Blackfyre
36 A Batalha da Muralha
Notas iniciais

A Batalha da Muralha
Shiera se olhou no espelho, enquanto Talisa lhe ajudava a terminar de ajustar sua armadura. Um presente feito sob medida por Robb, mas que ela só usara uma vez. Duas, se contasse o dia de sua fuga de Winterfell.
Engoliu em seco, escutando a movimentação lá embaixo.
—Você vai mesmo lutar, Shiera? – perguntou Rickon, ao lado de Ned. Cão Felpudo e Lady estavam andando de um lado para o outro, bastante agitados.
—Claro. É o meu reino e eu preciso defendê-lo. – ela se virou e sorriu para Rickon – Um dia você vai crescer e vai lutar ao meu lado, pequeno Rickon... – o garoto sorriu e concordou – Está com o punhal que eu te dei?
—Sim.
—Só use se precisar. Não pode brincar com ele. – disse autoritária, enquanto terminava de prender suas tranças, para que não atrapalhassem durante a batalha – Confio que vai proteger todo mundo aqui dentro enquanto eu lidero as arqueiras.
—Você sabe que poderia ficar aqui e se esconder, não sabe? – perguntou Talisa. Shiera concordou com um aceno de cabeça.
—E qual seria a graça disso? – perguntou colocando sua aljava nas costas e outra no ombro. Depois pegou o arco, verificou se sua espada estava bem presa em seu cinto, além de seus dois punhais – Cuide bem de Ned. – pediu olhando para seu bebezinho, que chupava dedo em cima da cama, sentadinho e com os brilhantes olhos violetas olhando atentamente para ela. Foi quando escutaram alguém bater na porta – Quem é? – perguntou.
—Samwel Tarly, senhora. – disse a voz do lado de fora. Shiera sorriu, pois já conhecia aquele gentil rapaz. Abriu a porta e sorriu.
—Sam... – ele estava acompanhado de uma garota com um bebê – Quem...
—Vossa Graça, essa é uma amiga, o nome dela é Goiva. Por favor, deixe que ela se esconda aqui. – pediu ele engolindo em seco. Shiera a olhou, desconfiada.
—Ela é uma selvagem.
—Por favor, Vossa Graça... ela é de minha total confiança. – implorou Sam, que parecia nervoso. Respirou fundo e concordou com um aceno de cabeça.
—Está tudo bem. Entre, Goiva. – disse gentilmente e a garota entrou, sendo observada pelos Imaculados do lado de fora – Eu já preciso ir. Vou me reunir às arqueiras. – disse excitada pela batalha eminente. Talisa concordou com um suspiro – Reze aos deuses por mim.
—Rezarei, senhora. – murmurou Talisa, olhando desconfiada para Goiva.
Shiera saiu de seu quarto. Vento Cinzento e Lady ao seu lado, mas ela se virou para Lady e negou com o rosto.
—Lady, você fica ai. Caso Cão Felpudo precise de alguém para controlá-lo. – explicou Shiera. Lady chorou baixinho e Shiera sorriu – Proteja-os, ok? – perguntou com carinho e Lady lambeu seu rosto antes de voltar para dentro. Vento Cinzento uivou e Fantasma uivou em resposta de algum lugar da Muralha.
—Eu fico impressionado como vocês Starks tratam essas feras como se fossem cãezinhos. – riu Sam, parecendo nervoso. Shiera sorriu para ele e deu de ombros.
—Vamos, Sam. Temos uma Muralha para defender... Onde está Jon? – perguntou tentando não parecer muito interessada na resposta.
—Ele está lá em cima, auxiliando Sor Allister... – explicou Sam e Shiera concordou com um aceno de cabeça.
—Bem, eu preciso subir. Minhas arqueiras já estão em posição?
—Sim, senhora.
—E Theon?
—Não tivemos notícias dele, mas com a nevasca que caiu, o rastro dele foi completamente apagado. – garantiu Sam – Só precisamos que ele não deserde com suas tropas.
—Impossível. Theon é meu homem de confiança. – disse Shiera com convicção. Pegou a gôndola junto com Sam, que mirava seu arco com interesse. Ergueu a arma para ele e ele murmurou.
—É aço valiriano... faz muita diferença num arco? – perguntou ele.
