco maiores. “Eu sou o jovem Dragão. ” Gritava o ruivo, e o outro rebatia “Eu sou Ryam Redwyne”. – Ela sorriu e Jon engoliu em seco – E mais uma vez o sol atravessou o céu inúmeras vezes e a cena se repetiu com os garotos já aparentando ter seus nove anos... talvez um pouco menos... “Eu sou o Senhor de Winterfell”, gritou o garotinho de cabelos escuros..., mas o ruivo baixou a espada e retrucou “Você não pode ser Senhor de Winterfell, é um bastardo. A senhora minha mãe diz que nunca poderá ser Senhor de Winterfell. ” – Ela o olhou com intensidade – Foi a primeira vez que vi você... e, bem... e Robb. – Ela sorriu dando de ombros – Mas Robb não frequentou meus sonhos depois disso... você sim. Eu sonhei tantas vezes... tantas e tantas... que quando completei doze anos, selei um cavalo e voltei aqui. Só, sem meu pai, sem Valerion e sem Aegon. Dormi nesse chão e sonhei com você de novo. Sonhei que você enfrentava os mortos, sonhei que liderava um exército. Sonhei que te encontrava embaixo de um Represeiro. – Shiera sorriu sentindo-se aquela mesma garotinha de doze anos, que dormira na Ilha dos Rostos, para poder ver o rosto daquele rapaz de sonhos – E quando acordei tive certeza de que você seria o senhor meu marido um dia. Eu só precisava esperar, porque um dia iria aparecer e ser tudo aquilo que meus sonhos mostravam. – Jon sorriu e se aproximou mais um passo e um dos pés dele tocou o seu – Eu tive até um romance, lá para os meus treze ou quatorze anos... e esse romance queria pedir minha mão em casamento..., Mas como eu poderia me casar com alguém que não fosse meu homem de sonhos? Ele era o líder de um exército, então ele certamente era o filho de alguém importante. Então convenci meus irmãos a convencerem nosso pai a fazer um torneio. O maior torneio de todos os tempos, porque todos iriam vir. E meu homem de sonhos viria também, com certeza.
Jon sorriu e olhou ao redor, parecendo ligeiramente triste.
—Deve ter sido decepcionante... ver que estava apaixonada por um menino bastardo. – Riu Jon e Shiera o olhou nos olhos.
—Você não foi nada decepcionante, Jon. – riu ela se levantando e ficando muito próxima dele. Mais próxima do que uma mulher casada deveria ficar de algum homem que não fosse seu esposo – Você era esperto e sabia ler as pessoas. Não via apenas as aparências. Tinha um grande talento nas justas... mas confesso que a dança não era seu forte.
—Ainda não é. – confessou ele e os dois sorriram. Shiera suspirou e o olhou nos olhos, tocando o rosto dele.
—Por que? – Perguntou ela.
—O que? – Devolveu ele – Por que não danço bem?
—Por que não aceitou a proposta de meu pai naquele dia? – Perguntou ela e Jon suspirou.
—Porque ele nunca me ofereceu a sua mão. – Respondeu Jon e Shiera sentiu um frio lhe subir a espinha.
—O que? – Perguntou confusa – Mas ele me disse que...
