Blackfyre
21 A Batalha de Água Negra
Notas iniciais

A Batalha de Água Negra
Sansa estava rezando sozinha no único Represeiro de Porto Real. Um pequeno e singelo bosque sagrado. Se aproximou de mansinho, sem querer atrapalhar suas orações. Os guardas Lannister não gostavam de lá, tinha notado. Ninguém a vigiava ali. Era o lugar onde a menina poderia ficar sozinha e se perguntou se tinha o direito de atrapalhar sua calma e paz. Seu braço ainda latejava de leve e o lembrava constantemente de que Stannis já estava a chegar em Porto Real. Os homens dele e os de Tyrion incendiavam a mata do rei e toda grama do lado de fora da cidade. Os primeiros para espantar os homens de Tyrion da floresta, os segundos para que não houvesse nada além de cinzas para que os cavalos de Stannis comessem.
A colheita havia sido feita e tinha rendido muito mais do que o esperado. O castelo e a cidade tinham um pouco mais de provisões agora, o que mantinha o povo relativamente mais calmo. Todos estavam dispostos a passar por sacrifícios para resistir a Stannis. Valerion tinha contado como ele tinha botado fogo no septo de Pedra do Dragão e no Bosque Sagrado de Ponta Tempestade. Incentivou todos aqueles rumores, que eram de fato verdade, para que o Alto Septão defendesse que apoiar Stannis era mais que trair o rei. Era trair os deuses.
Com a barriga um pouco menos vazia e o medo de um novo saque à cidade, as rebeliões estavam mais raras e contidas.
O que lhe dava tempo de pensar. Pensar em Sansa e no medo que sentira de perdê-la. Ainda tinha pesadelos com aquilo. Com os homens que matara. Sonhava que perdia para eles e era forçado a vê-los roubarem a virtude de sua amada. Suspirou afastando aqueles pensamentos da cabeça, sentido o terrível cheiro da fumaça, que parecia tomar tudo.
Se aproximou mais um passo e Sansa se virou para olhá-lo. Baixou os olhos, pois já havia quase um mês que não se falavam. Desde o dia que Myrcella deixara a cidade. Estivera muito ocupado e sabia que a donzela estava ressentida por ele não ter enfrentado Cão de Caça para tirá-la da cidade. Mas não havia a menor chance de derrotar o Cão. Mesmo se tivesse completamente recuperado de seus ferimentos, seria uma vitória muito improvável.
—Sor Valerion. – sussurrou ela. Ele engoliu em seco e a olhou novamente.
—Desculpe atrapalhar suas orações, Sansa. – murmurou muito baixo – Mas eu senti muita saudade. – disse honestamente, mesmo que não fosse somente aquilo. Sua mão ainda tremia. Seu punho estava sujo de sangue. Seu punhal estava guardado e tinha tentado limpá-lo, mas com um olhar mais atento notar-se-ia algumas gotículas de sangue. Seus homens descobriram que Sor Dontos, o bobo, estava com falando com Sansa, no Bosque Sagrado. E tinham confirmado que ele era um homem de Mindinho. Por isso precisou matá-lo. Mas aquilo ainda lhe era difícil. Não tinha o estômago de Aegon. Aegon mataria alguém, se julgasse necessário, sem nem piscar. Mas ele não nascera para matar. Nascera para manipular, conversar, negociar. Por mais que tivesse aprendido que sabia fazer muito bem um homem parar de respirar. Sor Dontos não levara nem mesmo um minuto – Como está?
—Com medo. – murmurou ela – Stannis colocou mesmo fogo no Bosque Sagrado de Ponta Tempestade? – perguntou ela e ele concordou com um aceno de cabeça – Espero que ele queime o septo de Baelor. – disse ela com rancor e Valerion se lembrou do dia em que decapitaram Lorde Eddard, nos degraus do Septo.
—Eu não torceria por Lorde Stannis no seu lugar. – disse sombrio e Sansa o olhou confusa – Sabe o que acontece quando uma cidade cai diante de um conquistador? Lembra do dia em que Myrcella partiu? – perguntou e ela concordou – Aquilo acontece... e alguns homens não se importam em estuprar garotas que estejam em seus dias de sangue.
Sansa corou absurdamente e desviou o olhar.
—Você... como você sabe?
—Eu escutei que tentou colocar fogo nas provas. – riu ele se aproximando um passo – Sabe... quando estávamos nos despedindo de Myrcella... você disse que houve um príncipe que chorou quando sua amada se casou com outro...