—Sim. – respondeu calmamente enquanto subiam para o alto da Muralha – Ele é mais leve e o alcance é muito maior... sem falar que as extremidades são lâminas. Posso usá-lo como espada também. Mas é difícil de manusear. – explicou. Sam suspirou, parecendo achar o arco muito interessante. Quando chegaram lá encima, Sam não saiu do elevador – O que foi?
—Eu vou proteger os portões sul, caso tenha sobrado algum selvagem deste lado da Muralha. – murmurou Sam, nervosamente e Shiera concordou. Ela se virou e foi até onde estava Nym, Vento Cinzento a seguindo sempre atento.
—Eles já pararam de se esconder? – perguntou.
—Sim... colocaram fogo na floresta e vieram com seus monstros e gigantes. – respondeu Nym, parecendo um tanto séria demais...
Shiera olhou para baixo e viu os Selvagens se prepararem para o ataque. Suspirou e armou o arco, colocando a flecha no lugar.
—Arqueiros! – gritou preparando o arco. Patrulha da Noite e Pontas de Prata armaram seus arcos. Concentrou sua atenção num dos gigantes, que montavam os enormes elefantes peludos – Preparem seus arcos. O restante fique em posição!
—A Muralha não é sua! – rosnou Allister Thorne.
—Quer medir bolas agora, senhor? – perguntou sem paciência. Seria melhor que os selvagens se aproximassem mais um pouco – Senhores, vocês estão prontos para morrer aqui esta noite? – perguntou Shiera.
—NÃO! – responderam Patrulha e Pontas.
—Ótimo. Preparem-se! – contou até dez – AGORA!
Centenas de flechas riscaram o ar, transformando noite em dia com suas pontas incendiárias. Escutou os patrulheiros gritarem, assim como os Selvagens e as trombetas soaram.
—Já sabemos que os Selvagens chegaram. – resmungou Nym.
—Não aqui. – rosnou Jon se aproximando de Thorne – Pelo portão Sul.
—Devem ter sobrado alguns... – murmurou Nym.
—Ou então outros pularam depois deles. – sugeriu Shiera. Thorne bufou zangado e se virou para Janos Slynt.
—Irmão Slynt, a Muralha é sua. – disse ele.
—E-e-e onde você vai? – perguntou Slynt, assustado.
—Eu vou lá embaixo cuidar desse imprevisto. – rosnou Thorne a olhando feio. Shiera revirou os olhos com óbvio desdém e voltou a atirar nos Selvagens lá embaixo. Precisavam segurar os Selvagens até o retorno de Theon. Se virou para Nym e disse.
—Cuide das Pontas de Prata.
—Onde você vai? – perguntou ela, confusa. Shiera apenas sorriu e correu para alcançar Thorne. Desceram juntos pelo elevador, ele fez um pequeno discurso motivador e ela preparou o arco.
Atirou em pelo menos dez selvagens antes que eles estivessem perigosamente perto demais. Um homem qualquer pulou contra si e ela cortou a cabeça dele fora com o arco.
Os Selvagens lutavam com muito furor e ela se lembrou da Batalha do Bosque dos Murmúrios, onde lutou ao lado de Robb. Ele a protegera e ela o protegera de volta.
Lutou contra outro selvagem e ele a fez perder o arco, mas quando ele estava prestes a lhe tirar a vida Vento Cinzento pulou em cima dele. Shiera recuperou o arco e atirou de novo em outro selvagem e então em outro, outro e outro. Vento Cinzento lhe protegia de quem chegasse perto demais.
Eu nasci pra isso. Pensou agitada, fervendo pelo furor da batalha, com o coração acelerado e o corpo dormente. Eu nasci para a guerra, para a batalha, para a conquista. Eu nasci pra ser uma rainha guerreira... como Nymeria foi... pensou se lembrando da história da rainha Nymeria, que havia conquistado Dorne, e tomara o Rei Mors Martell como seu esposo.
Quando outro selvagem tentou atacar seu lobo selvagem, ganhou uma flechada no olho esquerdo. Sentiu algo passar silvando por seu rosto e Shiera se virou com o arco pronto. Era outra selvagem com arco. Uma ruiva, com um olhar perigoso.
