Blackbirds - Interativa
14 Fake You Out
Notas iniciais
Fazia um ótimo dia naquele sábado. O sol brilhava, o azul celeste imperava no céu e Xavier Smith avançava na sua pesquisa.
Nunca saberia se aquele progresso se dava ao fato de que ele estava com um ótimo humor, mas com certeza naquele dia em especial Xavier e sua equipe haviam se superado.
Xavier Smith, multimilionário, não havia feito sua reputação encima de algo que poderia se desmoronar, havia construído fama consolidada, como empresário famoso e… Bem, se você habitasse o submundo das drogas, saberia quem é ele. Chefe do narcotráfico americano, seu segredo para o sucesso era um pouco brutal. Mantenha-se no topo e derrube seus adversários. Brutal, sanguinário e muitas vezes um trabalho que ele não fazia com as próprias mãos. Quando se tem todo o dinheiro que é possível ter, você pode pagar os melhores. Logicamente, nada que ultrapassasse o combinado. Xavier detestava ter que lidar com a ralé ele mesmo, porém um bom homícidio às vezes era a chave para o bom humor que lhe abria portas.
Enquanto ele combinava compostos químicos com a total atenção de sua equipe de cientistas renomados, um cadáver roubava a atenção, sentado em uma cadeira, amarrado, e ainda com cateteres espalhados pelo corpo.
Na mesa principal, ele tinha colocado todo o equipamento necessário para chegar a seu objetivo de criar uma nova droga, e afastado da mesa principal, via-se uma outra cadeira, desta vez vazia.
— Acha que já podemos chamar a cobaia seis? — Adam Axmel questionou o chefe. Xavier olhou para aquele precioso líquido transparente encima da mesa principal e depois para a equipe, que parecia estar querendo testar logo o novo protótipo.
— Sim, mande trazer. — Xavier concordou. Adam apertou um botão na mesa de Xavier que ficava no canto da sala e todos e qualquer um estavam proibidos de tocar.
A porta do laboratório se abriu sozinha, e um par de seguranças enormes que usavam ternos e óculos escuros entraram, segurando um homem esquelético pelos braços. O homem tinha cabelos compridos e olhos apagados e cheirava mal. Com certeza era um do lote que Xavier havia mandado sequestrar alguns dias antes de uma praça qualquer. Mais um mendigo, menos um… A sociedade não se importava. Eles eram as cobaias perfeitas. Xavier observou com satisfação os seguranças sentarem o homem na cadeira vazia e o prenderem apertado com várias tiras, já que ele havia lutado o dobra ao ver o cadáver na outra cadeira.
O homem tinha cerca de 30 anos e obviamente já era usuário de alguma droga pesada, o que lhe complicava um pouco. Precisava saber como esse novo composto atuaria no organismo humano e quais seriam os efeitos colaterais. Essa seria sua obra prima, o que faria toda sua vida e fama valerem a pena. Seria o começo do fim. Porém queria algo saudável. Algo como o crack, mas sem os efeitos colaterais no organismo. Algo viciante mas que não causasse decomposição humana. Uma vez que estivesse destruindo os usuários, o governo interviria e começaria programas de apoio e educação contra a substância, e isso Xavier não queria.
— Senhor Smith, creio que essa nova combinação vai ser um triunfo! — Jasper Miller exclamou, excitado. Xavier não ligou para ele. Jasper era novo, mas prometia muito nesse meio. E Xavier não havia chegado no topo sendo idiota. Reconhecia e precisava de mentes novas com vontade de aprender. Sua filha, Hael, havia sido um fracasso com isso. Ele a despachara há algum tempo, com a desculpa de que ela deveria fazer “estágio” e “aprender com os melhores”, ficando na responsabilidade de Nicholas Peters, sócio de Xavier em muitos negócios. E em troca, ele levou a filha de Nicholas, Adele Peters, para um de seus centros de treinamento. A garota estava indo bem, ele vira com os próprios olhos. Ela estava sendo peça chave para outro negócio que ele tinha com Nicholas.
— Eu sei, Jasper. — Disse, sem paciência. Mas vendo que o garoto havia engolido em seco, resolveu ser um pouco mais gentil. — Mas obrigado, é gratificante receber reconhecimento de uma mente tão… Jovem quanto a sua.
Jasper exibiu um grande sorriso como se tivesse dito algo certo e Xavier quis rolar os olhos. Jasper era tão influenciável. E o principal: tinha carisma. Uma qualidade que faltava para Xavier, mas que esse menino esbanjava. Se o fator carisma fosse usado contra ele, até mesmo Jasper poderia ser fatal. Por isso ele mantinha os amigos perto, os inimigos mais perto… E os possíveis inimigos mais perto ainda.
— Senhor Johnson, por favor, pode injetar a droga. — Mandou.
— Não, por favor! — O homem gritou desesperado. — Por favor, eu tenho filhos!
— O senhor morava debaixo de uma ponte fugindo da polícia, senhor Ronald, o senhor não tem filhos. — Jasper o corrigiu. — Nem mesmo família.
— Por favor! — Ronald continuou implorando, se debatendo na cadeira.
Chris Johnson olhou para o chefe com a pergunta óbvia: “tem certeza?”, e Xavier assentiu para o homem, concordando. Chris baixou a cabeça grisalha e colocou o líquido na veia do homem na cadeira. Ronald de repente perdeu o desespero e se jogou mole sobre o assento, se sentindo dopado.
Enquanto o líquido pingava lentamente, a equipe de cientistas esperava com nervosismo a recepção do corpo da cobaia número seis. O silêncio era tão esmagador que ouvia-se o tique-taque do relógio da parede, a respiração acelerada das seis pessoas presentes ali e o gesto de nervosismo da doutora Caitlin Allen, que batia as mãos na coxa. Dois minutos em total silêncio e Xavier foi verificar o pulso da cobaia.
Quando apertou o pulso do homem e encontrou batimento, sentiu triunfo nos ossos.
— Ele está vivo. — Disse. Os cinco cientistas ao seu redor tiveram reações variadas. Dois soltaram exclamações e erguerem os braços, outros dois cumprimentaram os companheiros e Jasper sorriu como uma criança no playground com o triplo de sorvete. — Ele está sob efeito da droga.
Os cinco ao seu redor se puseram a anotar tudo em suas pranchetas, desde as pequenas ondulações nos batimentos cardíacos ao sorriso estúpido que o homem tinha no rosto.
— Ronald, como está se sentindo? — Xavier perguntou para a cobaia, com um tom calmo e limpo, pausando entre as palavras. Ronald olhou para ele com os olhos castanhos dilatados e óbvia lerdeza mental.
