Blackbirds - Interativa
13 Rotten To The Core
Notas iniciais
– Lily? Lilian Ludwig? — Alice perguntou, visivelmente surpresa.
– Pelo menos da última vez que conferi minha identidade.
– Ah tá, essa aqui é Alice Peters, eu sou Nathan, muito obrigado por perguntar, agora vamos embora daqui antes que alguém chegue. — Nathan as apressou.
– Você vem com a gente? — Alice perguntou para Lilian. A loira olhou do cadáver aos seus pés para os dois na sua frente, medindo as escolhas. Se ficasse ali iria ser presa com certeza.
– Vou.
Os três foram até o carro de Alice, que arrancou assim que pôde. O portão do estacionamento estava arrancado, provavelmente pelas pessoas que saíram dali em disparada. Alice dirigiu para fora do estacionamento com Nathan ao lado e Lilian no banco de trás. Quando alcançou a estrada de volta para Ashaway já se passava das duas da tarde.
– Como você nos achou?
– Vocês não estavam sendo muito discretos. — Lily contou. — Passei pela cidade e havia um alvoroço pelo shopping, a polícia fechando tudo, gritavam que era um ataque terrorista. Pensei que não fazia mal dar uma checada e fui até lá. A entrada estava sendo evacuada, então entrei pelo estacionamento. Foi ali que achei vocês.
– Hum… Você nos achou…?
– Se está tentando perguntar se eu vi vocês dois enforcando aquele homem, sim, eu vi. — Lilian contou, suspirando. — Mas ele não tinha a cara de bons amigos e tentou matar vocês também. Decidi esperar um pouco.
– Ah. — Alice se mexeu no banco do motorista, desconfortável. Lilian olhou para os dois. Pareciam ter uma desconfiança mútua um pelo outro velada, mas pareciam parceiros em algo. Ela estava definitivamente muito curiosa. — Você pode não contar sobre esse episódio pra ninguém?
– Ninguém…?
– Meu irmão e o resto do pessoal que está lá em casa. — Alice respondeu.
– Ah! Mais Blackbirds? — Lily perguntou.
– Legados. — Nathan respondeu dessa vez. — Pela ficha de todos lá, eu chuto que seus pais também morreram, não é?
Lilian ficou calada, pensando se falaria ou não.
– Sou só eu no mundo. — Respondeu.
– Foram assassinados também?
– Podemos mudar de assunto? — Ela pediu. Alice deu de ombros e Nathan virou o rosto para a janela.
O resto da viagem até Ashaway foi feita em silêncio, com Lilian olhando as paisagens, Nathan vendo alguma coisa no celular e Alice batucando as mãos no volante como se precisasse fazer alguma coisa.
– Nathan, quero que ligue pro Michael. — Alice finalmente falou. Lilian resolveu ficar de fora da conversa para observar.
– Alice, ele deve estar bem…
– Eu não me importo, eu só quero saber se o Michael está bem. — Alice o cortou rudemente. Nathan soltou um suspiro como se estivesse cheio da ruiva e digitou alguma coisa no celular.
– Ele não tá atendendo. — Contou. Alice começou a morder o lábio, nervosa. Então soltou uma respiração e cobriu o rosto novamente com uma calma forçada.
– Vemos isso quando chegarmos em casa. — Disse, acelerando. Era incrível estar dentro de um maserati à 150km/h. Lilian se perguntou se não havia limites de velocidade ali e se Alice ao menos dava a mínima para isso.