Shiera a colocou na mira e atirou, mas ela era rápida e se esquivou ao mesmo tempo que atirava. Esquivou-se também, aproximando-se um passo, para atirar de volta. A garota selvagem pulou da escada onde estava e atirou, por pouco não conseguiu esquivar e atirar de volta, aproximando-se mais um passo.
Ficaram nessa por um momento, até que a selvagem retirou um punhal e partiu para cima. Shiera se defendeu com o arco e lutou com sua inimiga. Ela era rápida, mas não tinha a disciplina de um soldado, algo que Robb e Theon lhe tinham ensinado. Aquela garota selvagem era crua e puro talento.
—Eu não sabia que garotas brigavam no sul. – riu a selvagem, com um sorriso provocativo – Achei que só rebolavam em seus vestidos de seda.
Shiera a atacou mais duas vezes e a garota retirou uma machadinha do cinto. Sacou sua espada e continuou a luta.
—Ainda não teve a chance de ver o que eu sou capaz de fazer num vestido de seda. – devolveu a empurrando contra a parede – Eu faço reis se ajoelharem.
—E eu faço corvos. – devolveu a mulher esquivando de seu golpe e a chutando.
Mas Shiera estava de armadura e mal sentiu o chute. Se virou rasgando o ar com a espada, mas a garota esquivou e jogou machadinha. Sentiu o rosto arder, mas não parou. Tinha sido de raspão. Atacou mais uma vez e mais outra, mas a garota esquivou. Porém ela não pode esquivar do próximo golpe e seu arco a perfurou nas costelas.
—E é assim que as mocinhas do sul lutam por aqui. – rosnou fincando o arco na garota. Recuou dois passos e segurou a espada – Qual o seu nome? Eu não vou esquecer você. – disse arfando. A ruiva sorriu.
—Ygritte. – suspirou ela – Fale com Jon Snow... – murmurou a garota e Shiera arregalou os olhos. Reconhecia aquele nome. Fora com ela que Jon quebrara seus votos. Por um tempo desejou matá-la, mas agora que sabia que Ygritte era aquela garota, não sentiu prazer nenhum com a morte dela – Ele não sabe de nada... – riu Ygritte.
—Não sabe mesmo. – murmurou – Eu sou Shiera Blackfyre.
—Você veio buscá-lo? – perguntou Ygritte, esbugalhando os olhos e Shiera teve certeza que a ruiva já ouvira seu nome antes – Ele ama você... aquele tolo... – e então ela ergueu o pescoço, com dificuldade para manter-se de pé – Um golpe rápido. Morrerei de pé, nunca me ajoelharei. Não viva.
—Respeito isso... – murmurou impressionada – Adeus, Ygritte. – murmurou cortando a cabeça dela, com a espada. Se virou sentindo-se estranha. Jon ficaria furioso se soubesse que a tinha matado? Estavam em lados diferentes, ele não deveria ficar zangado... – E se ficar, não é problema meu. – disse para si mesma, antes de pegar o arco e atirar em um selvagem qualquer – Foi minha última flecha. – resmungou pendurando o arco no ombro e largando as aljavas. A corda do arco molhara com o sangue e agora não estava funcionando. Sacou a espada e gritou – WINTERFELL! – antes de partir para cima de um selvagem qualquer.
Mais patrulheiros desceram do topo da Muralha e eles foram capazes de render os selvagens. Mataram boa parte, mas a conselho de Jon, mantiveram alguns como reféns.
Se virou para ir até Ned, na Torre da Rainha, mas quando estava no meio do caminho, alguém lhe puxou pelo pulso.
—O que você estava fazendo aqui?! – perguntou Jon, parecendo zangado – Você deveria estar lá em cima, a salvo, com as arqueiras.
—Eu não ia ficar lá parada enquanto precisavam de mim aqui. – o afastou de uma vez – Eu estou bem.
—Está ferida. – ralhou ele passando a mão por seu corte, na altura da maçã do rosto – Perdeu um pedaço da orelha.
—O QUE?! – perguntou colocando a mão na orelha, mas Jon riu – Seu idiota! – ralhou o socando no peito – Eu acreditei! – ralhou e ele segurou seus pulsos.
—Fico feliz que esteja bem. Sua louca. – riu ele a olhando nos olhos. Sentiu o coração acelerar e estava para beijá-lo, quando escutou um rosnado. Piscou confusa e se virou, era Vento Cinzento.