— Eu queria sair daqui… Mas… Uau… — O homem virou o rosto e começou a observar as outras pessoas. — Vocês tem cara de idiotas. — Concluiu, soltando um riso frouxo.
— Você sabe o que injetamos em você, Ronald? — Jasper se intrometeu, ignorando o insulto.
— Maconha… Líquida? — Ronald chutou, com um sorriso bobo no rosto, obviamente sem entender uma palavra. — Eu só sei que é bom, cara…
— Não. — Jasper sorriu com a estupidez do homem, realmente apreciando aquele momento. — É a nova droga, chamada SD-100... Ou, como preferimos, Blackbirds.
— O nome ainda está em debate. — Chris Johnson o interrompeu. — Pode ser que pegue, mas pode ser um pouco assustador também. Quem vai querer injetar Blackbirds?
— Chris, futuramente essa droga virá em cápsulas. — Caitlin o corrigiu em tom de repreensão. — Vamos secar o líquido e transformá-lo em pó.
— Oras, não é muito mais fácil injetar? — Jon Watson perguntou, ajeitando os óculos para não escorregarem sobre o nariz.
— Uma pesquisa comprovou que as pessoas tem um certo… Receio de agulhas. É muito melhor um comprimido ou cápsula que pode se passar por Ecstasy ou LCD, mas que tem o triplo de ação da maconha. — Caitlin respondeu.
— Meus caros… — Xavier interviu sobre a discussão, levemente irritado com aquelas pessoas. Será que a única com cérebro ali era dra. Allen? — O nome ainda está em debate, precisamos de algo que seja muito famoso com os adolescentes. — Xavier colocou as mãos dentro do bolso do jaleco, de repente lembrando de uma coisa. — O que me lembra… Doutora Allen? A senhora e o meu caro jovem Jasper podem se retirar da sala? Quero conversar com os dois na minha sala daqui a pouco, só preciso terminar aqui com o senhor Ronald.
Caitlin e Jasper se entreolharam, mas não desobedeceriam uma ordem direta do chefe. Caitlin deixou sua prancheta com o velho Chris e abanou para os colegas. Jasper respirou fundo e saiu da sala com ela.
— Xavier, você não vai despedi-los, vai? — Chris perguntou, abusando um pouco demais do status que mantinha com Xavier por 25 anos, por ter sido professor de química e física para o mais novo quando o homem cursou faculdade.
— Meu problema aqui é muito maior, senhor Johnson. — Disse friamente, andando até sua mesa no canto do laboratório.
— Qual é? — Jon questionou com inocência. — Podemos ajudá-lo, somos os cientistas mais renomados…
— Meu problema não é com fama. — Xavier o cortou. — Essa nova droga… Bem, foi um erro contratar uma equipe desse tamanho para me ajudar. Todos meus outros… Hum… Trabalhos; Eu mesmo fiz, sem ajuda. O fato de vocês saberem a fórmula dela, os faz muito valiosos, para mim e para meus inimigos.
— Você sabe que nunca contaremos a fórmula para ninguém, Xavier. — Chris prometeu, sendo seguido por um coro de vozes afirmativas. — Ninguém aqui abrirá a boca nem que seja ameaçado de morte.
Xavier sorriu com a promessa do velho. Cuidadosamente colocou a mão dentro da gaveta da mesa e pegou a glock que mantinha lá.
— Disso eu tenho certeza. — Com um leve gesto de mão, ergueu a arma e atirou nos companheiros. Primeiro Jon, depois Adam, e por ultimo Chris, na cabeça.
Ronald, na cadeira, virou o rosto para Xavier, boquiaberto. Havia pingos de sangue no rosto dele e a cabeça de Jon estava tocando seus pés.
— Ronald, você ainda vai servir a muitos dos meus propósitos.
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— Senhorita?
Helena lentamente abriu os olhos, piscando enquanto acordava. Havia sido uma viagem de mais de 13 horas, e em algum momento do percurso ela havia adormecido. Não que fosse sua culpa, mas o balanço do ônibus e o cansaço que sentia depois de avisar ao dono do prédio que estava viajando por “motivos pessoais”, o aviso para a faculdade e ir ao banco conversar com o gerente tudo sozinha e sem parada a deixou exausta.
— Chegamos em Providence. — O motorista anunciou, e então seguiu para a traseira do ônibus, acordando outros passageiros.
Helena se xingou silenciosamente por ter se deixado dormir, então começou a pegar suas coisas o mais rápido possível. Por paranoia ela havia comprado outra passagem para a poltrona ao lado da sua, para não dividir com ninguém, e se recusou a deixar a mala no bagageiro, seguindo a viagem com apenas o necessário no mochilão. Helena pegou os restos dos salgados que havia comprado durante o percurso e os colocou em um saquinho. Esperou todos os outros passageiros saírem do ônibus para descer também, e assim que colocou os pés no chão da rodoviária, olhou para os todos os lados procurando por pessoas que estivessem a seguindo. Satisfeita por não encontrar ninguém suspeito, seguiu andando.
— Você viu o ataque terrorista no shopping hoje mais cedo?
Assim que ouviu a frase proferida por uma garota de cabelos castanhos acompanhada por outra menina na sua frente, Helena congelou. Um ataque? Ela precisava saber mais. Andou mais rapidamente e alcançou as garotas na sua frente, que imediatamente viraram para ela. Usavam um colar de plástico rente ao pescoço e duas tranças cada uma, como uma moda. Helena se sentiu desconfortável pelo cabelo loiro opaco amarrado em um coque embolado na nuca e o moletom cinza sujo de ketchup.
— Desculpe por me meter, mas…
— Ah, turista? — Uma delas perguntou, animada.
— Hum, sim. — Ela concordou. — Sem querer ouvi vocês falando… Ataque terrorista?
— Não se preocupe, aqui em Rhode Island você está perfeitamente segura, somos um dos estados com maior segurança do país. — A outra tentou lhe tranquilizar. Helena teve vontade de sorrir com a preocupação da garota com os “turistas”.
— Disso não tenho dúvidas. — Mentiu com um sorriso recatado. As garotas sorriram para ela abertamente e balançaram as cabeças, fazendo as tranças se agitarem. — Eu só me senti curiosa quanto a isso.
— Temos uma turista curiosa aqui, hein Mandy? — A que havia lhe perguntado se era uma turista deu um cutucão na amiga. — Sim, foi um ataque, mas as autoridades disseram que foi tudo contornado e ninguém morreu. Felizmente a polícia agiu rápido.