—Ele me chamou para conversar e disse que deveria me matar por ser tão abusado, por tomar tanta liberdade com a filha dele. – Disse Jon e Shiera abriu a boca, completamente chocada – Mas ele falou que poderia tentar me transformar em alguém. Me criaria ali em Harrenhal, me tomaria como escudeiro, um dia me transformaria em cavaleiro, se eu o agradasse. Mas caso ele não se convencesse... ele me mataria. Mas se eu provasse que te amava, que realmente te amava... que não era apenas uma tentativa ambiciosa de subir na vida... ele me daria uma chance. Ele me mandou voltar para o Norte e treinar. Pois ele nunca daria a mão da filha dele a um bastardo. Mas poderia dar a um cavaleiro que ele armasse e confiasse..., mas ele não armaria cavaleiro um jovem inábil e estúpido. Então ele me mandou treinar e ficar longe de você, pois talvez tudo isso não passasse de uma paixão que passaria rapidamente. Mas se o sentimento estivesse ali quando voltássemos a nos ver, que seria em aproximadamente dois anos, se eu estivesse à altura do que ele propunha para mim... talvez ele concedesse a mim um título de cavaleiro e terras ao redor de Harrenhal, além de sua mão. Eu só precisaria esperar e trabalhar duro... – Jon suspirou – Mas no lugar disso, Robb se apaixonou por você. Ele é o filho de Lorde Eddard. Você sempre foi dele... ele tinha todos os títulos que você merecia. Eu era simplesmente um bastardo. – Murmurou Jon – E eu não quis me colocar no caminho dele. Mas... naquela noite do Represeiro... – ele a olhou nos olhos. Lindos olhos de tempestade, sempre a visitar seus sonhos – Naquela noite, antes de te encontrar... eu pensei... Robb vai ser o Senhor de Winterfell... ele é o filho legítimo de meu pai. Eu sempre vivi na sombra dele. Meu pai nunca me legitimou e aparentemente não tinha interesse nisso. A senhora Catelyn jamais concordaria, pois isso poderia questionar o direito de Robb de herdar o que quer que fosse... meu pai não iria comprar essa briga. – Jon suspirou – Então eu ousei sonhar. Eu decidi que quando me encontrasse contigo, falaria contigo. Mas você estava esquiva, provavelmente porque eu estivera. Mas a senhora Catelyn seguiu meus olhares para você e veio ter comigo. Ela me proibiu de ficar no caminho de Robb, me acusou de atormentá-la e de ofendê-la com a minha existência... ela garantiu que se eu tentasse roubar o que era de Robb por direito, ela iria impedir. – Jon suspirou – Toda minha vida foi uma luta contra a senhora Catelyn, uma luta que eu jamais poderia vencer. “Vista o negro e saia da minha casa”. – Disse Jon imitando o jeito de Catelyn Stark falar e Shiera sorriu reconhecendo a mímica – O olhar dela para mim sempre me fazia lembrar do que eu era... um bastardo. Ela sempre me diminuía com aquele olhar... fosse quando eu ia melhor que Robb nas espadas, nas contas, nas letras... em tudo. Ela me dava aquele olhar de “Quem você pensa que é? ” E “Você não pertence a esse lugar. ” – Jon engoliu em seco e Shiera suspirou.
—Deve ter sido um pesadelo. – Murmurou Shiera – Crescer sem ter o direito de desejar o que quer que seja. – Murmurou ela e Jon concordou.
—Mas fez quem eu sou hoje... eu vejo aquele Ramsay Snow e agradeço por não ser nada como ele... dizem que os bastardos são todos iguais... todos são traiçoeiros, reflexo da luxúria e da desonra que os concebem... eu sempre quis provar o contrário... – murmurou Jon – Sempre quis provar que eu jamais ficaria no caminho dos meus irmãos e que seria leal à Casa Stark, que faria com que meu pai se orgulhasse de mim... – Jon a olhou intensamente, no fundo de seus olhos e ela sentiu o corpo tremer – Mas aqui estou eu, desejando a esposa de meu irmão. Pensando em você todo o tempo... cogitando ser o selvagem que me acusam de ser. Te sequestrar e te levar para algum lugar só nosso... – sentiu a mão dele em sua cintura, a puxá-la mais para perto. Jon respirou fundo – Para os selvagens, se um homem consegue sequestrar uma mulher e evitar que ela corte sua garganta, ela é dele. – Murmurou Jon – Pois provou ser ágil, forte e esperto. – Murmurou ele.
—Escutei muitos chamarem você de selvagem... – sussurrou passando os braços ao redor do pescoço dele.
—Passei tempo demais com eles. – Concordou Jon. Ele engoliu em seco e Shiera suspirou o beijando no queixo. Os braços dele a envolveram num enlace apertado e os dois se encararam – Tem mais um motivo... pelo qual me afastei de ti. – Murmurou Jon e Shiera o olhou curiosa – Seu pai, quando foi a Winterfell, pediu para que eu me afastasse de você... pois nas visões dele... – Jon engoliu em seco – Ele viu que eu causaria a sua morte. – Jon suspirou e Shiera concordou com um aceno de cabeça.
—Eu vi o mesmo. – Murmurou ela – Mas...
—Eu sei que você não tem medo de morrer. – Riu Jon e Shiera riu também. Sentiu o corpo dele prensar o seu contra o represeiro – Mas eu tenho medo de te perder... talvez, deixar você com Robb e desistir... talvez essa seja a melhor maneira de te manter segura.
—Se Rhaegar pensasse o mesmo, estaríamos todos condenados, pois o Príncipe que Foi Prometido não teria nascido. – Murmurou e Jon sorriu.