Ashaway não era nada mais que uma pequena cidade no estado de Rhode Island, mas de cidadezinha não tinha nada. Lá só haviam ricos como os Peters, com mansões que variavam de grandes para muito grandes. Assim que cruzaram os portões, viram as enormes mansões com espaços maiores ainda entre elas. Tudo enorme, tudo vibrando em verde. Senão verde da grama, com certeza do dinheiro que era óbvio que era muito. A propriedade dos Peters logo lhe chamou a atenção porque obviamente parecia bem protegida. Ao invés dos vizinhos, a mansão era rodeada por muros grandes com cercas elétricas. O portão era negro e com formas de pássaros no ferro. Alice parou o carro ao lado de um interfone e apertou o botão, dizendo que era ela. Lilian procurou pelo corvo, o pássaro da sua família no meio das aves. Curiosamente, o corvo estava mais afastado dos outros pássaros, empoleirado no ferro como se fosse uma árvore, apenas observando os outros. Não parecia um bom pressentimento que até no portão o corvo parecia afastado, mas ela ficou contente. Com certeza ali era seu lugar. Só parou de pensar nisso quando os portões se abriram, dando lugar para o incrível jardim. Era um labirinto na verdade, arbustos se cruzando, dando nós na cabeça de quem tentava achar uma entrada ou saída. Ao redor do labirinto, a estrada de asfalto, que era ao lado das árvores de copas enormes, protegidas por mais muros. A propriedade inteira era um forte enigmático e assombroso. Lá no fundo, a mansão, quatro andares e muitas janelas, com enormes portas de carvalho. Alice parou o carro na frente da escadaria que dava para as portas, e Lily desceu, com a mochila nas costas. Assim que chegou nos Estados Unidos deu um jeito de se livrar da mala e comprou uma mochila suficientemente grande. Com ela nas costas, Lily se ajeitou o melhor que pôde e subiu as escadas com Alice e Nathan. Os dois não pareciam nem um pouco assombrados pela aparência da casa, mas Lilian sim. Virou o rosto para trás, olhando para o labirinto. Seria incrível ter a oportunidade de desvendá-lo algum dia.
Alice tocou a campainha e não muito depois um mordomo abriu as portas.
– Alice, não lhe esperava aqui tão cedo. — O homem disse. Era magro e alto, com um bigode bem cuidado e cabelos pretos com muitos riscos cinzas. Parecia ter cinquenta e poucos, bem conservado. Debaixo do terno e gravata com certeza tinha músculos, talvez de algum esporte.
– Thaddeus, meu irmão já voltou? — Alice perguntou. Thaddeus franziu as sobrancelhas negras.
– Não, Alice. Não o vejo desde que saiu. — Ele respondeu. Alice pareceu extremamente assustada de repente e colocou as mãos no rosto, o esfregando como se tudo fosse um sonho. Thaddeus colocou a mão no ombro da ruiva e lhe deu um meio abraço. — Quer me contar o que aconteceu, Alice?
Lilian estava surpresa pela súbita emoção nos dois, Nathan idem.
– Aconteceu um ataque, Thaddeus. — Alice contou, como uma menina que conta tudo ao pai. — Não consegui fazer muito e agora Michael e Kai estão por aí…
– Alice, seu irmão é inteligente. — Thaddeus deu um sorriso para apoiá-la. — Com certeza todos conseguiram fazer alguma coisa e já devem estar voltando.
– Obrigada Thaddeus. — Ela deu um breve sorriso. Thaddeus a largou e passou a mão pelo rosto dela como um pai.
– Preciso resolver alguns assuntos dos empregados querida, preciso ir. — Com um sorriso, o homem saiu da sala, deixando os dois sozinhos. Alice pareceu se recompor em segundos, já com a habitual expressão.
– Se ele não desconfiar de nada, quer dizer que nada aconteceu, tudo bem? — Alice se voltou para os dois. — Thaddeus é um homem que não tem problema em nos dedurar para Michael e se ele pensar que estou mentindo…
– Não pareceu uma mentira. — Lily a cortou de repente.
– Eu menti e não menti. — Alice deu de ombros. — As melhores mentiras tem um fundo de verdade. Nathan, tenta ligar pra alguém. Lilian, terceiro andar, segunda porta à esquerda.
~~~~~~~~~~
Alexander chegou ao térreo já procurando pelo grupo de Kai e as meninas. Só via uma movimentação em uma loja – de roupas – então foi até lá o mais rápido que pôde. O homem lá dentro estava armado e apontava para trás do balcão, se aproximando furtivamente. Antes que ele chegasse até o balcão, Alexander correu até ele e deu um soco na nuca dele. O homem não caiu como ele planejava, e começou a lutar com ele. Alexander se desviou dos socos e lhe acertou alguns no rosto. Pegou o homem pelo casaco e o puxou para frente e para baixo, com o rosto de encontro ao seu joelho. O impacto foi forte, e logo sua calça estava empapada de sangue. O sujeito caiu no chão, segurando o nariz. Alexander foi até ele, pegou sua cabeça e a grudou no chão, três vezes, até ele desmaiar.