— E esses… Atacantes?
— Os terroristas? — Mandy sugeriu. — Eu não sei, mas minha amiga Ashley disse que a prima dela, Natalie, estava lá e viu tudo! A essas horas já deve estar na internet.
— Oh. — Helena foi pega de surpresa com a palavra “internet”. Desde o acidente de carro ela não havia navegado. Antes era um hábito, agora ela nem pensara em se atualizar com o que havia acontecido. — Desculpem por qualquer coisa, muito obrigada.
— Agradeça voltando sempre! — Mandy sorriu amigavelmente.
— Ah, e só mais uma dica: acho que você ficaria melhor ruiva. — A outra menina disse, piscando um olho. Helena sorriu um pouco e agradeceu mais uma vez a ajuda.
Quando se viu sozinha novamente, percebeu a falta que conversar com meninas — mesmo tão extravagantes como Mandy e sua amiga — da sua idade fazia. Ela andou até se ver parada na frente de uma farmácia. Com um suspiro, adentrou o lugar e procurou a prateleira de tintas para cabelo. Com uma mão hesitante, pegou a tinta vermelha e encontrou o preço. Iria começar uma vida nova, e nela não havia espaço para a inocência do loiro.
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— Alice saiu. — Michael explicou.
— Saiu? — Perguntou Daniel, deitado na cama.
Desde o tiro que levara na barriga, Daniel tinha passado por uma cirurgia de retirada da bala e uma noite turbulenta de sono. Hylla estava na cama ao lado, se recuperando do tiro na perna, usando uma roupa de hospital que ela havia achado tão ridícula que havia colocado um casaco por cima.
— Dê um tempo pra ela, Alice esteve aqui a noite toda. — Michael contou. Daniel não se lembrava de ter visto Alice por ali. Mas não podia confiar na memória. Ele havia desmaiado naquela noite com Alice e Nathan no jardim, poderia ter desmaiado de novo.
— Ok. — Ele concordou. — Mas onde ela está?
Michael franziu a testa com surpresa.
— Pensei que soubesse, vim aqui justamente pra isso.
— Deve estar com Kai. — Hylla deu de ombros. Michael trincou o maxilar e pareceu ofendido.
— Minha irmã não faria isso...
— Michael, pare de mentir para si mesmo. — Hylla sorriu.
— Ela gosta dele, embora não saiba disso ainda. — Daniel disse. — Não torne isso mais difícil pra ela do que já é.
— Talvez. — Michael fungou, irritado. — Mas Kai está aqui também, eu o vi lá embaixo.
— Então deve estar com aquele maníaco russo. — Hylla disse.
— Está dizendo que minha irmã também...
— Não. — Daniel o fez parar. — Alice não tem nada com Nathan, nada além de uma relação de colegas.
— Aquele garoto é estranho. — Hylla murmurou.
— Acho que ele é gay. — Daniel contou, sussurrando. — Toda a vez que eu estou com a Alice ele me olha como se fosse me comer.
— Já pensou que ele quer é na verdade cravar uma faca no seu estômago? — Hylla perguntou.
— Não. — Daniel admitiu. — Será que ele quer?
— Daniel... — Michael rolou os olhos. — Nathan é calado mesmo, mas Castiel também e Mariah parece confiar nele.
— Mariah não confia em Nathan. — Hylla observou.
— Talvez ela não goste do tipo caladão. — Daniel deu de ombros.
— Daniel, você pode guardar essa sua tara? — Michael pediu. Daniel pareceu ofendido.
— Não, ela é simplesmente esperta. — Hylla ignorou Daniel. — Não falou ainda sobre as questões que tem sobre ele, mas... Ela sabe que tem algo errado.
— E como sabe disso? — Michael pareceu surpreso.
— Instinto feminino, vai por mim. — Hylla sorriu.
– Quando uma garota me diz isso, quer dizer que algo ruim está acontecendo. — Michael suspirou.
– Uma garota já disse isso para você? — Daniel perguntou surpreso.
– Eu já tive namoradas, Daniel.
– Eu jurava que você havia feito votos para o eterno celibato. — Daniel sorriu em provocação.
— Muito engraçado. — Michael deu o mínimo dos sorrisos. — Mas no geral está tudo bem com vocês?
— O doutor disse que a bala na minha perna não penetrou muito fundo. — Hylla explicou. — Então logo vou poder caminhar.
– Eu tenho que esperar algum tempo, mas logo vou estar muito bem, obrigado. — Daniel disse. — A bala não perfurou o estômago nem nada, foi só o músculo. Quem disse que ter um tanquinho não mudava nada, essa é minha história.
Hylla e Michael ignoraram a última frase.
– Então eu vou ir procurar minha irmã... De novo. — Michael anunciou.
– Espera, Michael. — Daniel pediu. — Pode dizer ao Kami que eu estou bem? Se não fosse por ele eu teria morrido lá com Alice e Nathan congelados me encarando.
– Você poderia dizer por si mesmo. — Michael disse. — Quer que eu o chame?
– Não...
– Ah, você quer sim. — Hylla o interrompeu. — Eu preciso dar uma volta, você pode conversar com o Kamizuki à vontade.
– Vocês não tem o mínimo respeito com o próximo. — Daniel fez uma careta.
– Só queremos que o próximo deixe de ser bobo e pegue logo o outro próximo. — Hylla sorriu, e então desfez o sorriso. Ela estava se envolvendo demais com eles.
– Muito obrigado. — Daniel rolou os olhos. Hylla o ignorou e virou-se para Michael, que abriu a porta para ela.
Hylla pegou as muletas e odiou precisar delas. Sua perna estava enfaixada e doía toda a vez que ela andava, mas ela se sentia menos dependente sem usar as muletas, mesmo que não conseguisse andar direito.
– Quer ajuda? — Michael ofereceu um braço.
– Não, obrigada, sei me virar. — Hylla retrucou, saindo do quarto.
— Não é fraqueza precisar de ajuda, Hylla. — Michael disse, fechando a porta atrás de si. — Já conversamos sobre isso. Você sabe como todo mundo na mansão se considera amigos, você é parte disso também.
Hylla queria sorrir, mas se conteve e manteve o rosto livre de expressões. Era bom ter o sentimento de pertencer a algo. A última vez que se sentira assim… Tinha sete anos e sua mãe estava viva. Antes de ser caçada, antes de ser desprovida de um diploma, desprovida de uma família e uma vida normal. Mas estar ali perto de pessoas que a consideravam uma amiga… Era bom. Ninguém percebe o quão maravilhoso é até perder, e finalmente ela estava ganhando novamente.