—Isso ainda não me desceu... sobre eu ser um Targaryen... – murmurou ele e Shiera sorriu, segurando seu rosto com as suas duas mãos.
—Vamos encerrar o conflito entre nossas famílias? – Perguntou ela em tom de brincadeira e Jon negou.
—Se eu for acabar te matando... – murmurou ele e Shiera sussurrou.
—Só se for de amor...
E o vento soprou o corpo dos dois.
Os deuses serão testemunhas. Pensou, sentindo as mãos de Jon a puxarem seu corpo ainda mais para perto. Os lábios dele tocaram seu pescoço e Shiera fechou os olhos, completamente entregue a ele. O vento soprou de novo e ela escutou a voz de um menino. Congelou, se perguntando se tinha sido seguida e notou que não fora impressão sua. Jon se afastou um passo e os dois olharam ao redor.
Mas não viram ninguém.
—Escutei chamarem meu nome. – Murmurou Jon – Será que foram os deuses? – Perguntou ele, confuso e Shiera se abraçou, sentindo-se repreendida. Ela o encarou e ele suspirou, parecendo vencido – Precisamos falar com Robb. – Murmurou ele.
—Falar o que? – Perguntou ela. Jon engoliu em seco – Espera que ele abra mão de mim, para que eu vá correndo até seus braços? – Perguntou ela e Jon suspirou – Nossos cavalos estão na beira do lago. É só irmos embora. – Sugeriu ela.
—Para onde? – Perguntou ele. Shiera suspirou e deu de ombros.
—Para Bravos. – Sugeriu – Ninguém nos caçaria em Bravos. Ou talvez para Myr, onde você pode vender sua espada e eu o meu arco... ou até mesmo Dorne, Asshai, não importa. – Ela andou até ele e segurou suas mãos – Só importa que esteja comigo. – Sussurrou ela e Jon sorriu.
—Peça que Robb anule o casamento de vocês. Depois da guerra, nós iremos embora. Temos uma responsabilidade aqui. – Disse Jon e Shiera suspirou.
—Vocês Stark com essa honra irritante. – Resmungou ela e Jon a abraçou.
—Vocês Blackfyre com essa impulsividade irresponsável. – Devolveu ele e ela o chutou de leve na canela, para em seguida rirem juntos, fazendo o som ecoar pelas árvores coração.
—Prometes? – Perguntou ela e ele a olhou nos olhos – Quando a guerra acabar, se nós dois sobrevivermos...
—Nós vamos sobreviver. – Garantiu ele a abraçando de novo.
—Bem, quando a guerra acabar, já que nós dois estaremos muito vivos... prometes que me levará daqui. Me levará para construirmos um futuro apenas meu e teu?
—Prometo. – Disse Jon sem hesitar a olhando apaixonadamente.
—Prometes que não vai desistir de mim por conta de ninguém? – Perguntou ela e ele sorriu lhe afagando no rosto.
—Eu prometo. – Disse ele e Shiera sorriu.
—Me fará tua?
—Farei. – Garantiu ele e Shiera sorriu ainda mais respirando fundo e finalmente roubando um beijo dele. Jon a puxou pela cintura e a beijou de volta, deixando claro o quanto que ele desejara o momento. Se apertaram um contra o outro, naquele beijo cheio de desejo e amor e Shiera suspirou, se afastando, com a testa colada na dele – Com esse beijo, empenho o meu amor... – sussurrou Jon a olhando nos olhos. Eram os votos que muitas vezes se pronunciavam em um casamento.
—Com esse beijo, juro que meu coração será para sempre teu.
Não se beijaram mais depois disso, pois sabiam que era errado. Voltaram para Harrenhal, com olhares cheios de cumplicidade e sorrisos leves. Quando deixaram os cavalos no estábulo, Jon suspirou ao teu lado.
—Realmente deveríamos falar com Robb. – Murmurou Jon e Shiera concordou com um aceno de cabeça – Mas talvez fosse melhor esperar a guerra terminar. – Ela o olhou confusa – Robb ficará destruído quando souber... e isso pode causar a morte dele.
—Esperas que eu siga agindo como esposa dele? – Perguntou num sussurro e Jon concordou com um aceno de cabeça.