—Está tudo bem, garoto. É só Jon... – riu sentindo-se constrangida, como se fosse o próprio Robb quem a tivesse flagrado. Mas Vento Cinzento continuou rosnando e latindo para Jon – Vento Cinzento! Pare com isso!
—Robb? – perguntou Jon. Shiera o olhou confusa – Robb, é você? Você era um warg? – perguntou Jon e Vento Cinzento rosnou de novo – Eu... eu não sabia, me perdoe, Robb... – murmurou Jon e Shiera o olhou sem entender nada.
—Bateram forte demais em sua cabeça, Jon Snow. – riu sem entender – Vamos, Vento Cinzento. Junto. – disse voltando a subir as escadas. Jon não a seguiu – Não precisa ficar com ciúmes, Vento Cinzento... – murmurou para o lobo, que parecia enfadado – Eu e Jon nunca ficaremos juntos... nós escolhemos seguir caminhos separados. – murmurou afagando a cabeça do lobo, que expirou, como se estivesse bufando – Pare com isso, seu lobo bobo... – disse com um sorrisinho. Logo chegou em seus Imaculados, que estavam de guarda – Tudo certo? Vocês são apenas oito, deixei dez aqui.
—Tentaram entrar pela janela. – explicou Nekk – Deixamos dois Imaculados lá dentro, por garantia.
—Certo. – abriu a porta e Vento Cinzento correu para dentro, mesmo estando imundo de sangue. Ele olhou para a cama, onde Ned estava e só então pareceu se acalmar. Shiera sorriu ao ver que estava tudo bem e notou que tinha mais alguém ali – Janos Slynt? – perguntou confusa e ele a olhou, envergonhado.
—Esse bundão entrou aqui, morrendo de medo. – explicou Talisa, parecendo se divertir – Os Imaculados iam matar o idiota, mas eu achei que Lorde Slynt poderia ficar te devendo essa. – riu ela e Shiera sorriu cruelmente.
—Obrigada por isso, Talisa. – disse sorridente – Saia daí, Janos. Precisamos de você. – disse retirando a espada da bainha.
**
Quando o dia nasceu, todos pareciam muito cansados e fatigados. Shiera ajudou a cuidar dos feridos com suas ervas medicinais, então teve uma boa noção da quantidade de feridos. A Patrulha da Noite tinha cento e dois membros, contando com Meistre Aemon. Agora tinha apenas quarenta e nove, também contando com o Meistre.
Shiera também teve baixas. Suas pontas de Prata que ficaram no portão sul foram quase todas mortas. Eram poucas, umas vinte, mas apenas cinco sobreviveram.
Depois de ajudar o máximo que seu corpo resistiu, foi descansar e acabou dormindo por toda a tarde, acordando apenas pela noite.
Mance tentou invadir a Muralha, destruindo o portão, mas os Patrulheiros impediram, matando os dois gigantes que tentaram. Um mamute morreu dentro do túnel e acabou servindo de escudo.
O dia seguinte amanheceu com apenas uma baixa da Patrulha. Um homem que levara uma flechada no peito e não resistira ao ferimento. Mas os mortos de Mance Rayder formavam pilhas para servirem de fogueiras.
No segundo dia Jon disse que iria atravessar o túnel para conversar com Mance.
—Essa é a ideia mais idiota que eu já escutei. – ralhou com ele.
—Tem uma ideia melhor? – perguntou ele – Onde está Theon?
—Eu não sei... – disse começando a ficar aflita.
—Eu digo o que aconteceu com ele. A essa hora ele deve estar morto, com olhos azuis. Mais um pro exército dos mortos. Eu vou falar com Mance e vou tentar matá-lo. Foi ele quem reuniu os clãs. Se ele morrer, os líderes selvagens vão brigar entre si e teremos uma chance de fazê-los recuar.
Jon Snow estava esquivo novamente, como costumava ser em Winterfell. Ele sempre lançava olhares constrangidos para Vento Cinzento e Shiera o achava um tanto idiota por achar que Robb tinha virado seu lobo.
—Nunca vão te deixar voltar. Você vai morrer. – disse Sam.
—Morrerei de qualquer jeito. Aqui ou lá... a diferença é que posso fazer a diferença lá.