— Desculpe, Michael, mas para eu formar laços, preciso de algo forte. E ainda não sinto isso aqui.
Michael não pareceu magoado, nem surpreso.
— Talvez você já tenha criado eles, mas não percebeu. Ainda que seja estranho e muito precipitado, já somos uma família.
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Mariah Helena estava quase pronta para voltar para a mansão. Depois de ter ficado um tempo com Hylla e Castiel de madrugada, ela estava com sono e queria dormir. Mattheus que havia ficado para lhe fazer companhia concordou com a ideia, mas depois de uma xícara de café para fazer os gêmeos não dormirem durante a viagem para a mansão. O hospital ficava na capital, e Ashaway era em uma área longe dali. E além do mais, Mattheus tinha que retornar uma ligação da amiga Diana em Nova Iorque.
– Dia... Você tá paranoica. — Mattheus dizia ao celular quando Mariah chegou até ele segurando um copo de café em cada mão. — Não grita, eu estou em um hospital... Não, eu estou bem… Sim, eu sei que você tem fobia de hospital... Você nunca nem foi pra um hospital! Diana, eu juro que eu vou dizer pro David... Dia, não tem ninguém atrás de você... Só porque ele usa um chapéu não quer dizer... Dia, eu vou desligar na sua cara... Sim, eu tenho coragem.
Matt ficou em silêncio por um minuto e Mariah começou a rir, se perguntando quem era a menina com quem o irmão falava.
– O que aconteceu? — Ela sorriu.
– Ela desligou na minha cara. — Mattheus respondeu. Mariah quase engasgou com o café enquanto ria. — Não é engraçado, ela faz isso todos os dias.
– Você liga pra ela todos os dias? — Mariana perguntou. — Dia é o nome dela?
– Diana. — Ele corrigiu automaticamente. Ninguém mais chamava Diana de Dia além dele. Nem o mesmo o namorado dela, Hugo, que a chamava de Ana. — Ela está preocupada que alguém está a seguindo. — Vendo o olhar da irmã, ele adicionou: — O namorado dela é um dos meus melhores amigos.
– Ah. — Mariah deu de ombros. — E eu aqui planejando sobrinhos.
– Ha-ha. — Mattheus rolou os olhos. — Não sou eu com seu amiguinho Castiel.
– Ele nem meu amigo é. — Mariah fez uma careta involuntária. — Mas você e essa Diana...
– Menos. — Mattheus se levantou da cadeira e se espreguiçou, pegando seu copo de café das mãos da irmã. — Vamos? O trânsito deve estar terrível.
Os gêmeos saíram do hospital direto para o estacionamento, onde encontraram o carro que Alice havia emprestado para os dois ao lado do de Michael. Quando Alice disse que tinha uma coleção de carros, eles não pensaram que os carros eram realmente desses tipos. A garagem ficava do lado esquerdo da mansão, onde havia as melhores marcas de carros e motos. Havia até uma lancha, que Alice disse que pertencia a família antes dos dois irem para o Lar onde foram criados. Mattheus se jogou dentro de um dos carros de Alice, que verificou se não era seu favorito e emprestou a ele. Mariah foi junto, indiferente, mas no fundo estava bem excitado por andar em um carro assim. Felizmente eles vieram apenas os dois, então poderiam sair sem pedir permissão. Michael havia ligado para a Mansão e alertado os seguranças para sempre permitir a entrada dos convidados, então eles realmente poderiam ir para onde quisessem.
Assim que os dois chegaram na Mansão, os portões se abriram, sem eles nem mesmo tocarem o interfone. Mattheus dirigiu até a porta da mansão e desligou o carro.
— Isso está um silêncio. — O garoto notou. Malena ergueu o pescoço para ver melhor, e observou que as janelas estavam fechadas.
— Acho que tem alguém aí. — Ela disse. Suas mãos foram automaticamente para as costas, mas o arco não estava ali. Ela saiu do carro e foi até a traseira, onde seu arco estava guardado. Tirando o arco e as flechas de lá, colocou a aljava nas costas enquanto que o arco apontava para frente. Aproveitou e tirou uma flecha, e com uma torcida, tirou a ponta da flecha, fazendo com que a lâmina virasse uma faca, e a deu para o irmão. Mattheus levantou as sobrancelhas, mas aceitou. Não queria ficar desarmado e muito menos se esconder atrás da irmã mais nova. — Não pise fazendo barulho, Mattheus. Não respire alto, e muito menos…
— Fale em voz alta. — Mattheus recitou. — Era o que vovô dizia para mim.
— É o jeito que os Blackmoon vão à caça.
Mariah subiu as escadas levemente e forçou a maçaneta da porta. Estava obviamente trancado e ela se perguntou se teria que arrombar a porta quando a porta foi aberta.
— Ei! — Alexander ergueu os braços pra cima ao ver os dois irmãos com objetos pontiagudos apontados para ele. — O que é isso?
— Ah, desculpe. — Mariah abaixou o arco, levemente envergonhada. — Pensamos que tinha pessoas aqui, já que as janelas estavam fechadas.
— Eu estou tentando assistir a Netflix. — Alexander respondeu, apontando para a televisão atrás de si que estava congelada em uma imagem de um homem vestido com uma venda preta sobre os olhos.
— Daredevil? — Mattheus sorriu de repente.
— É. — Alex respondeu.
— Legal.
— Meninos, por favor. — Mariah rolou os olhos. — Ok, onde estão os outros?
— Crystal deve estar no quarto, Destiny também, eu nunca sei onde Nathan está, Kai e Alice devem estar na piscina e eu estou aqui.
— Ninguém nunca sabe onde Nathan está, aquele garoto se move nas sombras. — Mariah fez um gesto como se não se importasse. No fundo não gostava de não saber onde Nathan estava. Ela não gostava dele, e isso era bem óbvio. Todos pareciam normais, mas o jeito que Nathan olhava para todos, como se fosse um predador a olhar a presa… Mariah não gostava disso. — Bem, de qualquer jeito, os donos estão “fora”.
— Alice deveria estar aqui.
— E está. Só que está… Fora de contato. — Ele levantou as sobrancelhas sugestivamente.
— Ah. — Matt entendeu. — Fala sério, eles são coelhos?
— Não duvido. — Mariah deu de ombros e empurrou Alexander enquanto passava pela porta. — Eu vou subir para o meu quarto e tomar um banho porque estou com cheiro de hospital.