—Sim... o príncipe Aemon, o Cavaleiro do Dragão... ele chorou quando a princesa Naerys se casou com o irmão Aegon. – repetiu ela. Valerion suspirou. Não vestia sua cota de malha. Dissera a todos que estava ferido demais para lutar. Pedira que o Meistre repetisse essa história, para ajudá-lo em um plano que tinha bolado. Algo a princípio somente dele, para que isso acalmasse seus ânimos com Joffrey. Um plano mais arriscado do que os que costumava fazer, mas algumas vezes era necessário arriscar-se numa aposta mais cara, para receber um prêmio maior – Por que?
Valerion olhou para Sansa, para dentro de seus profundos olhos azuis. Sorriu lhe afagando o rosto com carinho e suspirou aproximando o rosto, buscando os lábios dela. Porém, ela não encerrou a distância. Ela virou o rosto de leve, evitando-o. Não a julgou por isso.
—Não deixarei que case com Joffrey. – sussurrou em seu ouvido – Vou conquistar sua mão, minha senhora.
—Cersei nunca permitiria isso. – lamentou Sansa – E você está prometido a Myrcella.
—Promessas de casamento vem e vão. – riu ele – Mas meu amor por você não. – confessou finalmente e Sansa o olhou surpresa – Eu te amo, Sansa. Desde o primeiro momento em que a vi. Um amor tão grande que quase não cabia em mim. Quis guardar esse segredo, pois não achava seguro confessá-lo, mas... naquele dia... quando aqueles homens... – ele suspirou a afagando no queixo – Eu pensei muito sobre aquilo e hoje decidi que não passaria nem mesmo um dia sem que eu te falasse a verdade. Eu amo você. Nós vamos fugir de Porto Real, juntos. Vamos para Harrenhal, eu vou convocar os vassalos e nos uniremos aos nossos irmãos. Meu pai prometeu não se envolver nessa guerra, mas eu nunca fiz tal promessa. – disse ele e Sansa sorriu – Eu prometo, meu amor. Eu vou tirá-la daqui. Mas na hora certa. Você precisa confiar em mim e esperar. – se afastou dela e sorriu – Eu preciso ir. Vou ajudar Tyrion na defesa do castelo. – murmurou baixinho.
—Mas está sem armadura, Sor.
—Estou ferido demais para lutar. – concordou com um aceno de cabeça – Mas minha presença acalma os homens. – explicou – Não significa que estarei livre de riscos, mas é meu dever. – assim que terminou de dizer isso, escutou os sinos. Stannis havia chegado – Eu preciso ir. – disse se virando. Sentiu as mãos macias de Sansa segurarem seu braço. Se virou novamente, a encarando e respirou fundo, cansado de lutar contra si mesmo. Os dois se encararam por alguns segundos antes de finalmente colarem os lábios. Ambos suspiraram, deixando evidente um para o outro que desejavam fazer aquilo há muito. A beijou carinhosamente, querendo afundar-se naqueles lábios de mel. Mas o som dos sinos ecoava alto, fazendo seu corpo vibrar, lembrando-o que deveria estar em outro lugar. Separou-se de sua donzela e sorriu – Posso usar seu favor, minha donzela?
Sansa sorriu e lhe entregou um lenço. O enrolou na mão e o aspirou, deliciando-se com o perfume dela. Sorriu e em seguida sentiu a presença de alguém. Os dois se viraram e viram Shae, a puta de Tyrion e aia de companhia de Sansa.
—Senhora, devemos ir até a rainha, ficar com as outras mulheres. – disse Shae o olhando com um sorriso que dizia que sabia bem o que eles estavam fazendo segundos antes. Guardou o lenço de Sansa no bolso e sorriu como se não tivesse notado o olhar da mulher.
—Vamos, Lady Sansa. Acho que os Deuses já nos ouviram o suficiente. – Guiou as duas para o salão do castelo, para deixá-las aos cuidados de Cersei. Muitos caminhavam ali. Soldados se preparando para se dirigirem às muralhas da cidades, mulheres se reunindo, procurando a proteção do castelo. Notou que Tyrion descia as escadas, seguido por seu escudeiro e por seus mercenários. Varys o seguia também.
—Valerion, Lady Sansa! – chamou Tyrion se aproximando parecendo ligeiramente nervoso. Não o culpava. Caso a cidade caísse, Stannis queimaria todos os Lannister que colocasse as mãos sobre – Minha irmã deseja que se reúna às mulheres da corte na Fortaleza de Maegor.
—Ela pediu, mas Rei Joffrey me enviou aqui para vê-lo, antes da batalha. – disse Sansa, sem parecer nervosa e gostou que ela estivesse aprendendo a controlar o próprio rosto.
De fato, Joffrey apareceu em seguida, cercado pela Guarda Real, seu Cão incluso.
—Sansa! – riu o rei e Valerion tentou não olhá-lo com desprezo.
—Ele tem sido romântico. – riu Tyrion com deboche e Valerion desviou o olhar do garoto.