– Hey, Alexander, Alexander! — Crystal o chamou. Alex olhou para ela com os olhos selvagens. — Já chega.
– Desculpe, eu não fazia isso a algum tempo. — Ele pediu. Crystal foi até ele e se ajoelhou sobre o homem no chão. Com cuidado colocou um dedo embaixo do nariz dele e conferiu a respiração. — Ele tá vivo?
– Está. — Crystal respondeu. — Não se empolgue desse jeito, você não é um monstro.
– Obrigado. — Alex não acreditou nela, mas agradeceu. Era uma coisa gentil a se dizer a uma pessoa que acabara de quase quebrar o crânio de outra.
– Trouxe as armas? — Kai perguntou, saindo detrás do balcão. Estava com os cabelos pretos revoltos, o rosto suado e parecia nervoso.
– Sim. — Alex respondeu, tirando uma escopeta do cinto e entregando a Kai. Não era a preferida do garoto e não era nada comparada às que ele crescera usando, mas dava para o gasto. Alexander ofereceu uma para Destiny que aceitou e uma para Crystal, que pegou com desprezo. Queria urgentemente uma faca, mas sua mão direita estava cortada e enrolada em gaze.
– Onde está o Mattheus? — Destiny perguntou de imediato, já desconfiando.
– Com a Miyuki e o Karl. — Alexander respondeu. — Castiel foi ajudar Mariah e Hylla.
– Cadê a Alice? — Kai perguntou.
– Nathan e Kami foram atrás dela e do Daniel.
– Se estão todos em grupo, onde está Michael? — Destiny arregalou os olhos. — E se ele estiver morto?
– Não sei, mas preciso achar a Alice. — Kai disse.
– O que? Você tá louco? — Crystal gritou. — Vai levar um tiro, ou pior!
– Um tiro não vale nada se ela estiver morta e eu aqui parado. — Kai murmurou, nervoso.
No exato momento em que Kai disse isso, Mattheus e Miyuki chegaram, segurando um Karl baleado e desmaiado. Os dois pareciam cansados, mas contentes por terem os encontrado.
– Meu deus, finalmente. — Matt sorriu. — Tivemos que chegar aqui de um jeito não tão despercebidos.
– O que vocês fizeram? — Kai perguntou.
– Miyuki meio que deu um golpes loucos em uns caras enquanto eu carregava Karl. — Matt respondeu. — Karl precisa de um médico agora.
– Eu também preciso levar alguns pontos. — Crystal concordou. — Precisamos ir agora enquanto não nos encontraram.
– Sim. — Destiny disse, já animada para sair dali. — Mas Kai está complicando.
– Eu não vou abandonar os Peters por aí nesse pandemônio. — Kai rebateu, irritado. Era estranho dizer "os Peters". Como se ele mesmo não fosse um. Era mais estranho ainda considerar, ainda que mentalmente, Alice e Michael como seus primos. Os dois nem sabiam da existência de um tio, quanto mais de um primo. — Se não quiserem ir atrás deles tudo bem, mas eu vou.
– Eu vou com você. — Miyuki disse. — Eu estou armada e é melhor que você tenha companhia.
– Vamos. — Kai não agradeceu a ideia, mas era melhor que tivesse companhia mesmo. Ele poderia morrer e ninguém saberia. E precisava de ajuda.
– Kai, a Alice pode estar bem, ela está com o Kamizuki, Daniel e Nathan. — Alex disse.
– Eu sei, mas eu preciso achá-la. Como é que eu vou viver sabendo que a Alice tá por aí e eu não fui ajudá-la? — Ele perguntou. Os amigos apenas suspiraram e concordaram.
– Tenham cuidado. — Crystal disse.
Kai assentiu e saiu da loja. Miyuki ficou calada e apenas seguiu atrás dele, com a arma apontada.