—Não terei ciúmes. Ainda é a esposa dele. – Disse Jon com um suspiro – Vamos fazer isso da maneira certa. Quando terminar nossa missão, você pode pedir a anulação do casamento... e então... – ele a olhou com um olhar sonhador e Shiera sorriu.
—Está bem, Lorde Snow. – Respondeu com um sorriso – Ou melhor, Lorde Targaryen.
—Oh, não diga isso. – Riu ele corando e Shiera gargalhou, caminhando de volta para o castelo.
**
Valerion estava ao lado de Loras, ambos cansados e suados, depois de uma longa e cansativa tarde de treinamento. Queria ter tido a chance de ter treinado com o irmão e mostrado suas melhoras no treino de espada. Suspirou se deitando no chão, cercado por seus homens. Nunca mais ficaria sozinho de novo, não enquanto Cersei e o Alto Pardal estivessem vivos. Loras se deitou ao seu lado e deu uma risadinha.
—Estava lento hoje.
—Estou sempre lento, desde que me fatiaram inteiro. – Resmungou olhando para o céu cinzento. Fazia uma tarde bastante fria, mas depois do esforço do treino, o vento gelado era até gostoso. Loras concordou com um aceno de cabeça.
—Nunca agradeci por ter me tirado de lá. – Murmurou Loras e Valerion sorriu.
—Oras... é meu melhor amigo. – Riu Valerion. Loras sorriu e suspirou.
—Sobre essa história... de Caminhantes Brancos... – murmurou Loras e Valerion o olhou curioso – Realmente acreditas nisso?
—Sim. – Respondeu sem hesitar – Sempre soube que eles viriam. – Murmurou olhando para o colega – Me tomas como louco?
—Não. Confio em teu julgamento. Se dizes que eles existem, então eles devem existir. E se confias em mim para ajudar-te a comprovar a hipótese, me sinto honrado em proteger-te. – Disse Loras e Valerion sorriu – É uma pena que só tenha gosto por garotas. – Adicionou ele e Valerion engasgou-se o encarando.
—Loras, não estrague tudo! – Ralhou ele e Loras concordou com um aceno de cabeça.
—Não se preocupe. Jamais confundiria as coisas. E te vejo como amigo. – Riu ele com um sorriso travesso. Loras suspirou e olhou para o céu, ainda deitado ao seu lado – Quando minha família descobriu sobre... bem... sobre minhas preferências... – Loras engoliu em seco – Eles ficaram preocupados. Mas ninguém nunca me julgou por isso... quando eu me tornei escudeiro de Renly e começaram as fofocas sobre nós... – Loras suspirou, parecendo triste e Valerion se sentou, olhando para ele. Loras se sentou também e suspirou de novo – Minha avó deixou Jardim de Cima para me visitar em Storm’ End, antes de Renly ser apontado para o Pequeno Conselho. Quando soube que ela estava vindo, entrei em pânico... – ele deu um sorriso nervoso – Achei que ela estaria vindo para me repreender. Eu estava... – abaixou o tom de voz – Eu estava completamente apaixonado... e Renly dizia que me amava também. – Ele respirou fundo e Valerion concordou com um aceno de cabeça – Mas quando ela chegou e me chamou para conversar, ela me perguntou se eu estava feliz e se era verdade o que diziam. E quando eu respondi positivamente... ela não me repreendeu. Na verdade, ela apoiou meu relacionamento às escondidas, pedindo apenas para que eu fosse discreto... ela temia o mundo. – Murmurou ele e Valerion virou o rosto na direção do Septo.
—Ela tinha razão... – murmurou movendo os ombros e sentindo as cicatrizes repuxarem em suas costas.
—Sim. E quando você voltou e me salvou... bem... as fofocas já estavam circulando sobre nós... – Loras corou sem jeito e Valerion fez o mesmo – Ela veio me questionar, perguntando se era verdade. Eu disse que não e que éramos apenas amigos. Então ela me perguntou se éramos amigos como Rhaegar Targaryen e Jon Connington foram. Sabe a história deles? – Perguntou Loras e Valerion negou com a cabeça.
—Sei que esse Jon foi mão do rei Aerys e um grande amigo de Rhaegar... eles tiveram um romance? – Perguntou, chocado.