—Sansa, venha cá. – ordenou Joffrey e Valerion se contentou em seguir Tyrion. Sansa se virou para olhá-los, antes de ir até Joffrey.
—Rezarei para que retornem em seguranças, meus senhores. – prometeu ela com um sorriso gentil.
—Rezará? – perguntou Tyrion e Valerion sorriu.
—Confio que os Deuses hão de ouvi-la, minha senhora. – disse Valerion e Sansa sorriu, se virando para ir até Joffrey.
—Ela rezará para que Stannis nos mate... – riu Tyrion, baixinho – Bem... talvez ela reze pra você ficar vivo. Quem não rezaria por você?
Valerion sorriu sem jeito baixando o rosto. Seguiu com Tyrion para as muralhas e suspirou.
—Acha que vamos conseguir manter a cidade?
—Espero que sim. – disse Tyrion – Percebo que traz sua espada, mas não está vestido para a batalha. – adicionou ele. Valerion concordou e pressionou o braço.
—Agradeça a Joffrey. Meu braço infeccionou. O Meistre disse que se eu não me comportar, iria arrancar meu braço fora. – explicou em alto e bom tom – Não me arriscarei dessa maneira.
—Creio que Joffrey adorará lembrá-lo disso.
—Eu já provei que não sou um covarde. – riu Valerion – Não podemos falar o mesmo dele, podemos?
—Mas ele é o rei. – riu Tyrion – É perigoso chamar um rei de covarde, não acha?
—Mais perigoso ainda é um rei ser covarde. – riu Valerion – Mas tenho absoluta certeza de que Joffrey irá nos honrar com sua perícia com a espada.
Tyrion riu com desdém e os dois voltaram a apressarem-se.
Assim que o rei chegou, olhou para a imensa marinha de Stannis, que esperava no mar. Tinha dez navios para cada um dos deles. E o exército de Stannis era maior numa proporção de um para cinco. A única vantagem que tinham eram os muros nunca vencidos de Porto Real. Que aquela não fosse a primeira vez que caíssem.
—Valerion. Onde está sua armadura? – zombou o rei, tentando não olhar demais para a frota de Stannis.
—Guardada, Vossa Graça. O Meistre disse que não estou em condições de lutar. – explicou Valerion suspirando com pesar – Eu seria um peso morto. Em breve voltarei para meus aposentos, mas meus homens ficarão aqui para lutar.
—Um homem de verdade não se esconde atrás de seus homens. – disse Joffrey e Valerion sorriu.
—Fico feliz que acredita nisso, Vossa Graça. Seus homens também. – alfinetou. Joffrey olhou para os homens, que o olhavam com expectativa. Depois o rei olhou novamente para o mar.
—Onde está nossa frota? – perguntou ele.
—A caminho. – respondeu Tyrion.
—Por que não está aqui? A frota de Stannis já está. – adicionou ele e Valerion regozijou ao notar certo pânico na voz de Joffrey. Mas Tyrion não respondeu – Cão, diga à Mão que seu Rei fez uma pergunta. – rosnou Joffrey.
Cão revirou os olhos e disse:
—O seu Rei lhe fez uma pergunta.
—Valerion, diga ao Cão, para dizer ao Rei que a Mão está muito ocupada.
—Creio que os ouvidos de ambos funcionam bem, senhor. – riu Valerion.
—Se eu pedir, o Cão o cortará ao meio sem titubear. Os dois! – rosnou Joffrey.
—Isso faria de mim um quarto de homem. – riu Tyrion, sem parecer se importar com as ameaças de Joffrey – Corte-me ao meio e não poderei dar o sinal. Sem sinal, sem plano. Sem plano... – ele se virou e mirou Joffrey – Você acabará queimado por Stannis.
—Até que pode ser divertido. – disse Valerion dando de ombros.
—Minha cabeça também será queimada. – disse Tyrion – Então eu prefiro que pare de me amolar e espere. Nunca gostei da minha cabeça, mas não a quero vê-la removida, não ainda.
—Vossa Graça. – chamou uma voz conhecida. Hoster, que tinha voltado há pouco tempo, se aproximava, mas usava a armadura de um Lannister – Sua mãe, a rainha, pede que volte para a segurança do castelo.
—O que? – perguntou Tyrion, em choque – Cersei não está falando sério.
—A rainha deseja falar com o rei antes que a batalha comece. Não coube a mim questionar as ordens dela.
—O rei deve ficar aqui com os homens! – insistiu Tyrion – A batalha vai começar a qualquer momento! – adicionou ele. O anão olhou o sobrinho com urgência – Se não defender a sua cidade, porque seus homens defenderão?