Os dois correram pelo shopping, e foram alvejados no mesmo momento. Miyuki ergueu a arma e atirou para cima, esperando criar um bom espetáculo que tirasse a atenção dos que estavam lá dentro da loja. As balas que disparou acertaram algum vidro, que veio para baixo em uma velocidade impressionante. Kai e ela se protegeram dentro de uma loja de discos.
Assim que o vidro caiu com um estardalhaço gigante, os dois fugiram. Balas pipocaram o lugar que eles andavam, provavelmente vindas de alguma metralhadora. Miyuki empurrou Kai quando um tiro iria acertá-lo nas costas.
– Obrigado. — Kai gritou, ainda correndo.
– Disponha. — Miyuki respondeu. — Kai, eles não estão no térreo, temos que subir para os outros andares!
Kai em plena corrida concordou com ela e cortou para a esquerda, com Miyuki nos calcanhares. Ele já estava respirando com dificuldade, mas Miyuki parecia bem. As escadas rolantes estavam funcionando, o que estranhamente atrasou o progresso deles. Ali naquelas escadas eles eram alvo fácil, por isso voaram degraus acima, em tempo recorde.
– Ei, Kai? — Miyuki chamou. — Você está vendo as câmeras? Estão desligadas.
– Acho que quem nos atacou não gosta de ser filmado. — Kai disse.
– Acho que comprou a polícia também, está vendo como estão demorando? — Miyuki continuou com as suposições.
– Acho que sim. — Kai não entendia a polícia americana além do que ele via em filmes, mas realmente não parecia do seu feitio demorar tanto.
– Kai, não vejo ninguém nesse andar, mas se subirmos mais... Tem gente lá encima.
— Miyuki disse. Kai praguejou em russo, mas continuou correndo.
– Temos que subir.
– Kai...
– Temos que subir.
Os dois correram novamente para as escadas, que subiam devagar. Novamente em ponto de perigo, eles se apressaram, mas não o bastante, já que uma bala atirada à esmo, acertou o braço de Miyuki.
– Miyuki! — Kai gritou. A japonesa não desistiu antes de terminar de subir as escadas, e só se deu ao luxo de gemer quando se encontraram seguros dentro de uma loja de doces. — Você tá bem?
– Sim. — Miyuki respondeu. — Foi de raspão, mas está sangrando, atingiu alguma veia inútil.
– Agradeça por ser inútil. — Kai sorriu em solidariedade. Ele colocou as mãos nos bolsos e tirou dali gaze. — Tinha um kit de primeiros socorros na loja que eu estava com as meninas.
– Não se preocupe comigo, se preocupe com os homens que vêm ali. — Miyuki disse, apontando para fora da loja.
Kai ficou sem saber o que fazer, mas se levantou, e empunhando a escopeta correu até eles. Assim que os viu melhor soube que havia feito uma péssima escolha: eles eram quatro homens enormes, e Kai apenas um. Porém como se saída do nada, Miyuki chegou correndo. Ultrapassou Kai e se jogou encima dos quatro guardas. A garota deu um pulo e aterrissou nas costas do primeiro homem. Os outros três, pegos de surpresa, não conseguiram fazer nada além de observar, mas assim que recuperaram a consciência Kai entrou para a briga.
Era uma cena saída de filme. Miyuki nas costas do primeiro homem estava apertando seu pescoço com seus finos braços, e logo o homem estava vermelho, sem conseguir respirar. Os outros três, determinados a tirar a japonesa de cima do colega começaram a atacá-la, mas Kai desviou o braço de um deles com um chute. A mão do homem que segurava a arma acabou sendo jogada, e a arma arremessada. Kai foi ao chão e deu uma rasteira em um, que caiu, batendo a cabeça. Não desmaiara, mas o tirara do páreo por enquanto. Enquanto ele se levantava, outro veio correndo, com uma arma apontada. Kai empurrou o braço do homem e o torceu, até ouvir os ossos partindo. De repente Miyuki, já recuperada, chegou ao seu lado, e foi atrás dos outros. A garota recuperou do chão uma das armas e a grudou no estômago de um, que se curvou, e com a empunhadura, socou outro no rosto, que saiu sangrando. Kai, entrou na luta novamente, e pegando o que havia se curvado, deu com o cotovelo nas costas dele, que caiu esparramado no chão. Kai o chutou nas costelas e ele finalmente desmaiou. Miyuki já cuidava do outro. Com um soco rápido no pomo de adão do sujeito, ele ficou sem ar, e ela aproveitou para chutá-lo no rosto. Quando ele estava prestes a cair, Miyuki lhe deu uma rasteira, o atirando ao chão com um ruído abafado.