—Não. – Respondeu Loras. Ele jogou as madeixas cacheadas para trás e sorriu – Mas dizem que Connington amava Rhaegar, mais do que era esperado que um cavaleiro amasse seu príncipe. – Riu Loras e Valerion o olhou um pouco sem jeito – Mas não se preocupe. Por mais que você seja uma gracinha, eu não tenho esse tipo de interesse por você. – Riu Loras se levantando e lhe oferecendo a mão. Valerion a aceitou e o amigo o ajudou a se levantar – Mas eu o admiro muito. Pela pessoa que você é, pelos sacrifícios que fez e por tudo o que conquistou. Você não armou para ficar com o Trono de Ferro, você não conspirou com ninguém. Você até tentou evitar isso, você fugiu daqui para estar com a mulher que realmente ama. – Loras o olhou com os olhos brilhantes – Mas você voltou respondendo à sua honra. E agora você governa simplesmente porque é sua missão, é seu dever. Você cobiçou o Trono, mas quando lhe oferecemos a chance de conquistá-lo, você recusou. – Loras apertou sua mão com força – Não vejo ninguém mais merecedor daquela cadeira horrorosa do que você. Eu fico feliz por ser um membro de sua Guarda Real. – Disse ele com um sorriso gentil. Valerion respirou fundo, sentindo aquelas palavras soarem nostálgicas em sua mente. Loras falava com tanta intensidade que deixara até mesmo o decoro sulista de lado – Eu realmente acho que você trará paz e prosperidade para os Sete Reinos, se Myrcella não te enlouquecer primeiro. O Pequeno Conselho certamente deveria agir para que você não fosse um simples regente, mas o Rei dos Sete Reinos. Myrcella é louca. – Loras soltou sua mão – É uma pena que não pode estar com quem você realmente ama... e nem com a minha irmã. – Loras o olhou de soslaio – Vocês faziam uma excelente dupla. – Adicionou ele e Valerion deu de ombros.
—Eu não seria Regente se não estivesse casado com Myrcella.
—É... – Murmurou Loras – Mas... e se ela ficar insana? Você que conhece as leis... você estaria dispensado do compromisso?
Valerion fechou o cenho, pensativo.
—Não sei. Creio que não. A esposa de Aerys não foi...
—Não poderia pedir uma anulação, levando em consideração que Myrcella... – Loras engoliu em seco – Nós sabemos a verdade. Ela é filha de um incesto... e os Targaryen estão aí para provar que incesto e loucura andam bastante juntos. – Sussurrou ele e Valerion suspirou.
—Se eu pedisse anulação e o Conselho apoiasse Myrcella, o reino seria novamente governado por alguém com a mente fraca. – Murmurou ele – Eu sabia qual era a consequência da minha escolha. Eu sabia o que significava voltar. Agora eu tenho que ter a firmeza para aguentar as consequências... e Myrcella só está passando por um momento difícil. É a loucura da gravidez, apenas.
—Todos nós esperamos isso. – Disse Loras afastando os cabelos dos olhos – Chega de lunáticos no poder. Já tive o suficiente com Joffrey. Eu morria de medo do que ele poderia fazer com a minha irmã...
Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Myrcella não é como Joffrey. – Garantiu com convicção.
**
A porta se abriu e Myrcella olhou para o lado. Estava acompanhada de Margaery e as primas dela, suas damas de companhia. Quem entravam eram Arianne Martell, herdeira de Dorne, e Nymeria Sand, filha de Oberyn. Não gostava muito de nenhuma das duas, pois tinha certeza de que elas queriam roubar seu amado Valerion. Elas traziam, cada uma, uma travessa cheia de doces e um pouco de chá, como sempre faziam. Elas sempre tinham os melhores quitutes.
—Olá, espero que não se importem. Mas gostaríamos muito de passar um tempo com vocês. – Riu Arianne – Nós trouxemos alguns bolinhos dorneses.
—Estão deliciosos. – Garantiu Nymeria se aproximando. Todas olharam para Myrcella, pois a decisão final era dela. Deu de ombros, afinal adorava aqueles bolinhos que elas sempre traziam, e as duas vieram cheias de sorrisos. Nymeria serviu um pouco de chá para si mesma e respirou fundo o doce aroma. Ela deu um sorriso satisfeito e Arianne se serviu também.
—Quer experimentar, Vossa Graça? É chá de jasmim. – Disse ela e Myrcella concordou com um aceno de cabeça. Nymeria tomou um gole e lambeu os beiços, para suspirar parecendo relaxada.
—Já pensou em algum dia conhecer Dorne? – Perguntou Nymeria e Myrcella negou com a cabeça.