Joffrey engoliu em seco e Valerion sorriu internamente, por mais sombrio que seu rosto estivesse. Joffrey era um covarde, sabia disso. Ele iria recuar. Tinha certeza.
—O que quer eu faça, tio? – perguntou o garoto, com certo pânico na voz.
—Lidere! – respondeu Tyrion – Fique aqui e lidere seu povo contra os invasores que querem te matar.
Joffrey respirou fundo e olhou para Hoster, que sorria por baixo do capacete.
—O que minha mãe disse? Ela precisa urgentemente de mim? – perguntou Joffrey.
—Sim. Urgente. – mentiu Hoster e Joffrey respirou fundo, como se estivesse tomando uma difícil decisão.
—Sor Boros, Sor Mandon. – disse ele para os dois homens da Guarda Real – Cão... fiquem com meu tio e representem o Rei no campo de batalha.
—Voltarei com você, Joffrey. Está na hora de tomar um pouco de leite de papoula. – disse Valerion. Tyrion o olhou vencido – Mas eu posso tentar te convencer a ficar durante o caminho.
Joffrey o olhou com desdém e se virou. Valerion o seguiu, junto de Hoster. Os dois caminharam para a Fortaleza Vermelha.
—Minha mãe o instruiu para qual lugar eu deverei ir? – perguntou Joffrey e Hoster deu uma risadinha.
—Não, mas eu conheço um lugar perfeito para te mandar.
—Cale a boca, Hoster. Não fale assim com o rei. – ralhou Valerion e Joffrey o olhou em choque – Já notou que temos a mesma altura, Joffrey? – perguntou Valerion – Eu sou mais velho, mas você é alto para sua idade. Mas se pararmos para pensar, Robert era bem alto... – Assim como Jaime Lannister.
—Minha mãe não o mandou aqui. Ela não mandou me buscar! – disse ele com acusação na voz.
—Não. Eu mandei meu amigo Hoster mentir. – riu Valerion enquanto eles marchavam pela Fortaleza Vermelha – Vamos para o quarto da Rainha.
—Eu não vou segui-lo. – rosnou Joffrey e Valerion sacou seu punhal, sujo de sangue, e o colocou no pescoço do rapaz.
—Sim, você vai. – rosnou ele – Porque por mais que eu despreze você e deseje vê-lo morto, eu vou ajudá-lo. Aceite isso como minha prova de lealdade. Agora ande. – disse baixando o punhal. Joffrey o olhou aterrorizado e os três marcharam para o quarto da rainha. Valerion começou a se despir e Hoster começou a retirar a armadura do rei.
—O que estão fazendo? – perguntou Joffrey, confuso.
—O lugar do rei é com seus homens. Mas vamos ser francos, eu já te vi lutando. Você é uma desgraça. Além disso é um covarde e a rainha não quer arriscar que você se machuque em batalha. – riu Valerion retirando a tipoia que prendia seu braço praticamente recuperado. Girou os dois braços, para testá-los e sorriu – Eu, por outro lado, sou um espadachim experiente, precisando cair nas boas graças da Rainha, que no momento me odeia. Além de já ter passado da hora de fazermos as pazes. Sim, me chamarão de covarde por ter evitado a batalha, por conta de alguns ferimentos. Mas todos vão cantar as proezas do admirável rei Joffrey, que enfrentou Stannis e seus homens para salvar sua cidade. – Joffrey já estava quase completamente sem armadura e seus olhos brilharam com compreensão – Então torça para que eu não morra, ou vai ficar muito feio pra você... e não deixe esse aposento antes do meu retorno. Não podem ver você por ai, ou vão descobrir nosso segredinho.
—Ninguém ficará sabendo. – disse Joffrey, parecendo aliviado. Com um sorriso divertido no rosto.
—Sua mãe ficará. E seu avô, quando ele voltar para Porto Real. E provavelmente seu tio. E Hoster, é claro. Mas as demais pessoas jamais saberão. – disse pegando o peitoral da armadura e o vestindo – Me ajude aqui, Hoster.
Os minutos passaram depressa e logo ele estava vestido com a armadura do rei.
—Tome a minha espada. É a Devoradora de...
—Eu não dou a mínima. – riu Valerion pegando a espada e a embainhando – Fique seguro, Vossa Graça.
—Você também. – disse Joffrey. Valerion se virou para sair, colocando o elmo de Joffrey – Sor Valerion. – se virou e o olhou – Obrigado.
—É uma honra, Vossa Graça. – disse solenemente, por mais que desejasse matá-lo a pontapés. Voltou apressado para os muros e piscou com a claridade que vinha do mar. Tyrion tinha incendiado um barquinho cheio de fogo vivo e queimado boa parte da frota de Stannis.