Ao final, os dois estavam bufando enquanto tentavam regular a respiração, mas fizeram um ótimo trabalho. Kai pegou a arma de um deles e largou a escopeta. Quando o garoto estava prestes a conferir a munição, o barulho de uma arma sendo engatilhada os fez se virar. Havia um quinto homem, e ele estava claramente irritado por dois adolescentes terem desbaratado seu grupo. Ele apontava a arma para Kai, e Miyuki estava no momento sem uma arma para se defender.
– Vocês vão sofrer!
Ele claramente não viu o vulto de cabelos negros que o acertou uma coronhada na nuca, o fazendo cair.
– Michael! — Miyuki disse, aliviada. O estado do garoto mais velho era lastimável, com as roupas rasgadas, a testa sangrando e o rosto cortado. — O que está fazendo? Não achou sua irmã?
– Alice já deve estar em casa. — Michael disse, limpando o sangue da testa.
– Em casa? — Miyuki repetiu, esfregando o ombro que ainda doía por antes.
– Conheço a minha irmã. Se ela não nos achou, vai ir correndo até Thaddeus. — Michael disse, olhando para a tela do celular. — E como todo mundo provavelmente já foi também…
– Temos que ir, ela pode estar ferida. — Kai interrompeu.
– Sim. — Michael concordou. — Mas depois temos que passar no hospital. Temos que ter certeza de que ninguém foi parar lá.
– Quanto mais rápido irmos, mais rápido posso arrumar meu ombro. — Miyuki disse. Michael assentiu com a cabeça.
– Vamos logo. — Kai finalmente concordou, e os três correram para o estacionamento.
~~~~~~~~
Os três chegaram na mansão uma hora e meia depois, com Miyuki com a mão no ombro. O caminho até lá no Porsche de Michael foi calmo, com Kai batucando as mãos nos joelhos eventualmente e Miyuki observando da janela. Estava se sentindo culpada por ter deixado Karl com Mattheus e os outros. No momento lhe pareceu certo ir atrás dos Peters, e ela com certeza a pessoa mais preparada caso alguém tentasse atacá-los. Quase ninguém ali fora criado a base de artes marciais, e ela havia feito uma boa dupla com Kai lidando com os quatro brutamontes.
– Miyuki, se você quiser pode ficar no carro, logo depois que eu conferir quem está lá eu levo você ao hospital. — Michael sugeriu.
– Obrigada Michael, mas não gosto de ficar sentada em um carro sem fazer nada. — Miyuki sorriu levemente, e Michael assentiu. Ele parou a Porsche atrás do Maserati de Alice, e ele e Kai suspiraram aliviados.
– Ela está bem. — Kai murmurou, e desceu do carro, seguido de Michael e Miyuki. Os garotos quase se socaram para passar primeiro pela porta, mas no final conseguiram chegar em paz na mansão.
– Isso está muito silencioso. — Miyuki constatou. Eram quase quatro da tarde, mas as cortinas pesadas estavam fechadas, com sombras em todos os lugares.
– Ela deve estar dormindo. — Michael disse. Mas de repente Alice surgiu do topo da escada, de banho tomado, sem nenhuma mancha de sangue e usando um vestido acinturado. — Sério Alice?
– Olá pra você também, Mikey. — Mas Alice desceu as escadas pulando degraus e se jogou nos braços de Michael, o abraçando. Miyuki se deixou dar alguns passos para trás, dando liberdade para os irmãos. Kai ao lado de Michael os olhava ainda paralisado em alívio por ver Alice bem.
– Onde estão todos, Alice? — Miyuki perguntou depois que o abraço acabou.