—Eu vou com você. – disse Shiera e Jon a olhou como se ela fosse louca.
—Não mesmo.
—Eu vou sim. – insistiu – Eu vou negociar a paz com Mance, antes que você tente se matar.
—Eu não vou deixar você ir. – rosnou Jon lhe segurando o pulso.
—Me largue agora mesmo. Eu sou a Rainha no Norte e a Rainha Regente.
—Se for lá será apenas uma morta. – rosnou Jon.
—Mas poderei fazer a diferença. – devolveu com ironia e Jon revirou os olhos.
—Por que precisa ser tão teimosa? – resmungou ele.
—Olha só quem fala. – devolveu – Eu falo com Mance primeiro, depois você. Se você tentar matar o homem antes que eu fale com ele não vou ter a menor chance.
—Mance não vai querer fazer um acordo com você. Eles não seguem nossos costumes, nem nossas leis. – disse Jon e Shiera bufou.
—Bom, vão ter que dar o braço a torcer, ou vão ficar do lado errado da Muralha. – insistiu e Jon bufou novamente.
—Eu vou com você, de qualquer modo. – disse ele e ela deu de ombros. Tinha deixado Vento Cinzento com Ned e agora era Lady quem a acompanhava.
—Lady, fica. – murmurou para a loba, que chorou baixinho – Eu já volto, garota. – prometeu. Lady ficou sentada, comportadamente e Shiera e Jon se esgueiraram entre o mamute morto e a parede de gelo da Muralha. Atravessaram o túnel em silêncio, mas ela acabou por perguntar – Por que chamou Vento Cinzento de Robb?
Jon suspirou, desviando o olhar, antes de responder de maneira hesitante.
—Eu conheci um troca-peles, quando estava infiltrado com os selvagens. Quando eu o matei, ele ficou vivo dentro de sua águia... eu pensei que... talvez Robb... – ele parou e Shiera sentiu o coração acelerar – Talvez Robb esteja vivo... dentro de Vento Cinzento... por isso ele... por isso ele...
—Ficou zangado com nossa aproximação? – perguntou Shiera sem saber o que pensar daquilo. Jon concordou com um aceno de cabeça – E você já viu um troca-peles? Não é um truque?
Jon a olhou nos olhos.
—Não é um truque.
—Então é possível que meu marido esteja vivo no nosso lobo? – perguntou confusa.
—Por um tempo. – disse Jon – Dizem que com o tempo sobra apenas o animal...
Shiera olhou para a Muralha e suspirou.
—Vamos... não é hora pra isso. – passaram pelo cadáver de vários selvagens, além do de alguns gigantes. Acabaram entrando no acampamento dos selvagens e foram cercados pelos mesmos – Eu sou Shiera Blackfyre, rainha de Winterfell, Rainha do Norte. Eu vim para negociar. – disse em alto e bom tom. Um homem alto e até bastante charmoso apareceu e olhou Jon dos pés à cabeça.
—Está usando o manto negro de novo... – disse ele, mas depois ele a olhou – Lady Shiera. Está mais bonita do que da última vez que a vi. – disse ele e Shiera piscou.
—E já tinha me visto antes?
—A vi dançando com o homem com quem acabou se casando. Robb Stark. – riu ele – Eu sou Mance Rayder. Entre. – disse ele apontando para dentro de sua tenda. Obedeceu e entrou, com Jon em seus calcanhares – O que veio fazer aqui, Shiera? – perguntou ele.
Shiera respirou fundo.
—Eu sei do que vocês fogem. Eu os vejo em meus sonhos. – disse calmamente e Mance a olhou com interesse.
—Vê? – perguntou ele.
—Eu tenho o sangue mágico da antiga Valíria correndo em minhas veias. Então sim, eu vejo. Eu vi os Caminhantes Brancos trazendo os mortos para seus exércitos, com a única intenção de acabar com tudo aquilo que é vivo. – disse calmamente – Eu entendo que queiram atravessar a muralha. Ela é nossa maior defesa contra o que está vindo. – explicou ela – Quantos mais de vocês ficarem aqui desse lado, maior será o exército deles.
Mance a olhou com interesse e depois se virou para Jon Snow.