Para lá do Portão da Lama e da ruína que outrora fora o mercado de peixe e os cais, o próprio rio parecia ter se incendiado. Metade da frota de Stannis estava em chamas. O beijo do fogovivo transformava orgulhosos navios em piras funerárias e homens em tochas vivas. Rumo à foz, tanto plebeus como capitães de elevado nascimento conseguiam ver a quente morte verde rodopiar na direção de jangadas, galeões e balsas, conduzida pela corrente da Água Negra. Os longos remos brancos das galés de Myr relampejavam como patas de centopeias enlouquecidas lutando para se virar, mas não valia a pena. As centopeias não tinham para onde fugir.
Uma dúzia de grandes incêndios enfurecia-se sob as muralhas da cidade, onde barris de piche ardente tinham explodido, mas o fogovivo reduzia-os a simples velas numa casa em chamas, flâmulas laranja e escarlate que tremulavam sem significado diante do holocausto jade. As nuvens baixas capturavam a cor do rio em chamas e cobriam o céu em tons mutantes de verde de uma beleza fantasmagórica.
Pelo que notara, a batalha já começara do lado de fora dos muros, por isso se apressou para chegar até Tyrion. Coçou a garganta, tentando subir uma nota no tom de voz, já que Joffrey não tinha a voz grave como a sua.
—Tio. – chamou e Tyrion não o reconheceu. Se aproximou mais e o sacudiu – Tio. – disse e Tyrion o olhou, surpreso.
—Você... voltou... Joffrey?
—Quem mais iria ser? – perguntou sorrindo e Tyrion compreendeu tudo. Viu o amigo sorrir, divertido e concordar com um aceno de cabeça.
—Fico feliz que tenha voltado, Vossa Graça.
—Sim. Estou de volta e liderarei os homens na vanguarda. Sor Boros, Sor Mandon, Cão... – olhou ao redor – Onde diabos está o Cão?
—Deserdou. – respondeu Tyrion e Valerion bufou. Era uma excelente espada a menos, pelos Sete Infernos – Sor Boros ainda está lutando lá embaixo, assim como Sor Mandon. Representam o rei.
—Os procurarei no campo de batalha. Mas agora eu vou falar com os homens.
—Os inspire.
—Claro. – riu com desdém. – Homens! – gritou descendo os degraus e se unindo aos soldados, Tyrion o seguiu de perto, assim como Hoster – Seu rei está aqui e eu vou liderar o ataque! – gritou recebendo olhares surpresos. Muitos pareceram menos nervosos com o retorno do rei e ficou feliz que aquilo estivesse dando certo – Você – disse para um soldado qualquer. Nem mesmo era um Lannister – Qual o seu nome, senhor?
—Me chamo Murllok. – respondeu o homem.
—Parabéns, Murllok, você levará a bandeira real, já que a guarda real não está com o rei. – riu com enfado.
—É uma grande honra, senhor... – balbuciou o homem.
—Sim. Homens, em formação! – gritou sacando a espada de Joffrey e a exibindo – Vamos atacá-los.
—Só existe uma saída. E é por onde estão nos atacando. – lamentou Hoster.
—Existe outra saída. Eu mostrarei o caminho. – disse Tyrion, confiante – Os pegaremos pelas costas e foderemos seus rabos. – escutaram o som do aríete que tentava derrubar os portões.
O calor da batalha já começava a dominar Valerion. Pegou o lenço de Sansa e o enrolou no cabo da espada, para lhe dar sorte. Depois respirou fundo, o elmo abafando sua respiração.
—Senhores. – disse em alto e bom tom – Não peço que lutem por mim. Não peço que lutem pelo reino. – disse Valerion, recebendo os olhares de todos – Não... não lutem por honra, não lutem por glória. Não lutem por riqueza... pois não terão nada disso. – disse sendo sincero e todos seguiram a olhá-lo com atenção – Essa cidade é de vocês e Stannis quer saqueá-la! É o seu portão que ele está quebrando! – gritou e os homens soltaram gritos de desafio – Se ele entrar, irá queimar suas casas, roubará o que restou de suas coisas. Estuprará suas filhas e esposas e mães... Sim, ele colocará minha cabeça numa estaca. Mas eu não serei o único a sangrar. Ele irá matar vocês, destruirá seus deuses, suas vidas. Stannis é um homem cruel, matou o próprio irmão em Ponta Tempestade, matou o castelão também, e ele matará vocês. Cada um de vocês. Então lutem! – ele fez uma pausa, recebendo mais gritos de apoio – Homens corajosos estão batendo em nossa porta! Vamos matá-los. – e todos gritaram sacando suas espadas – Tio, mostre o caminho.
Seguiu Tyrion pelos muros da cidade, entraram em túneis que nunca tinha visto antes e então saíram numa saída de esgoto, escondida por algumas plantas. Liderou a marcha, contornou os muros e deslumbrou o flanco das tropas de Stannis.