– Vocês chegaram muito tarde. — Alice disse. — Daniel está no hospital com todos os outros. Mariah, e Mattheus estão lá pela Hylla. Todo mundo sofreu uma concussão, aparentemente. Miyuki, você não deveria estar com Karl?
– Eu tive que encontrar Michael. E o que você está fazendo aqui? — Miyuki perguntou.
– No meio da confusão, eu e Nathan achamos Lilian Ludwig. — Alice explicou. — Ela achou estranho toda a movimentação e foi ver. Ela também foi atacada.
– Ela já está hospedada? — Michael quis saber.
– Eu não ofereci a ela o sofá da sala se quer saber. — Alice rolou os olhos. — E sim, ela está bem instalada. Michael, eu sei recepcionar uma pessoa. Miyuki, é melhor ir ao hospital.
– Respire antes das frases, Alice. — Michael a repreendeu com carinho. — Já que você está assim tão certa de que não ofereceu o sofá eu vou acreditar. — Ele se virou para Miyuki. — Precisamos ir ao hospital mesmo.
– Eu vou com vocês, Hylla levou um tiro. — Kai disse.
– Então tá. Vamos? — Michael perguntou para Crystal.
– Ah, sim, por favor. — Miyuki concordou.
Miyuki e Michael saíram pela porta direto para o carro, mas Kai e Alice continuaram se encarando até ele quebrar o silêncio.
– Eu pensei que você tivesse morrido. — Kai disse.
– Por favor, eu sou imortal. — Ela sorriu e deu a mão para ele.
– Sério, eu pensei… Eu não lidaria bem com uma notícia dessas.
– É coisa da minha cabeça ou esse é seu jeito de dizer que está gostando de mim? — Ela levantou a sobrancelha e ele fez uma careta.
– Talvez.
Alice ficou surpresa, mas sorriu.
– Talvez eu também. — Ela disse, pegando ele de surpresa. — Nos vemos no hospital?
– Você não vai agora? — Kai perguntou.
– Não. — Alice negou. — Preciso pegar algumas roupas, pra mim e pra Hylla, e provavelmente o Daniel vai pirar sem um par de tênis.
– Quer que eu te espere?
– Não, eu posso ir mais tarde. — Ela deu um beijo na bochecha dele. — Nos vemos mais tarde tudo bem?
– Claro. — Ele sorriu e largou a mão dela, saindo pela sala.
Alice o observou sair da mansão e fechar a porta atrás de si e teve um calafrio.
– Um pouquinho mais e eu vomitava.
Alice se virou e viu Nathan, sentado no sofá da sala, de costas pra ela. Parecia um filme de terror, já que no sofá a luz não chegava e a televisão estava desligada. Há quanto tempo Nathan estava ali ouvindo?
– Um pouquinho mais e você não precisava mais alugar filme pornô. — Alice rolou os olhos. Nathan se levantou do sofá e foi até ela.
– Alice, seu tio já escolheu o lugar. — Nathan disse logo. Detestava enrolar. Alice empalideceu, mas logo deu uma tossidinha para disfarçar.
– Diga pra ele que não estou mais interessada. — Ela disse, se virando. Nathan demorou cinco segundos para processar a frase e agarrou o braço dela.
– Você não quer o quê?
– Não estou interessada em falar com ele. — Ela repetiu, tentando puxar o braço do aperto firme de Nathan.
– Você tá louca? — Nathan trincou os dentes. Ele sentia a raiva aflorar, mais um surto. Se Alice viu os olhos dele de repente se transformando de uma farsa para um ódio irreversível, não demonstrou.
– Nathan, se não me soltar agora mesmo eu vou enfiar um faca no seu olho. — Ela ameaçou. Nathan se forçou a largar ela, se acalmar. — Eu já disse o que eu tinha pra dizer. Eu não quero.
– É isso que você vai dizer pra ele? Ele vai destripar o Michael só por essa rebeldia de adolescente. — Nathan rosnou. Alice rolou os olhos.
– Ele nunca faria isso. Eu tenho o sangue dele.
– E desde quando sangue falou alguma coisa quando ele matou sua mãe?