—Agora eu entendo o motivo por ter se apaixonado por ela, Jon. – riu ele e Shiera sentiu o rosto ferver. Ela olhou para Jon, que parecia querer se enfiar em um buraco – Eu errei em confiar em você, Jon Snow... eu contei com sua lealdade, quando comprometeu-se conosco. Contei de verdade. Mas você me enganou. – e então ele a olhou – Por que deveria acreditar em você?
—Porque eu preciso dos seus homens assim como você precisa entrar nas minhas terras. – disse Shiera simplesmente.
—Não serão mais suas quando nós a tomarmos.
—Eu as tomarei de volta, com a ajuda do meu irmão. Ele tem dragões. – disse calmamente e Mance a olhou com um sorriso. Depois ele gargalhou, parecendo achar muita graça.
—Dragões? – debochou ele.
—Três deles, Sor. – Shiera deu um passo em direção a Mance e sorriu – Pague pra ver. – desafiou e Mance a olhou com mais atenção – Eu pretendo queimar os Caminhantes Brancos com os dragões de meu irmão. Você e seu povo estarão no caminho quando eu fizer isso? – perguntou ela e Mance continuou a olhando em silêncio.
—Se você tem dragões, por que eles não estão aqui? – perguntou Mance e Shiera suspirou.
—Porque meu irmão se atrasou um pouco, mas tenha certeza, Sor. Ele virá.
—Não sou um Sor, milady. – riu Mance – E não acredito em você. – adicionou ele. Shiera suspirou novamente e sorriu.
—Então vai pagar pra ver? – perguntou dando um passo em direção a ele – Diga, Mance Rayder. Você já viu um dragão? – perguntou ela dando outro passo – Já tocou as duras escamas de um deles? Já sentiu o hálito quente, fervente que eles possuem? Já viu a sombra negra e enorme, maior do que qualquer coisa, que eles deixam quando voam pelos céus? Você sabe como matar um dragão?
—E você já viu todas essas coisas? – perguntou ele.
—Já. – respondeu Sheira – Eu vi nos meus sonhos. E quando eu vejo nos meus sonhos, Rayder... – o olhou nos olhos e notou um sorriso interessado no rosto dele – acontece... – disse quase num sussurro.
—Prove. – desafiou ele. Shiera suspirou.
—Não controlo meus sonhos, senhor. – riu ela – Eles apenas vem. Eu os interpreto. Algumas vezes interpretação não é nem mesmo necessária. Algumas vezes vejo claramente, como se fosse com meus olhos e não com a mente... e num desses sonhos eu vi meu irmão, com três dragões. Um verde e cobre, um pérola e dourado e o último... – Shiera sorriu se lembrando de suas visões – Negro como a noite, com pinceladas rubras, como o sangue... tão grande, tão enorme... que é como se fosse o próprio Balerion, de Aegon, o Conquistador... uma coincidência curiosa, meu irmão se chamar Aegon também. – disse num tom quase doce e Mance sorriu.
—Você fala apaixonadamente. – disse ele se sentando em um toco de madeira que tinha sido feito de banco – Parece até uma música... música que donzelas cantam...
Shiera o cortou sem se importar em ser educada.
—Eu não sou uma donzela inocente, senhor. – disse apertando os olhos – Eu lutei em batalhas ao lado do meu falecido e amado marido. Eu matei e feri homens maiores que eu. Eu dei um filho e herdeiro para o Norte. Eu não sou uma mocinha falando tolices, não me tome como uma. – disse num sibilo ofendido – Eu vim aqui como uma rainha, para negociar. Eu não quero vê-los todos mortos. Jon Snow disse que você tem um exército de cem mil homens... mas isso não é exatamente verdade. Você tem cem mil pessoas. Mulheres, velhos, crianças, criadores de ovelhas, construtores, ferreiros, caçadores, músicos, curandeiros, agricultores... pelo menos metade de seu exército não está mais apto para lutar do que minha dama de companhia.
—Eu não subestimaria minhas mulheres e crianças, senhora.
—E eu não subestimaria minha dama de companhia, senhor. – riu Shiera com um sorriso divertido – Eu quero deixar que passem para o sul. Não quero um massacre. Quero-os seguros. Desejo dar-lhes uma terra para plantar e produzir. A oportunidade de sobreviver ao inverno que está chegando. Mas minha casa foi tomada, meu marido foi traído e morto. Me ajude a derrotar meus inimigos e vocês terão terras férteis ao sul da Muralha. Alguns de vocês terão até castelos. Jurem respeitar as leis do Norte. Jurem lealdade a mim e ao meu filho... – respirou fundo – E eu direi que são meu povo. Eu direi que devem abrir os portões e que vocês irão passar. E ninguém mais precisará morrer.