—Não. Não vejo o que poderia querer por lá. – Explicou e as primas de Margaery deram risadinhas. Margaery negou com a cabeça quando Arianne ofereceu uma xícara para ela e outra garota de Jardim de Cima aceitou no lugar dela – É só areia e calor.
—Certamente não conhece os Jardins de Água. – Riu Arianne – Lá é lindo. – Garantiu ela e Myrcella a olhou duvidosa – Você não conhece a história? – Perguntou Arianne e Myrcella negou com a cabeça, desinteressadamente, provando o chá, que de fato era uma delícia – Oh, é uma excelente história.
—Uhum. Tem até um Blackfyre nela. – Riu Nymeria e todas as garotas olharam interessadas. Myrcella foi tomada pela curiosidade e mirou as dornesas.
—Conte a história. – Pediu com um sorriso, dando mais um gole no chá quente. Arianne sorriu e pegou um bolinho para mordiscá-lo. Logo as mocinhas de Jardim de Cima fizeram o mesmo. Quando Myrcella foi pegar um redondo, Nymeria segurou sua mão com delicadeza.
—Por favor, Vossa Graça. Evite esses. São apimentados. – Disse ela com doçura – Pode ser ruim para o bebê.
—Coma esse. É de limão. – Riu Arianne e Myrcella concordou, dando uma mordida no bolinho – O de laranja também é muito gostoso. Foram feitos com as laranjas que nascem no Jardim de Água.
—Por favor, contem a história! – Pediu Elinor e Arianne e Nymeria sorriram.
—Bem. Certamente se lembram de Aegon IV, o Indigno. – Riu Arianne – Ele era casado com a irmã, Naerys, mas teve inúmeros bastardos. Um deles, inclusive, com a prima Daena.
—Mãe de Daemon Blackfyre. – Concordou Nymeria e Myrcella concordou com um aceno de cabeça, pois aquela parte da história ela conhecia – Bem. Isso é bem sabido por muitos, mas o que poucos de vocês se lembram é que Aegon teve dois filhos com sua esposa. Daeron Targaryen, que sucedeu o pai...
—E Daenerys Targaryen. – Continuou Arianne dando mais um gole no chá e Myrcella a imitou, para depois morder o bolinho de limão, que também era muito gostoso. O creme que o cobria era melequento e grudava nos dedos. E por ser muito delicioso, a rainha se colocou a lamber as pontas dos dedos depois de terminar o bolinho – Ela era linda demais. – Riu Arianne.
—Sim. Tem um retrato dela no Jardim de Água... – começou Nymeria.
—Shhh! Deixa eu contar a história! – Ralhou Arianne e as duas dornesas riram. Arianne respirou fundo e continuou – Daenerys era apaixonada por Daemon Blackfyre e ele a amava também. Muitos sabem disso. Mas Daeron não era bobo. Já se ouvia aqui e ali sobre pessoas que questionavam o nascimento dele. O próprio Aegon IV dizia que ele não era seu filho, mas filho de seu irmão Aemon, o cavaleiro dragão. A legitimidade dele estava sendo questionada por muitos lordes e esses lordes olhavam para Daemon e viam um rei muito mais promissor. Ele era forte, um guerreiro habilidoso, alto e belo. Enquanto Daeron era fraco, de postura curvada e sem muito talento para as armas. Mas apesar disso, o rapaz era esperto e sensato, algo que o próprio pai se recusou a ver. E ele era casado com uma Dornesa, Mariah Martell. – Riu Arianne – Um casamento que trouxe paz entre os Sete Reinos e Dorne. Mas Aegon acabou desestabilizando a trégua e como Jardim de Cima sofria muito com as investidas dornesas, Daeron queria fortalecer os laços entre os Martell e os Targaryen. E por mais que a irmã amasse Daemon e fosse correspondida, Daeron se recusou a dá-la a Daemon, casando-a com o príncipe de Dorne, Maron Martell. – Contou Arianne.
—Pobre Daemon. – Murmurou Myrcella pegando um bolinho de laranja, que se provou igualmente saboroso – Pobre Daenerys.
—Mas dizem que Maron se apaixonou pela princesa Targaryen assim que colocou os olhos nela. Então ele construiu os Jardins de Água para ela. Um paraíso perto de Lançassolar. – Explicou Nymeria – E é por isso que tem um quadro dela lá.