Alice fechou a cara como se fosse uma janela. Então deu um soco no nariz de Nathan. O garoto se curvou, gemendo.
– Nunca mais fale da minha mãe, seu bastardo. — Ela avisou, e saiu correndo escada acima. Nathan verificou se o nariz não sangrava e correu atrás dela, tentando não fazer barulho nos degraus. Alice pulava os degraus e sabia onde não pisar para não fazer barulho, e logo chegou no segundo andar, voando para dentro do quarto. Nathan chegou logo depois, no momento em que ela fechou a porta. Ele ouviu um barulho de algo se mexendo dentro do quarto e forçou o trinque, mas não aconteceu nada. Alice definitivamente movia algo dentro daquele quarto, e ele decidiu arrombar a porta. Se preparou e foi de encontro com a porta, o ombro na frente. Assim que acertou a madeira, a única coisa que pensou foi que havia quebrado o ombro. Então se endireitou, engoliu o orgulho e tentou outra abordagem.
– Alice? — Murmurou, o mais baixo que conseguia.
– Eu não quero mais falar com ele! — Alice respondeu. — Você não vai conseguir nada aqui, volta pra onde você veio!
Nathan se irritou e deu um empurrão na porta.
– Quero ver dar um jeito de dizer isso pra ele. — Ele reclamou, começando a empurrar a porta. A enorme penteadeira que Alice tinha dado um jeito de colocar ali estava aguentando não se sabia como. — É só uma palavra!
– Ele matou minha mãe, não quero porcaria de palavra nenhuma! — Alice rebateu, empurrando a penteadeira pra ela ficar no lugar. — Para de empurrar esse negócio!
– Você não tá me dando outra escolha além de empurrar. — Nathan se defendeu, empurrando a porta com toda a força.
A penteadeira de Alice foi jogada pra frente e deixou um risco no chão, empurrando o tapete. Nathan entrou no quarto dela antes que Alice fechasse a porta de novo.
– Insistente você com certeza é. — Alice bufou. — O que o meu tio mandou você fazer mesmo?
– Só falar com ele. — Nathan respondeu. — Ele virá até a cidade e quer que você o receba.
– Eu não vou receber ele! — Alice perdeu a paciência. — Olha, você trata de sair da minha casa e ir embora do país agora mesmo, eu quero que meu tio se foda. Dele não quero nem o cheiro.
– Você sabe que o Kai é filho dele? — Nathan soltou. Alice ficou boquiaberta instantaneamente, como sempre ficava ao descobrir algo novo sobre as pessoas que gostava.
– Kai é o que? Não. Ele não pode ser filho do Nicholas.
– Você já perguntou pra ele? — Nathan questionou.
– Ele teria me dito! — Alice ergueu os braços pra cima, irritada. — Sabe, esse é o tipo de coisa que falamos: “oi, sou teu primo e filho do cara que matou tua mãe, vamos nos pegar”.
– Você está reclamando com a pessoa errada. — Nathan rolou os olhos. — Infelizmente eu não estou aqui pra matar ninguém, eu só quero que você veja o seu tio. Depois pode quebrar o pau que quiser.
– Nathan, eu não posso ver meu tio de novo. — Alice suspirou. — Eu não posso cagar tudo de novo. Eu teria que mentir de novo pro Michael, e agora isso envolveria muito mais gente pra enganar. Eu não consigo.
– Não consegue ou não quer?
– Eu não quero! — Alice gritou, esquecendo momentaneamente do silêncio. — Se eu continuar eu vou acabar ficando igual a ele.
Nathan não acreditava no que iria dizer, mas mesmo assim abriu a boca:
– Não é tão ruim. Seu tio pode ser um canalha, mas ele está no topo. Ele é praticamente o cara que manda no submundo da Rússia. Ninguém nem tenta ir contra ele. O cara é idolatrado.
– Você realmente acha que vale a pena ser um assassino se isso te tornar rico?
– Acho que se você for rico o suficiente, não importa o que precisou fazer pra chegar lá. — Ele respondeu.