— Sério? — Matt pareceu indignado. — Os donos da casa estão foraa e você vai tomar um banho? A gente devia sair fuxicando por aí. Vai que eles mantém um calabouço com instrumentos de tortura?
— Mattheus, foco. — Mariah estalou os dedos na frente dos olhos do irmão. — O mais perto de calabouço que essa casa possui é aquele bunker…
— O bunker. — Alex e Matt falaram em uníssono, ambos tendo a mesma ideia. — Vamos pra lá. — Matt sorriu como um menininho para a irmã, que o olhou nos olhos profundamente.
— Se alguém nos pegar lá, a culpa é toda e completamente de vocês. — Ela suspirou, vencida.
— Você é a melhor irmã que eu tenho.
— Eu sou a sua única irmã.
— Vamos? — Alexander apressou os Blackmoon, enquanto desligava a televisão com o controle remoto.
Os três subiram as escadas com rapidez, para chegar logo ao topo, mas os degraus já estavam tomados por alguém. Lilian estava sentada no topo dos degraus, como se estivesse ali há horas. Mattheus deu um pulo para trás ao ver a loira, levando um susto.
— Bunker? — Lily perguntou. Os três se entreolharam querendo saber quem era a garota loira.
— Desculpe, quem é você? — Mariah apertou os olhos verdes, já desconfiada. Lilian sustentou o olhar enquanto levantava do degrau.
— Lilian Ludwig. — Se apresentou, erguendo o braço para cumprimentá-los. Alexander e Mariah não se moveram, mas Matt apertou a mão dela.
— Bem vinda, eu sou Matt Blackmoon. — Ele disse, educadamente. — Essa é Mariah, minha irmã, e Alexander.
— Você estava nos espionando? — Alexander foi direto ao ponto.
— Eu ouvi barulhos e pensei que fosse Alice ou Nathan. Você estava assistindo televisão e eu fiquei aqui assistindo também. — Lily deu de ombros como se tudo estivesse explicado, mas Alexander não se deu por vencido.
— Então você ouviu toda a nossa conversa? — O garoto perguntou novamente.
— Achei um pouco desnecessário tapar meus ouvidos sendo que o assunto me interessou. — A loira rebateu o garoto, que não foi para trás e a encarava com o dobro de frieza que Mariah demonstrava.
— Isso quer dizer que você… Quer vir com a gente? — Matt levantou as sobrancelhas.
— Aceito, obrigada pelo convite. — Lily deu um sorriso pequeno e encarou Alex e Mariah, esperando que um deles intervisse.
— Então tudo bem. — Mariah concordou, fazendo com que Alexander a olhasse surpreso. Lily entendeu a lógica reversa da situação, e apenas deu de ombros como se estivesse surpresa.
— Vocês vão ficar aqui parados? — Matt perguntou, apontando para o quarto de Alice. Para provar seu ponto, deu um passo a frente e foi direto ao quarto de Alice.
Quando o garoto abriu a porta, encontrou mais alguém.
— Jesus! — Gritou, ao levar um soco no nariz.
Crystal, vestida de preto ficou brevemente preocupada com o nariz de Matt, mas vendo os outros atrás dele, se empertigou. Estava vestida inteiramente de preto, como se fosse uma ninja. Pelo visto, também tivera a mesma ideia dos outros, já que carregava uma adaga no quadril.
— O que estão fazendo aqui? — Perguntou desconfiada.
— Poderíamos dizer o mesmo de você. — Alexander rebateu. Mariah, ao seu lado, verificou o nariz do irmão para ver se nada estava quebrado, e felizmente Matt só ficara com um corte pequeno e superficial.
— Eu resolvi encontrar mais algumas pistas de que esses irmãos são paranoicos e eu posso voltar para casa. — Disse Crystal, cruzando os braços.
— Basicamente a mesma coisa. — Alex sorriu. Crystal sorriu para ele e então seu olhar caiu em Lily, logo atrás.
— Garota nova? — Crystal se dirigiu para a loira. — Meu nome é Crystal Evans. Seja bem vinda, espero que você nos dê alguma sorte nessa longa e... Árdua caminhada para o sucesso.
— Obrigada. — Lily sorriu educadamente. Ela lhe lembrava sua colega de quarto. Talvez se dessem bem. — Já que está tudo bem aqui, podemos ir? Eu nunca fui a esse bunker.
— É basicamente quase melhor que a garagem. — Matt grunhiu, olhando atravessado para Crystal, ainda indignado pelo soco. Crystal apenas deu de ombros.
— Tem uma garagem? — Lily perguntou curiosa.
— Algum dia você vai ver. — Crystal falou, em seus raros momentos em que era simpática. — Mas ela está certa, é melhor irmos, não sabemos quando Alice vai voltar, e se ela nos pegar aqui, vamos ter que lidar com um sermão.
Os outros quatro assentiram e andaram até a lareira no fundo do quarto de Alice. O quarto não era grande o bastante para não parecer extravagante ter uma lareira, mas incrivelmente, a lareira combinava naquele quarto preto e branco com decoração de pássaros.
Alexander procurou com o olhar o pequeno azulejo azul que ele desconfiava não ser azulejo, e quando pressionou o polegar, esperou um segundo até minúsculas farpas o perfurarem, levando um pouco de seu sangue. O chão começou a abrir, indo para baixo e formando escadas. Lily olhou para aquilo estupefata. Que mecanismo incrível! Logo os cinco se entreolharam e resolveram prosseguir.
Ao descer as escadas, as luzes se acenderam sozinhas graças ao upgrade que Michael havia instalado dois dias antes. Lily se sentiu em um filme. Estava cercada de armas de todos os tipos, uma parede inteira cheia de livros, e outra de computadores. O lugar era extenso, com toda uma estação de treinamento do lado direito, com alvos, sacos de boxe, e até mesmo um ringue.
— Meu deus. — Lilian murmurou incapaz de acreditar. — Isso é incrível.
Naturalmente ela rumou direto para a prateleira de livros e começou a tocar nas brochuras com a ponta dos dedos. Encontrou basicamente livros de Guerra, mas também de romance e se surpreendeu com a versão em italiano original de O Príncipe de Nicolau Maquiavel, seu livro favorito. Depois de admirar todos os livros duas vezes, virou-se e foi até os outros que estavam mexendo nas armas do outro lado enquanto Mariah observava o quadro no fim da sala, com todos os antigos Blackbirds, seus pais.
— O que esse botão faz? — Crystal perguntou. Antes que Alexander a impedisse, ela apertou, e a parede de armas deslizou para trás e se dividiu ao meio, dando lugar para um corredor. — Caramba, é um closet!