—E a princesa amou tanto o lugar, que achou errado manter aquele palácio só para ela. Ela então convidou os nobres a levarem suas crianças para lá. – Explicou Arianne – É maravilhoso. Dizem que a princesa Daenerys amava tanto o lugar que quase nunca ficava em Lançassolar. E por mais que ela amasse Daemon, foi capaz de esquecê-lo. Maaaas... – Arianne as olhou com divertimento e baixou o tom de voz, como se lhes confidenciasse um segredo. Todas se curvaram para ouvir – Dizem que Daemon foi até Dorne, para levá-la embora, para Tyrosh. Para poderem ficar juntos, pois eles se amavam. Porém, Daenerys não teve coragem de ir embora e trair o irmão. Seria colocar os dois reinos em guerra. – Explicou ela.
—Maaaas... – começou Nymeria e Arianne sorriu.
—Dizem que Daenerys não fugiu com ele, mas não conseguiu negar ao menos uma noite ao seu amado. Foi a última vez que ela o viu, naquele Jardim. E é por isso que ela nunca queria sair de lá. – Murmurou Arianne.
—Era o último resquício de seu amor perdido. – Concordou Nymeria e todas as meninas suspiraram – Deve ser difícil para um homem, ter que abandonar a mulher que ama de verdade. – Disse ela e Arianne concordou – Pobres Blackfyre... sempre sofrendo de amor.
—O que quer dizer com isso?! Que Valerion não me ama?! – Perguntou se levantando de uma vez e Nymeria sorriu gentilmente.
—Eu nunca disse isso. Estou falando de Daemon... e Aegon também. – Ela olhou para Arianne com um sorrisinho e Arianne suspirou – E pelo que eu soube, a pobre Shiera também.
—Aegon sofre de amor? – Perguntou Myrcella interessada. Nymeria concordou com um aceno de cabeça e a loira voltou a se sentar – Como sabe disso?
—Ele e Arianne são amigos. – Riu Nymeria – Ele se apaixonou pela princesa Targaryen. Outra Daenerys.
—Completamente apaixonado. – Concordou Arianne – Nunca o vi desse jeito. Quando falava dela, seus olhos brilhavam. Fiquei até com ciúmes. – Arianne suspirou – Sabe, quando o pai dele tentou prometê-lo a você. – Ela olhou para Margaery, que corou – E ele fugiu, ele fugiu para Dorne. Ele era amigo do meu tio.
—E então vocês ficaram muito amigos também. – Provocou Nymeria – Não só de você. Ele ficou amigo de Obara também.
—Mas pelos deuses, não contem a ela que falamos isso. – Riu Arianne.
—Mas ela é sem graça se comparada a vocês. – Murmurou Elinor. Nymeria e Arianne sorriram, parecendo contentes com o elogio.
—Mas ele gostou do espírito guerreiro dela. – Comentou Arianne – Todas as dornesa têm esse espírito guerreiro. Aegon falou que se um dia tivesse de se casar, seria com uma dornesa.
—Arianne queria que fosse a escolhida. – Riu Nymeria.
—Mas Daenerys roubou o coração dele. – Lamentou Arianne terminando seu chá e Myrcella pegou outro bolinho, pensando naquilo.
—Por que ele está em Westeros se ele ama Daenerys? Ele a traiu? – Perguntou Myrcella.
—Ela o autorizou a vir, para ajudar os irmãos. – Disse Nymeria.
—Aegon sabe que não pode se casar com ela, então prometeu que seria um membro de sua Guarda Real. – Concordou Arianne – Que desperdício de homem, meus deuses...
—Por que ele não pode se casar com ela? – Perguntou Margaery.
—Porque ele abriu mão de Harrenhal. Ele entende que Daenerys precisaria de um marido que lhe trouxesse forças, terras e vassalos. Aegon só pode oferecer a si mesmo. – Explicou Arianne. Myrcella engoliu em seco e suspirou.
—Sobre essa Daenerys... é verdade que ela tem mais dois dragões? – Perguntou preocupada.
—Sim. – Respondeu Arianne – Aegon disse que o dragão dele é o menor dos três. – Explicou e Myrcella sentiu um frio lhe subir a espinha.
—O menor? Aquele monstro enorme é o menor? – Perguntou chocada e as dornesas concordaram – Eu... eu preciso falar com Varys. – Disse nervosa, se levantando, mas logo deu meia volta para pegar mais um bolinho, arrancando risadinhas das companheiras.
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