—Você tem uma oferta doce. – riu Mance.
—Eu tenho. – concordou.
—Mas meus homens não seguirão você. – disse ele e Shiera engoliu em seco.
—Então que sigam a nós. – disse determinada. Mance a olhou parecendo curioso – Eu sou uma rainha, você é um rei. Vamos unir nossas casas. Meu filho mais velho governará Winterfell. Os filhos que tivermos serão donos de Forte Pavor. Vamos forjar uma aliança forte.
Mance a olhou em silêncio por alguns segundos. Depois ele se levantou e a rodeou, a olhando com algum interesse. O acompanhou com o olhar e notou que Jon não parecia nada feliz. Eu também não estou, Jon... mas essas coisas precisam ser feitas. Eu farei qualquer coisa para manter o Norte seguro e para me vingar.
—Você é uma bela mulher. – riu Mance – Muito bonita. E há fogo em você... nem parece que nasceu do outro lado da Muralha. – riu ele e Shiera o olhou – Mas não posso aceitar sua oferta, por mais tentadora que seja. – ele fez uma pausa e Shiera o olhou ligeiramente surpresa – Eu sou casado. Minha esposa está em trabalho de parto. Em qualquer momento meu filho nascerá... e então eu vou derrubar aquele portão, com ou sem a sua permissão.
Shiera bufou, contrariada.
—Prefere fazer seu povo sangrar mais?
—Ele sangrará de qualquer maneira... pela sua guerra, não é? Eu não vou obrigá-los a resolver os seus problemas. – disse Mance e Shiera deu uma risada.
—E você acha que os malditos que traíram meu marido vão simplesmente dar boas vindas a vocês? – perguntou ela achando graça – Se não nos unirmos, vocês vão morrer de qualquer maneira. Seja aqui, seja do outro lado da Muralha.
—Nos unirmos? Nos unirmos com quem? – perguntou ele – Você só tem uma centena de arqueiros. Meus troca-peles viram isso. – riu ele e Shiera sorriu.
—Você não sabe de nada, Mance Rayder.
Foi quando ouviram o som de uma corneta.
—São soldados! – gritou alguém do lado de fora. Mance se virou de uma vez e a olhou.
—São seus? – perguntou ele.
—Não se preocupe. Deve ser apenas uma centena de arqueiros, não é? – perguntou calmamente. Mance tirou uma espada da bainha e Jon fez o mesmo, assim como Shiera. Dois selvagens que estavam na tenda também tiraram suas armas e Shiera falou, antes que começassem a lutar – Disse que sua esposa está em trabalho de parto. Se eu morrer, não vai ter ninguém para dizer aos meus soldados que não a machuquem. – disse calmamente – Se eu morrer, você perde a esposa e seu bebê, sem nem mesmo ter o direito de pegá-lo no colo uma vez que seja. – garantiu.
Mance a olhou furioso e bufou.
—Quantos soldados são?
—O suficiente. – riu ela – Eu sou a Rainha no Norte, Mance Rayder. Eu trouxe o Norte comigo.
Logo começaram a escutar o relinchar dos cavalos, o som do aço batendo contra aço, o grito dos homens... a música de batalha.
Mance saiu da tenda e Shiera o seguiu. Viu seus estandartes flamejando enquanto seus homens atacavam, mas também notou que havia outro estandarte entre eles. Um veado num coração em chamas. Stannis?
Mirou Jon, que pareceu notar o mesmo que ela. Ele a olhou com preocupação e se virou para Mance.
—São muitos. – murmurou ele.
—Eu disse que eram. – disse simplesmente – Se rende?
—Posso me render... mas jamais me ajoelharei. – jurou ele. O homem a olhou, preocupado – Meu filho. Me jura que ele estará a salvo?
—Tem minha palavra. – garantiu.
—Então aqui estão minhas espadas. – disse ele as jogando no chão.
—Vamos para junto de sua mulher, Mance. Eu garantirei a segurança dela.