– Você não vale o prato que come. — Alice rolou os olhos, se sentando na borda da cama. — Eu gosto de ser daquele jeito. É mais fácil se foder pra opinião alheia. Mas se eu ser daquele jeito, muitas pessoas vão sofrer.
– Você então escolhe o seu irmão ao seu tio?
– Eu não disse isso! — Alice se irritou novamente. — Em matéria de caráter meu irmão dá uma surra no Nicholas. Mas ele é meu tio.
– Eu queria perguntar uma coisa pra você. — Nathan pediu, aproveitando a oportunidade. Alice parou um momento então assentiu. — Desde quando você conhece o Nicholas?
Ela deu um riso debochado.
– Meu tio sempre esteve ao meu lado. — Respondeu. — Na noite que a minha mãe morreu, eu sabia que ele estaria lá, sabe? Dias dele matar ela, ele entrou disfarçado de professor na minha escola e contou a verdade pra mim. Precisava que eu mantesse o portão de casa aberto, e eu o ajudei, com cinco anos. Eu ajudei ele a passar pela segurança, e em troca ele matou minha mãe. E o pior é que eu só fiquei irritada por ele ter me enganado. Eu não o culpei, eu não me culpei. Eu fiquei irritada por causa dele e triste por causa dela, e desde então eu fico pensando que eu deveria ter demonstrado alguma coisa, algo pra culpá-lo, mas eu não consigo sentir nada além de irritação com ele. Depois da minha mãe morrer, eu e Michael fomos levados para um Orfanato. Eu implorei pro Thaddeus me deixar ficar com o meu tio, e Nicholas pediu minha guarda também. Thaddeus disse que se ele quisesse ficar comigo teria que ressuscitar minha mãe, e desde então meu tio tem arranjado disfarces pra continuar do meu lado. Sabe o que é matar aula pra ir no parque de diversões com seu tio enquanto deveria estar chorando pela sua mãe e consolando seu irmão? Eu sou uma vadia.
Nathan estava bem surpreso agora. Alice nunca tinha lhe parecido nada além de mimada. Agora havia se revelado uma cobra. E ele não conseguia meter na cabeça que ela era igual ao tio. Fisicamente eles não tinham nada um com o outro, e mesmo assim Alice acabara se revelando a cópia do tio. E chegava até a ser pior, porque Nicholas era ele mesmo, nunca havia precisado criar disfarces e esconder a personalidade, já Alice era uma cobra no meio do time do bem. Até ele tinha chorado pela morte da mãe, já ela que era a culpada, não.
– Você é uma vadia. — Ele concluiu. Pensou que Alice faria alguma coisa, mas ela apenas deu risada.
– Eu sei. — Ela concordou. — E eu posso ser bem pior que isso, acredite.
– Sabe, eu vou ganhar muito dinheiro se você for até lá, e eu não quero te desvirtuar nem nada assim, mas eu agradeceria se você fosse. — Nathan voltou ao assunto.
– Você quer entregar o tesouro pro bandido, né?
– Eu não te trataria como tesouro, mas se o bandido me pagar bem não tenho muito problema não. — Ele negou.
– Você acha que eu posso acabar virando uma vadia do mal? — Ela perguntou, querendo tirar as dúvidas.
– Acho que se você quisesse virar uma vadia do mal, já teria virado há muito tempo. — Nathan respondeu.
– Tudo bem. — Alice suspirou. — Eu vou. Mas avise a ele que eu escolho o dia e o lugar. Se ele quiser me ver, será pelos meus termos.
– Pode deixar. — Nathan não conteu o sorriso. Ele estava sendo um cara idiota, mas um cara idiota muito rico. — Só não conte o que eu te disse sobre Kai, Nicholas me mataria por revelar o disfarce do filho dele.
– Eu vou tirar isso a limpo com meu tio, mas não vou te envolver. — Alice o tranquilizou.
– Você não vai terminar com Kai, vai?
– Claro que não, ele não é o único aqui que está escondendo envolvimento com o cara do mal. — Alice balançou a cabeça. — Ele tem suas razões.
– É por isso que você nunca seria completamente do mal, Alice. — Nathan disse, saindo do quarto. — Se matasse o mundo inteiro, Kai ainda estaria lá.
Fale com o autor