Mattheus deu o primeiro passo e entrou no corredor seguido por Crystal, Alexander e Lily. Imediatamente reconheceu algo no fim do corredor e seguiu andando. Os outros três pararam e começaram a admirar o lugar, iluminado por lâmpadas LED do chão ao teto.
— São uniformes! — Disse Crystal. — Uniformes de treinamento e de combate. Estão meio velhos e com cheiro de naftalina, mas sinta o tecido.
— Lycra. — Lily respondeu, tocando no uniforme mais próximo.
— E couro. — Alexander reconheceu. — Os sapatos são de couro, quero dizer. As roupas de combate tem tantos bolsos que se eu tivesse uma, nem precisaria de uma mochila.
— Isso é incrível. — Crystal sussurrou. — Duvido que tenha alguma do meu tamanho, mas se tivesse, eu me sentiria em um desfile.
— Olhe de novo. — Lilian retrucou, puxando um dos uniformes de combate. — Que eu consiga ver, cabe exatamente em você.
Os olhos de Crystal brilharam enquanto ela pegava o uniforme com cuidado. Não era inteiramente de lycra, e tinha reforço no peito e costas, uma espécie de colete a prova de balas integrado ao tecido. Era um preto reluzente, como se fosse um novo tipo de preto, que lhe atraía os olhos. Encima de onde estaria o coração havia um bordado delicado na cor branco pérola, um pássaro, o pássaro da sua família. Reconheceu na hora.
— Era da minha mãe. — Sorriu tristemente. — Com certeza da minha mãe ou alguém da família.
Lily se sentiu mal pela garota. Não era inteiramente insensível.
— Se for usar isso, é melhor colocar o capuz. — Mostrou para Crystal o capuz preto de malha simples. — Não vai conseguir se misturar nas sombras com o cabelo dessa cor.
Crystal riu bem-humorada. Lilian estava certa, Crystal não conseguiria se disfarçar em lugar algum com os cabelos coloridos.
— Gente, eu achei alguma coisa. — Mariah surgiu na entrada do corredor, parecendo apreensiva.
— O que foi? — Alexander largou as botas que estava admirando e olhou para a ruiva. — Foi alguma coisa sobre nossos pais?
— Mais ou menos, eu não sei direito. — Mariah deu de ombros. — Preciso de vocês aqui.
Mattheus, no final do corredor, largou o que estava mexendo e seguiu os amigos para fora do closet. Mariah estava de pé ao lado de uma das três cadeiras que estavam de frente para a parede de computadores.
— Ok, isso pode ser estranho. — Ela começou a dizer. Lentando-se na cadeira do meio, ela clicou em algumas letras do teclado na sua frente e a tela principal se acendeu. Seguidamente, todos os menores ao redor ligaram também, cada uma mostrando uma imagem.
— Que lugares são esses? — Mattheus perguntou. Logo viu que os quatro ao redor estavam calados e totalmente chocados.
— Mattheus…— Mariah colocou a mão sobre a mão do irmão e apontou para uma das telas menores. — Eu não te culpo por não lembrar de nada, Matt. Essa casa aqui, fica em Londres.
— Londres? — Mattheus repetiu, tentando entender. Focou na imagem e sua cabeça começou a doer. Reconheceu a janela no Segundo andar, e o carvalho retrocede na frente, mas eram apenas lampejos. — Eu não sei.
— Aqui foi onde moramos com papai, mamãe e Andrew. — Mariah respondeu. Mattheus olhou chocado novamente para a imagem.
— Aqui é a casa do meu avô. — Lily apontou para a tela do outro lado. — Ela foi vendida quando meu avô morreu, até hoje só me sustento com o dinheiro da venda.
A casa era um belo sobrado de madeira de dois andares, com um pátio de grama bem cortada. As imagens era em tempo real, ela sabia que era. As janelas estavam abertas, e havia gente entrando e saindo com pratinhos de comida e copos de refrigerante. Crianças corriam para lá e para cá rindo e brincando. Uma faixa cor de rosa dizia que era aniversário de alguém, provavelmente filha dos inquilinos.
— Minha casa. — Alexander mostrou a tela que filmava ao vivo a casa. — A casa da minha mãe, quero dizer. Eu não moro aí fazem muitos anos.
A casa estava com as janelas quebradas, portas escancaradas e policiais iam e voltavam no lugar, coberto com fitas amarelas de “não passe”. Ele se sentiu terrivelmente culpado. Será que Valentina ainda estava viva? Ele falara com a irmã na última noite, mas muita coisa pode acontecer em um dia. Sua mãe estaria viva? Ou já teria partido em consequência do tiro na cabeça?
Crystal olhava com terror para a tela que mostrava sua casa. Não a que morava agora, com a tia. Mas a original, que havia morado com os pais. Começou a lembrar do dia que havia encontrado o corpo de ambos ainda na suíte. Com violência a garota socou a mesa e deu as costas para as telas. Aproveitando a deixa, Mariah desligou todas.
— Desculpe Crystal. — A ruiva pediu, com o tom de voz mergulhado em culpa. — Eu não tinha ideia…
— Esqueça isso. — A mais nova balançou a cabeça, dizendo que tudo bem. Mas não estava tudo bem. — Era só isso que queria nos mostrar?
— Na verdade não. — Mariah pigarreou, querendo limpar a voz embargada. — Achei alguns arquivos escritos por aqui. Podem ser arquivos sobre esse lugar e o que mais podemos descobrir sobre Nicholas, que assassinou nossos pais.
— Vá em frente. — Alexander incentivou. Mariah se levantou da cadeira e tocou o ombro do irmão ao passar, já que Mattheus ainda parecia destruído pela imagem da casa onde havia morado por sete anos.
A ruiva seguiu andando, dessa vez até a parte de lazer do bunker, onde haviam dois sofás e uma mesa. Na mesa Mariah havia colocado a caixa que achara no canto da parede com os livros. Ela sentou na ponta do sofá e colocou a caixa no colo e começou a tirar papéis de dentro da caixa. Distribuiu um pouco para cada um e lá no final, tirou um caderno com capa de couro marrom. Aquilo lhe pareceu um pouco incomum.
— O que é isso? — Mariah pegou o caderno nas mãos.
— É um caderno com cadeado. — Lily respondeu obviamente. — Deve de ser um diário.
— De quem? — Mattheus inclinou a cabeça para ver o diário na mão da irmã.
— Isso só vamos descobrir se arrombarmos o cadeado. — Lily sugeriu. Os quatro olharam para ela considerando a ideia.