A tenda da mulher de Mance era logo ali do lado e ele entrou para ficar com ela. Sua infantaria chegou e ela sorriu ao ver Theon. Ele desceu do cavalo e se ajoelhou a sua frente.
—Lady Shiera, desculpe o atraso, mas nós tivemos um imprevisto.
—Stannis? – perguntou ela.
—Não apenas ele. – disse Theon, ficando de pé – Mas o que sobrou do exército de Robb. Riverrun caiu, mas o Norte não se rendeu. – garantiu Theon e Shiera sorriu ao entender o que ele quis dizer. Grande Jon e Lorde Kastark se aproximaram a cavalo.
—Ficamos felizes em saber que está a salvo, Vossa Graça... – murmurou lorde Kastark – E eu realmente sinto muito por Robb... – adicionou ele. Shiera desviou o olhar, sentindo pesar.
—Quantos homens temos agora, Theon? – perguntou preocupada, olhando os muitos estandartes de Stannis – Tenho que me preocupar com ele?
—Em algum momento sim, mas não agora. – garantiu Theon – E nossas forças são agora de pelo menos oito mil homens. O restante deserdou, foi morta ou então capturada. Alguns dos lordes se renderam e levaram suas espadas embora.
—Mas o Norte não se rendeu. – garantiu Grande Jon – Os Umber, os Mormont, os Kastark... entre outros corajosos e fieis... nós voltamos para nossa rainha. – disse ele e Shiera o olhou sem muita simpatia. Seu sorriso foi apenas para lorde Kastark, afinal não se esqueceria de todas as coisas que Jon Umber tinha feito e dito.
—Fico feliz com o retorno de vocês. – disse gentilmente.
—O herdeiro de Robb? Ele está bem? Escutamos rumores que o maldito traidor do Roose o matou. – rosnou Grande Jon.
—Ele está bem.
—Como eu disse que estava. – cortou Theon – Mas eles não acreditaram em mim.
—Ok, não é hora para isso. Stannis está vindo aí. – disse Lorde Kastark.
Shiera não conhecera Stannis, mas imaginou que ele era o homem com a armadura com o desenho de um coração em chamas. Ele vinha acompanhado de alguns lordes e a olhou de maneira analítica. Um homem alto e forte, ombros largos, com uma barba negra e branca, os cabelos curtos, grisalhos, com uma careca bem evidente em boa parte da cabeça. Os olhos eram iguais aos de Robert, de um azul escuro profundo, mas os lábios eram finos, pálidos, as bochechas eram encovadas. Ele não tinha o carisma de Robert e nem a beleza de Renly.
—Você é Shiera Blackfyre? – perguntou ele.
—Sou Shiera Stark, Sor. – respondeu.
—Quando se dirigir ao rei, o trate como Vossa Graça. – ralhou um homem pequeno e de rosto comum.
—Ele não se dirigiu desta maneira comigo. – riu Shiera de maneira insolente e Theon deu sua típica risadinha. Stannis não sorriu e a olhou enfadado.
—Stannis é o legítimo rei dos Sete Reinos. – disse o homem e Shiera sorriu.
—Oh, esses corvos... não recebeu nossa carta? – perguntou com sarcasmo – O Norte proclamou independência. – adicionou calmamente. Stannis olhou para ela, sem paciência.
—Onde está o Rei-Pra-Lá-Da-Muralha?
—Ele se rendeu a mim e está nessa tenda. Ele é meu prisioneiro, assim como a família dele. E estão sob minha proteção. – disse firme e Stannis deu uma risadinha.
—Você é igualzinha a sua mãe. – disse ele e ela empinou o nariz.
—Tomarei como um elogio. – disse calmamente e Stannis olhou ao redor.
—Os seus soldados e os meus vão terminar de recolher os prisioneiros. Enquanto isso podemos tratar de alguns assuntos políticos. Vossa Graça. – e essa última frase ele falou com um desdém debochado. Shiera fechou a cara, sem gostar do tom dele, mas então sorriu.
—O encontrarei lá, depois. – disse simplesmente – Primeiro preciso orientar meus homens a queimar os mortos... cada um deles... – se aproximou um passo de Stannis e sorriu – Afinal eu já sei o suficiente para entender o que está acontecendo por aqui.
**
Fale com o autor