—Pronto? – perguntou Tyrion.
—Não. – confessou – Mas vamos... – respirou fundo – JOFFREY! – gritou e correu, sendo seguido por seus homens – PORTO REAL! PORTO REAL!
Escutou os soldados gritarem. Rei Joffrey! Rei Joffrey! Rei Joffrey! Aquilo o enojou de leve. Atacaram os homens que usavam o aríete para derrubar os portões, alguns lutaram de volta e morreram, outros fugiram.
Próximo à foz, a Água Negra estava obstruída com os cascos de galés incendiadas. Manchas de fogovivo ainda flutuavam na água, lançando plumas de fogo verde, rodopiando a até seis metros de altura. Tinham dispersado os homens do aríete, mas Valerion viu que se lutava em toda a margem do rio. Os homens de Sor Balon Swann, provavelmente, ou os de Lancel, tentavam empurrar os inimigos de volta para a água, à medida que saltavam para a terra vindos dos navios que ardiam.
Os ignorou por um momento. Os homens que carregaram outrora o aríete tinham usado um barco para proteger os homens e o aríete dos soldados em cima dos muros. Por isso ordenou que virassem o barco para destruí-lo. De cima dos muros, os arqueiros jogaram óleo e ele mesmo queimou o aríete recebendo vivas e gritos de comemoração. Com isso salvaram os portões.
Através do aço e do almofadado do elmo conseguia ouvir gritos angustiados, o faminto crepitar das chamas, os estrondos arrepiantes dos cornos de guerra e o sopros metálicos das trombetas. Havia fogo por todo lado.
Que os deuses sejam bons. Não admira que Cão de Caça estivesse assustado. O que ele teme são as chamas…
Um enorme estrondo ressoou pela Água Negra quando um pedregulho do tamanho de um cavalo acertou em cheio, a meio navio, uma das galés. Nossa ou deles? Através dos cordões de fumaça não conseguia distingui-la. Sua formação tinha desaparecido; cada homem era agora sua própria batalha.
A espada de Joffrey pesava em sua mão. A espada de um rei... o lenço de Sansa estava amarrado no punho, sujo de sangue. Um punhado de homens ainda o seguia, incluindo Hoster e Tyrion, com seu escudeiro, os outros estavam mortos ou tinham fugido. Homens saíam do rio rastejando, queimados e ensanguentados, tossindo água, cambaleando, a maioria morrendo. Levou sua tropa por entre eles, dando mortes mais rápidas e mais limpas aos que ainda tinham forças para se manter em pé. A guerra reduziu-se ao tamanho da fenda para os olhos. Cavaleiros maiores fugiam dele, ou ficavam no mesmo lugar e morriam. Pareciam coisas pequenas e assustadas.
—PORTO REAL! – gritou, matando. Seu braço estava vermelho até o cotovelo, cintilando à luz que vinha do rio. Quando ergueu o olhar, movendo a espada, escutou o canto “Pelo Rei!”. Valerion sentia-se bêbado. A febre de batalha. Nunca desejara experimentá-la em pessoa, embora Aegon lhe tivesse falado dela com bastante frequência. Como tudo parecia desfocar e se tornar mais lento, e até parar, como o passado e o futuro desapareciam até nada haver além do instante, como o medo fugia, e o pensamento fugia, e até o corpo fugia. Não sentia as feridas ou a dor nas costas por causa do peso da armadura, ou o suor que escorria para os seus olhos. Deixara de sentir, deixara de pensar, deixara de ser ele mesmo, só existia a luta, o inimigo, este homem, e logo o seguinte, e o outro, e o outro. Sabia que eles tinham medo e estavam cansados, mas não ele. Sentia-se vivo, e a morte estava por todo lado a sua volta, mas as espadas deles moviam-se tão devagar que podia dançar por entre elas, com um sorriso de profundo êxtase no rosto.
—O REI! VIVA AO REI JOFFREY! – gritaram os homens enquanto lutava, sendo Joffrey. Enquanto matava seus inimigos.
A febre de batalha. Nesse momento eu sou um rei, lutando pelo meu povo, estou bêbado de morticínio, que me matem se conseguirem!
E tentaram. Outro lanceiro correu para ele. Valerion cortou a ponta da lança, depois a mão, depois o braço, andando em círculos à sua volta. Um arqueiro, sem arco, atirou-se sobre ele com uma flecha na mão, segurando-a como se fosse uma faca. Valerion soltou uma gargalhada roufenha, arrancando-lhe a cabeça antes que fosse alcançado. Passou por um estandarte enfiado na lama, um dos corações em chamas de Stannis, e cortou a haste em duas, com a espada do Rei Joffrey. Sua espada. Um cavaleiro ergueu-se vindo de lugar nenhum, lançando-lhe estocadas com a espada longa de duas mãos que brandia, uma e outra vez, até que alguém enfiou uma adaga por baixo do seu braço. Um dos homens de Tyrion, talvez. Não chegou a vê-lo.