— Não seria um pouco… Quebra de privacidade? — Alexander perguntou.
— Não. — Lily negou.
— Certeza?
— Se não quiserem abrir, eu abro. — Ela colocou a mão na cintura, olhando para os outros pedindo a permissão que não precisava. Mariah respirou fundo e entregou o diário para a loira com um pouco de receio. — Obrigada. Alguém tem uma faca?
Crystal prontamente tirou uma faca no bolso da jaqueta e entregou para Lily. A loira pegou a faca com cuidado para não encostar-se à lâmina afiada e colocou a ponta no cadeado, já tentando abrir.
— Isso vai ser rápido, não é? — Matt perguntou, olhando para o relógio. — Porque realmente eu acho que a Alice não vai demorar a voltar.
— Ah, por favor. — Crystal sorriu com malícia. — Ela está com Kai. Não vai voltar tão cedo.
— Kai, o garoto de olhos azuis? — Lily perguntou enquanto mexia no cadeado.
— Não, esse é o Michael, irmão dela. Kai tem cabelo preto e olhos verdes. — Mariah respondeu.
— O que estão fazendo?
Os cinco se viraram ao mesmo tempo para ver quem havia os pego no flagra. Thaddeus, parado na base da escada, os olhava aterrorizado. Lily balançou o cadeado já aberto e colocou o diário dentro do casaco lentamente. O restante do grupo não percebeu, e ela voltou os olhos para Thaddeus fingindo apreensão por ter sido pega.
— Hum… Nós…
— Poupe-me das suas explicações, mocinho. — Thaddeus mandou um olhar severo para Alexander, que se calou, surpreso por ter sido chamado de “mocinho”. — Podem sair desse lugar agora mesmo!
— Sim senhor. — Mattheus assentiu com a cabeça de repente muito sério, e saiu andando enquanto puxava Mariah pela manga da blusa. — Não vamos mais voltar.
— Espero que não, senhor Blackmoon. — Thaddeus disse isso duramente, mas quando recitou o sobrenome do garoto pareceu um pouco mais nostálgico. — E vocês, Kronemberguer, Evans, Ludwig, fora daqui também.
Alexander e Crystal se sentiram encurralados à menção dos sobrenomes, enquanto que Lily sentiu-se mais curiosa pela situação do que já estava. Crystal e Alex se entreolharam e deram de ombros, decidindo ir embora dali antes que Thaddeus os tirassem pela orelha. Lily se demorou, ficando para trás de propósito, e assim que os dois sumiram escada acima, ela resolveu perguntar o que estava na sua cabeça desde que o velho mordomo chegou ali.
— Há quanto tempo você trabalha aqui, Thaddeus? — Ela disse, esperando que soasse normal para não fazê-lo pensar que havia outras intenções na pergunta. Na teoria, ela só estava interessada. Na prática, Lily queria saber quem era aquele homem.
— Tempo o suficiente pra dizer com plena certeza de que o que você está escondendo dentro do seu casaco é uma bomba relógio. — O velho suspirou tristemente, fazendo com que Lily ficasse boquiaberta. — Eu sei que não adianta pedir pra você entregar esse diário se você for metade parecida com seus pais, então só posso pedir para guardar segredo. Segredo principalmente e totalmente de Michael. Michael não pode saber da existência de… Certas pessoas.
— De quem você está falando?
— Apenas… Não fale nada com Michael. — Thaddeus disse, em um tom de voz que não permitia discussões.
Lily não tinha ideia de que o homem falava, mas estava prestes a descobrir.
~~☆★~~
Alice acordou com algo tocando sua perna. Tinha sono leve desde criança. Um traço do trauma que carregava. Fora em uma noite que ela perdera a mãe. Em uma única noite. Quando acordara naquele dia, estava órfã e sozinha sem ninguém para ajuda-la a carregar a dor. Michael não entenderia. Então ela se fez de forte e cresceu.
De qualquer jeito, assim que um toque na sua panturrilha a acordou, ela estremeceu. Era madrugada. Alice estendeu a mão para o lado, mas Kai não estava ali. Será que havia saído? Novamente sentiu o toque na panturrilha e dessa vez se sentou imediatamente. Não, Kai não havia saído. Estava ali, de costas, com uma mão em sua perna. Ainda era estranho ver Kai na sua cama. Geralmente ela dormia no quarto dele, não o contrário. Ela não gostava de vê-lo se apropriar de algo pessoal dela tão rápido. Culpava aquele maldito zíper dos jeans que resolvera emperrar logo naquela noite, o que fez com que os dois, Kai e Alice, apressados, se atropelarem ao quarto mais perto: o dela. Não tinha nenhuma outra desculpa para isso. Se não fosse aquele zíper, ela não se sentiria tão pequena ao lado dele, prestes a pular em um precipício que não tinha jeito de ser combatido. Ela não estava pronta pra se jogar de livre vontade, mas acordar ao lado de Kai todos os dias estava sim mexendo com sua cabeça. E isso ela não podia permitir. Não tão perto do objetivo.
— Kai? — Chamou a ruiva, sonolenta. — O que está fazendo? Que horas são?
Kai ficou tenso ao ouvir a voz dela. Dava para ver como os músculos das costas dele se retesaram, e ele começou a respirar rapidamente. Alice ficou nervosa. Por que ele estava agindo desse jeito? Com um pouco de coragem, ela afastou as cobertas e engatinhou até ele, parando a poucos centímetros. Com o pensamento de que estava tudo bem, ela o puxou gentilmente pelo braço. Kai não ofereceu resistência ao se virar, derrotado. Ele segurava algo na mão direita — ela viu tarde demais -, algo que reluzia na luz das estrelas que vinha da sacada.
Ao ver o que era, Alice foi para trás automaticamente. Viu, com absoluto choque, Kai levantar o revólver para seu rosto como se fosse automático.
— Kai…
Kai estava sério e parado, mas muito longe de estar calmo. As pupilas estavam dilatadas e ele tinha olheiras ao redor dos olhos. Alice mordeu a parte interna da bochecha, subitamente nervosa. Tentou se acalmar e soltou a respiração lentamente.
— Kai, o que você está fazendo?
O garoto não respondeu de primeira, e piscou violentamente enquanto continuava paralisado com a arma apontada para a cabeça de Alice. Ele mantinha os olhos arregalados como se estivesse com medo daquele momento chegar. Assustado com o que tinha que fazer.
— Você é a herdeira de Dmitri Nikova, não é?
— Quem?