—Rendo-me, sor! – gritou outro cavaleiro, mais adiante ao longo do rio. – Rendo-me. Vossa Graça, rendo-me a você. O meu penhor, tome, tome... – o homem estava deitado numa poça de água negra, oferecendo uma manopla articulada em sinal de submissão. Valerion teve de se inclinar para aceitá-la. Quando o fez, um frasco de fogovivo explodiu por cima de sua cabeça, borrifando chamas verdes. No súbito relâmpago de luz, viu que a poça não era negra, mas vermelha. A manopla ainda tinha a mão do homem lá dentro. Atirou-a de volta. – Rendo-me – soluçou o homem, sem esperança, sem amparo. Valerion recuou.
Um homem de armas atacou o rosto de Valerion com um punhal. Este afastou a lâmina e enterrou a espada na nuca do homem. Enquanto libertava a arma, um clarão branco surgiu no limite do seu raio de visão. Virou-se, pensando encontrar de novo Sor Mandon Moore a seu lado, mas aquele era outro cavaleiro branco. Sor Balon Swann usava a mesma armadura, mas os jaezes de seu cavalo ostentavam os cisnes branco e negro em batalha da sua Casa. É mais um cavaleiro malhado do que branco, pensou Valerion estupidamente. Cada centímetro de Sor Balon estava respingado de sangue e manchado de fumaça. Ergueu a maça para apontar para a foz. Pedaços de osso e cérebro agarravam-se à cabeça da arma.
—Vossa Graça, olhe.
Valerion virou-se para espreitar ao longo da Água Negra. A corrente ainda fluía, negra e forte, por baixo, mas a superfície estava turva de sangue e chamas. O céu mostrava-se vermelho, laranja e de um verde berrante.
—O que é? – ele perguntou. E então viu.
Escutou o grito. Seus homens se viraram e viram o exército de Stannis, que realmente chegava. Uma força muito maior do que a sua. Viu a guarda real se aproximar. Engoliu em seco. Sua primeira batalha de verdade. Não seriam camponeses famintos, armados com paus e facas. Mas soldados com armaduras, espadas, lanças e escudos.
—FORMAÇÃO! – gritou e seus homens se prepararam para o ataque. Estavam numa gritante minoria. Foi uma bagunça. Defendeu-se como pode, sentindo o braço latejar, mas ignorou. Era fácil ignorar. Muito fácil. Logo notou que só precisava se deixar levar pelo instinto. Talvez a guerra estivesse em sangue. Talvez, se Aegon o visse, não o chamaria de garotinha. Talvez dessa vez o orgulhasse. Desejou ter Aegon ali ao seu lado. O irmão mais velho transmitia uma sensação de que era indestrutível e ele gostaria de poder contar com a espada dele. Mas Aegon estava em Essos, em Qarth, pelo que Hoster dissera. E tinha três dragões com ele e com a rainha. Defendeu-se de um ataque de um soldado Florent e cortou sua cabeça fora. O calor do fogo vivo sufocava e o suor caía em seus olhos. Queria tirar o capacete, mas isso seria estragar todo seu plano. Se virou e viu um homem desarmar Tyrion. Avançou até ele, mas Hoster perfurou o homem com sua espada. Tyrion sorriu se abaixando para pegar seu machado de guerra, quando Sor Mandon brandiu a espada, cortando o rosto do anão – NÃO! – gritou em choque. Tyrion caiu no chão, zonzo e com o rosto ensanguentado. Nunca tinha atacado um homem pelas costas, mas não evitou. Afundou a espada de Joffrey na axila de Sor Mandon, o jogando no chão o homem o olhou em choque, parecendo confuso e Valerion afundou sua espada em seu pescoço.
—Acho que não é normal um rei matar sua guarda. – riu Hoster.
—Pegue Tyrion e o leve para o castelo! – rosnou furioso. Não teve tempo de gritar mais ordens, pois foi atacado de novo. Havia um grande alvo sobre si.
—PROTEJAM O REI! – gritou alguém e Valerion seguiu lutando e matando todos que sua espada alcançava. Mas logo estava exausto. Sempre estava sendo atacado. Estava cercado. Seu último plano... seria mesmo seu último plano. Engoliu em seco vendo-se cercado – PROTEJAM O REI! – gritaram de novo. Sentiu um golpe em seu braço ferido e isso o fez gritar de dor e cair no chão. Viu os homens Lannister correrem para fazer sua proteção, mas era questão de tempo até não restarem homens. Seguiu de joelhos respirando fundo, escutando sua respiração ecoar dentro de seu elmo. Lembrou-se de Shiera, de Aegon, do pai, da mãe... e de Sansa... sua doce Sansa. A havia beijado no Bosque Sagrado – PROTEJAM! PROTEJAM...