— Dmitri Nikova, meu tio. — Kai explicou rapidamente para Alice, que continuou confusa.
— Desculpa, mas não conheço. — Alice tentou dizer isso e continuar calma, mas um pouco de sarcasmo foi destilado. Talvez por causa da ironia da situação, por Kai estar com uma arma apontada para sua cabeça enquanto lhe perguntava sobre uma pessoa que ela nunca havia ouvido antes. — Kai, que brincadeira é essa? Isso não tem graça.
— Eu… Não posso. Eu não sou quem você acha que eu sou. Eu vim aqui pra matar você.
Alice teve muitas reações em milissegundos. Perguntou-se se havia caído em alguma pegadinha ou se alguém estava gravando um filme escondido. Perguntou-se se estava no meio de um livro de romance brega ou se estava tendo um pesadelo. Mas nada conseguia superar a sensação de que Kai iria matá-la ali mesmo. Queria lutar, fazer algo. Mas estar ali sendo ameaçada por Kai, a pessoa que ela estava começando a gostar de um jeito especial, era estranho. Completamente errado.
— Como assim? Kai, você está começando a me assustar. Larga isso. Vamos conversar normalmente, eu fiz algo errado?
— Eu vim pra cá apenas para matar você. Desculpe Alice, mas eu tenho que fazer isso.
Alice soltou um suspiro indignado. Não seria mocinha de contos de fadas nenhum. Não era uma donzela em perigo. Era uma Nikova, e não se curvaria.
— Puxe o gatilho. — Pressionou. Ergueu a mão e puxou o braço de Kai para perto, deixando o cano da arma encostado na testa. — Atire em mim, eu quero ver. Não exatamente ver, mas vá em frente. Se estiver aqui apenas por isso, eu prefiro que você atire na minha cabeça do que fazer a crueldade de sair por essa porta depois de tudo o que passamos.
— Você não sabe de nada. — Kai cuspiu, rude. Alice ergueu as sobrancelhas, mas não se deixou abater.
— Então me explique. Se ainda quiser dar um tiro na minha cabeça, eu mereço ao menos saber por quê.
Kai olhou no fundo daqueles olhos verdes que ele associava a outra pessoa. Dmitri Nikova, o pai que ele considerava. Era irônico o pai dela ser o homem que praticamente havia criado ele. E mais irônico ainda o fato que Kai não sabia: Nicholas Peters, de certa forma, havia criado a sobrinha.
Kai continuou pesando as consequências e viu que Alice tinha razão. Ela não merecia morrer sem saber ao menos o motivo.
— Dmitri Nikova é irmão da minha mãe de criação. Ele me criou desde os nove anos, quando minha mãe morreu no parto da minha irmã, já que meu pai é totalmente incapaz de amar qualquer coisa além de si mesmo. Meu pai é Nicholas Peters, e ele me mandou aqui com o intuito de assassinar o herdeiro do meu tio, pra que assim eu fique com tudo. Eu cheguei aqui sem saber quem era a pessoa. Sabia apenas que ela estava aqui junto com meus primos, que são você e Michael. Logo no começo eu te achei parecida com alguém. Isso ficou óbvio pra mim no dia do ataque ao shopping, mas eu tentei negar, mesmo sendo impossível. Eu preciso fazer isso, Alice. É a minha vida em jogo.
Assim que terminou de falar, os dois ficaram em silêncio, Kai esperando uma resposta e Alice formulando uma. Já sabia de grande parte do que ele estava contando, e tentava encaixar a novidade sobre Dmitri Nikova e dela ser filha dele.
— Você está certo. — Alice respondeu por fim. — Você fez uma promessa ao seu pai, e não é apenas sua vida em jogo aqui, mas também sua família e futuro. Eu não estou pedindo pra você me matar, e isso não é nem um pouco romântico, mas… Vá em frente. Faça o que você veio fazer.
— Você não está surpresa? — Kai perguntou confuso.
— Bem, eu sabia. — Alice confessou, com um sorriso de canto. — Nicholas Peters, irmão mais velho da mamãe, que foi casado com Coraline Blackwell e deu um lindo sobrinho à Jennie Peters. Quando você entrou por aquela porta dizendo que se chamava Kai Blackwell… Eu me lembrei de algo que eu li em um arquivo no bunker sobre a minha família. Liguei os pontos mais rápido do que o meu carro.
— Você sabia e me deixou pensar que estava mentindo e sendo o mais sujo possível gostando de você?
— Eu nunca pensei que isso fosse importante, Kai. Você é você, seu pai é seu pai. Não dá pra mudar o DNA, mas pode mudar quem você quer ser. — Ela retrucou. — E você obviamente não é seu pai. Então nunca se sinta mal por mentir sendo que não muda quem você é e o que sente.
A ruiva não sabia se estava dizendo isso para Kai ou para si mesma, apenas continuava dizendo o que parecia bonito ou encorajador. Se fosse confiar no coração, ela sabia que nada acabaria bem porque provavelmente acabaria chorando ou contando a verdade a ele.
— Kai, eu não tenho ideia de como foi sua infância ou sua adolescência com o seu pai, mas ela deve ter sido muito horrível se você considerou me matar. Eu não vou partir com raiva de você, só faça o que tem que fazer. — Alice colocou a mão sobre o pulso dele novamente, dessa vez apenas para tocá-lo. — Mas faça rápido, e fuja mais rápido ainda.
Kai olhou para ela de um jeito diferente. Não com afeto ou carinho, como sempre olhara. Mas como se de repente algo fosse ligado na sua mente. Uma verdade que estava ali o tempo todo. Alice era um dado de múltiplas facetas. Ele finalmente tinha alcançado seu interior. Aquela parte que apenas Michael conhecia: a parte que dizia que Alice se sacrificaria por ele. Não porque gostava dele, longe disso, mas porque ela não bastava. Por que atrás de toda a camada de patricinha mimada, ela era real. E ela se sacrificaria por ele. Viu nos olhos dela o fogo que faltava no seu: o total desapego. Ela queria morrer. Ela não queria viver, e ele se encontrou procurando desesperadamente ajuda-la. Só para aquela centelha de gelo, de morte, no interior daquela garota mudasse.
Mas ele queria ajuda-la como, exatamente? Na morte ou em encontrar um propósito para morrer?
Quando Kai atirou, Alice fechou os olhos. Em seu intimo, em um lugar que ela nunca havia tocado, ela soube: já era tarde demais. Ela já não estava na borda do precipício. Ela havia pulado, mesmo sabendo o destino que lhe aguardaria no final.
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