Levantou o olhar e viu outro homem de Stannis levantar a espada. Pareceu ver tudo em câmera lenta. Estava pronto para morrer, exausto, sem forças, mas o instinto de ficar vivo gritou mais forte. Rolou no chão e cortou as pernas de seu agressor, para ficar em pé e cortar sua cabeça.
—STANNIS! – gritou procurando pelo irmão de Robert – VENHA ME ENFRENTAR, STANNIS! APENAS EU E VOCÊ, SEU COVARDE! – gritou mais alto e precisou se defender de outro soldado. – STANNIS! – gritou novamente, mas não o via em lugar algum. Mais outro soldado. Defendeu um golpe e mais outro, depois o atacou, mas o homem sabia lutar e se defendeu. Seguiu atacando e atacando e sentiu outra pontada, dessa vez nas costas. Conseguiu matar o soldado e notou que uma flecha o havia acertado, perfurando sua armadura, mas o ferimento seria superficial. Quebrou a flecha e voltou a se defender. Matou mais um soldado e escutou o corno de guerra. Mas não vinha da direção de onde as tropas de Stannis apareceram, mas do lado oposto. Viu uma enorme tropa, com o estandarte do Leão dourado no fundo carmesin. Sorriu aliviado e voltou a lutar. Alguns homens começaram a gritar “Renly” e ele ficou confuso. Mas logo viu o próprio Renly Baratheon, liderando as tropas Tyrell. – Ele está vivo? O desgraçado? – perguntou em choque. Mas não teve tempo para pedir explicações, pois novamente foi atacado, dessa vez o espadachim lutava melhor, ou estava mais descansado. Porém um soldado Blackfyre o atacou por trás, salvando sua vida.
Quando as tropas Lannister e Tyrell chegaram de fato, os homens de Stannis começaram a recuar. Alguns trocaram de lado, gritando “Renly” e ele não reclamou disso. Continuou lutando até estar rodeado de soldados Lannister. O próprio Tywin veio vê-lo.
—Arranjem um cavalo para o rei! – gritou ele e logo estava sentado em um belo alazão. Depois disso, tudo ficou mais tranquilo. Cavalgou ao lado do avô do rei, que o olhava com orgulho, completamente satisfeito – Você luta muito bem, Vossa Graça. Não sabia disso. – disse ele. Valerion concordou com um aceno de cabeça e Tywin prosseguiu – A cidade está a salvo. – concordou novamente. Não queria falar agora. Só queria respirar – Ficará mais fácil de respirar se tirar o elmo.
—Prefiro ser cauteloso com as flechas, avô. – disse torcendo para que o elmo abafasse sua voz o suficiente para que não notassem que não era Joffrey. As pessoas se atentariam a esses detalhes com mais facilidade agora que o perigo parecia ter sido vencido. Foi guiado de volta ao castelo e de volta à sala do trono, onde Cersei estava com Tommen. Ela os olhou surpresa e ele mirou Renly. Não acreditava que Varys havia se enganado a respeito dele. E pelo que escutara, Renly nunca tinha sido um bom espadachim. Mas aquele ali se demonstrara extremamente hábil. Foi quando se deu conta que muito provavelmente aquele homem era Renly tanto quanto ele era Joffrey.
—Nós vencemos. – disse Kevan Lannister, fazendo Cersei sorrir de alívio.
—Joffrey! Mandei que procurassem por você, para colocá-lo a salvo. – disse Cersei vindo correndo – Foi Tyrion quem o obrigou a... oh, o sangue. Você está ferido?! Eu vou...
—O rei estava onde deveria estar. – disse Tywin e o falso Renly retirou o elmo, mostrando-se ser em realidade Loras Tyrell.
—Sim. – riu Valerion fazendo o mesmo. Cersei o soltou de imediato e Valerion sorriu dos olhares surpresos de todos – O rei está a salvo nos aposentos da rainha e estava lutando contra os homens de Stannis... mas onde será que estava Valerion Blackfyre? Espero que numa missão de extrema importância, para que compense seu desaparecimento durante a batalha. – adicionou com um sorriso vitorioso. Cersei o olhou em choque, mas então sorriu e o abraçou apertado.
—Obrigada... – murmurou ela.
—Eu sou fiel ao Trono de Ferro. – disse orgulhoso de si mesmo. Tudo tinha saído exatamente como planejara. Tywin Lannister não poderia ter regressado num momento mais oportuno...
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